Interlúdio: Um Pouco de Conhecimento
17 de Outubro, 1993
Caro Sr. Potter:
Espero que você perdoe os meios formais de saudação no início desta carta, e o encanto que coloquei neste pergaminho para tornar minha caligrafia desconhecida. Eu te conheço, eu sei muito sobre você, e parece hipócrita me esconder atrás da máscara que eu criei. No entanto, sinto que não tenho escolha. Se você soubesse quem eu sou, você me questionaria, desconfiaria de meus motivos para me comunicar com você e, acima de tudo, demandaria respostas nas quais você não acreditaria. Por favor, seja paciente comigo, leia o que eu escrevo aqui e faça o seu melhor para abrir sua mente e admitir que a possibilidade da verdade está aqui, se não a realidade.
Estou sob pressão enquanto escrevo isto. Há muitos que gostariam de nada mais do que tirar a escolha que tenho a intenção de lhe dar—
Não, essas são as palavras erradas. A escolha sempre foi sua e não sou eu quem vai dá-la a você. Eu sou quem, se tudo correr bem e você conceder a possibilidade da verdade a essas palavras, permitirá que você saiba que ela existe.
Você deve ter lido a história da Primeira Guerra com o Lord das Trevas. Você deve ter lido outras histórias. Eu sei que você é surpreendentemente bem versado nos antigos costumes puro-sangue, e que você usou esse conhecimento no passado para dançar com puros-sangues e vence-los no próprio território. No entanto, peço-lhe que reconsidere um fato muito simples dessa história:
Por que o título usado sempre foi "Lord?" (Ou "Lady", como no caso da Lady da Luz Calypso McGonagall, mas devo admitir com tristeza que as bruxas muitas vezes são mais sensatas para evitar se envolverem em jogos de conquista e poder, preferindo, em vez disso, desenvolver a mente interior e melhorar seu próprio controle de si mesmas).
O título é importante, Sr. Potter. Ele define uma reivindicação, bem como anuncia o que o bruxo é para todo o mundo. Os Puros-Sangues e os Nascidos-Trouxas - não é o nome com o qual eu nasci usando para eles, mas sei que é o que você prefere - uma vez que eles se tornam parte do mundo bruxo, concedem um certo reconhecimento ao usá-lo. Eles reconhecem que o bruxo que o possui, possui poder - poder sobre eles. Magia, Sr. Potter. Ela canta mais docemente do que você pode imaginar, já que você cresceu com muito do seu próprio poder confinado, um Lord em nosso mundo mostrado como uma figura para reverenciar, e outro identificado como alvo de sua inimizade.
Lordes da Trevas tendem a conquistar. Lordes da Luz tendem a governar. Ambos atraem seguidores para seus lados com a pura sedução de estar perto de tanta magia. E se a pessoa tem que conceder-lhes o título de Lord e às vezes obedecer a seus comandos, e daí? Pelo menos esse imenso poder não está voltado contra ela. E para muitos servos dos Lordes, isso é mais do que medo desse poder, ou mesmo ideais compartilhados. Nós nascemos para estar perto da magia, aqueles de nós que a carregam no sangue. Ela nos fortalece, nos revitaliza, limpa as nossas almas, produz um renascimento em nossas percepções de nós próprios, muda o nosso relacionamento com o mundo que nos rodeia. Imagine ela fluindo sobre você como ondas de um oceano que você pode respirar e que, ao mesmo tempo, é uma música leve e doce e com aroma de rosas (ou qualquer flor que você preferir). É inebriante. Não é impossível resistir, especialmente quando você está consciente disso, mas é muito convincente, muito envolvente.
Agora imagine, Sr. Potter, o que aconteceria se um bruxo com tal poder viesse ao nosso mundo - e não reivindicasse o título de Lord. Imagine que, em vez disso, ele tenha olhado para as compulsões que os Lordes costumam usar e as desdenhado. Imagine que ele trabalhasse para exercer seu poder com tanta finesse e tanta delicadeza que ele não prejudicaria as mentes ao seu redor. Imagine que ele oferecesse possibilidades para aqueles que o rodeavam, caminhos para o futuro e esperanças de que eles nunca teriam conseguido sem a sua magia para apoiá-los. Imagine que ele estava consciente, a cada momento, do que seu poder poderia fazer e de como poderia ser usado, medindo as esperanças daqueles que o procuravam e rejeitando os que ele considerava errados, em vez de obedecer sem pensar a todo desejo de um bruxo. Imagine tal poder inclinado a defender, proteger e servir.
Muitos Lordes enlouqueceram tentando ser uma criatura assim e acabaram usando o título mais simples. Outros uivaram de medo e negaram que tal possibilidade existisse, porque isso significaria que perderiam seguidores, ou teriam que encarar a sua própria tendência de usar a compulsão impensadamente. E na prática, Sr. Potter, tem havido pouca diferença entre os Lordes da Luz e das Trevas. Ambos podiam usar a magia dos dois lados, compulsão ou livre arbítrio. Eram as alianças que declaravam que faziam a diferença, isso e a força de sua magia.
Eu vou te dizer agora, Sr. Potter, que eu acho que você tem uma boa possibilidade de se tornar tal bruxo, sem nome agora, mas comprometido tanto com a sua própria liberdade quanto com a dos outros. Estou tentando mostrar aos outros que esse também pode ser o seu caminho. Mas posso apenas persuadir e isso levará muito tempo. Eu não vou forçar. Eu não vou obrigar. Eu usei magia negra sem hesitar no passado, mas não por isso. O propósito é muito alto, o caminho é muito brilhante.
Duas coisas que você deve saber:
Primeiro, Dumbledore teme o que você pode se tornar. Ele teme o que significaria se um mero garoto de treze anos pudesse fazer coisas maiores e mais morais do que ele, porque ele teme examinar com muita atenção as consequências de suas próprias decisões. É um medo que todos os Lordes da Luz tiveram.
Segundo, não confie em Sirius Black.
Starborn.
