Kurt brincava com os dedos enquanto esperava ansioso. Estava sentado no sofá da casa de Blaine o esperando. Tudo acontecera minutos atrás quando o médico recebeu uma ligação urgente para comparecer ao hospital, e o castanho não se importou de ficar sozinho por alguns minutos.
Muitos minutos, na verdade. Fazia mais ou menos meia hora que o médico havia saído de casa e Kurt começava a ficar preocupado. Seus pensamentos começavam a se encher com os maiores desastres. Talvez Blaine tivesse sofrido um acidente durante o percurso, ou simplesmente no meio do trânsito encontrara outro rapaz mais bonito e com visão e resolvera trocar Kurt por ele.
O castanho sorriu para si mesmo, balançando a cabeça como forma de tirar esses pensamentos de sua cabeça. Resolveu simplesmente ligar para o moreno. Antes de sair Blaine fez questão de ensinar Kurt a usar o telefone em braille que tinha em casa (por causa de Katie). Seus dedos percorreram pelas teclas. Assim que discou o número automaticamente caiu na caixa postal. Devia estar em uma cirurgia de emergência ou algo do tipo pra desligar o aparelho.
Poucos minutos depois Kurt resolveu tentar novamente, porém apertou o botão ao lado do desejado.
"Você não tem novas mensagens. Para gravar uma nova mensagem de voz, tecle *. Para limpar a caixa de entrada, tecle #. Para ouvir as mensagens da sua caixa de entrada, tecle 0."
Kurt suspirou curtamente. Ele não era do tipo intrometido. Seu intuito o dizia para teclar 0, mas seu cérebro dizia que era errado. Ele e Blaine estavam juntos por apenas algumas semanas, e fazer isso seria totalmente errado. Antes que outro pensamento pudesse passar pela cabeça de Kurt, seu dedo já deslizava pelo número 0, aonde o castanho apertou.
"Blaine? O-oi. Só queria avisar que vou chegar mais tarde em casa hoje porque uma das crianças está tendo problemas em aprender um dos sentidos. Não se preocupe, Mark deve me deixar em casa lá pelas 22hrs. Te amo." PIII
Kurt sorriu, ainda se sentindo sujo por estar mexendo em coisas pessoais do namorado.
"Dr. Anderson. É do Hospital de Atlanta, aqui na Austrália. Há alguns meses o senhor mandou um pedido de transferência de Ohio, e temos o orgulho de dizer que concordamos em aceitar o senhor. Se ainda estiver disponível e interessado no cargo de Oftalmologista Chefe, nos retorne a ligação. Grato, HA."
A respiração de Kurt estava irregularizada. Blaine havia recebido essa mensagem há quanto tempo? Como desejava enxergar para poder mexer naquele maldito telefone. Logo a insegurança o preenchia. E se Blaine o deixasse para ir para Atlanta? E se lá o médico conhecesse outro cara? E se?
"Você não tem mais mensagens."
Kurt jogou sua cabeça pra trás e passou a mão pelos cabelos, preocupado. Era essa a consequência de se meter aonde não devia. Fechou os olhos e sentiu seu coração bater forte ao ouvir barulho de chaves na porta.
– Demorei? - Sorriu Blaine ao entrar. Ainda vestia seu jaleco, já que Kurt sentia no ar o aroma de hospital.
– Não... - Sentiu os lábios pressionados e Blaine sentar ao seu lado. - Qual era a emergência?
– Alguns representantes de um hospital de outro país vieram e precisavam falar comigo, nada demais. O que você fez nesse tempo vago, hein? - Blaine brincava com os dedos de Kurt.
– Fiquei apenas... - Se intrometendo na sua vida? Ouvindo mensagens que deveriam ser privadas? Quebrando totalmente a sua privacidade e certamente a sua confiança? - ...aqui sentado.
– Isso deve ter sido radical, porém agora que cheguei você quer fazer o quê...? - Blaine depositou um beijo na bochecha de Kurt e se levantou do sofá para tirar o jaleco.
– Você promete não rir?
– Prometo!
– ...Eu queria ir no cinema.
– Ok, isso é novo. - Blaine se sentou ao lado de Kurt, tentando entender a vontade do namorado.
– É que eu sinto falta daquele cheiro de pipoca vindo da doceria. Sinto falta das cenas engraçadas como um bebê chorando e provocando todo mundo, ou um celular tocando... E seria maravilhoso pra você, já que ficou a semana toda comentando sobre aquele filme que entrou em cartaz. Como era o nome mesmo?
– Scary Movie 5? Você quer mesmo ir ao cinema? - Blaine tinha um sorriso no rosto parecido com o de uma criança de cinco anos de idade quando a mãe diz que pode pegar a última bolacha do pote.
– Sim, Blaine. Peque seu casaco e vamos!
Kurt brincou imitando uma mãe e recebeu um tapa fraco no ombro. O moreno depositou outro beijo na bochecha de Kurt e subiu as escadas correndo.
Ao chegar no cinema Kurt sentiu como se pudesse ver novamente. O cheiro de pipoca estava no ar (e Blaine fez questão de comprar o pacote combo para o casal). Escolheram seus lugares e o filme começou. Durante aqueles minutos que ficaram dentro da sala escura, Blaine gargalhava alto (chegando a incomodar os demais tele-espectadores), porém Kurt só conseguia pensar naquela maldita ligação do hospital de Atlanta.
Durante o filme pensava sobre o que faria se por acaso, seu pesadelo acontecesse. Certamente Blaine deveria ter aceitado o convite de trabalho, já que desde quando ficou cego Blaine comentava sobre o centro clínico de Atlanta ser o melhor para tratamentos oftalmológicos.
É claro que não podia simplesmente chegar em Blaine e pedir para o médico ficar. Mas também não podia o deixar ir. Sabia que se Blaine fosse, não voltaria jamais. E a história dos dois apenas pesava mais. E se Blaine se apaixonasse por outro paciente em Atlanta e esquecesse de Kurt? E se os dois fossem perfeitos um para o outro e resolvessem ficarem juntos? E mais uma vez o e se atrapalhava Kurt.
Desde que conhecera o médico, sua vida era mais animada e tinha mais sentido. Se Blaine viesse pedir sua opinião deveria mentir, ou falar a verdade? Deveria dizer que queria ver o médico bem sucedido, porém perto? Ou deveria falar que Blaine deveria ir para Atlanta e tentar um relacionamento à distância?
NÃO! Kurt sabia que isso não funcionava. Relacionamentos à distância não duram. Veriam um ao outro raramente pela câmera do computador, mas não poderiam se tocar. E no caso de Kurt, apenas ouviria o namorado. E a insegurança mais uma vez batia na porta da vida de Kurt. Suspirou confuso, cheio de pensamentos ruins.
– Kurt? Você está bem? - Blaine tinha as mãos nos ombros do namorado. - Pronto pra ir embora? O filme já acabou.
– C-claro, claro. Me desculpe, adormeci aqui.
E com um sorriso falso no rosto se abraçou ao namorado e saiu daquele cinema. Fingir era uma das coisas que Kurt fazia de melhor, e também era a única opção naquele momento.
