Capítulo 14 – Proteger.

Hermione caiu ao chão depois da primeira Cruciatus, Lúcio sustentou a maldição por tempo demais, sem qualquer trégua. A moça registrou que Severo ainda gritava, mas não tinha forças para olhar para ele. Não queria ver seu rosto, pois o visse sofrendo tanto com a sua dor, talvez perdesse a força para continuar. Mirou o chão, via apenas os pés de Lúcio Malfoy.

- Que tal uma segunda Cruciatus? – ele disse, cruel e sádico.

O corpo de Hermione gritava. Ela tirou forças das suas entranhas para murmurar outra vez:

- Eu.

A maldição da tortura a invadiu uma segunda vez, agora ainda mais dolorosa devido ao fato de seu corpo já estar debilitado e maltratado pela primeira maldição. O comensal fez com que a tortura durasse ainda mais tempo do que a primeira. Todo o tempo Snape gritou e isso torturava Hermione tanto quanto a Cruciatus. A única coisa que a consolava era estar poupando Severo daquela dor. Proteger Severo Snape. Era o que ela mentalizava. Proteger. A palavra lhe deu forças para responder "Eu" quando Malfoy a infligiu a terceira maldição cruciatus e depois a quarta. Cada uma mais insuportável e demorada do que a anterior. No final da quarta maldição Hermione vomitava sangue no chão do casebre.

- Chega de Cruciatus. – Lúcio disse, mas a moça não se consolou. Sabia que ainda vinha dor e sofrimento. – Vamos deixar umas marcas!

- HERMIONE, OLHE PRA MIM. POR FAVOR. – Snape gritou já rouco, sabia que a moça evitava olhar pra ele para não fraquejar.

Ele implorava fazia qualquer coisa para ela não sofrer mais. Ouvir seus gritos, observar sua tortura era a pior coisa que ele já havia sentido em toda a sua vida. Nenhuma das vezes que ele mesmo fora torturado, nem mesmo quando soube que sua amada Lílian havia morrido, nada superava a dor que ele sentia vendo tanto sofrimento sendo infligido a Hermione. A cada vez que a menina juntava forças para responder "Eu" mais uma vez e poupá-lo, era a pior tortura que ele poderia sentir.

Hermione não olhou pra ele. Seus olhos prenderam-se na face de Lúcio Malfoy, esperando.

- Vou deixa-la nua e exposta. – ele disse, como se adorasse a ideia. – E então farei cortes em seu corpo com um feitiço. Não haverá magia no mundo capaz de livrá-la das cicatrizes. Me diga, sangue sujo: você ou ele?

- Eu.

As roupas de Hermione foram rasgadas com um feitiço. Ela se sentiu completamente exposta, cobrindo os seios com as mãos e se encolhendo em posição fetal. O seu corpo suava. O sangue que ela havia vomitado escorria pelo seu queixo e pescoço.

- Curia Insanabilis. – Lúcio Malfoy disse o feitiço apontando para a perna direita da moça.

Um corte apareceu na altura do quadril. Além da dor, Hermione sentiu sua força vital deixando seu corpo. Sua cabeça latejou fortemente e ela achou que fosse desmaiar. O ferimento vertia sangue sem cessar. Snape ainda gritava pedindo que ela olhasse para ele, pedindo que ela não aceitasse mais nenhuma tortura. Mas ela quase não escutava mais, seu corpo não tinha capacidade.

- Eu. – ela murmurou mais uma vez, quando pareceu que Lúcio tinha dito alguma coisa.

Um segundo corte veio atingindo-a no seio. Depois um terceiro em seu braço esquerdo e depois, mais um em suas costas. A menina permitiu, disse "Eu" pra cada um deles. O último carregou o que restava de suas forças e Hermione perdeu a consciência. Um grito gutural e ensandecido de Severo Snape preencheu o cômodo. Ele pensou que Hermione estivesse morta.

O sorriso sádico ainda vivia no rosto do comensal da morte, quando ele falou:

- Parece que sua namorada não tem mais condições de protege-lo. – e depois disso, apontou sua varinha para Severo Snape. – Avada Kedavra.

Severo Snape viu a luz verde e sentiu que iria morrer. No entanto, uma luz rosada saiu do bolso da sua calça, preenchendo o cômodo. Ela foi de encontro ao feitiço que vinha da varinha de Lúcio Malfoy e bloqueou o feitiço que mataria Severo Snape. A luz fez com que o feitiço retornasse a quem o lançou e, inesperadamente, Lúcio Malfoy caiu morto no chão.

Severo Snape olhou incrédulo para o corpo de Malfoy enquanto a luz rosada que tomava todo o casebre o soltava das correntes que o prendiam ao teto. Ele levou a mão ao bolso e retirou de lá o pergaminho que Hermione havia mostrado a ele semanas antes. Lembrou-se imediatamente do que estava escrito no mesmo.

"Se você der seu coração e se colocar nas mãos deste comensal, para um verdadeiro amor que o tire dos caminhos das trevas, é só dar esse pergaminho a ele. Enquanto o portar, o homem será o mais forte do que antes"

Ela tinha colocado o pergaminho em seu bolso sem que ele percebesse. Ela o tinha protegido de todas as maneiras possíveis.

Severo Snape correu para Hermione, que estava desmaiada no chão do casebre. Um suspiro de alívio escapou de seus lábios quando concluiu que a moça ainda respirava. Ele a segurou nos braços. Uma das mãos apertava fortemente o pergaminho, cuja luz ainda brilhava. Ele implorou: "nos tire daqui". O Pergaminho brilhou uma última vez e eles apareceram as portas da enfermaria de Hogwarts.

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Hermione acordou e reconheceu que estava em Hogwarts, na ala hospitalar. Todo seu corpo doía, mas ela percebeu que tinha sido limpa e tratada. Os últimos raios de luz do dia deixavam o cômodo. Ela virou-se e viu Gina Weasley deitada na cama ao seu lado.

- Gina! – Hermione murmurou, sua voz estava rouca. – Você está bem?

- Hermione, você acordou. – A ruiva a olhava, com um sorriso de orelha a orelha. – Você me reconhece. Graças a Merlin.

- É claro que eu te reconheço. – Hermione achou estranho o comentário. – O que está acontecendo?

Madame Pomfrey e o Medibruxo correram na direção de Hermione, quando viram que a mesma havia acordado.

- Como se sente, srta. Granger? – a enfermeira questionou.

- Com um pouco de dor no corpo, principalmente nas região dos cortes.

- Você se lembra do que aconteceu? – perguntou o medibruxo.

- Sim. – Hermione disse, hesitante. – Mas prefiro não falar, não gostaria de reviver o que aconteceu.

- Não é preciso. – Madame Pomfrey assegurou. – O professor Snape já nos contou o que precisávamos saber. Estamos perguntando porque você foi submetida por muito tempo à maldição cruciatus e isso pode causar sérios danos cerebrais.

Hermione encarou a enfermeira, atônita. Ela pensou brevemente que era por isso que Gina tinha ficado tão feliz quando viu que tinha sido reconhecida, Pomfrey e o medibruxo tinham manifestado receio de que ela tivesse enlouquecido... como os pais de Neville. Hermione notou que se lembrava de tudo, até do que preferia não lembrar. Só o que ela não sabia era o que tinha acontecido depois que perdera a consciência. Afinal, como Severo a tirou do casebre?

- Onde está Severo? – ela perguntou, com certa urgência.

Nesse momento se dera conta que ela tinha desmaiado e tinha parado de responder "Eu" para Malfoy. Um medo horrível tomou conta dela, o que será que Severo tinha sofrido depois que ela perdeu a consciência?

- Snape está bem, não aconteceu nada a ele. – disse Gina, notando o desespero na voz da amiga. – Ele vai lhe contar tudo quando voltar.

- Onde ele foi? – Hermione questionou.

- Harry o convenceu a sair para comer alguma coisa, tomar um banho e colocar uma roupa limpa. Ele não deixava a enfermaria desde que chegou com você nos braços ontem à noite. – Gina disse, tranquilizando a moça. – Ele já deve estar voltando.

Gina mal terminou de completar a frase, Severo Snape adentrava a enfermaria, seguido de Harry Potter. Ao ver Hermione acordada, o homem correu na direção dela.

- Hermione. – ele disse.

- Eu estou bem. – ela falou.

Estendeu a mão para tocá-lo. Ele sentou na beirada da cama hospitalar e permitiu que a jovem afagasse seu rosto. Snape lançou um feitiço no quarto, para que ninguém mais pudesse ouvi-los. Aquele momento era deles.

- Eu ainda lembro de você. – ela disse, assegurando. – Nenhuma Cruciatus no mundo me faria esquece-lo.

Ele parecia não ter mais o que dizer. Não pode evitar puxá-la para seus braços e abraça-la. Ela o abraçou de volta com as forças que tinha. Ficaram um tempo assim, meio deitados meio sentados, encaixados nos braços um do outro, sentindo seus corações baterem.

- Me perdoe. – ele murmurou em seu ouvido. – Jamais deixarei que nada aconteça com você de novo.

- Severo. – disse Hermione, se afastando um pouco para olhar o homem nos olhos. – Ninguém tem que pedir desculpas. Se a situação fosse inversa, você não teria feito também todo o possível pra me proteger?

Severo sorriu pra moça, mas seus olhos estavam tristes.

- Teria. – ele confirmou. – Mas você precisa entender... nunca... durante toda a minha vida... eu nunca senti tanta dor... nada jamais foi pior do que ver você ser...

Seu rosto demonstrava o seu sofrimento. Hermione sentiu seu coração apertar, ela mesma não queria lembrar do que tinha acontecido. Fora horrível. Jamais a moça pensou que um ser humano fosse capaz de infligir tanta dor em outro ser humano.

- Eu sei. Foi horrível. – ela fez uma pausa, estremecendo de pavor com a lembrança. - Mas teria sido mil vezes pior ver você passar por tudo aquilo. E é só por isso que eu tive forças para murmurar "Eu" tantas vezes. Porque qualquer dor era melhor do que dizer "Ele" e assistir você sofrer daquele jeito.

- Quando você desmaiou. Achei que estivesse morta. – ele disse, e parecia completamente perdido e apavorado.

Ela o puxou pra si mais uma vez e o abraçou.

- Mas agora estou aqui. E nós dois vamos superar isso juntos. – ela disse, segurando-o como se a sua vida dependesse disso. – Eu prometo.

- Eu daria a minha vida para não ter deixado você ir comigo. – Severo afirmou, com sinceridade.

Hermione lembrou que ainda não tinha compreendido como eles saíram de lá.

- Como foi que nós fugimos? – ela perguntou.

- Quando você desmaiou, Malfoy se voltou pra mim e me lançou um feitiço de morte. – ele explicou. – Mas o pergaminho que você colocou no meu bolso fez com que o feitiço se voltasse contra ele. Malfoy está morto.

- Não achei que o pergaminho pudesse proteger contra imperdoáveis. – Hermione ponderou. – Eu te dei porque achei que pudesse te ajudar no duelo. É o que você planejava não é? Duelar com Malfoy enquanto resgatávamos Gina.

- Sim. – ele confirmou.

- O pergaminho nos trouxe de volta? – ela adivinhou.

- Trouxe, depois de me soltar das correntes. – Snape respondeu, e então tirou o pergaminho do bolso e entregou para ela. – Você me protegeu de todas as formas que pôde.

- Fique com ele. – ela disse, não aceitando o pergaminho de volta. – Ele pode te proteger para sempre.

- Enquanto você me amar... – ele apontou.

- Pra sempre. – Hermione esclareceu.