Estacionei o carro de Emily o mais rápido e no lugar mais perto possível do topo da montanha. Assim que havia tirado a chave da ignição, vi Spencer pelo retrovisor e abri a porta correndo.

-Spencer!, gritei assim que saí do carro.

Ela estava sentada em um tronco caído na beirada da montanha, seu corpo encolhido e encurvado na noite fria. Spencer se virou e pude ver as lágrimas brilhando em suas bochechas. Corri para me juntar a ela.

- Foi horrível, Toby, ela começou a dizer, choramingando. Horrível...

- Shh, vai ficar tudo bem, Specer, disse baixinho enquanto me sentava ao seu lado e segurava seu rosto nas mãos. Eu estou aqui agora, vai ficar tudo bem, ouviu?

Ela franziu os lábios e a testa e sem dizer nada, me abraçou. Ela deveria estar sentada ali por pelo menos uma hora, pois suas roupas estavam geladas devido ao vento frio da montanha. Seu corpinho frágil se agitava todo quando ela soluçava e eu a abracei forte, procurando esquentá-la e acalmá-la.

Ela deu um suspiro e se afastou de mim, limpando os cantos dos olhos com os dedos. Estava usando o mesmo vestido laranja de linho de quando saímos para tomar chá, porém tinha colocado um casaco azul escuro por cima. Seu cabelo também estava preso do mesmo jeito.

- O que houve, Spencer?, perguntei assim que vi que ela estava um pouco mais calma.

- Wren..., ela fez uma pausa e engoliu em seco. Ele é namorado de Melissa, mas nós... nós tivemos um caso. E agora Melissa descobriu sobre Wren e eu. Parece que alguém... disse a ela para aparecer no restaurante em que nós estávamos e ela viu Wren me beijando. Foi horrível. Eu nunca mais vou olhar para minha irmã do mesmo jeito.

- E Wren? O que ele fez a respeito?

- Nada. E é isso o pior de tudo. Ele simplesmente não disse nada. Ele só foi embora de fininho e me deixou lá para brigar com Melissa.

- Canalha..., sussurrei.

- Eu sei...

- Quer saber? Acho que foi melhor assim.

- Como assim, Toby?

- Ele não te merece, Spencer. Você é boa demais para ele.

Ela se virou para mim e pude ver seus olhinhos se iluminando. Ela soluçou mais uma vez e abriu um sorriso. Foi um sorriso tímido, mas foi o mais sincero e alegre que já tinha visto.

- Obrigada, ela sussurrou com a voz ainda afetada pelo choro.

- Venha aqui...

Estendi os braços e ela aceitou o abraço. Depois ela encostou a cabeça em meu ombro e deu um suspiro leve. Ficamos naquela posição, apenas olhando a cidade iluminada abaixo de nós, sentindo um ao outro. A lua estava cheia e brilhante no céu escuro e sem estrelas acima de nós. Eu afagava os cabelos de Spencer cuidadosamente e ela passava a mão ao longo de meu braço. Sua respiração era leve e seu corpo subia e descia lentamente ao meu lado. De repente uma brisa fria e leve cortou a montanha, fazendo Spencer estremecer.

- Acho melhor irmos embora antes que você pegue um resfriado ou algo pior, disse sem me mexer.

- Não!, ela protestou virando-se para mim. Não quero ir embora agora.

- Mas Spencer você...

- Por favor...

Ela arqueou as sobrancelhas e me olhou esperando uma resposta. Fitei-a debaixo daquela linda noite de luar e me lembrei da primeira vez que a vi chorar em minha casa. Ela estava tão perturbada e ao mesmo tempo tão linda que essa simples lembrança daquele dia não me permitiu dizer não a ela na montanha. Não enquanto nós estávamos nos olhando fundo nos olhos.

- Tudo bem, consenti enfim. Podemos ficar mais um pouco.

- Obrigada, ela murmurou sorrindo.

- Mas só um pouco. Não é bom ficar no sereno por muito tempo, ainda mais com o vento frio que está fazendo aqui em cima.

Ela assentiu e se recostou em mim novamente, encaixando-se na curva entre meu pescoço e meu ombro.

- Está uma noite linda hoje, não?, ela comentou.

Não tão linda quanto você, pensei.

- Sim, está mesmo...

- Sabe, Toby, eu estou feliz por estar aqui... com você.

- Eu também, Spencer. Eu também.

Ficamos em silêncio, ouvindo os grilos cantarem nas árvores atrás de nós e vendo alguns vagalumes dançarem no céu negro acima de nossos corpos, sem rumo. Coloquei meu braço envolta das costas de Spencer e deitei minha cabeça na dela, desejando que aquela noite nunca tivesse um fim.

Quando um vento frio e cortante cortou a montanha, percebi que já era a hora de ir. Olhei para o céu e vi nuvens de chuva se formando.

- Temos de ir agora, Spence, murmurei.

Ela não respondeu. Quando virei minha cabeça para ver seu rosto, percebi que tinha dormido em meu ombro. Balancei-a de leve, mas ela não acordou. Com muito cuidado, então, afastei-a de mim e peguei-a nos braços, procurando não acordá-la. Levantei-me do tronco segurando o corpo adormecido de Spencer e desci a montanha até onde havia estacionado o carro de Emily. Abri a porta do lado do passageiro e a sentei no banco, procurando fazer o mínimo de movimentos possível. Fechei a porta sem fazer um barulho sequer e entrei no carro ao lado dela. Coloquei o cinto de segurança em nós dois e dei a partida.

Cheguei à casa de Emily e toquei a campainha. Assim que ela abriu a porta, entrei na casa com Spencer nos braços.

- Mas o que...

- Ela dormiu. Onde posso colocá-la?, sussurrei.

- Venha comigo.

Subimos para o quarto dela e lá Emily arrumou as coisas para que Spencer pudesse dormir. Logo depois ela desceu as escadas para arrumar o sofá cama no qual eu iria dormir, me deixando colocar Spencer na cama. Ao lado da cama de Emily, ela havia colocado um colchão com um lençol e um travesseiro limpo. Deitei Spencer com muito cuidado nele e desdobrei a coberta que Emily havia deixado na beirada do colchão. Coloquei-a sobre o corpo de Spencer delicadamente e me ajoelhei ao seu lado.

- Boa noite, Spence, sussurrei em seu ouvido, dando um beijo em sua testa.