Olá! Eu sinto muito, muito mesmo por ter demorado tanto! Depois que passaram as provas eu pensei que estaria com mais tempo livre... ledo engano.
Sem maiores detalhes, só quero dizer que sei que demorou e lamento por isso. Mais notas no final.


Norma acordou com a claridade da manhã entrando pelas cortinas finas e o aperto dos braços de Alex ao seu redor. Era um movimento instintivo, sempre que ela se mexia, ele respondia puxando-a para mais perto. Era novo e, às vezes, demais, mas ela curvou os lábios num sorriso, ainda de olhos fechados.

Intimidade era uma coisa que sempre lhe pareceu opressiva. Não apenas o sexo, pois frequentemente o ato era automático e não demandava intimidade nenhuma. Algumas vezes, não requeria nem que ela tirasse a roupa. Geralmente, depois de acabarem, seus maridos ou parceiros cairiam ao lado dela, talvez houvesse um breve beijo sem emoção, e era isso. Era carnal, não íntimo. Mas outra pessoa saber tanto sobre você, o que gosta ou não gosta, cada detalhe de sua rotina, o perfume que você usa, o que murmura enquanto dorme, qual a causa de seus pesadelos... Era esmagador. Apesar disso, ela descobrira que Alex vinha se esgueirando cada vez mais na esfera da intimidade. E ela descobriu que não sentia medo. Não com ele. Pelo contrário, ansiava pela proximidade, pela rendição de sua condição a ele. Gostava de senti-lo pressionado contra seu corpo de manhã, segurando-a como se nunca fosse deixá-la ir, sem se importar com os claros sinais matutinos de seu corpo de homem. Gostava de vê-lo ler o jornal, observar as sutis alterações em sua expressão enquanto corria os olhos pelas páginas. Gostava de como ele a assistia fazer a maquiagem pela manhã ou se trocar e passar seus cremes antes de ir para a cama. Intimidade continuava sendo algo assustador, mas com Alex não era nada além de natural.

"Bom dia", ela o ouviu murmurar, logo antes de ele pousar um beijo em seu ombro.

"Bom dia. Aqui é sempre tão claro assim?", ela fez uma careta enquanto puxava o lençol para cobrir o rosto.

"Deve ser o céu limpo mais perto das montanhas. Mas teria ajudado se tivéssemos fechado as cortinas."

Com um meio grunhido de irritação, ela se espreguiçou e se moveu para sair da cama. Olhou para as malas e para as roupas dos dois, descartadas a um canto. Estavam tão cansados na noite anterior que acabaram nem desfazendo as malas para pegar as roupas de dormir, então ela decidiu-se por pegar a camisa de Alex e vestí-la por cima da lingerie, recuperando apenas os itens necessários para sua rotina matinal.

Deixando um Alex ainda meio adormecido para trás, ela foi ao banheiro. Olhou-se no espelho enquanto tentava arrumar os cachos bagunçados com os dedos. Ao voltar para o quarto, Alex já estava de pé, remexendo em sua mala. Ele olhou para Norma, sorrindo ao notar que ela vestia sua camisa. Jamais cansaria de notar como ela era naturalmente sexy fazendo as coisas mais comuns do dia a dia e, acima de tudo, sem tentar, sem se esforçar para parecer nada além dela mesma.

"Oi"

"Olá, você", ela respondeu, com o usual sorriso. Ela estava sorrindo mais, ele notara. Era uma boa evolução, mesmo com a preocupação que ele sabia que ela ainda tinha.

Ela pegou o celular, checando-o mesmo sabendo que não havia sinal ali, e fez uma careta.

"O telefone não funciona mesmo aqui".

"Eu disse que não funcionava".

"E ainda é cedo".

"Nisso podemos dar um jeito", ele se levantou após ter escolhido uma camiseta da mala. "Estamos sozinhos, podemos voltar pra cama, se quiser".

"Não, já que estou acordada, vou explorar".

Ela sorriu entusiasmada, saindo pela porta, pronta para olhar com atenção cada cômodo do chalé enquanto Alex sorria diante da animação dela.

"Ah meu deus, Alex!" Ele a ouviu exclamar num som estridente alguns segundos depois.

"O que? O que foi?" Ele correu ao encontro dela, parando ao vê-la voltando para o quarto.

"Tem um deque lá fora", ela exclamou, olhos grandes de surpresa, como se falasse de um alien ou algo realmente preocupante.

"Não faça isso, Norma. Não me assuste assim."

"Mas tem um deque. Lá fora. Na porta da sala!"

"Ahn.. Sim. Isso te incomoda?"

"Não! Não, não, não, é que... É um lindo deque." Ela comentou numa voz pequena.

"Gosta do deque?" Alex sorriu, notando como os braços dela estavam arrepiados por baixo do tecido da camisa. "

"É charmoso", ela deu de ombros, evitando deliberadamente o olhar dele.

"Tem lugar para uma fogueira. Podemos... Não sei, assar marshmallows, se quiser. Ou só ficar em volta do fogo. Se eu conseguir achar lenha."

"Promete?" o rosto dela se iluminou com a ideia.

"Claro."

Ela voltou para o lado de fora, aproveitando os poucos raios mornos de sol da manhã, e ele a seguiu. O deque se estendia para fora a partir da porta lateral da sala, metade dele coberta pelo telhado da casa, outra parte descoberta.

"Alex, este lugar é lindo! Como conseguiu passar tanto tempo sem vir aqui?" Ela perguntou, de olhos fechados, braços estendidos sobre o cercado de madeira do deque.

"Por muito tempo eu evitei até pensar nesse lugar. Ele costumava ser feliz. Então, de repente, nada mais era feliz. Paramos de vir passar férias aqui. Meu pai se entregou à sua própria escuridão, e... Minha mãe... Ela se afundou num mar de desespero e tristeza do qual nunca conseguiu sair. Não havia mais motivo pra eu vir até aqui."

Enquanto ele falava, Norma se virou, percebendo que ele estava sendo aberto e honesto com ela, dividindo algo importante. Ela o ouviu atentamente, absorvendo as palavras. Queria perguntar mais, mas também não queria parecer intrometida. Por fim, decidiu apenas se aproximar e tocar seu rosto delicadamente.

"Eu lamento que tenha passado por tudo isso. Eu entendo. Te entendo completamente. Obrigada por me trazer aqui. Por passar por cima de suas memórias só pra fazer algo legal por mim."

Ela o abraçou e Alex permitiu que seu corpo fosse acalentado pelo dela; que fosse consolado pelo carinho daquela que muitas vezes não recebeu o consolo que precisava. Ele a segurou com força, com muita força, como se tivesse medo que fosse sumir. E Norma retribuiu, ficando na ponta dos pés e abraçando-o com todo seu ser. Mãos acariciando costas, pescoço e cabelos. Beijos suaves no pescoço.
Por um momento o tempo podia muito bem ter parado e eles não notariam.

Até que, saído do lugar escuro onde sua alma visitara, ele se afastou um pouco, o suficiente para olhar para ela.

"Vamos até a vila tomar café. Quero te levar a um lugar."

Ela escaneou seu rosto procurando algum sinal, algum indicativo do que ele tinha em mente, sem encontrar nada. Então apenas concordou e saiu para se vestir.
Quando ela reapareceu na sala, chamando por ele, Alex sentiu que cortavam seu suprimento de ar.
Norma Bates, sua perfeita esposa vintage, abrira mão dos vestidos e estava usando jeans. Ele prestou atenção em como o tecido se ajustava e moldava as pernas dela, deixando visível todas as curvas sem mostrar nada. Além dos jeans, ela usava uma blusa de malha, botas, lenço e casaco. O lenço que escapava pela lateral da bolsa de viagem no dia em que ela foi a casa dele pedir desculpas. O mesmo casaco bordô que usava quando entrou gritando na delegacia que precisava falar com ele "naquele momento". Engraçado como a memória funciona, ele pensou. Mas por mais que revirasse seu estoque, não se lembrou de nenhuma vez ter visto Norma Bates usando calças Jeans. E a visão ficaria grudada na mente dele para sempre.

Eles cruzaram os dez minutos até a pequena vila entre exclamações de alegria de Norma. Durante o dia, podia-se ver os campos que ladeavam a estrada e a bela paisagem que cercava a propriedade. Folhas castanhas e secas caídas das várias árvores e molhadas pela geada formavam um tapete no chão. Chegando à vila, Alex os conduziu para uma lanchonete. Era um lugar pequeno, mas aconchegante e convidativo. As grandes janelas de vidro, onde se lia "lanchonete do Anton" em letras cursivas de um azul esverdeado, deixavam ver as mesinhas e a decoração do lugar e Norma pensou que ali, bem naquele lugar, o tempo podia ter parado nos anos 50. E ela se sentiu instantaneamente em casa.
"Já veio aqui?"

"Já. Várias vezes. Não mudou nada."

Ele a conduziu para dentro da lanchonete e, antes de pedirem uma mesa, ele se aproximou do balcão, ainda com Norma a seu lado. Não demorou muito e um dos atendentes, um rapaz jovem, alto e um pouco tímido, apareceu para pegar os pedidos.

"Olá. Na verdade, antes de escolhermos uma mesa e fazermos o pedido, será que o Anton está por aí? Eu gostaria de falar com ele."

"Anton está bem aqui. Como eu posso ajudar?"
A voz veio de trás deles, tranquila e sem emoção, pertencente a um senhor latino usando um grande avental onde se lia "Anton's" na mesma caligrafia das janelas.

"Anton! É bom te ver." Romero cumprimentou o senhor, que ainda parecia não conhecê-lo. A seu lado, Norma observou enquanto Alex sorria em expectativa, e o senhor ajeitou os óculos, franzindo o cenho para observar Alex como se fosse uma pintura. Até que, parecendo tê-lo reconhecido, ele voltou a se empertigar e os cantos de sua boca se levantaram num sorriso.

"Ohhhhh Alexander Romero! Como poderia esquecer?!. Seus olhos são idênticos aos da sua mãe. Já faz um bom tempo, rapaz. Como estão as coisas? Seu velho ainda é o xerife? E sua mãe?"

O sorriso de Alex falhou por um segundo e ele se moveu, desconfortável, evitando o olhar do outro. Sabia que esse momento chegaria, mas tinha preferido achar que não. Norma, no entanto, percebeu seu desconforto e deslizou a mão pela dele, apertando de leve para mostrar apoio.

"Minha mãe... Ela faleceu, há um bom tempo. Meu pai não é mais xerife, Anton. Já não é há muito tempo. Ele... Está na prisão."

"Lamento ouvir isso, filho. Imagino o quanto seja difícil, não precisa me contar nada", o velho lhe lançou um sorriso compreensivo, os olhos transparecendo uma simpatia e tristeza genuínas.

"Na verdade, Alex é o xerife, agora. E ele é um dos bons."
Norma sentiu que podia contribuir para a conversa, oferecendo uma pequena nova informação que não era permeada de más recordações. Pelo menos não inteiramente, e ela esperava que ele não fosse corrigi-la. O outro homem lançou a Alex um olhar surpreso e simpático, observando quando Norma se aproximou um pouco mais, apertando o braço de Alex com a mão livre.
Anton olhou de um para o outro antes de compreender a situação e sorrir amplamente.

"E quem é a bela dama aqui?"

Alex e Norma trocaram olhares cúmplices antes de Alex tornar a olhar para Anton e responder.

"Esta é Norma Bates, Anton. Minha esposa."

Norma percebeu o orgulho na voz dele ao dizer "minha esposa" e sentiu um leve rubor subir por suas faces ao mesmo tempo em que borboletas voavam em círculos em seu estômago.

"Esposa?" Ele abriu um sorriso ainda maior e se adiantou para abraçar o casal.

"Olhe só pra você! É um cara de sorte, Alexander! Ela é uma beleza, e tão refinada também. Minha Mercedes iria adorar conhecê-la."

"E ela está por aqui?"

"Não. Há um bom tempo", o olhar do senhor ficou triste repentinamente. "Ela... Ela morreu há cinco anos. Câncer. Sempre foi forte, aquela ali. Lutou até o fim."

"Eu sinto muito, Anton!"

Ver a tristeza e o abandono nos olhos do homem que parecia instantaneamente menor e mais franzino ao mencionar a perda, Norma sentiu uma fisgada no peito. Ela podia ver o amor e a saudade estampados no olhar dele, e imaginou como seria ter um sentimento assim, como seria ter alguém que se importasse tanto assim com ela, e com quem ela também se importasse. Então notou o braço de Alex ainda ligado ao dela, e percebeu que talvez houvesse encontrado isso também.

"Eu sinto muito pela sua perda. Lamento muito, mesmo. Eu teria adorado conhecê-la."
Norma se soltou de Alex por um momento e se adiantou para abraçar Anton, que foi pego desprevenido pela ação.
Alex sorriu diante da cena, notando uma lágrima rolar pelo rosto do homem que ele conhecera ainda criança.

"Sei que ela teria adorado conhecer você também, mocinha. Ela adorava o pequeno Romero, aqui. Dizia que ele ia crescer e ficar bonitão, ser um destruidor de corações".

"Bem, bonitão, sim. Sério também. Mas destruidor de corações... Não. Alex nunca partiria meu coração. Ele nunca partiria, propositalmente, o coração de ninguém."

O sorriso de Anton se ampliou e ele olhou de Norma para Alex como se tivesse encontrado um tesouro.

"Ohhh, meu jovem Alexander. Ela ama mesmo você! E acredite, eu reconheço o amor quando o vejo. Eu diria para se casar com ela, mas você foi esperto e já fez isso."

Novamente o casal trocou olhares cúmplices, e um leve rubor subiu às faces de Norma, pensando nas circunstâncias reais que levaram ao casamento deles.

"Bem, vão escolher uma mesa. Levarei o café da manhã especial para vocês em um instante".

"Então era aqui que vinham quando era criança?" Norma perguntou quando se sentaram a uma das mesas próximas à janela de vidro, com vista para a rua. "Anton foi tipo um padrinho, pra você? Um mentor?"

"Não, Norma. Eram férias, não a máfia", ele riu, divertindo-se com as perguntas dela sobre sua infância.

Ele não se lembrava de muitas coisas. Tinha passado tempo demais tentando esquecer de seu passado, tentando esconder no fundo de sua mente todas aquelas memórias dolorosas. Mas as memórias boas foram guardadas junto com elas, e agora muitas delas vinham à tona. Toda vez que iam até lá, era rotina tomarem café da manhã no restaurante do simpático casal latino a quem Alex se afeiçoara. E não só ele, sua mãe gostava muito de Mercedes também.

"Tem certeza que sabe o que vão trazer? E se não for bom? Afinal, faz muito tempo. Podem ter trocado o cozinheiro", ela perguntou, abaixando a voz e inclinando-se um pouco sobre a mesa, num tom conspiratório.

"Com certeza tiveram que trocar, mas está tudo bem. Eu confio no Anton. Mercedes, a esposa do Anton, fazia os melhores waffles que eu já provei. Parece que quando somos crianças tudo tem um gosto melhor. Não sei, talvez seja a nostalgia."

"Talvez seja porque ainda éramos inocentes, não tínhamos provado a amargura da vida. É meio que permanente, sabe? Gruda em você e fica lá para sempre."

"Pode ser. Provavelmente."

"Bem, não vale a pena falar disso, não agora. Então, alguém sabe que viemos pra cá? Pro caso de te chamarem, ou coisa assim."

"Não, eu não contei a ninguém. Não há ninguém que precisasse saber. E não vão me chamar de volta tão cedo. Daqui dois meses tenho uma nova audiência, então...Veremos".

"Alex, o que foi que aconteceu? De verdade?"

Alex deu um longo suspiro, desconfortável com o assunto. Não queria contar a Norma as exatas acusações. Isso implicaria falar de seu envolvimento com Rebecca, e ele sentia que isso traria ainda outras questões. Coisas que ele não queria mencionar agora, não enquanto tomavam café da manhã, não quando Norma estava bem, falante e alegre.

Para sua sorte, uma moça os interrompeu trazendo uma grande bandeja com a comida. Colocou os pratos e copos à frente deles, então retirou-se. Norma olhou para seu prato sem reação por um instante. Bacon, panquecas com calda, frutas frescas, torradas, geleia, suco. Havia o bastante ali para alimentar quatro pessoas ou mais.

"É... bastante", ela comentou sem tirar os olhos dos pratos.

"Anton leva o significado de "especial" muito à sério", Alex sorriu, pegando o garfo enquanto a observava.

Ela imitou o movimento dele e pegou o próprio garfo, cortando um pedaço das panquecas e levando-o à boca.

"Alex! Isso é ótimo!"

"Eu disse", ele sorriu, feliz por tê-la agradado. Uma coisa ele jamais esquecera: como a comida naquele pequeno restaurante sempre foi boa.

E também não ia reclamar da interrupção. Não tinha certeza se Norma realmente esqueceu o assunto ou apenas deixou de lado. De qualquer forma, ele estava grato. O objetivo principal de estar com ela ali era fazê-la esquecer as coisas ruins. Era mostrar que o mundo ainda podia ser bonito, apesar de tudo, e que ele estaria ao lado dela para o que precisasse. E mesmo sabendo que, talvez, ela precisasse ouvir sobre Rebecca, sobre Annia, sobre coisas que ele não queria mencionar, ele ainda não se sentia confortável falando sobre isso. Em algum momento ele contaria. Algum momento, mas ainda não.

Então apenas aproveitaram um ótimo café da manhã, riram, conversaram, e fizeram planos para os próximos dias. Tanta coisa ruim já acontecera, por enquanto, ele queria focar em momentos bons. Mesmo que fosse apenas por enquanto.


estou muito feliz de apresentar o Anton pra vocês. Ele ainda vai ter uma certa importância em eventos futuros, então podem esperar vê-lo de novo (eu sei, ninguém ta ligando pro senhorzinho da lanchonete por enquanto haha). Além disso, a partir de agora a história começa a ter novamente uma sombra de angústia e uma certa tristeza, quando tratamos de assuntos que assombraram o passado do nosso querido duo.
Vou tentar postar com mais regularidade, juro! Obrigada por acompanharem!