Em Valle
Legolas caminhava pensativo pelas ruas de Valle. Sua identidade mantida em sigilo pela capa élfica. Poucos eram aqueles capazes de identificar o Príncipe da Floresta. O elfo refletia sobre uma maneira de se aproximar da Montanha Solitária. Precisava conversar com Thórin a cerca daquele compromisso que havia se estabelecido entre eles. Legolas não queria para si tal responsabilidade. No entanto, após dois dias observando Erebor, ele simplesmente não conseguia achar uma maneira. Havia entregue à disposição de Yavanna aquela viagem e, ainda assim, os caminhos pareciam fechados para ele. Pelo menos era assim que pensava até ver Thórin apeando de sua montaria à porta da mesma hospedaria na qual ele alugara um quarto. O anão entrou, porém não se demorou, saindo em seguida.
O príncipe élfico sorriu com um canto dos lábios ao ver realizado o desígnio de Kementari, Rainha da Terra.
Legolas quis se aproximar do anão, porém Thórin tinha o olhar fixo em uma determinada direção e começou a dar largas passadas sem se preocupar com aqueles que estavam a sua frente. Ele parecia acreditar que todos deveriam abrir-lhe caminho. Legolas meneou a cabeça. Todavia era daquela maneira que as pessoas agiam diante do príncipe de Erebor: dando passagem a ele como os soldados fazem com seus oficiais.
O eldar se recordava de ter lido recentemente que se você quisesse elogiar alguém, poderia dizer que este alguém era 'Venerável como um Rei dos Anões'*, e ao observar a reverência com a qual as pessoas tratavam os Senhores de Erebor, Legolas só poderia concordar que tal elogio fazia todo sentido.
O elfo decidiu então seguir o 'Venerável Príncipe dos Khazâd' de longe, para não correr o risco de perder sua pista, porém aguardaria pelo momento certo de abordá-lo. Após alguns minutos, Thórin chegou à Residência Oficial de Girion, Senhor de Valle. Ele subiu os degraus que levavam à entrada da construção e dois guardas se postaram diante dele. Legolas riu ao ouvir as poucas palavras, nada corteses, que o neto de Thrór lhes havia dirigido. Os dois se entreolharam e não tiveram outra escolha além de permitir a entrada do anão.
Enquanto aguardava do lado de fora, Legolas refletia sobre a mudança que havia ocorrido em sua opinião a respeito dos anões. Em outros tempos, se presenciasse a mesma cena que havia visto a pouco, ele estaria julgando Thórin um orgulhoso, atrevido, grosseiro e mais... o elfo riu sozinho novamente. Fato era que considerava o anão portador de todas essas características, porém, agora que conhecia mais sobre ele e sobre seu povo, elas já não lhe pesavam tanto. Os pensamentos do eldar foram interrompidos pelos comentários que o cercavam.
- Aquele não era o neto de Thrór? – indagou um comerciante.
- Sim! É claro! Sabia que o havia reconhecido – respondeu uma mulher que carregava um cesto de frutas.
- Deve ter vindo por causa da encomenda que chegou logo cedo – especulou o comerciante.
- A que encomenda o senhor se refere? – Um dos clientes indagou.
- Armas – ele respondeu. – Armaduras, espadas, escudos e uma novidade que ainda não sei qual é.
- Tem certeza disso? – Indagou a mulher. – Nunca ouvi dizer que os senhores de Erebor tratassem pessoalmente de negócios.
- Por certo – respondeu o freguês.
- Sim! – confirmou o comerciante. – Porém, pelo que fiquei sabendo, eles, os anões, cortaram relações com os elfos e agora querem fortalecer os laços conosco! Ouvi dizer que um dos grandes de Erebor viria pessoalmente a fim de apresentar as armas, principalmente uma que poucos de nós conhecemos.
- Do que se trata? – indagou o curioso freguês.
- Não se sabe. Ainda. Chegou coberta logo cedo, todavia era imensa.
Legolas sorriu por dentro. Então Thórin se hospedaria por alguns dias em Valle? O elfo agradeceu mentalmente a Yavanna por ter aberto seus caminhos. Ele só não compreendeu por que Thórin deixou seu cavalo naquela estalagem, quando o normal seria se hospedar na residência de Girion, já que, diferente dele, estava ali em uma missão oficial. O elfo teve suas reflexões novamente interrompidas ao ver a porta da residência ser aberta e Thórin sair acompanhado pelo senhor de Valle e alguns membros do conselho da cidade. O humor do príncipe não parecia ser dos melhores e o elfo decidiu segui-los à distância. Por nada deixaria que o anão lhe escapasse. Caminharam até a armaria da cidade, próxima a qual uma alta torre se erguia e sobre ela a novidade esperada havia sido colocada. Girion fez um sinal para que um guarda retirasse a coberta e a Balista se revelou. Os olhos dos homens brilharam e Thórin ergueu o queixo, orgulhoso do trabalho de seu povo. Dissessem o que dissessem deles, tanto homens quanto elfos não poderiam negar que aquilo que os anões se punham a realizar, o faziam com perfeição. O senhor de Valle sorriu satisfeito.
- Era o que o senhor esperava? – Thórin indagou retoricamente.
- É perfeita! Creio não existir uma joia de batalha superior a essa.
Thórin bufou.
- Diz isso porque nunca viu uma catapulta giratória.
Os olhos dos edain se voltaram para ele.
- Ou uma Biga de Rodas Cortantes – o príncipe ergueu as sobrancelhas, sentindo um prazer imenso em atiçar a curiosidade de seus interlocutores.
- Uma o quê? – Girion perguntou.
- Não importa – Thórin respondeu. – Se quiser saber mais sobre outras armas haverá hora e lugar para que novas encomendas sejam solicitadas.
Thórin começou a caminhar em direção a porta inferior da torre, dando a entender que subiria a fim de apresentar a Balista de perto.
- Detesto esse anão – comentou Bain, irmão de Guirion. – Detesto a maioria dos anões de conheço.
- Tenha paciência, meu caro – Girion contemporizou. – Eles são assim mesmo. Julgam-se senhores do mundo. Não cabe a nós mudá-los. E vamos antes que o Príncipe de Erebor inicie a explicação sobre aquela maravilha, pois ele o fará, estejamos ou não em sua presença para ouvi-lo.
Legolas sorriu novamente. Não deixava de ser divertido observar o jeito de ser daquela raça orgulhosa. Cerca de uma hora havia se passado até que os senhores de Valle e Erebor descessem. Pelo rosto de Thórin, Legolas conseguia ler o quanto ele estava aborrecido com a missão que havia recebido.
- Deve estar cansado, mestre anão. Permita-me que mostre os aposentos da Residência Oficial que foram separados para o senhor.
Thórin mirou o homem sem esconder sua contrariedade.
- Eu não estou cansado, mestre Girion – ele disse entre os dentes. – E já estou muito bem instalado na hospedaria próxima ao mercado. Lá ficarei enquanto minha presença aqui se fizer necessária. Pela dificuldade que seus homens tiveram em usar a Balista, creio que minha estadia será longa. E por falar nisso, coloquem-na no campo de treinos. Será mais seguro para todos.
Os olhos de Girion queimaram diante da insolência do anão. Mesmo Legolas achou que dessa vez sua falta de cortesia havia passado dos limites. No entanto, por dentro, o senhor de Valle estava aliviado por se ver livre da obrigação de acolher aquele atrevido em sua casa. Girion era um dos homens mais tolerantes com o jeito de ser dos anões, contudo momentos havia nos quais era difícil suportar sua companhia.
- Fique a vontade para se instalar onde preferir, mestre anão. Espero que possa usufruir de nossa hospitalidade e de tudo o que Valle tem de melhor para oferecer. Nos vemos amanhã, então?
Thórin assentiu e começou a se retirar sem prolongar a despedida.
Os senhores de Valle respiraram aliviados. Estavam livres da companhia dele. Pelo menos até o dia seguinte.
Na Hospedaria
Legolas observava o anão enquanto jantava. Ou pelo menos fingia jantar. O prato do filho de Thráin jazia intocado sobre a mesa, enquanto ele passava os dedos pela borda da caneca. Nem mesmo a cerveja, tão cara a seu povo, parecia animá-lo. O elfo analisou cuidadosamente o príncipe de Erebor e não soube por que havia demorado tanto a perceber a escuridão que ele trazia consigo. Legolas não a tinha visto nem em Mirkwood, nem em Esgaroth, quando conversaram por um tempo considerável. Ele então compreendeu que havia algo por trás das reações e palavras do anão, que estavam mais ríspidas do que se poderia esperar, mesmo para alguém do povo das montanhas.
O filho de Thranduil ponderou se deveria aguardar até o dia seguinte a fim de tentar uma aproximação com o anão. Contudo considerou que havia uma grande possibilidade de o humor de Thórin piorar com o transcorrer de sua estadia entre os homens. O elfo caminhou em direção à mesa onde ele se encontrava, baixando o capuz ao perceber que Thórin erguera os olhos em sua direção.
O herdeiro de Dúrin fitou a aparição, surpreso com o que tinha diante dos olhos.
- Posso me sentar com o senhor, mestre anão? – Legolas indagou.
- Mahal deve estar muito zangado comigo – Thórin comentou ao reconhecer o elfo – se me manda mais esta provação.
Legolas não compreendeu o sentido por trás das palavras que o anão havia proferido. Apesar disso, não se intimidou e se dirigiu ao senhor de Erebor novamente.
- Preciso conversar com o senhor, mestre anão, e posso lhe assegurar que serei breve. Devo fazê-lo de pé ou permite que eu me sente?
Thórin bufou.
- Elfos! Sentar, não sentar, tanto faz! Por que insistem em complicar tudo? – disse, mirando o eldar.
Legolas ergueu as sobrancelhas e fitou a cadeira, insistindo na permissão.
- Se faz tanta questão de meu consentimento, saiba que não a terá – Thórin mais rosnou do que falou. – Amaldiçoo a noite em que dei ouvidos a você, elfo infeliz! – Finalizou, enfiando uma faca na mesa e atraindo a atenção dos que estavam mais próximos.
O elfo recolocou o capuz. Não seria prudente que chegasse aos ouvidos dos seus, principalmente de seu pai, que havia se envolvido em alguma discussão com um anão. Diante da atitude o eldar, Thórin se levantou.
- O principezinho élfico está preocupado com sua reputação? – ele provocou. – Sua atitude me enoja! Seu covarde!
Os olhos de Legolas cintilaram de ira por baixo da capa que lhe cobria o rosto.
- E me recuso a permanecer no mesmo recinto que alguém de sua laia – o anão concluiu.
Thórin saiu como um furacão, derrubando a cadeira. Chegou a pensar em ir para o seu quarto na hospedaria, contudo, levando-se em consideração o estado de seu espírito, seria provável que o dia amanhecesse com o quarto em ruínas. O príncipe de Érebor se dirigiu a saída e deixou que seus pés o conduzissem pelos caminhos que quisessem, enquanto sua cabeça estava ocupada com a imagem do elfo e com suas insuportáveis palavras macias.
Legolas ponderou se deveria segui-lo. Estava claro que o anão o culpava por alguma desdita ocorrida após o encontro deles em Esgaroth e o elfo precisava descobrir a que ele havia se referido. O Eldar seguiu Thorin novamente.
O anão deu várias voltas pela cidade. Legolas calculou que andaram sem rumo por mais de uma hora, até que ele se viu em um mirante de onde se podia observar claramente a entrada da Montanha Solitária. O lugar era razoavelmente espaçoso, com alguns pontos de comércio ao redor. Aquela hora, felizmente, tudo estava fechado. Apenas algumas mercadorias cobertas permaneciam guardadas junto às paredes. Thórin parou e apoiou as mãos na murada daquela maldita cidade de homens, com o coração desejoso de retornar ao ventre da terra. Ele possuía uma natureza aventureira e gostava de conhecer novos lugares. Todavia nos últimos tempos havia preocupações demais cercando a Montanha Solitária e Thórin não se sentia bem em se afastar dela. A visão de seu lar aos poucos conseguiu mitigar a fúria que ardia em seu peito e o anão levou as mãos às costas, adotando uma postura ereta.
Legolas o observava e pode sentir no ar que o espírito de Thórin havia se acalmado. Contudo ele sabia que a mais leve fagulha seria o suficiente para que o anão voltasse a se entregar à ira. Já estava se acostumando a instabilidade do temperamento de Thórin. O elfo hesitou, porém não poderia desistir de uma nova tentativa. Ele se esgueirou silenciosamente, colocando-se a poucos metros de Thórin, permitindo que seus últimos passos pudessem ser ouvidos pelo anão.
O príncipe de Erebor olhou para trás sem conseguir acreditar no que seus olhos contemplavam.
- Eu não sou covarde, mestre anão – disse Legolas, baixando novamente o capuz. – Contudo, da mesma forma que os anões não revelam aos de fora sua língua e seus nomes verdadeiros, os eldar não se agradam de que seus assuntos particulares sejam expostos diante de muitos olhos – o elfo explicou calma, porém firmemente.
A princípio Thorin não esboçou reação alguma, todavia admirou a coragem e a determinação do elfo em não haver desistido de seu intento. E embora ele desejasse com todas as suas forças que o eldar se fosse, percebeu que só conseguiria afastá-lo após ouvir o que ele tinha a lhe dizer.
- O que você quer, elfo? – inquiriu secamente.
- Minha intenção inicial consistia em conversar com o senhor sobre A Palavra Empenhada, contudo fiquei intrigado com o fato que o senhor haver amaldiçoado nosso último encontro. O que houve?
Thórin sentiu o peito incendiar com a lembrança de que se havia feito devedor do elfo. O khuzd já não conseguia pensar claramente. Os desígnios de Mahal estavam obscuros demais para ele naquele momento e o herdeiro de Dúrin desembainhou a espada e se dirigiu ao elfo.
- Maldição! Maldição! Mil vezes maldição! É como considero todo e qualquer instante em que um elfo cruza meu caminho!
Legolas não conseguia compreender de onde vinha tanta ira.
- Se está preocupado com a dívida, mestre anão – ele propôs –, peço que acalme seu espírito, pois é precisamente minha intenção liberá-lo dela. Para isso estou aqui. Pode então parar de proferir palavras de maldição que certamente atingirão antes ao senhor do que a mim.
Thórin cerrou os dentes de ódio.
- Está insinuando, seu infeliz, que Thórin, filho de Thráin, filho de Thrór sequer consideraria a mais remota possibilidade de quebrar sua palavra? Por quem me toma, principezinho insolente?
O anão deu alguns passos em direção ao elfo, ameaçando-o com a espada. Este, porém, não se moveu de seu lugar.
- Pelo visto, tem mais coragem do que aparenta, elfo – Thórin provocou.
Legolas cruzou os braços.
- Pelo que me consta, matar o seu credor é tão desonroso quanto quebrar a Palavra Empenhada.
Thórin hesitou por um segundo, diante da familiaridade inesperada que o eldar estava demonstrando sobre seus costumes.
- O senhor está certo – Thórin considerou. – Não posso matá-lo, mas posso aleijá-lo! – disse, avançando em direção ao elfo.
Legolas se esquivou, desviando do golpe do anão e se recusando a lutar com ele.
- Isso não tem o menor cabimento, mestre anão! – disse, dando alguns passos para trás.
- Onde está sua coragem agora, elfo? – ele se voltou, renovando o golpe.
O elfo saltou para trás e desembainhou sua espada. Os olhos de Thórin brilharam diante da disputa iminente.
- Não desejo machucá-lo, mestre anão! – disse, andando para o lado e fazendo com que ambos executassem um movimento circular.
- Não irá me machucar, principezinho! – Thórin gritou e avançou, forçando Legolas a reagir.
O eldar executou movimentos de defesa com sua espada, reconhecendo que, apesar da limitada habilidade que o jovem anão possuía, a força da compleição dos herdeiros de Dúrin não poderia ser negligenciada. O que os golpes do anão deixavam a dever em precisão, tinham de sobra em força. Além do que o eldar sabia que um anão seria capaz de lutar durante horas sem sentir quase nenhum cansaço.
Thórin não disse nada, contudo se viu impressionado com a habilidade do elfo. Por certo em séculos de existência o filho de Thranduil havia lutado mais batalhas do que ele lutaria em toda uma vida. O príncipe de Erebor se deixava guiar mais pela ira do que pelas suas habilidades e avançou em direção ao elfo que desviou do golpe, permitindo que Thorin atingisse algumas prateleiras repletas de vasos de cerâmica, que encheram o chão com seus estilhaços. Thórin se virou e se defendeu de um golpe do elfo, derrubando Legolas sobre uma banca de madeira que de despedaçou. O anão foi em direção a ele, porém o eldar rolou pelo chão e em um segundo estava de pé novamente.
Em um certo do momento do embate, quando as espadas se cruzaram, o anão conseguiu derrubar o elfo e teria lhe cravado a espada na perna não fosse a habilidade sem par dos movimentos de Legolas. Aproveitando o tempo que o anão levou para retirar a espada que havia sido cravada no chão, o eldar o pegou de surpresa com um novo golpe, atirando-o contra a parede na qual estavam pregadas algumas armas a guisa de enfeite. Thórin caiu no chão a tempo de perceber que um pesado machado se soltara e o teria atingido se a ele não tivesse rolado no chão de imediato.
Thórin quedou-se apoiado em um dos joelhos por um tempo, mirando o machado que quase o atingira, reconhecendo que a arma havia sido forjada em Erebor, como se a herança de seu povo estivesse se voltando contra ele. Viu seu rosto refletido no brilho do metal prateado e vislumbrou em seus próprios traços o rosto de Thór. A lembrança do banimento que havia sofrido o atingiu novamente, fazendo-o recordar daquela manhã na muralha, quando havia pensado que poderia ajudá-lo a se livrar do mal que se acercava. Thórin sentiu outra vez em seus braços as mãos de seu avô a lhe afastarem dele e suas palavras banindo-o de sua presença retumbaram em seus ouvidos. O anão não retirava os olhos do machado e a ira que inicialmente tinha se apossado dele deu lugar a um sentimento mais profundo e mais sinistro ao mesmo tempo. Ele sentiu seus braços enfraquecerem e seu corpo lhe pareceu pesado demais. Thórin largou a espada no chão e enquanto o som do metal na pedra reverberava pelos muros de Valle, a mão fechada do príncipe esmurrava o chão com as palavras de maldição novamente em seus lábios.
*O Hobbit, Um Breve Descanso
