A Substituta

Autora: Érika

"Saint Seiya" é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.

Capítulo 5 - Parte 4



Mime andava pelo palácio Guaruhara, ainda que o termo mais correto fosse vagar, já que ele estava claramente sem rumo. Em seus ouvidos tão somente ressoavam as vozes das pessoas que haviam partido fazia muito tempo: seus verdadeiros pais, os quais ele perdera ainda bebê, logo, não possuía nenhuma recordação deles. Mas então isso não importava porque o guerreiro-deus de Benetonasyu podia distinguir seus vultos em meio ao torvelinho de sua mente fatigada. E mesmo não vendo suas feições, eles achavam-se presentes, eram reais, pelo menos no mundo imaginário de Mime. Além disso, lembrava-se de retratos onde ambos resplandeciam, dois anjos que a vida lhe roubara demasiado cedo. Todavia, como conseguira tais fotos? Quem poderia tê-las dado a ele? Se era pequeníssimo quando eles partiram... e não havia ninguém...

Suas memórias pareceram-lhe revoltas, até que, inopinadamente, escutou um terceiro murmúrio, entretanto, ele se negava a ouvir aquela pessoa, especialmente por ser quem era. Porém, percebia seu rosto entre as névoas que abundavam em sua cabeça, embora seu entendimento não pudesse captar o que ele dizia, mesmo que as suas palavras denotassem uma nitidez pertubadora.

Nos instantes seguintes, essa imagem aterradora sobrepujou-se sobre as figuras de seus pais, finalmente diluindo-as. Rapidamente, aquele ser impressionante agigantou, aumentando gradativamente os anseios que comprimiam o colo de Mime, tornando sua respiração incômoda e vagarosa. Seu âmago lhe dizia insistentemente que aquela era sua verdade e precisava reconhecer, pois o espectro que divisava nas sombras fora seu carrasco e sua vítima, o único pai que conhecera, o qual matara em um acesso de fúria que seria impossível controlar. Mesmo que quisesse.

E ele falava agora em altos brados, como se sua intenção fosse que o universo inteiro captasse suas palavras, seu tom belicoso infundindo um terror intolerável em Benetonasyu. Ele viu a si mesmo muito mesquinho, desprezível em sua miudeza, o dedo acusador de seu impiedoso pai adotivo quase resvalava na sua face; sabia que tudo era um desvario, provindo de seu tormento interno por ter assassinado alguém que deveria ter estimado acima de todas as coisas.

- Mas eu tive que matá-lo. Precisei fazê-lo porque...ele era ruim - dizia isto para si próprio como uma criancinha que sentisse medo do escuro. E repetia incessantemente: - Mau, mau, mau. Ele foi muito mau. De todas as maneiras, um pressentimento desassossega-me extremamente: acho que ele me amava. Por muito que me humilhasse...sua forma de proceder austera confundia-me o espírito, por isso não discerni seu apreço por mim. Por este motivo eu sempre o amaldiçoei. Porque inúmeras vezes, de qualquer modo, ele estracinhou meu coração. Eu não consegui evitar. Ter-me-ia sido impraticável...

Ele fez uma pausa, abrindo os olhos até o limite, sem realmente ver. Logo após, reagiu, começou a esmurrar a parede, enquanto gritava até a exaustão:

- Por isso eu o matei! Matei-o! Matei-o! Matei-o! Matei-o!

Depois, sem fôlego, ele se calou como se esperasse alguma contestação. Igualmente, sua única resposta foi o eco. E um frio indefectível dominou o âmbito. A impressão foi tão violenta que ele sentiu-se presa de um sofrimento próximo ao físico, uma dor lancinante emanava de todos os poros de seu corpo.

Lentamente, deixou-se tombar ao piso, o chão gelado fazendo-o ranger os dentes automaticamente.

Outra vez, o vozeirão de seu pai chamava-o, o morto continuava falando ininterruptamente. Entrementes, permanecia sem entendê-lo, se bem que o simples fato de escutá-lo já o inquietava o suficiente, obrigando-o a cobrir seus ouvidos. Reação inútil, pela simples razão de que não tinha o poder de expulsar a voz de seu interior, onde ela se alojara permanentemente.

Nesta mesma hora, Hilda e Frey caminhavam por aquele local, em direção aos portões do castelo. Sendo Frey cerca de vinte e cinco centímetros mais alto que Hilda e estando à frente dela, foi ele o primeiro a ver Mime estirado no solo. Ele afastou-se um pouco para o lado de forma que a governante de Asgard também pudesse vê-lo.

A moça de suaves olhos azuis permaneceu estática por alguns segundos, após os quais, mantendo um estudado autocontrole, aproximou-se do seu guardião. Ajoelhou-se perante o guerreiro. Estando bem perto dele, aproveitou o ensejo para roçar sua fronte, enquanto tentava compreender o que ele dizia.

Reparando na presença dela, Mime olhou para cima, mas não fitava sua semideusa. Evidentemente ele tinha noção de que ela se encontrava ali, mesmo assim, seus sussurros eram fortuitos, como se Hilda, na verdade, estivesse a uma grande distância e ele não pudesse alcançar a vê-la:

- Por que, Hilda, trouxe-me de volta a este país, tirando-me o direito de deparar com a morte? Eu não quero...Deixe-me ir embora... Não...

A asgardiana não sabia o que responder, sua língua colou-se-lhe na boca e seu semblante adquiriu um aspecto sombrio.

Enquanto isso, Frey discretamente, conservou-se afastado. Além disso, como Mime falava baixo, não pôde entendê-lo.

Por fim, após alguns momentos de silêncio, Hilda voltou a ouvir o guerreiro-deus, desta vez, chamando por uma pessoa:

- Papai...

A expressão de Hilda serenou-se e ela aconchegou Mime em seu regaço, balouçando-o igual faria com um menino. E ironicamente, para ela, afigurou-se-lhe que os poucos bebês que vira em sua vida não apresentavam a vulnerabilidade daquele rapaz de vinte anos.

"Mas as pessoas são fracas e quem mais débil que um assassino?", Hilda percebia a crueldade de seus pensamentos; contudo, não logrou evitá-los.

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Aproximadamente vinte minutos antes, voltara a nevar em Asgard. E justamente neste instante, Fenrir caminhava vagarosamente, quase ao acaso. Mas em seu íntimo mantinha uma vaga noção da direção a seguir, mesmo que sua mente estivesse povoada de pensamentos desencontrados. Toda a sua vida, até aquele dia, perpassava por seu cérebro, todavia, tão desordenadamente que ele nutria uma curiosa sensação de estar sonhando, a despeito de achar-se desperto. Contudo, a impressão parecera-lhe real, logo, ele realmente começava a experimentar uma certa sonolência, seus passos tornando-se ainda mais morosos.

Finalmente, Fenrir estacou. Entrecerrou seus olhos e permaneceu praticamente imóvel, enquanto a neve caía sobre ele implacavelmente. No entanto, Fenrir não se moveu sequer um centímetro. Estava em transe, alheio a qualquer fator externo. Naquele momento, tinha diante de si somente suas reminiscências.

Em sua cabeça, desenhou-se-lhe a imagem de um menino, cuja aparência assemelhava-se a dele, paradoxalmente, o guerreiro-deus não via a si mesmo naquela criança, mas deveria, pois aquelas eram as mesmas feições que ele tivera na infância. Porém, havia algo estranho no olhar do infante, uma discrepância na expressão facial: o garoto demonstrava, em seus ares infantis, uma mescla de acrimônia e selvageria. Perguntou-se como uma criança poderia exprimir sentimentos tão díspares à sua pouca idade.

Repentinamente, Fenrir percebeu a presença de outras pessoas; eram os pais do pequeno, obviamente. Alguma coisa agitou-se no peito do guerreiro Epsylon ao ver aqueles dois seres, sobretudo porque não possuíam rosto. Não obstante, o rapaz reconheceu neles as figuras paterna e materna, seu coração obstinado na idéia de que o homem e a mulher sem face eram seus pais.

Quis chamá-los, entretanto, não conseguia pronunciar nenhuma palavra, como se súbita e inexplicavelmente desconhecesse seu idioma. Esquecera-se que a sua língua era universal e todos os humanos do mundo a conheciam. Somente ele não se recordava dela, sentindo-se transportado a outros tempos, quando ainda existiam infindáveis idiomas e dialetos na Terra. Sem embargo, isto ocorrera em outras eras, hoje só se falava o grego, por isso, ele não compreendia o que o impedia de encontrar sua própria voz, incapaz de articular uma frase. Então, quedou-se ali, olhando aflito, enquanto tentava se lembrar o que precisava dizer e, principalmente, como fazê-lo.

Outrossim, logo outros seres surgiram diante dele; em seguida, estavam numa festa, e Fenrir notou que os membros presentes na festividade pertenciam à mais alta estirpe de Asgard. Também reparou que adulavam seus pais e foi possuído de uma náusea profunda, o que o obrigou a morder os próprios lábios para não vomitar perante semelhante hipocrisia, porque rememorava nitidamente o dia em que seus pais morreram e, depois, aquela gente que antes proclamava sua amizade ardorosamente, prontamente os olvidara. E aquelas mesmíssimas pessoas deixaram a ele, Fenrir, absolutamente sozinho, insensíveis à solidão do menino.

De repente, ao pensar nisto, o rapaz divisou novamente o reflexo daquela criança que se parecia com ele. Evidentemente porque era a sua imagem que enxergava à sua frente. E ao constatar tal fato, o guerreiro viu-se vítima de uma forte comoção. Sentiu seu peito doer, embora sua pena fosse puramente emocional.

Tornou a morder os lábios, desta vez, com mais vigor, quando finalmente sentiu o gosto acre do sangue na boca. Sem se importar, voltou sua atenção à pequena imagem de si mesmo e conseguiu entender porque o rosto do garoto simbolizava extrema amargura, a mesma que ele sentira após a perda dos pais, completamente desamparado. Mas naquele tempo, com toda a tristeza que uma criança poderia sentir, Epsylon sabia que não havia em seu semblante tamanha mortificação entremeada com uma fúria abrasadora. Desta forma, já conhecia a verdade: o menino inexistia, apenas o que sua face demonstrava era real. Os sentimentos de amargor e raiva deixavam claro que ele realmente era o Fenrir, mas o adulto, posto que a criança só aparecera para patentear-lhe todo o ódio e desespero que ele procurara abortar inutilmente. Mesmo que preservasse um modo de vida selvagem, camuflando suas emoções mais arraigadas.

Ao compreender, enfim, tais fatos, Fenrir observou o menininho com infinita comiseração, ainda que soubesse que, na realidade, estava imbuído de uma auto-piedade. Isto o fez sorrir sardonicamente, já que rechaçava completamente todo e qualquer indivíduo que se compadecia de si mesmo. Apesar disso, achou que não havia ninguém mais digno de lástima do que o sujeito que se escondia atrás de uma aparente rebeldia para ocultar a miséria que cultivava no interior, como ele fizera anteriormente.

Por conseguinte, afastou os devaneios da mente e prosseguiu na sua caminhada que, desta vez, pareceu-lhe mais dificultosa, visto que agora descobrira seu verdadeiro "eu". E quisera não tê-lo descoberto jamais.