O Bardo e o Pardal
Capítulo 14
Três semanas depois…
- MALDIÇÃO! – gritou Muldovar, após Lasho fechar a porta de seu quarto. O conde caminhou rápido até sua mesa, cheia de livros abertos, e os jogou todos no chão, de uma única vez. Estava revoltado.
- Mestre, não consigo entender! – Lasho, que vinha logo atrás do conde, tentava acompanhar o que estava se passando – Não era isso que você queria? Não era para isso que vínhamos nos esforçando nos últimos tempos? Para que finalmente a rainha concordasse com o fato de que o senhor era o mais indicado para o cargo de vizir real?
Muldovar estava em pé, parado, as duas mãos apoiadas na mesa, a cabeça baixa. Para o jovem pajem, essa sempre fora a meta a ser alcançada. E agora, o rei Markash, junto à rainha Licahla, acabavam de anunciar que o conselheiro real assumiria o posto tão desejado. Portanto, Lasho não conseguia compreender a tamanha frustração que se via estampada no rosto de seu mestre. Não entendia por que ele parecia tão enfurecido.
O conde não havia ainda contado ao rapaz que, em verdade, seu plano ia além da simples nomeação de vizir real. Muldovar precisava assumir esse posto porque, em caso de falecimento do rei, e havendo o impedimento do jovem príncipe assumir o trono até que completasse dezoito anos, o poder passaria às mãos do vizir real. E, uma vez que estivesse nessa posição, Muldovar sabia que não encontraria tantas dificuldades em desaparecer com a rainha e seu filho de vez, permanecendo no poder, que seria seu por direito, de forma definitiva.
Entretanto, para que tudo desse certo, Ikki precisava cumprir sua parte da profecia. E Muldovar estava ficando impaciente. Quando é que o rapaz finalmente mataria o rei? Ele era um homem feito, já tinha vinte e um anos... E estava completamente capacitado para assassinar o rei, da forma que fosse. Para isso, o conde o havia treinado bem por toda sua vida.
A posse oficial do cargo de vizir real aconteceria no dia seguinte. Licahla havia retornado do vilarejo em que as crianças, tomadas por aquela moléstia, agora recuperavam-se. A rainha ficara por lá durante duas semanas, tendo partido para o local assim que soube da milagrosa cura. Na vila, porém, descobrira que a cura não fora milagrosa, mas fruto dos esforços de Muldovar. Surpresa e muito agradecida, a rainha decidira ali que, assim que retornasse ao castelo, diria ao seu marido que não havia melhor pessoa para o cargo de vizir que o conselheiro real. Antes, porém, ficaria para acompanhar de perto a recuperação das criancinhas da região.
Agora que ela retornava e dava as boas novas a Markash, o rei não hesitou em rapidamente chamar seu conselheiro para dizer a ele a novidade. Muldovar, ao saber da decisão dos soberanos de Onel, mostrou-se grato, mas não conseguiu parecer plenamente feliz. Licahla não estranhou, por acreditar que esse era o jeito do conde. Achava tê-lo finalmente entendido e pensava que por baixo daquela aparência fria, havia um bom homem.
Lasho, porém, achou esquisita a forma como seu mestre recebeu aquela notícia que, segundo pensava, era a coisa que ele mais desejava. Por isso, assim que ambos deixaram o salão real, o pajem acompanhou os passos largos e apressados de Muldovar até que chegassem ao quarto onde o conde guardava seus livros e poções. E, tão logo entraram, viu aquele homem explodir em raiva, deixando-o ainda mais confuso.
O conde, todavia, não parecia interessado em dar qualquer explicação ao jovem. Em sua cabeça, havia apenas a preocupação de encontrar, o quanto antes, um meio de Ikki cumprir seu destino de uma vez por todas.
No entanto, Ikki, mesmo sem saber, agia contrariamente a tudo que seu padrinho desejava que ele fizesse. Após aquela noite na taverna, em que Muldovar presenciara quão poderoso poderia ser aquele poder que o moreno guardava, Ikki nunca mais fez qualquer demonstração de energia como aquela.
Muldovar buscara incentivá-lo. Percebera, naquela noite, que quando ele cantava, era ainda mais poderoso. Incentivou o rapaz a cantar, a frequentar tavernas. Mas não era bem sucedido. Ikki não mostrava qualquer interesse. Mostrava-se cada vez mais desanimado com tudo. Durante o dia, ele ficava apático e era com grande esforço que conseguiam retirá-lo da cama. À noite, ele parecia ficar mais desperto, mas não menos deprimido. E mantinha sempre um olhar na direção da floresta que ficava próxima da cabana. Olhava como se esperasse por algo. E Muldovar sabia bem o que ele esperava. Ou, melhor dizendo... sabia bem por quem ele esperava.
Via-o ficar sentado no banco em frente à cabana, tocando o alaúde e com o olhar perdido naquela direção. Sempre tocava aquela mesma melodia. A melodia que ouvira também de Hyoga, no piano. Conseguia perceber algum poder naquela canção ainda, mas a cada dia que se passava, a energia emanada pelo rapaz era menor.
Isso estava errado. Quando os planos de Mudovar estavam tão próximos de se concretizar, Ikki parecia determinado a atrapalhá-lo. Não; não poderia deixar que isso acontecesse. Teria de pressionar o rapaz. Mas como?
Sentia-se tão tenso diante da possibilidade de ver tudo por que lutara escapar por seus dedos que, sem pensar muito, decidiu ir até a cabana visitar Ikki. Não se explicou ao pajem, mas Lasho, mesmo assim, seguiu seu mestre, sem nada perguntar.
Lá chegando, como já era de se esperar, encontraram Ikki tocando seu alaúde em frente à cabana. O moreno olhava, no instante em que se aproximavam, para o céu estrelado. Percebendo a aproximação dos dois, Ikki voltou seu olhar para eles. Como sempre, um olhar vazio.
- Olá, Ikki. Vim ver como você estava. – começou a dizer o conde, sem conseguir esconder perfeitamente sua ansiedade.
O rapaz não respondeu. Apenas continuava dedilhando aquela melodia, olhando para o nada.
- Está frio aqui fora, Ikki. Você não tem mais tanta resistência ao frio. Deveria entrar, senão vai acabar adoecendo.
O jovem continuava não ouvindo ao que lhe dizia aquele homem. Um pouco irritado, Muldovar olhou para Lasho, que acabava de descer de seu cavalo:
- Faça uma sopa quente para ele tomar. Não quero que ele fique doente justo agora.
O pajem fez uma expressão de quem não gostava da ordem recebida, mas não se viu em posição de dizer muita coisa. Entrou na pequena casa, deixando os dois a sós.
- Ikki, meu afilhado... fale comigo. O que você tem? – perguntou o conde, na forma mais afável que conseguiu.
- Você sabe o que eu tenho. – respondeu com o olhar perdido na direção da floresta, sem deixar de tocar seu alaúde.
- Na verdade, não sei ao certo. Queria que me dissesse exatamente qual o problema, para que eu pudesse ajudá-lo. – Muldovar falava algo apressado, muito nervoso. Definitivamente, não estava conseguindo ocultar sua ansiedade.
- Eu sinto saudades do Hyoga. Não é óbvio?
O conde bufou. Maldito forasteiro...
- Como pode sentir saudades dele, Ikki? Aquele rapaz traiu sua confiança.
- Eu não consigo esquecê-lo. E não quero. O que sinto por ele é forte. É até estranho, apesar de ele não estar aqui... sinto como se estivesse...
À medida que ele falava, o conde percebeu algo estranho. A fraca energia de Ikki começava a crescer. O moreno ia falando, parecia recordar alguns momentos junto ao loiro e isso fazia o poder dele aumentar de tamanho radicalmente.
Então Muldovar compreendeu que a energia emanada por Ikki estava, de alguma forma, relacionada ao sentimento que ele mantinha pelo viajante. Não era a simples paixão pela música que o movia, que o fazia tão incrivelmente poderoso. Era o maldito sentimento por aquele forasteiro... Súbito, o conde percebeu um caminho para alcançar seus objetivos:
- Ikki, eu entendo o que diz. O que teve com esse rapaz foi forte, intenso. Mesmo que ele não correspondesse devidamente aos seus sentimentos, o que vocês passaram juntos significou muito para você. – começou a falar, buscando alimentar aquele sentimento e, consequentemente, o poder que surgia a partir disso – Creio, até mesmo, que seja impossível você esquecer esse jovem completamente. E talvez não devesse. Ele foi importante para você. Por que ignorar as boas lembranças que lhe ficaram?
Ikki ouvia atentamente agora. Não podia negar... o que escutava do conde confortava seu coração. E ele estava precisando ouvir palavras como aquelas. Precisava ouvir que não tinha de esquecer Hyoga. Aquilo realmente era reconfortante.
Muldovar percebeu seu intento funcionar. E sorriu largamente.
- Não se contenha, meu rapaz. Ame, se assim desejar. Esse sentimento é belo e não deve ser oprimido. Faz-lhe bem. – deu alguns tapinhas nas costas do moreno, tentando ser solidário. Era péssimo nisso, mas, ainda assim, suas atitudes pareciam surtir o efeito desejado.
Lasho então apareceu à porta, chamando o conde. Muldovar olhou com uma cara interrogativa, como quem diz que a sopa não podia estar pronta ainda. Mas o pajem insistiu, olhando para ele como quem diz que havia encontrado algo de relativa importância dentro da cabana. O conde levantou-se e foi até ele, deixando Ikki sozinho com seus pensamentos.
O moreno voltou a sentir a centelha daquele amor começando a queimar dentro de si. E uma sensação estranha começou a apoderar-se de seu corpo. Desde a noite da taverna, em que reencontrara Esmeralda e tocara naquele lugar, sentira-se diferente. Não era estúpido, havia percebido uma força muito mais forte que o normal queimando em si. De certa forma, sabia que estava mais poderoso. Porém, não fazia muita questão de alardear isso ao conde. Até porque, não tinha mais interesse na prática de magia e equivalentes.
Entretanto, esse poder a mais deu a ele uma estranha impressão. À noite, parecia ser capaz de sentir Hyoga. Parecia conseguir alcançá-lo, de tão forte que era essa sensação. Era como se, graças a esse novo poder que sentia crescer dentro de si, distâncias pudessem ser atravessadas em questão de segundos e Ikki fosse capaz de sentir Hyoga ali, consigo, ao seu lado, talvez em seus braços... a presença do loiro se fazia tão forte que o moreno era quase capaz de acreditar que o alcançava devido à essa nova força, que parecia capaz de romper quaisquer limites. Inicialmente, tinha achado que fosse apenas isso: impressão. Mas quando tomava seu alaúde e tocava aquela melodia, sentia-o ainda mais forte. Sim; era como uma energia mais forte, vinda de dentro de si, crescendo e alcançando o loiro.
Aquilo podia ser loucura, mas começava a não mais se importar. Era uma sensação agradável. Era a sensação de ter um pouco de Hyoga junto de si. Ilusão ou não, era o que o ajudava a continuar seguindo, dia após dia.
Contudo, não atingia esse resultado quando tentava fazer o mesmo durante o dia. Concluiu que isso só seria possível quando Hyoga estivesse em sua forma humana, ou seja, à noite.
Porém, nessa noite, algo estranho acontecia. A conversa com Muldovar parecera alimentar seu sentimento, que estava talvez um pouco enfraquecido, cansado de se auto-alimentar. As palavras do conde deram-lhe apoio e suporte, incentivaram aquele sentimento.
E isso fez com que a familiar e agradável sensação, que já o acompanhava todas as noites, crescesse muito mais do que estava acostumado. Tão forte ela se fez que, em dado momento, Ikki sentiu algo que o fez levantar daquele banco no mesmo instante.
Hyoga parecia ter enviado uma resposta. Era a primeira vez que sentia não só a presença do loiro, mas parecia conseguir dialogar com ele. Como se o viajante pudesse senti-lo também e estivesse enviando, em forma de uma energia também bastante poderosa, uma resposta.
Tentando senti-lo mais forte, Ikki abandonou o local em que estava e começou a andar na direção da energia do loiro. Acabou embrenhando-se na mata, tomada pela escuridão da noite.
Caminhou assim durante um tempo, até que chegou ao campo que tantas boas recordações lhe traziam. Lá, essa sensação se fez tão forte, tão intensa, que Ikki parecia poder tocar em Hyoga. Era quase como se... pudesse enxergá-lo. E então, Ikki estancou o passo. Precisou parar, respirar fundo, piscar os olhos inúmeras vezes. Não era possível. Era Hyoga, ali? Estava vendo o loiro ou seus olhos o enganavam?
Aproximou-se um pouco, temeroso. O russo estava sentado em um tronco, olhando para o céu, parecendo distraído. Sentiu medo. E se o loiro lhe fugisse ao percebê-lo ali? E se... desaparecesse, simplesmente? Afinal, agora conseguia ver melhor que antes, por estar mais perto do viajante. Via a imagem de Hyoga, mas ela não era nítida. Era apenas isso. Uma imagem. Fraca, inclusive. Seria uma projeção de seus desejos? Estaria agora tão poderoso a ponto de criar projeções? Tinha lido, em alguns livros, que era possível fazer isso. Mas o feiticeiro que desejasse executar tal magia teria de ser muito poderoso e não acreditava ter alcançado ainda esse nível de poder.
Continuava se aproximando, devagar. Não conseguia evitar; mesmo que fosse apenas uma imagem, estava vendo Hyoga novamente! Como desejara isso... e agora, lá estava o rapaz. Sentado naquele tronco, os cabelos loiros balançando ao sabor daquela brisa noturna... os olhos claros voltados para o céu, para as estrelas... Estava tão belo...
- Ikki! O que pensa que está fazendo?
A voz de Muldovar chamou a atenção do moreno, que, no mesmo instante, voltou-se para trás. Viu o conde olhando para si, parecendo zangado por ele estar ali. Em seguida, olhou novamente para frente e a imagem de Hyoga havia desaparecido. Suspirou. Tinha perdido Hyoga mais uma vez.
- Está frio. Vamos voltar para a cabana. Lasho está terminando sua sopa. – a voz de Muldovar era áspera.
Ikki suspirou, resignado. E começou a caminhar logo atrás de seu padrinho, seguindo seus passos. Mas algo dentro de si havia despertado. Ikki se via confuso... Teria sido tudo uma ilusão? Mas parecera tão real...
Sentia-se estranho. Não era mais o mesmo. Estava muito forte, sentia uma força grandiosa despontar dentro de si, mas conseguia controlá-la. Tanto que Muldovar não era capaz de perceber qualquer mudança nele. Sim, estava bem mais forte e, agora, conseguia manipular o grau de sua força, e ocultá-la quando assim desejasse. Não sabia ao certo o que tinha acontecido... Mas sabia que o prazer que sentira ao liberar esse poder junto a esse encontro com Hyoga causaram-lhe um delírio o qual ansiava poder sentir novamente...
5 anos depois...
- Conde Muldovar! Conde Muldovar! – gritou o rapaz, entrando abruptamente no aposento de estudos de seu mestre.
- O que é, Lasho? – perguntou o homem, debruçado sobre seus livros, parecendo muito concentrado em sua leitura.
- Parecem ter encontrado outra pista! O general Racom está reunindo seus homens para irem atrás dele!
O conde retirou seus óculos para leitura e levantou os olhos para o aprendiz de feitiçaria:
- Shun está partindo com eles? – perguntou com aspecto sério.
- Sim, meu senhor.
- Ótimo. Quem sabe, dessa vez... eu possa obter sucesso. – falou, com a voz amarga.
- Eu estou otimista quanto a isso, meu senhor. - disse o rapaz, verdadeiramente empolgado, enquanto começava a reunir em uma sacola parda alguns objetos, parecendo preparar-se para uma pequena viagem - O general Racom é muito mais decidido e, desde que assumiu esse posto, tem conseguido chegar muito mais próximo de Ikki que todos os outros. Acredito que Racom conseguirá alcançar êxito onde todos os outros generais falharam, especialmente porque, para ele, é uma questão pessoal... - sorriu com alguma maldade - Racom sempre diz que Ikki e ele têm assuntos pendentes desde muitos anos atrás...
- Isso é bom. Mas o que me faz ter mais esperanças nesse rapaz é o fato de ele me ter cega obediência, Lasho. – falou o homem, com calma, enquanto se levantava de sua mesa e começava a caminhar na direção da janela.
- Nada mais natural. Como ele mesmo gosta de lembrar, não fossem por aquelas moedas de ouro que você lhe deu quando ele era apenas uma criança... a família dele nunca teria tido condições de encaminhá-lo à vida militar, na qual ele tanto se destacou. - o rapaz ia agora até uma estante, para pegar um grande Livro Vermelho e juntá-lo às coisas que já vinha separando para levar consigo.
- De fato. E, agora, minhas esperanças residem nele. Racom é o único general que quase conseguiu capturar Ikki. – sorriu um pouco – Somente a destreza militar dele, combinada à minha feitiçaria, podem ser capazes de neutralizar Ikki.
- Eu sempre soube que o senhor não deveria ter se esforçado tanto para ensinar seus conhecimentos sobre feitiçaria a ele, meu senhor. Eu sempre soube que não era boa ideia... – alfinetou Lasho.
- Como eu poderia saber, Lasho? Como eu poderia imaginar que Ikki ficaria tão forte... mais forte até que eu mesmo...? – Muldovar olhava pela janela e via Racom preparando seus homens para partirem.
- O feitiço virou-se contra o feiticeiro. – sentenciou o rapaz – Precisamos ir, meu senhor. Racom pediu que nos preparássemos rápido, porque ele não deseja se demorar. Se realmente queremos surpreender Ikki, temos de partir o quanto antes.
- Certo. Deixe-me apenas levar os remédios para Markash, porque imagino que vamos ficar fora pelo menos um par de dias.
- Como está o rei? – indagou o jovem, encaminhando-se já para a porta, enquanto Muldovar separava pequenos frascos cheios de líquidos de colorações diversas.
- Cada dia pior. – sorriu o conde, amplamente – E, se tudo der certo, em breve ele deverá falecer.
- Pobre rainha. – riu Lasho, com a mão sobre a maçaneta, esperando pelo conde – Ela ainda crê que você os está ajudando?
- Sim. Licahla nunca mais teve qualquer dúvida sobre meu caráter depois de tudo o que fizemos. Hyoga foi realmente útil naquele período, pois tudo o que alcançamos naquela época não só me valeu o cargo de vizir real, como também a plena confiança da rainha em mim. – respondeu o homem, que colocava os frascos em um bolsa de veludo negra.
- Teve notícias do forasteiro, conde Muldovar? - perguntou de repente.
- Não. Continuamos sem qualquer informação do paradeiro dele.
- Exato, meu senhor. - bufou Lasho - Por isso, não compreendo. Por que insiste em manter a mãe dele aqui? Por que não acaba logo com a vida de Natássia? Até quando o senhor pretende preservar a vida dela? Hyoga deve estar morto a essa altura. Ele não mais representa uma ameaça a você.
- Você é muito apavorado, meu jovem aprendiz. - o homem balançou a cabeça com calma, negativamente, em ato de reprovação - Compreenda... a vida de Natássia é meu trunfo. Enquanto ela estiver viva, tenho a garantia de que o forasteiro não retornará para complicar meus planos. Além disso, não me custa muito manter Natássia viva. E, estando desacordada, ela não me é um problema.
Lasho ia dizer algo, mas, nesse momento, bateram à porta de madeira. O aprendiz de feitiçaria abriu-a um pouco para ver quem era.
- Lasho, o general Racom pediu que viessem logo. O príncipe Shun já se juntou aos homens e estão todos ansiosos para partirem logo. – disse um dos guardas do castelo.
- Já estamos descendo. – respondeu o aprendiz, fechando a porta em seguida – Tudo pronto, meu senhor?
- Sim. – respondeu o conde, olhando para a bolsa de veludo repleta de frascos – Minha vitória está próxima, Lasho. Eu posso sentir. Markash não deve aguentar muito tempo; a doença que o acomete, junto às minha poções, em breve terminarão de corroer os últimos fiapos de sua vida.
- O senhor não se preocupa? – inquiriu Lasho, subitamente – Porque não foi assim que o oráculo previu que o rei morreria...
- Ah, o oráculo... já não confio mais nele. Segundo a maldita profecia desse oráculo, Ikki deveria ter matado Markash. Em vez disso, no entanto, ele resolveu se rebelar contra mim, tornando-se muito mais poderoso que eu. – bufou – Se, ainda assim, ele, ao menos, estivesse no caminho certo e demonstrasse algum desejo de assassinar Markash... eu estaria até satisfeito... contudo, pelo que entendemos, todo o poder dele é usado tão somente para tentar descobrir o paradeiro de Hyoga. – balançou a cabeça negativamente – Quanto tempo e energia que eu desperdicei com Ikki...
- Ao menos, o senhor está recuperando o tempo perdido investindo em mim. E sabe que não o decepcionarei. Posso não ser mais forte que Ikki, mas estou aprendendo rápido. – sorriu Lasho – E espero que o senhor, quando ocupar o lugar do rei, não se esqueça de quem esteve ao seu lado todo esse tempo.
- Não me esquecerei. Mas, para que eu possa me tornar rei, não se esqueça de que temos ainda uma última pedra em nosso caminho. Por isso, é bom que esteja realmente pronto, como vem me afirmando. – direcionou um olhar cheio de cobranças para o aprendiz de feitiçaria.
- É o feitiço que mais venho treinando, meu senhor. Ouso dizer que estou próximo de alcançar a perfeição. Quando estivermos próximos de capturar Ikki, lançarei o feitiço contra o príncipe. Ele morrerá e todos terão certeza de que o feitiço que lhe roubará a vida veio de Ikki.
Muldovar abriu um sorriso mínimo, que esboçava sua satisfação. O príncipe Shun já estava muito perto de completar seus dezoito anos. Precisavam finalizar tudo aquilo o quanto antes. Entretanto, as coisas já não eram mais tão simples. Com uma série de reviravoltas que se deram nessa história, as coisas saíram do planejado. Mas Muldovar já havia conseguido encontrar um outro meio de conseguir o que queria. Markash estava doente e, graças às poções que o conde alegava serem um bom remédio para ele, sua vida ia se esvaindo mais rápido.
O príncipe Shun, que possuía agora dezessete anos, tentava já agir de acordo com o que, muito em breve, seria pedido a ele. Perto da idade que lhe permitiria ser coroado, ele buscava mostrar ao pai que poderia confiar seu reino a ele. Não que o rapaz desejasse que o pai falecesse, longe disso. Todavia, aprendera que era importante estar preparado para lidar com as piores situações possíveis. Por esse motivo, ele acompanhava seu general nas buscas que Racom comandava contra a maior ameaça ao reino de Onel: Ikki, um poderoso feiticeiro, conhecido pela famigerada alcunha de "o bardo mágico". Isso se dava por todos saberem que seu poder advinha da música. E, exatamente por isso, a música havia sido banida do reino de Onel nos últimos anos. Isso fez com que o reino ficasse mais triste e, também devido aos males que o poderoso feiticeiro vinha causando a todos naquele lugar, era primordial que aquele homem fosse logo capturado e levado à justiça. Entretanto, até então, todos os homens que haviam se lançado nessa empreitada, haviam falhado...
Muldovar, que permanecera calado sobre suas habilidades com a magia por todo esse tempo, apenas acompanhava esses acontecimentos, tentando encontrar a melhor forma de se aproveitar da situação. Entendera que Ikki estava fora de controle, inclusive do seu controle, mas que ele ainda poderia ser-lhe útil. A saúde de Markash, devido ao terrível período por que vinha passando o reino, ia piorando, até que o pobre rei caiu de cama e não mais conseguiu sair de lá. Era imperativo acabar logo com aquele feiticeiro, que havia trazido um período de trevas para Onel.
Por algum motivo, desconhecido de todos, esse feiticeiro parecia ter como objetivo, acabar com a luz do dia. E seu poder, tão imenso quanto assustador, fazia com que estivesse próximo de atingir seu intento. Ikki vinha, nos últimos cinco anos, diminuindo o dia gradativamente. Tinham chegado ao ponto de a luz do dia brilhar por apenas seis horas. O resto do período era tomado por trevas. Isso vinha causando muitos estragos à vida, de forma geral. Plantações morriam, animais viam-se confusos, as pessoas não conseguiam trabalhar ordinariamente. E o bardo mágico parecia não se interessar por isso. Seu único objetivo parecia ser encontrar algo... ou alguém. Mas ninguém sabia, ao certo, o que ele queria.
A Muldovar, isso não interessava. Tudo o que queria era fazer com que seus planos, enfim, triunfassem. Para tanto, contava com o jovem general. Tinha visto, em Racom, a força que faltara a outros homens, que sequer foram capazes de se aproximar do bardo mágico. Possuía fortes esperanças de que esse rapaz conseguiria capturar Ikki. Obviamente, ele não poderia fazer isso sozinho e, por esse motivo, Muldovar e Lasho sempre iam juntos quando o general partia em mais uma tentativa de emboscada, atrás de Ikki. O conde conseguira que o general aceitasse que ele fosse junto em todas as suas missões de busca graças à lealdade que o rapaz lhe jurara, não só por ele ser o vizir real, mas por ele também ser o homem que possibilitou uma grande mudança na vida de Racom. Assim, o conde sempre se juntava aos homens de Racom nessas buscas, das quais Lasho acabava também tomando parte, devido a um único objetivo: sendo ele capaz de dominar certos feitiços, ele poderia dar um fim à vida do príncipe Shun. Muldovar tinha tudo planejado: quando estivessem perto de capturar Ikki, coisa que Racom apenas conseguiria graças à discreta ajuda mágica que Muldovar intencionava oferecer, estando, de preferência, em uma posição estratégica, a qual lhe possibilitaria auxiliar sem que o general se desse conta disso, Lasho iria se aproveitar do tumulto da batalha para poder lançar o feitiço e assassinar o príncipe. Considerando que ninguém sabia que o conde e Lasho dominavam a arte da feitiçaria, a culpa recairia sobre Ikki. E, assim, morrendo o rei e o príncipe, o poder ficaria nas mãos de Muldovar.
- Então estamos prontos. – finalizou o conde, fazendo um gesto para que Lasho lhe abrisse a porta. Passaram brevemente pelos aposentos reais, deixando os remédios com a rainha e logo já se juntavam a Racom e ao príncipe, prontos para partir.
- Mas que droga. Já está escurecendo. – bufou o general.
- Tem certeza de que é por aqui, Racom? – indagou o príncipe Shun, que montava um garboso cavalo branco.
- Sim. Disseram ter sido aqui que as jovens donzelas ouviram a voz do bardo. Algumas se deixaram atrair, mas outras conseguiram fugir e avisaram aos homens da vila.
- Alguém se feriu? – perguntou Shun, cavalgando devagar, ao lado de Racom.
- Não. Os homens dessa vila não tentaram nada. Já ouviram histórias terríveis sobre o que o feiticeiro é capaz de fazer com quem se coloca em seu caminho. Em vez disso, mandaram me avisar do ocorrido.
- Quando foi que ouviram o bardo cantar? – perguntou Muldovar, que vinha um pouco atrás.
- Antes que clareasse. E agora, já escurece novamente. – falou demonstrando algum nervosismo.
- Acredita mesmo que ele seja mais poderoso quanto anoitece? – quis saber Shun.
- Sim, meu príncipe. Esse é o único motivo que explica por que esse feiticeiro deseja acabar com a luz do dia, fazendo com que vivamos em uma eterna escuridão...
O sol começava a se pôr. A luz do dia findava enquanto os homens de Lasho caminhavam pelo local, cautelosamente. Esperavam surpreender o bardo mágico, mas sentiam que era ele quem os espreitava.
Súbito, uma canção se fez ouvir:
- Vocês... estão ouvindo? – Shun olhava para os lados, assustado.
- Sim. – Racom sentia a respiração acelerar – Céus, estamos muito perto! É a primeira vez que ouvimos a canção...
Muldovar olhou para Lasho, sério. Estavam realmente perto. Era a primeira vez que um grupo que desejava capturar Ikki podia ouvir a canção que, diziam os aldeões, o bardo entoava todas as noites.
Já estava escuro. Escurecia muito rápido e logo os homens de Lasho sentiam-se mais amedrontados. Mas a forma como seu líder agia, parecendo não temer aquele feiticeiro, dava-lhes alguma coragem. Assim, foram seguindo na direção em que ouviam aquela canção:
Little sparrow, little sparrow,
Precious fragile little thing
Little sparrow, little sparrow,
Flies so high and feels no pain.
Pequeno pardal, pequeno pardal,
Coisinha frágil e preciosa
Pequeno pardal, pequeno pardal,
Voa tão alto e não sente dor alguma
All ye maidens heed my warning
Never trust the hearts of men
They will crush you like a sparrow
Leaving you to never mend.
Todas as donzelas, escutem meu aviso
Nunca confiem nos corações dos homens
Eles irão esmagá-las como a um pardal
Deixando-as sem reparo
They will vow to always love you
Swear no love but yours will do
Then they'll leave you for another
Break your little heart in two
Eles prometerão sempre amar vocês
Jurarão que seu amor é suficiente
Então eles irão abandoná-las por outra
Quebrando seu pequeno coração em dois
Little sparrow, little sparrow,
Precious fragile little thing
Little sparrow, little sparrow
Flies so high and feels no pain.
Pequeno pardal, pequeno pardal,
Coisinha frágil e preciosa
Pequeno pardal, pequeno pardal,
Voa tão alto e não sente dor alguma
If I were a little sparrow, over these mountains I would fly
I would find you, I would find you, look into your lying eyes
I would flutter all around you, on my little sparrow wings
I would ask you, I would ask you, why you let me love in vain
Se eu fosse um pequeno pardal, por sobre essas montanhas eu voaria
Eu encontraria você, eu encontraria você, olharia dentro de seus olhos mentirosos
Eu planaria ao seu redor, com minhas pequenas asas de pardal
Eu perguntaria a você, eu perguntaria a você, por que me deixou amar em vão
I am not a little sparrow, I am just the broken dream
Of a cold false-hearted lover and your evil cunning scheme
Eu não sou um pequeno pardal, eu sou apenas o sonho despedaçado
Por um amante de coração falso e frio e por seu maléfico e astuto plano
Little sparrow, little sparrow,
Precious fragile little thing
Little sparrow, little sparrow
Flies so high and feels no pain.
Pequeno pardal, pequeno pardal,
Coisinha frágil e preciosa
Pequeno pardal, pequeno pardal,
Voa tão alto e não sente dor alguma
All ye maidens fair and tender
Never trust the hearts of men
They will crush you, like a sparrow
Leaving you to never mend.
Todas as donzelas, caridosas e ternas
Nunca confiem nos corações dos homens
Eles irão esmagá-las como a um pardal
Deixando-as sem reparo
Little sparrow, little sparrow,
Oh my sorrow never ends.
Pequeno pardal, pequeno pardal,
Oh, minha tristeza nunca tem fim
A voz do bardo ia se tornando mais e mais alta para Racom e seus homens, indicando que estavam cada vez mais perto dele. E, de fato, para imensa surpresa de todos, quando a canção chegava a seu fim, viram, no alto de uma frondosa árvore, a figura de um homem parcialmente deitado sobre um galho, tocando seu alaúde. Racom estreitou os olhos na direção do homem e, graças a luz do luar que iluminava o local, rapidamente o reconheceu. Era Ikki.
- Feiticeiro! – bradou Racom – Desça daí! Está cercado! – falava corajoso.
Ikki, que agora não cantava mais, incorporou-se, mudando a posição em que sentava sobre o galho. Olhou para baixo, com um sorriso de canto:
- Acha mesmo que seus homens são páreo para mim, Racom? – falou com certo deboche.
- Tenho certeza de que são! – gritava o general, lá de baixo – Eu não tenho medo de você! Sei muito bem que, por trás desse feiticeiro que você é, existe um homem fraco...
Ikki olhou de forma ferina para o general, demonstrando não ter gostado daquele comentário.
- ... E eu sei disso porque eu conheci esse homem! E, desde aquela época, eu já sabia que não teria de temer você!
Ikki ficou calado por um tempo. Esse silêncio era fúnebre e os homens de Lasho iam ficando mais e mais apavorados. Porém, o silêncio que os mortificava foi abruptamente cortado por uma risada do moreno:
- Racom, você me surpreende... – começou a falar – É mais esperto do que eu pensava. Então, você conseguiu perceber que, quando fico nervoso, perco um pouco do controle sobre meus poderes? Está de parabéns... deve ter percebido isso no nosso último encontro. – sorria friamente – Contudo, eu também me dei conta disso. E não sou do tipo que erra pela segunda vez. De todo modo, apreciei seus esforços... por isso, permiti que viesse ao meu encontro. Para que eu pudesse dar o recado pessoalmente. – os olhos escuros eram extremamente frios – Pare de me perseguir. Desista de me capturar. Você jamais conseguirá e isso só fará com que perca mais homens.
- Já disse que não tenho medo de você! – Racom encarava Ikki da mesma forma ousada que fizera quando criança – E você não permitiu que eu o encontrasse; eu o encontrei por mérito meu!
- Ah, Racom. Agora você me decepciona. Acha mesmo que seria tão fácil me localizar se eu assim não o quisesse? – riu mais um pouco – Eu o chamei aqui. Não saí daqui, e permaneci cantando por tempo o bastante, até que você fosse avisado sobre onde e como me encontrar...
- Racom! Pare de conversar! Ataque-o! – Muldovar pediu, porque para lançar algum feitiço que pudesse neutralizar Ikki, possibilitando a Racom capturá-lo, precisava que houvesse a distração de uma batalha. Não podia permitir que desconfiassem que ele também dominava a arte da feitiçaria...
- Muldovar... – Ikki agora dirigia seu olhar para o conde – Há quanto tempo. Saudades de mim? – perguntou sarcástico.
- Racom, ataque-o! – enervava-se Muldovar, ignorando o que Ikki lhe dizia.
- Não posso atacá-lo ainda. Devo dar a ele, como a qualquer homem, a chance de se entregar. Somente se ele se recusar, devo proceder assim, senhor conde. – replicou o general, muito conhecido pelo seu senso de justiça.
- Mas... – Muldovar estava quase perdendo o controle – Ele é o inimigo! Precisamos destruí-lo!
Ikki gargalhou mais alto:
- E esse, meus senhores... é o homem que dizia se preocupar comigo acima de tudo. – o rosto ficou sério – Ainda bem que a verdade sempre surge a tempo. Não é mesmo... padrinho?
Racom olhou confuso para Muldovar. Ikki tinha chamado o conde, o vizir real de... padrinho?
- Bem, não vou mais me alongar. Queria dar meu recado e foi o que fiz. Agora, preciso partir. – sorriu para Racom – E antes que me pergunte para onde vou, eu lhe adianto. Vou para bem longe daqui. Não sou estúpido, meu caro. Hoje é uma noite importante para mim; creio que vou finalmente alcançar meus propósitos... e precisava que você, que vem me perseguindo com quase obsessão, ficasse longe o bastante. E consegui. – sorriu vitorioso. E, em um estalo de dedos, uma névoa o rodeou de forma que desaparecesse diante de seus olhos.
- Não o deixem escapar! - gritou Racom, ordenando aos homens que o procurassem pela redondeza, achando que ele não poderia estar longe.
- Mestre... – Lasho aproximou-se do conde, falando em voz baixa, para que apenas ele o escutasse – Ikki realmente...?
- Sim. – o conde tinha os olhos arregalados, ainda na direção em que vira seu afilhado desaparecer – Parece que ele atingiu o último nível como feiticeiro... algo que nem eu fui capaz de fazer... – engoliu em seco – Ele consegue ir para qualquer lugar, usando apenas a força do pensamento... – Muldovar suava frio diante dessa descoberta. Tinha muito medo agora. Ikki estava, pelo que havia entendido, mais poderoso que nunca.
Shun, que permanecia parado onde estivera, continuava sem esboçar reação. Em seus olhos verde-esmeralda, percebia-se grande confusão. Então, aquele era o tal feiticeiro? O bardo mágico? Por que não o sentira tão ameaçador como o devido? Se ele era a grande ameaça, porque sentira algo próximo de... compaixão, ao olhar dentro daqueles olhos azuis, que lhe pareceram tão sofridos...?
Em um lugar muito distante de onde havia deixado Racom e seus homens, Ikki adentrou a gruta que lhe servia de morada há já quase cinco anos. Não era uma caverna muito pequena, mas ninguém era capaz de localizá-la porque, usando de seus poderes, fizera com que ficasse invisível aos olhos de invasores. Mas era apenas uma ilusão, e se alguém se aproximasse o bastante, perceberia isso.
Entrou na caverna e respirou fundo. Era noite e, dessa vez, teria tempo suficiente de concretizar seus planos. Teria, pelo menos, dezoito horas para alcançar seu objetivo. Pelos seus cálculos, seria tempo suficiente.
Concentrou-se. Fechou os olhos, respirou fundo. Procedimento padrão. E então... permitiu que sua energia crescesse, expandisse. Mas esse poder não poderia ser percebido fora da gruta. Tomava esse cuidado. Já que era capaz de controlar sua força, fazia com que ela não fosse notada fora de sua simplória habitação, porque assim o conde Muldovar não poderia rastreá-lo. Dessa maneira, toda aquela poderosa energia concentrava-se ali dentro.
Ficou assim por algumas horas, em estado meditativo. Se quisesse, poderia fazer com que ele aparecesse agora. Mas, se o fizesse com pouca energia concentrada, a imagem seria fraca. E não era isso que queria. Dessa vez, iria trazê-lo por inteiro. Por isso, precisava concentrar o máximo de poder que conseguisse. Quando atingiu seu limite, decidiu que era chegado o momento.
Conseguiu fazer surgir, diante de si, a imagem dele. Abriu os olhos escuros e sorriu, satisfeito:
- Hyoga...
O loiro estava adormecido. A imagem do loiro era nítida. Concreta. Era como se o loiro estivesse lá, e aquilo não era apenas uma ilusão. Já havia conseguido se aprimorar. Tivera de estudar todo o Livro Negro para isso. O Livro Negro era o último estágio e Muldovar sequer pensava em iniciar Ikki nesse nível. O conde desejava apenas que o afilhado estudasse o Livro Azul e o Vermelho. O Livro Negro era perigoso demais...
Entretanto, Ikki conseguira se apoderar desse livro e agora o dominava por inteiro, conseguindo, enfim, ser capaz de realizar uma magia extremamente poderosa. Ele já era capaz de se transportar para qualquer lugar, usando a força de seu pensamento. Isso significava que poderia encontrar, enfim, Hyoga. Todavia, ele tinha de saber para onde ir. E, como não sabia onde encontrar o loiro, não podia fazer muito com esse poder recém-adquirido.
Porém, havia algo que podia fazer. Se não podia ir até Hyoga... podia trazê-lo até si. Mesmo desconhecendo o local em que o viajante se encontrava, poderia trazê-lo para onde estava. Para executar um feitiço desse porte, teria de primeiro dominar a magia de se transportar para onde quisesse... e agora, com um pouco mais de energia, poderia trazer quem desejasse para perto de si. Bastava concentrar-se e usar todo seu poder para materializar o objeto de desejo à sua frente.
Contudo, conseguiria que ele permanecesse consigo por um curto período. Para que ele fosse trazido em definitivo para lá, outro feitiço, de grandes proporções, tinha de ser feito.
Havia uma série de variáveis, mas Ikki acreditava finalmente ter encontrado a solução ideal. Esse era o momento, essa era oportunidade perfeita. Tinha tudo planejado. Nada poderia dar errado.
A primeira parte do plano fora executada à perfeição. E agora, lá estava Hyoga. Adormecido sobre uma cama rústica, que ficava naquela gruta.
Ikki aproximou-se. Sentou-se ao lado do rapaz e fez-lhe uma carícia no rosto níveo, suficiente para despertá-lo. Hyoga abriu os olhos claros, vagarosamente. E nada disse, até porque, o jovem loiro sentia que sonhava. Enquanto o feitiço não se concretizasse por inteiro, Hyoga teria apenas essa impressão... a de que aquilo era um sonho. E, portanto, ele não falava. Como em um sonho, ele não tinha voz.
Ikki tomou a face dele entre suas mãos e sorriu. Seu rosto moreno era um misto de amor e ódio. Amava o loiro, inevitavelmente. Mas o odiava por ele tê-lo abandonado... odiava-o por aquela noite... a noite em que se transformara. Em que explodira, em que mudara seus conceitos sobre o mundo. Estava cansado de perder, de ser abandonado, de ser enganado, de ser traído, de ser deixado para trás. Se o mundo parecia determinado a fazer com que sofresse, então ele responderia à altura. Naquela noite, deixara para trás o homem que era e transformou-se no feiticeiro que estava destinado a ser. Até mesmo porque, tomado pelo ciúme, havia prometido a si mesmo que arrancaria Hyoga do homem com quem ele estava. Já não se importava se Hyoga poderia estar sendo feliz na nova vida que levava... queria o viajante para si e o teria. Tinha sido tomado por uma mágoa profunda demais, e nada mais importava. Um lado incrivelmente egoísta despontava em si... e não desejava controlá-lo.
Sentiu sua cicatriz na testa doer. Mais uma recordação daquele terrível noite. Muito de vez em quando, se questionava se Esmeralda havia sobrevivido. Porém, logo esquecia-se disso e se concentrava em seu único desejo: ter Hyoga somente para si.
Sem pensar demais, o moreno acabou com o espaço que restava entre eles. A razão, cada vez mais, distanciava-se dele... Logo, todo ele era tomado pela emoção e isso fez com que sentisse seus sentidos ainda mais aguçados. A escuridão da noite impedia que visse com clareza e, dessa forma, parecia que todos seus outros sentidos se intensificavam e todas as sensações se tornavam mais fortes. E era exatamente isso que desejava. Hyoga, desperto, olhava para Ikki como quem acreditava estar sonhando. Era um olhar que parecia perdido no passado. O moreno, então, decidiu que era hora de dar início à segunda parte de seu plano, para que Hyoga se materializasse em definitivo ali. Estava ansioso por isso, porque assim que Hyoga fosse trazido de vez para junto de si, ele e o loiro poderiam enfim ter seu momento de acerto de contas. O loiro, enfim, iria se explicar. Mas o loiro ganharia voz apenas quando a última etapa dessa transição fosse completada. Somente quando o feitiço estivesse completo é que o viajante seria capaz de falar e somente assim ele poderia se explicar. Por isso, tinha de começar logo a executar a segunda parte desse poderoso feitiço.
Ikki estava já próximo o bastante do loiro e via, naqueles olhos que tanto amava, algum receio. O viajante estava tenso e confuso. O moreno sorriu de canto; isso era esperado. Hyoga não compreendia o que estava se passando. E essa confusão era advinda do fato de o loiro estar, ao mesmo tempo, em dois lugares. Mas não por muito tempo. Ikki logo conseguiria finalizar esse feitiço, fazendo com que todo o loiro fosse trazido para aquela gruta, escondida em meio à floresta. A primeira parte, trazê-lo fisicamente, estava completada. A segunda, que iniciaria agora, era trazer a consciência de Hyoga para esse lugar. Fazer com que o rapaz, conscientemente, soubesse que estava lá, e não mais no lugar em que estava quando adormecera e que Ikki ainda não sabia onde era.
Para essa segunda etapa do feitiço se completar, Ikki precisava fazer com que o loiro, conscientemente, desejasse estar ali. E usaria um encantamento que vinha treinando com os aldeões. Usaria o poder da música para atrair a consciência de Hyoga para lá. Faria com que o jovem desejasse estar ali. Tinha sido muito bem sucedido em todas as vezes que praticara esse encantamento e agora era a prova final. Precisava seduzir o loiro com sua música, fazer com que o loiro despertasse sua consciência para estar, inteiramente, ali com Ikki. O moreno estava confiante. À noite, devido à escuridão, a visão era nebulosa, o que aguçava os outros sentidos. Dessa maneira, Hyoga ficaria mais vulnerável e sentiria mais intensamente o seu poder, deixando-se envolver de forma mais profunda pela sua magia. Fora isso, a escuridão era também importante para que o moreno pudesse executar o feitiço, porque necessitava que Hyoga estivesse em sua forma humana para tanto. Afinal, tinha compreendido que, uma vez transformado em pardal, não era capaz de atraí-lo para si.
Assim, despertou todo seu poder, começando a cantar, de modo que sua voz logo preencheu aquela gruta por inteiro. E essa voz, poderosa, deu origem a uma energia forte como nunca, envolvendo Hyoga, que se demonstrou assustado com isso:
Nighttime sharpens, heightens each sensation
Darkness stirs and wakes imagination
Silently the senses abandon their defenses
A noite aguça e acentua cada sensação
A escuridão agita e desperta a imaginação
Silenciosamente os sentidos abandonam suas defesas
O loiro, que continuava a olhar Ikki com confusão, observava aquela gruta sem compreender, para logo em seguida parecer que não a enxergava mais; seus olhos momentaneamente pareciam voltar a enxergar o local em que estava antes de ser trazido para lá. A consciência do loiro buscava racionalizar o que se passava e isso o fazia regressar para onde estava, como se tentasse acordar de um sonho. Ikki viu o que se passava e precisou tomar uma atitude para que a imagem de Hyoga não se desvanecesse, como ocorrera em outras vezes, em tentativas frustradas. Por isso, resolveu fazer um movimento ousado. Levou sua mão, vagarosamente, à de Hyoga. Segurou-a ternamente, sorrindo ao senti-la como se realmente estivesse entre as suas, sentindo-a tão concreta que não podia desejar mais nada, a não ser que todo o mundo se resumisse aos dois, daquela forma. Hyoga pareceu surpreso com aquilo, e como quem busca compreender, desviou seus olhos dos de Ikki, que pareciam aprisoná-los, e voltou a olhar ao redor, como se buscasse voltar ao aposento em que parte sua ainda se encontrava. No entanto, nesse instante, Ikki levou uma mão à face pálida do loiro, fazendo com que ele voltasse a olhar para si. E olhava para o viajante como quem pedia para ele não fazer isso. Para ele não agir como se desejasse acordar, como se desejasse dar um fim àquilo. Não queria que ele buscasse a luz. Deveriam permanecer na escuridão da noite, acalentados por ela. Se Hyoga acreditava que aquilo era apenas um sonho, ele não deveria desejar que acabasse. Ikki precisava fazer com que o loiro desejasse fugir da triste e fria luz da razão.
Softly, gently, night unfurls its splendor
Grasp it, sense it, tremulous and tender
Turn your face away from the garish light of day
Turn your thoughts away from cold, unfeeling light
And listen to the music of the night
Suavemente, gentilmente, a noite estende seu esplendor
Agarre-a, sinta-a, trêmula e suave
Afaste sua face da ostensiva luz do dia
Afaste seus pensamentos da fria e insensível luz
E ouça a música da noite
Hyoga o olhava, parecendo realmente assustado. Assustado e confuso. Ikki então sorriu, como se pudesse dessa forma penetrar dentro da mente do outro, libertando-o desses anseios e medos, para que ambos pudessem, livres, começar outra vez. Recomeçar. Para que pudessem estar juntos, em um lugar que não lhes trouxesse sofrimento. Era um mundo novo que se descortinava à sua frente. Precisava apenas que Hyoga desejasse isso tanto quanto ele próprio... Assim, poderiam ir para um lugar em que suas almas pudessem, enfim, ser tudo quanto desejassem. Onde Hyoga pudesse ser seu. Apenas seu.
Let your mind start a journey through a strange, new world
Leave all thoughts of the world you knew before
Let your soul take you where you long to be
Only then can you belong to me…
Deixe que sua mente inicie uma viagem através de um estranho, novo mundo
Abandone todos os pensamentos do mundo que você conheceu antes
Deixe que sua alma leve você aonde deseja estar
Somente então você poderá pertencer a mim...
Hyoga parecia encantado. Ou melhor, enfeitiçado. As palavras de Ikki pareciam vir revestidas de um poder mágico muito forte, que entorpecia, confundia. A sua música era um feitiço que prendia, que fazia perder os sentidos, que guiava, que dominava, que submetia. Que fazia valer a sua poderosa vontade. Hyoga fechou os olhos claros suavemente, em seu semblante percebia-se uma expressão quase inefável. Todo o seu corpo era tomado por uma leveza enorme, como se sua alma flutuasse, caísse, para depois voar intoxicada por tantos sentimentos infundidos em si pelas palavras hipnotizantes do moreno. Todo ele parecia entregue, seu corpo lânguido caído nos braços de Ikki, que agora envolvia-o por completo, em um abraço povoado de palavras repletas da escuridão da noite, que, cada vez mais, pareciam tragar o jovem loiro, completamente dominado por aquela doce e sedutora canção. Continuava acariciando delicadamente a face branca de Hyoga, os olhos azuis como o mar invadindo os olhos celestiais do loiro, que estavam um pouco abertos, permitindo que aquele homem o dominasse por inteiro. Suavemente, o viajante acabou por levar sua própria mão à de Ikki, que deslizava lentamente em sua face, em uma gentil carícia. E Hyoga apertou sua mão contra a dele, parecendo inebriado pela sensação de senti-lo assim, tão real. O loiro então fechou os belos olhos, como se buscasse sentir mais profundamente tudo aquilo. Ikki era real e Hyoga simplesmente confiava nele. Por isso, entregava-se agora, totalmente, sem quaisquer receios. Estava inteiramente entregue à escuridão da noite, envolvente, entorpecente, sedutora, dominante.
Floating, falling, sweet intoxication
Touch me, trust me, savor each sensation
Let the dream begin, let your darker side give in
To the power of the music that I write
The power of the music of the night
Flutuando, caindo, doce intoxicação
Toque-me, confie em mim, saboreie cada sensação
Deixe o sonho começar, deixe que o seu lado sombrio se entregue
Pelo poder da música que eu componho
Pelo poder da música da noite
Hyoga estava pronto. Era hora de dar início à terceira e última etapa. A consciência do loiro se entregava. Hyoga estava enfim, pronto para ficar definitivamente com Ikki, naquele mundo de trevas e escuridão. A última etapa traria a Hyoga a possibilidade de falar. Sim, e tudo se resolveria então.
Entretanto... Ikki sentia dificuldades em resistir. Olhava para o jovem loiro, que jazia completamente entregue, meio desfalecido em seus braços. Os lábios rosados e entreabertos eram convidativos demais e Ikki não estava conseguindo encontrar forças para se controlar. Era irônico... tinha que seduzir e acabava sendo seduzido... Mas como evitar? A fragilidade expressa em todo o corpo de Hyoga parecia implorar a Ikki que o tomasse por inteiro...
You alone can make my song take flight
Help me make the music of the night
Somente você pode fazer minha música alçar voo
Ajude-me a fazer a música da noite
Atraído pela incrível excitação daquele momento completamente surreal, Ikki aproximou o rosto de Hyoga e tomou aqueles lábios cálidos em um beijo quente, sensual, poderoso. A energia que se desprendia de Ikki assumiu um poder vertiginosamente alto, enquanto o beijo entre ambos se intensificava. O moreno sentia algo forte demais tomar conta de si, algo que ele mesmo sentia-se incapaz de controlar. Uma forte energia começou a rodeá-los, crescendo e girando ao redor deles cada vez mais rápido. E aquilo ia crescendo de forma que parecia prestes a explodir...
Separou-se daquele beijo, ofegante. Estava fraco.
- Não... não posso... não quando estava... tão perto...
Sentia as pálpebras pesarem. Seu corpo tinha caído sobre o de Hyoga, sobre a cama. O loiro havia desmaiado e Ikki sabia o que aconteceria. Se ele perdesse os sentidos, em meio ao feitiço, tudo iria se desfazer.
- Não... eu preciso... agüentar...
Mas parecia não haver restado energia alguma em seu corpo, que se via tão enfraquecido agora. Sabia que não poderia fazer mais nada. Com as forças que lhe restavam, levou sua mão à mão de Hyoga e apertou-a como pôde:
- Hyoga... eu vou voltar... para trazer você... de volta para mim...
E adormeceu.
Enquanto isso, o jovem loiro despertava em uma luxuosa cama, em um suntuoso quarto. Os olhos abriam-se devagar, como se quisessem descobrir aos poucos onde estava.
E rápido reconheceu o local. Estava onde estivera nos últimos anos. No quarto do duque.
Lentamente, foi se incorporando. Sentou-se na cama, triste.
- Foi apenas um sonho... outra vez, apenas um sonho... – suspirou – Por que você não vem me buscar de verdade, Ikki? – olhou melancólico pela janela, para ver o céu estrelado lá fora.
Súbito, bateram à porta do quarto. Sem esperar por permissão para entrar, uma criada colocou a cabeça pela porta:
- Hyoga! Ainda não está pronto? – a velha criada o olhava com repreensão – Vista-se e perfume-se logo! O duque está chegando de sua viagem e sabe muito bem o que ele vai querer assim que chegar. Nenhum de nós suporta quando o duque fica mal-humorado e é seu dever evitar que ele se aborreça! - fez um olhar ameaçador - E não tente qualquer gracinha. Tétion está vigiando a porta. Então guarde seus pequenos truques para você, se não quiser que ele faça com que se arrependa amargamente depois...
O loiro suspirou. Ergueu-se da cama, sentindo-se cansado. Vazio. E, enquanto a criada fechava a porta com violência, revoltada pelo atraso de Hyoga, o rapaz dirigiu-se a um grande armário para escolher uma roupa que agradasse àquele homem.
Começou a se vestir mecanicamente. Perfumou-se conforme o ordenado e então sentou-se à cama, para esperar pelo duque. E sentia um nó no estômago. Jamais se acostumaria àquilo. Então, sem pensar, levou os dedos aos lábios. Era como se sentisse o gosto do beijo de Ikki. Fora apenas um sonho, mas ainda assim... saber que sua boca teria de se entregar a outro homem agora, manchando a pureza do sentimento que guardava pelo moreno, doía-lhe mais que era capaz de suportar. Fechou os olhos, como se desejasse escapar, enquanto uma lágrima quente escorria pelo seu rosto.
- Esqueça, Hyoga. - enxugou a lágrima com brusquidão, quase com raiva - Foi apenas um sonho. Ele não virá... - falou para si mesmo, em tom repreensivo e desgostoso. Então suspirou. Odiava-se por saber que jamais seria capaz de se convencer do que acabava de dizer...
Continua...
N/A: As canções apresentadas nesse capítulo são:
- Little Sparrow – versão do David Cook.
- Music of the night – versão do David Cook.
Como eu disse no outro capítulo... sugiro que escutem as músicas. Vale a pena!
Lua Prateada.
