Capítulo Décimo Quarto
Tywin olhava estarrecido para a esposa. Catelyn narrou tudo, após pedir que ele não dissesse nada para interromper. Ele não se manifestou, mesmo depois que ela parou de falar. Catelyn encarava assustada, apreensiva sobre o que ele poderia fazer. Sentia a sensação de dever cumprido ao mesmo tempo em que amargurava a incerteza do que poderia acontecer. Após o que pareceu ser uma eternidade, ele finalmente descolou os lábios.
-Você e Sansa vão partir nesse navio que Lorde Baelish preparou. Vão levar Myrcella e Tommen. Cersei e Jaime vão pagar por seus erros, mas isso vai acontecer nas minhas mãos e não pela fúria de um veado coroado.
-E Joffrey?
-Joff partiu essa manhã com os Tyrell. Deve estar de aqui em uma volta de lua. Jaime iria com ele, mas alguma coisa fez com que ele mudasse de opinião.
-Eu sei o que aconteceu! –Catelyn exasperou-se- Ele e Cersei decidiram armar-se para me matar!
-Isso é algo que você não pode provar. Mas eu conheço meus filhos. Eu sei que isso é possível.
-Você teve noticias de Tyrion?
-Muralha. Ele finalmente chegou à Muralha, me enviou um corvo ontem. Eu pensei que tivesse contado a você.
-Tywin... Nós devemos partir. Envie Cersei e Jaime para longe...
-Juntos? Para que eles continuem cometendo essas atrocidades com o nome da nossa Casa?! –ele berrou, agora completamente enfurecido- Não! Eu não sei o que fazer com eles, mas isso eu não posso permitir!
-Você sequer duvidou das minhas palavras... Você sabia de algo nesse sentido?
-Em Casterly Rock havia um boato incomodo, mas na época eles eram crianças. Cersei casou ainda donzela.
-Mas isso não significa muita coisa.
-Eu acredito que Jaime tenha prestado o juramento quando imaginou que Cersei sempre estaria em Porto Real. –ele continuou falando, não dando atenção a Cat- Era uma forma de não precisarem se separar. Mas agora... eles não vão estar juntos novamente. Nunca mais.
-E se acontecer uma batalha? –Catelyn disse nervosa- Se Robert decidir vingar-se?
-Eu estarei um passo adiante. –ele respondeu, saindo do quarto. Catelyn o seguiu.
Tywin sempre mantinha dez homens guardando a ala do castelo que ocupava com a esposa e a filha. Chamou um par deles e ordenou que trouxessem Cersei e Jaime. Eles saíram prontamente. Outro foi designado a observar a movimentação na Torre da Mão. Um quarto foi instruído a mobilizar o restante dos guardas. Todos deveriam estar de sobreaviso. As aias foram instruídas a preparar Sansa e Catelyn para partir sem deixar escapar uma palavra sobre o assunto.
-Não haverá sangue derramado. –ele tranquilizou a esposa, quando ela apenas permanecia encostada numa mesa, parecendo completamente aterrorizada- Violência é compreensível numa situação assim, apenas por isso estaremos preparados. Você deve começar a se organizar também.
-Para que?
-Para partir, Cat. –ele disse como se fosse obvio.
-Deixar você aqui e partir...? Eu não irei sem você.
-Você irá, e não adianta começar com seus argumentos. Dessa vez eu estou lhe dando uma ordem direta.
-Você não manda em mim.
-Eu mando. Não costumo fazer isso por motivos óbvios. Você não se submete facilmente, mas eu continuo podendo mandar em você. E nesse caso, não adianta começar a falar. Eu enfio você a força naquele navio e você vai embora daqui nele.
-Tywin...
-Catelyn, já chega! –ele gritou- Você não vê que tudo isso é mais do que o que eu posso lidar? Você em Porto Real, grávida, ameaçada de morte... apenas dificulta tudo. Sansa colocada na linha de fogo também não ajuda!
-Você conhece as intenções de Jon! Você sabe o que ele pretende. Nem você estará seguro aqui.
Ele pareceu pensar por um instante.
-Eu não posso permitir que Jon Arryn tenha a vantagem.
-Mas ele tem! Eu hesitei em te contar, mas eu percebo que deveria ter feito isso antes!
-Não é tarde demais para começar a armar uma estratégia.
-Se estivermos em Casterly Rock...
-Em Casterly Rock eu convocaria os vassalos, permaneceria firme caso Robert decidisse atacar. Robert uniria os outros seis reinos contra nós. Não podemos nos eximir agora.
-Você quer negociar com Robert caso ele pretenda uma batalha?
-Eu pretendo entregar Cersei e Jaime. Não quero me indispor com a coroa.
-Entregar seus filhos?! –Catelyn berrou- Entregá-los para a morte? Para a execução por alta-traição?
-Eles não estarão em Porto Real quando isso acontecer.
-Apenas você?
-Sim, apenas eu. E minha bem treinada centena de guardas. Nada de ruim irá acontecer.
Catelyn não tentou discutir. Ele parecia ter pensado num plano efetivo quando permaneceu tão longamente em silencio. Ela apenas o abraçou, sentindo a tensão nos braços dele.
-Eu amo você... –ela disse segurando o rosto de Tywin e observando suas feições com o queixo tremulo pelo choro que ela tentava conter- Eu não sei como pude passar tanto tempo sem externar esse sentimento em palavras. Mas uma vez dito, tem necessidade de ser repetido.
-Eu queria poder deixar você mais tranquila. –ele murmurou, titubeando por um segundo em sua resolução gélida, e secando a lagrima que escorria pelo rosto dela com os lábios.
-É uma crise tão cruel que nenhum de nós poderia prever tanta agonia.
-Mas eu lhe garanto que essa agonia vai acabar. A minha estará abatida quando eu souber que você e Sansa estão em alto mar.
-Então eu devo me preparar. –ela decidiu, soltando-o em seguida.
-Espere! –ele a segurou pela mão e a puxou para perto de novo- Eu preciso que você saiba que... –ele se interrompeu- Na verdade você já sabe, eu já lhe disse isso antes.
-O que?
-Que eu amo você. –ele disse- Que eu amo muito você. Não esqueça que eu apenas quero que você esteja segura, então não se coloque em risco.
-Eu sei. Você também, meu amor... Não se exponha, não faça nada que nos obrigue a convocar os vassalos e marchar sobre essa cidade.
-Você não faria isso! –ele riu, divertindo-se com a ideia.
-Não duvide.
Ele aproximou seus rostos, ainda rindo. Passou a mão pelas costas dela e a posicionou em seus braços de modo que a barriga não impedisse o abraço apertado que ele queria dar e receber. Procurou os lábios dela com os seus e os sugou lentamente, sentindo que ela massageava sua nuca e apertava-se contra ele o máximo que podia. Beijaram-se repetidamente até serem interrompidos por batidas na porta.
-Eu te amo. –ainda disseram um pro outro antes de separarem-se.
Catelyn entrou no quarto, deixando o marido sozinho com os filhos na bem decorada sala circular. Suas aias preparavam coisas básicas para a partida. Ouviu gritos exaltados de Tywin, berros de Cersei e a voz contida de Jaime tentando argumentar. Pode escutar seu nome ser proferido algumas vezes em tom de acusação. Quando tinha tudo pronto, precisou sair do quarto. Observou Cersei rugir de raiva e Jaime adiantar-se para contê-la.
-Berre o quanto quiser. –Catelyn disse calmamente- Nada vai anular o fato de que enquanto você tentava me envenenar, eu salvava sua maldita e incestuosa vida. Tywin, Sansa já foi avisada?
-Ela está a sua espera.
-Então eu... –ela começou a se despedir- ... devo ir.
-Sim. –ele disse conduzindo-a para fora, fechando Cersei e Jaime- Não se preocupe.
-Myrcella e Tommen?
-Estão no navio. Fique calma. Você terá dez guardas nossos fazendo sua proteção. Eu estarei em casa antes do bebê chegar, eu prometo que não deixarei você sozinha. Mantenha o espirito elevado durante a viagem. Conte a Sansa toda a verdade, mas não deixe as crianças perceberem.
-Tudo bem. Tywin... tenha cuidado.
-Eu terei. –ele a beijou uma ultima vez e entrou novamente na sala.
Catelyn permitiu que um guarda a conduzisse até o lado de fora, onde uma liteira a aguardava. Sansa esperava a mãe, estava nervosa e preocupada. Quando Cat sentou-se diante dela, Sansa pareceu rejuvenescer alguns dos seus poucos anos já vividos.
-Mamãe, algo muito sério está acontecendo. Ninguém me disse exatamente o que, mas...
-Fique tranquila. Seu pai tem tudo sob controle. Ou assim eu espero.
