Foram pela rua cantando e dançando, os sorrisos eram distribuídos a torto e a direito e, durante alguns segundos, as pessoas se esqueceram da dor e dos problemas trazidos pela guerra. Chegando ao palácio, pediram para se apresentar à criadagem em troca de comida aposentos por uma noite. Faziam piadas e entretinham os criados amendrontados pela estranha família real.

Certa hora da noite, uma criada meio bêbada de saquê pede que toquem alguma música. Ficam meio constrangidos e não sabem o que dizer. Iroh pega a flauta e Yue assume os vocais.

Ela cantou uma pequena cantiga que era o seu segredo.

O pequeno Zuko chorava em sua cama, havia tido um pesadelo. Sua mãe já havia partido, ele tinha oito anos, não havia quem o consolasse. Passos leves se aproximaram de sua cama. Uma menina de cabelos negros subiu em sua cama e o abraçou. Ela tinha apenas cinco anos, mas já sabia as canções prediletas do príncipe.

-Por que choras, Primo?-Murmurou Yue.

O menino dos olhos de girassol esfregou-os e soluçou.

-Tive um pesadelo, Prima.-Ele respondeu.

-Mandei pregar as estrelas

Para velarem teu sono.

Teus suspiros são barquinhos

que me levam para longe...

Me perdi no céu azul

e tu, dormindo, sorrias.

Despetalei uma estrela

para ver se me querias...

Aonde irão os barquinhos?

Com o que será que tu sonhas!

Os remos mal batem n'água...

Minhas mãos dormem na sombra.

A quem será que sorris?

Dorme quieto, meu reizinho.

Há dragões na imensa noite,

há emboscadas nos caminhos...

Despetalei as estrelas,

apaguei as luzes todas.

Só o luar te banha o rosto

e tu sorris no teu sonho.

Ergues o braço nuzinho

quase me tocas... a medo

eu começo a acariciar-te

com a sombra de meus dedos...

Dorme quieto, meu reizinho.

Os dragões, com a boca enorme,

estão comendo os sapatos

dos meninos que não dormem.

Yue ainda podia ver os olhos fechados do priminho e seus suspiros de cansaço. Sentiu novamente o estômago dar um salto ao ver que ele a observava e que esta música¹ não havia sido cantada apenas em sua mente. Empalideceu e virou o rosto para o lado.

As criadas aplaudiam eloqüentemente, a música havia sido tocada de um jeito pungente, dolorido, magoado. Uma delas, ao cair na lábia de Iroh, propôs que dormissem ali e, no dia seguinte, que seria de festa, se apresentassem ao Senhor do Fogo.

Ela se sentia quase na obrigação de contar ao primo o que vinha sentindo por ele há tantos anos. Ainda mais quando ele podia se transformar no próximo Senhor do Fogo, abençoado pelos Quatro Pilares Ancestrais... Podia até pedi-la em casamento, se tornar a sua Senhora do Fogo... Que dupla eles fariam... Yue ruborizou com a idéia. Levantou-se da cama e, pé ante pé, se encaminhou para o corredor, com medo. Katara tinha o sono muito leve e poderia acordar com qualquer barulho. Quando atravessou o umbral, se encostou na parede e respirou, aliviada.

Como eu posso ser tão idiota? O que pretendo dizer? "Oi Zuko, lembra que eu vivia grudada em você quando era criança? Toda a nossa cumplicidade? Pois é, me apaixonei por você nesse meio período."

Com esse pensamento atormentando-a, deslizou até o chão e agarrou os joelhos, tentando pensar. Agora que estava à porta do quarto que lhe deram, como podia voltar atrás? Levantou-se e se encaminhou para fora do palácio, respirando aquele cheiro que lhe era tão familiar.

Minha casa...

Era o que aquilo havia sido para si um dia, mas aqueles tempos pareciam tão distantes...

Sem perceber, deixou seus pés lhe levarem para os estábulos. O cheiro não era muito agradável, mas ela gostava de cavalos e aquele lugar lhe lembrava Hay, sua irmãzinha que morrera ao levar um coice de um dos cavalos que tanto amava.

Ouviu um ruído vindo de dentro e entrou.

Encontrou Zuko sentado em um monte de feno que seria dado como comida aos cavalos no dia seguinte.

-P-primo?-Perguntou, surpresa.-O que faz aqui...?

Ele ergueu a cabeça, notou como ele continuava bonito, apesar da horrenda cicatriz que manchava seu belo rosto.

-Yue... Sempre, sempre tivemos essa estranha ligação, não é? Eu estava lhe chamando... Em pensamento, como sempre...-Comentou ele, meio vago.

Como se ela fosse um metal imantado e ele seu pólo de atração, Yue foi se aproximando dele, sem perceber o que fazia.

-O que queria comigo, Pri...?-Começou a perguntar, Yue.

Zuko levou uma mão aos seus róseos lábios. Ela estremeceu com o contato repentino.

-Não me chame mais assim... Quero ouvir o meu nome sendo pronunciado da sua boca...-Ele foi falando enquanto desenhava o contorno dos lábios dela com o polegar.

Apenas a lua era cúmplice da cena, mesmo na penumbra ela podia imaginar os olhos dele, tão invasivos, tão apaixonantes, revistando seu corpo... sua alma...

-Zuko...-Chamou-lhe, sem motivo algum.

Apenas gostava de sentir seu nome sibilando e fazendo cócegas em sua língua.

-Você tem a beleza da Lua Nova, Yue.

A essa frase, ela lembrou-se de um poema.

-Ah, meu bem,

teu sorriso misterioso

tem a beleza da Lua Nova.

Prenhe, ficaste brilhante como a Lua Cheia.

Fugiste de mim como ela foge do Sol.

Quando te encontrei novamente,

sete anos depois,

imaginei-te frágil, fraca,

Minguante.

Naquela noite te mostrastes

a mesma Lua dos primeiros versos.

E descobri que, ali,

de Crescente só tinha eu.²

Zuko sorriu. Yue se aproximou mais e foi prontamente abraçada por ele. Sentiu um cheiro de álcool.

-Você bebeu?-Indagou, hesitante.

-Só um pouquinho.-Ele respondeu.-Yue, eu estou com medo...

O abraço foi estreitado pelos dois.

-Medo de quê?-Ela perguntou, temerosa também.

-Já pensou que, amanhã, vamos rever nossos parentes. E se...nos reconhecerem? E se...tivermos de matá-los... Eu não queria matar ninguém, Yue...Eu não quero perder você. Dessa batalha, talvez não voltemos nunca mais...

talvez não voltemos

talvez não voltemos

talvez...

não voltemos...

nunca mais...

As palavras do rapaz ficaram martelando em sua cabeça. Yue se desesperou como nunca antes.

-Zuko, eu não posso perder você!-Murmurou, urgente contra o peito dele.

-Eu sei, sem contar com o tio Iroh, somos a única família um do outro...-Ele sussurrou em retorno.

-Não tem haver com isso...- Ela virou o rosto para o lado, não queria ver a expressão dele ao ouvir a revelação.

Seria que ele teria asco dela? Será que deixaria de gostar dela?

Apertou-o ainda mais forte, como se ele pudesse de liquefazer a qualquer instante e deixá-la ali, sozinha.

-Eu entendo...-Ele a abraçou forte também.

-Não...você nunca entende nada...Mas eu amo você ainda assim.-E beijou-o, sem medir as conseqüências.

Se sentiu surpresa e extremamente feliz quando sentiu seu beijo ser correspondido. Foi tornando-se urgente, possessivo, as roupas foram tornando-se desnecessárias...

Mais tarde, com a Lua alta no céu...

-Vamos ficar juntos... para sempre, Yue.-Murmurou ele, beijando-lhe o topo da cabeça.

-Para sempre...-Ela sussurrou antes de adormecer com a cabeça pousada em seu peito.

Nota dos Autores:

¹-A "música" cantada por Yue, na realidade, é um poema chamado "Canção da Aia para o filho do Rei" de autoria de Mário Quintana. Nós achamos que se aplicava tão completamente à relação dos dois (Zuko&Yue) que "musicamo-la". Cada um imagine o ritmo. Lembrem-se: é uma cantiga de ninar.

²-O poema recitado por Yue é de minha autoria, Niia-Chan (um dia vocês vão ver um livro meu nas prateleiras de uma loja e saberão quem sou) e se chama Fases Lunares. Foi feito especialmente para o casal.