Capítulo 13 – Então é Natal... 1

Eu sei que é errado, mas eu odeio muitas coisas. As pessoas conseguem ver claramente como eu odeio todas essas coisas, e por que eu odeio todas elas também. Geralmente é por causa de Potter, que as torna irritantes a um certo grau onde elas se tornam insuportáveis. Com o Natal, entretanto, é diferente. Apesar de James gostar do Natal quase tanto quanto eu – uma vez eu entrei no dormitório dos meninos do meu ano e encontrei uma árvore montada, além de várias e várias réplicas de pais natais espalhadas por mesinhas cobertas de guirlandas – ele não consegue faze-lo irritante.

O Natal é época de sorrisos, azevinho, canela e chocolate quente, além de neve, que é a coisa mais mágica na Terra. Não existe uma coisa sequer que eu odeie no Natal – as músicas, a tensão de fazer compras perfeitas para todos os seus amigos e família, a mesma comida sendo servida por dias a fio porque sobrou da ceia, ter de acordar cedo e ficar animada apenas para abrir presentes. Não. Nem mesmo os sempre irritantes presentes que James Potter sempre insistiu em me dar acabavam com meu ânimo. Eu continuei amando o Natal.

Quando meu pai morreu, eu me perguntei se algum dia voltaria a gostar de alguma coisa. Minhas amigas me descreveram como um zumbi, até o dia primeiro de Dezembro, quando as primeiras decorações natalinas foram postas em Hogwarts - eu nunca antes tinha ficado no castelo para o Natal, e agora tinha de ficar, porque me recusava a trocar presentes e me fingir de alegre para minha irmã estúpida. No dia primeiro, quando eu vi uma guirlanda coroando deslumbrantemente uma armadura bem-polida, eu senti algo como vida dentro de mim de novo. E voltei ao normal. O Natal tem essa força sobre mim.

Apesar de eu sentir falta dos natais em casa, natais em Hogwarts são muito bons. Então, esse ano, quando eu cheguei no castelo depois de um mês infernal sob a custódia legal da minha irmã ridícula, eu não conseguia parar de pensar sobre como seria o meu Natal. Eu comecei a fazer uma lista de presentes a dar em Outubro, e em Novembro eles já estavam todos comprados, e enquanto eu os embrulhava num sábado, eu comecei a cantarolar as minhas canções de Natal. E então, uma semana antes do dia mais mágico do ano poder chegar para mim, antes de eu poder realmente apreciar o cheiro de peru assado e arroz com passas, eu entrei nessa vida de merda.

Você tem de entender, eu não desaprovo a desilusão de meu eu-futuro, que apenas queria fazer uma boa ação ao me enfiar nessa vida, sabe; eu comecei a entender que ela apenas queria me ver feliz e, sabendo que ela, por alguma razão desconhecida, era feliz nesse lugar do inferno, achou uma boa idéia me colocar aqui. Mas escolher especificamente meu último Natal em Hogwarts para estragar a minha vida, isso é demais. Foi a escolha mais pscico-obsessivamente idiota que eu jamais imaginei que faria. De verdade.


A primeira coisa que ela percebeu, era que, pelas graças de Morgana, não estava mais montada em uma vassoura. Depois, enquanto se ajeitava melhor, para que aquela coisa que estava lhe cutucando as costas desaparecesse, ela se perguntou vagamente se estivera realmente em uma vassoura, e enquanto bocejava, concluiu que havia tudo sido apenas um pesadelo.

Abriu um pouco os olhos, e piscou fervorosamente diante da luz; todo o cômodo estava banhado com um brilho branco e puro, e ela sentiu-se de repente mais desperta e feliz do que estivera durante toda aquela semana. Abriu um sorriso preguiçoso, e esticou as pernas, levando as cobertas um pouco para baixo. Neve. As janelas do quarto estavam abertas para mostrar uma quantidade quase doentia de neve cobrindo toda a paisagem ao redor da casa em Godric's Hollow.

Uma risada se formou no fundo de sua garganta, e Lily abriu os olhos completamente, e observou a paisagem num transe durante alguns segundos, antes de se lembrar que, antes de montar naquela vassoura e voar nos seus sonhos, ela havia estado na sala. Franziu as sobrancelhas ruivas e virou-se na cama, para encontrar um rosto adormecido próximo do seu. Piscou algumas vezes, observando James com quase tanta atenção quanto dispendera para a paisagem, e então suspirou, e a sensação do ar morno que saíra dos lábios de Lily atingindo sua pele acordou James.

"Bom dia" ele murmurou, e sua voz estava rouca, sonolenta e cansada. Ela abriu um sorriso contra todas as suas expectativas, e o encarou, olhos verdes se perdendo em olhos âmbar.

"Você está vivo" ela murmurou, e nunca havia sentido tanto alívio em toda sua vida. Piscou os olhos, feliz, e suspirou mais uma vez. James sorriu para ela.

"Você não está casada com o Sirius" ele respondeu, e ela percebeu que ele estivera brincando com seu dedo anular durante todo o interlúdio; baixou os olhos e encarou o lugar onde a mão dele se perdia na sua, até não conseguir mais focalizar em nada, e suas pálpebras voltarem a pesar.

"O Remus faz mais meu tipo" ela murmurou de volta, e seus lábios quase não se mexeram; ela estava se deixando afundar na felicidade de saber que não era responsável pela morte de ninguém, pelo alívio de saber que James estava realmente vivo, e inteiro, e que seu eu-futuro não sofreria as conseqüências de Lily não saber lidar com seu humor de grávida.

Sentiu James a abraçando apertado, mas esqueceu, por alguma razão, de protestar ou de tentar se afastar dele. Apenas ficou ali, sentindo os braços quentes, a respiração morna, e a sensação gostosa de cócegas no estômago que o alívio lhe dava. E então, começou a sentir calor. O que era esquisito, levando-se em conta que havia nevado.

E a mão de James subiu lenta e suavemente pelas suas costas, e pousou em sua cabeça; Lily podia sentir os dedos dele passeando por entre seu cabelo, num carinho impensado, e sentiu mais e mais calor a cada segundo; o calor vinha em ondas, e Lily se pegou perguntando-se se seria a mulher mais nova a jamais entrar na menopausa. Piscou, confusa e chateada com esse pensamento - oras, afinal, ela realmente queria ficar grávida algum dia – e então se lembrou que estava grávida, e que essa linha filosófica era ridícula, e riu.

A mão de James escorregou de novo para sua cintura, enquanto ele se afastava um pouco e a encarava com uma expressão confusa.

"O que houve? Você adquiriu cócegas na cabeça, recentemente?" ela sorriu para ele, e balançou a cabeça, sentindo-se alegre e leve como nunca, e riu mais uma vez.

"Não... Eu..." ela riu mais um pouco antes de continuar, afundando sem querer a cabeça no peito dele na tentativa de controlar a respiração e parar com os surtos de idiotice "Eu estava sentindo essas ondas de calor, e eu achei que estava na menopausa, mas é obvio que eu não estou, Merlim e Agrippa, eu estou grávida!" ela recomeçou a rir, e as ondas de calor vieram cada vez mais fortes, enquanto James sorria contra os cabelos dela, tendo afundado o nariz – a respiração dele era quase tão quente quanto seu corpo – contra sua pele.

"Calor, huh?" ele riu uma risadinha profunda, e então houve silêncio. Lily parou de rir, parou de respirar, por Merlim, até seu coração parou de bater. Ela apenas piscou uma, duas vezes, e se afastou de James, finalmente reconhecendo as ondas de calor, e soltou um gemido baixo enquanto fechava os olhos e escorregava para fora da cama.

Não. Tudo menos... Tudo menos tesão por James Potter. Até morte, até amor, mas não... não tesão. Fechou os olhos, e sua expressão era tão dolorida, que James se preocupou de seu lugar na cama.

"Lils?" ele perguntou, sentando-se, e Lily se viu forçada a encontrar a imagem da pele dele, enquanto os lençóis escorregavam languidamente dos ombros para o colo. Lily segurou um gemido no fundo da garganta, enquanto o calor tornava-se quase insuportável, e se arrastou – estava caída no chão – até a porta do banheiro, encostando as costas nela e se vendo impedida pelo corpo revoltado de tirar os olhos de James "O que houve, ruiva?" ela piscou, seguindo os traços de três grandes cicatrizes entre os ombros e o peito dele – duas pareciam antigas, pálidas e quase imperceptíveis, e uma brilhava e pulsava, quase a assustando com a atualidade de sua existência – e de alguns hematomas, roxos e gritantes. A respiração ficou contida em sua garganta.

"Você está roxo!" ela murmurou sufocadamente, ao que ele riu, jogando as cobertas de lado e escorregando na direção dela, que espremeu os olhos até não conseguir mais ver que James estava completamente pelado, e cruzou as pernas tentando conter seu desejo. Mas ele parecia decidido a não ajudar a causa dela, de manter os olhos longe dele. James sentou-se à sua frente, e assentou as mãos calmamente nas dela.

"Você tem esse poder sobre mim" o tom dele era apenas meio brincalhão, e enquanto as ondas de calor atingiam simplesmente o grau do intolerável, ela sentiu James conduzindo suas mãos, que tremiam, até a cintura dele. Outro gemido baixo, contra as próprias expectativas.

"Pare" ela conseguiu murmurar, relutantemente, entre suspiros e gemidos roucos, enquanto James se aninhava entre suas pernas e começava a brincar com seu pescoço. Ele não parou; de fato, ele pareceu nem perceber que ela havia falado, e ela tentou mais uma vez e mais uma. Na quarta, já não tinha mais forças, e James havia largado seu pescoço, e deslizado até seus ombros. Ela nunca havia percebido quão sensível era a pele na sua clavícula.

Fechou os olhos, sabendo que, graças ao corpo rebelado, perderia a virgindade. Sabia, a partir do momento em que James largou a região do seu pescoço e começou a brincar alegremente com a alça do top que ela vestia, que não tinha mais volta. Ela estava fodida. Literalmente.

Espremeu os olhos tanto quanto pôde, enquanto sentia o sutiã saindo de seu corpo. Seus braços se levantaram como que em reflexo, e James a encarou nos olhos, repentinamente, com reverência.

"Eu te amo" ele balbuciou, e ela sentiu como se todo seu corpo tivesse se derretido no calor, e seu coração tivesse tombado aos pés dele. Havia algo de tão verdadeiro nas palavras dele, que ela apenas o encarou de volta, e permitiu sem insurgir-se que suas mãos fossem até os cabelos dele, deslizassem através dos fios rebeldes, e depois pela linha do maxilar e, afinal, pousassem ao redor do rosto dele carinhosamente, quase como numa mesura. Ela pousou os olhos verdes nos dele, e se perdeu ali durante longos segundos, conseguindo enxergar sem nenhuma barreira dentro da alma dele, e sorriu.

"Você é incrível" ela suspirou para ele, e se estendeu na direção do corpo nu do marido, descansando a testa contra a dele e fechando os olhos devagar. Ele passou os braços ao redor dela, e ela sorriu amavelmente, enquanto o calor a envolvia da maneira mais agradável possível. Suspirou mais uma vez e, de maneira tão relutante que era quase tímida, deixou o nariz roçar no dele, e inclinou o rosto um nada para o lado. Sua respiração se encontrava brandamente com a pele macia da bochecha dele, e ela sorriu contra a barba mal-feita e sentiu novamente aquela sensação terna de cócegas no estômago. Riu.

"Você é louca" ela o ouviu murmurar, e antes que pudesse fazer qualquer coisa, os olhos dele se fecharam, e ele se inclinou languidamente na direção de seus lábios. O primeiro toque foi suave como um carinho, o segundo foi mais elétrico, e o terceiro beijo tirou-a completamente dos trilhos; ela sentiu o mundo rodando e o ar começou a entrar de maneira cada vez mais rarefeita dentro de seus pulmões, e ela se apertou mais contra ele, a sensação de pele contra pele lançando arrepios por sua coluna, enquanto os dedos de James faziam um caminho intrincado, passeando por seus cabelos, descendo como fogo pelas suas costas e a puxando mais perto pela cintura. Soltou os lábios dos dele, e sentindo-os inchados e ardidos, fechou os olhos, lutando para respirar normalmente. James riu, e abriu caminho até o ouvido dela, onde pousou os lábios em um beijo como asas de borboleta. Ela sorriu "Vamos para a cama, Sra. Potter?" ela estava pronta para abanar a cabeça em concordação quando algo a atingiu como um caminhão de quatro toneladas no peito. Ela tossiu, buscou ar, buscou fugir da realidade, mas ela estava ali, mais viva e clara do que nunca. Lily fechou os olhos, engatinhando para longe de James, até a janela gelada, e encostou a testa ali.

"Oh, Merlim" ela murmurou, e escondeu o rosto nas mãos, ainda de costas para um James que piscava aturdido. Estava semi-nua, se agarrando com Potter, se preparando para perder a virgindade, se deixando agir como se estivesse, como se estivesse... apaixonada por ele, ou algo do tipo. Tossiu mais algumas vezes, o ar ainda relutando em voltar a fazer parte dela, e abriu os olhos, os arregalando em horror.

"Lily?" ele perguntou, e ela buscou freneticamente por uma boa desculpa para se levantar e sair, o deixando o mais longe possível dela.

"Bebês!" ela gritou, baixando as mãos do rosto e virando-se para ele, os olhos ainda arregalados, o peito descoberto ainda subindo e descendo ofegantemente, na busca desesperada por ar "Os bebês!" ela continuou, e James espremeu as sobrancelhas como se ela fosse louca – e, pensando bem, talvez ela fosse. Se agarrar com James Potter? Pelo amor de Merlim, Morgana e Agrippa! "O bebê pode..." ela fechou os olhos, respirou fundo e tentou clarear a mente, buscando pelas palavras da história cinco do livro sobre como assustar pais de primeira viagem "... ele pode... Os bebês não gostam de objetos estranhos!" ela cuspiu as palavras alegremente, feliz de se lembrar dos termos "E ele pode... Ele pode..." ela fechou os olhos e se levantou, indo até o outro lado da cama, a colocando como um obstáculo entre ela e James "Ele pode querer se livrar do objeto estranho..." ela abriu os olhos e direcionou um olhar cheio de significado para James, que baixou as mãos cuidadosamente sobre a própria região pélvica, parecendo ligeiramente assustado; ela sentiu alívio fluindo nas veias, um alívio muito diferente do que ela sentira apenas minutos atrás, quando percebera que James estava vivo. Fechou os olhos e respirou fundo, levando a mão até o peito para controlar o coração acelerado. Depois, abriu os olhos, um sorriso, e encarou James relutantemente "Eu vou fazer café da manhã"

Saiu pela porta, desceu as escadas e só quando alcançou a cozinha percebeu que não vestia nada além de sua calcinha, que estava furada perto do cós; suspirando, foi até o armário do corredor e o abriu, tirando uma das camisetas de James de dentro e a jogando por cima do corpo. Era grande demais, como o esperado. Lily não se incomodou e foi até a cozinha. Olhou ao seu redor, foi até o fogão e arrancou uma panela do armário, a pousando sobre ele com um alto 'clang'. James apareceu na porta.

"O bebê pode mesmo arrancar meu pinto fora?" ele perguntou, levantando uma das sobrancelhas como que para demonstrar que pensara melhor sobre o caso e que achava que ele era altamente improvável. Ela levantou os ombros como resposta.

"Eu estou apenas preocupada com o seu órgão reprodutor, James" ela respondeu, apontando a varinha pela cozinha e encantando alguns ingredientes para entrar na grande panela. James piscou e escolheu mudar de assunto, antes de entrar em mais uma briga.

"O que nós vamos servir amanhã?" Lily o encarou por cima do ombro enquanto misturava energicamente os ovos para que não houvesse qualquer sinal de claras. Ele sorriu para ela, e ela espremeu as sobrancelhas.

"Hm... Não sei?" ela parecia confusa, e James se pegou rindo antes que se pudesse conter. Lily sentiu a raiva começando a borbulhar em fogo baixo no fundo dela.

"Amanhã é véspera de Natal, Lily. A gente precisa fazer alguma coisa. O papai 'tá vindo, e os Marotos" ela arregalou os olhos e espiou ao seu redor, e depois para a sala, onde não havia sequer um sinal de guirlandas ou enfeites vermelhos.

"Onde estão as decorações?" ela perguntou, e sua voz saiu um pouco mais alta do que ela esperava; James riu a guisa de resposta.

"Bem, a gente sempre coloca as decorações junto do papai e dos Marotos, na véspera. Se esqueceu, foi?" ele levantou-se da mesa, e foi até a geladeira, de onde tirou uma garrafa de leite. Serviu um copo "Agora, sobre o almoço do dia vinte e cinco... Você quer cozinhar ou pedir algo do Koll?" ela deu de ombros mais uma vez, e observou atentamente o bacon, esperando deixa-lo crocante, mas não queimado.

"Tanto faz" James tomou um gole do leite, e então se levantou mais uma vez, segurando o copo e o estendendo na direção dela. Lily o segurou sem pensar muito, e o drenou de uma vez só.

"Koll, então" ele abriu um sorriso, pousou um beijo terno na ponta do nariz dela, e escapou da cozinha, enquanto Lily terminava de preparar o café da manhã. Botou a mesa, descobrindo por impulso onde estavam os pratos e copos, e chamou por James. Ele não apareceu. Ela franziu as sobrancelhas.

"James Potter! O café está pronto!" ela esperou por um minuto inteiro, sem nenhum sinal de James. Piscou, confusa, e foi até a sala. Vazia. Subiu as escadas. O quarto estava vazio. O banheiro estava vazio. Sentindo o coração acelerar levemente, ela desceu as escadas novamente e foi até o estúdio, sem nenhum sinal de James. Fechou os olhos e respirou fundo, tentando se acalmar. Andou até a pia e apoiou as mãos na bancada, tentando não se sentir preocupada – era sobre James Potter que estava falando, pelo amor de Merlim, não havia razão para sequer pensar nele. E então, ela levantou os olhos para a janelinha à sua frente, e encontrou a neve olhando de volta para ela e, jogado no meio dela, o corpo de James Potter, coberto por um casaco vermelho do tamanho de um iglu.

Arregalou os olhos e correu para a porta que dava no quintal, pisando na neve com os pés descalços e correndo na direção dele, desespero achando o caminho até seu coração. E então, ela percebeu que ele estava se mexendo, e o mesmo alívio que tomara conta dela aquela manhã apareceu, e ela se jogou de joelhos na neve ao lado dele, e ele sorriu para ela do seu lugar, deitado no chão gelado.

"Não é uma idéia muito inteligente sair pelada na neve" ele disse para ela, e a puxou por cima do corpo dele, cobrindo-a com o casaco-iglu também, percebendo que ela tremia vagamente.

"Eu não estou pelada. O café está na mesa" ele sorriu para ela e a abraçou por baixo do casaco. Ela deixou.

"Ok, vamos tomar café, e depois a gente vai ir pro Beco Diagonal... Ou você quer começar na Londres trouxa?" ela franziu as sobrancelhas, parecendo confusa mais uma vez, e James franziu as sobrancelhas de volta para ela "Você não se esqueceu das infames compras de Natal, esqueceu?" toda a tensão no rosto dela se dissolveu, e ela abriu um sorriso do tamanho do mundo.

"Compras de Natal? Por que você não me disse antes?" ela jogou o casaco gigante para o lado e pulou de pé, sentindo alegre a neve se espremer por entre seus dedos, e riu "Compras de Natal!" ela bradou uma ultima vez antes de correr de volta para dentro da casa.

Lily já havia comido metade do café da manhã quando James finalmente entrou na casa, chacoalhando neve para longe dos cabelos e jogando o casaco – que poderia caber em Hagrid com um pouco de esforço – no chão ao lado da porta.

"Querida, cheguei!" ele bradou em alto e bom som, ela sorriu contra a própria vontade; o Natal a deixava de extremo bom-humor. Jogou-se na cadeira em frente à dela e sorriu.

"Eu gosto da idéia de começar no Beco Diagonal" ela falou, enquanto ele se servia de todo o bacon e ovos que haviam sobrado nas frigideiras.

"Beco Diagonal, então" ele sorriu, e enfiou um pedaço de bacon na boca "Nós precisamos comprar flú. Você andou saindo muito" ela balançou a cabeça negativamente, e sorriu.

"Você me deixou frustrada, o que posso fazer?" ele riu diante daquilo, e ela franziu as sobrancelhas, toda a felicidade do Natal escapando por entre seus dedos enquanto ela pensava sobre os últimos dias "James" ele parou de sorrir e se preparou para o que ele sabia estava vindo "Por que você foi embora sem me dar explicações?"

"Era uma missão da Ordem, Lily" ele falou, e ela largou o garfo sobre o prato.

"Eu sou..." ela baixou os olhos e respirou fundo, na busca por uma palavra melhor que 'esposa', mas nada lhe ocorreu "Eu estou casada com você, James. Eu mereço, no mínimo, uma explicação sobre pra onde você foi e com quem"

"Eu fui numa missão da Ordem da Fênix, com membros da Ordem da Fênix" ele falou, o tom muito sério e consternado "Eu achei que você fosse mais esperta do que perguntar detalhes, Lílian"

"Pois é, James, me desculpe se eu estou saindo dos trilhos durante a gravidez, mas é que eu me preocupo com o fato do meu bebê ser órfão de pai!" ele não respondeu, apenas deu uma mordida vantajosa num pedaço de bacon e se levantou. Andou de um lado para outro da cozinha. Lily sentiu algo morno dentro dela, ao perceber que estava chamando aquele bebê de seu. Porque talvez ele fosse mesmo.

"Lily, nós já discutimos isso. Eu não posso falar sobre as missões" ele se sentou de novo, em frente a ela, e segurou suas mãos "Mas eu não tenho planos de ir em mais nenhuma enquanto você estiver grávida, está bem? Então não vamos fazer disso algo maior do que é" ela suspirou, e tirou as mãos das dele, levantando-se para levar os pratos na pia. Houve silêncio por um momento, e então James abriu um sorriso de orelha a orelha, e levantou-se também "Compras de Natal!" ele bradou, e ela sorriu contra a própria vontade.

"Potter, pare com essa tática melindrosa" ele riu também, enquanto ela pegava o prato das mãos dele "Eu não vou ficar de bom humor" ela terminou de lavar a louça, e ele já tinha desaparecido da cozinha. Suspirando, e lutando contra a sensação de que estava sendo boa demais com Potter para ser verdade, subiu as escadas e abriu a porta para o quarto.

E ali estava ele. Enrolado numa toalha branca. Completamente nu. Para variar.

Corando furiosamente, Lily abriu caminho pelo quarto até o banheiro, enquanto Potter estendia os lençóis.

"Que obsessão é essa que você tem com andar pelado, Potter?" ela resmungou em tom meio conversacional, enquanto puxava algumas roupas do armário no banheiro em busca de algo para vestir; James riu lá do quarto, e veio até a porta.

"Por quê? Vai começar a ter problemas com meu lindo corpo agora, Sra. Potter?" ela balançou a cabeça, mas ainda estava vermelha como um tomate, e finalmente se decidiu sobre as roupas. Pousou-as sobre o vaso sanitário, e encarou a cabeça de James.

"Eu preciso tomar banho, Potter" ele sorriu para ela.

"É exatamente isso que eu estou esperando" o sorriso dele era tão pervertido, que Lily sentiu pena da mente dele, por um segundo "Eu ainda não vi minha mulher pelada, desde que ela se descobriu grávida" Lily se engasgou com o ar, e o encarou de olhos arregalados.

"Desde quando você é um voyeur obcecado, Potter?" ele sorriu para ela, jogando suas roupas no chão e sentando-se no tampo da privada, como quem espera um show e tanto.

"Desde o dia em que me casei com você. Não se lembra que eu recebi minha carteirinha do 'clube do voyeur' junto da passagem para o Marrocos, antes da lua-de-mel?" ela franziu as sobrancelhas. Ele era maluco. Completamente maluco.

Sem muita enrolação, Lily sacou a varinha, apontou-a para a cara de James e bradou 'conjunctivitus'. Enquanto ele gritava, ela arrancou as roupas e entrou no chuveiro.

"LILY! LILY!! TIRA ESSA MERDA DA MINHA CARA!!! ISSO DÓIIIIIIIIIIIII!"

Ela o ignorou lindamente, e terminou o banho enquanto James rolava pelo chão com as mãos nos olhos, gemendo, bufando e gritando, a toalha tendo escapado de seu lugar há muito tempo. Lily pegou a toalha do chão e se enrolou nela. Depois, com um sorriso, bradou a varinha na cara de Potter.

"Finite" ela murmurou, e buscou as roupas que havia separado mais cedo. Estava prestes a alcançá-las quando um par de mãos segurou seus tornozelos e a trouxe com tudo para o chão "POTTER!" ela gritou, massageando os cotovelos, que haviam lhe aliviado a queda.

"Nada disso, mocinha!!! Eu vou ficar com dor nos olhos por dias, você vai ter de me pagar!" ela sentou-se de costas para ele, e estava prestes a se virar para mandá-lo para um lugar pouco respeitoso, quando sentiu um arrepio subir-lhe a coluna. Uma mão gelada havia pousado no lugar onde seu pescoço se perdia nas costas. Puxa, ela nunca percebera quanta pele sensível havia em seu corpo.

"Potter...!" ela murmurou, tentando soar assustadora, mas sua voz saiu baixa e quebrada, enquanto ela segurava a respiração e ele brincava com a toalha.

"Lily..." ela podia ouvir o sorriso na voz dele enquanto ele se abaixava na direção de seu ouvido, e puxava a toalha para longe. A pele dele encontrou a dela. Ela gemeu.

"Chega..." ela murmurou, mas ele não escutou, passando a mão delicadamente pela barriga dela, e subindo devagar na direção de seus seios. Ela estava tremendo, e não tinha certeza se conseguiria formular uma frase completa, se sua vida dependesse disso. Ele beijou-lhe a nuca, ao mesmo tempo que descia um dedo delicadamente por sua perna. Arrepios.

"Lily..." ele murmurou, enquanto escorregava a mão calmamente pela barriga dela, passeava pelos seios, e parava na linha de sua mandíbula; virou o rosto dela, de modo que os dois estivessem se encarando "Eu te amo" ele murmurou contra os lábios dela, os olhos fechados, e a beijou suavemente. Ela estava começando a se perder na sensação quando ambas as mãos dele frearam sobre a barriga dela, e ela sentiu algo gelado espalhar por todo o seu corpo; parou com tudo, buscando ar, enquanto ele começava a rir contra os lábios dela, e a mexer desenfreadamente os dedos na barriga dela, provocando cócegas. Ela rolou para fora do colo dele – quando ela havia parado ali? – e perdeu totalmente o controle, rindo e abanando os braços em tentativas inúteis de pará-lo.

Foram longos cinco minutos antes dela poder respirar calmamente, e se controlar de vez. James já estava de pé e dentro do quarto, parecendo feliz consigo mesmo.

"... e você tem de entender que com Jamisey, aqui, não se brinca!" ele terminava um longo e egocêntrico discurso. Lily franziu as sobrancelhas, segurando a toalha por sobre os ombros e sentindo os cabelos molhados começarem a espetar para todos os lados.

"Cale a boca, Potter" ela resmungou, e já estava com as roupas de baixo quando James tirou-a da tenda que era a toalha, e puxou-a para um abraço mal-humorado; dessa vez ela estava mais preparada, e o empurrou com força para longe, se enfiando nas calças e jogando olhares assassinos na direção geral onde achava que ele estava caído "Eu estou pronta. Vamos para o Beco Diagonal ou não?" ela resmungou para ele, finalmente virando-se e enfiando a varinha no bolso de trás enquanto abria um sorriso manso.

Ele não estava em nenhum lugar onde ela pudesse ver.

"James...?" ela murmurou, mas nada. Ela franziu as sobrancelhas, e deu alguns passos cautelosos na direção do banheiro, mas ele não estava lá. Prevendo mais uma cena patética como a da manhã, ela olhou para fora, na neve, mas não havia nenhum sinal do moreno. E então ela ouviu. Um pequeno murmurar de tecido a sua direita. Virou-se rapidamente e estendeu as mãos para frente abanando-as como uma pessoa dementada, e sentindo-se furiosa "POTTER! PARE COM ESSA BRINCADEIRA ESTÚPIDA!"

"Eu não sou o Potter" veio a voz de James, a sua frente, fingindo-se feminina "Eu sou o fantasma do Natal passado. Eu vim aqui para mostrar que você pode ter uma transa tão boa quanto a do ano que passou, hoje..." ela riu contra a própria vontade, se curvando sobre o próprio estômago em busca de ar, e a cabeça de James apareceu flutuando à sua frente. Ele ria também.

"Uma capa da invisibilidade" ela conseguiu finalmente murmurar "Brilhante"

"Não" ele falou, levantando as sobrancelhas com um sorriso "A minha capa da invisibilidade. Que vai pertencer à esse bebê do tamanho de um grão de feijão quando ele ficar do meu tamanho" ela sorriu, traquinas, mal percebendo que estava flertando alegremente com ele.

"Pois não vai demorar muito, tendo em vista quão baixinho você é!" ele se fingiu ultrajado, jogando-se na direção dela com os olhos brilhando; ela riu mais uma vez, escapando por pouco do peso do corpo dele.

"CHEGA!" ela bradou, feliz, e James rolou no chão, ainda rindo, para encará-la; ela sorriu "Beco Diagonal, James! Nós temos de fazer compras de Natal!"

"Você não vai fazer compras de Natal antes da gente dar uma rapidinha" ele se estendeu para puxa-la na direção dele, mas ela deu alguns passos para trás, sentindo-se tímida e cansada de brigar, de repente.

"James, o bebê vai cortar fora o seu pau" ela resmungou, e ele deu de ombros.

"Eu prefiro ser castrado a passar mais um dia sem dormir com você, Lily" ela abriu um sorriso, ajoelhando-se à frente dele.

"Certo. Eu posso dar um jeito nisso. Só tenho de descer até a cozinha e pegar uma faca, e..." ele riu, e segurou as mãos dela, sorrindo amavelmente. Havia algo cansado e chateado no fundo do olhar dele, mas ela escolheu ignorar aquilo espetacularmente, até ouvir o que ele tinha a dizer.

"Se você não quer transar, basta dizer" ele disse, largando as mãos dela lentamente, e ela sentiu arrepios subirem por sua espinha; decidiu que estava com frio, e que se arrepiava porque havia nevado, e não porque James estava sendo tão... Esquisito.

"Eu não quero transar" ela falou, a voz decidida, mas algo dentro dela pareceu protestar diante dessa decisão, e ela tentou sorrir para ele, falhando miseravelmente.

"Certo. Compras no Beco Diagonal" ele falou, levantando-se de um pulo e andando até a porta sem nem olhar para trás. Ela o seguiu obedientemente, desceu as escadas e ele a esperava sorrindo perto da lareira, segurando calmamente o casaco do tamanho de um iglu; ela franziu as sobrancelhas "Você vai de flú?"

"Vou" ela murmurou como resposta, e foi até a lareira. James esperou ela entrar na rede de flú antes de desaparatar, e os dois se encontraram no barzinho escuro que era o Caldeirão Furado. Seguiram sem dizer nenhuma palavra até o Beco Diagonal, e começaram a andar randomicamente pelas ruazinhas cheias de pessoas, sem se encarar. Lily lutava contra a vontade de se virar para ele e rir, enquanto ele andava com aquele monstro de casaco tão naturalmente, mas apenas virou a atenção para as lojas e fingiu que ele não era ridículo. Haviam passado pela Floreios e Borrões quando Lily finalmente se virou para James.

"Onde a gente tá indo?" ele deu de ombros.

"Você é sempre quem nos leva para as compras. Cadê a sua Lista?" ela espremeu as sobrancelhas para ele.

"Lista?"

"A sua mundialmente famosa Lista de o que dar e para quem dar, Lily. Você a escreveu em Março, que eu vi" ela observou atentamente os cadarços dos tênis que vestia, procurando uma boa desculpa para não ter a lista.

"Eu a perdi" ela murmurou de volta, e demorou um pouco para perceber que James não havia continuado a andar depois dessa declaração. Ele estava parado, alguns metros para trás, parecendo perplexo... Quase como se tivesse visto o Chudley Cannons vencer o campeonato mundial de quadribol.

"Você. Você, de todas as pessoas, vai tentar me dizer que perdeu sua lista de compras de Natal?" ele balançou a cabeça, enquanto ela se aproximava "Você está louca. Onde está a lista?" ele tinha um sorriso retorcendo os cantos dos lábios, mas ela pareceu não se importar com isso.

"Eu perdi a lista, James. Eu não consegui achá-la, durante toda essa semana" ele deu uma risada alta, e algumas pessoas pararam para olhar; uma delas, começou a rir ao perceber o casaco discreto do Maroto, e veio na direção deles.

"Pontas, o que eu disse para você sobre essa porra?" Sirius deu um tapinha amistoso no casaco estufado, e sorriu "Isso podia ser dobrado e usado como poltrona na sala, e tudo o que pode ser usado como poltrona não deve ser usado em público!" balançou a cabeça tristemente, e Lily se pegou sorrindo.

"Eu não posso fazer nada se eu sinto mais frio do que o resto das pessoas!"

"Use um cachecol! Você não tem colhões?" James balançou a cabeça, copiando o gesto de Sirius, e mal conseguiu conter o sorriso.

"Mais do que você; afinal, quantas mulheres você engravidou ultimamente?" ele perguntou em um tom espertinho, e Sirius bufou, dando um passo largo na direção de Lily, e botando a mão ao redor da cintura dela; Lily, que passara toda a discussão rindo discretamente, se pegou vermelha em um tom que nunca antes havia experienciado, enquanto Sirius jogava sua cartada na mesa.

"Você não quer nem saber...!"

"Almofadinhas!" James engasgou, e puxou Lily para perto de si em um gesto protetor, enquanto Sirius ria até perder o ar.

"Vocês estão fazendo compras de Natal?" ele perguntou, afinal, se recompondo; James abriu um sorriso.

"Você não vai acreditar nessa" confidenciou alegremente, e Sirius se aproximou para escutar melhor; Lily estava se preparando para calar James, mas ele falou mais rápido do que ela tirou a varinha "A Lily perdeu a Lista!" Sirius se engasgou com ar, arregalou os olhos, e voltou a rir descontroladamente.

"Impossível!" ele rugiu, e Lily escondeu o rosto vermelho nas mãos, enquanto as pessoas ao redor andavam mais devagar para apreciar a cena que Sirius e James faziam, rindo alta e escandalosamente, prestes a cair no chão por falta de ar "Princesa Lílian Potter perdeu sua Lista Mágica!" riu mais um pouco, enquanto Lily ficava cada vez mais vermelha "James, você deve estar fodendo a memória para fora dela..." teria dito mais, mas Lily apontou a varinha diretamente para o nariz dele, e performou um feitiço trava-língua perfeito. James sorriu orgulhoso, ao lado dela.

"Continuemos com as compras, então?" pegou a mão de Lily antes que ela pudesse apontar a varinha para ele, e deu um tchauzinho alegre para Sirius, que segurava a garganta tentando forçar sua língua para longe do céu da boca.

Lily apenas sorriu.

"Você não vai escapar de levar um castigo, James"

"Contanto que seja na cama" ele devolveu, sorrindo, e segurou a mão dela, alegre "Ok, então como é que nós fazemos compras sem a Lista? Eu meio que me esqueci" ele parecia contemplativo, e ela sorriu levemente, abanando a cabeça.

"Você realmente vai ficar preso a essa mesma piada por toda a sua vida, Potter?" ele sorriu, e lhe deu um beijinho leve no nariz.

"Não. Só pelo resto da sua" ela suspirou, parando em frente à loja de quadribol.

"Você acha que o Black gostaria de algo daqui?" ela perguntou, e James olhou por cima do ombro para a vitrine meio coberta pela neve; espremeu os olhos e observou sorridente uma vassoura Nimbus 1001.

"Ele amaria essa vassoura" ele falou, e ela deu de ombros.

"Ok, eu vou deixar você aqui comprando os presentes pros seus amigos, e vou procurar os dos meus" ela falou, dando alguns passos para longe, mas a mão de James no seu pulso a impediu de se afastar mais.

"Você não pode me deixar aqui sozinho!" ele falou, parecendo verdadeiramente preocupado; Lily franziu as sobrancelhas, enquanto ele chacoalhava uma sacolinha cheia de galeões "Eu tenho o dinheiro, mas não o cérebro!"

"Você entrou em Hogwarts quando era jovem, certo, Potter?" ele balançou a cabeça positivamente "Você é amigo dos Marotos desde os onze, certo?" ele afirmou mais uma vez "E você passou sete anos comprando os presentes deles sem a minha ajuda, certo?" ele bufou, diante dessa linha de pensamento, e cruzou os braços parecendo contrariado.

"Mas eu gastei todas as minhas boas idéias durante esses sete anos! Eu comecei a te namorar para sair desse sufoco!" ele falou, e ela fechou os olhos, rangendo os dentes para não gritar com ele.

"Então comece a usar as idéias ruins" pegou o saquinho de galeões que ele tinha em mãos e saiu com passos rápidos, ignorando os lamentos altos de James, que a chamava, pedindo ajuda. Subiu a ruazinha apertada do Beco Diagonal, olhando as vitrines sem pressa, e pensando nas pessoas que tinha de presentear. Petunia e Vernon, para seu infortúnio, faziam parte da lista em sua mente. Havia Potter, também, se estava casada a ele. E Sarah, Christina, Melinda e talvez Gil. Não sabia se devia se preocupar com mais alguém, então apenas se ateve a sua lista normal.

Entrou numa loja de doces, onde comprou um tablete de chocolate diet para Vernon e um bolo de Natal trouxa para Petunia, e estava saindo quando ouviu alguém chamar seu nome. Ou, melhor colocando, gritar seu nome em um tom ridiculamente escandaloso, que apresentou um novo grau de vermelhidão à suas bochechas.

"LÍLIAN POTTER!" levantou os olhos verdes para encontrar Melinda, vestida hoje em um ultrajante modelito rosa, gritando com ela. Suspirou, abrindo um sorriso trêmulo.

"Melinda" a outra finalmente a alcançou, puxando-a para um abraço no meio da multidão.

"Como vai minha grávida favorita? Fazendo suas compras de Natal?" Lily balançou a cabeça afirmativamente contra o ombro da outra, e finalmente pôde respirar novamente, enquanto se livrava do abraço.

"Eu vou bem. E sim, compras de Natal"

"Quer companhia? Eu já fiz as minhas, semana passada, mas precisava de um pouco de raiz de Bétula, para a minha poção de embelezamento; temos de parecer nosso melhor nas festas de fim de ano" deu uma risadinha animada, e já estava puxando Lily alegremente pela rua abarrotada, antes que a outra pudesse responder, mantendo conversa constante; por alguma razão, Lily se sentiu mais leve diante disso "Quer dizer, não é como se eu estivesse tentando ganhar a atenção de ninguém, mas é fato que a maneira como você passa seu ano-novo, você passa o resto do ano. Não me tome por uma pessoa que cultua o corpo, Lily, mas eu preciso de toda a ajuda que posso" jogou os cabelos alegremente para trás dos ombros, enquanto sorria levemente, e Lily piscou os olhos, percebendo um sentimento dentro dela que podia identificar claramente como a mesma sensação de amizade profunda que dividia com Sarah e Christina.

"Esqueça essa bobagem" se viu dizendo "Você é linda" Melinda pareceu verdadeiramente tocada por essa frase, tendo em vista que se calou por alguns segundos, os quais Lily utilizou sabiamente para entrar em uma loja à sua esquerda, cheia de coisas esquisitamente típicas do mundo mágico.

"Estamos procurando presentes para quem?" a respostas saiu da boca de Lily antes que ela pudesse se conter.

"Você, é claro" Melinda riu alto, e andou sem grandes esforços até uma pilha de chapéus.

"Eu preciso de um chapéu novo" ela falou; Lily abanou a cabeça afirmativamente, como se soubesse desse fato antes, e Melinda sorriu, puxando uma chapeleta púrpura sobre os cabelos negros "Que tal? Em uma grande caixa laranja, daria um presente maravilhoso para uma chefe maravilhosa" Lily sorriu, pegando o chapéu das mãos de Melinda.

"Eu acho que tenho alguém melhor para quem dar isso" falou, andando até o caixa com Melinda a seguindo como um cão adestrado.

"Quem?" ela perguntou, quando as duas chegaram no caixa e Lily entregou o chapéu para a sorridente atendente.

"Uma amiga maravilhosa, é claro" e a outra se perdeu em um sorriso. Lily pagou pelo chapéu e olhou ao seu redor, vendo se achava alguma coisa para Sarah e Christina. Seus olhos pousaram sobre uma pilha gigante de jogos de tabuleiro mágicos. Andou até lá.

"Para quem você daria um jogo de tabuleiro?" ouviu a voz de Melinda lhe perguntando, perdida nas profundezas da loja, e sorriu.

"Minha amiga Christina adora jogos de tabuleiro" silêncio. E depois, uma mão reconfortante sobre seu ombro.

"Sinto muito, Lily" a ruiva franziu as sobrancelhas, e se virou para encontrar os olhos de Melinda, que estavam sérios e silenciosos. Lily sentiu a curiosidade coçar dentro dela.

"Como assim, sinto muito?" mas Melinda já havia puxado-a pela mão para fora da loja, tentando olhar o mínimo possível Lily nos olhos.

"Lily, você sabe do que eu estou falando. Agora pare de viver no passado... Onde está o James?" Lily parou de andar, enfiando o calcanhar com força no buraco entre os paralelepípedos que revestiam a rua, e forçando Melinda a se virar para encará-la.

"Viver do passado? Melinda, você nunca foi tão confusa. Explique-se!" a morena ajeitou os óculos sobre a ponte do nariz, ensaiou um sorriso frouxo, e depois deu de ombros.

"Lily, você sabe que é errado comprar presentes para quem não pode mais recebê-los" Lily espremeu as sobrancelhas e estava prestes a suspirar exasperada quando a realidade a atingiu impiedosamente.

"Ela..." Melinda olhou para o chão por um segundo e, depois, com um grande suspiro, levantou os olhos e prendeu-os nos de Lily.

"Sinto muito" murmurou mais uma vez, mas Lily não estava mais escutando.

"Eu... Eu preciso achar James" a ruiva murmurou, sem nem entender por que "Nós precisamos ir para casa. Está ficando tarde" não passavam das onze horas, e o sol estava começando a entrar em pico e abrir espaço entre as nuvens, mas Lily não percebia isso. Contudo, Melinda era uma amiga boa o suficiente para apenas aceitar a desculpa calada, e abriu um sorriso vago.

"Eu te levo até o James. Onde você o deixou enquanto fazia as compras?"

"Comprando coisas pros Marotos na loja de quadribol" ela murmurou de volta, e Melinda segurou-lhe a mão, puxando-a por entre a multidão. De repente, Lily sentia muito frio. Abraçou o próprio corpo com o braço desimpedido, e enfiou o queixo no cachecol, esperando que os grandes cabelos vermelhos – ou, mais especificamente, a franja – cobrissem os olhos e impedisse as pessoas de verem que ela chorava.

Pararam em frente à loja de quadribol, e entraram no ambiente quente, enquanto Lily tremia levemente. Aparentemente Melinda achou Potter, porque começou a puxar a amiga ruiva, empurrando esportistas animados para o lado e abrindo caminho como Moisés no Mar Vermelho; as duas pararam perto do balcão, e Lily pôde distinguir claramente a voz de Potter gritando.

"...nunca pagaria tanto dinheiro nem em uma mísera vassoura, seu farsante, cópia barata de ladrão...!" teria continuado por um longo tempo a brigar com o vendedor sobre o preço do livro que tinha em mãos, mas Melinda chamou sua atenção, e ele se virou, encontrando Lily com a cara enfiada no cachecol. Franziu as sobrancelhas "Aqui está o dinheiro" jogou alguns galeões sobre o balcão, os quais o vendedor pegou, fazendo uma careta, e devolveu uma sacola gigante para James.

"Obrigado por comprar conosco, Senhor Potter" James soltou uma risada pelo nariz, segurando a mão de Lily e lançando um olhar agradecido para Melinda ao mesmo tempo.

"Considere um prazer único na sua vida" respondeu por cima do ombro, e não ouviu quando o vendedor o xingava, já que estava longe na caminhada através da loja com Lily "Você vai ficar bem?" ele murmurou para ela, já do lado de fora, e Lily levantou os olhos cheios de lágrimas. James apagou alguns rastros molhados com a ponta do dedão, e abriu um sorriso manso para ela.

"Por que ninguém me avisou que ela está... morta?" Lily conseguiu balbuciar, e James puxou-a para um abraço apertado. Por alguns segundos, Lily teve certeza de que James havia conseguido aperta-la não apenas com os braços, mas com todo o corpo naquele abraço, e só então percebeu que haviam aparatado, quando olhou à sua volta e a já conhecida porta de entrada de sua casa a encarava de volta. Seus pés esmagaram a neve tristemente, enquanto entrava dentro da casa, e sentava-se no sofá, e então James apareceu ao seu lado com uma xícara de café quente em mãos. Entregou-a a ela.

"Você precisa parar de fazer isso" ele murmurou, sentando-se com ela e puxando-a para um abraço reconfortante. Ela deixou que ele a posicionasse com as costas contra ele, precisando de conforto tanto quanto precisara quando o pai morrera, e tomou um gole amargo "Você precisa parar de dizer para você mesma que nada aconteceu, ruiva" ela sentiu as mãos dele contra seus braços, fazendo um carinho morno, e se encolheu mais ainda contra ele, as lágrimas escorrendo pelo rosto mais uma vez "Já faz quase um ano. Christina está morta, meu amor" ela fechou os olhos com força, respirando com dificuldade. Christina era uma de suas melhores amigas... Não podia estar morta!

"Mas..." ela balbuciou, sem conseguir se conter "Mas eu vi ela semana passada mesmo..." percebeu o que havia dito apenas quando Potter parou de respirar. Levantou os olhos úmidos e o encarou, o coração apertado. Merda. Merda. Merda!

"Lily. Ela está morta há mais de um ano. Foi um sonho" fechou os olhos e suspirou; pelo menos ele não lhe encheria o saco com isso. Podia se lamentar em paz.

"Eu... Eu sei" murmurou por sob a respiração e se afastou dele lentamente "Eu... Eu preciso me deitar" ele a deixou ir, e subir as escadas, e se deitar apertada nas cobertas na cama. Ela ficou um longo tempo ali, em silêncio, chorando e pensando sobre a amiga que perdera. Lembrou-se de todas as conversas, e dos sorrisos, e das vezes que teve de acompanhá-la para cortes, enquanto os pais brigavam pela custódia dela e do irmão mais novo, e da noite em que fugiram juntas para a cozinha de Hogwarts e se embebedaram, e de tantos e tantos momentos felizes, que afundava cada vez mais em miséria. Quando tomou consciência de onde estava e do que estava fazendo mais uma vez, trazida para a realidade por uma vontade doentia de vomitar, o sol já havia se posto, e o travesseiro onde estava encostada estava úmido em um raio de mais de dez centímetros. Suspirou. O rosto inteiro ardia.

Foi até o banheiro e vomitou, e junto do vômito foi parte de sua dor. Vomitou mais e mais, e a cada golfada, sentia-se mais e mais leve. A mente começou a se confundir com espirais de fumaça, e a próxima coisa que percebeu, foi que James a chamava de longe, e que alguém estava lhe dando tapas no rosto. Estava com a cabeça literalmente enfiada na privada.

"Lily! LILY!" a voz de James ficava mais próxima a cada segundo, e ela abriu os olhos com grande esforço para encontrar o rosto preocupado dele em frente ao seu, mas a voz ainda parecia distante. Piscou.

"James" ela murmurou, e forçou o pescoço para tirar a cabeça da privada. Parte dos cabelos estava úmido.

"Ah, Merlim, você está bem?" ele a puxou para um abraço apertado, e ela pendeu molemente contra os braços dele, parecendo uma boneca de pano "Lily! Lily!" ela piscou os olhos e se forçou para longe dele.

"Me desculpe" balbuciou, e escondeu o rosto entre as mãos, os pingos que caiam da ponta de seus cabelos se confundindo com as lágrimas em seu colo "Eu não acredito que ela morreu" murmurou mais uma vez, e a mão preparada de James segurou seu rosto e o forçou para encara-la nos olhos.

"Ela pode ter morrido, mas você não morreu" a voz dele não era suave nem gentil; era verdadeira, e apenas isso "Você está viva, e está grávida, e precisa estar inteira. Pelo bebê. Por mim. Por você. Por todos nós" ele a encarou nos olhos, e ela sustentou o olhar, sentindo-se muito vazia e fraca, e triste e velha. Com um suspiro, ficou de pé, e tremia.

"Obrigada" balbuciou, enquanto ele a ajudava a ficar de pé e a andar até o quarto. Deitou-se na cama, e James a segurou nos braços por horas, enquanto o sol da véspera de Natal despertava alegremente, e as crianças saiam nas ruas para brincar na neve, e as risadas delas se confundiam com o latido de cachorros e o balançar de sinos. Assim que os primeiros cheiros de cookies assando atingiram o nariz de Lily, e ela soube que a hora do almoço se aproximava, James se mexeu contra ela e sorriu.

"Eu já volto" ele murmurou, e beijou-lhe os lábios. Ela não protestou, apenas ficou ali, os olhos enevoados, observando uma mancha na parede e se lembrando do sorriso de Christina. E então James voltou, e ele estava sentado ao seu lado na cama, segurando um livro com aparência muito pesada "Quando a Christina morreu" ele começou, e Lily fechou os olhos, suspirando "você me falou uma coisa curiosa. Eu me lembro de estar tremendamente preocupado com você, e com a maneira como você estava lidando com tudo. Sua melhor amiga havia morrido, e você cuidou de todo o funeral, ajudou a família dela e trabalhou com mais afinco na Ordem da Fênix, para que os Comensais que a assassinaram fossem pegos logo. Mas você nunca chorou. Nunca sofreu até ficar fora de si, como eu achei que você faria. Por um tempo, eu cheguei a pensar que o tempo havia corroído a relação que você e ela tinham em Hogwarts. Mas quando você e o Sirius se sentavam para conversar, seus olhos estavam sempre cheios de ternura pela Chris, e eu nunca entendia. Até que uma noite, eu te deixei mais ou menos bêbada e perguntei o que estava acontecendo" ele a encarou, e depois baixou os olhos sobre o livro, passando um dedo suavemente pelo couro velho "Você... Você saiu da sala e foi até o escritório, de onde tirou esse álbum" os olhos de Lily pousaram também sobre o livro velho, e uma mão de James segurou a sua, e ela sentiu-se confortável diante do calor que ela emanava. Nunca esperara sentir-se confortável diante do calor dele "Você me falou que não estava pronta para lidar com a dor ainda" ele abriu um sorriso para ela, e lhe estendeu o bloco pesado; Lily o pegou sem pensar "e me falou que quando você finalmente lidasse com a verdade, eu devia te entregar esse álbum. Que ele faria as coisas parecerem certas para você de novo. Que ele te ensinaria o caminho" e então ele sorriu mais um pouco "E você me disse que, enquanto lidando com a dor, você viraria um zumbi, incapacitado de praticar a lógica, e que então eu teria de tomar conta de você e das suas coisas" ele passou um braço confortavelmente pelos ombros dela, e a trouxe para mais perto. Lily encostou a cabeça contra o ombro dele "Mas você pediu para que eu te deixasse lidar com essa dor por si mesma. É claro que eu não quero..." ele falou, e pousou um beijo no topo da cabeça dela; Lily sentiu um arrepio descendo pela coluna, mas o ignorou solenemente, os olhos pregados no livro. Estava curiosa, apesar de tudo "Mas eu respeito seus desejos, e vou te deixar em paz. Me chame quando estiver pronta para ir até o Koll"

Enquanto James partia, Lily sentiu os dedos brincarem com a beirada da capa do álbum. Encarou o couro velho e escurecido por um longo tempo antes de criar coragem para abrir e olhar a primeira página. Havia ali uma foto, meio amarelada nas pontas, dela, Christina e Sarah, sorrindo bobamente com o castelo de Hogwarts no fundo. Tinham onze anos.

Sentiu milhares de lágrimas brotarem nos olhos. Havia visto Christina crescer ao seu lado, estivera com ela quando ela lhe contara sobre a primeira vez dela com Sirius, e sobre seu primeiro beijo, e quando os pais se separaram. Vira a garota rir e chorar, e se transformar de menina em mulher, e agora... Agora tudo estava acabado. Chris jamais riria de novo, ou brigaria com Sirius, ou teria um ataque, porque tinha medo que seu relacionamento com o Maroto tivesse o mesmo fim que o relacionamento entre seus pais. Christina jamais comeria como uma cavala no banquete de começo de ano, ou riria de piadas sem graça até lhe faltar o ar, ou passaria horas ao lado de Lily, observando-a estudar apenas esperando para que as duas pudessem escapulir juntas para a cozinha. Porque Chris estava morta. Sua Chris estava morta.

Fechou os olhos, e algumas lágrimas escapuliram, fazendo seu caminho silencioso pelas bochechas de Lily. A ruiva virou a página e se pegou observando uma foto onde ela e suas duas melhores amigas estavam cobertas em gosma rosa, da cabeça aos pés. Sorriu, lembrando-se vagamente desse dia, no terceiro ano, onde os Marotos acharam que sujá-las era uma ótima forma de entretenimento. Não sabia que haviam tirado fotos, mas supunha que gente maluca como eles, devia manter um álbum de memórias de todas as suas loucuras. Virou a página, ainda sorrindo, as lágrimas ainda cobrindo seus olhos e a impedindo de ver claramente as imagens, o ar ainda lhe faltando, e havia uma foto dela e Sarah em vestidos chiques, ao lado de dois quartanistas bem apessoados que as haviam levado para o Baile de Inverno no terceiro ano. Sorriu. Chris não sabia tirar fotos, fato provado pelo fato que a cabeça de ambos os garotos havia sido cortada.

E quando virou a terceira página, foi quase com choque que viu uma carta, selada com cera vermelha, postada em cima da foto. Pegou a carta entre os dedos e antes mesmo de ver seu nome, na sua escrita, sorrindo de volta, sabia o que havia dentro da carta. Sabia das palavras de consolo e do amor incondicional por uma de suas melhores amigas de todos os tempos. Sabia tudo sobre as lágrimas. E sorriu.

Lily,

E então quando tudo parecia estar dando certo, você foi pega de surpresa. O destino, que já não tem sido muito favorável, foi ainda mais doentio com essa tacada: matar uma de suas melhores amigas? Quem poderia ser pior?

Mas o destino é o rei de pregar peças sem-graça; veja a situação na qual você está metida... Presa em uma vida na qual a pessoa em quem você mais confia é também quem você mais odeia. Nem todos poderiam lidar com isso, mas eu vivi o suficiente para dizer que você consegue. Você não apenas sobrevive ao fato, você vive depois dele. E o destino, apesar de cruel, sabe o que está fazendo. Ao menos agora você tem os anos, os doces anos entre o ano passado e o dia em que você veio para cá, para apreciar sua amizade. Se você não soubesse que ela morreu, você jamais faria as loucuras que você vai fazer nos anos a vir. Você jamais a amaria tanto quanto você vai a amar. Você nunca tornaria tudo tão suportável para o Sirius e para a família da Chris quanto você vai fazer.

Quer dizer, a Chris morreu. Não é algo que deva ser fácil de lidar. Mas você vai descobrir dentro de você, hoje, uma paixão pela vida. Você ainda não sabe disso, mas essas fotos são mais mágicas do que aparentam. Essas são fotos que vão te mostrar que cada minuto que você viveu valeu a pena. E cada minuto que a Chris viveu valeu a pena. Não existe espaço para mágoas, nem arrependimentos, apenas aceitação. Ela viveu e amou e foi feliz. E é isso que importa, no final.

A minha vida, Lily, foi cheia de coisas terríveis. Você vai vivê-las, e entende-las. Você vai passar por tudo o que eu passei. Afinal, eu sou você, daqui a alguns anos. E eu sei que esse conceito parece surreal e até ilógico para você – você jamais se casaria com James, eu sei! – mas é a verdade. As coisas que eu vivi – inclusive esse prelúdio do que o destino te reserva, no qual eu te meti – vão te tornar uma pessoa diferente, e vão te guiar em um caminho que você jamais pensou antes em assumir como seu. O amor, principalmente, vai guiar seus passos, e eu quero que você entenda que não existe uma escolha que eu tenha feito da qual eu me arrependa, porque tudo o que eu fiz me tornou melhor e mais feliz. Até mesmo as lágrimas, e a dor, e a perda, tudo me fez mais feliz, porque me mostrou o lado lindo da vida. Só quem conhece a escuridão sabe o que é a luz. E eu gostaria que você entendesse que eu só te coloquei nessa situação porque ela é a alavanca que vai te fazer engatinhar na direção certa. Eu não te odeio. Eu não quero fazer da sua vida um inferno. Eu apenas quero te ver tão feliz quanto eu sou.

Da sempre sua,

Lily Potter.

Lily segurou a carta que ela mesma havia escrito para si com os dedos tremendo. Dobrou-a e a colocou sobriamente na mesa de cabeceira, encarando a foto que tinha à sua frente. Era uma foto geral do salão comunal, onde Lily, Sarah e Chris conversavam animadamente perto do fogo, e James Potter e Sirius Black as observavam de um canto escuro. Não sabia quem tinha tirado aquela foto, mas enquanto a observava, foi pega pela saudade. Saudade de Hogwarts, e das risadas das amigas, e chorou. Chorou em silêncio, sem soluçar, sem grandes dificuldades para respirar, apenas chorou, observando as fotos, lágrimas escorrendo pelo rosto e caindo no livro grosso.

E a cada página que Lily virava, e uma nova foto aparecia – a maioria delas tendo sido tiradas depois do sétimo ano, e mostrando momentos e mais momentos de pura alegria, e embaraçamento, e risadas – mais Lily sentia saudade. E, para o próprio espanto, mais e mais ela percebia que estava espiando o futuro, e as risadas que daria, e os momentos dos quais jamais se arrependeria. Estava observando a pessoa que se tornaria, e as amizades novas que faria. A cada página, ela podia perceber a liberdade e o carinho crescendo entre ela e os Marotos, e a maneira como ela se agarrava com desespero à Sarah e a Christina. Podia ver que aproveitaria todos os minutos que pudesse, e que seria feliz até perder os sentidos.

E quando fechou o livro, tendo observado a última página – uma foto da festa de casamento dela com James, onde Sirius parecia ainda mais estúpido do que o normal (presumidamente bêbado) – e se pegou pensando essas coisas, se espantou. Passara uma semana inteira tentando conceber a idéia de que essa vida não era dela. Que essa pessoa não era ela. Que aqueles amigos não eram dela. Que aquele marido era de outra mulher. Que aquelas cartas haviam sido escritas por uma maníaca psicótica com sérios problemas de interação social, e não por ela. Nunca por ela. Ela nunca faria uma coisa dessas. Ela nunca viveria essa vida. Mas observar aquelas fotos – as guerras de bolas de neve, e segurar visco encantado em cima de sua cabeça para James beijá-la, e se divertir com os amigos na sala de uma casinha modesta enquanto tomava chocolate quente -, tudo aquilo aprecia plausível. Parecia aceitável. Parecia-se com algo que ela faria.

Colocou o livro de lado, enquanto a saudade pulsava por suas veias. Mas não era uma saudade à qual ela estivesse habituada. Ela sentia saudade de todas as coisas que nunca havia feito, ao invés das que havia. Saudade das tardes idílicas nos gramados de Hogwarts, e não das noites em claro fofocando com as amigas. Saudades de tempos que ainda estavam por vir para ela, mas que já haviam acontecido para quem a colocara ali. Fechou os olhos. Afundou a cabeça nos travesseiros. Suspirou.

Era confuso demais.

Aquela pessoa maluca era ela. Haviam todos os traços da mesma personalidade – a organização, a paixão pelo Natal, a obsessão por controle, a teimosia, a constante montanha-russa emocional – e das mesmas manias – como o leite e as cócegas – mas era difícil conceber a idéia de que estava recebendo cartas de si mesma. Que estava sendo impulsionada para uma vida que não queria, por si mesma. Que podia ser tão diferente de si mesma, e ao mesmo tempo tão igual. E uma frase abriu caminho até sua linha de pensamente, e ela franziu o cenho diante disso.

"As maravilhas que o tempo não faz..." murmurou, e de repente percebeu que sua voz estava rouca e vazia. Lembrou-se de Christina. E a saudade voltou. Fechou os olhos. Abraçou as pernas. E não conseguiu chorar.

Rolou na cama um pouco, tentando forçar as lágrimas a virem, mas seus olhos permaneciam secos. Fechou as pálpebras, espremeu-as, pensou em Christine, dura e azulada, deitada em um caixão, e depois em vários cachorrinhos sendo estrangulados por sonserinos pelados, mas nem a tristeza e nem o nojo trouxeram-lhe lágrimas aos olhos. Enfiou um dedo no olho, mas nenhuma lágrima veio. Rolou na cama mais uma vez, abriu os olhos e encarou o teto. Havia apenas saudade. E uma determinação vaga de ser feliz com a amiga, e de voltar o mais rápido possível para ela, para que pudessem começar a aproveitar logo. Sentiu uma vontade louca de viver.

Enfiando a carta na gaveta e pegando o álbum nas mãos, pulou da cama e desceu as escadas rapidamente, dois degraus de cada vez.

"James!" ela gritou quando chegou no último degrau, e a cabeça de James apareceu pela porta da cozinha.

"Lily? Tá tudo bem?"

"É claro que não está tudo bem! Eu estou com fome!" ela falou, e ele abriu um sorriso aliviado. Ela sorriu de volta, e sentiu algo esquisito dentro dela. Como se estivesse traindo Christina ao ser feliz, sabendo da morte dela. Mas conhecia Chris melhor do que isso, e sabia que a amiga iria gostar que ela seguisse em frente.

"Ok. Vamos até o Koll pegar o jantar, e depois eu preciso de ajuda para embrulhar esses presentes" ele entrou na cozinha de novo, e Lily o seguiu; ele estava pegando o casaco gigante, e na mesa havia uma confusão de papel colorido, fitas e sacolas de compras. Pousou o livro sobre tudo aquilo.

"Eu não me lembro de ter comprado tanta coisa ontem" ela murmurou para ele, enquanto ele colocava um casaco pesado sobre os ombros dela; ele sorriu.

"Eu fui às compras enquanto você dormia; você só tinha comprado os presentes dos seus parentes e da Melinda... Então eu os enviei por correio coruja, antes de sair. O Sirius passou a tarde aqui, ontem, enquanto eu fazia compras" ela acenou com a cabeça para afirmar que entendia, e então abriu a porta da sala com um sorriso.

"Você não tinha usado todas as suas boas idéias de presentes durante os sete anos em Hogwarts?" ele riu.

"Claro!"

"Então o que você fez?" ele passou um braço ao redor da cintura dela, enquanto andavam até a praça central, e a neve começava a cair silenciosamente, escondendo o fato de que estavam mais juntos do que jamais haviam estado antes.

"Usei as idéias ruins"


N.A.: Eu sei que demorei muito mais do que devia para atualizar este capítulo. Peço desculpas. Eu sei que não devia... Mas eu peguei uma virose e montei acampamento no banheiro no dia que devia postar o novo capítulo, e depois eu vim para Bahia visitar meus pais, e o calor me deixa MUITO mole, e aí eu não consegui responder rapidamente todas as reviews... Em compensação, vocês receberam dois capítulos novos, uma shortfic e muitas e muitas desculpas! Este é meu capítulo favorito em todo o universo, e eu espero que vocês tenham gostado... Eu prometo que eu vou postar rapidinho o próximo, e então o epílogo e a fic termina, junto com seu suplício! hauhauhau Como eu respondi as reviews no outro capítulo, aqui vocês vão receber os famosíssimos sneak-peeks! hauhauahu

Então É Natal... 2

"Ela só vai depois que me elogiar, antes. Nós brigamos" James esclareceu, e Sirius riu.

"Você é um idiota" falou enquanto saía, e Lily sorriu.

"Concordo plenamente. Hey!" James havia lhe apertado o pulso com mais força.

"Isso vai custar dois elogios. Vamos. Pode abrir a matraca, Sra. Potter" ela sorriu para ele, se esquecendo de se incomodar com o título, enquanto buscava na sua mente as palavras certas.

"Você tem bom gosto para mulheres" começou, sorrindo, e James suspirou "é sortudo, é claro, porque se casou comigo... E..." mordeu a parte de dentro do lábio, enquanto James sorria para ela "Você... Daria um péssimo fantasma do Natal passado!" exclamou alegremente, puxou o pulso das mãos dele e correu para sala.

E da pura bondade do meu coração (e instinto amador de reviews, que implora por propaganda), eu vou colocar um sneak-peek de minha mais nova publicação, Verbamancia! huahauhau E um obrigada a todos que leram Claustrofobia, reviwsaram e fizeram meu dia mais feliz! VALEUUU! hauhauhua

"Diga-me as primeiras palavras que vierem a sua mente que eu te darei uma breve análise sobre quem você realmente é" ela riu, contra a própria vontade.

"James, isso não vai dar certo" ele levantou um dedo pensativamente, espremendo as sobrancelhas e retorcendo o rosto em uma careta; então ele abriu um sorriso positivamente satisfeito e a encarou.

"Já sei! Você é uma pessoa ridiculamente negativa!"

Oooooook!! Obrigada pela atenção, pessoal, espero que tenham gostado dos capítulos e continuem deixando reviews e me amando para todo sempre!!! hauahuah BEIJOOOOOOOOOO!