Capitulo Catorze
O tempo estava esfriando lentamente. Apesar do último mês ter se apresentado estranhamente quente, este início de novembro estava particularmente frio. A manhã de domingo estava ensolarada e fresca o suficiente a ponto de Draco Malfoy retirar de seu malão uma blusa de mangas compridas.
Havia acordado cedo, se arrumado com tranquilidade e descido ao Salão Principal para se juntar aos poucos colegas de casa que estavam de pé para o café da manhã. Escolheu um lugar ao lado de Blaise, e observando atentamente suas opções selecionou aqueles que tinham o melhor balanceamento nutritivo como era de costume.
-Finalmente voltou a comer as coisas de sempre. - comentou Blaise com um ar levemente desinteressado, mordendo uma vermelha maçã.
-Você costuma notar muito as coisas, Zabini. - desconversou Draco levando uma torrada à boca.
O colega encolheu os ombros e pegou o Profeta Diário que até então estava jogado ao seu lado.
-Onde está Pansy? - quis saber. A amiga costumava acordar cedo, principalmente para se certificar que sentaria ao lado de Blaise e procurar trocar conversas bobas, somente para arrancar qualquer resposta que fosse do garoto.
-Não faço ideia, Draco. - suspirou o alto rapaz sem tirar os olhos do papel envelhecido do jornal. - E pare de mencionar Pansy. Até pensei que vocês tinham voltado ou algo do tipo, pelo jeito que estavam na festa de Haloween.
Com um sorriso desdenhoso no rosto, Draco puxou bruscamente o jornal das mãos do amigo, forçando-o a encará-lo.
-Sinceramente, Blaise, você é mais esperto do que isso. - disse enfim, também abrindo uma página aleatório do Profeta que dizia como colher melhor o sumo de uma planta medicinal qualquer para dar para crianças doentes, uma seção das bruxas-donas-de-casa. Draco franziu o cenho, embolou o jornal e jogou-o por trás dos ombros. - Você sabe que eu nunca tive nada com Pansy. Eu apenas conheço ela desde muito pequeno e só.
-Sério? - bufou Blaise com um ar entediado. - Como se isso fosse fazer diferença na minha vida.
-Logo você, alguém que se acha tão observador, não consegue perceber o que está bem no meio da sua cara.
O garoto fitou Draco com uma expressão de leve curiosidade, fazendo-o soltar uma alta gargalhada, coisa que fez a antiga expressão de Blaise se transformar rapidamente em um de raiva contida.
-Não vejo o que não me interessa. - rebateu enquanto mordia mais um pedaço da maçã lustrosa. - E você? Para onde vai tão cedo?
-Biblioteca, continuar o trabalho de Poções.
-Com a Granger, você quer dizer.
-Sim, Zabini, com a Granger. - a acidez escorreu pelos cantos da boca de Malfoy, extremamente enraivado de ter que se explicar para alguém. - E você deveria fazer o mesmo. Com a Pansy.
E dizendo isso, terminou seu café da manhã em silêncio, pegou sua mochila e seguiu para a biblioteca.
DMHGDMHG
Hermione conferiu o relógio de pulso de pulseira azul que seus pais haviam lhe dado de aniversário pela milésima vez. 8h54 e Malfoy ainda não havia aparecido.
Claro que eles haviam marcado às nove da manhã, mas normalmente as pessoas chegavam alguns minutos mais cedo por educação e cortesia...
Não que ele seja de algum modo cortês comigo. Pensou um pouco desanimada. Olhou novamente para o pulso. 8h57.
Por que os minutos precisavam se arrastar tanto? E por que eu tenho que olhar o relógio o tempo todo? Não é como se fosse um encontro ou nada do tipo.
Mas lá estava ela, agindo como se o fosse. Até havia se aprontado cedo, tomado banho demorado, comido no salão às sete horas, chegado à biblioteca às 7h45, seu estômago se revirando como se estivesse tomado por borboletas mutantes e do mal.
Aproveitara o tempo para selecionar os melhores livros de poções que pudia, reler o exercício e refazer os apontamentos que havia feito - em conjunto com Malfoy na sexta-feira. Agora lá estava ela, tomada de ansiedade, observando a porta da biblioteca toda vez que ela rangia quando um ou outro estudante adentrava. Suspirou, tentando se acalmar. Ele viria, afinal havia sido ele que havia marcado! Na biblioteca, às nove da manhã! Ou ela havia se enganado e seria às nove da noite? Impossível! Ou seria possível!
Enquanto ela travava uma batalha interna, começou a suar, obrigando-a a tirar o casaco leve que havia escolhido e revelando uma blusa de botões azul anil, que combinava ligeiramente com a pulseira de seu relógio novo.
A porta rangeu mais uma vez, ergueu a cabeça automaticamente, se arrependendo quase imediatamente da reação involuntária. Era ele. Era Draco. E parou alguns instantes da porta e olhou em volta como se a procurasse. Ao avista-la sorriu e Hermione pensou que isso não era nem um pouco justo.
Ele vestica uma cardigan cinza e por baixo uma camisa social que apenas se revelava pela gola. Impecável, como sempre. Ela quis enterra a cabeça em algum lugar, pois provavelmente estaria lentamente corando e não queria que ele a visse tão desprotegida.
-Estava aqui a muito tempo? - ele perguntou enquanto puxava uma cadeira e se sentava do lado contrário ao dela. - Já pegou todos esses livros.
-Cheguei a pouco. - mentiu ela, procurando não olhá-lo nos olhos como se fosse algo muito perigoso. - Apenas sabia onde procurar.
Malfoy escolheu um livro e puxou-o para si, abrindo-o na página correta.
-Deixe-me lembrar... - falou o garoto sem tirar os olhos do livros. - Na última aula conseguimos identificar um caso de infecção. Mas se me recordo bem, não conseguimos descobrir qual era o tipo de infecção.
Enfim ele a olhou nos olhos. Ele mantinha uma expressão inabalada, o que realmente incomodou Hermione. Eles não haviam feito nenhum progresso na aula porque estavam muito ocupados segurando a mão um do outro! Ela corou ligeiramente, mas logo clareou a garganta.
-Acredito que seja essa doença aqui, de acordo com a descrição que Slughorn nos deu. - falou ela, dessa vez puxando um outro livro, abrindo-o na página desejada e empurrando-o para o garoto que o recebeu com um semblante sério.
-Sim! Pode ser isso mesmo. - concordou ele, passando os olhos rapidamente pelo texto. - Isso se encaixa bem em quase todos os sintomas. Mas aqui diz que essa doença geralmente apresenta bolhas pelas costas e barriga. No nosso caso o paciente não apresenta.
-Os sintomas podem estar escondidos. Nem sempre uma doença manifesta todos os sintomas num indivíduo.
Ele fitou por alguns instantes e voltou a ler o texto logo em seguida, franzindo o cenho e murmurando coisas para si mesmo. Hermione desviou o olhar. Doía olhar.
HGMDHGMD
-Acho que por hoje está bom. - comentou Draco, puxando o pulso de Hermione para si e verificando o horário. - Já até passamos do horário do almoço...
Hermione Granger aquiesceu, sem nada pronunciar. Apenas começou a recolher os livros de cima da mesa. O garoto apressou-se em ajudá-la a repor os livros na estante.
Ela estava quieta, bem diferente de quando estavam trabalhando. Draco sentiu um aperto no peito, um nó na garganta e frio no estômago. Ela estava ali de costas para ele, com um ar meio inconsolável, cabeça baixa. Ela se esticou para colocar o último livro na prateleira mais alta, a ponta de seus dedos lutando para alcançar e seus cabelos escorregando pelos ombros, revelando-lhe o pescoço até então ocultado pelos cabelos cheios e pesados.
-Malfoy, o que você está fazendo...? - sussurrou a garota com uma voz alarmada, ofegante.
Draco inconscientemente havia pressionado o corpo da garota contra a estante, e tocava-lhe os ombros e aspirava o perfume dos seus cabelos. Ela estava visivelmente arrepiada, e seus ombros subiam e desciam pesadamente.
-Aqui não é lugar... - continuou a garota, ainda sussurrando.
-Se você quiser que eu pare, diga. Eu vou parar - replicou rapidamente. Ele estava embreagado. Seus braços deslizaram e abraçaram por trás, apertando-a contra si, seu corpo implorando por mais contato.
Hermione baixou a cabeça e suspirou profundamente. Ele a virou, seus olhos cortando os dela, admirando-a. Aquela garota era realmente linda, e ele já não podia mais lutar contra a atração que sentia por ela. Beijou-a sem hesitar, puxando-a pela nuca, segurando sua cintura.
Os lábios de Hermione eram quentes, como conseguia se lembrar e Draco se perguntou porque havia passado tanto tempo sem experimentá-los novamente. Sugou, lambeu, bebeu. Ele escorregou as mãos pelos lados sinuosos da garota, ela não pareceu resistir. Pressionou levemente um dos seios da garota, desejando ainda mais. Então ela se separou de seus lábios e o empurrou com gentileza.
Surpreso, mas obediente, Draco deu um passo para trás e observou-a. Ela estava muito vermelha, e parecia não querer encará-lo. Ele estendeu a mão e puxou-a pelo queixo, erguendo-o. Talvez ele quisesse dizer alguma coisa, ou sorrir, ou beijá-la novamente, mas não o fez e lentamente, Hermione escorregou para fora de seu alcance, marchando para a mesa onde seus materiais estavam espalhados. Ele a seguiu, alguns passos atrás.
-Então até amanhã, na aula de Poções. - disse a garota ajeitando a pesada mochila nas costas, após ter guardado todos as suas coisas.
-Certo, até amanhã. - respondeu o garoto, a fitando.
Eles se encararam por alguns instantes, antes que alguém abrisse a porta rangedora da biblioteca os puxando de volta para a realidade.
