CAPÍTULO 14 – O fim de Voldemort e o Bem Maior

Após uma rápida cerimônia para entrega de prêmios, o grupo se organizou ao redor de Harry rumo ao castelo, para começar as celebrações. Ou assim eles queriam que o resto pensasse. Chegando ao castelo, Alastor e Harry montaram em suas vassouras, o garoto sob sua capa de invisibilidade e o auror sob um feitiço com efeito semelhante, e partiram para fora das proteções anti-aparatação do castelo. Para esses dois, o dia ainda mal começara, havia ainda muito que fazer!

Longe dali, no cemitério de Little Hangleton, grupos de três ou quatro mercenários permaneciam estacionados em suas posições, aguardando vigilantes a chegada de sua presa.

Não tiveram que esperar muito. Poucos minutos depois do horário marcado para o início da terceira tarefa do Torneio Tri-Bruxo um jovem é trazido por chave-de-portal próximo a uma tumba encimada pela estátua de um anjo tocando um longo instrumento de sopro. O garoto, que segurava sua varinha em uma mão e a taça do torneio em outra, ainda confuso pela inesperada viagem, caiu estuporado por pelo menos três feitiços antes mesmo de se dar conta de onde estava.

O mercenário mais próximo, um loiro que havia perdido parte do nariz e face esquerda, se abaixou junto ao jovem, tomou-lhe a varinha e acenou afirmativamente a um de seus companheiros que imediatamente lançou um feitiço de alerta rumo à mansão que se erguia a meio quilômetro dali.

Logo uma pequena procissão deixava a mansão e rumava ao cemitério, liderada pelo loiro com meia-máscara que os contratara e um moreno narigudo de cabelos sebosos que parecia estar carregando um bebê nos braços. O resto dos mercenários seguia atrás, dois deles levitando um grande caldeirão.

Tão logo o grande caldeirão é colocado sobre uma fogueira improvisada, uma estranha cerimônia tem início. O bebê é colocado no caldeirão tão logo seu conteúdo começa a emitir vapores. Ossos são desenterrados de uma tumba próxima e direcionados também ao caldeirão. O patrão, com um urro de dor, decepa a própria mão esquerda, que cai no caldeirão. Por fim, sangue é retirado do garoto, que permanece inconsciente.

Faíscas e fagulhas de diversas cores voam para fora do caldeirão, enquanto o líquido em seu interior passa por estranhas mudanças de cor e viscosidade. Os olhos de todos estão presos àquela cena, acompanhando aquelas diversas mudanças. É por isso que ninguém percebe o pessoal mais distante caindo inconsciente ao solo. Apenas Nagini, a cobra de estimação de Voldemort e seu último horcrux, notou a chegada de estranhos. Ela veio até perto de seu mestre, silvando um alerta. Mas seu mestre estava dentro do caldeirão, e não a ouvia. E todos aqueles outros bípedes ao redor a ignoravam, aqueles idiotas que não conheciam a verdadeira linguagem.

Snape é o primeiro a perceber que algo não corre bem. Primeiro, pela poção. O comportamento da poção estava muito estranho. Em seguida, no limite de sua visão periférica, ele nota a queda de três dos mercenários, inconscientes. Enquanto ele saca sua varinha, olha para Potter, ainda amarrado e inconsciente, mas não mais Potter! Era um dos mercenários, o que fora enviado para observar a final do Torneio e reportar depois a reação de público e personalidades à chegada do cadáver do precioso Potter!

"É uma cilada!" ele grita, e tenta aparatar, sem sucesso. Coloca então um feitiço bolha-de-ar em volta de sua cabeça, no que é copiado por dois dos mercenários. São os únicos três a permanecerem conscientes.

Do caldeirão uma estranha figura começa a se levantar. A figura mais grotesca que qualquer um possa ter jamais visto. Toda sua parte traseira coberta em lã branca, enquanto a parte da frente parecia ter sido escalpelada por um indígena cego com uma faca ainda mais cega. Era repugnante ao extremo!

A mente rápida de Snape logo concluiu o que deveria ter acontecido de errado com o ritual. Ossos de ovelha, aparentemente. Sangue de um admirador da causa, ao invés de um inimigo. E por fim, o idiota do Malfoy sacrificando uma mão reduzida à carne queimada e desfigurada, ao invés de sacrificar uma parte ainda boa de seu corpo.

Aurores apareciam de todo lado, britânicos, franceses e búlgaros, e Snape jogou sua varinha ao solo e ergueu os braços em rendição, seguido pelos dois mercenários. Do meio dos aurores uma figura diferente toma a frente e lança um feitiço cortante. A cabeça de Nagini cai ao solo. Outro feitiço cortante e o corpo da cobra, enrolado ao redor do caldeirão, é dividido em três partes.

Potter! Snape quase mergulhou em direção à sua varinha na esperança de conseguir matar seu tormento antes de ser incapacitado pelo grupo de aurores. Ajudou evitar aquele suicídio garantido os fatos ocorrendo ao seu lado. Da cobra morta levantou-se uma fumaça escura que rapidamente se dissipou com um grito de dor que era mais humano que ofídico. Esse parece ter sido o sinal para que o corpo de Voldemort começasse a se desfazer, primeiro lentamente, mas com velocidade crescente. Outra fumaça escura subiu do caldeirão, outro grito lancinante de dor e fúria, e Snape percebeu que a marca negra em seu braço, ainda levantado em posição de rendição, também sumia.

'Bom', pensou ele. 'Finalmente livre desse megalomaníaco! Agora, uma pequena ajuda de Malfoy e posso driblar a prisão e viver o resto de minha vida longe de toda essa confusão'.

Potter e o verdadeiro Moody já estavam se distanciando. Iriam aparatar de volta para Hogwarts e fingir que estiveram lá o dia todo.

A mente de Snape se dividiu em duas partes. Uma continuou pensando feliz sobre seu futuro próximo em algum lugar distante. A outra começou a se preocupar com algumas discrepâncias que notava. Os aurores, por exemplo, não estavam nem um pouco preocupados em imobilizar os mercenários desacordados. O gás que utilizaram seria de efeito prolongado? Essa parte da mente de Snape o fez olhar para Lúcio, para ver se seu amigo já estava acordando. Não, Lúcio não estava acordando. Olhando melhor, Snape percebeu que Lúcio não estava sequer respirando. Foi quando ele ouviu ali perto um "Finite Incantatem" e viu que seu feitiço bolha-de-ar fora desfeito. Ele sentiu uma queimação no peito, depois nada mais. Estava morto, como todo o resto daqueles que auxiliavam Voldemort.

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Harry e Alastor voltaram sem problemas para Hogwarts. Bastou o grupo olhar para o grande sorriso que o garoto exibia para que a festa realmente começasse. Voldemort liquidado de uma vez por todas!

O único ponto triste em tudo aquilo foi se despedir da pequena Gabrielle. Aquela garotinha havia conquistado um lugar privilegiado no coração de todos, especialmente do Menino-que-sobrevivera. Mas a separação seria por pouco tempo, já que o verão estava chegando e os Delacours convidaram a todos para se hospedarem parte dele em sua casa de veraneio em Cote D'Azur.

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Alvo Dumbledore não acompanhou a festa de seus alunos. Ele tinha muito em que pensar. Coisas demais fugiram de seu controle nesse último ano, e ele, sempre tão a par de tudo e em controle total da situação, passara esses últimos meses como um navio à deriva, sem rumo e sem controle, jogado para lá e para cá por ondas que ele não era capaz de antecipar de onde viriam ou para onde iriam.

Tudo começara com o jovem Harry recusando a voltar para a casa de seus parentes. De onde ele tirara forças para aquela rebeldia, e onde teria passado o verão? Tudo apontava para o envolvimento das irmãs Greengrass, incluindo o estranho e inesperado noivado dele com a mais jovem delas, mas os pais delas de nada sabiam, como ele averiguara por legilimência, e elas eram tão jovens quanto Harry, como poderiam ter causado tamanho estrago aos seus planos e alterado tanto em tão pouco tempo o comportamento do herdeiro dos Potters, depois do jovem ter passado mais de uma década apanhando até a total submissão nas mãos dos Dursleys?

A captura de Pettigrew e exoneração de Black o pegaram de surpresa. Sirius e Harry esconderam dele a captura de Pedro, e a data do julgamento, com a reversão da guarda de Harry para Sirius, caíra convenientemente numa data em que ele esteve fora do país. Teriam eles conquistado o apoio de Amélia tão rapidamente? Mas se Amélia estava em conluio com Potter e Black, o que dizer de Alastor? Ele e Dumbledore eram amigos de longa data, mas Amélia e Alastor tinham pelo menos três décadas de contato contínuo no DELM, algo muito mais íntimo que os encontros casuais entre Alastor e Alvo. Estaria Alastor contra ele, também?

Esses tristes pensamentos levaram Dumbledore a rever a situação das outras duas pessoas que ele sempre contara como aliados. Minerva McGonagall estava com ele em Hogwarts há décadas. Tinha um gênio forte e não hesitava em discordar dele quando achava necessário, mas no final ele sempre fora capaz de convencê-la a seguir seus planos. Exceto este último ano. Entre os ataques que recebera na imprensa e os problemas enfrentados durante o Torneio Tri-Bruxo, sua subdiretora não estivera tão fácil de persuadir como em anos passados. Ela tinha até mesmo contrariado algumas de suas ordens diretas, em uma rebeldia jamais vista. Sim, ela ainda agia com certa deferência e totalmente dentro das atribuições de seu cargo, mas Alvo não conseguia deixar de sentir certa insubordinação, talvez mesmo traição, por parte dela.

Mas não era McGonagall sua preocupação maior. Severo havia abandonado o castelo sem ao menos se despedir, e até esse momento não o contatara uma única vez! Teria aquela pobre alma atormentada caído novamente em desespero e buscado por seu antigo mestre e senhor, recaindo no caminho das Trevas? Essa era uma possibilidade alarmante! Com um serviçal tão qualificado quanto Severo, Voldemort poderia rapidamente readquirir um corpo físico e voltar a espalhar terror pela Ilha em pouquíssimo tempo! O governo estava longe de estar preparado para tamanha ameaça! Ele queria o confronto, sim, já que era uma necessidade para que eventualmente Voldemort fosse derrotado de uma vez por todas, mas se Tom Riddle agisse muito rápido, ao invés de um impasse temporário que ele poderia aproveitar para ajustar as condições da derrota final de Voldemort, poderia haver uma rápida tomada de poder que poderia causar muitas vítimas desnecessárias e colocar seus planos em perigo.

Alvo estava muito infeliz com seu comportamento durante o ano. Era uma estranha sensação aquela, e bastante desagradável, de se sentir 'fora do jogo', por assim dizer. Saber que fatos importantes aconteceram sem nenhum aviso prévio, sem nenhum controle dele sobre o que acontecia, podendo ele apenas reagir depois de o evento surpreendê-lo. Isso não podia continuar dessa forma. Ele ainda tinha alguns trunfos, como o conhecimento completo da Profecia, suas pesquisas sobre os horcruxes criados por Tom, o terrível destino que aguardava Harry por ser um dos receptáculos de um fragmento de alma de Voldemort. A própria sobrevivência de Tom após aquele fatídico Halloween de 1981 era ainda um segredo importante, pelo menos para a grande maioria das pessoas.

Talvez fosse tempo de começar a caçar aqueles horcruxes. Quem sabe a destruição de alguns mais enfraquecesse Tom ao ponto de tornar mais demorada sua volta ao poder? Era uma possibilidade interessante, mas difícil de confirmar teoricamente, e colocar a caça em prática tinha o risco de poder alertar Voldemort de que seu mais precioso segredo não era assim tão secreto.

A Profecia era uma arma que devia ser usada com cuidado. Ele precisaria pensar um plano completo, em todos os detalhes. Ela bem podia ser a sua única chance de conseguir algum controle sobre o jovem Harry, ela poderia dar a Dumbledore duas chances de obter esse controle. Uma diretamente com o menino e seu padrinho. Alvo poderia revelar a Profecia para eles e contar que o bom senso imperasse e eles vissem a necessidade de obedecer aos conselhos de Alvo para que o melhor resultado fosse obtido, mesmo que à custa da vida do jovem Harry. Ou, falhando esse alternativa, ele poderia revelar a Profecia em uma sessão do Wizengamot, e colocar em votação um decreto que lhe desse poder de guarda sobre o garoto para poder prepara-lo para seu destino.

Quanto a caça aos horcruxes, Alvo decidiu fazer uma checagem inicial em três locais que ele achava poder estar abrigando um: o Orfanato onde Tom fora deixado ao nascer, a mansão Riddle e a residência dos Gaunt, sua família materna. Assim que o ano letivo estivesse oficialmente encerrado, ele faria uma visita àqueles três lugares.

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Apesar da missão do dia anterior ter sido mantida secreta por todos os participantes (exceto no que se referia ao grupo de aliados de Potter), era inevitável que duas das mortes viessem à tona rapidamente. E isso aconteceu já na manhã seguinte, enquanto os alunos de Hogwarts tomavam o desjejum.

Com a chegada do correio matinal, um aluno de Sonserina recebeu correspondência de Gringotts oferecendo pêsames pela morte de seu pai e de seu padrinho e marcando a data para leitura dos Testamentos. Como esse aluno era emotivo e destemperado demais, não tardou muito para que a notícia das mortes de Lúcio Malfoy e Severo Snape fosse de conhecimento de todos os presentes.

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Finalmente o ano letivo acabara, e Dumbledore pôde iniciar suas investigações. No Orfanato ele nada encontrou, nem sequer o prédio que abrigara o Orfanato. Em seu lugar agora se erguia um moderno prédio de apartamentos. No antigo casebre dos Gaunt a história foi bem diferente. Alvo encontrou sinal de antigas e poderosas proteções mágicas desativadas recentemente, e no interior do casebre perto da lareira havia ainda uma concentração de magia negra repugnante que bem poderia ser sinal da presença de um horcrux por ali por vários anos. Essas descobertas o inquietaram bastante.

A mansão Riddle também tinha muitos sinais de uso recente, por muitas pessoas, mas apenas traços muito sutis da presença de um horcrux. Ou esse horcrux havia sido removido de lá há muito tempo, ou ele não permanecera ali por um período prolongado. Ele já estava quase indo embora quando uma ideia lhe ocorreu: checar o cemitério ali perto. Dumbledore sabia que muitos rituais macabros como os necessários para dar um novo corpo a Tom poderiam envolver os restos de seu pai ou avós, ali enterrados.

Depois de utilizar todos os feitiços de detecção que conhecia, e analisar os (poucos) indícios físicos que encontrou, Dumbledore sentou-se em uma das tumbas e resumiu suas descobertas: 1) havia um horcrux na casa dos Gaunt, recentemente retirado de lá; 2) Lúcio Malfoy e Severo Snape estiveram na mansão Riddle, em companhia de várias outras pessoas; 3) o túmulo do pai de Voldemort fora violado recentemente; 4) havia sinais de uma fogueira recente próxima a esse túmulo; 5) Lúcio Malfoy e Severo Snape morreram poucos dias atrás.

Na cabeça do velho mago uma certeza se formou; uma certeza que o deixou muito apreensivo: Voldemort havia conseguido sua ressureição. Para isso consumira um de seus horcruxes, ossos de seu pai e a vida de dois de seus seguidores. Por que dois? Um parecia o bastante. Teria Voldemort assassinado Lúcio como punição pela perda do diário e então usado o pobre Severo para sua ressurreição? Sim, parecia o mais provável.

Então Voldemort voltara, e sacrificara dois de seus mais estimados serviçais, mas Alvo detectara a presença de um grande número de magos e bruxas no cemitério. Tênue e indefinida demais para analisar individualmente, mas pelo menos uma centena de pessoas deveria ter estado presente para aquela macabra cerimônia. Voldemort não só voltara como já tinha a seu comando uma força considerável! O governo mágico britânico estava em perigo de queda iminente nas mãos do maior facínora dos tempos modernos!

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"Se tentar me vender como uma putinha submissa para o prazer desse pirralho nojento eu mato ele assim que o ver novamente!"

"Dafne, comporte-se!" berrou Graham Greengrass para a filha. "Com a morte de Lúcio será questão de dias até que Draco seja emancipado e assuma o lugar de chefe da família! Temos que agir rapidamente ou perderemos essa excelente oportunidade! Ele, Nott e agora Potter são as melhores opções de casamento pelos próximos dez anos!"

"Venda-me para Potter, então! Pelo menos Potter vai me tratar decentemente!"

"Potter não é puro de sangue, como você bem sabe! E ele já está comprometido com sua irmã! Seria indecente você compartilhar a mesma cama que ela!"

"Pois a cama de Malfoy ou Nott é que eu não vou compartilhar! Um de nós estará morto ou longe dali quando isso tiver que acontecer!"

"CASTIGO! Vá para seu quarto e não saia de lá até ser chamada ou voltar a ter juízo. E está proibida de usar coruja ou os élfos para se comunicar com quem quer que seja, mocinha! Você vai aprender seu lugar nem que seja à força! Iremos conversar em breve."

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"Daf?" chamou uma voz tímida e quase inaudível.

Dafne foi até a porta de seu quarto, abriu-a e viu a face chorosa de sua irmã. Olhando por cima da cabeça dela, confirmou que não havia ninguém por perto e disse para ela: "Para mim chega. Você vem comigo?"

"Dez minutos?"

Dafne concordou e Astória partiu correndo para seu quarto, preparar sua bagagem. Dafne fez o mesmo enquanto contatava Harry telepaticamente pedindo asilo para duas pessoas.

No fim elas levaram quase quarenta minutos, mas com o portal aberto puderam levar praticamente todo o conteúdo dos dois quartos. Enquanto Dafne ia levitando tudo o que estava ao seu redor através do portal, Astória aproveitou para recolher algumas coisas mais, como uma forma de 'herança antecipada': ela não tinha acesso à parte mais restrita da biblioteca, mas pegou o que pôde do restante, além de dois porta-joias lotados que sua mãe quase não usava e, portanto, não sentiria falta imediata. Levou também o quadro de sua avó materna, após explicar a situação para ela e perguntar se ela gostaria de ir com as netas. A avó morrera há apenas três anos, e fora uma presença constante e muito mais carinhosa na vida das meninas do que pai e mãe. Tori achava mesmo que passara mais tempo de sua vida com sua avó do que com sua mãe.

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Harry recebera as meninas na reconstruída e modernizada mansão Potter, mas saíra com Sirius logo depois de assinalar quartos para as duas ficarem. As irmãs instruíram Dobby e Winky sobre como queriam que seus quartos fossem remodelados e foram até o hall de entrada aguardar pelo retorno de seu anfitrião, curiosas com o que poderia ter sido tão urgente para justificar aquela saída às pressas quando ambas estavam tão abaladas.

Não precisaram esperar muito. Logo os dois estavam de volta, sorrindo muito. Harry abriu os braços e logo abraçava uma Greengrass em cada um.

"Onde você foi? Precisávamos de você!" perguntou Dafne enquanto sua irmã preferiu perguntar: "O que deixou vocês dois tão felizes?"

"Fomos até Gringotts" respondeu Harry, conduzindo as duas irmãs até um sofá e ajudando-as a sentar antes de posicionar-se entre elas. "Com Draco sendo emancipado e assumindo a posição de chefe da família Malfoy, Sirius havia conversado comigo sobre me emancipar e eu assumir a chefia dos Potters, de forma a manter o equilíbrio. Com a chegada de vocês resolvemos antecipar o processo, de forma que eu possa oferecer alguma segurança a vocês."

"O contrato!" exclamou Astória, "Você vai ativar a cláusula 'Et addidit securitatem sponsae'!"

"Sim!" respondeu Harry. "Mas você se lembra do texto exato como está em nosso contrato? Sirius e eu a redigimos, com apoio de nosso advogado, de forma que Dafne pudesse ser incluída também. Por motivos de segurança, eu posso não só requerer sua guarda em situações de perigo, mas também de qualquer parente seu menor de idade."

"Mas, Harry, que razões de segurança você vai alegar?" perguntou Dafne, "Meu pai me vender como uma peça de arte em leilão não é exatamente um crime ou um motivo de segurança maior pelas leis atuais".

"Precisamos planejar" respondeu Harry, "Sirius teve a ideia de usar Dumbledore, mas não temos ainda certeza como".

"Dumbledore, o que tem ele?" perguntou Astória. Harry olhou para Sirius, deixando seu padrinho responder.

"Parece que Dumbledore andou fazendo umas investigações por conta própria em Little Hangleton, e chegou à conclusão de que Voldemort ressurgiu em um novo corpo e está pronto para atacar, com dúzias de magos a seu comando."

"Dumbledore jamais atacaria meus pais!" comentou Astória.

"Mas podemos fazer um ataque simulado contra a mansão Greengrass, fingindo ser obra dos Comensais da Morte. O perigo contra vocês seria atestado pelo ataque e confirmado por Dumbledore, que correria o risco de bater de frente contra Fudge, que não vai querer acreditar no retorno de Voldemort" comentou Sirius.

"Teria que ser rápido, antes que meu pai tivesse tempo de contatar Nott ou Malfoy" disse Dafne com apreensão.

"E qual seria a desculpa dos Comensais para atacar meu pai?" perguntou Astória. "Eles não foram atacados da primeira vez que Voldemort apareceu, não é Dafne?"

"Não, mas foi por pouco que escaparam" respondeu Dafne. "Papai suporta os ideais puristas, mas nunca apoiou diretamente a Voldemort, apesar de várias vezes ter sido requisitado para, pelo menos, colaborar financeiramente".

"Ok, podemos usar isso como desculpa" comentou Sirius. "Atacamos, destruímos as proteções, mas não invadimos. Ao invés, mandamos um recado que se certa quantia não for depositada em certa conta até certa data, voltaremos para completar o serviço. Assim que sairmos de lá mandamos um recado para Alvo e seu clube do frango frito. Eles chegam a tempo para ver os estragos e vão poder testemunhar que uma tragédia só não ocorreu porque não era essa a intenção naquele momento".

"Você vai usar uma conta sua para o dinheiro?" perguntou Dafne desconfiada.

"Não, claro que não" respondeu Sirius indignado. "Abrimos uma para vocês duas. Herança antecipada, que tal?"

"Astória já pegou um pouco de 'herança antecipada', mas quanto mais, melhor" concordou Dafne sorrindo maliciosamente. "Vamos usar aquele esquema rúnico que sua mãe inventou para curto-circuitar proteções mágicas passivas por dentro?" perguntou ela para Harry.

"Conhece algo melhor?" respondeu o garoto em desafio.

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Dois dias depois uma reunião com todos os membros chaves do grupo ocorria na mansão Potter.

"Primeiro assunto na pauta de hoje, o ataque à mansão Greengrass" começou Harry assim que todos estavam a postos, sentados ao redor da imensa mesa da sala de jantar. "Dafne, por favor."

"Para quem não estava ciente, meu estimado pai resolveu me leiloar pelo maior preço, e os dois principais concorrentes eram Theodore Nott, que se tornou chefe de casa em agosto último, e Draco Malfoy, que se tornou chefe de casa recentemente. Havia outros interessados, como um conde octogenário da Hungria, mas meu pai contava com o interesse desses dois acima de quaisquer outros. Para melhorar a barganha, não haveria nenhuma cláusula de espera no contrato, o casamento poderia ocorrer a qualquer momento depois de o contrato ser assinado, à critério do noivo. Papai achou que esses dois gostariam de imediatamente começar a produzir herdeiros, por segurança, ou puro tesão adolescente, e pensou que conseguiria uma quantia maior dessa forma."

"Seu pai não iria querer sequer que você terminasse seus OWLs?" perguntou Susana, inconformada.

"E perder a chance de faturar mais?" respondeu Astória com evidente desprezo.

"Então o ataque à mansão Greengrass... foram vocês?" perguntou Hermione.

"Sim," respondeu Dafne. "Eu e Tori fugimos de lá no mesmo dia. Para que nosso pai não pudesse obrigar nossa volta, precisávamos de uma proteção. Há uma cláusula no contrato de Harry com Astória que permite a ele colocar sob proteção da Casa Potter sua noiva e parentes menor de idade dela, se eles estivessem em perigo."

"Então vocês simplesmente criaram um perigo simulado, apenas para ativar essa cláusula?" perguntou Amélia, um tanto irritada. "Sabe quanto trabalho esse ataque me causou?"

Dafne olhou espantada para madame Bones. Será que ela estava realmente dizendo que preferia ver Dafne em um daqueles horríveis casamentos, apenas para evitar algum trabalho? Foi então que a séria diretora do DELM caiu na gargalhada. "Oh, o espanto e horror na sua expressão..." comentou Amélia, fazendo todos, exceto Dafne, rirem junto com ela. "Apenas me explique uma coisa. Como conseguiram fazer as proteções caírem tão rápida e completamente?" pediu Amélia. "As que tenho em minha residência são parecidas, se há um problema qualquer com elas preciso saber."

Recompondo-se um pouco da peça que lhe pregaram, Dafne respondeu: "Não precisa se preocupar. Aquilo só foi possível porque Tori e eu agimos de dentro das proteções. De fora não teria sido possível".

"Ótimo! Fico bem mais tranquila assim," comentou Amélia antes de perguntar: "Do lado de vocês os problemas estão todos resolvidos?"

"Sim," confirmou Dafne. "Papai se assustou tanto com o ataque que fez o depósito solicitado, aceitou nosso novo status como protegidas de Potter, contratou Gringotts para refazer as proteções na mansão e voou para o exterior com mamãe. Provavelmente só voltará quando tiver certeza de que não há mais perigo. Mas e quanto às repercussões no governo, madame Bones?".

"Se não fosse por Dumbledore provavelmente o assunto teria sido enterrado como um 'acidente', algum tipo de sobrecarga nas proteções da mansão," comentou Amélia. "Mas vocês o avisaram do ataque, e ele colocou tudo em proporções gigantescas. Ele chegou ao local segundos depois que vocês partiram, aparentemente, e foi capaz de registrar os resíduos da queda das proteções. Assumindo que ela foi destruída de fora, ele calculou que deveria ter sido obra de uma força entre 350 a 400 magos agindo em conjunto, e os Inomináveis do Departamento de Mistérios confirmaram esse cálculo. Ninguém parece estar acreditando na teoria de Alvo de que Voldemort retornou. Fudge até começou uma campanha no Profeta Diário dizendo que Alvo está velho demais e ficando senil. Mas o ponto principal é que durante o pico de atividade dos Comensais da Morte, o número deles era estimado entre 200 a 250. A notícia do ataque ainda não chegou à imprensa, mas já é conhecida de todos os funcionários do Ministério e membros do Wizengamot. O consenso é que há aí fora um novo Senhor Sombrio com uma força duas vezes maior que a de Voldemort jamais chegou a ser. Se era pânico que queriam criar, fizeram um ótimo trabalho".

"Uma ótima oportunidade para pedir mais verbas e revitalizar seu departamento, não é, madame Bones?" comentou Harry com ironia. "Mas não acho que deva se preocupar com a possibilidade de pânico, a não ser que um novo psicopata realmente surja para se aproveitar da situação. Caso contrário, estaremos em uma boa situação: Dumbledore ocupado com um já morto e extinto Tom Riddle; o povo e o governo atentos e vigilantes, mas sem estar em perigo real; seu departamento com possibilidades de crescer e nós com tempo de vermos questões mais importantes. Algum sucesso com aqueles dois pontos levantados?"

"Não consegui levantar nada sobre sua ideia de uma ou mais 'sociedades mágicas ocultas', escondendo-se do governo em nosso solo," Amélia disse com calma, preparando a bomba: "Mas quanto ao Bem Maior de Dumbledore, que vocês pensaram poder favorecer os trouxas, temos alguns resultados surpreendentes."

"Dumbledore está realmente pensando em ajudar os trouxas contra nós?" perguntou espantada Morag.

"Pior! Eu acho que ele já fez tudo o que precisava por eles," comentou Amélia. "Para entender melhor, vamos voltar ao grande feito de Alvo: sua vitória contra seu amante Grindelwald. Essa foi a mais longa, generalizada e mortífera das guerras, tanto para mágicos quanto para trouxas. Grindelwald estava controlando Hitler e seus principais assessores. Era inevitável que algum conhecimento do mundo mágico chegasse aos trouxas por mais que nós mágicos nos esforçássemos por evitar. Mas o pior ocorreu após o término da guerra.

"Dumbledore era o herói que terminara a carnificina; foi eleito rapidamente como chefe da Confederação Internacional e sua opinião teve enorme peso. Muitos Ministros da Magia e representantes para a Confederação Internacional dos Bruxos foram eleitos por contarem com seu aval e apoio. E Alvo aproveitou-se disso para propor e aprovar duas peças de legislação internacional que podem bem ser o início de nossa derrota para os trouxas. Primeiro, foi declarada a total não intervenção dos mágicos nos governos trouxas. Os mágicos de todo o mundo foram proibidos de exercerem qualquer influência ou monitoramento sobre os governos não mágicos de seus países, sob pretexto de se evitar uma nova guerra nos moldes da recentemente concluída. Segundo, uma exceção a essa regra foi criada. Os governos mágicos deveriam manter um contato estritamente regulamentado com os governos trouxas: ministros da magia deveriam se apresentar à sua contraparte trouxa sempre que um ou outro assumisse o cargo, e informar a contraparte trouxa sempre que algum evento no mundo mágico causasse ou pudesse vir a causar algum efeito no mundo trouxa."

"Cinquenta anos!" reclamou Hermione em alto e bom som. "Por cinquenta anos todos os governos não mágicos sabem da existência dos mágicos e puderam estudar e planejar e se preparar para qualquer eventualidade sem que o governo mágico pudesse sequer sondar o que eles andaram fazendo!"

"Pode ter certeza de que cada um dos governos não mágicos tem pelo menos um departamento secreto estudando formas de lidar contra a 'ameaça mágica'" comentou Harry.

"E eles estão tendo ajuda, pode apostar," disse Hermione, surpreendendo o grupo. Ela então explicou: "Da forma como as sociedades mágicas tendem a menosprezar os nascidos-trouxas como eu, pode ter certeza de que alguns estão retornando ao mundo trouxa, onde são cooptados por seus governos a auxiliarem nesses departamentos secretos! Com sete anos de atraso em sua educação normal, a oferta de um emprego em uma instalação militar com o cargo de um oficial de baixo escalão, como tenente ou capitão, e o salário correspondente seria tentadora demais para ser recusada."

"Foi o que pensei," comentou Amélia. "Pelo menos temos a magia de nosso lado para nos esconder, ou poderíamos já ter sido derrotados."

"Esconder? Espero um pouco..." disse Hermione preocupada. Depois de pensar por algum tempo a garota explicou um importante detalhe: "Não, não acho que possamos nos esconder tão bem assim, madame Bones. Os feitiços do tipo Fidélio ou Não-Me-Note são psicológicos. Agem sobre a mente das pessoas, impedindo-as de entender o que veem. Não terão efeito algum sobre as câmaras em satélites..."

Hermione teve que parar para explicar à maioria o que eram satélites artificiais e como câmaras fotográficas neles instaladas eram capazes de tirar fotos precisas de regiões abaixo deles, mesmo estando tão altos no céu ao ponto de serem quase invisíveis. Explicou também como essas fotografias não seriam afetadas pelos feitiços. Uma pessoa manuseando uma câmara seria afetada a ponto de não querer ou não poder fotografar a área protegida, mas satélites tiravam fotos automaticamente, não havia uma mente para ser afetada. E as fotos tiradas não levariam consigo o efeito dos feitiços: qualquer um poderia olhar para elas e ver tudo o que continham.

"Isso é mal, muito mal!" declarou Alastor. "Beco Diagonal, Hospital São Mungo, Hogsmeade, Hogwarts... mesmo as mansões das velhas famílias. Os trouxas podem estar sabendo sobre os principais locais mágicos do país!"

"A ilha?" perguntou Dafne preocupada.

Harry pôde apenas dar de ombros. Ele não havia visto em detalhes as proteções existentes na ilha, mas não tinha razão para acreditar que houvesse algo significativamente diferente em uso lá.

"Por segurança, o melhor será assumir que os trouxas saibam de sua localização" preveniu Alastor, constantemente vigilante.

"Cinquenta anos!" voltou ao ponto Hermione. "Como foi possível ninguém ter percebido esse perigo por tanto tempo!"

"Não são muitas as pessoas que conhecem essa legislação" explicou Amélia. "E a maioria das que conhece são funcionários de alto-escalão do governo, ou seja, puros-sangues. Isso significa que eles estão acostumados a encarar os trouxas apenas como um incômodo, jamais como uma ameaça séria."

"O que faremos?" perguntou Astória, sempre prática.

"Não convém nos precipitarmos" sugeriu Susana. "Vamos buscar por algumas informações e tomar algum tempo para pensar em sugestões. Podemos nos reunir em alguns dias para estabelecer um plano de ação."

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A/N: Sempre me intrigou a ênfase da autora em obliviar qualquer trouxa que visse magia sendo executada ao ponto de proibir crianças de usar magia fora de Hogwarts e tantas coisas mais, enquanto Fudge corre para o primeiro Ministro britânico para avisar da fuga de Sirius Black ou a importação de dragões para um Torneio. Era um dos paradoxos da estória que pedia para ser utilizado. Eu nunca encontrei uma estória que usasse esse contato entre os dois Ministros para colocar os trouxas em prontidão para ao menos vigiar o mundo mágico, senão se preparar para um possível confronto. Se você conhece alguma estória assim, por favor, envie-me um PM ou review informando qual.