Hello people. Como estão? Estou eu aqui novamente, com mais um capítulo da nossa emocionante AGCL. O capítulo de hoje é meio embromation, eu admito. Mas chega de blábláblá e vamos ao capítulo.

Tema: Mentira

Boa leitura!


A HABILIDADE QUE ICHIJOUJI KEN NÃO TEM

Os olhos de Daisuke e Takeru se arregalaram enquanto Ken contava o ocorrido no Digital World. Os adolescentes permaneceram em silêncio enquanto o moreno contava do comportamento estranho de Golemon e sobre como a morte dele tinha sido estranha e diferente de qualquer coisa que ele já vira. Tanto o ruivo quanto o loiro tinham motivos diferentes para não terem aparecido naquele dia. Takaishi estava ocupado com os treinos do time de basquete, enquanto o líder do grupo tinha sido arrastado para as compras por Jun mais uma vez.

O trio estava sentado embaixo da árvore, durante o intervalo. Motomiya abriu a boca várias vezes, mas não disse nada. Já Takaishi lançou um olhar descrente como se isso não fosse possível, embora Ken tivesse certeza de ter visto um lampejo nos olhos azuis, como se ele soubesse mais do que parecia demonstrar.

"Você acha que ele estava sobre controle de alguém?" Finalmente, Daisuke conseguira por as ideias em ordem. Ele já vira dezenas de Digimon sendo controlados e sabia muito bem como era. O comportamento estranho de Golemon se encaixava, mas não a maneira como o desfecho se desenrolava.

Ken deu de ombros, não fazia ideia do tinha acontecido. Todas as suspeitas giravam em torno de controle. Mas, ele melhor do que ninguém sabia como era ter um Digimon sob seu comando e sabia que não funcionava desse jeito. Podia ser algo diferente, uma evolução do que fizera, mas ainda assim, os instintos do adolescente diziam que tinha algo mais.

"Se ele está sob controle de alguém, será um humano?" O ruivo questionou pensativo, mais para si mesmo.

"Pode ser algum Digimon. Quando fomos para o Digital World pela primeira vez, era um Digimon que controlava os outros." Informou Takeru, se lembrando da difícil luta contra Devimon.

"Achei que tudo estava resolvido depois de termos derrotado BelialVandemon." Suspirou Motomiya.

"Sempre vai aparecer alguém querendo se tornar dono, imperador ou qualquer outra coisa no Digital World. O que importa é quão forte ele é e quanto estrago pode fazer." O moreno explicou, usando a si mesmo como referência.

Os garotos mergulharam em silêncio, cada um preso a sua própria concepção do que teria acontecido. O clima do almoço não era o mais alegre e as únicas risadas que se ouvia vinham de um grupo de garotas do terceiro ano sentadas próximas a eles.

"Então, você e a Miyako voltaram a se falar?" Daisuke perguntou quebrando o silêncio. Ichijouji sentiu as bochechas queimarem. Eles estavam compenetrados em um assunto muito sério, não acreditava que o ruivo tinha se lembrado disso justo agora.

"Vocês não estavam se falando?" O loiro perguntou confuso. Estivera tão ocupado com os treinos extras que se tornara totalmente alheio aos acontecimentos do grupo.

"Bom... é que..." O gênio gaguejou sem saber o que responder. Não, ele e Miyako não estavam se falando, aquilo tinha sido uma exceção em um momento de desespero. O garoto engoliu em seco e sorriu. "Sim, nós estamos nos falando."

Mentiu, deslavadamente. Sentiu a voz oscilar e as mãos ficarem geladas. Mas, Daisuke e Takeru não eram tão perspicazes como Inoue e não perceberam a mentira.

"Eu não disse que ela não aguentaria ficar muito tempo brava com você..." E o ruivo deu um soco no ombro do garoto, como sinal de vitória. Takeru olhou confuso, não estava entendendo nada. Ken sorriu, um sorriso que deixou uma sensação amarga no estômago. Não havia vitória nenhuma, ele tinha mentido pela segunda vez.

=8=

Não deveria ser nem dez horas da manhã quando Ichijouji Ken retornou para a casa no sábado. Ele tinha ido ao mercado perto da residência fazer compras para a mãe, não que se humor estivesse bom para isso. Na verdade, seu humor estava terrível desde o dia anterior.

A senhora Ichijouji estranhou quando ele chegou na sexta-feira depois das oito da noite com dois Digimon a tira colo. Ela sequer o havia visto sair. A cara estava soturna e como sempre, ele se restringia a responder o mínimo necessário. Mas ela era mãe, sabia que havia algo errado.

Quando Ken chegou ao apartamento da família, carregado de compras, encontrou sua mãe retirando a mãe do café da manhã, o que ele estranhou, pois sua mãe já havia feito isso quando ele tinha saído para ir ao mercado.

"A Inoue-san esteve aqui." Informou a mulher ao ver o olhar confuso do garoto. "Ela veio buscar o Poromon."

O moreno não acreditava que a moça tinha aparecido justamente na hora que não se encontrava em casa. Ele sabia que ela viria buscar o parceiro, mas não achou que viria tão cedo no dia seguinte. Ele não sabia muito bem como iria encará-la depois do que tinha dito e das conclusões que tinha chegado, mas ainda assim, esperava vê-la.

"Eu servi chá e biscoitos para ela." A mãe dobrava a toalha de mesa. "Mas, ela parecia ansiosa para ir embora." A mulher coçou o queixo, pensativa. "Eu perguntei se ela não queria esperar você voltar, mas ela disse que estava ocupada na loja."

Ken ficou olhando para a mãe, tentando processar as informações. Miyako era realmente muito ocupada com seus afazeres na loja dos pais, mas isso não significava que ela não poderia esperar mais alguns minutos para conversar com o moreno. De forma que a fuga só podia significar que ela o estava evitando. Será que tinha sido muito grosseiro com ela? Será que ela ainda estava brava por tudo o que acontecera? Ele não fazia ideia, do seu ponto de vista, ele tinha muito mais motivos para fugir do que ela.

"Está tudo bem entre vocês?" A mãe perguntou ao perceber a expressão no rosto do filho.

Não estava. Eles não se falavam direito por semanas e depois de ontem a situação havia piorado bastante. Ele tinha percebido o quanto a garota se importava com o mais velho e que seu ciúme era perda de tempo. O tempo dele no coração da garota tinha passado e ele teria que se conformar com isso. Sorriu, e sentiu o rosto doer com a tentativa do sorriso forçado.

"Está tudo bem." E ele mentiu pela primeira vez.

=8=

Ken desejou intensamente que a vida viesse com um manual, explicando cada coisa e comportamento humano, naquela semana. Inoue estava o evitando e isso era nítido. Diferente das outras vezes, quando ela disfarçava ou tentava ser minimamente amigável, desta vez era óbvio que ela não queria ter contato com ele. E até Takeru, que ainda estava muito ocupado com o time, percebeu.

O pedido de agradecimento por ter cuidado de Poromon veio através de um bilhete entregue pela tal Aya durante o intervalo. A letra era um garrancho horroroso e o moreno mal conseguiu entender o que estava escrito. Pelo que se lembrava, a letra de Miyako realmente não era das mais bonitas, mas aquilo parecia uma tentativa de fazer uma letra bonita e caprichosa que dera muito errado.

"O que isso?" Daisuke questionou arrancando o bilhete da mão do moreno e olhando para as palavras ali rabiscadas. Virou o papel em várias posições diferentes, tentando descobrir qual era o lado correto. "Eu não consigo entender nada do que está escrito nisso." E fez uma careta.

Takeru espiou por cima do ombro do ruivo, analisando o bilhete. Fez uma expressão engraçada, como se estivesse vendo algo escrito em árabe. Mas, antes que eles pudessem decifrar o texto e descobrirem que ele mentiu ao afirmar que estava tudo bem entre eles, recuperou o bilhete.

"Isso é particular." Mas se arrependera amargamente de ter tido aquilo, viu as expressões dos amigos assumir um ar malicioso. Principalmente Daisuke.

"Então, vocês se acertaram mesmo." Zombou e Ken sentiu corar até as orelhas. Queria dizer que não era nada disso, mas isso significaria se desmentir. Respirou fundo, ele continuaria mentindo.

=8=

Miyako quase teve um treco ao fechar a porta do seu armário de sapatos[1] e encontrar Ichijouji Ken parado atrás da porta. Ele estava encostado na porta do armário vizinho, gravata frouxa e o cabelo preso em um apertado rabo de cavalo. Ela achava que ele ficava realmente bem com o cabelo preso daquele jeito e sem perceber acabou corando.

"Ken-kun..." Começou, mas ele a interrompeu.

"Eu fico contente pelo bilhete que me mandou, mas você poderia ter agradecido pessoalmente." Falou de uma vez, as mãos estavam no bolso porque estavam trêmulas e sentia como se todo ar do mundo não fosse o suficiente para que ele pudesse respirar.

"Eu imaginei que você estivesse muito ocupado, então não quis atrapalhar. As provas vão começar logo e eu achei..." Ela mexia no cadeado do armário como se sua vida dependesse disso e o rosto assumiu um tom avermelhado que foi se intensificando até quase ficar da cor dos cabelos.

"A respeito do que eu te disse na sexta. E também em todo o resto..." Nem ele acreditava que acordara naquela manhã inspirado o suficiente para ter essa bendita conversa com ela. Sem ensaios ou rodeios, simplesmente deu vontade e pronto. E ele decidiu aproveitar antes que essa sensação de coragem e segurança passasse.

"Sobre isso..." Finalmente, ela se virara para ele, as mãos brincando com os próprios dedos. Ele viu os olhos castanhos se prenderem nele e então lentamente desviarem para o lado, encarando o corredor atrás dele. Então a expressão constrangida mudou para uma preocupada. "Podemos conversar depois? Eu realmente preciso ir." E antes que ele pudesse responder qualquer coisa, ela saiu andando apressadamente. Quando se deu conta, Inoue já estava tão longe no meio do pátio principal que ele só podia identificá-la pela cabeleira violeta.

"A Miyako-chan não estava aqui?" Yagami indagou parando ao lado do moreno. "Eu acenei para ela do corredor, mas..."

"Ela disse que tinha coisas a resolver no clube de informática antes da aula começar." Argh, mentira de novo.

"Ah." A menina assumira uma expressão decepcionada. "Eu venho tentando falar com ela desde o começo da semana, mas parece que ela está me evitando..." Ken franziu o cenho, então ele não era o único? Agora pensando direito, também não se lembrava de ver a mais velha falando com Motomiya ou Takaishi. "Eu queria perguntar do encontro, mas ela não quer me dizer como foi. Só disse que foi normal. O que é normal? Eu preciso saber dos detalhes entre ela e o Koushiro..." mas a frase foi morrendo junto com a repentina animação. Lentamente, Hikari encarou o moreno e sentiu-se sem jeito, tinha dado uma bola fora. "Ah, me desculpe por isso." Tentou consertar.

"Desculpar pelo que?" Questionou, os olhos ainda presos no ponto onde Miyako desaparecera.

"Bem, você e a Miyako-chan. Quer dizer, ela gostava de você antes e então vocês ficaram muito próximos e..." Ela estava se enrolando. Hikari não era tão ingênua ou alienada como parecia e assim como todo mundo, percebera que algo havia mudado na relação entre os dois adolescentes. Mas como não tinha detalhes da situação, não podia garantir se era um romance ou outra coisa.

"Está tudo bem, nós somos só amigos."

"Mesmo? É que eu achei que você gostasse dela." Falou por fim, ligeiramente insegura. Hikari e Ken eram os menos próximos no grupo e embora conversassem e gostassem da companhia um do outro, não era nada tão íntimo.

"Eu gosto, como amigo." Mentira. "E eu fico muito feliz por ela e o Izumi-san." Mentira dupla.

Hikari o encarou desconfiada, mas ao ver os olhos azuis não vacilarem, aceitou a resposta. Ken se sentia péssimo, não só perdera a chance de falar com Inoue, como também mentira de novo. Ele já estava perdendo a conta de quantas mentiras tinha contado aquela semana.

=8=

Era sexta-feira e como de costume, os Digiescolhidos estavam na cafeteria fazendo planos para o fim de semana. O clima estava leve e divertido. Finalmente, Takeru tivera uma trégua nos treinos, Daisuke contava piadas que não faziam o menor sentido, Iori se deliciava com um gigantesco milk-shake e Miyako tentava escapar das perguntas indiscretas de Hikari, a caçula Yagami estava mesmo muito curiosa sobre o tal encontro.

Vez ou outra, Ken via Miyako corar fortemente diante das perguntas da morena. Elas estavam sentadas do outro lado da mesa e falavam baixo, de forma que Ken não sabia o que era dito. Ele havia se conformado em tê-la perdido ou ao menos tentava se convencer disso, o que não era nada fácil. Os questionamentos de Wormmon se tornaram constantes e agora era óbvio para o monstrinho os sentimentos do seu parceiro pela moça. Além disso, os diálogos com seu outro lado havia se tornado frequente e Ken não sabia dizer se isso era bom ou ruim. Em partes era bom, pois finalmente parecia que ele tinha controle do seu ciúme e conseguia mantê-lo seguro junto com o Kaiser, por outro lado, se tornar tão próximo do seu lado negro poderia significar que ele estava sucumbindo novamente. E ele tinha muito medo disso.

O celular da guardiã da luz tocou e ela se retirou da mesa para atender. Não passou despercebido o olhar ligeiramente enciumado que Daisuke lançara para o pobre aparelho celular, nem o alívio no rosto de Inoue, que finalmente teria uma trégua. Quando Hikari voltou para a mesa, toda saltitante, informou aos amigos que recebera uma ligação do irmão. Segundo ele, Koushiro tinha conseguido a bolsa de estudos que almejava e em breve embarcaria para a América. De forma que, todos tinham planejado uma festa de despedida para o rapaz, que aconteceria dali quinze dias na residência dos Yagami.

"Por que na sua casa?" Questionou Daisuke, que parecia bem aliviado pela ligação ter sido de Taichi.

"Eu não sei ao certo, mas segundo o onii-chan foi nossa mãe quem sugeriu." Deu de ombros como se não se importasse realmente com o motivo.

Todos, com a exceção de Ken, pareciam bastante felizes e empolgados, e o moreno avaliou que tal sentimento deveria estar muito mais ligado a festa do que a promoção do senpai. Mas não os culpava, sabia muito bem como tudo era motivo para se reunir e festejar e gostava disso no grupo.

"Ichijouji-kun, você também vai, não é?" Iori questionou, a boca cheia de milk-shake. Ken estranhou a pergunta, ainda mais vinda de Iori. Será que seu desagrado com Izumi era tão evidente? "É que você não gosta muito de festa..." Completou ao ver a expressão no rosto do outro.

"Ah! Claro que eu vou." E sorriu aquele sorriso de doer os músculos do rosto. Ele não tinha pretensão nenhuma de ir, mesmo que tivesse se conformado com a derrota não queria dizer que teria que ver o momento de despedida in love entre a garota lavanda e o veterano. "Eu vou dar uma passadinha, pelo menos." Complementou dando mais ênfase a mentira.

"Acho que vou fazer o mesmo." O menino sorriu satisfeito. Embora gostasse de festas, Iori se sentia deslocado quando participava delas por não conseguir exprimir seu contentamento, ao menos quando Ken estava presente, ele tinha com quem interagir.

O moreno desviou os olhos do amigo e deixou o olhar deslizar pela mesa. Seus olhos se encontraram com os castanhos da Inoue e ele a viu mover os lábios formando uma única palavra. Empalideceu, depois de tantos dias mentindo tinha se esquecido de que ele não era nenhum especialista, não era infalível e sempre haveria uma pessoa que saberia. Ela saberia.

"Mentiroso." As palavras produzidas no silêncio o denunciavam.


N/T: [1] Caso alguém não esteja familiarizado, é comum no Japão ter um armário para se guardar os sapatos, já que na escola se usa um calçado específico e não o mesmo que você usa para andar na rua.

O capítulo não ficou lá aquelas coisas, mas espero que gostem.