Olá. Espero que todos estejam bem.
Muitos não vão acreditar que estou atualizando essa história, mas, ao contrário do que se pensa, eu não desisti dela. Estava, como estou há muito, sem tempo para tudo o que eu realmente gostaria de fazer.
Mas é para isso que as férias existem, para que corramos atrás do que podemos recuperar.
Não é um capítulo longo, mas a sequência simplesmente não caberia no clima desse aqui, por isso achei por bem dividi-lo.
Posto esse sem betagem, então peço desculpas pelos erros. São todos meus, sem mais ninguém a quem responsabilizar. Espero ser perdoada por eles e informada sobre os meus deslizes.
Espero também que o texto ainda valha a pena ser lido.
Beijos e Feliz Natal!
Sadie
A dor é inevitável
O sofrimento é opcional.
Carlos Drummond de Andrade
14 – PARTE DO INEVITÁVEL
"Devagar." Legolas ouviu uma voz pedir e logo duas mãos o seguravam gentilmente. "Não deve se levantar assim, jovem príncipe. Aguarde, por favor, que um dos gêmeos ou Elrond venha vê-lo".
O arqueiro franziu o rosto, tentando reconhecer quem estava lhe fazendo companhia no quarto.
"Lorde Erestor?" ele arriscou enfim.
"Sim, Legolas. Sou eu. Estive com você durante a manhã a pedido de nosso anfitrião. Como se sente?"
"Não... Não estou doente..." Legolas apertou constrangido o maxilar, jogando as pernas para fora da cama. "A que hora do dia estamos, Lorde Erestor, por gentileza?"
O conselheiro ergueu-se então, pensando em como oferecer ajuda a alguém que não parecia deixar sombra de dúvida do quanto não gostaria de ser ajudado.
"É sol alto já, jovem príncipe," ele respondeu. "Metade de uma manhã ensolarada já se passou e o astro brilhante agarra-se ao topo do céu nesse momento."
Legolas parou diante da cama, a mão ainda firmemente agarrada à cabeceira alta.
"Metade da manhã?" ele repetiu.
"Sim. Com certeza estava muito cansado."
"Por que..." Legolas voltou-se então na direção do conselheiro de Imladris, mas, antes de completar o questionamento, pôde sentir o inquietar deste. Ele conhecia o bom conselheiro de Imladris, por isso sabia que, definitivamente, Erestor estava em uma das posições em que menos apreciava ser colocado. Legolas deixou o ar sair dos pulmões, ao invés da pergunta que gostaria de fazer e por fim soltou os ombros, apoiando-se na cabeceira da cama.
"Talvez devesse voltar a se deitar, jovem príncipe," aconselhou o bom elfo, executando o que fazia de melhor. "Doente ou não, ainda parece cansado. Seu dia de ontem me pareceu bastante atribulado, se me permite uma opinião, nada o impede de descansar por mais algumas horas."
Legolas fechou os olhos e suspirou novamente. Seu peito parecia pesado, como se de fato não tivesse descansado por todo aquele tempo descrito. Ele levou uma das mãos ao rosto e percebeu por fim que seu cabelo estava completamente solto, a cabeça já não lhe doía mais como na véspera. Foi quando notou que não se lembrava muito bem do que ocorrera na véspera. Do que ocorrera depois que conversara com o pai.
Conversara com o pai? Sobre o que mesmo conversaram?
"Onde está o rei, Lorde Erestor?" Ele reabriu os olhos e voltou-os inutilmente para o conselheiro, que franziu os dele, estranhamente incomodado por ter aquelas pupilas, agora de um pálido azul, voltadas em sua direção, como se de fato o enxergassem.
"Está tratando de alguns assuntos com Lorde Celeborn, eu suponho," informou o conselheiro, vendo por bem oferecer ao rapaz apenas parte da verdade. Não fora instruído por ninguém ainda sobre como agir diante de tantos acontecimentos simultâneos, por isso achou conveniente optar pela cautela, para evitar arrependimentos futuros. Era sua forma de agir, sempre fora.
O olhar de Legolas se perdeu então e suas órbitas começaram um estranho movimento de vai e vem que desagradou o conselheiro por completo. Era evidente que a resposta oferecida não havia satisfeito inteiramente o príncipe da floresta.
"Alguns assuntos..." Legolas repetiu e ouviu o incômodo som da garganta do conselheiro, engolindo mais do que apenas saliva.
"Sim, alguns assuntos diplomáticos, eu presumo". Ele ouviu a resposta forçada em seguida.
O arqueiro então procurou retomar suas forças e deu alguns passos pelo quarto. Estava se sentindo muito cansado, diferentemente do que previra quando decidira vir até a Última Casa Amiga. Queria sentir alguma paz, saborear um momento que fosse de distância da agonia que o perseguia, mas fora inútil. Em Imladris, o vai e vem que o assolava em sentimentos e imagens contraditórias estava mais presente do que jamais estivera em qualquer outro lugar. Ele voltou a cobrir o rosto, por fim sentou-se no colchão com um suspiro de cansaço. Erestor aproximou-se devagar, tomando o lugar ao lado do príncipe.
"Precisa de ajuda, jovem Legolas?" ele indagou.
"Eu não sei..." A resposta do rapaz foi tão automática que o conselheiro viu-se obrigado a conjeturar se estavam de fato falando o mesmo idioma.
"De que... de que precisa?" Erestor arriscou-se. "No que posso ajudá-lo?"
Legolas soltou um novo suspirou, voltando a cobrir o rosto com ambas as mãos. Erestor intrigou-se, depois apoiou receoso a mão sobre o joelho do jovem elfo.
"Não teve uma noite tranquila, não é fato?" ele observou. "Pude perceber que seus traços não são os de alguém que toma do sono as dádivas merecidas."
Legolas descobriu o rosto, mas fechou os olhos.
"Tenho sonhos estranhos," ele disse por fim. "Parece que nesses tempos de inquietação e tudo o que a noite nos proporciona."
Erestor sorriu amavelmente, apertando um pouco o joelho do rapaz antes de soltá-lo.
"Elfos são mensageiros, elos que ligam as forças do mar, do céu e da terra," ele admitiu com um sorriso. "Alguns exercem essa função melhor do que outros."
Legolas balançou a cabeça em concordância.
"Nem tudo o que nossos sonhos nos mostram pode ser classificado como verdade, não é mesmo, Lorde Erestor?"
O elfo moreno ergueu as sobrancelhas e apertou os lábios para que deles não escapassem a resposta que lhe ocorria para tal pergunta.
"Isso depende de quem os têm, meu bom príncipe."
Outro suspiro forte escapou dos lábios do arqueiro. Parecia que, em toda a Terra Média, seu pai era o único a desdenhar dos significados dos sonhos. Ele pensou baixando entristecido a cabeça. No entanto, tinha que admitir que, na maior parte das vezes os julgamentos do rei eram os que mais se aproximavam da verdade. Talvez esse fosse um dos casos.
"Qual é sua preferência, desjejum ou almoço?" indagou enfim o conselheiro, após encher totalmente os pulmões. Na verdade, sabia que aquele questionamento repentino nada mais era do que um escapismo barato, uma tentativa de sair da posição na qual estava com mais vontade do que seria sensato demonstrar, mas não conseguia se conter. Encontrava-se em uma situação muito delicada e não estava disposto a arriscar-se em assuntos perigosos sem necessidade ou auxilio. "Já é praticamente hora do segundo, mas como o primeiro não lhe foi servido..."
"Sou-lhe grato, Lorde Erestor," Legolas respondeu em tom baixo, entrelaçando os dedos das mãos e sentindo-se estranhamente indisposto a ir a qualquer lugar. "Quem sabe mais tarde."
Erestor torceu os lábios insatisfeito. Juntando as mãos diante do corpo sem saber ao certo o que fazer.
"Deitar-se-á mais um pouco, então, ou gostaria que eu o auxiliasse a encontrar algo para vestir?"
Legolas encheu o peito, erguendo-se depois.
"Conheço bem o quarto," ele procurou adicionar firmeza a sua voz, mesmo sem, no entanto, sair do lugar. "Não se prenda por minha causa, senhor. Sou-lhe realmente muito grato pela companhia."
"Ah... sim... Não há motivo, jovem príncipe..." balbuciou levemente o belo elfo, sem saber ao certo qual passo seria mais apropriado agora. Não fora instruído! Odiava encontrar-se em uma situação para a qual não recebera as instruções adequadas. Onde, por todos os Valar estavam todos?
"Não há de fato com o que se preocupar, Lorde Erestor," Legolas assegurou, parecendo ler as inquietações denotadas no tom incerto do conselheiro. "Apenas me vestirei e ficarei por aqui. Não irei a qualquer parte. Se precisar de algo, pedirei à sentinela do corredor."
Erestor franziu a testa.
"Como sabe que há uma sentinela no corredor, Legolas?" intrigou-se o conselheiro. Em Imladris não havia o hábito de manterem-se guardas dentro da grande casa. O lugar era protegido pelas bênçãos de seu senhor e poucas foram as vezes nas quais algum distúrbio perturbou a paz reinante.
O príncipe baixou tristemente os olhos como resposta.
"Ouço-o trocar vez por outra o pé de apoio," revelou o elfo louro. "Está ao lado de minha porta agora, mas não estava quando para cá vim acompanhado do rei ontem à noite."
Erestor sentiu o queixo cair devagar, mas logo o recolocou em sua posição e pigarreou.
"Tenho certeza de que nosso anfitrião preocupa-se com vossa alteza por algum motivo... Sem dúvida a presença desse bom soldado é apenas para sua proteção, posso lhe garantir."
Legolas voltou a assentir com a cabeça.
"Não tenho em pensamento algo que discorde de sua opinião, Lorde Erestor. Asseguro-lhe."
Erestor voltou a sentir as palavras fugirem-lhe desobedientemente. Era nesses momentos que ele quase conseguia compreender a aversão que Glorfindel sentia pelo filho de Thranduil. Legolas de fato não era uma pessoa cujo convívio se fazia no mais pacato dos modos.
O conselheiro permaneceu mais alguns instantes parado no meio do quarto, a dois passos exatos do arqueiro, enquanto pensava em que atitude tomar. Chegava a ser irônico o modo como ele, o conselheiro-mor de Imladris, aquele em cuja opinião Elrond depositava total confiança, odiava estar em uma situação na qual devia tomar uma decisão sem ter a quem consultar.
Então, como que em resposta a seus apelos mentais, um leve bater na porta foi ouvido e, sem esperar resposta, esta se abriu, surgindo então o rosto do primogênito de Elrond.
"Posso entrar, Legolas?" ele pediu, ainda com metade do corpo fora do quarto.
"Por favor, Elladan," Legolas autorizou, com um pequeno gesto da mão direita a reforçar suas palavras, ao qual o gêmeo compreendeu bem, entrando e fechando a porta com cuidado. Ele sorriu então para os dois elfos dentro do cômodo depois de fazer uma vistoria rápida do lugar com os olhos.
"Como estão?" indagou enfim o gêmeo com um sorriso paciente, aproximando-se e apoiando uma mão no ombro do conselheiro.
"Bem, Elladan," respondeu o outro no mesmo tom afetivo. "Estava agora mesmo indagando a nosso hóspede sobre a refeição que gostaria de receber, mas o príncipe parece sem apetite."
Elladan voltou-se para Legolas e seus olhos não se desprenderam mais da figura do príncipe da floresta. O arqueiro ainda estava em roupas de dormir, os cabelos soltos lhe cobriam levemente a face e ele mantinha uma mão por sobre o peito, gesto que para o gêmeo pareceu difícil de decifrar.
"Quero agradecer-lhe, Erestor," o jovem curador disse então, forçando o olhar a deixar a figura que encarava e voltar-se para o amigo a seu lado. "Meu pai reforça meus agradecimentos também. Ele me pediu que o dispensasse da função que o incumbiu até então."
Erestor sorriu-lhe, inclinando-se formalmente, aquilo era tudo o que ele mais queria ouvir no momento.
"Fico feliz por ter sido de alguma ajuda," respondeu com um inegável tom de alívio em sua voz. "Se me dão licença então."
"Obrigado pela companhia, Lorde Erestor," Legolas ainda lembrou-se de dizer, ouvindo os passos leves do conselheiro se distanciarem em direção à porta.
"Foi um prazer, nobre príncipe," ele respondeu, já sob o escuro batente de madeira. "Até mais tarde!"
Somente quando a porta se fechou Legolas foi capaz de soltar os ombros e um suspiro.
"Lorde Erestor é deveras formal," ele disse.
Elladan riu.
"Sim. De fato," ele respondeu, aproximando-se. "Como passou a noite?"
"Bem, Dan. Obrigado."
"Ótimo. Então vamos encontrar algo para que vista," ele sugeriu, afastando-se em direção ao guarda-roupas. "Há muito tempo não recebemos sua visita, mas nosso pai sempre pediu que suas roupas estivessem em ordem aqui."
Legolas acompanhou em silêncio o leve movimento do amigo. Sim. Sua última visita àquele quarto fora há algumas longas estações. Ele sequer havia saído convencionalmente pela porta pela qual entrara. Na verdade, nem havia saído de lá por vontade própria.
"Dan..."
"Sim, Las," Elladan indagou já tirando algumas peças de roupa e colocando-as por sobre a cama.
O arqueiro baixou os olhos sem continuar e Elladan moveu-se em sua direção.
"Diga, Las," ele insistiu. "Está sentindo alguma coisa?"
"Não... Onde... Onde está meu pai? Adormeci com ele em meu quarto e..."
Elladan aproximou-se novamente, sentindo a aflição no discurso do amigo. Legolas parecia bem melhor naquela manhã, não queria vê-lo transtornado novamente.
"Seu pai está fazendo seus preparativos para deixar a cidade."
Legolas respirou fundo com aquela informação.
"Ele... ele vai partir hoje?"
"Não sei. Mas é da vontade dele fazê-lo."
"Ele... Ele lhe disse se vou acompanha-lo?"
"Ele veio buscá-lo, Las, não veio?"
Legolas baixou os olhos, mas a tristeza que se formou em seu olhar não ficou clara para Elladan.
"O que você quer fazer, mellon?"
"Como assim, Dan?"
"O que deseja fazer? Acompanhar seu pai ou ficar aqui em Valfenda?"
Legolas respirou profundamente, entrelaçando nervoso os dedos das mãos.
"As escolhas são sempre duras demais..." ele comentou com tristeza. "Sempre que sou obrigado a fazê-las acabo por perceber que, separadamente, nenhuma das duas me favorece."
Elladan esboçou um sorriso triste, depois pousou a mão no ombro do arqueiro.
"Talvez uma terceira opção apareça," ele propôs baixinho e sua voz melódica soou ainda mais agradável ao arqueiro do que já soava normalmente. Legolas ergueu os olhos intrigado.
"O que quer dizer, Dan?" ele indagou e mesmo sem poder ver sentiu que um sorriso paciente se formava no rosto do bom amigo.
"Não posso adiantar-lhe nada ainda, gwador-nîn," ele disse. "Mas acho que outros além de você estão em busca de um caminho no qual não haja tantas separações."
Ironicamente, a manhã toda fora radiante. O sol transpassava as brechas das folhas verdes, criando desenhos estranhos no chão. Uma brisa temperava-lhe o calor, irmanando também o aroma de algumas flores a aquele ar primaveril, e resumindo, por fim, a paisagem em um quadro quase irreal.
Aquela era Valfenda e qualquer um que ali estivesse se estarreceria, perplexo diante de tanta beleza em um único lugar. Era tudo ponderadamente adicionado como se um pintor de mãos hábeis tivesse feito o quadro de sua existência.
Qualquer um se estarreceria.
Menos o rei da Floresta das Trevas.
Thranduil estava diante de seu cavalo, checando a bagagem sem olhar para os lados. Sua mente estava ocupada demais para qualquer trivialidade. Ela já traçava planos, percorria os mesmos caminhos muitas vezes, previa imprevistos, conjeturava soluções, fazia seu papel. Próximo a ele, os demais elfos de sua patrulha espelhavam em silêncio os mesmos gestos de seu líder.
"Uma noite foi minha palavra," ele disse ao elfo que estava em pé a seu lado, mas não o olhou. "Não posso sequer cogitar a hipótese de aguardar um cantar a mais nessa terra."
Celeborn balançou suavemente a cabeça, observando o rosto do amigo com paciência e atenção.
"Vejo que as respostas que a noite lhe trouxe não foram o bastante para convencê-lo a ficar conosco mais alguns dias como eu esperava que fossem," ele observou.
Thranduil respirou fundo, olhando enfim para o líder de Lothlórien.
"Ocorreu exatamente o contrário," ele revelou. "Lamento agora não ter partido ontem mesmo."
"Julga que teria enfrentado melhor na floresta os eventos que enfrentou nos aposentos de seu filho?"
"Indago-me se realmente tais eventos teriam ocorrido," Thranduil admitiu em tom intransigente, mas tudo o que o elfo de cabelos prateados fez foi voltar a sorrir, apoiando agora a mão por sobre o ombro do amigo. "Não me peça para ficar mais, Celeborn," o rei adiantou-se, julgando conhecer os motivos daquele ato. "Pois não poderei atendê-lo."
"Não lhe pedirei," respondeu o outro, mas sua resposta inesperada pareceu desagradar mais o rei da Floresta Escura do que ele gostaria. "No entanto, tenho de fato um pedido a fazer-lhe."
Thranduil esvaziou os pulmões, voltando a olhar o líder da floresta dourada. Gostava de Celeborn e da maneira como apenas ele sabia compreender sua impaciência para os detalhes que a existência lhes propunha aqui e ali. Ele apenas suspirou, aguardando o que o elfo tinha a lhe pedir.
"Gostaria que nos fornecesse hospedagem," Celeborn enfim requisitou e seu pedido trouxe um ar de dúvida indisfarçável ao semblante do rei.
"Hospedagem? Quer visitar a Floresta Escura, Celeborn?" Thranduil indagou descrente. "Preciso relatar-lhe o que se passa por lá novamente?"
"Não é minha intenção fazer-lhe uma visita dessa vez," o sábio elfo comentou em tom pacato. "É uma viagem de pesquisa."
"Pesquisa?" A pergunta em tom incrédulo escapou do rei antes mesmo que o significado dela chegasse a sua mente. Ele nem sequer esperou resposta, balançando inconformado a cabeça. "Com todo o respeito que tenho por você, Celeborn. Julga minha terra objeto de análise agora?"
Celeborn pareceu preferir usar o silêncio como resposta sensata, mesmo porque o olhar que oferecia já era o suficiente para responder as questões que permeavam agora a mente inquieta do rei.
Thranduil balançou mais uma vez a cabeça, com um pouco mais de força.
"Desculpar-me-á por certo," ele disse, ainda entre gestos de negação. "Não posso oferecer-lhe estadia no momento. Não enquanto não conseguir solucionar os problemas que tenho."
"Para solucioná-los, ettanu-nîn, precisa de uma resposta, cujo código é de difícil decifração," Celeborn comentou amenamente, não se impressionando com o ar de dúvida e desconforto que suas palavras despertavam no rosto do amigo. "Um código cuja chave exigirá de você o mais doloroso sacrifício."
"A que se refere?" indagou o rei, completamente insatisfeito com mais esse imprevisto, mesmo percebendo que Celeborn o chamara por um título cortês que há muito nenhum dos dois usava. Sim, eles eram praticamente primos, primos distantes, mas isso não tornaria as coisas mais fáceis.
"Precisará aceitar a colaboração de alguns."
Thranduil não respondeu. Procurando agora ler no rosto do amigo o que estava por trás daquelas palavras.
"Não sei se desejo ouvir o restante dessa sua ideia, Celeborn," ele admitiu então, voltando sua atenção ao que vinha fazendo. Sua montaria, seus elfos, seu reino, seus problemas. Ele tinha de fato outras coisas com para as quais dedicar sua atenção.
No entanto, a imagem serena do amigo, ainda a seu lado, começou a tomar-lhe completamente a paz. Ele conhecia a relevância das preocupações de Celeborn.
"Pelos Valar!" clamou o rei, soltando inconformado os braços e dando alguns passos para longe do cavalo. Seus olhos viajaram pela paisagem colorida daquela cidade uma vez mais, enquanto ele procurava esvaziar a mente daqueles pensamentos indesejados. Por Elbereth, tudo que já fazia pouco sentido quando chegara na véspera, agora parecia completamente indecifrável.
Celeborn deu alguns passos então, colocando-se à frente do parente distante. Thranduil ergueu os olhos, encarando-o corajosamente.
"Quem deseja que o acompanhe até lá?" ele indagou, enfim, sabendo de antemão que a resposta com certeza o desagradaria imensamente.
O olhar de Celeborn se perdeu então, parecendo agora olhar uma imagem só a ele destinada.
"Elrond e alguns que precisam acompanhá-lo," ele respondeu, ainda focando o quadro que tinha diante dele.
"Quem?"
"Os filhos, incluindo o jovem Estel," informou então, depois sua voz fez uma pequena pausa e o líder de cabelos prateados adicionou. "Além de Glorfindel."
Thranduil soltou os lábios, atônito por alguns instantes. Depois suas sobrancelhas se curvaram tremendamente.
"Por Elbereth, Celeborn!" disse por fim. "Por que não decepa minha cabeça com sua espada de uma vez?" completou, dando as costas e voltando a aproximar-se de seu animal. "Nem vou responder-lhe tal proposta."
Celeborn voltou a sorrir serenamente, observando agora as costas do rei. Thranduil já havia colocado sua bagagem no animal e agora abria cada bolsa, desatando e reatando fivela a fivela mais uma vez em uma checagem evidentemente desnecessária, cujo intuito qualquer um perceberia. O líder de Lothlórien decidiu esperar, uma de suas mais frequentes escolhas nos últimos tempos.
Aquele dia parecia não estar fadado a ser diferente dos demais.
"Já comentou com o Peredhel sobre esse seu desejo?" Thranduil indagou enfim, ainda de costas.
"Elrond compartilha minhas preocupações," Celeborn respondeu sem se mover, limitando-se apenas a cruzar pacientemente as mãos nas costas. "Ele está disposto a ajudar-nos no que for preciso."
"E ele pode abandonar essa terra assim? Não é dela anfitrião e protetor?"
"Já o fez certa vez. Você com certeza se lembra, ettanu-nîn."
"Sim. Por isso indago-lhe. É um risco distanciar-se e expor-se dessa forma."
"Elrond tem suas certezas nas quais acredito mesmo sem compreendê-las inteiramente," Celeborn garantiu, movendo os olhos claros pelos demais soldados da Floresta, que já haviam também encerrado seus preparativos e agora aguardavam em silêncio pelas instruções de seu rei. "Se ele se dispõe a tal risco, devo confiar em seu discernimento."
Thranduil torceu os lábios. Parando enfim o que fazia, mas mantendo as mãos por sobre seu animal como se precisasse de um apoio para a decisão que se via obrigado a tomar. Por fim, voltou-se e se aproximou do outro elfo, puxando-o pelo braço para um pouco mais longe de seus soldados.
"Seja sincero comigo, Celeborn," ele disse em tom baixo, ainda segurando o braço do líder da Floresta Dourada. "Ouviu com certeza o relato de todos nas conversas que teve. Acredita que algo nessa insanidade que Legolas prega tem um fundo de verdade?"
"Acha seu filho insano, ettanu-nîn?" Celeborn olhou-o nos olhos.
"Claro que não!" aborreceu-se imediatamente o rei, soltando o braço do amigo, mas encarando-o de forma ainda mais intensa. Celeborn calou-se então, limitando-se apenas a encher os pulmões e pressionar levemente os lábios cerrados.
O rei já tinha sua resposta.
Os cavalos todos se quedavam mansamente no caminho que levava aos portões de Valfenda. Alguns elfos já estavam sobre suas montarias, aguardando os demais que se juntavam ao grupo agora. Não eram um grupo muito numeroso. Quatorze elfos silvestres além de seu líder e seu príncipe, que agora se sentava ao lado de um velho amigo em um dos bancos da praça.
"Os dias não são muito longos nessa época do ano." Ele comentou cabisbaixo e Eglerion olhou-o mais uma vez, tentando entender por que aquela observação parecia ter o tom de uma queixa. O rei pedira que ficasse ao lado do príncipe enquanto o grupo redefinia rumos e outras particularidades.
"Parece preocupado, alteza." O jovem elfo observou, contendo o riso ao ver o rosto aborrecido que o príncipe não conseguia evitar diante daquele pronome de tratamento.
"Estou sem montaria," Legolas comentou, disfarçando visivelmente um mal estar que o amigo não conseguia relacionar apenas ao fato da indisponibilidade de um cavalo no momento. "Por acaso não encontraram Faer no caminho que os trouxe até aqui, encontraram?"
"Não, senhor," respondeu o outro intrigado. "O que houve com seu cavalo, senhor?"
"Eu não sei..." Legolas respondeu pensativo, depois baixou a cabeça e soltou um suspiro cansado. Eglerion moveu o rosto, olhando o amigo com carinho.
"Esse lugar é tão bonito," ele disse com sinceridade. Nunca havia chegado tão longe em uma viagem como daquela vez e ficara feliz por comprovar que tudo o que o amigo príncipe lhe dissera sobre o reino do vale era mais do que verdade. "Se pudesse ficar mais tempo talvez se sentisse melhor, não acha, meu príncipe?"
Legolas voltou a fechar os olhos, depois esticou a mão e segurou o pulso do colega ao lado. Conhecia Eglerion desde elfinho. Havia uma diferença entre eles em anos que não era significativa agora que ambos eram adultos, mas que se mostrara bastante evidente durante a infância do príncipe.
"Por favor, mellon-nîn. Meu pai não está por perto," ele pediu e o amigo sorriu disfarçadamente.
"Sempre me pede tal coisa," reclamou o outro sem muito vigor. "Até o dia em que eu deslizar e chamá-lo pelo nome diante da corte. Com certeza vai ser um prato cheio para alguns que não desejam os silvestres dentro do palácio."
Legolas apertou os lábios, aborrecido, depois balançou a cabeça, mas não teve tempo para responder, pois logo o amigo a seu lado respirava fundo, dando a leve indicativa de que alguém se aproximava.
"Eglerion." A voz de Estel surgiu em tom de contentamento, trazendo um sorriso aos lábios do príncipe, que se ergueu para recebê-lo, bem como seu amigo. "Não o havia visto desde a chegada."
"Como vai, Lorde Estel?" O bom elfo apoiou a mão no peito para saudar o recém-chegado.
"Bem, obrigado," respondeu o guardião, repetindo o cumprimento. "E você? Gostou do lugar?"
"Sim, senhor. Comentava agora pouco com nosso príncipe sobre as graças dessa cidade."
Estel sorriu, satisfeito, depois se moveu para o lado do amigo arqueiro. "E você, mellon-nîn? Não o vi esta manhã."
"É verdade." Sorriu-lhe o elfo louro. "Passei a noite sob outros cuidados, dessa vez dei-lhe um pouco de paz."
Estel retribuiu o sorriso, apoiando agora a mão no ombro do amigo.
"A paz me é dada quando estou contigo e sei que está bem, mellon-nîn," ele disse e suas palavras comoveram o príncipe, que apoiou a mão no peito em agradecimento. "Tem certeza que está apto para essa viagem tão longa?"
Legolas ergueu levemente os ombros, ainda com um sorriso a embelezar-lhe a face.
"Apto ou não o que pode me acontecer?" ele brincou. "Todos os valorosos lordes elfos nos acompanharão. Além de quatro curadores cuja eficiência é inquestionável."
Estel franziu o cenho.
"Quatro? Quem nos acompanhará além de meu pai e meu irmão?"
"Além deles e de você?" Legolas ergueu o canto dos lábios, o olhar ainda perdido, mas o rosto sereno.
"Não sou curador," Aragorn objetou pacientemente.
"Também não sou arqueiro," Legolas brincou e Aragorn enfim sorriu conformado, apoiando novamente a mão no ombro do amigo e acariciando-o com firmeza.
"Parece bem," ele comentou. "Espero que seu bom humor não seja porque está indo embora daqui," ele completou em tom de brincadeira.
Legolas moveu devagar os olhos, mas não havia mais sorriso algum em seu rosto.
"Minha alegria se deve ao fato de estar entre os que amo," ele disse com seriedade. "Não há uma explicação sensata para isso, mas sinto meu coração mais leve por saber que serei tão bem acompanhado até em casa."
Aragorn silenciou-se, sentindo aquele comentário descer-lhe forçosamente pela garganta. Sabia que o amigo não tivera a intenção de ser agressivo, mas o incômodo daquela história toda, somado agora ao surpreendente fato de Thranduil ter aceitado a presença de algumas figuras entre seu grupo de retorno, estavam roubando-lhe a paz.
"Lady Idhrenniel," ele ouviu então o arqueiro dizer.
"O que disse?"
"Lady Idhrenniel é o quarto nome em minha lista de curadores que viajam conosco hoje," Legolas esclareceu e Aragorn sentiu que o amigo apenas queria tirá-lo dos pensamentos que pareciam afligi-lo. No rosto do elfo estava de volta aquele leve sorriso que o jovem Estel sempre achou que o amigo reservava apenas para ele.
"Idhrenniel?" ele disse depois de alguns instantes, quando a informação caiu-lhe plena na mente. "Mas ela nunca fez parte de caravana alguma."
"Também achei estranho," Legolas admitiu. "Mas disseram-me que ela vai a pedido de seu pai."
"Idhrenniel..." Estel repetiu pensativo, parecendo não se sentir devidamente esclarecido. "Ele lhe disse o porquê?"
"Não," Legolas baixou o rosto, disfarçando um sorriso que, para Estel, pareceu inteiramente fora de hora. O guardião envergou as sobrancelhas, ainda mais intrigado.
"Sabe de algo que eu não sei, Legolas?" indagou em tom insatisfeito, mas depois teve uma agradável sensação ao perceber o embaraço do amigo príncipe, que, pelo visto, não julgava que sua reação tivesse sido tão aparente.
"Não, Estel," ele sorriu abertamente, então, balançando a cabeça com ares de inconformado. "Peço que me desculpe, meus pensamentos estão em outros detalhes inteiramente irrelevantes."
Aragorn intrigou-se ainda mais, espelhando, no entanto, o sorriso tão raro que o elfo louro dava naquele instante. Era um sorriso natural de quem realmente não parecia estar atendo seus pensamentos em algo urgente ou preocupante. Pelos Valar como era bom ver o amigo sorrir assim!
"Ande, trate de me contar." O guardião segurou-lhe o braço, então, dando-lhe uma sacudida, cujo intuito era puramente provocativo. No entanto ele surpreendeu-se por ver o arqueiro enrubescer levemente. "O que anda aprontando?" indagou com um meio riso, se deixando levar por aquele leve clima de brincadeira que se estabelecia como uma benção não pedida mas em muito desejada. Ao lado dos dois, o soldado Eglerion também disfarçava um riso, olhando sorrateiramente para os lados, mas parecendo saber do que se tratava.
"Está bem. Está bem." Legolas aceitou, ainda sorrindo. "Mas o que lhe revelarei é um segredo que pede absoluta discrição," ele adicionou, forçando no rosto um ar sério que parecia não lhe caber.
"Claro."
Legolas suspirou, os olhos perdidos agora tinham um brilho doce que tocou o coração de Estel. No que estaria pensando?
"É sobre Lady Idhrenniel," ele confessou.
"O que tem ela?" adiantou-se o guardião, curioso. Depois seu queixo caiu com uma ideia que lhe veio à mente. "Pelos Valar, Las. Você não está interessado nela e..."
Legolas soltou um riso agora, enrubescendo ainda mais e movendo o rosto como se tivesse ouvido o maior dos absurdos. A seu lado o eco do riso que Eglerion tentava disfarçar só fazia motivá-lo a rir mais ainda.
"Não disfarce," provocou um pouco mais o guardião, divertindo-se com o embaraço que a questão despertava no amigo da Floresta das Trevas. "Porque se tem interesse nela e nunca me contou eu não vou te perdoar e..."
"Misericórdia, Estel," Legolas pediu, tentando recuperar o fôlego, enquanto erguia uma mão em sua defesa. Estel agora ria também, contagiado por aquela alegria fora de hora e tão bem vinda.
"Então me conte por fim!" ele pediu, satisfeito por ter conseguido prolongar por mais alguns instantes aquela sensação no rosto alvo do amigo elfo.
Legolas respirou fundo algumas vezes. O sorriso ainda querendo romper em sua face, ele então esticou o braço e segurou o pulso do amigo silvestre ao lado dele.
"Digamos que conhecemos alguém no palácio a quem a surpreendente e inesperada notícia da visita da senhora curadora agradará imensamente, não é fato, mellon-nîn?" ele confidenciou, apertando ligeiramente o pulso que segurava.
Eglerion exibiu um sorriso largo então.
"É fato, meu príncipe," ele confirmou, entendendo o pedido do amigo. "Desde que foi atendido por ela há muitos anos, nosso amigo Thavanian nutre pela bela donzela mais do que admiração, bem sabemos."
Estel sentiu o queixo cair devagar, fitando os dois elfos da Floresta como se não os conhecesse mais.
"Ora vejam!" ele exclamou, soltando um riso e olhando para os lados para checar se ninguém observava a cena infantil, porém divertidíssima, que faziam. "E só agora me informam de tão importante fato?"
Legolas riu também, apoiando a mão no peito do amigo.
"Só agora o informamos, bem como pedimos extremo sigilo," ele disse, o sorriso morrendo devagar em seu rosto. "Além de nós três ninguém faz ideia de tal verdade. Muito menos a eficaz curadora de Imladris."
Estel continuou com os lábios erguidos em um sutil sorriso, depois assentiu, dando um leve aperto no ombro do amigo como resposta. Estava feliz por ver que o arqueiro parecia bem disposto, apesar dos dias difíceis que havia passado. A chegada de Thranduil na véspera preocupara-lhe, mas, pelo que tudo indicava, os tempos nos quais a figura do pai trazia influências não muito positivas no amigo da Floresta haviam de fato chegado a um fim.
