CAPÍTULO XIV
Quando os primeiros raios de um sol pálido inundaram o quarto onde Ravena estava, encontraram-na sozinha, deitada de bruços. Ela ergueu seu corpo fazendo um enorme esforço para ajustar o foco de sua visão. Colocou uma das mãos por sobre os olhos afetados com a claridade e voltou o olhar para o travesseiro ao lado, onde sabia ter estado repousada a cabeça do marido na noite anterior. Apesar da ausência dele, sobre o travesseiro se encontravam uma rosa vermelha e um bilhete. Ela sentou preguiçosamente na cama e começou a ler as pequenas linhas escritas no papel.
"Minha querida
Tenho certeza de que quando estiveres lendo estas palavras já estarei longe, mas quero que saibas que estarei com você no pensamento e no coração. Eu já a esperei por muito tempo, e cheguei a pensar que nunca a encontraria, e agora não suporto a idéia de perdê-la. Tome muito cuidado e não se esqueça que me prometeste voltar.
Com amor, Severo "
Lágrimas escorreram pelo rosto de Ravena. Por alguns segundos, ficou parada segurando o bilhete entre as mãos. Mais do que ninguém, sabia o quanto eram verdadeiras tais palavras e o quanto custara a ele admiti-las para si próprio. Ninguém que o conhecesse superficialmente o acharia capaz de amar. Respirou fundo e, por fim, pôs-se de pé. Ajeitou os cabelos e trocou de roupa, depois, desceu a escada em direção a sala. Ao entrar no aposento deparou-se com Alastor andando de um lado para o outro, carregava objetos de uma pilha em cima da mesa para um malão ao canto. E sem voltar seu rosto para ela, ou interromper o que fazia, falou:
– Já ia lhe chamar. Estou ajeitando as últimas coisas para a nossa partida. É melhor que faça o mesmo para não nos atrasarmos - com um resmungo, colocou o que pareciam ser os últimos objetos no malão e o trancou. Empunhou sua varinha na direção dele e ordenou: "Reduccio!" e malão virou um bauzinho. "É, Ravena,"- pensou ela - "mágica faz maravilhas!".
– Então? Podemos ir? - perguntou Ravena serenamente.
– Você só vai levar esta valise, senhorita Brown? - ele indicou com a varinha ainda em punho o pequeno objeto nas mãos dela.
– Sim - respondeu ela indo à direção da porta e sorrindo. - Acho que o senhor já está prevenido por nós dois, não? - e dizendo isso girou nos calcanhares, abriu a porta e ganhou a rua.
Alastor a seguiu ainda atordoado. Chegaram até o beco onde, na noite anterior, ela descera com Snape e Estúrgio. Certificaram-se que estavam sozinhos e desaparataram. Em poucos segundos, estavam nas movimentadas ruas da capital da Irlanda. As pessoas passavam e esbarravam neles como se fossem invisíveis. O buzinar de carros e a intensa neblina fazia parecer que não tinham saído da Inglaterra. Ravena lembrou seus tempos no mundo dos trouxas. Moody começou a andar. Atravessaram várias ruas e contornaram dois quarteirões até pararem em frente a um prédio de tijolinhos aparentes e com a fachada corroída pelo tempo. Alastor fez um gesto para que Ravena passasse a sua frente, e ela então subiu os degraus até a porta de entrada. Entrando na pequena recepção ela notou que havia pouca mobília, apenas duas poltronas com uma mesinha ao canto e, em frente a porta de entrada, um balcão onde um rapaz de uniformes azuis colocava diversas correspondências nos escaninhos de seus respectivos quartos. Notando que o rapaz não havia percebido a presença dos novos hóspedes, Ravena se aproximou do balcão e fez soar a sineta as costas dele. Recompondo-se do susto, o rapaz virou-se e, ajeitando o colarinho do uniforme, perguntou:
– Bom dia! Gostariam de um quarto? - sorriu mecanicamente. Moody que estava atrás de Ravena passou-lhe a frente e respondeu ao rapaz impedindo que ela falasse qualquer coisa.
– Sim, um quarto com duas camas - e percebendo a expressão do menino -, casal em início de carreira - tentou remediar, sorrindo meio sem graça. O rapaz assentiu, virou-se na direção dos escaninhos e pegou uma chave que entregou na mão de Moody.
– Quarto 112 - disse-lhe friamente.
Eles já estavam se retirando quando rapaz perguntou em nome de quem deveria registrar o quarto. E Ravena respondeu sorridente:
– Senhor e senhora Brown - e virando-se subiu as escadas atrás de Alastor.
O quarto era no final do corredor. Alastor abriu a porta e entrou direto. Ravena deteve-se no vestíbulo, onde deixou sua valise sobre uma mesa que possuía duas cadeiras. Ao entrar na peça contígua que era o quarto notou os papéis de paredes amarelados de onde ainda se distinguia um desenho de flores e duas camas de solteiro com uma mesinha de cabeceira separando-as. As cortinas das janelas estavam surradas e estas davam de frente para a rua movimentada, onde tinham aparatado. Ravena espreitou a rua e sentiu um clima tenso entre as pessoas que circulavam lá embaixo apressadas. Definitivamente não estavam na Inglaterra. Moody estava a um canto fazendo o malão retornar ao seu tamanho original. Ela sentou na cama.
– Bom, Alastor - disse olhando para o malão de onde ele começara a tirar seus objetos -, estamos instalados e precisamos traçar nosso raio de ação! - e levantando-se foi até o vestíbulo onde pegou sua valise e retirou alguns pergaminhos, voltando para o quarto, continuou de onde havia parado. - Acho que devemos começar por esse subúrbio a sudoeste - disse estendendo um dos pergaminhos sobre a cama, mostrando um ponto no mapa da cidade. - Aqui exatamente foi onde perdemos o rastro dos Lestrange e pelo o que pude apurar não houve outros acontecimentos fora de um raio de 5 km desta área. Acho que isso nos leva a concluir que eles não se deslocaram dali! - Moody a olhava com atenção. - Creio também que já deva ter notado o clima de tensão que está instalado nas ruas. Um clima bem propício à atuação dos Comensais sem serem percebidos. Os bairros cristãos se concentram mais nessa área e ouso dizer que são, infelizmente, as regiões de conflito - e enrolando o pergaminho novamente perguntou. - Alguma dúvida?
– Não, senhorita Brown - falou, sem olhá-la, terminando de ajeitar suas coisas. - Dumbledore tinha razão, você é muito eficiente e tê-la na Ordem nos dá uma boa vantagem. Agora aconselho descansar um pouco, sairemos ao cair da noite.
Ravena acatou de bom grado o conselho de Alastor. Estava terrivelmente cansada. Desejava realmente relaxar um pouco. Tudo em que conseguia pensar nas últimas horas era em capturar os Lestrange e na reação de Severo ao ler o bilhete que lhe dera. Mesmo assim, seu corpo cedeu ao cansaço e ela adormeceu.
Bem longe dali um vulto se erguia em frente a lareira de uma sala de estar bem decorada. Havia um sofá ao centro do aposento com duas imensas poltronas, todos revestidos de chenille, na cor mostarda, e compondo o ambiente com o conjunto de estofados, havia uma mesinha ao centro e um abajur ao lado do sofá. As paredes em tom marfim serviam de fundo para dois quadros de paisagens e um enorme brasão em cima da lareira. E finalmente, sob o chão de madeira em frente à lareira se estendia um lindo tapete persa em cima do qual Severo lia um pedaço de papel recém tirado de um envelope amassado, que estivera displicentemente jogado na mesa de centro. As chamas da lareira iluminavam seu rosto. Os cabelos caíam em desalinho por cima dos olhos grudados no papel. Ao terminar a leitura, um imenso sorriso aflorou em seus lábios, amassou o papel e atirou-o as chamas crepitantes da lareira. Subiu ao andar de cima e entrou no quarto onde havia uma cama de madeira maciça em estilo vitoriano, uma cômoda da mesma madeira ao canto, um par de cadeiras revestidas de brocado perto da janela, que estava aberta e permitia uma brisa entrar no quarto. Em frente à cama e pendurado na parede forrada de um tecido adamascado havia o retrato de uma mulher com os cabelos cacheados soltos, caindo em cascatas pelos ombros, os olhos extremamente verdes e um sorrido encantador aflorava de seus lábios. Completando a cena do retrato havia um lindo jardim e a dama trajava um vestido de chifon num salmão que lhe realçava a silhueta. Se Ravena estivesse ali não pareceria mais real que seu retrato na parede e, diante dele, estava Snape fitando-a apaixonadamente. Ficou algum tempo ali, sentindo o perfume e a presença dela e, por fim, perguntou ao retrato já que não havia mais ninguém envolta:
– Ravie, por que não me contou? - ela continuava sorrindo. - Como fui tolo. Não devia tê-la deixado ir! - dizendo isso deixou o quarto, desceu as escadas e saiu para o frio da noite.
Quando o crepúsculo começou a se anunciar, Ravena acordou. Alastor parecia não ter se mexido desde que ela adormecera. E olhando mais atentamente verificou que, ao contrário dela, o homem já estava pronto para sair. Então, se pôs de pé e se arrumou em poucos minutos. Ao final, colocando a capa, falou:
– Estou pronta! Vamos?
– A senhorita manda - disse pegando seu sobretudo. - Damas à frente, por favor. E abrindo a porta para que Ravena passasse, saiu atrás dela.
Desceram as escadas e alcançaram as ruas em segundos. Como queriam passar despercebidos, não usaram nenhum tipo de magia para chegar ao bairro que ela citara. Logo, demoraram um pouco mais de tempo do que esperavam. Entraram por várias ruas e atravessaram outras tantas, até finalmente atingirem seu destino. Era um bairro aparentemente residencial. Andaram mais alguns quarteirões, olhando algumas casas, e ao dobrarem mais uma esquina avistaram um vulto envolto numa capa preta. Não havia muita distância entre eles e o vulto, então tentaram se aproximaram devagar. O vulto, no entanto, pareceu ter percebido que estavam ali e aumentou o ritmo das passadas. Ravena e Alastor fizeram o mesmo, ele na frente e ela atrás, as varinhas seguras embaixo das vestes. Não levou mais que alguns segundos para que Alastor disparasse atrás do homem. Ravena correu também, mas Moody levava vantagem. De súbito, um "crack" as suas costas a fez interromper sua caçada. Virou-se enquanto uma gargalhada estridente enchia a noite... Em frente a ela, com um olhar diabólico, estava Belatriz Lestrange. Ambas sacaram suas varinhas e se mediram palmo a palmo. Andaram descrevendo um círculo, cada músculo de seus corpos retesado, uma fina chuva começou a cair sobre elas. Belatriz rompeu o silêncio novamente.
– Então, minha cara, nos encontramos outra vez! - rosnou olhando para os lados com se procurasse alguém. - É uma pena que o professor de poções não esteja com você - e sorriu debilmente.
Ravena a analisava, os cabelos compridos estavam escorridos pelo rosto, as feições, embora ainda bonitas, apresentavam cansaço.
– Vamos ,senhorita Brown - disse parando de andar -, vamos brincar de duelo - gargalhando jogou sua cabeça para trás. - Sabe, adorarei matar a protótipo de auror que você está se tornando! - assumindo um tom sério, continuou: - Já ajudou a mandar alguns amigos para Azkaban e isto tem que parar.
– Isto vai parar, Bella - Ravena falou pela primeira vez -, quando eu colocá-la junto deles!
– Como se atreve a me chamar de Bella? - riu sarcasticamente - Só meus amigos me chamam assim. Ah,.eu me esqueci! Você é amiguinha de Snape. Será que ele sabe que está grávida dele, meu bem?
Ravena tomou um susto, sentiu o ar faltar-lhe aos pulmões. Seu pulso acelerou e uma profusão de pensamentos encheu a sua mente. "Como ela podia saber?", recuperando seu autocontrole falou:
– Não é verdade! - a chuva agora se intensificara e encharcava as vestes das duas.
– Entendo que queira negar, mas nosso pessoal no Ministério é muito bem informado. E, bom, juntando dois mais dois posso dizer que sim! - e a encarou séria. - Decididamente está mentindo. Porém, no momento, isso é irrelevante! Você irá morrer e tudo o mais também! Aliás, tenho certeza de que o Lorde das Trevas quando retornar, porque sei que ele não está morto, irá me recompensar por acabar definitivamente com os traidores - e sorrindo ordenou - Crucius!
Ravena só teve tempo de desviar e um raio verde passou raspando suas vestes na altura da cabeça.
– Expelliarmus! - gritou Ravena jogando para longe a varinha de Bella. E enquanto esta se virava para pegar a varinha de volta, Ravena já desferia outro feitiço - Impedimenta! - Bella desviou do feixe branco de luz rasgou a noite e correndo na direção da varinha com Ravena ao seu encalço gritou:
– Accio Varinha! - a mesma veio voando até sua mão, que já virava para Ravena ordenando - Imperius!
Perto dali Alastor havia imobilizado Rodolpho Lestrange, que jazia no chão a sua frente. Ao ver vários feixes de luz serem lançados atrás de si cortando a escuridão da noite, murmurou um encantamento sobre o comensal ao chão e voltou para onde havia deixado Ravena. Já estava quase chegando quando distinguiu as duas ao longe duelando. Resolveu contornar o quarteirão, pois ganharia a vantagem do elemento surpresa. Sairia às costas de Belatriz. Quando entrou na rua onde elas estavam viu Ravena ser atingida em cheio no peito com um feixe de luz verde e cair para trás. No mesmo momento, empunhou a varinha e, sem dar tempo à Belatriz de se virar, ordenou:
– Estupefaça! - e a viu cair de joelhos a sua frente.
Correu para onde Ravena estava e se ajoelhou ao lado da moça. Afastou-lhe os cabelos do rosto e pôde ver que ainda respirava fracamente. Erguendo mais uma vez a varinha, conjurou um patrono que saiu como um feixe prateado e atravessou a noite. A chuva continuava caindo e, mentalmente, ele desejou que desse tempo de salvar a jovem ali caída.
Severo tinha acabado de preparar suas aulas quando ouviu uma batida na porta de sua sala.
– Entre - ele falou no tom habitual.
– Professor Snape - Filch estava a sua frente com a senhorita Norris nos braços -, o diretor deseja vê-lo, senhor.
– Sim, senhor Filch - disse arrumando os papéis -, irei em seguida.
E o zelador saiu arrastando seus pés pelo chão. Snape se levantou, guardou alguns livros no armário e saiu da sala em direção ao escritório de Dumbledore. Em poucos segundos penetrou na atmosfera quente do aposento. Dentro estavam apenas Dumbledore e a professora McGonagall. A professora logo se retirou, tentando dar a Snape um sorriso.
– Severo - Dumbledore saiu de trás de sua mesa e veio na direção do professor. Havia uma expressão de cansaço em seu rosto e seus olhos profundamente azuis encararam Snape por cima dos oclinhos de meia-lua -, sempre confiei em você e Ravena também. Ela me confiou um segredo, acho eu, que agora talvez você já saiba, o que dificultará muito aquilo que tenho para lhe dizer - Snape ia falar, mas um gesto do diretor fez com que se calasse. - Primeiro tenho que lhe dizer que Ravena conseguiu prender Belatriz. Tanto ela quanto o marido já estão em Azkaban, Moody os levou - então fez uma pausa tentando escolher as palavras que iria usar e continuou:
– Nós, velhos, já passamos por muita coisa na vida, nossa estrada foi longa rodeada de perigos e muitas vezes fomos vencidos por eles - disse olhando fixamente ao professor a sua frente. - Por causa disso tivemos que recomeçar, reestruturar e seguir adiante. Não é da natureza humana se deixar abater, contudo, não devia caber aos jovens carregar fardos, às vezes, pesados demais - e ficou em silêncio, um silêncio que fez com que o professor sentisse sua pulsação aumentar. - Eu deixei Ravena carregar um fardo pesado demais. Quero lhe pedir desculpas, Severo, pela dor que vou lhe causar, mas infelizmente Ravena está morta.
O impacto daquelas palavras causou dor a ambos. Os olhos de Dumbledore se encheram de lágrimas, que não ousaram cair. Por outro lado, Snape estava impassível, seus olhos vidrados como se olhasse além do que viam, suas mãos crisparam como se uma dor latejante lhe consumisse as entranhas e sua respiração se tornou ofegante. Ele levantou e, sem parecer prestar atenção ao diretor, saiu pela porta do escritório.
Um vulto negro percorreu os corredores da escola e saiu para a noite chuvosa. Atravessou os portões e chegou ao vilarejo ali perto rapidamente. Estava ensopado. Entrou, subiu as escadas em direção ao quarto. Lá chegando caiu de joelhos em frente ao retrato da parede e então chorou. Chorou como uma criança abandonada sentindo um frio que lhe invadia a alma. E gritou cortando o silêncio da noite com uma faca, a mesma que arrancara tudo de bom que ele teve na vida, a mesma que o apunhalava agora. E levantando seus olhos vermelhos para o retrato viu os ternos olhos verdes de Ravena caírem sobre ele como a última brisa quente do verão. Ela não voltaria para criarem a sua família, uma coisa que ele nunca tivera na vida.
