PRIMEIRA VEZ
"Songbook", de Nick Hornby não é um livro teatral. Era um conjunto de crônicas e críticas do autor inglês a respeito de canções que ele gostava ou que serviam de trilha sonora de algum momento. Em resumo, era uma relação direta da música com memórias específicas. Linus Collins pegou esse livro de crônicas, quase jornalístico, e o converteu numa narrativa sobre a trilha sonora da vida preservando considerações e observações de Hornby. São cinco atos de cinco personagens: Rob, Sally, Charlie, Jamis e Christina, sendo o sexto, Nick (interpretado por Mike, que ganhou o papel no suor dos ensaios), o ponto de ligação entre eles.
Christina era a minha personagem. Era uma jovem estrangeira (falava três linhas em espanhol na peça), filha de um norte-americano, que se apaixonou pelos Estados Unidos não pelas memórias do progenitor e sim pelos relatos de Danny, filho de um amigo do pai. Ela se apaixona pela música, pela dança e pela televisão. A versão de "First I Look at The Purse", de J. Geils Band, que foi a mais perfeita personificação desses desejos. Era a imagem da excitação. Então ela tem a chance de ir aos Estados Unidos, a Nova York, e começa a ter problemas de relacionamento com o pai por causa do desejo que tinha em experimentar o modo de vida americano, era uma obsessão. Eventualmente, ela fica na cidade. Com o passar do tempo, Nova York perde as cores mágicas e torna-se apenas uma grande cidade. É quando "First I Look at The Purse" muda o sentido: torna-se realidade.
"Some fellas look at the eyes/ Some fellas look at the nose/ Some fellas look at the size/ Some fellas look at the clothes", eu quase berrava. Tinha de colocar fúria e excitação na minha voz. "I don't care if her eyes are red/ I don't care if her nose is long/ I don't care if she's underfed/ I don't care if her clothes are worn/ First I look at the purse!/ Some fellas like the smiles they wear/ some fellas like the legs that's all/ some fellas like the style of their hair/ want their waist to be small/ I don't care if their legs are thin/ I don't care if their teeth are big/ I don't care if their hair's a wig/ Why waste time lookin' at the waistline?/ First a look at the purse."
Sim, Christina torna-se uma garota de programa em Nova York. O diretor James Golvi entendeu que eu era perfeita para o papel por não exalar sexualidade e todas as profissionais da cama que ele conhecia – as caras e discretas (James conseguia listar pelo menos 20 tipos diferentes de garotas de programas, era impressionante) –, eram assim: só se tornavam-se sexuais durante o ofício. O resto do dia eram mulheres reservadas. E Christina estava contando sua história, não trabalhando. Foi um desafio e tanto interpretá-la.
Eu interpretava outras personagens secundárias nos outros quatro atos e fazia mais dois solos: "You Had Time", de Ani DiFranco, no ato de Jamis (uma estudante universitária em crise com a sexualidade); e "Your Love is The Place Where I Come From", do Teenage Fanclub, que não era de ato algum, mas que era a música de Nick e também servia como resumo de "Songbook". Era encenada no final da peça comigo cantando a Nick. "Your sadness don't lie/ your feelings can't hide/ you always know why/ but your reasons are sly/ you neves deny/ what you fell inside/ i desappear when you're not here/ in my life". Os outros cinco harmonizavam comigo. "I can't slip away when i see your face/ i lose my confusion/ your Love is the place where i come from/ when i'm on my own i'm lost in space/ my freedoms a delusion/ your Love is the place i come from".
A estreia na sexta-feira foi um marco para mim. Foi aterrorizante e lindo ao mesmo tempo. Estava nervosa como nunca: é diferente você encarar um auditório fazer uma coreografia, uma dança e ir embora. Teatro, em especial naquele formato econômico de musical onde o peso da interpretação dramática vale muito mais do que a potência da sua voz, era muito mais difícil. E tinha as trocas, as marcações, as falas. Esqueci três ou quatro linhas ao longo da hora e dez minutos de apresentação, precisei improvisar e numa delas, Mary Stein perdeu a deixa. Os outros também cometeram erros. Fora que fui terrível durante todo o primeiro ato. Sean Lewis quis me esgoelar na coxia e Quinn (que estava como assistente de palco) o segurou. Comecei a me recuperar no segundo, quando fazia meu primeiro solo. O ato em que era protagonista era apenas o quarto. Até lá, consegui me recuperar. O final foi apoteótico para os seis sobreviventes.
A platéia aplaudiu de pé. Nós nos curvamos, agradecemos a presença do público e saímos excitados para a coxia, combinando sair para comemorar o sucesso.
"Podem vadiar como bem entender, contanto que cheguem exatamente às oito da manhã aqui amanhã" – esbravejou James – "É por isso que eu reservei essa estreia para parentes de vocês, convidados, amigos. Eles não criticam. E quando fazem, atenuam. Não vão comentar o desastre que foi. É por isso que não chamei nenhum crítico nessa semana. Estaríamos arruinados! Saiam daqui, todos vocês. Amanhã vamos trabalhar em cima dos seus defeitos. Vamos trabalhar duro em cima disso durante a semana. Entendido?" – nenhuma palavra foi mencionada – "No mais, obrigado..." – o tom de voz amaciou – "Eu sei que vocês estão cansados. Tem sido difícil... mas haverá recompensas."
Fui até o hall de mãos dadas com Quinn. Ela me consolava. Mike e Ângela vieram logo atrás. Gostava de Ângela: ela era calma e gentil. Santana veio ao nosso encontro primeiro sorrindo, depois ponderou.
"James?" – há muito Santana estava ciente do temperamento do nosso diretor. Foi fácil para ela ligar os pontos. Então apenas acenamos – "O que vai ser? Pizza ou comida chinesa?"
...
Meu pai, Shelby e Beth chegaram à cidade pela manhã, mas só visitaram nosso apartamento no final da tarde. Santana seria babá da nossa pequena irmãzinha enquanto estivéssemos fora, no Flea. Como sempre, Santana pulou em cima de Beth para brincar e fazer cosquinhas antes mesmo de dizer "oi" para nossos pais. Quinn se manteve ao meu lado. Não devia ser fácil para ela manter-se mais fria e controlada diante da pequena. Abracei meu pai e depois Shelby. Santana fez o mesmo com Beth no colo. Quinn e Mike cumprimentaram respeitando a distância. Eu apresentei "oficialmente" a minha namorada. Não é que eles não soubessem. Foi apenas uma questão de formalidade e meu pai ainda fazia questão de algumas delas. Também era algo importante para Quinn que, mal ou bem, foi criada num meio ultraconservador e se sentia à vontade com tradições. Depois da peça, eu e Quinn iríamos sair para jantar com Shelby e meu pai. Com toda certeza ele ia perguntar algo do tipo: "quais são suas verdadeiras intenções?", como aconteceu quando apresentei Finn. Acreditei que fosse uma brincadeira por parte de papai, mas para meu pai, a "descontração" tinha o seu fundo sério.
"Então esse é o tal apartamento?" – meu pai deu uma inspecionada rápida – "Não é mal."
"Não seja despeitado, Juan" – Shelby ainda estava abraçada a mim – "isso daqui é quase um palácio se você considerar o pouco dinheiro das meninas" – Santana soltou Beth no chão e Quinn sentiu-se mais confiante para sentar no chão e chamar a filha para brincar. Mike acompanhou.
"Todos os nossos móveis são de terceira... muitas mãos" – Santana apontou para o nosso sofá – "aquele ali a gente catou na rua mesmo."
"Eu lembro a época da faculdade" – meu pai sorriu discreto – "Volta e meia tinha de ajudar alguns amigos a carregar sofás, camas, tapetes... Mas para mim mesmo, nunca precisei."
"Claro, o senhor era membro de uma fraternidade!" – Santana desdenhou.
"Sério?" – Shelby ficou interessada – "Como um garoto babaca da fraternidade foi ter um magnífico e apaixonado casamento gay?"
"Primeiro, isso é preconceito! Nem todo membro de fraternidade é idiota. Eu confesso que o meu primeiro encontro com Hiram não foi dos mais felizes... e você não podia me culpar... eu era um cara que só tinha namorado mulheres até então e ainda tinha sido jogador de futebol a vida inteira. Mas sou grato por ter dado uma chance a Hiram. Ele me tornou uma pessoa melhor."
"Papi quebrou o nariz do papai com um soco" – Santana explicou melhor a Shelby e tinha um carregado tom cínico. Os dois não tinham se entendido ainda desde que deixamos Ohio.
Mike e eu fomos mais cedo para o Flea. Tinha até medo de deixar meu pai e Santana sozinhos com a pequena Beth no fogo cruzado. Os atores tinham de chegar pelo menos uma hora antes da peça para se prepararem da melhor forma. Quanto mais cedo, melhor, no entanto. Mike e eu entramos em nossos camarins (um feminino e um masculino). A maquiagem era o momento em que procurávamos esquecer o mundo lá fora e pensar só na peça, em nossos personagens. Era um exercício para senti-lo entrando em nós. Tiro minha saia, colocou o vestido e eu era Christina. Naquele sábado, posso garantir, todos conseguimos ser bem melhores do que a "sexta-feira trágica", como James havia pontuado. Ainda cometemos erros, mas não tão graves quando os da estréia. A platéia aplaudiu mais, pudemos sentir isso. James disse que "melhorou". Vindo dele era um tremendo elogio.
Saí do Flea mais animada ao lado de Quinn e dos meus pais. Meu pai nos levou a um elegante restaurante japonês que servia um delicioso tanuki udon e outras sopas fantásticas. Eu comi sushis vegetarianos e uma sopa de algas com macarrão de soja espetacular. Não tive receio de pedir dois pratos: não sabia quando poderia voltar a comer ali. Conversamos generalidades, evitamos assuntos amargos. Foi como se estivéssemos medo de brigar como da última vez, e tinha Quinn, que não merecia presenciar mais uma briga de família.
"Está faltando alguma coisa para vocês?" – essa foi a primeira pergunta séria da noite – "Seja sincera, Rachel."
"As coisas não são mais como era viver com o senhor e papai naquele casarão. Eu sinto falta da nossa biblioteca, do meu quarto, de ter uma televisão... às vezes, até da piscina." – sorrimos e meu pai segurou minha mão, como se me encorajasse contar algo ruim. Era assim que ele fazia para me fazer abrir sobre um assunto desagradável – "Não temos luxo, Santana quase surtou quando eu comprei com o meu salário uma dessas pequenas cômodas de plástico montáveis que são vendidas em lojas de departamentos. Mas a gente precisava de um lugar urgente para abrigar melhor nossas... roupas de baixo... enfim" – encarei meus pais – "Nosso dinheiro é contado e trabalhamos duro para ganhar pouco, por outro lado, nada nos falta. Não podemos arcar uma refeição num restaurante como esse, mas temos nossas alternativas. Não passamos fome, estamos bem de saúde, e estamos felizes porque a gente tem essa oportunidade para sair da sombra do senhor, de sua asa, e construir a nossa história" – olhei para Shelby, que parecia orgulhosa.
"Por mim, Rachel, nem você e nem Santana sairiam da minha asa. Nunca! Eu tenho sim orgulho em saber que minhas filhas estão batalhando, crescendo..." – apontou para Quinn – "encontrando o amor" – voltou a segurar a minha mão – "mas ficaria mais feliz se vocês fizessem tudo isso na faculdade." – meu pai pegou a carteira dele e começou a preencher um cheque. Shelby me encarou encorajadora e fiquei com a impressão que os dois combinaram isso antes.
"Pai!" – protestei – "Qual a parte do 'nada nos falta' o senhor não entendeu?"
"Eu sei que disse que jamais te ajudaria financeiramente se fosse procurar fama antes da faculdade. E sim, ainda não consegui perdoar Santana pela apunhalada nas minhas costas" – terminou de preencher, destacou o papel e me entregou o gordo cheque de cinco mil dólares.
"Pai, eu não posso aceitar!" – devolvi. Meu orgulho falou alto.
"Pode e vai! Pense nesse dinheiro como fundo de garantia. Vai chegar um ponto que você vai precisar comprar um sapato e Quinn merece ter uma cômoda de roupa íntima, não é verdade?" – suspirei derrotada. A gente tinha dinheiro para o básico, mas não para o vestuário, devo admitir. E Quinn precisava mesmo de uma cômoda – "Quero que você desconte esse cheque já na semana que entra e guarde o dinheiro para essas necessidades e emergências. Compre uma televisão se quiser e diga a Santana que foi presente meu... ou não diga nada. Pronto!"
"O senhor já parou para pensar no tamanho da confusão que vai me meter com a minha irmã?"
"O bem-estar de vocês duas está em primeiro lugar. Está acima do orgulho de Santana ou do meu. Por isso vamos estabelecer um acordo aqui: vou mandar esse valor a cada dois ou três meses diretamente a você. Isso é independente da metade do aluguel que eu me comprometi a pagar assim que começarem as aulas."
"Qual a contrapartida?"
"Que vocês nunca se esqueçam que tem pai e que tem mãe, principalmente nos grandes feriados" – Shelby respondeu.
"Pai... tem duas escolas públicas que eu gostaria que o senhor considerasse para a minha transferência. E de Quinn, se o senhor puder ajudar."
"Verei isso no tempo apropriado. E claro que também posso ajudar Quinn com as questões burocráticas. Será um prazer, na verdade."
"Obrigada doutor Lopez! Eu confesso que estou perdida com a papelada."
Diferente do que aconteceu na última vez, o jantar com meus pais terminou bem. Meu pai e Shelby se permitiram, inclusive, trocar pequenas carícias na minha frente e de Quinn. Eles formavam um casal bonito. Na ausência de papai, Shelby seria mesmo a minha primeira opção para ficar ao lado do meu pai. Nós quatro voltamos ao apartamento, que estava escuro e quieto. Reparei que havia um prato sujo de chocolate e banana em cima da mesa e Shelby fez cara de desaprovação. Não era difícil ligar os pontos e concluir que Santana deu doces para Beth. As duas em questão foram encontradas adormecidas em cima da minha cama. Santana estava curvada, quase caindo da cama, para dar mais espaço à pequena e servir de proteção ao mesmo tempo para que Beth não caísse. Era uma cena fofa. Shelby agachou e deu um beijo carinhoso no rosto de Santana para acordá-la antes de ter a chance de pegar Beth.
"Mãe?" – disse baixinho, quase caindo da cama – "Que horas são?"
"É tarde... preciso levar a sua irmãzinha para casa."
"Ok!" – levantou-se meio grogue de sono, com o cabeço bagunçado e a camisa suja... de chocolate. Das duas estavam. Sujas na minha cama! Típico!
...
O primeiro fim de semana da peça foi de casa cheia. Os nomes de James Golvie e de Roger Benz sobressaiam até em um teatro mínimo com atores estreantes e um roteirista desconhecido. Mas não tivemos folga e ensaiamos a exaustão até a quinta-feira para encararmos os críticos na sexta e sessões duplas no fim de semana. Estávamos todos nervosos e ansiosos para a avaliação da crítica. Era também uma platéia sem rostos conhecidos (não tivemos direitos a convites naquela semana) e o cara de barba sentado logo à frente com camiseta listrada podia tanto ser um espectador comum quanto um jornalista. O crítico não tinha rosto e não sei dizer até que ponto isso afetou a minha atuação e do grupo, mas gozamos de palmas entusiasmadas no final. James não comentou e sequer fomos apresentados aos jornalistas. No sábado, tudo foi melhor.
Segunda-feira foi um dia de folga, o primeiro que tínhamos em duas semanas árduas de trabalho. Acordei tarde naquela manhã com Quinn sentada na minha cama com o jornal aberto nas páginas da editorial cultural.
"Você quer que eu leia agora ou depois do café?" – analisei o rosto da minha namorada, mas ela era muito difícil de presumir o que ela estava pensando quando levantava apenas uma sobrancelha e ficava séria. Era frustrante.
"Depois do café?" – acho que estava entrando em pânico.
Ela simplesmente fechou o jornal e saiu do meu quarto. Suspirei um pouco aliviada. Juro que Quinn podia ser a pessoa mais complicada e imprevisível do mundo quando queria e fazia isso sem o menor traço de culpa ou compaixão com quem estivesse próximo. Sem mais o que fazer, levantei-me e fiz a minha higienização antes de comer bananas com mel e granola enquanto observava o movimento da rua através de nossa janela. Tinha muito que fazer naquele dia: finalmente descontar o cheque do meu pai, comprar o presente de aniversário de Quinn – ela faria 18 na quarta-feira –, e fazer algumas compras emergenciais no mercado.
"Mike?"
"Saiu logo de manhã."
Enquanto comia e listava mentalmente as minhas tarefas do dia, Quinn ficou sentada no sofá lendo um livro. Só fui conhecer esse lado dela quando passamos a morar juntas. Eu costumava cumprir a minha responsabilidade mensal com a literatura. Santana e Mike não eram diferentes de mim. Quinn, por outro lado, devorava um livro por semana em média. Depois da missa dominical, ela costumava passar num sebo e se perdia por lá por algumas horas. Eu tentei acompanhá-la uma vez, mas não tive paciência e Quinn acabou se irritando comigo. São coisas que nunca vou entender. Quando vou a uma livraria, eu sei exatamente o que quero e sou objetiva. Quinn? Não! Primeiro ela precisa estabelecer uma "relação" com o livro candidato, compará-lo com outros, tocá-lo, ler a orelha, folhear e às vezes até cheirar. Uma hora e meia depois é que ela decide qual levar. Na semana seguinte é o mesmíssimo ritual.
"Você pode ler a crítica agora... se quiser." – disse enquanto preparava para lavar a louça e organizar a cozinha ainda bagunçada do café.
"É a metade de uma coluna, aviso logo" – Quinn colocou o marcador no livro e com calma abriu o jornal. Prendi a respiração.
Improvável Hornby
Entre tantos romances melhor adaptáveis para outras artes do autor de 'Alta Fidelidade', o sempre audacioso diretor James Golvi resolveu adaptar logo 'Songbook', um livro de crônicas e críticas musicais ao teatro. O agradável resultado do pseudo-musical de mesmo nome da obra inspirada pode apreciado em sessões de fim de semana no off-off-Broadaway The Flea. As crônicas do inglês Nick Hornby foram inusitadamente transformadas em histórias de cinco personagens que em comum tinham a amizade com Nick (Mike Chang) e uma vida repleta de angústias de quem está sendo chutado da adolescência para encarar a vida adulta. Golvi arriscou em convocar um elenco de amadores selecionados às pressas, boa parte pré-selecionado diretamente de um concurso nacional de corais realizado no final da primavera no Bronx. A forma de seleção foi encarada com ceticismo no meio, mas os instintos do diretor estavam certos: os inexperientes levaram ao palco do Flea o frescor necessário para o desenvolvimento dos personagens. Golvi teve todo o mérito no descobrimento de Mike Chang e Josh Solano, que desempenham respectivamente na peça o alterego asiático de Hornby e o selvagem ciclista Rob. Os jovens são os melhores do elenco e devem tornar-se rostos recorrentes na comunidade teatral de NYC. Rachel Berry-Lopez é outra jovem promissora que embora precise aprimorar a movimentação no palco, tem uma voz capaz de derreter o coração gelado de qualquer crítico. A interpretação da jovem na pele da prostituta Christina em First I Look at The Purse é surpreendente, além de ser potencial hit maior de 'Songbook'. O repertório da peça foi outro grande acerto do diretor Golvi: em vez de se deixar levar pelo próprio gosto musical, como muitos outros que adaptaram Hornby, sabiamente preservou as canções comentadas pelo escritor inglês...
Interrompi a leitura de Quinn com pulos e gritos. Já seria bom demais ter uma crítica positiva no New York Times. Mas uma crítica positiva e um elogio individual (mesmo com uma pequena crítica no meio) era mais do que poderia sonhar. Estava decidido que a meia coluna seria emoldurada. E ainda tinha de comprar mais cópias porque precisava distribuir parta a família. Tinha abuela, zaide, Shelby, meu pai, tia Rosa... e uma para o professor Schuester.
"Você vai ter um ataque do coração!" – Quinn me segurou.
Não me fiz de rogada e a beijei, desses beijos de tirar o fôlego. Deixei-a vermelha quando nos separamos.
"E você fazendo mistério!" – reclamei sorrindo – "Pensava que era uma crítica destruidora."
"Um pequeno mistério não faz mal a ninguém" – então Quinn passou um dos braços na minha cintura e me aproximou do corpo dela de um jeito que deixava as minhas pernas bambas, fora a respiração quente perto do meu pescoço que fazia todos os pelos do meu corpo se arrepiar. Quinn tinha esse poder sobre mim e conseguia exercê-lo em poucos gestos – "Que tal um cinema hoje à noite?" – sussurrou no meu ouvido antes de beijar o ponto próximo a minha orelha que me fazia meu coração descompassar e a minha respiração ficar ofegante.
"C-c-claro!" – ela continuou a doce tortura que me deixava úmida em lugares impróprios.
"Sete horas? Você e eu? Cinema e jantar?" – a outra mão boba chegou até o meu seio. E a mão não tinha timidez alguma.
"Hummm"
"Vou entender isso como um sim" – me largou de repente e ainda bem que a pia estava ali perto para eu poder me apoiar e não cair.
"Você é má" – pontuei cada palavra.
Estava tonta e frustrada. Há dias que Quinn vinha fazendo esse tipo de jogo: de me seduzir de um jeito todo erótico e me largar logo em seguida. Aquilo era diferente dos agarramentos desesperados no porão: era mais denso. Estava começando a ficar frustrada sexualmente com as súbitas interrupções. Muito frustrada!
"Vou sair. Preciso terminar aquele freeler do senhor Weiz e Roger mandou que eu passasse no Flea pela tarde para ajudá-lo em algo novo. Volto lá pelas seis" – pegou as coisas dela e me deu um beijo rápido antes de sair. E eu ali, esquecida do que tinha de fazer.
...
"Uau" – Santana entrou no nosso quarto jogando as coisas dela pelo chão e eu respirei fundo para não me irritar. Ela era uma bagunceira neste sentido enquanto eu gostava das nossas coisas todos no lugar apropriado. Mas ignorei que Santana já estivesse sentada na minha cama para tirar os tênis e jogá-los em qualquer lugar do quarto – "Quinn está toda arrumada lá na sala. Vocês vão sair?"
"Vamos ao cinema" – estava terminando de pentear o meu cabelo. "É um encontro".
"Vem aqui!" – Santana pegou o estojo de maquiagem – "Nem parece que está usando batom. Se aquela loira gelada está uma deusa, você não pode parecer menos."
"Você achando Quinn bonita?" – ajoelhei-me na frente dela e fechei os olhos para ela passar a sombra.
"Nunca disse o contrário. Só a acho uma baita bitch que nem sempre joga limpo." – Santana trabalhou rapidamente no meu rosto. Era boa nessas coisas. – "Pronto!" – disse uns cinco minutos depois – "Está linda!"
"E a roupa?" – estava insegura.
"Bem Rachel Berry-Lopez." – ela abriu o closet – "Vista essa blusa daqui. Vai ficar melhor com essa calça jeans e..." – tirou outra peça de roupa do armário – "com esse casaquinho."
Saí do meu quarto confiante, mas os meus olhos se iluminaram quando vi a minha namorada de salto alto e jaqueta preta. Não conhecia este lado de Quinn: o da garota matadora, sexy. Estava habituada em vê-la em vestidos florais, de cores suaves, ou como uma adolescente comum que calçava all star. Encontrá-la de jeans justo, uma blusa que revelava suas curvas e, uau... agradeci por Santana ter me ajudado ou me sentiria uma virgem caipira ao lado dela.
"Você está linda!" – ela me deu um beijo de leve e pegou a minha mão – "Podemos ir?" – ainda estava sem palavras.
"Traga-a de volta às onze" – ouvimos Santana gritar do quarto. Revirei os olhos.
Quinn me levou para assistir "Cyrus", um filme independente que estava em cartaz num pequeno cinema e charmoso em Upper West Side, área nobre de NYC próxima ao Central Park. Foi uma surpresa. Imaginava que ela me levaria para ver "Rede Social", no cinema que ficava perto da nossa casa. Confesso que o filme e o local que nós assistimos tinham muito mais a cara da minha namorada. Era a história de um homem pouco atraente que se apaixonava por uma mulher linda, mas quando ele achava que estava tudo muito bem, conhece Cyrus, o filho dela. Eu podia ter um largo vocabulário, mas Quinn era a verdadeira intelectual. Podia-se notar essas coisas nos pequenos e espertos comentários, na atenção com que ela acompanhava a história ou das piadas que ela ria enquanto eu sequer entendia o porquê da graça. Nos momentos mais lentos da história, Quinn beijava a minha mão, puxava gentilmente meu braço para fazer pequenas carícias e eu deitava a minha cabeça nos ombros dela. Estava numa noite excepcionalmente romântica, podia-se dizer.
Depois do filme, fomos até o Calcutta Café, um restaurante indiano de preço justo e ambiente formidável. Diferente dos restaurantes badalados daquela região, lá se podia sentar à mesa e conversar sem precisar falar alto ou gritar. Sem falar que tinha cardápio vegetariano com boas opções. Experimentei o exótico Aloo Gobi Muttar, que era feito com peras, couve-flor e tomates cozidos em molho curry. Estava perfeito. Quinn, por outro lado, e carnívora do jeito que era, não teve o menor pudor em comer um tremendo de um pedaço de filé grelhado com cogumelos e especiarias. O amor dela por mim terminava num prato de bacon, eu podia apostar. Para a sobremesa, um firni (espécie de arroz doce) para mim e um baklava (pão de mel) para Quinn. Bebemos refrigerante, mas compramos chá gelado para levar. Por alguma razão, Quinn disse que seria útil depois.
"Estou no céu" – andamos despreocupadas de mãos dadas pelas ruas e mascando chicletes. Mesmo àquela avançada hora da noite, estava cheia – "Essa noite está perfeita".
"Fico feliz" – ela foi me conduzindo ao quarteirão ao lado sem eu sentir.
"Eu te amo Quinn Fabray"
"É o seu estômago saciado que está dizendo isso" – ela riu discretamente, mas eu a parei.
"Não digo isso por causa do encontro." – e a encarei nos olhos para que tivesse certeza da minha seriedade. Era a primeira vez que dizia isso para ela no sentido real, pleno – "Eu te amo Quinn Fabray."
Quinn sorriu ainda mais e me beijou no meio da calçada com paixão.
"Estamos quase lá!" – pegou mais uma vez na minha mão e recomeçamos a caminhar.
Paramos em frente a um edifício de fachada elegante, desses com apartamentos de pessoas ricas. Quinn me mostrou um cartão, digitou um código e abriu a portaria.
"Como?" – estava surpresa.
"O senhor Weiz ficou muito satisfeito com o meu trabalho e decidiu me conceder um favor."
Subimos até o sétimo andar e andamos até o fim do corredor de poucas portas. Quinn passou novamente o cartão e digitou o código. Entramos num apartamento de decoração econômica sofisticada. A sala elegante tinha quadros de fotos, móveis de madeira escura, tapete claro, um jarro enorme no canto da parede. Quinn deixou que eu explorasse um pouco o ambiente enquanto guardava o chá gelado na pequena geladeira da cozinha (apesar daquele flat não ser exatamente um lugar que as pessoas iam para fazer um almoço).
Andou em minha direção, como uma encantadora predadora, me pegou do jeito que me deixava com as pernas fracas e me beijou com calma, com suavidade. Ela estava me preparando, me encorajando. Eu podia sentir. Toda a sedução, o jantar, o passeio... tudo era uma preparação para que aquele fosse o dia.
"Eu sei o que você está pensando" – disse pausado, com cautela – "O encontro, esse apartamento, nada disso significa que a gente deva fazer algo além de nos beijar. Eu só queria te proporcionar uma noite especial e depois dormir abraçada ao seu lado em um bom lugar, sem ninguém para nos criticar ou interromper."
Olhei para Quinn e só havia sinceridade naqueles olhos esverdeados. Era verdade que desejava dormir abraçada comigo, de um jeito todo inocente. Por outro lado, o olhar dela era de pudo desejo. Eu também a desejava, a amava e sabia que era a pessoa certa. Que aquele era o momento certo, mesmo sem eu ter planejado com antecipação, como teria feito se ainda fosse a velha Rachel de Lima. Peguei na mão de Quinn e a puxei para o quarto. Meu nervosismo era evidente, mas disse a mim mesma que levaria adiante. Àquela altura, não reparei em decoração, tamanho do cômodo, nada. Eu só tinha foco em Quinn, nos seus olhos sábios e no seu sorriso lindo, perfeito. Nunca me senti tão amada quanto nos braços dela.
Ela fez com que eu me sentasse na cama. Tirou os meus sapatos e os dela. Então me conduziu até o centro da cama e deitou-se sobre mim. As roupas foram sendo perdidas aos poucos e Quinn fez um bom trabalho para que eu pudesse me sentir um pouco mais à vontade com a minha nudez e a dela. Não era tão fácil assim se expor para alguém pela primeira vez. Nós trocamos carícias e ela explorou as partes virgens do meu corpo com calma e paciência. Quando eu me senti preparada e confiante o suficiente, os dedos de Quinn penetraram e tomaram a minha virgindade. Lágrimas correram pelo meu rosto. Quinn me fez sentir completa.
Acordei com a pele suave do peito e do ombro nu de Quinn contra o meu rosto. Os braços dela me envolviam protetores. Podia sentir pequenos beijos contra a minha testa. Amanheci diferente, não sabia como explicar, mas estava me sentindo amadurecida. Eu não podia desejar uma primeira vez melhor. Tudo foi perfeito: as minhas mãos atrapalhadas e inexperientes que provocaram risadas em Quinn, as reações estranhas e prazerosas que experimentei pela primeira vez, até mesmo a dor e o incômodo da penetração teve o seu valor. Foi perfeito porque foi Quinn, porque foi feito por alguém que eu amava e confiava. Foi uma das manhãs mais felizes da minha vida.
"Bom dia, minha lady" – Quinn se ajeitou para que pudéssemos conversar frente a frente. Fiquei ainda mais admirada de como ela era linda. Parecia um anjo. De tirar o fôlego com os loiros finos espalhados pelo travesseiro e uma feição leve, tranqüila – "Amanheceu bem?"
"Melhor impossível" – nos beijamos.
"Tudo bem mesmo?" – apertou os olhos, como se quisesse analisar todas as minhas feições – "Sem dores, nada?" – entendi a razão da pergunta porque ela comentou certo dia, durante uma de nossas conversas sobre sexo, que se sentiu péssima e dolorida no dia seguinte e que não gostaria que o mesmo acontecesse comigo. Santana tinha um depoimento semelhante e acho que no caso da minha irmã foi pior. Quinn poderia ficar tranqüila. Eu estava bem e feliz.
"Lá, está um pouco dolorido. Mas não de um jeito ruim."
"Hum" – a mão dela desceu pelo meu torso até descansar pelo meu quadril – "Quer uma massagem?" – assim que acenei positivo, Quinn me beijou, me fazendo deitar de costas no processo. Os lábios dela desceram pelo meu corpo e logo eu estava a gritar o nome dela enquanto recebia a minha massagem.
...
Mercedes chegaria ainda naquela terça-feira histórica, no início da noite. Depois de deixar o apartamento do senhor Weiz pouco depois da hora do almoço, Quinn e eu voltamos para casa, trocamos de roupa e saímos para uma tarde nem tão romântica assim. Precisávamos fazer algumas compras para o apartamento e para nós, como a cômoda de plástico de Quinn, roupas básicas, pois as nossas da labuta diária estavam surradas demais. Tinha a televisão também. Todo mundo sentia falta de assistir um noticiário ou um programa bobo só para esfriar a cabeça e a telinha do computador não era confortável. O dinheiro do meu pai não era para essas coisas? Não estávamos fazendo tudo certo com o nosso próprio? Então iria fazer um bom uso.
Gastamos pouco mais de mil dólares nessa brincadeira e tivemos certo trabalho para colocar tudo no táxi. Achei ótimo quando entrei no apartamento e encontrei Mike e Ângela trocando saliva no sofá de casa. Não era pelo namoro, mas pelo par de braços e pernas extras para ajudar a carregar as coisas. Nosso amigo e nossa colega ajudaram a trazer as compras. Mike carregou a caixa da televisão e o pequeno raque (um meia boca de encaixe que parecia mais um caixote com uma prateleira no meio que estava a venda no setor de usados da loja). Enquanto Quinn e eu arrumamos as coisas de quarto, Mike e Ângela fizeram a instalação da nossa modesta televisão de 29 polegadas.
"De onde você tirou dinheiro para isso" – Mike ainda estava perplexo com as compras.
"Presente do meu pai" – menos informações eram sempre mais. Depois, não estava mentindo.
Comprei três camisetas básicas para casa um de nós, calcinhas novas (e um pacote de três cuecas para Mike), meias novas. Comprei uma blusa para mim (escolhida por Quinn), por que não? Tinha feito o mercado no dia anterior e nossa geladeira estava abastecida. No relógio, seis horas. Tivemos de correr para o aeroporto para receber Mercedes. Nossa amiga chegou com o seu velho jeito expansivo, com seu colar exagerado com o próprio nome escrito, camiseta de estampa chamativa, tênis estiloso, atitude e, principalmente, o gigantesco sorriso.
"Garota, Nova York está fazendo bem a você" – olhou Quinn de cima abaixo antes de dar um abraço demorado na minha namorada – "Você parece mais leve, mais feliz."
"Nova York opera milagres" – sorriu – "não sabia?" – piscou para mim.
Em seguida, Mercedes me cumprimentou com outro abraço, um bem menos entusiasmado. Essa era a Mercedes, o que poderia dizer? Minha eterna rival no coral, melhor amiga de Quinn, e parceira de Santana em duetos explosivos. Nós sempre tivemos pessoas em comum, não necessariamente coisas em comum, a não ser a atitude de diva. Senti-me deslocada e deixada de lado com Quinn e Mercedes falando como loucas no caminho de volta. Ela ficaria hospedada em nosso apartamento até sábado, dormindo no quarto com Quinn. Mike ia encarar quatro dias no saco de dormir da nossa sala. Ele dizia que preferia o chão duro do que dormir todo esse tempo no apartamento que Ângela dividia com amigas. Ele dizia que as garotas não eram exemplo de higiene e organização.
Quando chegamos, Santana estava de pé encarando a televisão como se nunca tivesse visto uma na vida. Eu pude sentir que teríamos uma conversa logo mais. Ela saiu do transe quando viu Mercedes e a abraçou. Mike fez o mesmo em seguida. Sentamos ao redor da nossa pequena mesa para lancharmos todos juntos. Mercedes, claro, dominou a conversa com histórias de Lima e dos lugares que passou durante as férias com a família Jones. Ganhamos pequenas lembranças de Nova Orleans, coisas simples como canecas, copos de tequila, caixa de bombom e colares de boa sorte que são distribuídos principalmente durante o carnaval na cidade.
Apesar das muitas risadas e descontração, Santana não estava no clima de festa e reencontro. Ela se desculpou dizendo que estava com uma forte dor de cabeça e foi a primeira a se recolher. Demorei propositadamente a entrar no quarto porque eu sabia que a dor de cabeça era desculpa e que a gente teria de conversar. Ainda assim, a flagrei sentada no chão fazendo contas.
"Presente no meu pai?" – disse sem ao menos olhar para mim.
"Sim. Ele me deu um cheque quando saímos para jantar."
"Isso foi no fim de semana passado. E só agora que você me conta?" – disse ríspida, mas sem levantar o tom de voz para não chamar a atenção dos demais, especialmente de Mercedes. Ela era visita e não tinha de presenciar discussões – "essa semana mal começou e você já atirou uma montanha de coisas para eu absorver, Rachel. Você acha isso justo comigo?"
"Você está fazendo tempestade em copo d'água!"
"Será? Primeiro você passa a noite fora com Quinn, e Mike era quem estava avisado" – ela se aproximou agressiva e o volume do tom de voz aumentou consideravelmente – "quando volto do trabalho vejo uma televisão nova em minha sala, móveis novos, roupas em cima da minha cama. Novamente vem Mike me dizer que tudo foi presente do meu pai. E você ainda acha que estou fazendo tempestade em copo d'água? Sinceramente, Rachel, não me importo se você passou a noite toda trepando feito uma égua com a Quinn ou se nosso pai enfiou um cheque no seu cú..."
Não sei o que deu em mim. Eu até que entendia a bronca, mas não podia aceitar aquelas ofensas. Não quando ela fazia pouco caso de uma das noites mais importantes e bonitas da minha vida. Meu sangue ferveu, o meu braço tomou impulso e a minha mão espalmada colidiu com força contra o rosto de Santana. Ela me virou o rosto rapidamente com o impacto e me olhou assustada. De todas as nossas brigas de irmãs, dos tapas, dos murros, aquela foi a primeira vez que uma bateu no rosto da outra.
"Você não tem o direito de se referir a mim dessa maneira" – praticamente rosnei
Santana não se mexeu ou falou. Nesse meio tempo, Quinn entrou em nosso quarto como uma leoa pronta a atacar, indo direto para cima da minha irmã. Eu a segurei. Se não o fizesse, as duas se atracariam... de novo.
"Quinn, por favor, deixe a gente a sós?" – estava séria, determinada.
"Nem a pau vou te deixar sozinha com ela!"
"Quinn, depois falo contigo... tenho que resolver algumas coisas com a minha irmã, ok?"
"Eu vou estar atenta" – e saiu com relutância.
"Vocês nunca tem um momento de tédio?" – ouvi Mercedes dizer.
Fechei a porta enquanto Santana sentou-se na minha cama, enxugando algumas lágrimas. Sabia que feri os sentimentos dela, e feio. Muito mais do que ela feriu os meus. Sentei-me ao lado dela e ficamos assim, em silêncio, até uma ter condições de falar com alguma racionalidade.
"Nunca disse que você me deve satisfações, Ray, mas eu mereço consideração."
"Eu sei e eu errei. Não falo da minha noite com Quinn, até porque isso não foi algo que planejei e muito menos é da sua conta. Mas errei por não falar do dinheiro e quanto a isso eu me desculpo."
"Confesso que entrei em pânico quando vi Mike e Ângela terminando de instalar a televisão" – ensaiou um sorriso – "comecei a fazer contas para saber se a gente ia conseguir pagar o condomínio."
"Não está chateada então pelo nosso pai ter dado dinheiro?"
"Não sou tão orgulhosa assim..." – e me encarou séria – "Estou chateada porque você não me contou. Independe de Mike e Quinn, você é a única coisa que eu tenho nesta cidade. Estou falando de família, Rachel, de sangue. Se a gente não puder confiar uma na outra em qualquer circunstância, isso não vai dar certo".
"Ele nos deu cinco mil dólares" – disse com calma – "Gastei mil hoje e ontem no mercado. Nosso pai disse que vai mandar essa quantia a cada dois ou três meses independente da metade do aluguel que ele se comprometeu a pagar a partir de setembro. Quer que eu te dê o resto? Você é melhor administradora..."
"Prefiro que esse dinheiro fique contigo. Eu administro o nosso regular. E caso a gente tenha problemas com as contas, eu grito."
"Combinado!" – agora foi a minha vez de ensaiar um sorriso.
"Obrigada pelas roupas... estava mesmo precisando."
"De nada!" – passei a mão nas costas dela em conforto – "Me perdoa... pelo tapa?"
"Então você e Quinn..." – Santana mudou drasticamente de assunto. Isso me surpreendeu, mas entrei no jogo.
"É"
"Ela... ela... você..."
"Foi uma noite linda, ela não me forçou a fazer o que não quisesse. Não me senti desconfortável. Tudo aconteceu do jeito certo e na hora certa."
"Fico... aliviada! Isso não quer dizer que você vá se mudar para o quarto dela e as regras para o sexo continuam!"
"Imaginei..."
Antes mesmo de mudarmos para o apartamento, ainda no albergue, nós quatro estabelecemos algumas regras "básicas" para certas situações, como as relações sexuais. Ficou combinado que sexo no apartamento só deveria acontecer preferencialmente em horários que os outros moradores não estivessem em casa. Era fundamental que acontecesse no próprio quarto e cama do indivíduo, com a porta fechada e seria preciso pendurar o aviso na porta para que ninguém entre no quarto desprevinido (arrumamos um numa loja de "tudo que você não precisa" com a frase "Sandy e Danny estão conversando"). Nada de sexo à noite, quando todos os outros moradores estão tentando descansar. Neste caso, é melhor dormir com o namorado ou namorada em outro lugar. Considerava os termos razoáveis e justos. Também não passou por minha cabeça trocar de quarto. Era cedo demais.
"Quer alguma coisa? Água? Suco?"
"Não... eu vou ficar por aqui. Amanhã peço desculpas a Mercedes" – antes de sair, a beijei no rosto.
Encontrei Quinn concentrada na pia, lavando as louças. Ela odiava, mas entendi que fosse melhor se concentrar numa atividade simples do que ficar com a mente ligada onde não cabia a ela interferir, no caso, no meu quarto e de Santana. Abracei-a por trás e descansei minha cabeça no ombro dela – pelo menos o melhor que pude, levando em consideração a nossa diferença de tamanho. Quinn lavou e enxugou as mãos antes de virar-se para nos beijarmos.
"Então? Devo ir lá dentro e defender sua honra contra a gêmea má?"
"Neste caso, e só neste" – ressaltei – "a honra de Santana era que merecia ser defendida. Eu bati nela, Quinn. Bati no rosto da minha irmã e ela não reagiu... estou me sentindo péssima."
"Mas vocês conversaram? Por que todo esse tempo que vocês ficaram lá dentro..."
"Sim, a gente se entendeu do nosso jeito."
Mercedes e Mike estavam ainda na sala em frente a TV fazendo comentários ocasionais. Era uma forma de se protegerem pelo clima estranho que ficou. Olhei no relógio. Passava da meia noite. Segurei a mão de Quinn e a beijei com suavidade.
"Feliz aniversário!"
...
No fim do verão, depois de uma pequena temporada de casa cheia com cinco sessões semanais, James e Roger reuniram o elenco no Flea no dia seguinte da nossa teórica última apresentação. Tive de correr da escola para o teatro como uma louca, com algumas estações do metrô no meio do caminho. Todos já estavam por lá e eu com o rosto vermelho, ombros doloridos por causa da mochila e morrendo de vontade de usar o banheiro. Era o meu primeiro dia de aula em Nova York e a minha nova escola parecia um universo distinto do McKinley. Para começar, eu era a garota nova, só conhecia Quinn, os garotos pareciam ser mais intimidadores e os professores eram um pesadelo. Pelo menos eles não tinham o hábito de jogar slushies. James olhou bravo a princípio, mas o meu estado ofegante e digno de piedade o fez deixar a bronca de lado. Não tive culpa. Quinn só chegou antes porque o último horário dela era vago.
"Sente-se em qualquer lugar, Lopez, e não atrapalhe" – se a minha bexiga cheia permitisse... levantei a mão antes mesmo de me sentar ao lado de Mike – "o que foi?"
"Eu vou fazer xixi nas calças!"
James fez sinal para que eu fosse ao banheiro. Corri. Na minha volta, James e Roger pareciam estar no meio do anúncio.
"...a programação vai ser mais tranqüila. Os ensaios vão acontecer em um período apenas por dois meses, mais que suficiente para vocês se adaptarem às novas dimensões e às alterações da peça. Nossa reestréia está prevista para janeiro. Alguma dúvida?"
"Nossos salários vão permanecer os mesmos?" – Andy levantou a mão – "eu não acharia justo em caso positivo."
"Vocês terão aumento. Contrato por seis meses a 250 dólares por semana válido a partir de 1º de novembro. Esse valor não é negociável. É pegar ou largar. Lembrando que o contrato pode ser rompido a qualquer momento entre produção e atores. Mas caso a temporada continue além deste período, aí sim será possível renegociar valores."
"Então vamos passar outubro sem emprego?" – Mary levantou o braço.
"Eu não sou babá de vocês. Não sou o pai de vocês. Não é problema meu. Vocês, se quiserem, vão assinar os novos contratos no fim deste mês. Caso contrário, não terei o menor problema em substituí-los. Será que alguém mais tem alguma dúvida, uma que não envolva dinheiro?"
"O senhor poderia repetir a primeira parte da informação?" – levantei a mão.
"Estão dispensados! Vejo os senhores na quinta-feira."
Mike me abraçou feliz, enquanto Quinn foi chamada para conversar em particular com Roger. Ele me explicou que a temporada de "Songbook" no Flea foi renovada por mais um mês. Depois a peça estaria de mudança para um teatro off-Broadway com maior da capacidade de público que o nosso modesto palco. Não que isso fosse uma quantidade extraordinária, mas mudar de 50 cadeiras para um lugar que tinha 200 poltronas era um baita avanço. Mais tarde, Quinn contou que Roger queria que ela assinasse um contrato de meio expediente com a R&J como assistente de produção. Mas aí trabalharia em qualquer peça, filme, programa de TV ou comercial que eles tivessem fazendo. Ia depender de onde tivesse maior necessidade da presença dela e, para ser sincero, já não havia muito que ela pudesse fazer em "Songbook". Quinn aceitou e receberia um valor bem mais justo do que o do contrato temporário para a nossa peça.
Mike desistiu em definitivo da carreira de engenheiro na OSU para se dedicar ao teatro. Os Chang tinham esperança que ele voltasse em setembro para Ohio e ficaram decepcionados com a decisão do filho e disseram que cortariam a pequena ajuda financeira. Ao menos não romperam relações por completo. Os Chang só ficariam estremecidos por algum tempo. No fim daquele setembro, Mike e eu assinamos os novos contratos. Santana se encaixou como uma luva em Stuyvesant High School. Como se não bastasse tirar de letra as aulas, em pouco tempo ela conquistou terreno e tornou-se popular. Ela tinha o dom! Começou a namorar Paul McNeil na escola, um sujeito bonito de origem irlandesa e que tinha boa conversa. O namoro ainda estava no início e duvido que tenha sido por causa de Paul, mas Santana deixou de "galinhar" por aí. Estava passando por uma fase sexual mais comedida e tranqüila. Bom pra ela.
Santana continuou trabalhando na Weiz Co. como estagiária. Fazia serviços de auxiliar de escritório por meio período. O salário foi cortado pela metade, mas as nossas finanças continuavam sob controle dentro de casa. Continuávamos com restrições de pequenos luxos, mas estava tudo bem. O senhor Weiz às vezes nos dava alguns trabalhos para que a gente pudesse ganhar alguns trocados extras. Às vezes ele nos convidava para jantar na casa do Queen's. Era um senhor solitário, apesar de ser rodeado de gente no trabalho, talvez, por isso mesmo, apreciasse tanto a nossa companhia.
No final de novembro, nós quatro fomos a Lima: Mike para a casa dos pais, Quinn foi passar a ação de graças com a mãe dela e nós fomos direto para a casa Berry-Lopez. Era o feriado de ação de graças e tal como prometi ao meu pai, estaríamos presentes. A casa estava diferente. A decoração mudou algum detalhe aqui e acolá, havia um carro apenas na garagem, meu pai mandou desfazer a estufa porque lhe trazia lembranças demais de papai e com elas, saudades e algum sofrimento. Apesar dos bons argumentos de Santana, que também sujou muito as mãos de terra naquele lugar, entendi a opção e o apoiei. O meu quarto e de Santana estavam praticamente os mesmos, com todas as coisas que deixamos para trás. Pareceram enormes. O quarto de hóspede estava cheio de brinquedinhos esquecidos de Beth. Meu pai revelou que se Shelby aceitar se mudar para lá, fariam daquele o quarto da nossa irmãzinha.
"Papi, me presta el auto?" – Santana gritou.
"Mi porshe? Nunca!"
Shelby foi mais generosa e emprestou o dela para que a gente pudesse sair pela cidade. Kurt daria uma festa para o novo coral e nós seríamos os convidados especiais. Foi agradável reencontrar todos os integrantes, em especial Finn. Percebi que o amor que sentia por ele ainda estava lá, porém modificado. Era amor que um amigo tinha pelo outro. Foi a primeira vez que Quinn e eu aparecemos em Ohio como namoradas e isso não deixou de ter impacto entre nossos velhos colegas, apesar de todos já saberem. Era como aquela história do santo que só acreditava se visse o milagre com os próprios olhos. Tina e Mike se entenderam na festa. Não no sentido romântico. Tina mais que perdoar Mike, entendeu que não era para ser: os dois eram pessoas com pouco em comum. Não pude deixar de sentir pena de Sam. Bastou Santana aparecer que a namorada dele, Cherry, passou a ter olhos só para ela. E minha irmã sequer estava interessada. Ela nem deu bola para Noah: o superou com classe.
Mercedes, que completou 18 anos em outubro, começou a namorar legalmente meu primo Júlio (o que tinha queda por gordinhas). Kurt estava firme com Blaine e ele comentou que às vezes recebia telefonemas de Karofsky para os dois se encontrarem escondidos. Ganhou até uma caixa de bombom dele uma vez. Artie, bom... ele não parecia se firmar com as garotas. Santana deu algumas notícias de Brittany. Ela estava indo muito bem como dançarina e estava ensaiando para sair em turnê como uma das bailarinas que acompanhavam um desses garotos da Disney. Não me enganei e vi os olhos de Santana brilharem quando falou a respeito da antiga namorada nem tão secreta assim. Se o tempo e destino sorrirem, podia apostar que eles arrumariam uma forma de colocar essas duas no caminho uma da outra novamente. Quanto aos outros integrantes do coral: eles pouco me interessaram e é só o que tinha a dizer a respeito. A única coisa que me incomodou no encontro foi a impressão de não me encaixar mais àquele grupo. Eu não pertencia mais àquele lugar, àqueles pequenos hábitos, ao tipo de pensamento e idéia de mundo. Éramos turistas em Lima. Que estranha sensação!
O dia seguinte era Ação de Graças. Desde cedo meu pai e Shelby ficaram empenhados em fazer a melhor ceia do mundo. Tinha esperanças de que Quinn ira conseguir convencer Judy a participar dos festejos, mas a minha sogra ainda tinha algumas restrições quanto Quinn ser gay. Era algo que as duas precisavam trabalhar aos poucos. Procurei entender. De qualquer forma, eu deveria comparecer para jantar na casa das Fabray.
"Vamos fazer as graças de modo ecumênico ou na tradição judaica?" – meu pai perguntou com a ceia já posta à mesa. Ele sentava numa das cabeceiras com Shelby, Beth de um lado da mesa e eu, Santana do outro.
Estávamos empatados na questão religiosa. Santana colocou o kipá e rezou em hebreu enquanto eu traduzia as frases para o inglês, fazendo nossas honras. Shelby fez a oração pelo lado cristão antes de todos aproveitarmos a comilança. Era uma judiação matar um peru naquela data, uma tradição idiota matar o pobre do bicho, mas ninguém ouvia meus protestos.
Há tempos que não passava um feriado tão bom e naquele, em especial, tínhamos muito que agradecer: pela dádiva do amor, pela oportunidade do crescimento pessoal e profissional, pela cura de feridas profundas, pelo crescimento da família.
Domingo foi dia de despedidas e promessas para nos encontrarmos novamente nas festas de fim de ano. Quando embarcamos no avião, Santana imediatamente sentou na poltrona da janela (como sempre fazia) seguida de eu e Quinn. Minha namorada segurou minha mão e me beijou.
"Vamos para casa!"
