Segredos emergem

- Outro, por favor.

Gina balançou o jarro vazio para a mulher atrás do balcão. Ela tinha pelo menos o dobro de sua idade, mas mantinha certa beleza, como todas as mulheres que trabalhavam ali.

- Mais vinho saindo – a copeira enfiou o jarro em um barriu e o devolveu a Gina. – Prontinho, meu bem.

A jovem se obrigou a sorrir e deu as costas para a mulher, sentindo o estômago revirar com o cheiro. Tinha comido pouco e bebido a ponto de enjoar, o que significava que teria uma dor de cabeça terrível no dia seguinte. Naquele momento, porém, o dia seguinte não importava. Qualquer coisa para sobreviver àquele lugar.

O salão principal d'O Retrato da Mulher Gorda era uma mistura de taberna, espetáculo de pantomima, castelo e quarto. Bem decorado, com músicos, dança e bebidas, homens cobiçosos e mulheres disponíveis. A maioria ria, bebia e falava besteira, porém quando queria privacidade ia para o segundo andar e se enviava em um dos aposentos superiores. Outros, contudo, se atracavam em qualquer canto escuro do grande salão — e existiam muitos. Havia mulheres vestidas, mas a maioria estava nua ou apenas de saia. Essas eram as que ganhavam mais moedas, Gina não demorou a notar.

- Sai daí!– ela empurrou um casal para longe e encontrou seu caminho para fora o grande salão. Um pouco do vinho derramou no chão enquanto subia as escadas, mas restou o suficiente.

Um aposento especial havia sido reservado para Lorde Harry Potter e seus amigos. Um salão diferente do principal apenas no tamanho: ali também havia bela decoração, bebida, música, cantos escuros, mulheres e homens.

Quando Gina entrou no pequeno salão, viu que, do momento em que foi pegar mais vinho e voltou, alguns homens e prostitutas desapareceram. Era certo que tinham se enfiado em algum quarto.

- O vinho chegou – ela gritou, se servindo de uma taça antes de colocar o jarro na mesa que dominava o lugar. O cheiro daquele vinho era azedo, e o gosto não muito bom, porém ela bebeu assim mesmo. Não suportaria aquela noite sóbria. Não que estivesse totalmente sóbria.

Não muito longe dela, em uma alcova coberta de almofadas, Harry estava deitado cercado por três mulheres. Uma delas era Gemma; a outra uma prostituta magra e pequena como Gina, de cabelos loiros; a terceira, uma mulher de pele amorenada e cabelos escuros, que só podia ser do sul.

Odeio esse lugar. Odeio ele.

Harry era forte para bebidas, muito mais do que ela, porém já estava bêbado. Ele bebia um líquido claro e azulado desde que chegara ali e não demorou para começar a cambalear. Quisera ela ter ficado tão bêbada tão rápido. Não precisaria ver todas aquelas mulheres se jogando em cima dele! Gemma, pálida e fraca pela gripe de inverno, da qual nunca melhorava, estava deitada abraçada a Harry. Ele respondia ao abraço porque estava bêbado, uma vez que sóbrio sempre a havia repelido. Do outro lado de Harry, a prostituta loira deitava sorridente. A morena dançava na frente dos três, nua.

Ela deu as costas à cena e esvaziou a taça de vinho. Mais uma vez sentiu o estômago revirar.

Ali as mulheres distraíam a todos. Além dela, Sirius Black e Carice eram os únicos alheios às putas do bordel. Eles conversavam em um canto, trocando palavras sussurradas.

Trocam algum segredo... Seria sobre mim?

Serviu-se de outra taça de vinho, que bebeu tão rápido que sua cabeça girou. Se a parede não estivesse perto o suficiente para se apoiar, a garota teria caído no chão. Fechou os olhos e escorregou até encontrar o chão. Ficaria sentada até o mal estar passar. Talvez ficasse ali a noite toda, ouvindo o som do alaúde e a voz aveludada do cantor que levava música àquele aposento. Canção, falatório e risadas se misturavam, mas de olhos fechados podia fingir que o som...

- Minha querida – a voz de Carice chegou até ela -, você está bem?

Ela abriu os olhos. Carice estava bem à sua frente e, logo atrás dela, Black.

- Estou ótima – respondeu no mesmo tom baixo da bruxa -, apenas um pouco tonta. Uma taça de vinho vai me fazer sentir melhor.

- Você devia comer algo – Carice lhe arrancou a taça das mãos. - Bebeu mais do que o suficiente.

- Eu não estou bêbada.

- Você está mais do que bêbada, Gina. Venha, vamos tomar um ar...

- Ela está bem – ouviu Black atrás delas, enquanto Carice a empurrava para a porta que levava ao pátio. – É noite de festejar. Deixe-a se embebedar!

- Sirius, eu cuido disso – Carice afirmou sem espaço para discussão.

Em algum momento enquanto descia as escadas que levava ao pátio, Gina tropeçou e precisou se agarrar ao corrimão de madeira. Seus pés se embolaram neles mesmos.

- Estou bem – garantiu antes que Carice perguntasse algo. Encolheu-se em um canto da escada e abraçou os joelhos, escondendo o rosto neles. Se sentia triste, não sabia se por parecer frágil na frente de Carice, por ver tanta gente feliz enquanto estava miserável, por estar naquele lugar sem a menor vontade ou por causa de Harry. Como ele podia ficar lá com aquelas mulheres, tão tranquilo, como se não significasse nada? Como se não existisse guerra nem amanhã? Como se ela não estivesse ali vendo e sofrendo?

Ela o odiava! Odiava que ele a fizesse se sentir tão confusa! Odiava ter inveja das mulheres que se deitavam com ele. Era tão estúpida!

- Pode chorar, se quiser. Não tem ninguém prestando atenção.

- Não quero chorar! – respondeu a Carice, levantando os olhos para fitar a bruxa. O que ela queria era beber outra taça de vinho, outra e outra... Até esquecer que aquela noite existia.

- Você está bêbada, Gina.

- Não ainda, mas vou ficar em algum momento da noite.

- Esse momento já chegou.

- Não – olhou para o pátio escuro, ocupado por não mais do que uma dúzia de homens e mulheres. Ela tinha dificuldade de enxergar a noite, mas pôde ver que todos trocavam beijos, sorrisos e abraços na escuridão. Uma das mulheres estava... Gina não viu bem a princípio, então apertou os olhos e percebeu: ajoelhada de frente para um homem, com os calções abaixados, ela tinha a boca...

Desviou o olhar com o coração acelerado quando notou o que acontecia, se sentindo corar. Havia visto muita gente fodendo no acampamento, mas nada daquilo. Dividida entre a curiosidade e o asco, deu outra olhada no casal. A mulher engolia o membro do homem, que tinha os olhos fechados e as mãos nos cabelos dela.

- Odeio esse lugar – ela escondeu novamente o rosto nos joelhos. – Odeio todos os homens. Odeio Harry e aquelas mulheres com ele!

- Até Gemma?

- Principalmente Gemma! Quero que ela morra!

- Ela gosto dele, como você.

- Eu odeio ele! – ela gritou, e ninguém além dela e Carice ouviu. Ninguém mais prestava atenção.

- Você está com ciúmes e bêbada, uma péssima combinação...

Antes que Carice dissesse algo mais, Gina se levantou e voltou para dentro do salão de onde tinha saído. Havia mais gente ali do que Harry, mas ele era o único que ela enxergava.

Ela não estava com ciúmes. Não exatamente. Estava com inveja. Harry perto e distante. Ele beijava e tocava as mulheres na alcova com ele, assim como era beijado e tocado. Estava apenas de calções, com o peito e braços de fora. Queria acariciá-lo também, ouvir o que ele dizia que fazia as prostitutas rirem. Gemma parecia adormecida, mas a morena e a loira eram todas sorrisos para ele. Harry e as mulheres conversavam, as palavras não a alcançando em meio à música. Queria se aproximar e ouvir o que diziam. Contar a ele que ela se chamava Gina Weasley, então se deitar ali também, onde podia abraçá-lo e beijá-lo. Deu um passo antes de perceber o que estava fazendo...

Pelos deuses!

Gina agarrou o jarro mais próximo e sentiu o líquido descer queimando por sua garganta. Não era vinho, era a bebida azul da qual Harry e outros se serviam. Era amargo, forte e horrível, porém bebeu assim mesmo. Carice estava certa, ela estava bêbada — essa era a única explicação para as ideias que a assaltavam —, mas não bêbada a ponto de esquecer o tudo ao redor. E era isso que queria.

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Acordou em seus aposentos. A lâmpada a óleo que pendia do teto estava apagada, e a luz vinha dos archotes nas paredes. Saiu debaixo das mantas e reparou que vestia uma camisola de linho fino. O tecido era claro e macio, como nenhum outro que jamais havia vestido.

- Suave, não é?

Ela ergueu os olhos para encontrar os orbes verdes e brilhantes de Harry. Ele estava parado na porta que ligava ao seu quarto, observando-a.

- Sim.

- Sonhei com você – ele deu um passo para dentro do quarto, então outro. - Não exatamente com você, Fênix... Porém era você, de alguma forma.

- O senhor me contou – ela olhou ao redor, procurando algo para se cobrir. Sentia que não usava um pano em volta dos seios, que, mesmo pequenos, apareciam sob a camisola. Harry perceberia que ela era uma mulher e não Fênix. Achar uma capa era muito importante.

- Era uma fênix que podia ter forma humana... Forma de uma mulher. Mas era você, Fênix. Eu sabia que a ave e a mulher eram você. Não é estranho?

- Muito, senhor. Só podia mesmo ser um sonho, já que não faz sentido algum – ela começou a puxar uma manta que estava na cama, mas parou quando sentiu as mãos de Harry cobrir as suas.

- Eu sei você é Gina Weasley.

- Como?! – a voz dela não era mais do que um sussurro.

- Os deuses me contaram em sonho – Harry soltou as mantas das mãos dela e a virou de frente a ele. Suas mãos descansaram sobre o peito dele, forte e quente sob a túnica que o homem vestia.

- Você me odeia, senhor, por contar uma mentira?

- Não - as mãos dele deslizaram dos ombros dela para o quadril, puxando-a para si. Ela não podia desviar os olhos dos dele.

Quando a boca dele tocou a dela, se sentiu tomada pelo calor. Seus olhos fecharam e seu corpo ardeu como em febre. Ele a beijava e tocava sem hesitação, como tinha beijado e tocado as prostitutas. Logo a camisola dela estava chão, assim como as roupas dele. O corpo de Harry era como ela se lembrava dos dias do acampamento: com cheiro de suor e doença.

Harry era forte e violento em seus gestos. Gina abriu os olhos e tentou empurrá-lo, mas ele era mais forte. Ela caiu sobre as mantas da cama e viu que o peito dele, que estava sadio e perfeito há pouco, sangrava. Seu coração estava perfurado por espadas brancas e negras, mas ele ainda agia como se estivesse vivo.

Ela gritou, mas ninguém apareceu. Tentava escapar dele, sem sucesso. Quando ele abriu as pernas dela e se enfiou em sua carne, tudo que ela sentiu foi frio. O gelo se espalhava pelo corpo dela, e o cheiro de morte só não era mais terrível do que a mão fria dele em seu rosto.

Me larga, tentou falar, percebendo que a voz não saía. Tudo que ela podia fazer era chorar e se debater enquanto o corpo dele se enfiava dentro do dela e o gelo a tomava...

- Para! – gritou com o coração acelerado, enfim encontrando sua voz.

Subitamente estava livre do toque frio, das mantas, do Harry com coração despedaçado. Sua cabeça doía terrivelmente, o que não a impediu de perceber que não estava no seu quarto e sim no estábulo. Raios de um sol fraco passavam por entre as tábuas e atingiam o chão, a palha, ela e um homem jovem, que a olhava assustado com um balde na mão. Um dos cavalariços dali, percebeu.

Foi um pesadelo. Graças aos deuses!

- Estava apenas tentando te acordar, menino! Você está bem? – o cavalariço parecia preocupado.

- Sim – ela tentou se levantar, mas acabou caindo sobre o próprio traseiro. O cavalariço precisou ajudá-la a se colocar de pé. As mãos deles estavam molhadas e frias.

- Cadê minha capa? – ela olhou redor com cuidado, mas não achou a peça. Andava devagar, pois tinha tontura e uma dor de cabeça terrível. A pior de todas. Nunca mais beberia aquele elixir azul...

- Não sei. Eu te achei aqui sem capa nem nada, tremendo e murmurando. Tem sorte dessa cocheira estar vazia ou um cavalo poderia pisar em você.

- Cadê meu cavalo? – ela se lembrava de ter saído com Sem Nome na noite anterior, porém não de voltar com ele. Se lembrava de muito pouco, na verdade.

- Você é escudeiro do Lorde Potter, não é? Seu cavalo está no lugar de sempre, na décima estrebaria à esquerda, depois...

- Ótimo. Bom saber que ele está bem. Adeus – na pressa, ela tropeçou no balde de água que o cavalariço tinha deixado no chão e mais uma vez caiu e precisou de ajuda para se levantar. Podia ouvir o cavalariço reclamando sobre "meninos verdes" mesmo depois de deixar a cocheira.

Não se sentia bem. Muito pelo contrário. Sentiu-se ainda pior depois de deixar o estábulo e alcançar o dia. O sol estava fraco, mas o brilho foi suficiente para incomodar seus olhos.

Cada passo ressoava em cada osso de seu corpo até a cabeça, fazendo-a latejar. Não sabia se tremia de frio ou de fraqueza, se por terror do sonho ou pela bebedeira. O estômago se contorcia, a boca estava seca e com um gosto terrível...

Colocou para fora tudo que tinha na barriga: uma mistura azulada e com cheiro forte saiu de dentro dela. Sentiu que vomitou até as tripas!

- Que nojo, menino – uma voz de mulher reclamou perto dela, que nem ergueu a cabeça para ver quem era.

Elixir dos diabos!

Foi com lentidão e esforço que chegou à cozinha da Torre da Lua. O lugar era modesto se comparado a outras cozinhas do castelo e estava vazio. Gina se sentou sobre um saco de rabanetes e ali ficou, remoendo o pesadelo e tentando se lembrar da noite anterior, até que sentiu um cutucão. Uma mulher jovem, provavelmente da mesma idade que ela, a encarava. Tinha cabelos negros e pele clara; seria bonita se não fosse a grande cicatriz que lhe cortava a cara. Gina tentou não encarar a ferida, mas soube que falhou quando a mulher desviou os olhos, corando.

- Quem é você? – perguntou.

- O nome dela é Garoa – a velha que tomava conta da cozinha entrou da porta que dava para os andares superiores da torre. Carregava uma bandeja vazia – É minha sobrinha. Vai trabalhar aqui agora. Ela não fala, então não perca seu tempo, menino.

- Ela ouve?

- Muito bem. Lhe arrancaram a língua, não as orelhas. - Gina desviou os olhos da velha para a sobrinha dela. Por que haviam arrancado a língua dela? Seria verdade? A velha Tessa gostava de inventar histórias... - O que quer, Fênix?

- Calabel. Um chá bem forte.

- Nem precisava ter falado. Dá para adivinhar só pela sua cara! Garoa, vá à estufa pegar raiz de calabel. Anda, anda!

Gina esperou silenciosa em seu canto enquanto Garoa ia e voltava. Ela mesma poderia ir ido à estufa se não estivesse tão indisposta. Seu estômago tinha acalmado depois que vomitou, mas a cabeça ainda latejava e a boca continuava seca. Queria água, porém não bebia nada porque temia colocar tudo para fora novamente.

Sentia frio sem sua capa, mas não um frio terrível como o de seu sonho. Seria ele apenas um pesadelo ou escondia algum significado? Pela segunda vez viu Harry destruído pela guerra, pelas espadas pretas e brancas. As falas e ações do Harry do sonho não correspondiam ao Hary real. Ele não era cruel e violento. Era um bom homem e um bom líder, mesmo que às vezes fosse um idiota, como na noite anterior. Não devia tê-lo deixado arrastar Fênix para o bordel. Sabia que havia sido uma noite desagradável mesmo que lembrasse pouco do que tinha acontecido.

Talvez fosse melhor continuar assim.

Calabel tinha um gosto azedo, mas ela sabia que o chá lhe faria bem. Demoraria até ele assentar no estômago e aliviar a dor de cabeça, porém assim o faria. Bebeu duas canecas — tudo que conseguiu — antes de se erguer do saco de rabanetes. Tudo girou, mas ela permaneceu de pé.

- Senhora Tessa, por favor, mande preparar um banho para mim – ela só chamava a velha Tessa de "senhora" quando queria algo, o que a outra já tinha percebido havia muito – Estarei em meu aposento em alguns minutos. Só irei checar Harry antes.

- Lorde Potter, menino, Lorde Potter! Escudeiros não devem faltar com respeito a seus senhores. É Lorde Potter e não Harry!

- Certo - os olhos de Gina caíram mais uma vez sobre a jovem com cicatriz no rosto. Ela gesticulava algo para a tia que estava além de sua compreensão.

- A casa de banhos está à disposição. Por que não toma banho lá? Você sabe o trabalho que as criadas têm para carregar água lá para cima? Pensa que só porque é escudeiro de Lorde Potter tem privilégios? Você anda e bebe com lordes, mas não é um lorde. Não, menino, não é!

Ela sabia que a velha gostava de reclamar. Respirou fundo.

- A senhora vai pedir para prepararem o banho para mim ou não?

- Vou, menino, vou! Agora vá ver Lorde Potter e nos deixe em paz. Temos muito o que fazer, sabia?

Gina teve vontade de encostar no saco de rabanetes e ali ficar, porém se obrigou a subir. Andava devagar na esperança de, na falta de movimentos bruscos, sua cabeça doer menos, por isso demorou a chegar à porta do quarto de Harry. Bateu, depois chamou por ele. Ninguém apareceu.

Como na noite anterior, abriu a porta sem ser convidada. Na grande cama com colchão de penas estava Harry, dormindo. Ao lado dele, um emaranhado de cabelos escuros podia ser visto debaixo das peles.

Não quero saber quem ela é.

Mesmo assim, os pés de Gina a guiaram para dentro do quarto. Reconheceu a mulher que dormia ao lado de Harry antes de chegar até ela. As formas de Gemma lhe eram familiares, afinal.

Por um instante ela não sentiu nada — esqueceu a dor de cabeça e indisposição. Seu corpo foi preenchido por um vazio, como se nada pudesse alcançá-la. Não doeu como na vez em que viu Harry com a copeira. Não sentiu ciúmes. Sentiu desprezo. Por Harry e por Gemma.

Chegou a seu quarto usando a porta de ligação que tinha no aposento de seu senhor. Sobre a cama estava sua capa, dobrada e depositada com cuidado. Jogou-a no chão e se deitou para esperar o banho quente.

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Havia pessoas que, mesmo após à chegada à Ala dos Potter, não melhoravam da gripe de inverno. Elas morriam lentamente, vivendo dias de aparente cura para ter uma recaída na manhã seguinte. Esses doentes eram desimportantes e poucos, uma dúzia ou duas, por isso ficavam esquecidos e eram lembrados quando morriam. Foi isso que aconteceu com Gemma.

Apesar de saber que a cura que não chegava era um mau sinal, Gina não esperava que ela morresse. Gemma sempre esteve com o Exército Alvo, andando com Sirius Black, desfilando entre os homens, contando piadas, fazendo dinheiro ou tentando seduzir alguém. A garota a desprezou por muito tempo — até que viu a genuína preocupação dela com Harry. Gemma nunca fora uma amiga e provavelmente nunca seria se vivesse, mas ela não desejava sua morte. Desejou-a por um breve momento quando viu a prostituta com Harry, porém não era um desejo real. Foi um desejo momentâneo causado por uma raiva momentânea. Contudo, foi o suficiente para deixar Gina culpada quando a prostituta morreu.

Soube da morte dela por Carice, três dias após a ida ao Retrato da Mulher Gorda. Tinha aproveitado que Harry havia dispensado-a certa tarde e foi até a bruxa para, enfim, tentar descobrir quem era Parvati. Tinha ficado difícil falar com a bruxa, porque, como Harry estava bem novamente, ele e as tarefas que passava ocupavam a maior parte do tempo de Gina.

A mulher deu à garota a resposta que ela queria, mesmo que incompleta: Parvati Patil era uma antiga amante de Harry. Antiga, não atual, Carice tinha certeza. Mais sobre Parvati ela não sabia.

- Sei mais sobre outra amante de Harry: Gemma. Ela morreu – a bruxa falou sem delonga. - Vai ser enterrada amanhã.

Na aquela noite, véspera do enterro de Gemma, Gina ouviu de seu quarto uma discussão entre Harry e Lílian Potter. Estavam nos aposentes dele, que pedia que a prostituta fosse queimada, o que sua mãe não permitiu.

Nos quatro cantos de Garwosth sabia-se que aqueles que cometiam pecados aos olhos dos deuses e dos homens — e ser puta era um deles, na opinião de sacerdotes e fiéis radicais — não mereciam ser queimados. Mereciam um caminho longo e difícil até serem abraçados pelos deuses. Ser enterrado era como um castigo após a morte. Era sinal de que o morto significava tão pouco que ninguém interferia e pedia que ele tivesse uma despedida digna. Melhor seria ser deixado ao léu, para os animais comerem, como os guerreiros em batalha faziam com os inimigos e até com amigos.

Gina não foi dar adeus a Gemma. Além de sentir-se culpada por ter desejado mal a ela, foi triste saber que a mulher seria enterrada. Quando Harry dispensou Fênix para que o escudeiro pudesse ir ao enterro, a garota anunciou sua decisão de ficar no castelo. Estavam na biblioteca que ficava na Torre da Lua, onde o lorde havia passado todo o dia escrevendo mensagens — Gina já estava com a escrita boa o suficiente para ajudá-lo e fez tantas cópias de cartas pedindo apoio aos brancos, suprimentos e homens que sua mão doía. O trabalho estava longe de terminar quando Harry falou sobre o enterro e ouviu que seu escudeiro não iria.

- Então somos dois, Fênix. Também não vou – o homem parecia aborrecido.

- Gemma gostava muito do senhor.

Harry encarou Gina por um longo momento.

- Por isso não posso ir. Não posso vê-la ser enterrada, e Lady Potter não permite que prostitutas sejam queimadas em suas terras. Lady Potter é... Teimosa. Por mais que as terras sejam mais minhas, ela é minha mãe.

- Que o Deus da Morte abrace Gemma.

- Que o Deus da Morte a abrace! Que a morte fique para trás e não nos toque por muito tempo. Vimos dor demais em inverno tão curto! Vamos, Fênix, vamos dar o trabalho por acabado hoje. Alguma distração faria bem.

Eles juntaram os pergaminhos, penas e tinteiros e trocaram a biblioteca pelos aposentos de Harry. Ele guardou o material de escrita em uma prateleira e seguiu, com o escudeiro ao seu encalço, para a Ala Leste. Ou foi isso que Gina pensou, pois, antes de chegar lá, Harry fez uma curva e se enfiou em um corredor.

- Vamos a um lugar que pouca gente sabe que existe, Fênix. Meu pai me levou até lá e eu levei apenas duas ou três pessoas.

- Que tipo de lugar, senhor?

- Um lugar escondido.

- Vou guardar segredo, senhor.

- Sei que vai. Você sabe guardar segredos.

Ela se perguntou o que aquilo significava, mas não deu voz à sua dúvida. Seguiu Harry enquanto ele fazia curvas, seguia por escadas e corredores, sempre descendo. Chegaram a um ponto em que a iluminação acabava; o homem tirou um archote da parede e deu outro à jovem, então continuaram descendo. Gina tinha a impressão que, quanto mais desciam, mais apertado era o caminho.

Não saberia dizer por quanto tempo andaram, mas foi um bocado. Se enfiaram por passagens escondidas atrás de tapeçarias e peças decorativas, o que deixou a garota apreensiva e curiosa.

Por fim pararam em frente a uma pesada porta de pedra, que puxaram com algum esforço. Saíram para o vento frio do dia e para o horizonte dominado por plantas acinzentadas pelo inverno. A porta dava para o norte do castelo, com saída para entre as montanhas rochosas, e a Floresta Proibida adiante.

- Espero que não tenha medo de fantasmas, Fênix – Harry sorria.

- Não acredito neles, senhor – mas se lembrava da sensação estranha que a acompanhou na vez em que esteve na floresta. Podia até não ser fantasma, porém algo existia ali.

- Devia acreditar – Harry começou a descer a montanha sem dificuldade; estavam perto da base. – A Floresta Proibida é lar de criaturas estranhas. Já vi aqui fantasmas, gigantes e seres que são metade cavalo e metade homem.

Gina acreditou nele por um momento, mas, quando Harry se virou para encará-la, sorria. Estava zombando de seu escudeiro!

- Pare com isso! – ela o empurrou sem muita força, rindo também. – Não vai conseguir me assustar, senhor. Fiz um passeio pela floresta e não vi nada.

- Pois não se embrenhou o suficiente. Vamos ao coração da mata!

Harry ainda ria, e Gina podia adivinhar que ele não dizia a verdade, o que ela logo teve certeza. Dirigiram-se a uma caverna não muito longe da porta cravada na montanha, e ela ficou grata por terem trazido archotes. Seria fácil se perder ali sem luz.

- Você pode chegar aqui dando a volta no castelo, mas passar por dentro e sair no portal é muito mais fácil – Harry disse. – Agora, Fênix, preste atenção no caminho. Há pedras escorregadias.

Eles pararam de frente a uma parede de pedra, no fundo da caverna, que escondia um nicho largo o suficiente para um homem passar. Harry foi à frente e Gina atrás dele. Passaram por um segundo nicho, então desceram por uma escada mal esculpida em rocha. Ela se dividiu em uma bifurcação, e Harry seguiu para a esquerda.

- Para onde dá a outro caminho, senhor?

- Uma clareira de pedra. Um lugar belo, mas que não leva a nada, como muitos daqui. A verdadeira beleza está por vir.

A escada se dividiu de novo, e Harry novamente seguiu para a esquerda. Chegaram a um grande espaço vazio, e Gina ouviu água brotando de algum lugar. Havia uma cachoeira subterrânea ali, não muito longe.

Uma grande pedra à esquerda escondia um nicho menor do que o primeiro pelo qual passaram. Ele dava em outra escada de pedra e, a cada degrau de desciam, mais fraco ficava o barulho de água. Quando a escada acabou, eles começaram a descer pelas pedras, com cuidado para os archotes não caírem, então viraram em uma curva.

- Chegamos – Harry falou.

Gina estava atrás dele, ainda lutando para descer a última pedra e segurar seu archote, e não conseguiu ver o que ele mostrava. Seus olhos tinham se acostumado à escuridão, mas ali ela era mais densa. O local não era apenas escuro; era quente.

Um novo ponto de luz surgiu ao lado dela, e a garota viu Harry acender um archote preso à parede de pedra. Um segundo archote foi aceso, um terceiro, então outro... De acordo com que a iluminação surgia, ela desvendava o que estava adiante. Se encontrava em uma gruta, um enorme lago subterrâneo à frente. Harry estava certo: era belo ali. Quase mágico.

- Uma beleza, não? – o homem tinha acabado de acender os archotes e estava ao lado dela.

- Sim, senhor. Onde fica a nascente?

- Caverna adentro, longe daqui. Olhe que água pura e limpa, Fênix. Vamos entrar?

- O quê?!

Harry havia tirado a capa e se concentrava na camisa de couro e lã. Gina deu um passo involuntário para trás.

- É inverno, senhor. A água está fria.

- Essa água é quente como o sol! - Ela sabia que a água era quente pelo ar pesado que tomava conta da gruta, mas precisava de um motivo para evitar o convite - Vamos lá, Fênix. Será que vou precisar te jogar aí?

- Não sei nadar, senhor - mentiu.

Harry tirou as botas, ficando apenas de calções. Gina se sentia quente e tinha certeza que a sensação não tinha nada a ver com o lugar em que estavam.

- Você disse que sabia.

- Menti, senhor. Não queria admitir que não sabia.

- O lago é raso aqui na frente. Você pode ficar de pé e água nem bate no peito.

- Prefiro ficar aqui, senhor – sentou na primeira rocha que encontrou. - Vou vigiar para ver se não aparece ninguém.

- Ninguém aparece. Venho aqui minha vida toda e nunca cruzei com ninguém que não quisesse cruzar. As pessoas têm medo de vir à caverna, pois ela fica na floresta. Lá vou eu!

Se existisse uma forma de comparar a beleza da natureza com a beleza dos homens, a gruta seria feia diante da nudez de Harry Potter. Ele passou ao lado dela, que se segurou para não acompanhar o corpo dele com os olhos. Pelo menos enquanto ele a encarava. Assim que o lorde lhe deu as costas, a jovem voltou a fitá-lo. Viu-o subir com graciosidade em uma pedra, então em outra, indo tão longe que Gina mal pode vê-lo pela luz dos archotes.

Mais ouviu do que viu ele pular do alto de uma pedra para dentro d'água. Imergiu e reapareceu instantes depois, no meio do lago. Era difícil de vê-lo tão longe quanto estava, e certamente ele não podia vê-la também. Gina agradeceu por isso.

Os deuses deviam estar testando-a. Ela não sabia o que eles queriam, mas desejavam algo dela. O quê? Por que pôr Harry em seu caminho e colocá-la em situações como aquela?

Precisava contar a verdade a ele. Além da promessa que havia feito aos deuses, estava difícil suportar os olhares divertidos de Sirius Black e a dúvida constante sobre o que ele faria. Recentemente Michael Corner não tirava os olhos de cima dela, o que a fez desconfiar que Black tinha dito a verdade sobre ela ao cavaleiro. Gina não ousou perguntar a Corner se ele sabia de algo, afinal, se ele não soubesse, poderia ficar com suspeitas. Em vez disso, passou a evitá-lo.

Temia que a verdade chegasse aos ouvidos de Harry antes de ter a chance de contá-la. A oportunidade havia surgido mais de uma vez, porém em mais de uma vez Gina se calou. O que estava esperando? Deixava a revelação sempre para o dia seguinte. Quando o dia seguinte chegava, deixava para o seguinte...

Ele podia descobrir e mandá-la embora como se todo o tempo que o serviu e acompanhou não tivesse significado nada. Só na Ala Potter tinha pelo menos uma dúzia de meninos com nomes de família respeitáveis e que dariam bons escudeiros. Talvez, porém... Talvez Harry a entendesse. Achasse-a corajosa e admirasse sua atitude. Era possível, não?

Pelos deuses, espero que sim!

Contudo... Se ele a desprezasse? Se falasse a verdade e perdesse até a amizade que Harry tinha por Fênix? Harry a dispensaria com a mesma facilidade que dispensou a copeira, as prostitutas do Retrato da Mulher Gorda e Gemma? Elas não significavam nada para ele... Nem Fênix?

Podia mentir para Carice, Black e até para ela mesma por algum tempo, porém precisava admitir que era por medo de perdê-lo que sempre adiava a decisão de contar a verdade. Não era covarde, mas estava agindo como uma.

Talvez seja mesmo uma covarde.

Não, não é, uma voz rebateu.

O coração de Gina disparou, porque a voz pareceu ecoar em sua mente, mas sair de fora dela. Harry nadava distraído, não havia falado nada. Ela ergueu o archote, olhando ao redor. Nada. Não tinha mais ninguém ali.

- Estou enlouquecendo.

- Fênix, o que foi? – o grito de Harry ecoou, se reproduzindo de novo e de novo.

- Eu... Pensei ter ouvido alguém, senhor – senhor, senhor, senhor ecoou.

- São os fantasmas! – ele riu. Um riso puro e alegre, que doeu nela.

Ele podia rir com ela, mas nunca riria para ela. Riu para Gemma e para as prostitutas daquele bordel, cuja entrada era decorada por uma pintura de uma mulher gorda e cheia de curvas. Certamente riu para a copeira, para Carice e para Parvati Patil.

Havia desistido de tentar entender o que sentia. Sentia e pronto. Aquilo era estúpido, mas tinha percebido nos últimos dias que era estúpida. Se havia aprendido algo desde que deixou Marossert era que sabia pouco da vida, mesmo que antes achasse que sabia tudo. Naquele momento só sabia que queria nadar com ele. Ela sabia nadar. Não precisaria dizer nada, só tirar as roupas e entrar na água. O resto Harry entenderia. Ele veria.

Se ele pedisse, eu seria dele.

Mas ele nunca pediria, porque Harry a olhava e via Fênix. Precisava tirar a máscara para ele poder enxergar Gina. Talvez ele a odiasse, talvez não. Não podia ser covarde para preferir a dúvida à resposta. Ela era brava! Estavam sozinhos e cercados pela quietude; aquela era a melhor oportunidade que teria para contar a verdade.

Repetiu isso a si mesmo enquanto o viu nadar, ir de um lado a outro do lago, até que ele se aproximou. Saiu da água e se sentou na pedra ao lado de Gina, que manteve os olhos fixos no lago e não na figura altiva do homem.

- Este lugar me lembra meu pai. Ele sempre me trazia aqui quando era pequeno. Antes de irmos para a guerra, viemos aqui. Ele me fez prometer que eu protegeria minha mãe e meu povo se algo acontecesse com ele... Era como se soubesse.

Harry nunca falava muito do pai, e Gina não perguntava sobre ele. Tinha ouvido histórias sobre Thiago Potter, mas raras foram aquelas que saíram da boca de Harry.

- Quando estou aqui parece que não existe guerra. É difícil esquecer dela e me sinto grato quando consigo. Às vezes penso em desistir... É cansativo lutar, lutar, lutar e não alcançar nada, Fênix.

- Você alcançou muitas vitórias, senhor – ela enfim o olhou.

- Há batalhas, negros morrem, brancos também, o povo sofre, não importa de que lado esteja. Pergunto-me se Voldemort seria um rei tão ruim assim... Não conheço o homem por trás do guerreiro. Tudo que conheço sobre ele são as histórias que me contaram e sua luta, que uma vez venci. Contaram-me histórias sobre Dumbledore também.

- Dumbledore é bom e justo.

- Dumbledore é um homem e, como todos nós, tem qualidades e defeitos. Voldemort matou meu pai, quase me matou, mas se não fosse a guerra, nunca atacaria nem a mim nem a ele. Talvez seja melhor desistir e esperar os negros ganharem.

- Não fale isso, senhor! Dumbledore é o rei legítimo! O pai dele foi rei, e o pai do pai dele. Estão no trono há gerações!

- Talvez esteja na hora de mudar – Harry se deitou e fechou os olhos. O coração de Gina se apertou enquanto observava-o: pés, pernas, o membro viril, barriga, peito, braços, o rosto retorcido por pensamentos. Ele estava tão perto, a meio braço de distância, e permanecia inalcançável. - Estou cansado, Fênix. Cansado de ver dor e morte. Daria minha vida para essa guerra chegar ao fim. Creio que perdi as esperanças de salvar nossa terra, meu amigo.

Ela se lembrou da visão que Carice lhe mostrou e do sonho que teve com Harry, que aparecia com o coração despedaçado por espadas.

- Você vai encontrá-la novamente, senhor.

- Talvez não.

- Vai sim. É o que a profecia diz... Eu não acreditava nela no começo, mas se há alguém que pode derrotar o Negro é o senhor. O escolhido vai derrotar as sombras quando encontrar uma razão...

- Que será mostrada pela fênix. Eu sei, Fênix, eu sei. As pessoas me falam dessa profecia desde que essa maldita guerra começou. É difícil dizer quando a ouvi pela primeira vez – Harry se levantou e pegou seus calções. - Quando você a ouviu pela primeira vez?

Gina se lembrava perfeitamente:

- Meu pai me falou sobre ela.

Demorou um momento para a jovem se dar conta do que tinha dito. Harry vestiu os calções, pegou a túnica e a encarou.

- Então você conheceu seu pai, Fênix. Quem é ele?

- Eu... Eu... Eu tive um pai. Ele morreu, senhor.

- Certa vez você me disse que nunca conheceu seus pais. Em outra, que lembrava muito pouco da sua mãe. Sei que nenhuma das histórias é a verdade. Qual é a verdade, Fênix?

Essa é sua chance, Gina, disse a si mesma.

- A verdade... – ela precisava encontrar as palavras certas e nenhuma parecia adequada. As palavras não saíam por mais que ela quisesse pô-las para fora!

- Uma vez você disse que me via como um amigo e um mestre, Fênix. Por que mente para um amigo e um mestre?

- Eu... – silêncio - Há palavras difíceis de serem ditas.

- O difícil não é impossível.

- O senhor vai me odiar.

- A menos que você seja um negro infiltrado, acho pouco provável.

- Não sou! Sou leal a Dumbledore!

- Até demais, eu diria – Harry voltou a se vestir, enfiando a túnica pela cabeça. Ele não parecia aborrecido, talvez impaciente. Colocou todas as peças que tirou para nadar, e seu escudeiro continuava em silêncio. - Me ajude a apagar os archotes, Fênix. Abafe as chamas nas pedras para que se extingam.

Eles apagaram todos os archotes, a não ser os que carregavam, e deixaram o lugar. Nenhum dos dois falou enquanto faziam o caminho de volta para a Floresta Proibida. Gina se sentia apreensiva. Ser corajosa não era não ter medo. Era superá-lo para fazer o que precisava ser feito.

Não sou covarde. Não sou!

Quando estavam a poucos passos da montanha que escondia a porta para o castelo, ela se colocou de frente a Harry, interrompendo sua caminhada.

- Talvez o senhor não odeie Fênix. Fênix é um escudeiro leal, esforçado e que ama o mestre e amigo que vê no senhor. Mas Fênix pode ser só uma máscara. Talvez o senhor odeie a pessoa por trás dela.

- Por que eu a odiaria?

- Porque ela mente, e uma mentira exige outras para se manter. Algumas pequenas, outras tão grandes que os deuses duvidariam.

Harry deu um passo na direção de Gina e ela sentiu o calor do archote que ele segurava atingi-la. As chamas eram dispensáveis ali, na luz do dia, mas seriam essenciais quando voltassem à passagem do castelo.

- Não chore – os dedos de Harry secaram lágrimas que ela não percebeu que derramou.

Não é covarde, mas é estúpida, pensou, se afastando de Harry e secando o rosto. Chorando como uma criança!

- Desculpe, senhor.

- Não se desculpe, Fênix. Fênix... Esse não é seu nome verdadeiro. Disso eu sei há muito tempo. O que não sei é quem é a pessoa por trás de Fênix. Quem...?

Um pio interrompeu Harry. Um pio agudo e alto de coruja, como se o animal exigisse atenção. E assim o fez, porque o homem olhou a ave, que pousou um seu ombro. Havia um pergaminho preso à pata do bicho, que Harry se apressou a retirar e a ler.

A expressão do rosto dele se fechou. Não pareciam boas notícias.

- Precisamos voltar ao castelo imediatamente.

- O que aconteceu, senhor?

- Dumbledore está sendo escoltado até aqui. Foi ferido de alguma forma... Está morrendo.

Harry passou correndo por Gina rumo à porta que levava à passagem secreta e ao castelo. Seu rei era muito mais importante do que o nome verdadeiro de Fênix.


Nota da autora:

Oi, gente!
Sei que sumi e sinto muito! Desta vez, contudo, tenho uma "boa" desculpa. Tive uns problemas de saúde, com os quais ainda estou lidando, então fiquei mal por muito tempo. Só recentemente consegui voltar a escrever e terminei este capítulo ,que tinha sido iniciado há semanas e semanas! Chegamos tão perto da verdade desta vez... Gina escapou por muito pouco, mas a máscara dela começou a cair definitivamente. O cerco se aperta e dele não há escapatória!
Veremos Dumbie (e Fawkes!) no próximo capítulo. Veremos ele, Sirius Black, Michael Corner, descobriremos uma coisa ou duas sobre Carice... Melhor parar por aqui antes que eu conte demais!
Obrigada pelas reviews e palavras carinhosas desse período que fiquei de fora. Mal posso esperar para saber o que acharam deste novo capítulo. Pretendo voltar a "vê-los" ainda este ano.

Abraços,
Lanni


Respostas as reviews:

ooo Ninha Souma: Os problemas só se acumulam, Ninha Souma! E em breve se encaminharão para a verdade, o único caminho possível nessa situação. Mas, antes, teremos Dumbie e Fawkes por aí... Isso pode facilitar ou não as coisas. Afinal, Alvo é poderoso e consegue enxergar além do que os olhos podem ver! Beijos e até mais!

ooo monica. cecilia. 52: Pode estar certa, o segredo de Gina/Fênix não vai demorar a cair por terra! Já começou e continuou a desmoronar neste capítulo. Está por um fio agora! Quanto ao Harry, ele não é tapado. Ele vê, mas se recusa a enxergar. Desconfio que sabe mais do que imaginamos... Beijos e até mais!

ooo Sora Black: Poxa, obrigada! Fico feliz que esteja gostando, principalmente agora, que a fic está se encaminhando para uma terceira fase. Bem, ainda falta muito até lá, mas estamos no caminho. Beijos e até mais!

ooo Mariane219: Oh, Mariane, desculpe por te fazer esperar. Sei que você é daquelas que está sempre de olho na atualizações e gostaria de ser sempre rápida com elas, mas às vezes não dá. Contudo, aqui estou com mais um capítulo. Espero que tenha gostado. Me conte o que achou! Beijos e até mais!

ooo Luna LoveIsGood: Ah, a Gina está meio chatinha agora. Indecisa, temerosa... Irreconhecível. Ela não é assim, mas o que ela sente está transformando-a. Vamos ver o que vai resultar disso! Ela é forte, tenho certeza que vai sair inteira dessa situação, não importa o que aconteça. Afinal, a guerra está mal começando pra ela, que ainda tem muitas batalhas a lutar! Beijos e até mais!

ooo Nayane: Oi, Nayane! O que achou da Gina no Retrato da Mulher Gorda? Não podemos dizer que foi uma passagem muito memorável, não é? Ela, digamos, deu vexame. Ainda bem que estava bêbada demais para lembrar, assim como a maioria dos homens. Beijos e até mais!

ooo yasminaasilva: Yasmin, demorei um pouco, mas cá estou de volta e a todo vapor! A história está chegando em um momento crucial, quando a máscara de Gina, que já estava rachada, começa a cair. É contagem regressiva agora!
Espero que tenha gostado deste capítulo. Me conte o que achou! Beijos e até mais!

ooo Yasmin Potter: Eis aqui a continuação, que você pediu na review. Espero que tenha gostado! A verdade está tão perto que posso senti-la, rs. Beijos e até mais!

ooo Guest: Oh, sinto muito por ter desaparecido! Tive uns problemas de saúde, mas estou melhorando e tentando voltar à minha rotina, o que inclui escrever fics. Pretendo estar de volta com mais alguns capítulos antes que o ano acabe. Espero que tenha gostado deste. Me conte o que achou! Beijos e até mais!