Desculpas

Molly estava entretida com o almoço e quase não notou o farfalhar de vestes ao seu lado. Roxane se sentara distraída, puxara o cesto cheio de batatas e, dispensando as facas encantadas que as descascavam com facilidade, começou ela mesma a fazer o trabalho.

– Dormiu bem querida? – disse a voz suave e maternal da Sra. Weasley.

– Acho que essa foi a melhor noite no último mês, Molly – ela suspirou, concentrando-se no trabalho. – Pelo menos não sonhei com o Sirius, e não houveram gritos nem desespero.

– Talvez esteja começando a superar essa dor, minha querida. – A mulher a fitou com carinho enquanto Roxane se entretinha com as batatas. – Sente muita a falta dele, não é?

– Não sei o que sinto, Molly. – Encarou a Sra. Weasley com seus olhos castanhos. – Sirius não era só meu noivo; era meu amigo, e eu tentei avisá-lo – as lágrimas escorreram –, eu tentei...

– Nós sabemos disso querida, pare de se culpar – disse envolvendo-a em um abraço apertado, e completou: – Sírius era assim mesmo, me surpreenderia se ele a tivesse escutado. Posso lhe fazer uma pergunta? – encarou a outra. – Não me tome como uma bisbilhoteira.

– Claro que não Molly, você tem sido tão boa para mim. – Tentou sorrir. – O que quer saber?

– Existe mais alguém envolvido nessa história. Alguém que a faz sofrer mais que a perda do Sírius. – Foi a vez de Molly sorrir-lhe maternalmente. – É o Snape, não é?

– Não sei do que está falando, Molly. – Desviou o olhar para as batatas.

– Você sempre arruma uma desculpa para não ficar conosco quando ele vem às reuniões – ela continuou com os olhos sobre Roxane, analisando sua reação. – E eu sei o quanto gosta de ser útil e estar presente nelas. Há algo de errado Roxane; não quer me contar?

– Não há nada de errado. – Cortou a batata ao meio de uma vez só. – Eu não gosto da presença daquele homem, só isso.

– Certo, se prefere não falar sobre o assunto, eu vou respeitar – ela disse sorrindo. – Mas não pense que engoli sua desculpa. Não morro de amores por Snape, mas sei o quanto ele pode ser atraente.

– Há algo mais para descascar, Molly ? – disse mudando de assunto.

– Não querida, obrigada – ela respondeu bondosamente.

Roxane devolveu-lhe o sorriso e saiu para fora da casa, precisava de ar puro. Andou sem rumo certo pelos campos em volta da casa dos Weasley, até se sentir calma o suficiente para se sentar embaixo de uma árvore. Deixou-se mergulhar em suas lembranças.

Um estalido na sala fez Molly sair de seus pensamentos, ainda não era hora para os gêmeos, ou Arthur, chegarem em casa. Olhou para o relógio a sua frente, indicava que estavam no trabalho ainda. Então quem será? – pensou. Sua pergunta foi respondida pela figura alta no meio da sala, envolta em trajes pretos.

– Boa tarde, Molly – disse a voz dura do Mestre de Poções. – Desculpe se chego numa hora tão inconveniente, mas é urgente.

– Boa tarde, Snape – ela respondeu em seu tom normal. – Não há problemas. Você disse urgente, há algo errado? Preciso contatar a Ordem?

– Não há necessidade, não há nada de novo para nós. – Tentou parecer normal, estava terrivelmente constrangido de estar ali para fazer o que iria fazer. – Preciso ver...

– Ela está lá fora – interrompeu a Sra. Weasley.

– Obrigado – respondeu seco, arqueando uma sobrancelha.

– Snape – disse suavemente, fazendo-o parar no limiar da porta. – Não a magoe...

Ele não se virou, nem respondeu, apenas deixou a casa em direção ao campo, onde um sol pálido banhava os teixos verdes. Havia percorrido uma boa parte do campo, quando divisou um ponto rosa embaixo de uma árvore. Mesmo àquela distância, Snape tinha a certeza de que era ela. Seu coração acelerou, ele diminuiu a marcha, tinha que se controlar.

– Boa tarde, professor – ela disse antes que ele abrisse a boca, sem mesmo virar para fitá-lo. – Achei que tínhamos um acordo. O que faz aqui?

– Parte de um programa de reabilitação. – Crispou os lábios e sentou ao lado dela. – Não quer me ajudar?

- Não conheço nada que possa absolvê-lo dos seus erros – disse seca e se levantou.

– Você está sendo cruel – ele disse cínico.

– Não mais que você. – retorquiu no mesmo tom. - Achei que estava acostumado. Faz isso tão bem. – Deu-lhe um olhar frio e começou a caminhar.

Você pode me perdoar de novo? Eu não sei o que eu disse

Mas eu não pretendia te machucar

Eu ouvi as palavras saírem

Eu senti como se fosse morrer

Dói tanto te machucar

Snape fitou a grama, depois a acompanhou com os olhos durante algum tempo e bufou, não seria fácil. Roxane parou no alto da colina, ele a fitou mais uma vez antes de se por de pé e ir ao seu encontro.

– Achei que o tempo curasse as feridas – ele tentou uma nova investida. Os cabelos dela estavam soltos, tremulavam ao vento, batendo em sua face. Snape parou bem atrás dela.

– Não as que você deixou – ela respondeu sem olhá-lo.

– Não pode me dar uma chance? – disse pausadamente.

– Não quero – respondeu fria.

– Eu errei. – Ele mediu suas palavras, não queria ceder mais do que deveria. – Não costumo admitir essas coisas facilmente.

– Facilmente? – ela sorriu com escárnio. Roxane se manteve de costas para ele, as mãos contorcidas pelo nervoso. Não queria olhar pretos, e fechou os olhos ao sentir a respiração dele próxima a sua nuca. As lágrimas correram sobre seu rosto, enquanto ela evitava que sua voz embargasse ao rebater: – Chama tudo o que disse e fez de fácil?

– Escute; eu errei, e ponto final. – Seu tom se tornou duro. Snape percebeu que ela não cederia, e não adiantaria lhe mostrar seu arrependimento. Não adiantaria tentar fazê-la acreditar que estava sendo sincero, que sentira sua falta por mais que as palavras que havia ouvido ainda ardessem como brasas em sua memória. Era tarde demais para voltar atrás, e controlando-se, prosseguiu no seu tom normalmente frio – Não vim lhe pedir desculpas, vim apenas cumprir minha palavra. – completou, sentindo todas suas feridas abrirem .

– Sua palavra? – sorriu provocadora. Intimamente queria acreditar em tudo e se atirar nos braços dele. Deixar seu coração explodir, mas apenas manteve seu tom – Não sabia que tinha uma.

– Eu prometi ao Sirius que me casaria com você caso acontecesse algo – disse ríspido, sem prestar atenção as provocações dela. – E é exatamente o que vim fazer.

– Está tentando comprar sua absolvição? – ela virou para encará-lo pela primeira vez. Não devia ter olhado, sucumbiu aos olhos pretos.

– Não estou tentando fazer nada além de cumprir com minha palavra – ele respondeu com voz de seda. Pretos mergulharam em castanhos, devorando-os.

– Está bem. Eu sou a outra parte envolvida. – Seus olhos brilharam raivosos impedindo os dele de prosseguirem. – Não o quero.

– Seja razoável – disse procurando se controlar, aquilo soou cruel. Ele rebateu tentando feri-la. – Você precisa de mim.

– Não, não preciso. – Seus olhos transbordaram. – Não mais que você de mim. Vá embora!

Então você olha para mim

Você não está mais gritando

Você está silenciosamente magoada

Eu daria tudo agora

Para matar aquelas palavras pra você

Snape a fitou, os cabelos de ambos esvoaçavam com o vento; ele se aproximou, e ela não se mexeu. Os olhos castanhos dela penetraram nos pretos, e ao contrário dela, Snape não os impediu de prosseguir. Roxane sentiu a mão dele segurar sua cintura, depois os braços a envolveram, levando-a para junto dele. Quis fugir, mas não conseguiu se mover; seu corpo o queria próximo. Sua mente estava presa na dele. Não havia para onde ir.

– Desculpa – sussurrou ao ouvido dela.

– Não posso – ela respondeu entre as lágrimas.

– Eu preciso de você mais do que você de mim – sussurrou novamente, a boca próxima à dela. – Você está certa.

– Mentira. – Os olhos presos entre as lágrimas.

– Pague para ver – crispou os lábios num último sussurro.

Ela fechou os olhos e entreabriu os lábios numa concessão muda. Tentara fugir dele, evitar qualquer contato, mas o destino era cruel e jogara-a novamente em seus braços. Snape sorriu numa linha fina de lábios e, inclinando-se sobre ela, beijou-a com carinho. Como desejara aquele momento no último mês, como sonhara com aquele calor.

Cada vez que eu digo algo que eu me arrependo eu choro "eu não quero perder você"

Mas de alguma forma eu sei que você nunca me deixaria, é

Porque você foi feita para mim

De algum jeito eu fiz você ver

O quanto você me faz feliz, amor

Abraçou-a forte, apertou-a contra si, enterrou seu rosto naqueles cabelos. Precisava tocar aquela pele; um contato real. Não suportava mais o tormento daqueles sonhos em que a tinha, mas depois era só um vazio, a constatação de que estava sozinho de novo. Embrenhou seus dedos no cabelo dela, mergulhando a boca na maciez de seus lábios, perdendo-se naquela imensidão trouxa.

– Sou sua – ela murmurou.

– Eu sei – respondeu.

Foi a vez dela agarrar os cabelos pretos dele, puxando-o para si, beijando os lábios, o pescoço, desejando-o, implorando. E quando voltou a fitá-lo, perdeu-se em pretos, e ele, em castanhos. As bocas molhadas, desejosas, sensuais, encontraram-se mais uma vez numa possessão cega.

Eu não posso viver essa vida

Sem você ao meu lado

Eu preciso de você para sobreviver

( Forgive Me – Evanescense )

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N/A: Minhas flores lindas, eu agradeço cada palavra de vcs, cada gesto, cada vírgula deixada nas reviews, e no carinho que vcs demonstram por mim! De todo o coração eu digo: Amo vcs!!!!!