Olá gente, mais um capítulo pra vocês. Aqui vai o capítulo mais revelador da fanfic. Ou nem tão revelador assim.

Boa leitura!


Capítulo 14.: Yellow

'I swam across
I jumped across for you...'

Sua cabeça estava em outro lugar. Geralmente Scorpius tinha o privilégio de ser tão frio que era capaz de deixar sua vida pessoal muito distante de sua vida profissional, um dos motivos por ainda conviver tranquilamente com a presença da ex-namorada, Emily. Mas naquela manhã, quando Scorpius finalmente estava de volta para a firma, não conseguiu prestar atenção em nenhuma das palavras que o chefe/avô estava dizendo na reunião principal, mesmo que parecesse importante.

Quando se deu conta, Scorpius estava sendo aplaudido por algum motivo. Despertou-se de seus devaneios, fazendo vários cliques na caneta, e tentando compreender o que estava acontecendo. Sentiu a mão de Lucius pressionar seu ombro. Olhou para o slide que era apresentado na lousa e seu nome estava no topo de uma lista. Lista dos advogados que mais ajudaram a fechar casos no tribunal.

Ele achou que seria educado se levantar e apertar a mão de Lucius. Tinha consciência de que Alexis, no fundo da sala, estava sorrindo para ele, como alguém que conhecia seu maior segredo. Eu minto pra caralho. Os dois se entreolharam no momento em que Lucius anunciou sua aposentadoria.

– Um bom profissional deve saber quando parar – discursou. – E, também, deve reconhecer quem continuará levando a firma em seu nome. E é por isso que estou mostrando a vocês esses dados. Não quero que reconheçam isso como favoritismo por ele ser meu neto. Nunca houve favoritismo. Você, Scorpius, merece carregar o nome da Malfoy & Zabini. De agora em diante, metade dessa firma é sua e de sua responsabilidade. E a minha sala também.

Tiveram risadas depois da última sentença, em seguida todos levantaram e apertaram a mão dele. Scorpius não sorriu. Esperou a reunião acabar para se levantar, fechando sua pasta e guardando a caneta no bolso. Lucius ajeitava alguns papeis sobre a mesa, distraído, quando viu que Scorpius estava parado e em pé no silêncio repentino da sala de reuniões, quando todos já tinham ido embora.

– Por que não me avisou antes?

– O quê?

– Que ia me dar a firma. Ela é sua.

– Ela é sua também, Scorpius. Por que acha que o treinei e lhe dei privilégios todos esses anos desde a faculdade? Para você carregar o nome Malfoy quando eu precisar ir embora. Eu não quero que o nome seja enterrado junto ao meu túmulo. Draco sempre foi para o lado político da coisa, então não pude contar com ele. Mas você... você me lembra Astoria em todos os aspectos. E esse é o aspecto que eu quero para a firma.

– Eu estou lisonjeado – ele disse.

– Deveria estar.

– Mas vou declinar.

Lucius não esteve olhando para ele em nenhum momento. Porém, ao ouvir aquilo, ergueu lentamente os olhos na direção do rapaz.

– Como é?

– Você disse que quando eu fizer algo pela minha filha, você a conhecerá com um sorriso no rosto. E se eu começar a trabalhar vinte e quatro horas por dia, com mais um terço dos seus clientes... eu não terei nenhuma oportunidade de fazer algo por ela. Eu não terei tempo para ela. Então... eu vou declinar. Para falar a verdade, isso é uma surpresa para mim também. Eu quero trabalhar para a firma, mas não quero ter a firma.

– Isso foi por causa do assalto? Essa... epifania?

– É claro que foi – ele respondeu meio que rispidamente. – Porra, eu quase morri. E o pior disso tudo? Eu ia morrer sem saber qual a cor favorita da Zoe. Que, a propósito, é azul por causa do céu. Então, Lucius, essa firma terá que arrumar um novo sócio.

Ajeitou a gravata no colarinho e, sem exigir uma reação do avô, Scorpius se dirigiu para a porta. Estava no buraco dela quando Lucius perguntou:

– Até um tempo atrás, esse era seu maior objetivo. Tem certeza disso?

Moveu um pouco o ombro esquerdo. Ainda podia sentir o reflexo da dor que teve nas últimas semanas. Mas, em geral, já se sentia melhor.

– Até um tempo atrás o senhor disse que só sairia dessa firma se arrastassem seu corpo dela – respondeu. – Não acho que esse negócio de epifania tenha caído sobre mim.

Encontrou Alexis dentro da sua sala no lado oposto do andar da firma. Estava sentada em um dos sofás, com as pernas cruzadas, lendo o jornal da semana. No momento que Scorpius entrou, ela se levantou e começou a observar as estantes de livros na parede.

– Parece que realmente vou trabalhar para você agora. Parabéns pelo novo cargo.

– Não, ainda seremos colegas – ele disse. – Eu recusei a firma.

– Ora, isso era o que você sempre queria.

– Eu posso ter essa firma quando eu quiser – retrucou, cansado de ter que ficar se explicando. – Agora eu não quero. Eu não preciso de mais clientes ou ficar me preocupando em demitir as pessoas e ver a cara de derrotadas delas esperando que eu diga "você terá nossas melhores recomendações".

– Uau – ela riu, admirada. – Você diz como se realmente desse a mínima para as pessoas daqui. Se bem que é fácil imaginá-lo como sendo o meu chefe.

Vendou as paredes de vidro com o clique de um controle, e as persianas se fecharam. Scorpius desabotoou a manga da camisa quando Alexis abriu os botões do decote.

– Preciso entrevistar uma testemunha. Eu não tenho tempo para preliminares – ele avisou, sentando-se no sofá após tirar o paletó com calma. Não podia amassar as duas mil libras em tecido. O cuidado que ele tinha com seu terno era maior do que com as mulheres. Alexis levantou um pouco a saia para erguer as pernas e sentar no colo dele.

– Direto ao ponto? Não se preocupe. Vai acabar rápido.

Apertou com precisão a região da virilha dele, fazendo-o arquejar um pouco e beijá-la. Alexis se ajoelhou a frente dele no sofá, abrindo a cinta. Quando arrastou a calça apenas um pouco para revelar a boxer preta, o celular de Scorpius vibrou em seu bolso. Não que isso fosse impedir de Alexis continuar.

Desbloqueou a tela e atendeu, os lábios de Alexis suavemente pressionando seu abdômen.

Ela alcançou o pescoço dele quando Scorpius bufou e seu corpo ficou tenso, a ponto de precisar se afastar, educadamente, e erguer a calça no quadril. Fechou o zíper e tirou o vestígio de batom que ela provavelmente colocou em sua boca.

– O que houve?

Scorpius parecia bravo.

– Meu pai.

– Aconteceu alguma coisa?

Ele não respondeu. Não era problema dela.

– Vou precisar que você entreviste a testemunha hoje, no meu lugar.

– Claro – ela disse, sem rodeios. – Estamos trabalhando juntos.

Alexis voltou a fechar a camisa, enquanto via Scorpius desaparecendo pela porta apressado.

Não era a primeira vez que Scorpius tirava Draco da delegacia, depois do pai ser pego dirigindo embriagado. Não era a primeira vez desde a morte de Astoria. Quando Scorpius pagou a multa e a fiança, os guardas levaram-no para as celas onde atrás estava sentado Draco, esperando.

Ele ainda tinha a elegância de ajeitar a gravata quando saiu.

– Foi desnecessário – Draco disse, quando já estava a caminho do carro com o filho. – Não havia apontado nada no teste.

– Se você quiser se matar, ótimo – Scorpius ligou o carro, estressado. – Só tente não matar ninguém no caminho.

– Eu não estava bêbado. Depois de tudo ainda acham uma desculpa para me terem atrás das grades, nem que por uma noite.

– Hoje é terça-feira, porra! – Scorpius se ouviu quase gritando dentro do carro. Draco olhou para ele. – Você tava bebendo numa terceira-feira!

– Você não precisa cuidar de mim, Scorpius.

– Alguém tem que fazer.

– Sabe que dia foi ontem? – questionou.

– Sei.

Fizeram um momento em silêncio, enquanto Scorpius tinha o maxilar tão rígido que achou que poderia quebrá-lo.

– Eu só estava a caminho para levar uma flor como eu sempre fiz nos últimos dez anos. E costumo dividir um ou dois drinques com sua mãe.

Scorpius freou tão bruscamente que se Draco não tivesse segurado o painel de controle do carro, ele poderia ter batido a cabeça ali mesmo. Por sorte, tinha colocado o cinto.

– Você alguma vez foi ao cemitério? – Draco perguntou, depois de alguns minutos, com o carro parado na pista.

– Não consigo – ele confessou, arrastando as palavras entre os dentes.

– Você devia, Scorpius. – De repente sentiu a mão do pai apertar seu braço. – A culpa não foi sua.

– Sim, foi – ele murmurou. – Se eu tivesse parado de discutir com ela no celular, ela teria desligado aquela porra. E teria visto o carro. Teria visto. E ela estaria aqui. E você não estaria se arrastando pela cidade como um fantasma bêbado e acabado. Foi minha culpa. Minha mãe está morta por minha culpa e eu fodi com a vida de todo mundo que eu amei.

– Não foi sua culpa.

– Então como eu faço para essa sensação parar, caralho!? – ele gritou, socando o volante com força. O pai viu o desespero no olhar de Scorpius.

– Não foi sua culpa – ele repetiu, a cabeça de Scorpius escondida nos braços de Draco quando se inclinou para receber o aperto dele.

Scorpius nunca se deixou cair. Por cima daquele terno caríssimo, ele era esse cara frio e completamente imune aos seus sentimentos. Poderiam chamar aquilo de epifania ou qualquer outra coisa desse tipo, porque não era comum ele chorar daquele jeito.

Scorpius não chorava há anos. Ele não podia começar, era difícil parar depois. Sentia falta de Astoria, tanto que doía. Ela foi essa mãe durona que não o deixava fazer nada sem que ele pedisse permissão, mas foi, durante dezessete anos, a única mulher de sua vida a quem ele podia confiar. Sentiu falta dos conselhos que ela daria para ele nesse momento. Saberia que Astoria brigaria com ele quando ele revelasse ter engravidado a namorada. Você vai arcar com as consequências agora. Você merece o susto. Merece saber o que é ter um filho e se preocupar com ele a cada fodido minuto da sua vida. Você vai assumir a criança e vai ajudar a mãe dessa criança. Pare de choramingar e seja homem.

Mesmo que ele nunca tivesse escutado, de fato, essas tais palavras, seu coração escutara há sete anos. E então ele caminhara até o hospital. E então ele segurara Zoe nos braços. Tentou ser o homem que Astoria desejava que seu filho fosse. Mas falhou inúmeras vezes.

Evitou o olhar de Draco quando ele se acalmou, para voltar a dirigir. Ainda teria uma audiência naquela tarde e precisava se concentrar nas perguntas que deveria treinar com a testemunha. Quando deixou o pai em sua antiga casa... Draco hesitou.

– Eu quero conversar com a Zoe.

– Não – Scorpius disse diretamente. – Não, pai. O senhor... o senhor precisa parar de beber.

– Eu fiz mal a ela – concordou Draco – por ter falado que você não iria ficar bem no hospital. Eu preciso consertar isso.

– Essa não é uma decisão minha – ele retrucou. – Rose tem a decisão.

– Pergunte a ela então, Scorpius. Se eu posso falar com Zoe.

– Vou tentar – ele disse. – Não prometo nada.

A arquibancada apoiava as pequenas competidoras na pista de atletismo. Zoe estava disputando a medalha na gincana infantil de jogos que Hogwarts fazia no final do mês de novembro para inúmeras categorias e faixa etária.

Nessa idade, não existia competidores. Apenas um grupo de crianças incrivelmente fofas tentando correr até a linha de chegada ao som da torcida da família.

– Vamos, Zoe!

Zoe corria com toda a sua energia. Porém, o vento levou a toca rosa para trás e Rose e Albus assistiram com muita exasperação a garotinha voltar alguns metros para pegá-lo de volta, sã e salvo.

– Corre, Zoe! Corre! – berrou Albus quando Zoe procurou os dois na torcida e acenou com energia e um sorriso de "olha eu aqui" no rosto corado. Rose registrou uma foto, rindo.

Estava se aproximando da linha de chegada, atrás de todo mundo. Quando acabou, todo mundo aplaudir, felizes por finalmente finalizarem a corrida. Zoe acompanhou as outras competidoras para receber a medalha de participação. Rose estava filmando quando Al deu um cutucão em seu braço.

– O que ele está fazendo aqui?

Parecia surreal. Há alguns metros dali, na entrada do campo, Scorpius estava com a mão segurando os óculos e a outra no bolso, enquanto caminhava em direção a arquibancada, procurando Zoe no campo com o olhar, a filha entre as inúmeras crianças que ganhavam as medalhas.

Ele viu Rose e Albus e se aproximou.

– Oi, Potter – disse para Al.

– Oi, Malfoy. – Depois cochichou para Rose. – Eu vi o cara do sorvete passando. Já volto.

Scorpius não o seguiu com o olhar. Estava ocupado, com os olhos em Rose.

– Posso? – questionou, apontando para o lugar ao lado dela. Rose assentiu. Scorpius olhou para os cantos, procurando por Paul. Não via sinal dele há alguns dias, o que indicava que poderia estar viajando ou Rose e ele terminaram.

Observou o perfil do rosto de Rose.

Resolveu ir direto ao assunto.

– Meu pai quer conhecer a Zoe. Propriamente. Se desculpar pelo que falou a ela no hospital. Antes que diga alguma coisa, eu sei que ele tem problemas com as bebidas... – acrescentou. – Mas ele não é o pior ser humano-

– Tudo bem – ela interrompeu. – Me surpreende que você nunca tenha pedido algo assim antes.

– Minha família... eles só acham que isso foi um rolo. Nós dois. Então eles não aceitaram muito bem essa ideia de eu ter uma filha... fora de um casamento ou algo assim. Você não conhecerá outra família mais tradicional que a minha.

– Ferramos com tudo. – Rose acompanhava os passos de Zoe pela pista de atletismo, e Albus trazia um sorvete delicioso de fruta para ela.

– Sim, ferramos. – Scorpius limpou as lentes dos óculos escuros.

Zoe caminhava até as arquibancadas segurando a mão de Albus, tomando o sorvete, com a boca toda manchada de uva. A menina carregava a medalha no pescoço e olhava constantemente para ela como se tentasse compreender porque a ganhou se tinha ficado em último lugar na corrida.

– Isso é porque você não desistiu – contava Albus, obviamente respondendo a pergunta curiosa da menina. – Apesar de ter tido vontade, não é?

– Um pouco – confessou com culpa.

– Não tem problema – ele continuou. – Desistir é uma vontade que todo mundo tem quando as coisas ficam difíceis. Por isso é merecedor de uma medalha quem fica até o fim.

– Mas é que estava chato – ela explicou. Albus gargalhou.

– Com certeza você não gosta de atletismo.

– Tio Al – ela disse depois de saborear mais um pouco do sorvete. Al olhou para baixo, só esperando a pergunta aparecer porque quando ela fazia aquela expressão, significava muitas dúvidas. – Por que você não gosta do meu papai?

Os dois observaram Scorpius sentado ao lado de Rose.

– Já sei – Zoe disse ao notar que ele estava demorando a responder. – É complicado.

– Acertou.

Zoe bufou, irritada. Ele a ajudou subir as arquibancadas para chegar até Rose e Scorpius. Então, meio ofegante, Zoe enrolou os braços ao redor do pescoço de Scorpius e sentou na perna dele.

– Você me viu correndo, papai?

– Eu vi. Cansou bastante?

Ela assentiu com a cabeça.

– Posso ir na sua casa hoje? – ela perguntou depressa.

Scorpius verificou o olhar de Rose, que fez um sim com cabeça.

– Claro – ele respondeu sorrindo. – E eu quero que você conheça alguém. Na verdade, ele quer conhecer você.

– Quem? – perguntou muito curiosa.

– O meu pai.

– O meu outro avô? O moço do hospital? Ele não gosta muito de mim.

– Isso é uma mentira tremenda. O sr. Draco só tem cara de mal, mas no fundo ele é esse homem que gosta de passear ao som dos passarinhos cantando.

– Como a Branca de Neve?

Não tinha jeito. Os três, Al, Rose e Scorpius, deram risadas.

– Como a Branca de Neve. – De um jeito cuidadoso, Scorpius ergueu Zoe e se levantou. – Então, passo pegar você hoje.

– Tá bom – ela disse, recebendo o beijo dele em seu rosto.

– Aproveite as brincadeiras, coisinha. Eu preciso ir.

Colocou ela de volta no chão. Scorpius fez um breve aceno com a cabeça para Albus, que respondeu com outro. Procurando uma última vez o olhar de Rose, Scorpius apenas colocou os óculos nos olhos e foi embora.

Em um jantar que deveria ter muitas perguntas rolando pela mesa, Scorpius se viu com a constante obrigação de puxar algum assunto. Zoe não sabia muito bem o que fazer além de saborear o jantar do pai naquela noite de sábado, no apartamento dele, com a companhia do avô. Draco, na ponta da mesa, também estava comendo bem silenciosamente, sem ter a mínima ideia do que dizer a filha de seu filho. Uma criança podia ser bem intimidadora.

Finalmente Zoe abriu a boca e Scorpius, feliz, achou que ela ia começar a tagarelar, mas percebeu que o movimento foi apenas para que ela engolisse um pedaço do frango. Seus pezinhos estavam inquietos embaixo da mesa e ela virava os olhos curiosos de Scorpius para Draco e de Draco para Scorpius.

Foi, sem dúvidas, um jantar muito empolgante.

– Pai – ela chamou no que pareceu ter sido vinte e quatro horas depois. Sua voz estava baixinha e mais fina. Havia educação no modo como pousou a colher na mesa e perguntou: – Posso brincar agora?

Scorpius lançou um olhar para Draco, esperando que ele dissesse alguma coisa, qualquer coisa, para prender a atenção de Zoe. Quando isso não aconteceu, Scorpius disse:

– Pode, Zoe. Só não vai para a sacada.

Ela fez um aceno afirmativo com a cabeça e afastou a cadeira para pular dela. Quando Scorpius ficou sozinho com Draco, ele limpou a boca.

– Foi uma desculpa vir aqui só para comer a minha comida ou...?

– Você cozinha bem – disse Draco, em um tom de "agora que mencionou". Reparou no olhar de Scorpius e suspirou. – Não sei o que dizer a ela.

– Qualquer coisa já seria o suficiente.

Ele se esforçou mais quando saiu da cozinha e foi até a sala, onde, no tapete, Zoe penteava os cabelos loiros e assistia a mais um de seus desenhos preferidos. Draco se sentou na ponta do sofá, olhando para a televisão e depois para a menina.

Draco ia abrir a boca para finalmente falar alguma coisa, mas Zoe se levantou e foi até a mesa pegar sua bolsinha. Dentro dela, tirou algumas moedas. Ela caminhou de volta para a sala e sentou ao lado do avô, entregando-lhe as moedas.

– Minha mamãe disse que eu precisava devolver as moedinhas que você me deu para comprar a água.

Ele ouviu aquilo com bastante surpresa na expressão.

– Não preciso – ele disse imediatamente. – Eu dei a você as moedas. Pode ficar com essas para quando precisar de outra água.

– O senhor me deu as moedinhas?

– Sim.

Zoe admirou as moedinhas nas suas mãos.

– Obrigada – ela disse abrindo um grande sorriso. – Eu gostei muito delas.

– Tenho mais algumas, se quiser ver.

Inacreditavelmente, Draco e Zoe encontraram algo em comum: eles adoravam moedas. Draco mostrou a ela vários tipos de moedas e uma que ele guardava no bolso esquerdo do sobretudo foi a que deixou a menina muito admirada.

– Não tem mais nenhum valor, mas... quando eu tinha sua idade, ganhei essa do meu avô. Ele lutou na guerra. Foi um grande soldado. Ele dizia que essa moeda deu sorte a ele, porque ele sobreviveu.

– Não tem valor, mas parece ser muito valiosa! – disse Zoe.

– Parece, não parece?

– Ela é bem gordinha, e pesada. Acho que é a minha preferida.

– Essa também é a minha preferida.

Não foi difícil. Zoe não era uma garota difícil. Ela podia ter escudos invisíveis que a protegiam, mas ela era uma garota extrovertida, gostava de conversar com as pessoas, era curiosa, inteligente e tinha sempre um assunto na ponta da língua. Scorpius sabia que era preciso dar espaço para que ela entrasse na vida das pessoas. Se você se fechava para ela, Zoe não entraria. Mas uma vez que desse a chance... Draco só precisou falar de moedas e já tinha toda a atenção de Zoe.

Segurando o pincel manchado de tinta amarela, Rose se distanciou da pintura para observá-la em um ângulo melhor. Precisou até inclinar a cabeça, pelo menos o suficiente para verificar a simetria. Ela costumava pintar rostos, gostava de expressões e usava muitas variações de tintas para isso, especialmente amarelas. Ela gostava de nomear suas pinturas pelas expressões. O rosto, em questão, estava pensativo. Pensativo, então, seria o nome da tela.

Esses momentos eram importantes para ela. Algumas pessoas precisavam espairecer e o recurso de Rose era pintar. Era o momento em que ela podia esquecer tudo... e entrar somente na sensação de sentir o pincel raspar suavemente a textura da tela. Na maioria das vezes, Rose não tinha ideia do que estava pintando. Descobria só depois que já tivesse terminado.

Naquele momento, ela foi interrompida com o barulho da batida na porta. Lavou a mão na pia do banheiro para atender. Atrás da porta, estava Scorpius. Ele trazia uma quieta e tranquila Zoe no colo, dormindo com a cabeça encostada no ombro dele.

Para não acordar a menina, os dois não disseram nada. Rose fez apenas um gesto com a cabeça para permitir que Scorpius levasse a filha até o quarto dela. Com o maior cuidado, ele pousou o frágil corpo de Zoe na cama; do outro lado, Rose afastava o cobertor para depois cobri-lo até os ombros dela. Ela se distanciou para fechar a janela do quarto. Enquanto isso, Scorpius beijava a testa de Zoe murmurando:

– Boa noite, coisinha.

Rose observou a cena. Nem em um milhão de anos poderia imaginar que Scorpius pudesse ser tão carinhoso. Claro que sempre notou o jeito que ele tinha com Zoe – um jeito que ele não tinha com mais ninguém. Mas era sempre um motivo para parar e encarar quando via o pai de sua filha finalmente cuidando dela.

Quando ele saiu do quarto e eles se entreolharam, Scorpius pareceu ter notado alguma coisa no rosto de Rose. Era uma mancha amarela na pele da bochecha, quase imperceptível, mas que começou a incomodá-lo profundamente.

Ele parou na sala, onde Rose esteve pintando um novo quadro. Scorpius não o ignorou, principalmente porque a cor era impossível de ser ignorada. O rapaz ficou parado em frente à tela, analisando-a como se fosse um crítico de arte.

Mas em questão de arte, Scorpius só sabia de uma coisa:

– Você sempre gostou de amarelo. Eu lembro.

– Zoe podia ter ficado com você hoje, se acabou dormindo – disse Rose, um sinal óbvio de que ela não sabia o que dizer ao comentário dele. – Podia ter me ligado. Não precisava ter vindo até aqui. Está tarde.

– Ela não estava com o travesseiro dela. – Foi a justificativa dele. – Não é? Ela não iria conseguir dormir sem o travesseiro dela.

Rose afastou um cabelo solto do coque frouxo que fez. Aquela merda de silêncio ainda se intrometia entre eles, mas no caso de Scorpius, ele prestava atenção na tela a sua frente e nem notava. Arquitetando um desvio do silêncio, Rose foi até a cozinha e voltou com um envelope na mão. Estendeu a Scorpius, e ele o pegou, abriu e leu a carta, curioso. Os olhos moviam-se rapidamente. Aos poucos, conforme lia as palavras e compreendia os significados delas, os lábios deles tracejavam um sorriso orgulhoso.

– É. Eu sabia que nossa filha é um gênio – ele comentou, erguendo a cabeça. Rose também sorria.

– A professora disse que ela teve uma pontuação acima da média nos testes de percepção. Acima da média para a idade dela. Eles acham que ela poderia avançar uma sala, e vão testar o desempenho dela nas próximas semanas.

– E o que a Zoe achou disso?

– Ela disse que só iria mudar de sala se a Amanda fosse com ela.

– A melhor amiga?

– Sim.

Riram, descobrindo o quanto Zoe era leal. Scorpius devolveu o envelope para Rose e o contato entre os olhos deles foi inevitável.

– Ela é ótima – ele disse baixinho, admirado, orgulhoso pela filha.

Rose não argumentou com ele.

Tiveram mais um silêncio. Mas, dessa vez, esse silêncio foi diferente.

Com um súbito movimento, ela quase teve a reação de recuar quando Scorpius ergueu o braço e tocou o rosto dela, perto dos lábios, para tirar aquela mancha de tinta amarela e irritante. Mas Rose não recuou. Foi tão rápido e abrupto o gesto que ela só teve tempo de sentir o polegar dele contra sua pele.

Suave, sem indícios de querer machucá-la.

A tinta já estava seca e não saiu. Scorpius afastou a mão, sem entender o que foi que ele acabou de fazer. O que ele acabou de fazer? Esperou Rose mandá-lo ir embora, mas ela estava quase tão surpresa quanto ele.

Seria fácil dizer que ele estava pensando em todos os dias que eles passaram juntos; em todos os beijos, em todas as transas, em todas as promessas que foram quebradas...

Mas Scorpius não estava pensando naquilo. Ele não estava pensando em nada. A vontade cresceu nele com tanto ímpeto que ele não conseguiu sair do lugar. Nem conseguiu se mover. Os músculos estavam inertes. Ele paralisou.

E então, como se alguém tivesse pressionado um dispositivo em seu corpo, Scorpius recuperou as funções de seus movimentos para fazer a única coisa que era capaz de fazer naquele momento.

Apertou o rosto dela com as duas mãos e a beijou, como quando você simplesmente faz para não perder a coragem logo. Scorpius precisava de coragem quando a coisa se tratava de Rose Weasley. Coragem e ousadia. Sabia que levaria um tapa na cara, mas precisava sentir a boca dela outra vez. Não por saudades, mas para comprovar alguma coisa. Comprovar que ele não tinha seguido em frente, no final das contas. Não como ela.

Ela não o empurrou, porque tinha notado o desespero nos lábios dele e a sensação passou por ela como uma corrente elétrica. As línguas se reconheceram e não se repeliram. Na verdade, elas se entrelaçaram. Com raiva uma da outra, por terem ficado tanto tempo separadas. Rose apertava a boca dele, tentando ter a vontade de empurrá-lo, mas essa vontade só aumentava ainda mais a força como eles estavam se beijando.

Quando Scorpius sentiu a mão de Rose puxando o cabelo de sua nuca e percebeu que ela estava correspondendo, ele pressionou o corpo contra o dela, quase esbarrando no cavalete atrás deles. Odiou-se por perder o fôlego tão rápido dessa vez, porque teve que desgrudar os lábios.

E isso pareceu acordá-los. Ele tentou buscar os lábios dela de novo, mas eles tinham cometido erros demais para serem impulsivos agora.

Soltaram-se imediatamente.

– Você deveria ir agora. – A voz de Rose estava distante e ela roçava os dedos nos lábios manchados.

– Sim – ele concordou veementemente, sem acreditar no que tinha feito.

Scorpius buscou os movimentos das pernas novamente e saiu pela porta depressa.

Scorpius decidiu que ele odiava elevadores, porque demoravam muito para descerem. Nessa descida, todas as merdas que Scorpius fez em sua vida ficaram rodando em sua cabeça, misturado a sensação de ter beijado Rose novamente. Não só isso, mas o disparo do tiro que quase o matou perseguia seus passos e agora ele achava que a qualquer caminhada ele poderia perder a vida.

Drástico, sim, pensar nisso. Mas necessário. Porque era verdade. Quem garantiria que ele, ou qualquer outra pessoa do mundo, chegaria vivo para a casa naquela noite?

Scorpius apertou o botão para subir novamente até o andar de Rose. Sua pulsação estava muito acelerada, ele se sentiu como um garoto que ia ao primeiro encontro com a garota que ele não merecia. Encostou a cabeça na porta do elevador, sentindo-se sem outras opções. Só havia aquela opção agora. Porque sabia que seria rejeitado, mas, de qualquer maneira, ele precisaria pelo menos tentar. Ele precisava da reação. Da certeza.

Então Scorpius voltou. Abriu a porta do apartamento com tudo.

Ele voltou tão rápido quanto tinha ido embora. Rose se deteve por um instante, ainda parada no mesmo lugar em que eles se beijaram. Viu a expressão de Scorpius quando ele ultrapassou a sala para chegar perto dela, e, dessa vez, ele não tinha nenhuma máscara. Todas as suas defesas estavam caídas. Rose pensou que ele a jogaria contra a parede, pois reconhecia aquela expressão feroz dele, mas o que ele fez foi completamente diferente.

Foi ainda pior.

Ele começou a quebrar o silêncio.

– Sabe o que é pior, Rose? É ver que você seguiu em frente. É ver em todas as malditas fotos o quanto você está bem. Sem mim. Na verdade, você está melhor sem mim. E de todas as coisas que você poderia ter feito para que eu pagasse por toda a merda que eu fiz a você... essa foi a pior de todas. Saber que, mesmo com uma filha minha, você não precisa de mim para nada.

Rose manteve-se calada. Isso irritou Scorpius.

– E quer saber? – ele confessou, rendido. – Eu não estou melhor. Não consigo seguir em frente, não consigo ficar sozinho por uma noite sem me perdoar por ter fodido tudo entre a gente.

– Por que está me dizendo essas coisas agora?

– Porque eu cansei. Estou fodidamente cansado do nosso silêncio. Você não me odeia, você não me despreza, você não grita comigo, você não tira satisfação... E eu preciso que você faça isso. Parece que não sou mais nada para você e eu não posso suportar isso. Então, por favor, grite comigo por eu ter te machucado. Me mostra que você se importa com o que eu te fiz, mesmo depois de todos esses anos. Eu preciso saber... – a essa altura quase não havia som na voz de Scorpius de tão baixa que ela estava – se você pode me amar de novo.

Ele não queria ter usado a palavra "amar", então simplesmente escapou da voz dele. Afinal, era exatamente o que ele queria saber.

Foi a vez de Rose quebrar o silêncio dela.

– Eu não te culpo por nada do que aconteceu. A culpa foi minha, por ter confiado em você. E talvez eu tenha tentado reunir por sete anos algum tipo de fôlego para berrar no seu ouvido que você fodeu com o meu coração, e eu só não estou fazendo isso agora para não acordar a Zoe. E, sim, talvez eu possa te amar de novo, mas o problema é que eu não quero. A última vez que isso aconteceu, fomos um desastre. E eu não pretendo repetir a dose. Eu demorei muito e trabalhei muito para chegar onde eu estou agora.

– Onde você está? – Scorpius estava ofegando.

– Em um lugar que eu superei você. E estou muito feliz onde eu estou.

– Está? – ele duvidou. – Está feliz?

– Sim.

Scorpius se recusou a acreditar nisso. Porque era tão injusto, injusto. Ou talvez realmente fosse tudo o que ele merecia. Ele não era feliz. Não era feliz desde que Rose terminou com ele e, tentando esquecê-la, ironicamente usou milhares de mulheres para isso.

Mas como era possível esquecê-la, sendo que ele tinha uma filha que ele amava e o lembrava tanto de Rose? Como um dia poderia superar o que os dois tiveram? Como ela conseguia superar o que os dois tiveram?

– Eu sei que eu desisti da gente – ele murmurou, cansado. – Eu me expliquei milhares de vezes por ter sido tão idiota. Não vou tentar me explicar de novo. Eu sei que eu errei. E ainda lembro tudo o que você disse pra mim. Pisei em você como se fosse um cigarro. E a pior parte é que eu nem me lembro daquela garota. Foi insignificante. Eu perdi você por causa de uma noite que não significou nada para mim.

– Não foi só por causa disso – ela retrucou.

– E depois de uma semana você me ligou. Você lembra? Sabe aquela sensação de alívio por achar que você poderia me dar mais uma chance? Eu tive aquela sensação.

– Mas eu estava grávida. Então você desistiu de consertar tudo.

– O que você queria que eu fizesse? Implorasse quando na verdade tudo o que você queria de mim era que eu ficasse longe? Eu não sou assim. Se você não me deixa entrar, eu não entro. Eu não insisto.

– Era exatamente o que você deveria ter feito, Scorpius. Se você ama, você corre atrás. Você nem sequer se esforçou.

– Nunca me esforcei? – ele olhou para ela inconformado. – Todas as minhas desculpas nunca eram o suficiente para você! O que você queria que eu fizesse? O que você quer que eu faça agora?

Agora eu não quero que você faça nada. Acabou, Scorpius. Não existe mais nada entre a gente. Nada.

– Existe! – ele discordou, tentando com muito custo não aumentar a voz. – E está dormindo ali no quarto.

Rose olhou para ele com outra expressão. A expressão de que, dessa vez, Scorpius tinha alguma razão no que estava dizendo.

– Ela não merece pagar pelos erros que nós dois cometemos – ele continuou. – Sabe o que eu pensei quando ela me ligou para contar que vocês voltariam pra Londres? Eu pensei que ia fazer o meu melhor. Eu pensei que eu ia me esforçar mais dessa vez, agora que ela estava por perto. Tentei. Nada era o suficiente. Falhei tantas vezes que é vergonhoso. E eu percebi, agora, que não há nada que eu possa fazer pela Zoe se, no final do dia, eu preciso me despedir dela e voltar sozinho pra minha casa, porque nós dois não estamos juntos. Eu não tenho sido nada, Rose, nada sem você. Muito menos um pai.

Não deu tempo do silêncio prevalecer depois daquela declaração. Espantada por ouvir aquelas palavras depois de tantos anos, Rose seguiu com o olhar lacrimejante os passos de Scorpius para fora de sua casa, ele sem notar que também tinha manchas da tinta amarela no cabelo.


Aconteceu tanta coisa nesse capítulo que nem sei o que dizer nas notas finais. Tivemos um Scorpius recusando a firma para ter tempo para Zoe, um Scorpius chorando pela morte da mãe depois de anos, um Scorpius tentando ajudar o Draco. Tivemos um Draco tentando se redimir, conversar com Zoe e conquistar a confiança da menina. Tivemos um beijo. Uma declaração. Tivemos bastante coisa, enfim. Espero que tenham gostado! Por favor, comentem, comentem e comentem, eu preciso saber o que mais estão achando de Fix You. Até os próximos capítulos!