Capítulo 14

Durante todo o tempo em que Keith esteve desaparecido e que a equipe de Voltron passou procurando pelo paladino vermelho, Lance sempre havia imaginado que o retorno do amigo seria marcado por festas, comemorações e uma sensação de inesquecível e indescritível tranquilidade e felicidade.

Ele estava errado.

Claro, todos estavam felizes por Keith estar de volta ao Castelo dos Leões. Estavam felizes por poderem formar Voltron novamente após tanto tempo e, acima de tudo, por Keith estar vivo. No entanto, era difícil sentir vontade de comemorar ao ver o olhar desolado no rosto do paladino vermelho sempre que se deparava com o seu próprio reflexo. Era difícil sentir-se tranquilo ao perceber as olhadelas frias e assustadas que Allura destinava ao antigo humano transformado em Galra – porque Lance sempre percebia quando a princesa estava olhando para Keith, cheia de tristeza, desconfiança e temor. Era difícil sentir-se sortudo por ter o amigo de volta e manter o ânimo quando o que parecia ser uma nuvem de insegurança e sofrimento formara-se ao redor do Castelo, pairando sobre as cabeças de todos ali. Era difícil sorrir quando, noite após noite, podia-se escutar Keith acordar gritando de algum pesadelo e ouvir as passadas fortes de Shiro, o líder correndo pelo corredor até o quarto do rapaz para acalmá-lo. Era difícil sentir-se vitorioso quando, na verdade, tudo o que sentia ao ver Keith – a pele púrpura e peluda marcada por cicatrizes da cabeça aos pés, os olhos amarelos sempre assombrados, as orelhas largas murchas e caídas, o semblante ansioso e os músculos constantemente, e dolorosamente, contraídos e tensos – era derrota.

Keith era Galra. O próprio paladino vermelho dissera a todos, entre lágrimas de horror e desespero, enquanto encarava com repúdio as próprias mãos e era suportado por Shiro, e a informação fizera o coração de Lance doer um pouquinho.

Verdade seja dita, ele queria que Keith estivesse enganado. Queria que os druidas tivessem mentido para ele, enchido-lhe a cabeça de besteiras e de ideias falsas e assustadoras. Queria que aquilo fosse mentira, e nada mais que uma mentira. E queria, queria muito, que aquela transformação pudesse ser desfeita e que Keith retornasse à forma humana.

Entretanto, querer não era poder. E quando os resultados das análises feitas por Coran ficaram prontos – dias após os dois paladinos terem sido resgatados –, o fato foi realmente confirmado.

Keith era Galra.

O seu DNA não é cem porcento humano, Keith. Há mesmo sangue Galra circulando em suas veias. E eu sinto reafirmar isso, mas é exatamente como você disse. A transformação, pelo que tudo indica, não tem volta, asseverou o Conselheiro, enrolando vagarosamente a pontinha do bigode alaranjado nos dedos enluvados, e aquela confirmação, embora dita com naturalidade e calma, soou como a pior das condenações. Foi horrível a forma como a postura de Allura se retesou, como Pidge virou o rosto para o lado, não querendo que ninguém visse como seu lábio inferior tremia e como os seus olhos haviam se enchido de lágrimas, como Hunk arregalou os olhos e cobriu a boca com as mãos num nítido estado de choque, e como Shiro colocou uma mão sobre o ombro de Keith e o apertou, sussurrando ao rapaz palavras que Lance não era capaz de ouvir.

E foi horrível a forma como Keith apenas assentiu com a cabeça, os lábios colados um no outro, a respiração presa e o olhar distante e fixo no chão, e, após repelir o toque reconfortante de Shiro, murmurou numa voz baixa: vou para o meu quarto.

Com o passar dos dias, o peso daquela descoberta em nada diminuiu. Keith se mantinha distante do restante da equipe, sempre que possível trancado no próprio quarto, não se unindo aos demais nem mesmo durante as refeições. Shiro estava mais calado do que nunca, Pidge ficara mais impaciente e arisca do que Lance era sequer capaz de se lembrar, o apetite de Hunk diminuíra de forma preocupante, e Allura e Coran eram sempre vistos cochichando rispidamente pelos cantos, como se trocando palavras que não deveriam cair nos ouvidos dos paladinos.

Lance já estava até mesmo achando que aquele clima pesado e horrível que se instalara ali jamais fosse ter fim quando, num determinado dia, Allura convocou todos para uma reunião extraordinária.

Ele esperava ouvir detalhes sobre uma possível próxima missão – talvez uma civilização buscando ajuda de Voltron, talvez um planeta que detinha recursos importantes para a tripulação do Castelo, ou talvez o prospecto de formação de alguma aliança contra o império de Zarkon –, mas descartou a ideia assim que chegou à sala de reuniões. Geralmente, ele era o último a chegar às reuniões, sempre atrasado. Dessa vez, contudo, foi o primeiro paladino a aparecer.

Ou melhor, o segundo.

Porque Keith já estava ali, sentado à mesa ao lado de Allura, meneando a cabeça para cima e para baixo enquanto a princesa da extinta Altea falava. Lance não conseguiu ouvir direito nenhuma palavra proferida pela bela alienígena, mas percebeu como o rosto moreno dela estava ligeiramente avermelhado e inchado, e como os olhos azuis estavam marejados. Viu também que ela não mais olhava para Keith com desconfiança e frieza, mas sim com carinho e um quê de vergonha.

— Está tudo bem — Ouviu Keith murmurar de repente, a cabeça um pouco baixa, o olhar mais fixo na mesa do que no rosto de Allura, e sentiu-se mal ao perceber que os dois pareciam tão concentrados naquela conversa que não tinham notado a presença de mais alguém no salão. — Não há necessidade de me pedir perdão, princesa. Eu que lhe peço desculpas pelo... transtorno que causei. E agradeço pela oportunidade de permanecer na equipe. Sei que não sou digno de-

— Você é — Allura o interrompeu, sua voz ainda sussurrada, mas alta o suficiente para que Lance fosse capaz de escutá-la. — Você é um paladino de Voltron, escolhido do Leão Vermelho, herói do universo. Você é digno, e ninguém pode falar o contrário. Sua aparência atual não significa nada, Keith. Não é ela ou o sangue que corre em suas veias que faz de você o que você é. O que você realmente é.

Lance teve a impressão de que ela fosse falar mais, mas o som alto de passos ecoando pelas paredes fez a princesa se calar e olhar para o lado. Ela sorriu abertamente ao ver não apenas Lance, mas os outros três paladinos que, agora, também se encontravam na sala de reuniões, e pediu-lhes para que se aproximassem.

Começou, então, a falar sobre o quão tenebroso fora perder Keith para o inimigo, sobre o quão exaustivo fora procurar pelo paladino vermelho e sobre o quão maravilhoso fora reencontrá-lo. Discorreu sobre a importância do elo firmado entre os membros da equipe, sobre confiança mútua, sobre amizade e tudo o que ela envolvia: paciência, diligência e respeito. Discursou sobre os desafios de enfrentar o império de Zarkon, sobre o que cada um teve que abdicar e de como ela estava orgulhosa de cada um daqueles cinco paladinos.

— Os leões não poderiam ter feito escolha melhor — Sorriu, olhos marejados e voz embargada. — Vocês abriram mão de tantas coisas... se arriscaram tanto... se dedicaram tanto... e lutaram tanto. E ainda vão se arriscar mais, vão se dedicar mais e vão lutar mais. Porque vivemos em tempos de guerra, e vocês são a maior esperança do universo — Ela fez uma pausa, respirou fundo, o peito inflando e se esvaziando, e, quando prosseguiu, seu sorriso tremulou em seus lábios, mas não se desfez. — Passamos por um período conturbado. Todos nós. Um período marcado por sofrimento e tribulações e que ainda persiste em continuar, mas que já está passando da hora de chegar ao fim. Sei que o trabalho de um paladino de Voltron nunca tem fim, mas também sei que um descanso de vez em quando é necessário, seja para o corpo, para a mente ou para o espírito. E é isso o que eu quero que vocês façam. Que descansem e tenham condições de recuperar suas forças.

Pidge foi a primeira a se manifestar, erguendo o dedo indicador e arregalando os olhos.

— Peraí! — Exclamou a pequena paladina. — Você está dizendo o que eu acho que está dizendo? Vai nos dar umas... umas...

— Férias? — Lance tentou se conter, mas não conseguiu. Espalmou as mãos sobre a mesa ao ficar de pé, e sua voz reverberou por todo o salão. — Nós estamos de férias?

Allura riu.

— Dentro de algumas vargas, chegaremos ao planeta Cylmo. Pelas informações que consegui reunir do planeta natal de vocês, Cylmo é um dos mais semelhantes. Ele é o quinto planeta num sistema solar de Sol de quarta grandeza, apresenta uma enorme quantidade de água, atmosfera segura e uma lua orbitando ao seu redor. Além disso, é habitado por uma civilização extremamente pacífica e, até então, tem se mantido a salvo das garras de Zarkon. É seguro dizer que poderão desfrutar de um período de tranquilidade de, digamos, o equivalente a quatro, talvez cinco dias terrestres? Isso, é claro, se não surgir nenhum imprevisto. E então? O que acharam, paladinos?

Houve um coro de sim, pelo amor de Deus tão alto que fez as paredes do Castelo estremecerem. Emocionados, Lance e Hunk se abraçaram e choraram um nos braços do outro.

~Voltron~

— Tem uma praia! Vocês ouviram isso? Aqui tem uma praia!

Pidge revirou os olhos; seus lábios, contudo, sorriam.

— Nós ouvimos nas primeiras cinquenta vezes, Lance — Falou a jovem heroína, dando uma cotovelada nas costelas de Lance. — E também estamos vendo. Estamos de frente pra ela, praticamente.

— A areia é tão branquinha — O paladino azul comentou num estado que beirava o êxtase, não se incomodando com as caretas e provocações da amiga. — E essa água maravilhosa... azul... quase transparente. Meu Deus, aqui tem até coqueiros! Coqueiros! E... e vocês estão ouvindo esse som? As ondas quebrando, o vento soprando! Isso é... é um paraíso.

— Preciso concordar com Lance — Disse Shiro, um sorriso no rosto e mãos toldando os olhos do sol intenso. — Esse lugar tem tudo o que um comercial de praias paradisíacas tem. Foi uma ótima escolha para umas curtas férias, Allura.

A princesa assentiu.

— Fico contente que tenham gostado.

— Gostado? — Lance repetiu, escandalosamente, mãos e braços abanando com exagero sobre a cabeça. — Eu estou apaixonado por esse lugar! Será que não podemos nos mudar para cá? — Perguntou sem esperar por uma resposta e, observando as ondas quebrando sobre a areia, voltou seu olhar para Hunk. — E aí? Vamos improvisar umas pranchas de surf?

Os olhos amendoados do moreno cresceram com interesse.

— Só se for agora!

Os dois amigos, empolgados do jeito que estavam, se perderam na conversa e nas ideias, procurando por materiais e discutindo como fariam as pranchas. Pidge não tardou a se unir a eles, curiosa por saber o que eles tinham pensado e também já tendo algumas ideias, e até Allura e Coran se aproximaram, intrigados e cheios de vontade de conhecer mais detalhes sobre a cultura dos terráqueos.

No final, restaram apenas Shiro e Keith, e o líder paladino sorriu de canto ao se aproximar do piloto do Leão Vermelho.

— Parece uma ideia boa — Disse a apontou com o queixo na direção de Lance, que, agora, discutia alguma coisa com Pidge. Esperou por uma resposta, mas Keith permanecia calado, os olhos amarelos indecifráveis. — Keith...

— Eu estou bem — Respondeu sem sinceridade.

Ele não estava bem, e aquilo era óbvio.

— Só um pouco desconfortável. Acho que meus olhos são mais sensíveis agora do que eram antes. Essa claridade está me dando um pouco de dor de cabeça. Vou... vou voltar para o castelo.

— Keith — Shiro tentou de novo e estendeu o braço até o jovem, mas Keith se esquivou e não parou.

— Eu estou bem, Shiro. Não se preocupe comigo — Suspirou e abriu um sorriso fraco, deixando à mostra a pontinha afiada do canino. Então, seu olhar foi do rosto pálido e preocupado do líder para o rosto moreno e descontraído de Lance, que tagarelava sem parar, completamente alheio ao fato de estar sendo observado. Seu semblante se suavizou e seu sorriso se entristeceu. — Nós não vamos ter uma próxima oportunidade de descanso tão cedo, então não deixe de aproveitar esta aqui por minha causa, está bem?

Disse e se foi, dando as costas a Shiro e desaparecendo dentro do Castelo dos Leões. O líder paladino deixou escapar um suspiro resignado, massageou a nuca ligeiramente dolorida e seguiu até os demais, seus lábios sorrindo de imediato ao ouvir as divertidas – e intermináveis – perguntas que Coran e Allura faziam sobre alguns esportes e atividades praticados na Terra. Seus olhos, contudo, não deixavam esconder a preocupação que sentia e vez ou outra traçavam o caminho feito por Keith. Quando seu olhar, por fim, voltou para o grupo, percebeu que Lance não estava mais envolvido no animado bate-papo, mas que parecia estar distante, os olhos um tanto quanto tristes também focados em algum lugar do Castelo dos Leões.

E ele sabia perfeitamente o que ocupava os pensamentos do paladino azul naquele momento. Ou melhor, quem.

— Sei que é difícil, mas temos que ter paciência — Orientou Shiro, falando apenas para Lance. O rapaz o fitou com atenção e assentiu fracamente. — Keith precisa de um tempo para conseguir aceitar o que aconteceu com ele. E para conseguir se aceitar também do jeito como está agora. Enquanto isso, só nos resta ter-

— Paciência, eu sei — Murmurou o moreno, mas sua voz não soava tão resignada quanto suas palavras, e Shiro teve a leve impressão de que ele não estava mais tão a fim de ter paciência com o atual comportamento evasivo de Keith.

~Voltron~

Foi apenas ao entardecer daquele primeiro dia em Cylmo, quando os demais paladinos já tinham retornado ao Castelo depois de muito aproveitarem a praia e o dia ensolarado, que Keith resolveu sair. Sozinho, caminhou um pouco pela areia que começava a esfriar, molhou os pés grandes e peludos na água gelada e sentou-se sobre algumas pedras para assistir ao pôr do sol e à ascensão da lua, contemplando a natureza daquele planeta, que tanto lhe lembrava a Terra.

Terra, ele pensou e, cheio de desgosto, encarou as próprias mãos alienígenas.

Do jeito como estava, jamais poderia retornar a Terra.

— Será que vamos ter que fazer com que você bata a cabeça de novo?

Teve vontade de olhar para trás ao ouvir a voz de Lance, mas não o fez. Continuou do jeito como estava, o joelho abraçado de encontro ao peito, a cabeça erguida e o olhar cravado no céu pincelado de violeta, laranja e vermelho.

— Sério, mullet, você era bem mais divertido quando estava com amnésia — Comentou o paladino azul, aproximando-se e se sentando ao lado de Keith.

— Lance — Keith disse num tom que carregava uma certa advertência, mas Lance fez pouco caso do amigo.

— Agora, nem sequer olha pra gente. Tudo o que sabe fazer é se trancar no seu quarto e ficar sendo emo. Shiro disse que eu tenho que ter paciência com você... e eu até que me considero um cara paciente. Mas admito que tá difícil, viu? Tá muito difícil!

Keith inspirou fundo, prendeu a respiração por um tique ou dois e expulsou o ar com força, esvaziando os pulmões. Ainda sem ousar olhar para o rapaz ao seu lado, disse:

— Sinto muito.

— Não quero um pedido de desculpas. Nenhum de nós quer — Proferiu Lance, irritado. — Você não tem nada do que se desculpar. Eu só quero... nós só queremos que você pare com isso. Pare de se isolar e de achar que precisa lidar com isso sozinho. Esqueceu que somos uma equipe? Que estamos todos conectados uns aos outros? Você pode contar com a gente... e você sabe disso!

— Eu... — Keith engoliu em seco e pressionou os lábios um contra o outro. Quando tornou a falar, sua voz estava baixa e mansa: — Eu sei. Eu sei disso, mas é... difícil. Lidar com isso, com o que aconteceu e com... com o que eu me tornei está sendo... está sendo difícil, Lance.

— E é por isso que você não tem que fazer isso sozinho — As palavras de Lance soaram calmas, e o rapaz ofereceu a Keith um sorriso terno. — Quando os Galras te capturaram foi... foi assustador. Havia esse vazio no Castelo e na equipe, um vazio que só a sua presença conseguiria preencher. Daí você voltou e... e só sabia se isolar da gente. Mesmo com você de volta, o vazio continuou, porque era como se você não tivesse voltado.

Keith não soube o que responder. Buscou em sua mente alguma palavra para oferecer ao moreno, mas nada, absolutamente nada lhe surgia. Devagar, desviou o olhar do céu que já assumia um tom de azul mais escuro e permitiu-se encarar o rapaz ao seu lado. Lance o fitava fixamente, e a insistência daqueles olhos azuis o fez virar o rosto mais uma vez para o céu.

Seus olhos amarelos foram direto para a silhueta da lua.

— Eu não vou ser um babaca e dizer que entendo pelo que você está passando — Lance prosseguiu, preenchendo o silêncio daquele início de noite. — Porque eu não entendo. Às vezes, tenho pesadelos onde eu sou capturado e torturado, mas meus pesadelos não chegam aos pés do que aconteceu a você. Você passou por muita coisa e ainda está passando... e eu imagino que não deve ser fácil superar isso tudo. Mas eu sei que vai ser mais fácil conseguir lidar com isso se você apenas... apenas se abrir com a gente. Ou nem isso! Porque, porque se você não quiser contar o que houve, se não quiser se abrir, tudo bem. Não tem problema. Só não se exclua mais, tá! É chato e... é... basicamente é isso mesmo. É chato pra caramba. Sabe aquela expressão? Juntos somos mais fortes? Ela é verdade, cara. E eu sei que você sabe disso, mas acho que foi uma das coisas de que se esqueceu quando bateu a cabeça — O sorriso em seus lábios, de repente, ficou mais debochado e provocante. — Que coisa, não? Esse seu mullet gigante nem prestou para amortecer a queda e proteger sua cabeça.

— Você adora o meu cabelo, não é? — Keith o encarou de esguelha. — Nunca para de falar dele. Acho que, na verdade, tem inveja do meu... mullet.

— O quê? — Lance chegou a engasgar de tão indignado que ficou. — Inveja? Não seja ridículo! Esse penteado é tão fora de moda que não consigo nem lidar!

Pela primeira vez em... ...em muito tempo, Keith riu alto e de verdade, e Lance nem se importou de ter sido o motivo daquela risada. Achou foi ótimo ver o outro mostrando sinais de relaxar e de estar mais alegre e até se juntou a ele, rindo alto também, gargalhando tão forte que lágrimas se formaram no cantinho dos seus olhos. Quando as gargalhadas, por fim, cessaram, e tudo o que se ouvia era o barulho fraquinho das pequenas ondas que batiam nas pedras, Lance dobrou as pernas e, descansando o queixo sobre o joelho, disse:

— Eu nunca te pedi desculpas pela forma que te tratei... sabe? Antes?

Keith balançou a cabeça para os lados.

— Não precisa disso. Você já se explicou e eu entendi.

— Eu me expliquei para a sua versão desmemoriada. Então nem valeu, porque eu não sabia que era você ali! Então, me desculpe por ter agido feito um idiota e ter te deixado no vácuo. Não foi justo o que fiz. E você não merecia aquilo.

Um sorriso pequenino firmou-se no cantinho dos lábios de Keith, no entanto, não era um sorriso feliz.

Havia ainda muita tristeza nele.

— Está tudo bem, Lance. É bom saber que ainda somos... amigos.

— Amigos? — As sobrancelhas de Lance fizeram um movimento esquisito, e o moreno fitou Keith com olhos estreitos e descontentes. — Amigos? É isso mesmo o que eu ouvi? Porque, se você se lembra do que eu contei para o seu eu desmemoriado, então sabe muito bem como eu me sinto em relação a você. Cara, eu abri meu coração! Eu chorei feito um bebê no seu ombro, o que foi meio patético, mas temos que concordar que eu estava um caco emocional, na época, então mereço um desconto. E eu me confessei para você sem saber que eu estava de fato me confessando para você! E agora eu escuto que nós ainda somos... amigos? É isso? É só isso?

— E o que mais você queria? — Retrucou Keith, subitamente irritado e um tanto quanto furioso, as palavras sendo cuspidas. — Queria que tivesse alguma coisa entre a gente? É, Lance? — Perguntou e se pôs de pé, seus pés largos se firmando sem problema sobre as pedras lisas. Fez um gesto com os braços, como se englobando o seu corpo todo, e lançou ao paladino azul uma encarada fria. — Olha só pra mim! Eu estou... eu sou... eu sou... eu não sou mais humano.

— Pelo que Coran falou, você nunca foi totalmente humano — Lance não tardou a copiar o rapaz e também se levantou. — E isso nunca foi problema antes.

Exasperado, Keith correu as mãos pelo cabelo escuro.

— Isso porque eu não sabia! Ninguém sabia!

— Mas agora a gente sabe... e as coisas não precisam mudar por causa disso.

— Como não precisam mudar? — Sibilou, não acreditando no que Lance falara. Como ele podia ser tão ingênuo a ponto de pensar daquele jeito? — Até a minha aparência mudou. Eu me assemelho mais a um Galra do que a um humano, Lance! Como eu posso sujeitar alguém a conviver com... com... com uma aberração?

— Aberração? — Sussurrou o moreno, e seus olhos tristes percorreram Keith dos pés à cabeça. — É isso o que você pensa de si mesmo? Porque você não é uma aberração.

— Eu tenho pelo. Muito pelo por todo o meu corpo! E roxo, ainda por cima.

Lance deu de ombros, como se aquilo não o incomodasse.

— A cor combinou com a sua personalidade. Bem emo.

— Garras — Disse Keith, mostrando as mãos, e Lance sorriu de canto.

— Você é um cara durão, então... é! Eu diria que combinou também.

— Orelhas gigantes.

— Preciso confessar que são bem fofinhas.

O comentário fez o rosto de Keith esquentar, e o sorriso provocante no rosto de Lance se alargou.

— Não posso acreditar nisso. Ou você é muito doido ou é muito estúpido — Murmurou o paladino vermelho, a cabeça baixa e os olhos fechados, e suas palavras soaram tão baixas que o vento quase as carregou para longe dos ouvidos de Lance. — Como é que você pode... como... alguém como eu...

Keith se calou de repente ao sentir uma mão sob o seu queixo, o toque suave e morno, e abriu os olhos com rapidez. Viu o rosto de Lance a sua frente, a expressão relaxada, os olhos azuis transmitindo calma e ternura e os cantinhos dos lábios curvados num sorriso sincero.

— Eu não sei se você já percebeu — Disse o piloto do Leão Azul. — Mas eu tenho uma queda por alienígenas. Uma queda tipo... de penhasco.

Keith riu – um pouco de nervoso pela proximidade do rapaz e um pouco de graça mesmo – e se rendeu ao aconchego do toque, a cabeça pendendo ligeiramente para o lado. De repente, Lance fechou os olhos e aproximou o rosto ainda mais do de Keith, e o gesto fez o coração do híbrido humano-Galra acelerar.

— Eu tenho presas — Disse num só fôlego, e Lance parou e o encarou. — Muito afiadas. Uma vez eu cheguei a cortar a minha língua.

— Sério? Cortou muito?

— Mais ou menos.

Como se ponderando a respeito daquela nova informação, o moreno franziu a testa, estreitou os olhos, fez uns biquinhos com a boca e, por fim, sorriu.

— Acho que vamos ter que tomar cuidado com isso.

E aquilo foi tudo antes do beijo. Seus lábios se tocaram brevemente, num encontro suave e simples e inocente, mas que foi mais do que suficiente para fazer o rosto dos dois rapazes esquentar e seus corações baterem mais rápido. Quando se apartaram, o olhar de um se demorou no olhar do outro e, quando deram por si, já estavam sentados de novo sobre as pedras, a cabeça de Lance descansando sobre o ombro de Keith, dedos entrelaçados e pernas se tocando.

Sobre suas cabeças, a lua reinava, magnífica e esplendorosa, no céu.

— Nós não vamos ter muito tempo neste planeta, e temos que aproveitar ao máximo isso aqui. Por isso, não quero mais saber de você se escondendo da gente, tá? — Falou Lance, e sentiu Keith menear a cabeça numa resposta afirmativa. — Amanhã eu vou ensinar Coran a surfar. Posso te ensinar também.

Keith arqueou uma sobrancelha.

— E quem disse que eu preciso que você me ensine? Eu sei surfar.

— Ah, é? — Lance parecia não acreditar muito naquilo. — E você surfava onde? No meio do deserto?

— Já morei perto da praia, Lance — Respondeu Keith. — Foi quando aprendi a surfar. E eu era muito bom, se me lembro bem.

Uma risada debochada escapou dos lábios do moreno.

— Quero provas, mullet!

— Como é que é?

— É isso mesmo. Quero provas — Lance encarou o rapaz e pressionou o indicador no peitoral dele, desafiando-o. — Eu e você, amanhã. Vamos ver quem surfa melhor.

Keith, como sempre, não tardou a aceitar o desafio.

— Espero que esteja preparado para perder.

Lance revirou os olhos.

— Você que tem que se preparar para perder! Será que o seu ego alienígena vai suportar a derrota?

— O quê? — Ele perguntou, e a única resposta que teve foi a mão de Lance em sua nuca e os lábios dele mais uma vez sobre os seus.

Trocaram mais beijos, vários, e entre um e outro Keith pensou que talvez Lance estivesse mesmo certo.

Talvez nem tudo precisaria mudar.

— Ai! Caramba, você não tava brincando quando disse que seus dentes eram afiados. Tá sangrando?

— Deixa de ser fresco, Lance.

— Não tô sendo fresco! E é sério! Tá sangrando?

E o que mudou, bem... talvez eles só precisariam se ajustar um pouquinho às mudanças.