Capítulo 14: Um mundo feito de vidro
Nota da autora: LOL, eu demorei demais para publicar isso! X.X Enfim, de volta. E agora, entramos definitivamente na segunda fase da fic. Espero que gostem. Agora não poderei responder a sua review decentemente, Nay-sama, mas muito obrigado por todas as coisas fofas que você disse. Beijos a todos e até mais! n.n
–Tsukihana? – perguntaram Sora, Riku e Kairi ao mesmo tempo, assim que Leene lhes apresentou Lulu. Ela engoliu em seco, e explicou:
–Tsukihana, ou "flor da lua", é o nome da ordem de feiticeiras de Waterfall City, e também é o nome que se dá às suas mestras. Todas são Iniciadas, mas apenas algumas chegam ao posto de Tsukihana.
–O que a traz aqui de volta, Leene? – Lulu perguntou – Principalmente depois de você ter jurado que nunca mais ia voltar...
–Estamos com problemas – a voz dela falhou – Problemas sérios. E acredito que eles tenham relação com a magia de Waterfall City. Pessoas estão morrendo, mundos estão sendo drenados... – e, com a voz reduzida a um murmúrio – ...e eu já não sabia mais a quem recorrer.
–Entendo – o tom de voz de Lulu continuou seco e impessoal – Sigam-me, vamos até a minha casa conversar sobre isso.
Eles a seguiram pelas galerias da cidade. Por dentro, Crystal Fortress se parecia com um grande palácio intricado e cheio de grandes salões e corredores. Ao mesmo tempo, porém, se parecia com uma cidade movimentada, com muitas casas e lojas, e pessoas andando de um lado para o outro, apressadas, algumas carregando pacotes e sacos.
–Ei, Leene! – quando passaram em frente a uma casa, ouviram uma voz feminina – Há quanto tempo, querida! O que a traz de volta à cidade?
–Senhora Dincht! – ela correu até ela – Também senti a sua falta!
–Que falta de tato, Zell, você nem a convidou para vir até aqui! – ela repreendeu o garoto louro, que apenas deu de ombros – E você precisa ver o Woody! Ele está enorme, e mais rápido que nunca!
–Ah, jura? – os olhos dela brilharam – Eu preciso resolver umas coisas antes, mas ainda hoje volto aqui para vê-lo, OK? Até mais tarde!
Eles seguiram em frente. Riku sussurrou, intrigado:
–Woody? Quem é Woody?
–É a forma como chamo o Woodstock, meu chocobo de estimação – ela respondeu – A mãe do Zell é a criadora de chocobos oficial da cidade.
–E o que diabos é um chocobo? – ele insistiu, entendendo menos ainda.
–Meu Deus, o que ensinam às pessoas lá fora, hein? – Zell deu uma risada, mas foi possível sentir uma nota tênue de ironia ácida na voz dele – Um chocobo é um pássaro amarelo. Eles são rápidos e fortes, e nos ajudam muito aqui.
–Eu não tenho que saber sobre uma coisa que nunca vi – replicou Riku, a voz baixa. A cada momento, gostava menos e menos de Zell, e aparentemente aquilo estava se tornando recíproco.
Por fim, eles chegaram a uma casa de aparência mais austera. Lulu sinalizou para que entrassem e se acomodassem, e depois começou a dizer:
–Eu sabia que vocês viriam – o olhar dela passava de um a outro, e por fim pousou em Sora – Já faz alguns meses que ando tendo visões, sonhos... E pesquisando também. Acho que sei o que está acontecendo, e com o que vocês estão lidando. E, se querem saber – encarou-os outra vez, os olhos intensos e estreitos – é muito maior do que vocês são capazes de imaginar.
–Senhora Lulu, o que a senhora sabe? – Sora tentou se manter impassível, mas a ansiedade transpareceu em sua voz – Essa feiticeira, Erinia, ela drena mundos. Como ela faz isso? E... é como se isso tivesse relação especificamente comigo, mas não consigo compreender.
–Entenda, meu jovem, eu também não tenho todas as respostas – a voz dela, apesar de se manter austera, suavizou um pouco – Por exemplo, eu não sei quase nada sobre a sua Keyblade, mas o que percebi até agora é que há um relação com ela, também, e com seu portador. Mas sei o suficiente sobre a história desta cidade, e sei o que está por trás de tudo isso.
Todos a encaravam fixamente. E, então, ela começou:
–Erinia é, sim, uma das Iniciadas. Mais do que isso, ela chegou ao posto de Tsukihana, a mais jovem da história. Realmente, ela sempre teve um talento ímpar – encarou Leene por um instante, antes de continuar – Leene deve ter lhes contado que uma Iniciada passa por um teste para descobrir a que elemento pertence. Erinia, porém, era um caso raro. Ela conseguia dominar todos os elementos de forma magistral. Mas... acho que o poder a corrompeu, e ela passou a usá-lo para sobrepujar reinos. Sua maior meta, porém, era se tornar imortal. Ela queria ser uma deusa na terra, e ter tudo sob o seu domínio.
Imortal. Sora estremeceu ao imaginar isso.
–A única forma de conseguir isso, porém, era acessar o interior, o coração de tudo – continuou Lulu, no mesmo tom – Ela estava atrás do que pode ser considerado a coisa mais inacreditavelmente poderosa que existe. De acordo com antigas profecias, um dia nasceria uma criança, cheia de poder, que mudaria o mundo. Mas, depois dela, nasceria outra, que a combateria. Ambas estariam em lados opostos, e lutariam até que apenas uma restasse. Quem permanecesse de pé mudaria toda a história.
–Essa profecia... – murmurou Kairi – Eu me lembro disso! Fawn nos contou, em Pixie Hollow!
–Erinia alegava que era ela a criança da profecia, e que isso dava a ela direito sobre esse poder – Lulu continuou a história – Além do mais, era função das Iniciadas guardar esse poder, e ela também usava isso como argumento para tomá-lo para si. Então, nossa superiora decidiu selá-la de uma vez por todas. Erinia ficou completamente irada, e tentou matá-la. As duas lutaram, uma luta terrível, que acabou tomando as proporções de uma guerra... as duas tinham seguidores, que passaram a lutar contra si, também. Nossa ordem quase morreu. E, no fim, a Superiora caiu...
Os olhos de Lulu se fecharam por um instante, a expressão dela ficou respeitosa e solene. Mas, Leene, porém, arregalou os olhos e disse:
–Espere um pouco... essa Superiora de quem você falou é... não, não pode ser! Não pode ser... Shiva.
–Exatamente, Leene – confirmou a professora – Ela mesma, Shiva, a fundadora da Ordem. Na verdade, a Ordem foi criada com o intuito de proteger essa fonte. É claro, a partir daí surgiram as lendas. Muitos ainda acreditam que o espírito dela esteja aqui, ainda guardando a cidade.
–Isso não faz o menor sentido! – murmurou Leene, exasperada – Shiva viveu aqui há quase mil e quinhentos anos, como ela pode ter enfrentado Erinia e... ah, não, espere um pouco... e se...
–Não, Erinia não é imortal – Lulu traduziu o olhar de pavor de sua aluna – Pelo menos o que ela tem não é uma imortalidade verdadeira. Ela sobrevive sugando corações, parasitando-os, alimentando-se deles. Ela drena mundos para aumentar o próprio poder, mas também para se manter viva. O coração de um mundo tem energia o suficiente para mantê-la viva, jovem e forte por séculos. Mas, se ela aumentou o ritmo, significa que está planejando algo.
–A senhora falou várias vezes sobre uma fonte de poder – disse Sora – Mas que fonte é essa?
–É exatamente isso. Uma fonte – ela respondeu – Mais precisamente, a Fonte das Eras. Todos os mundos, todas as pessoas, têm um coração, certo? E há um grande coração comum a todos.
–Kingdom Hearts – disseram Sora, Riku e Kairi ao mesmo tempo. Lulu confirmou, e continuou:
–Exatamente. Mas Kingdom Hearts não nasceu sozinho, ele surgiu a partir da Fonte. A Fonte é uma espécie de gerador e criador de energia. Tudo o que vocês conhecem, todo o poder, toda a energia, é proveniente de lá. É a origem de tudo, passado, presente, futuro... todo o poder criador e destruidor com o qual vocês podem ser capazes de sonhar. Dominá-la é dominar esse poder. E dominar esse poder... é praticamente um atestado de divindade.
Por um momento, todos ficaram estáticos, boquiabertos. Era mais terrível do que eles eram capazes de imaginar, a princípio.
–Isso explica o motivo pelo qual Erinia está reunindo tanto poder – disse a feiticeira – Ela está se preparando para tomar exatamente aquilo que lhe dará poder absoluto. E vocês não podem deixar que ela o alcance. A Ordem continuará lutando para proteger a Fonte, mas... precisamos de ajuda.
Eles permaneceram em silêncio. E quem o quebrou foi Zell:
–Eu não entendi nada – ele murmurou, coçando a cabeça – Uma Fonte? Uma bruxa? O fim do mundo? O que tá havendo aqui?
–Zell, cale a boca – sibilou Leene – Isso explica tudo... e as portas de bronze espalhadas por aí são...
–Cada mundo tem um acesso à Fonte – explicou a professora – Esse acesso permanece selado. Mas, pelo estado em que as coisas estão, algumas criaturas já conseguem passar através dela. Elas não tocam a Fonte, a porta é apenas a primeira barreira. Além dela, um longo caminho deve ser percorrido, e não é qualquer um que será capaz de encontrar a Fonte. Mas todas as portas se comunicam entre si e dão acesso ao coração de cada mundo, o que quer dizer que Erinia pode usar esses acessos para entrar diretamente em contato com eles e drená-los completamente. Ela não será capaz de abrir a porta final sozinha, pois se fosse já teria feito isso. Mas é provável que alguém a abra, por ela. Alguém destinado a isso, eu diria.
Silêncio outra vez. Era demais para processar. Era terrível demais.
–E o que podemos fazer para impedir? – murmurou Sora, a voz baixa – Tem que ter... alguma coisa que a gente possa fazer pra não deixar isso acontecer!
–Como eu disse, sei muito pouco sobre a sua Keyblade – explicou ela – Mas acredito que ela seja a chave. Você disse que sente uma ligação entre você e tudo isso, não é? Acredite, nenhuma sensação desse tipo é apenas imaginação. Existe uma relação nisso.
–Sim... – ele murmurou, mais para si. "Seth, se você tem alguma resposta, por favor, me dê agora!"
–Vocês estão cansados, a viagem deve ter sido exaustiva – disse Lulu, por fim – E acredito que vocês tenham planos de passar algum tempo aqui, então não precisamos nos prolongar muito, por enquanto. Leene, Zell, levem-nos para conhecer a cidade. As portas da minha casa estão abertas a vocês, podem se acomodar aqui e ficar quanto tempo precisarem.
Os cinco se levantaram, e fizeram uma pequena mesura. Antes de saírem, porém, Lulu disse:
–E, Leene... quero conversar com você, mais tarde. Em particular.
Ela engoliu em seco, acenou afirmativamente e, depois, saiu. Eles começaram a caminhar pelas ruas da cidade, em silêncio, até que, por fim, Riku perguntou:
–O que houve entre vocês duas?
–Nós sempre brigamos muito – ela respondeu – Ela é autoritária e ríspida, e só sabia me criticar. Quando o rei chegou, tivemos uma discussão feia... e eu jurei que nunca mais voltaria a vê-la.
Eles voltaram a ficar em silêncio, enquanto ela dirigia seus passos à casa de Zell. Assim que os viu, a mãe dele os chamou na direção dos fundos da casa. Lá, havia o que se parecia com um estábulo cercado. Assim que entraram, a expressão de Leene se desanuviou, e seus olhos brilhavam.
–Se vocês não se importam, eu vou sair pra resolver umas coisas – disse Zell – Mas prometo que volto daqui a pouco. Ainda temos muito pra conversar, Leene... – nessa hora, ele deu um sorriso enviesado, ela corou e Riku estreitou os olhos. Era impressão dele ou o tal Zell era mesmo tão insuportável quanto parecia ser? – Até mais!
E, logo depois, os olhos dele se arregalaram. Então aquilo era um chocobo?
Eles estavam parados diante de uma gigantesca ave amarela. Ela devia ter a altura de Sora, e era robusta e tinha pernas longas. No topo da cabeça, um penacho amarelo. Os olhos dele analisavam os visitantes com interesse, até que pousaram em Leene. Ele, então, começou a emitir sons agudos e excitados.
–Woody! Que saudade! – ela abraçou o pescoço do pássaro – O que andaram te dando pra comer? Você está enorme! Isso, isso, isso, bom menino... – e começou a afagar a cabeça dele – Pessoal, quero que conheçam Woodstock, meu chocobo de estimação!
–Erm... muito prazer? – murmurou Kairi, sem saber o que fazer. Ela aproximou a mão da cabeça dele, hesitante, e fez um afago tímido. Ele reagiu bem, e começou a emitir os mesmos sons, fazendo-a rir e se aproximar mais – Ora, mas você é mesmo muito fofo!
Sora também chegou mais perto, e foi recebido da mesma forma. Apenas Riku ainda não se sentia exatamente confiante em relação a Woodstock, mas aproximou a mão lentamente.
Quando chegou perto da cabeça do chocobo, porém...
–OUCH! – se ele tivesse sido um segundo mais lento, teria perdido metade dos dedos. Assim que ele se aproximou, Woodstock deu uma vigorosa bicada, tentando pegar a mão dele – Essa galinha super-desenvolvida tentou comer a minha mão!
–Não seja bobo, ele só come verduras – Leene deu de ombros – Você deve tê-lo assustado. Zell tem o mesmo problema, Woody também não gosta dele.
–Woody não é o único... – ele murmurou, encarando a ave com ressentimento – Eu vou esperar lá fora.
Ele foi na direção da rua, irritado. A cada momento gostava menos e menos dali. Sim, a cidade era linda e intrigante, mas até agora só havia tido más notícias e encontros desagradáveis. E acabava de ser atacado por uma versão absurdamente aumentada de uma ave de quintal. Poderia ficar pior?
Sim, poderia. Zell acabava de aparecer.
–Yo, Riku! – ele acenou, e Riku acenou de volta com a cabeça – A coisa amarela te atacou também?
–Sim – ele confirmou – Aquele frango crescido. E Leene o trata como se fosse um poodle inofensivo.
–Sabe que existe uma lenda sobre chocobos, não é? – o primeiro abriu um sorriso enviesado – Eles são muito fiéis aos seus donos. E sabem quando alguém tem interesse por eles. Se eles pressentem que alguém gosta dos seus donos, irão fazer de tudo para afastá-los deles. São criaturas possessivas, sem dúvida. Se não conquistar a confiança deles, já era, eles nunca te deixarão chegar perto da pessoa!
–Que lenda interessante – Riku engoliu em seco, depois imitou o sorriso de Zell – Mas duvido que passe disso. Apesar do tamanho, ele não deve ter um cérebro tão grande assim.
–Pois eu acredito – e, de repente, ele ficou sério – E você pode entender o que isso significa, não é?
–Não sei do que você está falando – murmurou Riku, impassível – E isso é ridículo.
–Ora, vamos – Zell sorriu outra vez – Não precisa mentir para mim. A forma como você olha para ela... e a forma como você olha para mim... admita, você já me vê como seu rival. Ela deve ter te contado que nós já fomos namorados.
–É, ela deve ter mencionado isso – retrucou Riku, com desprezo e os olhos estreitos – Mas não, eu não vou entrar numa disputa amorosa ridícula com você. Acredite, você está bem longe de ser meu rival.
"Ele tá pedindo um chute", pensava ele, furioso. "Só pode ser isso, ele tá pedindo um chute!"
–Então o pequeno herói se garante, não é? – o outro deu uma risadinha – É o que vamos ver. Ela só precisa dos incentivos certos para se lembrar.
–Quer mesmo transformar isso numa disputa, Dincht? – devolveu o primeiro – Sinto muito, mas ao contrário de você eu não vejo a Leene como um prêmio. Se é assim que você a vê, então dá pra entender os motivos pelos quais ela não está mais com você.
Zell se levantou, cerrando os punhos. E Riku também se levantou, encarando-o com frieza no olhar.
–Eu não vou perder o meu tempo com você, Zell – disse o segundo, impessoal – Temos coisas bem mais sérias pra nos preocupar, aqui. Agora, sugiro que me deixe em paz, se não quiser me ver realmente nervoso.
–OK, se é assim que você quer... – a voz do outro diminuiu – Mas seja um pouco menos falso consigo mesmo, Riku. Admita, você sabe que quer entrar nesse jogo. E eu sei que vai entrar – então, ele saiu, acenando – Até mais...
"Eu vou acabar matando esse cretino!", Riku sentou-se no chão, exasperado, com ganas de socar a primeira coisa que lhe aparecesse na frente. Quem ele pensava que era? Ele se achava no direito de disputar o coração de Leene como se ele fosse o prêmio de uma corrida? E ainda se achava no direito de vir provocá-lo? Era muito atrevimento, mesmo! Da próxima vez, ele perderia alguns dentes. Riku se garantiria pessoalmente disso.
Mas a última frase dele permanecia martelando em sua cabeça...
"Seja um pouco menos falso consigo mesmo, Riku.", ele disse. Ele não estava sendo falso, oras! O que ele sentia por Leene era... oras, era amizade, o que mais poderia ser? Era uma amizade muito boa e muito sólida, nada além disso. Apenas amizade...
Uma amizade que o fazia quase pressentir quando ela estava chegando... e que fazia com que seu dia se tornasse mais radiante quando ele a via... e que fazia seu coração sempre dar uma batida meio fora do ritmo, quando ele a via...
"CHEGA!", ele pensou, por fim, repreendendo a si mesmo por deixar que seus pensamentos tomassem aquele rumo. Ele não ia pensar mais naquilo. Se pensasse, acabaria enlouquecendo. E, naquele momento, não podia se dar a esse luxo.
–Riku? Tá tudo bem? – então, Sora foi até ele – Leene tava querendo nos levar até o Templo... o que houve com você? Até parece que você quer matar alguém...
–E eu quero – ele sibilou – Aquele babaca do Zell. Quem ele pensa que é? Ele veio aqui me encher sobre a Leene. Só porque ele acredita numa lenda estúpida sobre essas giga-galinhas, ele já acha que eu e a Leene temos alguma coisa, e já se intitulou meu rival... e, da próxima vez, juro que vou acertar um soco naquela cara tatuada dele pra fazê-lo ir parar na torre do castelo!
–Hum, entendo... – então, Sora abriu um sorrisinho zombeteiro. Riku o interpretou, e disse, desolado:
–Ah, dá um tempo... não você também! – e escondeu o rosto nas mãos, sentindo-se corar furiosamente.
–Eu não disse nada – ele deu de ombros, mas manteve o sorriso – Como eu estava dizendo, Leene nos convidou para ir até o Templo de Shiva. Parece que lá tem uma biblioteca, podemos pesquisar lá.
Riku assentiu, um pouco relutante. Se pudesse escolher, iria ficar na nave até o final da estadia deles na cidade. Em alguns minutos, os quatro voltavam a caminhar pela cidade. E, por fim, eles pararam em uma grande praça. As paredes, ao contrário das do resto da cidade, eram pedra nua e rústica. Era possível ver, porém, pequenos pontos que refletiam a luz da lua e das muitas lâmpadas espalhadas por ali. Aquilo explicava o nome da cidade subterrânea, Crystal Fortress. Havia uma trilha de lanternas conduzindo ao uma monstruosa cúpula que parecia ter sido diretamente esculpida na pedra. Leene continuou guiando-os até a porta, quando parou e disse:
–Este é um lugar de respeito e oração. A magia, para nós, é uma espécie de religião, também. As Tsukihana são vistas como sacerdotisas, e as Iniciadas são suas aprendizes. Apesar de usarmos nossos feitiços como instrumentos de batalha, sua função principal é proteger, curar e purificar. Então, por favor, meçam suas palavras aqui dentro. Esse é um lugar sagrado para nós.
Os outros concordaram, e ela os levou para dentro. Por dentro, o templo era uma visão ainda mais impressionante: era, também, todo feito de pedra rústica, mas nas paredes havia uma série de enormes vitrais que projetavam luzes coloridas no chão. Em frente à porta, havia uma escada alta que conduzia a uma porta. Próximo à porta, havia uma grande estátua de pedra. Ela representava uma mulher de aspecto ao mesmo tempo imponente e gentil. Seus cabelos longos estavam presos com argolas, seu olhar estava direcionado para a porta. Uma das suas mãos estava estendida, a palma virada para cima numa súplica, e a outra estava pousada no coração.
–Sejam bem-vindos ao Templo de Shiva – uma pequena sacerdotisa vestindo um manto branco com capuz se aproximou e os cumprimentou – A Casa da Mãe é a casa de todos, então sintam-se à vontade. E... Leene? – então, ela abriu um sorriso – Não acredito! O que veio fazer aqui de novo, garota?
–Oi, mestra Nadia – Leene sorriu também – Nos perdoe o incômodo. Precisamos usar a biblioteca daqui para fazer um pouco de pesquisa.
–Ora, sintam-se em casa! – Nadia sorriu mais – As portas estão abertas, é só descerem a escada da direita. Agora, se... – ela percebeu que os olhos de Sora estavam fixos na estátua – Algum problema, meu jovem?
–Com licença... – ele murmurou – Aquela ali representada na estátua é Shiva?
–Sim – o sorriso de Nadia se tornou reverente e respeitoso – Nossa fundadora e protetora. "Com uma das mãos, ela pede para que cuidemos uns dos outros, com a outra ela nos mantém em seu coração." É o que dizem sobre ela. Mas...
Sora acompanhou o olhar da estátua, em direção à porta. Era grande, ricamente trabalhada, com ricos entalhes na madeira avermelhada, e uma grande fechadura em prata. Havia um suporte, ao lado da porta. Os símbolos eram muito parecidos com os das portas que haviam encontrado em outros lugares, mas agora... eles pareciam fazer muito mais sentido.
–Deveria haver alguma coisa naquele suporte? – ele perguntou.
–Na verdade, sim – ela respondeu – Aquele é o Claustro de Testes. No passado, ele era usado para testar as que queriam se tornar Superioras, e qualquer outro que assim desejasse. Mas, para que as portas se abram, é necessário que haja uma chave. O suporte é para um sino, sem o qual ela também não se abre.
Os quatro se encararam, arregalando os olhos. A coincidência era mesmo absurda.
–E se nós dissermos que temos a chave e o sino? – perguntou Riku, lentamente – Você nos deixará entrar ali?
–Se vocês os tem, então significa que têm o direito de entrar ali – respondeu Nadia – E que há uma missão preparada para vocês, ali.
Kairi tirou da bolsa a chave que Wall-E havia lhe dado. Leene, por sua vez, saiu correndo do templo, e voltou alguns minutos depois, ofegante, trazendo nas mãos o sino que eles haviam recebido como presente de Quasímodo. Nadia arregalou os olhos ao ver as duas relíquias ali, tão perto dela, e murmurou, estupefata:
–É incrível... os símbolos permaneceram desaparecidos por anos, mas se vocês os encontraram, significa que há algo muito importante em seu destino – e, para eles – Subam as escadas, toquem o sino e usem a chave. Não sei o que há do outro lado, e não poderei ajudá-los uma vez que estejam lá. Percorram todo o caminho do Claustro de Testes. A resposta estará nele. Agora, vão.
Os quatro subiram a escada rapidamente. Leene colocou o sino no suporte e deu uma batida suave nele. O som era de uma pureza incrível, e à medida que ia reverberando nas paredes de pedra, tornava-se ainda mais etéreo. Quando ela fez isso, houve o som de uma fechadura se abrindo. Em seqüência, Sora destrancou a porta. Ele hesitou por um momento, mas logo depois empurrou-a com força. Ela protestou, resistiu, mas logo depois cedeu. E os quatro, tentando afastar seus medos, atravessaram-na.
Mas eles não estavam prontos para encontrar o que havia lá.
Não havia corredores de pedra, como no Templo. Pelo contrário, havia uma imensidão vazia e escura. À frente deles, havia apenas uma passarela feita de vidro e aço, que seguia subindo indefinidamente. Mas, apesar de estar escuro, havia uma espécie de luz difusa, que parecia não partir de lugar algum. Essa luz os guiava, e os permitia ver aquela imagem estranha e surreal.
Era tão inexplicável... e tão familiar a Sora...
Ele liderou o grupo, e eles subiram por vários minutos. Ninguém ousava quebrar o silêncio. Era como se tudo aquilo fosse um sonho feito de vidro, tão frágil quanto aquele em que pisavam. Por fim, pararam em uma plataforma plana circular. Ela parecia ser composta de milhares de pedaços de vidro colorido. E levou um certo tempo até que percebessem...
–Peraí, eu conheço esse desenho – murmurou Kairi – É... é... somos nós...
Todos olharam para onde estavam pisavam. Naquele vitral, todos eles estavam representados, Sora ao centro, ladeado por Riku. Os dois estavam com suas Keyblades cruzadas. Kairi e Leene estavam nas bordas, cada uma ao lado de um dos garotos. Havia algo estranho na posição em que estavam. De certa forma... Sora e Riku pareciam antagonistas.
–Sejam bem-vindas, minhas crianças – uma voz feminina soou, etérea e sobrenatural – Vejo que vocês vêm ao Claustro de Testes. Não é a primeira vez de alguns de vocês, não é, Sora e Seth?
Sora estremeceu. Ela o conhecia, fosse quem fosse. E conhecia Seth.
–Quem é você? – murmurou Riku, e depois, mais alto – Diga o seu nome!
–Isso não é relevante agora – a dona da voz parecia sorrir – Aqueles que buscam o Claustro procuram por respostas que não encontraram em nenhum outro lugar. Que tipo de perguntas os trazem aqui? Posso sentir suas dúvidas, sua atribulação. Em especial a sua, Sora, jovem mestre da Keyblade. Seu coração está pesado e hesitante. E receio dizer que sua responsabilidade se tornará ainda maior.
O coração de Sora ficou levemente descompassado. Como ela poderia saber?
–E temos Riku, um jovem que também porta a Keyblade – a voz continuou – Como um cavaleiro, você não quer que lutem por você. Não, você quer que eles lutem ao seu lado. Um cavaleiro com um coração gentil e bondoso, mas tão cheio de cicatrizes... tão ferido... tão cheio de dor... Você não a compartilha, mas a sente. Você quer senti-la, para nunca se esquecer do que fez. Para nunca esquecer daquilo que prometeu.
Riku levantou os olhos sobressaltado, e depois voltou a baixá-los, com melancolia.
–Kairi, a princesa, aquela que porta o Raio de Lua... – a voz assumiu um tom mais baixo, mais sussurrado e respeitoso – Você quer lutar, mas não se sente forte o bastante. E tenta manter sua fé, apesar de ela ser abalada dia após dia... E, você, Leene, Iniciada do Templo de Shiva... tão forte, e ao mesmo tempo tão frágil... transformando sua dor e seu medo em forças para lutar por aqueles ao seu lado... lutando contra a solidão...
Os quatro se encararam, sem entender. Onde ela queria chegar?
–Todos vocês buscam algo – a resposta veio depois – Infelizmente, não tenho o poder de oferecer aquilo que desejam. O que posso fazer é dar as ferramentas que vocês usarão para obter aquilo que buscam. O uso que farão delas, porém, é por conta de vocês. Mas acredito em vocês, e sei que as usarão em nome de uma causa maior. Agora, fechem os olhos... eu os levarei a uma pequena viagem.
No segundo seguinte, um clarão surgiu. A luz era tão forte e ofuscante que Sora teve que bloquear os olhos com as mãos. Quando sentiu a luz diminuir, voltou a abri-los. Mas ele já não estava mais na plataforma de vidro de alguns segundos antes. Não... agora ele estava numa sala circular, cercada por uma infinidade de espelhos. O teto abobadado era de vidro, e a luz da lua cheia inundava o ambiente. No centro, havia um altar de pedra, cercado de entalhes. Eram os mesmos de todas as portas.
Ele estava sozinho. O lugar era frio, e opressivo.
–Sora? – então, ele ouviu uma voz que não esperava ouvir. Estacou, congelado de pavor. Não, ele não estava sozinho. Ao olhar para o lado, percebeu que havia alguém com ele...
–Seth? – ele murmurou, pasmo – O que... o que você está fazendo aqui?
–Sim... – Seth olhava em volta – É exatamente como eu me lembro... assustador, mas ainda assim belo.
–O que estamos fazendo aqui? – perguntou Sora, observando – Que lugar é esse?
–Sora, esse é o topo de uma das torres do Mooncastle – respondeu Seth – É uma espécie de oratório do castelo. As Tsukihana costumavam vir aqui para fazer orações, feitiços de purificação e de proteção. E, também... – ele engoliu em seco – Aqui também foi o palco de uma grande batalha.
Sora não precisou perguntar. O olhar de dor de Seth era suficientemente explicativo.
–Minhas crianças – a voz sussurrante falou outra vez – Eu os trouxe até aqui porque este lugar será vital para os acontecimentos futuros. Preciso lhes revelar uma verdade... uma verdade terrível. E, Seth, sei que você já está cansado de lutar. Mas preciso que permaneça de pé e enfrente mais essa batalha por mim. É muito importante que seu coração se mantenha forte. Sora irá precisar dessa força.
Seth olhou em volta. Sora percebeu que o reflexo dele não aparecia nos espelhos. De repente, ele foi atingido por uma conclusão ao mesmo tempo óbvia e bizarra: Seth devia estar morto há séculos, para saber daquelas coisas. Provavelmente, ele era algum tipo de fantasma, ou anjo da guarda, que permanecia ao seu lado, vigilante e, na maior parte do tempo, silencioso.
Mas isso ainda não explicava qual era o elo entre os dois.
–Sim... sensei – ele concordou, a voz baixa – Eu permanecerei de pé, lutando. A senhora não está descumprindo a sua promessa, e eu não irei descumprir a minha.
–Obrigada – ela parecia sorrir – Agora, Sora... isso pode ser um pouco doloroso, mas por favor, resista.
E, no segundo seguinte, sua cabeça foi atingida pelo que parecia ser uma tsunami.
De repente, uma torrente de informação, tão rápida, intensa e dolorosa preencheu sua mente. Foi o mesmo que aconteceu em Twilight Town, quando tocou a bolha amaldiçoada de Erinia. Ele não conseguia raciocinar, não conseguia se mexer. Era como se aquilo destroçasse sua mente. Tentando se agarrar a algum lampejo de lucidez, ele olhou para o lado. Seth não parecia estar sendo afetado, dessa vez, mas seus olhos estavam cravados no chão.
Então, um último pensamento o atingiu, antes que a torrente varresse tudo.
Por que o olhar dele era assim tão triste e desolado?
Por fim, parou. Por algum tempo, ele não conseguia nem se lembrar de como era respirar. Aos poucos, porém, foi voltando a si, e retomando o controle. E apenas uma imagem preenchia a sua mente. Uma imagem que era dolorosa demais, uma conclusão tão terrível que parecia querer rasgar seu coração em pedaços.
–Eu tenho visto as mesmas coisas – murmurou Seth – Acredite, eu senti a mesma coisa. E é exatamente por isso que vou ajudá-lo e lutar ao seu lado.
–Não... não... – ele murmurava, desesperado – Não pode... não posso... não...
E, então, veio um segundo clarão, e depois ele se viu outra vez na plataforma de vidro. Os outros estavam lá, também, com as mesmas expressões de choque e desolação que ele exibia. Na certa, cada um foi transportado para algum outro lugar e viu coisas diferentes.
–O que... vocês... – Kairi começou a murmurar, mas Leene a deteve, dizendo:
–Não, Kairi. Agora não – e encarou Sora fixamente – Vamos embora.
–O Claustro é diferente para cada pessoa que vem aqui – a voz soou mais uma vez – Ele é construído com base no que mora no coração de cada um que vem até aqui, por vontade própria ou por invocação minha. Vocês poderão voltar sempre que acharem importante. Até lá... adeus.
O grupo seguiu num silêncio sepulcral de volta à porta, e permaneceu assim até a saída do templo, quando finalmente Riku parou e disse:
–Pessoal... eu sei que cada um de vocês viu algo importante. Algo que pode ser doloroso, ou triste, ou perigoso. Mas... nenhum de nós está condenado a nada. A nada, entenderam? Nós é que construímos nosso destino.
–Nós, Riku? – murmurou Sora. Os outros três se viraram, e se depararam com os olhos do amigo cheios de lágrimas – Nós não estamos condenados a nada? E quando você está condenado a condenar o resto do mundo, e sabe que não poderá fazer nada para impedir?
–Do que você está falando, Sora? – Kairi o encarou, preocupada.
–Eu vou encontrá-la, droga! – ele começou a chorar abertamente – Eu vou encontrar a droga da Fonte. E sabem o que eu vou fazer? Vou levar Erinia até ela! Eu vou ser o responsável por todos os mundos serem transformados em escombros, exatamente como Twilight Town! Eu, droga, eu! Como eu devo lidar com isso? Como eu devo... viver com isso?
Os outros o encararam, boquiabertos. Então era isso que ele tinha visto?
Por algum tempo, ninguém disse nada. Sora se ajoelhou no chão, oprimido pelo peso da culpa e da responsabilidade. Não havia como impedir aquilo, havia? Era uma ironia extremamente amarga, aquela. Ele, logo ele, o mestre da Keyblade destinado a proteger os mundos, ser o responsável pela destruição deles. Era uma crueldade imensa do destino. Ele continuou chorando alto, com o rosto escondido nas mãos. Eram tantas lágrimas que vinham sendo retidas, escondidas... tantas mágoas que precisavam ser lavadas, tantos medos, tanta dor...
–Sora, não! – então, Leene ajoelhou-se ao lado dele, e o fez olhar em seus olhos – Não faça isso. Se você se entregar à dor e ao desespero, aí sim estará perdido.
–O que eu faço, Leene? – a voz dele era apenas um fiapo – O que eu faço? Eu não posso... conviver com isso, não posso ser o responsável por isso!
–E não vai – Kairi também se ajoelhou ao lado dele, decidida – Nós estamos aqui, não estamos? E estamos ao seu lado. Isso não vai mudar. Não precisa carregar isso sozinho. Estamos nessa juntos, lembra?
Sora encarou as duas garotas. Os olhares delas eram decididos e cheios de força. Depois, ele lançou um olhar para Riku. A expressão dele era neutra, vazia. Mas...
–Vamos, levante-se! – ele estendeu a mão a ele – Nós somos mais fortes que isso. E muito mais fortes que ela. Não vamos deixar essa bruxa colocar as mãos na Fonte.
Ele o encarou. Havia decisão nos olhos dele, também. Mas havia algo mais. Havia teimosia.
E foi isso que fez com que Sora enxugasse os olhos e se levantasse, com a ajuda de Riku. Ele olhou para os três, tentando se convencer daquilo que eles diziam. E Riku acrescentou:
–Nós vamos vencer essa batalha. Juntos. Isso é uma promessa.
"Uma promessa...", o outro pensou. Como aquela que fizeram no Festival das Luzes. Nossa, parecia fazer tanto tempo desde aquela noite... Mas ainda se lembrava muito bem. "Um por todos e todos por um", foi o que eles prometeram. Na época, Leene não estava com eles, mas o olhar dela dizia claramente que ela fazia aquele mesmo juramento ali, agora, por todos eles.
Um por todos e todos por um. A única esperança que tinham de vencer.
–Bem, pessoal... – murmurou Kairi, por fim – Acho que é melhor começarmos a nos preparar para a batalha.
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