7VERSE : SETE VIDAS

SETE VIDAS VIDA 5: O MONSTRO INTERIOR

vida 5 CAPÍTULO 14

TOMBADO EM BATALHA

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DEAN

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- Sam ou Adam?

- QUE SUSTO! Trickster! O que você quer agora?

- O dia está acabando. Quem você acha que vai morrer antes da meia-noite, Dean? Adam ou Sam?

- Outro joguinho? Não, me recuso a entrar nos seus joguinhos. Eu CANSEI. Eu CONFIO nos meus irmãos. Por mais encrencados que estejam, eles vão se safar. Se é só isso que tem a me dizer, pode cair fora.

- Se realmente acredita no que está dizendo ... Só não diga depois que eu não avisei.

O banco do carona do Impala volta a ficar vazio.

- Droga. Ele sabe mesmo como me deixar péssimo. Como me sentir culpado.

Dean pisa mais forte no acelerador. Queria chegar o quanto antes à Mansão Helms. Ia revirar aquele lugar do avesso. Se existia alguma forma de voltar a ser humano, ele ia descobrir.

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SAM

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O que parecera impossível num primeiro momento, fora conseguido. A evacuação do terceiro andar para o terraço se completara. As portas de acesso ao terraço, em ambas as extremidades da escada, foram trancadas a cadeado, mas antes o último galão do fortíssimo desinfetante a base de amoníaco fora despejado na escada.

O vigilante sobrevivente, com sua arma carregada nas mãos, vigiava o perímetro do terraço, sem descuidar da porta de acesso. Mais de 100 pessoas, muitas delas abraçadas para enfrentar o frio e o medo, rezavam para que tudo aquilo acabasse bem.

Embora a esperança crescesse entre os que estavam refugiados no terraço, a tensão ficava cada vez mais palpável entre ficaram para trás. Além de três dos pacientes da UTI, ficaram aqueles que estavam dispostos a ganhar o tempo necessário para a chegada de reforços, mesmo ao custo das próprias vidas.

Owen bem que insistiu, mas Ashley estava irredutível. Não ia se colocar em segurança no terraço. Ficaria como a última linha de defesa da UTI. Além de Kyle, mais dois pacientes estavam em estado crítico, dependendo de aparelhos para se manterem vivos. O jovem médico, Dr. Mark Lawson, também decidiu ficar.

Heróis. Esse é um termo que costuma ser atribuído a posteriori, postumamente, já que heroísmo costuma caminhar junto com a tragédia. O investigador Robinson será para sempre lembrado como um herói em La Grande. Sua arma estava descarregada, mas mesmo assim ele se mantinha na linha de frente para não tornar evidente a vulnerabilidade dos defensores do hospital. Ele sabia do risco que corria e, mesmo assim, aceitou pagar o preço. Dean já havia previsto a ameaça mortal representada por um ghoul com uma arma de fogo nas mãos. John Robinson, 30 anos, recebe um tiro certeiro na testa e cai morto, bem ao lado de Sam.

Ashley grita seu inconformismo pela perda do companheiro de luta e seu grito distrai por um segundo o ghoul que o matara. Um segundo que faz diferença. Sam aproveita o momento de hesitação em que o oponente baixou a guarda e o abate com um tiro certeiro no coração. Com um segundo tiro, Sam diminui um pouco mais a inferioridade numérica a favor dos defensores do hospital. Eram dois ghouls a menos, mas eles ainda dispunham de três armas carregadas e quatorze balas.

Em segundos, as armas dos ghouls mortos já tinham trocado de mãos.

A ameaça persistia. Mais do que isso, crescia e a cada momento se mostrava mais próxima.

Ashley derruba em sequência os quatro galões de desinfetante que estavam alinhados no alto da escada. Mas, não era o mesmo produto que usaram para bloquear com sucesso os outros acessos e não se mostraria tão eficaz. Mas, era tudo que restara. Um produto comum de limpeza, desses com perfume floral. Desagradável em grandes quantidades, mas como um cheiro bem mais suportável. Ela imediatamente percebe que não seria suficiente para barrar os ghouls e corre atrás de alternativas.

Owen libera a carga do extintor para formar uma densa cortina de CO2, escondendo momentaneamente o grupo da mira dos ghouls. A nuvem de CO2 logo se dispersaria, mas permite que Sam se abaixe para alcançar o braço do investigador caído e recue arrastando o corpo sem vida de John Robinson escada acima.

O ponto de emissão do CO2 continuava, no entanto, facilmente identificável, denunciando a posição de Owen aos ghouls. Por sorte, as duas balas destinadas a ele atingem em rápida sucessão o corpo metálico do extintor que segurava em frente ao corpo, salvando sua vida. Terminada a carga, ele lança o extintor contra os atacantes e corre escada acima. Sam dispara seu último tiro contra o ghoul que se preparava para atirar em Owen, salvando-o de um mortal tiro nas costas.

Sam já estava quase chegando ao topo da escada quando é atingido por três tiros, o primeiro na coxa direita, o segundo, de raspão, na testa e o último no abdômen, do lado esquerdo. Ele tomba de costas na escada, largando o rifle descarregado, que escorrega de suas mãos e só pára na base da escada.

Sam, sangrando, é trazido para cima pelo Dr. Lawson, enquanto Owen resgata o corpo do investigador Robinson. Uma segunda bala atinge o corpo sem vida do investigador. O grupo recua, tentando se afastar o máximo possível da escada.

Já não havia nada a fazer. O caminho estava livre para os ghouls.

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ADAM

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O motorista abre a porta traseira direita para Nathalie Helms e, em seguida, a porta esquerda para seu acompanhante. Adam, extasiado, se vê diante da imponente entrada principal da Mansão Helms com seus magníficos jardins. O trajeto, de cerca de vinte minutos, transcorreu entre beijos ardentes, mordidas de arrancar sangue e arranhões profundos na pele clara de Adam. Fazer amor com a feiticeira da Cólquida sempre deixava marcas.

Adam teve a jaqueta arrancada e a camisa rasgada antes mesmo de cruzarem o portão da Mansão. Podia parecer brincadeira de amantes, mas a verdade é que, na visão de Nathalie, ela já tolerara os trapos que o cobriam por tempo demais. Vir ao encontro dela vestido daquela maneira era quase uma afronta. Sorriu ao constatar o quanto ele ficava melhor sem eles.

Nathalie Helms está concentrada demais para notar que está sendo observada. E que é o alvo de outra mulher vingativa.

Catherine aponta o revólver para a feiticeira, mas é dissuadida pelo Mark Levine ghoul, que indica por gestos que estão muito afastados para um tiro com alguma chance de sucesso. A presença de Catherine ali só era possível porque a maioria dos ghouls estava participando do ataque ao hospital e os poucos que ficaram estavam dispersos na gigantesca propriedade. Se em algum momento ela teve alguma chance esse momento é agora.

Quando o motorista se afasta para guardar o carro, Catherine e seu aliado ghoul entram na Mansão, aproveitando o portão deixado aberto. Catherine não seria capaz de descrever nenhum elemento da luxuosa e extravagante decoração do lugar. Toda sua atenção estava voltada para sua missão.

Havia uma trilha de roupas levando ao segundo andar. O marido havia falado que tentariam infiltrar um agente na Mansão. Nathan ou Alan, algo assim. Era ele mesmo. Lembrou-se de tê-lo visto no hospital. Mais um aliado. Mas, ele talvez não concordasse com a solução definitiva que ela pretendia dar ao problema.

Catherine aproxima o ouvido da porta da alcova. A vaca parecia estar se divertindo. Não por muito tempo.

§

Adam estava completamente envolvido pela atmosfera sensual que dominava a alcova da feiticeira. A alcova reunia alta tecnologia no controle integrado da iluminação, temperatura, umidade e som ambiente de fundo por comando de voz. Um eficiente sistema de renovação de ar eliminava a fumaça produzida por centenas de velas e introduzia, no ambiente, perfumados óleos essenciais de propriedades afrodisíacas.

A tecnologia estava, no entanto, a serviço de um conhecimento antigo de refinada magia sexual. Cores quentes, ritmos que reproduziam o batimento acelerado do coração humano, a doce sensação de ter a pele massageada por um óleo perfumado que parecia anestesiar dores, cicatrizar ferimentos e resfriar deliciosamente ao toque. Nathalie Helms ficaria imensamente rica, caso já não fosse, se vendesse um único de seus muitos segredos para a indústria do sexo.

Adam reagiria ao ambiente de luxúria e à beleza exótica da feiticeira mesmo que não estivesse sob o efeito da poção de amor, mas esta potencializava as sensações, levava ao êxtase. Era, ao mesmo tempo, a mais terrível das torturas e o mais celestial dos prazeres. Gritos que reuniam prazer e dor, gemidos de fazer corar prostitutas e frases desconexas e obscenas ora sussurradas ora berradas escapavam das bocas de ambos os amantes. As pronunciadas pela feiticeira misturavam palavras de dezenas de línguas, mas principalmente palavras de sua extinta língua natal.

Adam era um amante experiente, entusiasmado e preocupado em dar prazer à parceira, mas estava descobrindo que tinha muito a aprender e que às vezes é muito melhor se deixar dominar. Estava sendo tocado de formas que nunca permitiria em seu estado normal. E, pelo menos naquele momento, estava adorando. Se morresse naquele instante, morreria feliz.

§

Catherine aproveitara um momento em que os gritos estavam particularmente intensos e prolongados, para testar a maçaneta. Como esperava, não estava trancada. A bruxa não tinha porque ser cuidadosa. Estava em sua própria casa. Em seu próprio quarto. Onde reinava absoluta. A cama, imensa, tinha um dorsel, com véus que nublavam parcialmente a visão da porta.

Os gritos de dor de Adam feriam profundamente o coração de Catherine. Os de gozo mais ainda. Então fora assim com seu filho? Seu garotinho? Torturado com sexo, noite após noite, por seis semanas. IA MATAR A DESGRAÇADA.

Catherine pede com gestos que o ghoul se mantenha no corredor, retira os sapatos e entra, o mais silenciosamente possível, empunhando a arma com as duas mãos estendidas, como aprendera de tanto ver o treinamento dos recrutas da polícia. Quando estava suficientemente perto, afasta bruscamente o véu com uma mão e rapidamente volta a empunhar a arma engatilhada, apontando para a bruxa, parcialmente oculta sob o corpo de Adam.

O filtro do amor distorcia a percepção da realidade de suas vítimas. Elas se sentiam não só perdidamente apaixonadas, mas totalmente correspondidas. Nada do que fizessem ou sofressem seria o suficiente para retribuir a imensidão do amor que fantasiavam estar recebendo. A beberagem de extrato de temperos acabaria por neutralizar o efeito da poção, mas, naquele momento, Adam ainda não estava suficientemente no controle dos próprios atos.

Adam era um homem de ação, acostumado a reagir instintivamente em caso de perigo. Ao ver uma arma ser apontada para sua doce Nathalie, sua única razão de viver, Adam avança para desarmar a atacante. Catherine, assustada, ao ver o homem nu saltar em sua direção, fecha os olhos e dispara. O tiro acerta Adam no abdômen. O impulso dado o faz cair sobre Catherine, derrubando-a no chão.

Catherine reage de forma surpreendentemente rápida. Empurra Adam para o lado e volta a empunhar a arma. Mas, Nathalie não era mulher de se deixar intimidar. Já enfrentara inúmeros inimigos poderosos em sua longa existência. Todo tipo de ameaça. Guerreiros. Assassinos. Salteadores. Magos. Feras. Demônios. A fúria do mar. Uma dona de casa de meia idade? Aquilo não era uma ameaça, era uma PIADA.

Nathalie gesticula atraindo a atenção da adversária para seus olhos. O contato visual é feito. Catherine se vê transportada. Estava numa espécie de poço. Circular. Profundo. Paredes de pedra. Escuro. E saindo de todos os cantos, de todos os lados, COBRAS. Dezenas. Centenas. De todos os tamanhos. Choviam cobras sobre ela. Há uma serpente a encarando, a centímetros do seu rosto, preparada para dar o bote. Recua num salto e a serpente morde o ar a centímetros do seu rosto. Mas há outras. Estava cercada. Dezenas de bocas abertas, as presas à vista. Gotejando veneno. Estavam subindo por suas pernas. Se enroscando nela. Catherine grita e, em pânico, dispara mais três vezes a esmo.

E, então, subitamente, se vê de novo no quarto. A cerca distância, ajoelhada nua na cama, a feiticeira aperta com força o braço, tentando estancar o sangramento. Seus olhos emanam ódio. Catherine ainda abalada pela terrível experiência, tem dificuldade para erguer a arma. Suas mãos tremem. Sua determinação é abalada.

A feiticeira grita um xingamento. Com o susto, Catherine ergue os olhos e, novamente, seus olhos e os da bruxa se encontram. E, pela segunda vez, Catherine fica presa na teia hipnótica da bruxa. FOGO. Catherine se vê cercada pelo fogo. O calor é insuportável. Suas roupas começam a se incendiar. O fogo atinge seus cabelos. Sua pele arde, bolhas se formam, sua pele começa a queimar. Ela sente o horrível cheiro de carne queimada. E grita. Um grito longo e horrível. De dor e desespero.

Nathalie se abaixa e pega o punhal que 3300 anos de experiência lhe ensinaram a manter sempre a mão. A dor que estava sentindo ia devolver multiplicada por 1000. Aquela maldita mulherzinha ia se arrepender amargamente pelo atrevimento.

Adam permanecia imóvel, sem gritar, mas com uma expressão de dor intensa no rosto. Estava deitado de costas, com a mão pressionando o ferimento de bala. Sua mente começava a clarear. O suficiente para perceber que morreria se não recebesse cuidados médicos imediatos. Uma imagem ainda borrada começou a se formar em sua mente. Uma imagem aos poucos vai ganhando contorno. Sam. Não podia morrer. Não podia deixar Sam sozinho no mundo. Não podia.

O sangue que escorria do ferimento começava a formar uma grande poça. Como não podia deixar de acontecer, o cheiro de sangue despertou a fome do ghoul.

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18.03.2014