N/T (28/11/2012): Oi, gente, quanto tempo, não?!
Sinto informar que isso não é um capítulo. (Não joguem pedras!)
O que acontece é o seguinte...
Eu fiquei um longo tempo sem postar porque pensei da seguinte maneira: "Vou pegar um tempo e tentar traduzir e corrigir o máximo de capítulos que posso. E no ano que vem passo a postar um por semana."
E acreditem se quiser... estava funcionando.
Eu consegui traduzir até o 27! Eu sei, parabéns pra mim!
Agora vem a parte péssima...
Eu uso Linux e enquanto estava fazendo uma atualização, meu notebook desligou...
Resultado, deu uma pane horrorosa por aqui.
Eu tive que formatar tudo e perdi todos os meus arquivos, inclusive os capítulos que eu já tinha traduzido.
Porém, como sou esperta (ou achava que era) eu sempre fiz backup dos meus arquivos. E achava que esses textos estavam em um pen drive. E eles estavam. Só que minha adoraaaaada irmã os apagou para poder usá-lo para colocar música, ou algo do tipo. (Não prestei muita atenção depois do "aí eu apaguei o que tinha dentro, porque não achei que era importante...")
Resumindo: Não tenho mais nenhum capítulo traduzido e nem corrigido. E gente, sério, eu estou com a maior raiva/preguiça/falta de vontade de traduzir tudo de novo.
Desculpa mesmo. Eu espero conseguir reunir forças algum dia novamente pra poder dar continuidade à tradução. Enquanto isso eu apenas posso pedir desculpa.
Beijos
xXx
N/T (29/11/2012): Todo o meu amor eterno vai para a minha querida amiga e beta Vívian, que tinha dois capítulos traduzidos e corrigidos com ela. Salvou minha vida, mano!
Tirando esses dois capítulos, o 14 e o 15, não tenho mais nenhum. E não vou prometer os próximos tão cedo. Continuo sem vontade de traduzí-los. Perder essa quantidade de capítulos não é algo bacana. Beijos
xXx
Capítulo Catorze: Para abrir a alma
Lily olhou novamente para o relógio antes de tomar outro gole de seu café. Estava se aproximando das dez e Harry ainda não havia voltado para casa. Ela se recusava a falar sobre isso. Não queria discutir com James de novo. Não conseguia entender por que o marido se recusava a ir procurar por ele. Depois de tudo o que passaram, se fosse por ela, estaria lá fora procurando pelo filho.
Lily deixou escapar um suspiro frustrado e massageou suas têmporas, querendo que sua dor de cabeça fosse embora. Ela estava muito, muito brava com Harry. 'Por que ele faz isso toda vez?' pensou consigo. Essa era a terceira vez que o garoto fugia e era sempre em uma data especial. A primeira vez fora na festa de boas vindas à casa nova. Ok, ela admitiu, Harry não deveria ser culpado inteiramente por aquilo. Do que Damien tinha contado, Neville realmente chateara seu filho. Portanto, o garoto deveria ser perdoado pelo incidente. A segunda vez foi durante a festa de aniversário de Damien. De novo, a razão foi boa: Ele não pôde lidar com a morte de Bella e saíra para ir ao funeral. Pensar nisso ainda fazia seu coração apertar de ciúmes. Depois de tudo o que aquela mulher fizera com Harry, ele ainda a amava. Lily empurrou esses pensamentos amargos para o lado, agora não era o momento de pensar nisso. A julgar por esses eventos, ela sabia que o filho teria um bom motivo por ter fugido dos Weasley's. Porém, por mais que quisesse não conseguia descobrir o que era.
Quando perceberam que Harry tinha saído correndo e ido embora, eles tentaram seguí-lo, mas o garoto desapareceu. Damien tentou ligar para o irmão no celular quando chegaram em casa, mas Harry não atendeu. Lily sentiu-se com pena de Ginny, ela realmente ficara chateada. A menina estava prestes a chorar quando ficou sabendo que o moreno fora embora. Molly imediatamente virou para confrontar seus filhos e quis saber o que eles tinham dito. Porém, todos estavam chocados com a situação. Pelo o que sabiam, Harry estava se divertindo.
Lily suspirou de novo e terminou com o seu café. Ela estava realmente cansada, mas recusava-se a ir para a cama antes que Harry chegasse em casa. Ela lançou outro olhar gélido para James, enquanto este estava sentando conversando baixo com Remus e Sirius. Damien estava sentado quieto em um canto do cômodo. A pilha de presentes fechados estava aos seus pés. 'Que natal!' Lily pensou triste.
James estava tentando não pensar em Harry. 'O garoto tem dezessete anos!' ralhou consigo. 'Ele pode cuidar de si mesmo. Não vou sair correndo atrás dele de novo'. Uma parte de James queria nada mais do que sair e ir encontrá-lo com o intuito de trazê-lo de volta, mas sabia que as coisas não podiam ser assim. Quantas vezes mais sairia correndo para ir atrás de Harry? O jovem tinha que parar de fazer isso.
James olhou para o filho mais novo, que parecia estar péssimo. Ele tentou fazer Damien abrir seus presentes, como que para fazer o clima ficar menos tenso, mas o menino se recusara. Disse que iria abri-los com o irmão. O homem não soube o que responder.
Remus e Sirius se ofereceram para ir procurar Harry, mas James os fizera ficar. Ninguém iria procurá-lo, ele podia encontrar o caminho de casa. James manteve um bom controle sobre seu comportamento, não faria as coisas piorarem mais do que já estavam.
De repente um barulho fez com que a atenção de todos se desviassem para o corredor. Alguém tinha claramente aberto a porta da frente e entrado. Os cinco ocupantes da casa levantaram-se e correram para a sala de estar. Eles ouviram um barulhão e o som de alguém xingando. James foi o primeiro a fazer a curva em direção do corredor e avistar Harry. Ele sabia que este estava tentando levantar do chão. Aparentemente, Harry tinha derrubado o suporte de casacos, visto o barulho que fizera.
O garoto olhou para os cinco indivíduos que o encaravam. Ele sorriu abertamente para eles antes de levantar-se.
"Oi!" Ele disse ao se arrumar. "Quem colocou isso aí?" Perguntou, apontando para o suporte caído.
James e Lily encararam o filho com os olhos arregalados. Ele estava agindo muito estranhamente. Nunca o viram sorrindo daquele jeito. Seus olhos tinham uma qualidade turva, entretanto. O jovem balançava o corpo levemente. O garoto deu um passo e tropeçou nos próprios pés, conseguindo por pouco não cair de cara no chão.
De repente, Lily percebeu o que havia de errado com ele.
"Você está bêbado?!" Ela exclamou.
Harry olhou para ela, tentando com muita força manter-se focado. Ele sorriu de forma torta.
"Não!" Ele disse sem convencer.
Ao ver a expressão séria dela, o moreno deu de ombros.
"Bem, ok, sim! Eu bebi um pouco." Ele disse, mantendo o dedão e o indicador afastados em apenas um centímetro de diferença. "Mas eu bebi um pouco mais de vários!" O garoto riu e quase perdeu o equilíbrio de novo.
Apesar da raiva que o consumia aos poucos, James moveu-se para frente e segurou Harry, antes que este caísse de novo. O garoto lutou para se manter ereto e lançou ao pai um sorriso bêbado.
"Vamos." James disse baixo, levando o filho para as escadas. Era óbvio que o garoto estava completamente embriagado. Seria um desperdício conversar agora. Ele precisava de sua cama.
Harry libertou-se do aperto de James e moveu-se escada acima.
"Tudo bem, tudo bem. Eu... consigo" Harry falava mole e tentava segurar no corrimão para continuar em pé.
"Vá para a cama, conversaremos de manhã." Lily disse enquanto Damien encaminhou em direção ao irmão bêbado. Harry não ia conseguir subir as escadas sozinho. Era um milagre que ele chegara em casa.
O moreno de olhos verdes passou por Damien e encarou a mãe.
"Ok." Disse pastosamente.
Antes de subir, porém, ele virou para encarar o grupo.
"Sabe de uma coisa?" Começou. "Eu sempre lembrarei de hoje. Queria que vocês soubessem que... eu sempre lembrarei de hoje." Disse, cambaleando no local em que estava. "E não porque foi meu primeiro natal. Não, não por isso..."
Lily soltou um pequeno soluço. Ela nem mesmo pensara nisso. Estava tão focada no fato de que era o primeiro natal de Harry com a família, que nem mesmo imaginara que talvez aquele fosse o primeiro natal do filho.
"... eu sempre lembrarei desse dia porque aprendi uma lição muito importante hoje." O sorriso do garoto saiu de sua face e seus olhos pareceram ficar totalmente focados por uma fração de tempo. "Aprendi que não importa o quanto eu tente... não importa o quanto eu minta para mim mesmo, eu nunca irei me encaixar."
James sentiu como se alguém o tivesse esbofeteado. A afirmação simples de Harry deixou todo mundo sem palavras. O garoto, todavia, não havia percebido a reação a sua volta e continuou com seu monólogo bêbado.
"Eu deveria saber, sério. Não deveria ter sido tão ingênuo. Não importa o que eu faça, sempre seria conhecido como Harry, o assassino! O assassino de Voldemort... aquele que traiu Voldemort." Mesmo a bebedeira não conseguiu esconder a mágoa na voz do moreno.
"Harry..." James começou e aproximou-se do filho.
"Não, não. Tudo bem. É a verdade, não é? Eu o traí. Ele está certo, ele está certo. Eu sou ruim e cruel. Ele está certo. Não deveriam confiar em mim." As palavras de Harry estavam bem pastosas, mas todos conseguiram ouvir claramente.
O humor do garoto mudou completamente. Não havia nem sinal de um sorriso naquela face. Pela primeira vez toda a mágoa que ele sentia estava clara em sua expressão.
James estava ao lado do filho em um instante. Ele o segurou pelos ombros para poder suportá-lo.
"Quem disso isso pra você?" O homem ordenou uma resposta. Agora sabia o motivo do filho ter saído da Toca.
Harry não respondeu a pergunta do pai. A verdade é que nem percebera que alguém estava falando com ele. Estava muito entretido em sua epifania embriagada.
"... não podem confiar... ele está certo... ruim... é o que eu sou. Malvado... terrível coisa a se fazer... matar o próprio pai, terrível, terrível..."
James enrrijeceu o corpo com as palavras de Harry. A tensão ficou quase insuportável. Sirius e Remus ficaram parados, sem ação, em meio a tudo aquilo. Eles podiam ver o corpo do amigo ficar completamente ereto com o que Harry falara. Lily estava chorando, lágrimas escorriam por sua face, mas ela não tentava escondê-las ou limpá-las.
Recuperando-se o melhor que podia, James virou Harry para encará-lo.
"Harry, me ouça. Ele não era seu pai. Você está me ouvindo? Ele não era seu pai. Eu sou seu pai, eu sou..." James percebeu que suas palavras não faziam nenhum efeito. Harry não estava coerente o suficiente para escutá-lo ou entendê-lo agora. Ele nem mesmo o olhava mais. O garoto encarava o chão, murmurando palavras como 'confiar... matar... pai' repetitivamente.
Empurrando a mágoa que sentia, James segurou o filho e começou a puxá-lo pelas escadas.
"Venha, Harry. Você precisa da sua cama." O homem conseguiu dizer através do nódulo em sua garganta.
Ninguém se moveu enquanto James levava o filho para o quarto. O homem o deitou cuidadosamente na cama e transfigurou suas vestes em pijamas. Ele o cobriu e teve que lutar contra o que sentia ao ouvir que Harry ainda murmurava 'matei meu pai, eu matei meu pai' sem parar, mesmo com os olhos fechados.
James conjurou um balde e colocou no pé da cama do filho. O garoto iria precisar durante a noite. Ele saiu do quarto e desceu as escadas. Lily estava soluçando, enquanto Sirius e Remus tentavam consolá-la sem dizerem nada. Damien estava muito chateado para falar alguma coisa. O menino saiu em direção ao seu quarto e não respondeu quando o pai o chamou.
James caiu no sofá, a cabeça segura em suas mãos. Ele nunca pensara que Harry continuava se sentindo culpado por Voldemort, estava convencido de que o filho tinha lidado com essa culpa.
Ele sentiu outra onda de dor o assolar ao lembrar das palavras de Harry, 'matei meu próprio pai'. Em seu inconsciente, o garoto ainda se referia a Voldemort como pai. Ele ainda amava aquele monstro! Era muita coisa para James lidar.
Ele sentiu uma mão em seu ombro e olhou para cima, vendo Sirius.
"Pontas, camarada..." O amigo não sabia o que dizer. Ele sentou ao lado de James, sem saber como ajudá-lo.
"Eu te disse." James olhou e viu Lily. Ela não o encarava, mas falava com ele. A mulher estava sentada, abraçando a si mesma. "Eu te disse para ir falar com ele. Eu disse que ele estava sofrendo, mas você não me ouviu." A ruiva continuou.
"Lily..." Remus começou.
"Não, Aluado! Não fique ao lado dele. Isso é culpa do James!" Ela gritou.
"Pare de colocar a culpa no Pontas. O que ele fez?" Sirius perguntou imediatamente.
"Esse é o problema! Ele não fez nada!" Lily gritou, agora levantando-se da cadeira.
"Todo mundo te falou para conversar com Harry. Ajudá-lo a lidar com a culpa. Mas você, você ignorou todo mundo! Você não falou com Harry. Você não deixou os curandeiros falarem com Harry! Você até me impediu de falar com ele. Você nunca me apoiou quando eu tentava falar com ele. 'Ele está bem, Lily. Apenas o deixe em paz. Não comece!' Agora olha o que isso tudo trouxe para nós! Já se passaram cinco meses e ele ainda está todo magoado com isso! Ele se culpa. Acha que é... que é... cruel..." A mulher começou a chorar e soluçar ao lembrar das palavras de Harry. Seu filho não era cruel, ele não era. Ele tinha um bom coração e era gentil, não tinha culpa de ter um passado tão negro.
"Como poderia ajudá-lo?" James perguntou baixinho. "Como posso ajudá-lo a ficar de luto por alguém que eu odeio com todas as forças do meu ser?" O homem percebeu que sua voz ficava cada vez mais alta, mesmo que não fosse essa a intenção.
"Me diz, Lily! Me diz como ajudá-lo. O que dizer a ele? Não é tão fácil quanto você fala! Harry se sente culpa quando não deveria. Ele se arrepende de tê-lo matado. Matado o bastardo que acabou com a minha família! Como posso ter compaixão nesse caso? Eu não posso e não vou! Por isso que não disse nada, porque sabia que apenas faria as coisas piorarem!" James estava lutando para não derramar lágrimas de frustração e mágoa.
A ruiva não respondeu, ela ainda estava parada no mesmo local, lutando contra a culpa que sentia por não ter ajudado o filho.
"Temos que fazer alguma coisa, James. Harry não pode continuar desse jeito! Sabemos que ele está tendo pesadelos com Voldemort. Ele precisa entender que o que fez com Voldemort não foi ruim, não foi maldade. Ele precisa entender!"
Remus, Sirius, James e Lily passaram algumas horas conversando sobre Harry e o qual seria a melhor maneira de atacar essa situação de culpa. Tudo se resumiu a comunicação: fazê-lo se abrir e falar sobre seus sentimentos.
"Mais fácil falar do que fazer!" James murmurou com raiva. Por que eles não podiam entender que Harry não ia se abrir? O que ele dissera naquela noite fora devido ao seu estado de embriaguez.
Os quatro decidiram ajudar Harry. Iriam se oferecer para conversar, para estar ali quando o garoto estivesse pronto para falar. O que mais poderiam fazer?
James mal dormiu naquela noite. As palavras de Harry nadaram por sua mente durante toda a madrugada. Ele nunca pensou que iria ter que passar pela situação de escutar Harry novamente chamando Voldemort de pai. O fato de que o filho dissera aquilo com tanta mágoa e amor era o que fazia tudo ficar ainda mais dolorido.
xXx
Harry abriu os olhos e então os fechou novamente. Doía. Sua cabeça, seus olhos, tudo doía, e então sentiu-se muito, muito mal. Vagarosamente, abriu os olhos novamente e esperou até que se ajustassem à luz do dia. O garoto olhou em volta e percebeu que estava em sua cama. Sentou-se e teve que lutar contra a náusea que o abalou.
"Oh, droga! Por que estou me sentindo tão mal?' Ele perguntou a si mesmo. Foi então que os eventos dos dia anterior se desenrolaram. Harry fez careta ao lembrar do natal desastroso na casa dos Weasley's. Bem, para ser justo, o natal foi até que legal, horrorosa mesmo foi a discussão que ouvira entre Ginny e Charles. Ele fugira de lá e não parou até que colocara uma boa distância entre ele e a Toca.
Harry tinha andado sem rumo por aí, relembrando a discussão repetitivamente em sua cabeça. Ele percebeu que estava em uma pequena cidade trouxa e encaminhou-se para o único lugar que estava aberto: o bar. Não conseguia lembrar quanto tinha bebido. Julgando pelo o que sentia deveria ter secado o lugar.
O moreno segurou sua cabeça dolorida e tentou respirar contra a nausea. Tarde demais, ele saiu da cama e para a sua sorte encontrou o balde. Vomitou violentamente. 'Deus, por que bebi tanto!?'
Harry se ajeitou tremendo e fechou os olhos para diminuir a dor que sentia. Eles queimavam. Os abriu relutantemente e puxou sua varinha para limpar a bagunça que fizera.
Foi apenas quando pegou a varinha no bolso de seu pijama para limpar o balde que percebeu duas coisas: A primeira foi, de onde aquele balde viera? A segunda, por que ele estava usando pijamas? Não se lembrava de ter trocado de roupa. Lutando contra uma onda de pânico, ele percebeu que dessa vez a bebedeira era a culpada pela sua falta de memória.
Harry limpou o balde e então voltou para a cama. Seus pais devem tê-lo deixado ali. Ele de repente se sentiu nervoso. Devia ter chegado em casa, na noite passada, bem mal. Sabia que falava muito quando estava bêbado, essa era uma das razões que o fazia não beber sempre. Ele estava rezando para que não tivesse falado coisas sem noção. Tentou lutar contra a névoa que nublava sua mente e tentava lembrar sobre o que tinha falado e o que tinha feito na noite passada. Mas era tarde demais, já estava voltando a dormir.
Era meio dia quando acordou de novo. Sentia-se um pouco melhor. Levantou-se com cuidado para não piorar a dor de cabeça. Ao menos seus olhos estavam melhores. Seu estômago grunhiu, não tinha comido nada desde o almoço do dia anterior nos Weasley's. Harry forçou-se a não pensar naquilo.
Ele saiu da cama e encaminhou-se para o andar debaixo. Realmente tinha que colocar comida dentro de si. Quando entrou na cozinha, viu sua mãe, seu pai e Damien sentados a mesa, no meio do almoço. Ele pausou na porta. Uma onda de vergonha e culpa o assaltou. Tinha arruinado o dia anterior para eles. 'Eles devem estar tão bravos comigo', pensou.
Uma parte do garoto queria virar e voltar para o quarto. Todos os pensamentos sobre comida o deixaram. Estava quase indo embora, quando Lily falou com ele.
"Você deve estar com fome. Venha, sente-se."
Ela se levantou e começou a preparar um prato para ele. Harry sentou, sem querer olhar para ninguém diretamente. 'Por que não pensara nas consequências ontem?', o garoto bufou com o próprio pensamento. Ele nunca pensava nas consequências, era aquilo que o fazia ser Harry.
Ele olhou para cima, quando James passou lhe dirigir a palavra.
"Você não parece estar tão bem. Está se sentindo ok?"
"Ainda me sinto meio mal, mas estou bem." Respondeu.
"Quanto você bebeu?" James perguntou quando Lily colocou um prato de comida na frente do filho.
Harry de repente sentiu-se mais mal ainda com o cheiro da refeição a sua frente. Controlando a vontade de vomitar, ele respondeu.
"Muito."
Damien engasgou em seu macarrão, mas se recuperou. Ele lançou um sorriso de lado para o irmão e continuou almoçando.
Harry pegou seu garfo, mas não conseguia realmente comer alguma coisa. Depois de brincar bastante com a refeição, ele empurrou seu prato. Lily percebeu, mas não comentou. Ao invés disso saiu da cozinha e retornou com um pequeno frasco.
"Aqui." Ela disse e entregou a poção ao filho. Harry a pegou, olhando confuso para a mãe.
"Vai ajudar com a sua ressaca." Ela explicou e começou a limpar a mesa.
Harry mentalmente a agradeceu e engoliu o líquido de uma vez só. Funcionou instantaneamente. Ele se sentiu bem melhor e percebeu como todos estavam quietos. Até Damien estava quieto. Sabia que todos estavam chateados.
"Hum... sobre ontem..." Harry começou. James o olhou e o garoto viu um brilho passar pelos olhos do pai. "Sinto muito." Disse rapidamente. Ele sabia que era sua culpa, mas ainda assim não conseguia se desculpar direito.
"Eu não quis ter fugido daquele jeito. Apenas... tive que ir, desculpa." Terminou, sentindo-se desconfortável.
Damien rapidamente se levantou e começou a limpar o resto da louça, deixando que sua mãe se sentasse a mesa junto ao seu pai.
"Quem foi?" James perguntou. Harry levantou a cabeça, parando de olhar para a mesa, sem entendê-lo.
"O quê?"
"O cara que disse todas aquelas coisas pra você?! Foi o Bill? Ou foi Percy?" O auror ficou pensando naquilo durante a noite passada. Bill e Percy pareciam ser os mais prováveis culpados.
Harry teve que acalmar seu temperamento alarmante. Ele fez o que temia ter feito? Será que ele falou, na noite passada, tudo o que ouvira? Ele não podia ter repetido as palavras de Charlie, poderia?
"Eu... eu não entendo." Disse.
James fechou os olhos, pensando em como formar suas frases.
"Quem o acusou de... de ser... quem o acusou por Voldemort?" O homem perguntou, xingando-se por não conseguir questionar direito.
A face de Harry empalideceu e ele xingou-se baixo. 'Ótimo, isso é tudo o que eu preciso!"
"O que te faz pensar...?" Mas o garoto não terminou.
"Você nos disse ontem a noite, quando voltou da sua maratona de bebidas." Lily respondeu.
Harry admitiu a derrota. Ele tinha aberto sua boca grande. Maldito seja ele por ter bebido tanto!
"Não é importante." Harry disse, rejeitando a conversa.
"Acho que é sim. Me diga quem foi que te acusou." James falou, aparentemente não deixando a discussão esmorecer.
"Que diferença faz saber quem era? Apenas esqueça isso. Eu falo um monte de besteira quando estou bêbado. Não preste atenção nisso." O garoto tentou.
"Não soou como besteira. Você estava bem chateado e..."
"E hoje estou bem! Honestamente, mãe, não faça isso virar um caso criminal. Apenas esqueça isso." Harry disse firme. Sua dor de cabeça não tinha passado e toda e aquela conversa apenas a piorava.
James e Lily trocaram um olhar que mostrava claramente que esperavam esse comportamento de Harry.
"Tá bom, vamos deixar de lado." James disse. "Mas você vai ter que nos recompensar por isso amanhã." Continuou, assim que seu filho visivelmente relaxou.
Os olhos vermelhos de Harry encararam o pai em surpresa. Ele suspirou fundo antes de assentir com a cabeça.
"Sim, eu sei. O que vocês querem?" Perguntou.
O casal teve outra troca de olhares.
"Conversar." Responderam juntos.
"Conversar sobre o que?" Harry perguntou ainda não entendendo.
"Sobre você. Sobre ontem e por que você estava tão chateado." Lily explicou.
Harry grunhiu irritado.
"Pensei que vocês fossem deixar isso pra lá!" Ele disse, massageando a cabeça.
"Queremos saber o que disseram para você! Eu quero saber quem te deixou chateado por razão nenhuma." James continuou.
"Ninguém disse nada pra mim! Por que vocês não podem deixar as coisas como estão?" Harry gritou perdendo a paciência.
"Porque eu não posso! Me recuso a aceitar que alguém agiu desse jeito com você. Você estava realmente chateado e eu quero saber a razão!" James gritou de volta.
Harry levantou-se de sopetão e moveu em direção a porta.
"Harry, por favor..." Lily disse, enquanto ela e o marido se levantam também.
"Eu vou pro meu quarto." O garoto anunciou sem virar para trás.
"Harry! Espera!" James gritou, mas já era tarde demais, o filho já havia saído da cozinha.
Eles ouviram a porta do quarto sendo batida com força. Ambos sentaram novamente, derrotados.
"E esse foi o plano para falar com ele." James grunhiu. Lily não o respondeu.
xXx
Damien esperou o irmão se acalmar antes de ir falar com ele. Honestamente, seus pais não tinham nenhuma noção, atacando Harry daquele jeito, enchendo-o de perguntas. Podiam ao menos ter esperado ele ficar de bom humor.
Como sempre, Harry abriu a porta para o irmão. E contou a este tudo sobre o que ouvira na discussão de Ginny e Charlie.
"Estava imaginando porque Charlie se manteve tão quieto. Ele geralmente é bem engraçado." Damien disse.
"Acho que isso responde." O garoto murmurou para si.
"Harry, preciso perguntar, por que você ficou tão chateado?" O mais novo questionou depois que o irmão terminara de falar.
"Quero dizer, eu entendo que deve ser difícil ouvir alguém falando sobre você daquele jeito, mas geralmente você não dá a mínima para o que as pessoas falam. Por que ficou tão magoado com o que um estranho disse?" Perguntou.
Harry encarou um ponto a sua frente. Ele não respondeu de imediato, o que Damien sabia ser o método de seu irmão para escolher cuidadosamente as palavras.
"Quer sabe o que eu escuto toda vez que alguém fala sobre a morte de Voldemort?" O moreno de olhos verdes perguntou, seus olhos encarando algo a sua frente, sem olhar o outro.
"Não." Damien respondeu, surpreso com a pergunta.
"Eu ouço a felicidade implícita pelo fato de ele estar morto. Ouço a gratidão pelo fato de que ele não está mais aqui. Eu posso entender isso. Não minto pra mim, Damien. Sempre soube o que ele era. O que ele representava para o mundo. Os 'Comensais da Morte' dele e a 'Marca Negra' dele... todos o temiam. Eu nunca prestei muita atenção nisso. Ele era um líder, um guerreiro e o propósito dele era um que ninguém compreendia. Esse era o porquê de todo mundo odiá-lo, ninguém nunca o entendeu." Harry estava dizendo tudo isso sem olhar para o irmão, como se dessa forma fosse mais fácil de falar.
"Quando alguém fala sobre a... morte dele, eles falam meu nome como se eu fosse um herói." O garoto riu amargamente. "Eles pensam que pelo fato de eu tê-lo matado sou uma boa pessoa."
"Sei que não sou uma boa pessoa. Não minto pra mim. Eu fiz coisas, minhas missões... não vou enterrar tudo e fingir que nada nunca aconteceu." As mãos de Harry estavam entrelaçadas e parecia que o garoto usava todas as suas forças para continuar.
"Ontem, quando Charlie disse tudo aquilo, falou a realidade. Ele não falou de mim com orgulho ou com uma ideia ilusória de que sou o herói do mundo. Ele disse tudo como é: que sou um assassino, cruel e ruim. Eu sei disso. Não me arrependo. Nunca irei. Pela primeira vez ouvi alguém falar sobre mim de um jeito verdadeiro."
Damien estava quase negando tudo isso, mas Harry não o deixou.
"Mas quando ele disse sobre o que eu fiz com Voldemort... não disse que eu matei o malvado Lorde das Trevas ou que eu libertei o mundo. Falou que eu o matei. O homem que eu chamava de pai. O homem que me criou. Ninguém nunca me disse isso antes. Era como se alguém pegasse meus pensamentos e os falasse em voz alta. Eu não estava preparado para aquilo. Me tirou para fora de órbita e não pude mais aguentar ficar ali."
Damien estava lutando para manter suas emoções intactas, enquanto o irmão continuava falando.
"Sabe qual era a coisa da qual eu sempre me orgulhei? Minha lealdade. Eu ficava discutindo com Bella por horas dizendo que era o mais leal de todos nós. Que eu daria minha vida por ele de bom grado. Sempre pensei que morreria protegendo-o." As últimas palavras saíram em um sussurro e Harry olhou para o irmão.
"Nunca pensei que isso ia acontecer, Damy. Nunca pensei que fosse me voltar contra ele como eu fiz. Ouvir Charlie falar que eu não era confiável, que eu traí Voldemort... ele foi brutalmente verdadeiro. O que ele disse tá certo. Como posso lutar contra isso?"
O mais novo cruzou o quarto e ajoelhou-se em frente ao outro.
"Você não pode pensar assim, Harry. Você sabe que isso não é verdade. Charlie estava sendo um idiota! Ele estava falando besteira. Você fez o que tinha que fazer." Mas não importava o que Damien falasse, Harry não aceitava, ainda se achava desleal e não confiável.
Damien não se deixou levar por suas emoções até chegar em seu quarto. Nunca pensou que Harry estava se culpando tanto por Voldemort. Se a culpa era de alguém, então era sua! Seu irmão apenas atacara o Lorde das Trevas porque pensou que este o havia matado. Porém, mesmo assim, Harry ainda amava o irmão acima de tudo. E estava derramando toda a culpa sobre seus próprios ombros.
Damien sabia que tinha que fazer alguma coisa pra consertar isso. Decidiu falar com Hermione quando voltasse para Hogwarts. Ela definitivamente saberia como ajudar.
xXx
James e Lily tentaram, mas falharam em sua tentativas de conversar com o filho sobre o acontecimento do natal. Damien não falou para os pais nada sobre o que lhe fora confiado. Ele sabia que se contasse os dois apenas forçariam Harry a conversar e este claramente não o queria.
Os feriados passaram rapidamente e antes que percebessem, estavam de volta a Hogwarts. Ginny correra até Harry assim que entrara no salão comunal e lançara seus braços em volta dele, o abraçando forte.
"Sinto muito, Harry! Deus, sinto muito!" Ela disse quase chorando.
A menina descobrira a razão do garoto ter saído e estava muito brava com Charlie por ter falado sobre aquilo. Porém, ela sabia o suficiente sobre Harry para deixá-lo em paz até que este se acalmasse.
O moreno a reconfortou e disse que estava bem e que não estava chateado, não com ela. O grupo de cinco sentou no abarrotado salão comunal e Harry lutou para ficar acordado. Ele tivera um período péssimo em casa. Não podia tomar mais poções para dormir, já que estava no intervalo entre elas e logo sofreria mais pesadelos. Não dormira nada e seu corpo doía pela falta de descanso.
"Hey, cara. Você tá péssimo!" Ron brincou ao sentar ao lado dele.
"Obrigado." Harry zombou.
"Sério, Harry. Você está bem? Você parece meio... doente." Hermione disse, encarando-o preocupada.
"Estou bem. Apenas me recuperando do resfriado. Como foi a sua viagem na estação de esqui?" Harry perguntou cordial, removendo o foco da atenção de si. Hermione começou a explicar seu feriado em detalhes, deixando-o descansar.
Na manhã seguinte, Harry estava sentado no salão comunal para o café da manhã. Estava se sentindo bem melhor, tinha dormido profundamente na noite passada. Ele não sabia se era por estar tão cansado ou se era resultado da sua volta a Hogwarts. Brincou consigo internamente dizendo que foram os dons de contadora de história de Hermione que o colocaram para dormir. Essa tinha sido a última coisa que lembrava.
Harry estava encarando a mesa da sonserina. Tentava ver se Draco já tinha voltado. Não o vira na noite passada, durante a festa de boas vindas. Aquilo o preocupava um pouco.
Depois de alguns momentos, entretanto, Draco Malfoy entrou no salão, seguido por sua usual turma de amigos. Harry sorriu mesmo sem querer. O loiro olhava para a mesa da sonserina com uma alegria mal contida. Seus companheiros de casa estavam felizes por vê-lo também. Eles comemoraram em voz alta quando Draco entrou e o fizeram sentar no meio. Aparentemente ninguém sabia da ajuda do loiro na derrota de Voldemort. Se soubessem que ele e Severus tinha ajudado a levar o ministério até o Lorde das Trevas, a maioria da sonserina não o iria querer de volta.
Harry percebeu que seus olhos se desviaram para Dumbledore na mesa principal. Ele imaginou como o velho fazia aquilo, como conseguia manipular a mídia e manter certos fatos escondidos. Ninguém realmente sabia o que tinha acontecido para que Voldemort aparecesse em Hogsmead naquele dia. Ninguém sabia do envolvimento de Severus e Draco, nem mesmo Damien.
Harry balançou a cabeça para clarear a mente das imagens que apareciam em sua mente. Justamente quando estavam se preparando para ir a primeira aula, as corujas apareceram voando, entregando todos os tipo de correspondência. Como sempre, uma coruja marrom chegou e entregou o Profeta Diário para Hermione. Ela colocou um knut na bolsinha de couro e desenrolou o jornal. Imediatamente congelou e encarou a primeira página. De repente, o salão inteirou se encheu de um silêncio completo.
Harry virou sua cabeça para olhar os pais, que sentavam na mesa principal. Eles vislumbraram o jornal, seus rostos ficaram pálidos e então encararam o filho.
O moreno nem mesmo precisou olhar o Profeta Diário para saber o que aconteceu, e já não prestava mais atenção ao que Hermione lhe dizia. Ele soube apenas de olhar para a face de seus pais.
O Príncipe Negro atacara novamente.
