O Retorno do Rei.

O fortão com pinta de segurança levou Heitor Sacramento até um carro que estava estacionado no outro lado da rua. Dirigindo o carro estava outro homem forte vestindo terno e gravata. Heitor não pôde ver direito, mas poderia jurar que o motorista e o homem que o guiava eram iguais. Heitor foi "convidado" a sentar no banco de trás. O outro cara ia também no banco de trás e fazia questão de deixar a arma em sua cintura bem evidente. O carro em que estavam não chegava a ser uma limusine, mas parecia com uma. Principalmente por causa da cor preta e do tamanho. Era um modelo antigo.

O motorista dá a partida no carro antiquado e começa a se afastar do prédio de Heitor. O guardião olha para trás e sente um aperto no peito ao ver sua moradia se afastando cada vez mais dele.

Como detetive de Gotham, Heitor conhece a sua cidade muito bem, apesar disso as ruas pela qual o carro estava passando eram a ele desconhecidas. Como isso era possível? Heitor olhou para os prédios e casas e notou que elas eram muito coloridas pro padrão da cidade. Tinham formato estranho também. Os poucos pedestres que andavam pela calçada usavam roupas estranhas ou tinham fisionomias não humanas. Pra piorar o céu não era convencional, tinha um tom avermelhado estranho. Não demorou para Heitor perceber que não estava mais em Gotham. Ao menos não na Gotham que ele conhecia.

- Que lugar é esse? - Perguntou Heitor.

- Pense nesse lugar como sendo um tipo de lado B de Gotham. Uma versão alternativa. Ocupa o mesmo espaço físico, mas em um plano de existência diferente. - Respondeu o segurança que estava ao seu lado.

- Acho que isso é cachaça demais pra minha cabeça suportar.

No lugar que deveria estar o shopping Max havia um casarão tão grande quanto. O portão foi aberto para que o carro pudesse entrar. Ele foi estacionado próximo a porta da mansão. Tendo antes que passar por alguns metros de jardim. Haviam vários seguranças circulando a área. Agora Heitor tinha certeza, todos eles eram iguais. O mesmo tipo físico, o mesmo rosto e as mesmas roupas (paletó e gravata). A possibilidade de serem todos gêmeos era nula, pois eram muitos. Algo que soava estranho. Heitor olhava para eles e não sentia nenhuma anormalidade, como se fossem simples humanos e não seres sobrenaturais.

- O que são vocês? - Heitor perguntou ao clone que estava mais próximo. Ele não respondeu, apenas abriu a porta do carro e pediu para que ele saísse.

Um dos seguranças abriu a porta da mansão e fez sinal para que Heitor entrasse. O primeiro cômodo no lado de dentro era um enorme hall. Um salão cheio de bancos de madeira compridos que lembrava uma igreja. No entanto ao invés de haver um altar em seu lugar tinha um trono. Sentado no trono tinha o que Heitor deduziu ser o rei, apesar dele não usar nenhuma coroa. A figura tinha aparência de ser jovem. Seus cabelos eram compridos e sua roupa vermelha, que parecia ser saída do século XV. O rei era muito pálido, seus cabelos totalmente alvos. Se fosse só por isso Heitor o julgaria como sendo um albino. Porém as veias do sujeito eram muito visíveis, tinha um tom azul luminoso e apareciam no pescoço e na parte do braço do rei que estava exposta.

Os seguranças ao olharem para o rei sentado em seu trono se curvaram imediatamente. Heitor deduziu que era o comportamento comum dos súditos perante sua realeza. Porém Heitor não se submeteria a nenhuma autoridade despótica. Decidiu deliberadamente não fazer reverência. Dane-se os "bons modos".

- É abusado esse aí. - Disse o rei fazendo referência ao ato de Heitor em se manter de pé. - Você se acha importante demais pra prestar respeito ao rei?

- Você não é o meu rei. Pra falar a verdade estou aqui pensando no que você é de fato.

- Sou o lorde Balor Wayne, rei da cidade de Gotham. Todos me devem respeito, inclusive você, guardião!

- Se você é de fato rei da cidade como eu nunca fiquei sabendo de sua existência antes? Eu vivo aqui desde sempre e nunca vi nem menção de que você existia.

- Sou um sangue-azul. Nós somos os mais nobres das entidades sobrenaturais, mas preferimos exercer nosso domínio dos bastidores, por assim dizer. Nunca me revelei a você, pois o julguei sem importância. Apenas um pequeno guardião resolvendo um ou outro problema envolvendo um sobrenatural. Algo que não era digno de minha preocupação. Mas as coisas mudaram. Você conseguiu chamar minha atenção. Primeiro foi matando o bruxo. Depois foi destruindo uma árvore sagrada.

Heitor se perguntou como o dito rei teve conhecimento sobre seu confronto com Sheng Lee ou seu atentado contra a yggdrasil. Heitor começou a se indagar se todos os seus atos são de fato vigiados. Como se a vida privada fosse uma ilusão. Em um mundo cheio de seres místicos e meios fantásticos manter algo em segredo parecia ser algo impossível.

- O que quer de mim?

- Já que você demonstrou ser danoso demais pra ficar fora da coleira acho que irei incluí-lo na minha folha de pagamento.

- O que quer dizer com isso?

- Se torne um agente da coroa. Eu lhe passarei alguns casos e pagarei muito bem pelos seus serviços. Também irei lhe atribuir a tarefa de limpar a barra dos meus súditos que se envolverem com problemas com a lei mundana. Até deixo você continuar brincando de detetive naquela delegacia pra manter a aparência.

- Agradeço. - Disse Heitor em tom de ironia. - Mas eu não estou a venda. - O guardião virou as costas paro o rei e andou caminhando até a saída. Balor ficou furioso, não estava acostumado a ser rejeitado.

- Guardas! - Atendendo o clamor do rei os seguranças tentaram impedir que Heitor seguisse sua viagem. O primeiro a tocá-lo foi o primeiro a perceber que não era uma boa ideia se intrometer com um guardião. Apesar de ser grande, o clone teve seu braço facilmente torcido por Heitor, que em seguida o jogou no chão.

Heitor conseguiu superar um segundo e um terceiro segurança, mas os outros vieram em grupo e sacaram suas pistolas. Heitor era mais forte e ágil que a média da humanidade, mas não era um super-homem. Sem ter como combater todos armados ele não teve opção além de levantar as mãos em sinal de rendição.

Dois clones renderam Heitor e o levaram contra sua vontade pelos corredores da mansão. Se não fosse pela situação adversa Heitor acharia a decoração do lugar muito bonito. Cheio de quadros de gente importante, estátuas e vários outros adornos. Se não fosse pela situação Heitor até descobriria que um ou outro quadro tinha a capacidade de mexer seu retrato. Não era o caso de um truque de ilusão de ótica, mas sim porque estavam vivos.

Heitor foi levado a descer escadas contra a sua vontade. A iluminação era péssima fornecida por tochas espaças que eram presas a parede. O guardião não precisava ser um gênio para entender que estava sendo levado a um calabouço. Vozes agonizantes se fizeram ouvir, o cenário tenebroso dava a Heitor a impressão de estar sendo levado a um tipo de inferno.

Uma porta pesada foi aberta e Heitor é jogado de qualquer jeito lá dentro. Quando a porta se fechou atrás dele a luz sumiu fazendo com que Heitor se perdesse dentro da total escuridão. Sua prisão não tinha nenhum ponto de iluminação o deixando na completa cegueira. Heitor tateou as paredes e percebeu que a cela era pequena. Ele estava sozinho lá dentro, algo parecido com uma solitária, só que piorado.

Heitor encontra a porta e testa forçar sua abertura. Inútil, era muito pesada. Ao tentar se sentar ele toma um susto. Sentou em cima de algo. Com a mão ele examina o objeto misterioso só para descobrir que aquilo era um esqueleto. A verdade foi dura como um soco no estômago. O rei planejava deixá-lo ali para apodrecer. Sem luz, sem comida, sem aguá... Por quanto tempo ele resistiria?

As horas iam passando, mas Heitor não podia dizer com certeza quanto tempo havia passado. A privação de sentidos e o isolamento trouxeram o desespero. Heitor sabia que a profissão de policial e de guardião eram perigosas. Mas ele esperava morrer na mão de um bandido ou lutando contra um monstro imaginário. Não dessa forma.

No desespero Heitor começou a andar em círculos. Começou a tocar em várias partes da parede tentando achar alguma solução mágica. Eis que de súbito veio uma ideia. Alguém que lhe devia um favor. Alguém que deveria atender o seu chamado. Mas será que esse alguém escutaria seu pedido de socorro naquele lugar? Em uma bizarra dimensão paralela? Heitor parou de pensar e começou a repetir o nome três vezes, do jeito que lhe haviam ensinado. - Rhiatama, Rhiatama, Rhiatama.

Silêncio.

Sem nenhuma resposta, Heitor se encolheu em um canto e esperou a morte chegar. Torceu para que ela fosse rápida e clemente. Porém o destino tinha outros planos.

- Pois, não?

Heitor levanta de supetão e procura pelo seu criado. Sem enxergar ele fica balançando os braços, buscando Rhiatama com as mãos ao invés dos olhos. O mordomo chifrudo pega seu mestre pela mão fazendo com que Heitor sentisse um alivio tão forte que não deu pra segurar a risada.

- Você me chamou, mestre? - Perguntou Rhiatama. Em outra situação Heitor ficaria contrariado com essa atitude subserviente, mas não naquela hora.

- Você diz ser meu criado, certo? Então prove ser um bom criado e dê um jeito de tirar o seu mestre daqui.

Heitor ouve um barulhinho de dedo estalando. De repente uma luz fraca começou a invadir a cela. A porta pesada de repente começou a ser aberta por uma força invisível. Heitor ficou tão feliz que não pôde conter o impeto de abraçar Rhiatama com vontade. O escravo monstro sentiu meio envergonhado. Viveu em estado de servidão por muitos anos. Não estava acostumado a esse tipo de demonstração de carinho.

- Mais alguma coisa? - Perguntou Rhiatama enquanto educadamente tentava se desvencilhar do abraço de seu mestre.

- Preciso voltar pra Gotham. A Gotham de verdade. A minha Gotham. Preciso fugir desse lugar.

- Se me permite a sinceridade de nada adiantaria.

- O que quer dizer com isso.

- O rei Wayne o acharia e o prenderia de novo. Sugiro uma abordagem mais drástica?

- Como assim? - Não mais na escuridão total e já passada a euforia inicial da fuga, Heitor viu o rosto medonho do seu servo e não pôde evitar o instinto natural de se afastar. Um homem cinza, com orelhas pontudas e com chifre de unicórnio na testa não é uma visão muito bela.

- Devo lembrá-lo que o senhor tem a disposição um gado de 345 escravos. - A palavra gado se referindo a pessoas incomodou Heitor, mas devido sua situação ele não tinha como se preocupar muito com isso. Resolveu deixar essa questão pra depois. Agora tinha que resolver um problema mais urgente.

- Você pode trazê-los pra cá? Todos?

- Eu tomei a liberdade de já ter feito isso.

Heitor começou a ouvir tiros e gritos. Alguma confusão acontecia no andar de cima. Heitor subiu as escadas correndo acompanhado pelo seu criado monstro. Aquilo não foi uma decisão muito sensata já que os degraus eram estreitos e o ambiente era de péssima iluminação. Na correria Heitor quase cai duas vezes.

Ao sair do calabouço Heitor assiste a uma batalha épica acontecendo nos amplos corredores da mansão. Seguranças tentam desesperadamente deter uma horda esquisita. Um exército formado por pessoas do mais variado tipo. - São esses meus escravos? - Pensou Heitor.

O guardião sempre repudiou a mercantilização de seres racionais. No entanto a ciência de que tinha tantos a sua disposição o fez sentir uma estranha sensação de poder a qual não estava acostumado.

Alguns escravos de Heitor usavam espadas e outras armas antiquadas, mas eram guerreiros tão excepcionais que se mostraram eficientes mesmo contra oponentes munidos de armas de fogo. Dentre os escravos haviam guerreiros que pareciam sósias do Conan. Outros tinham aparência animalesca ou monstruosa. Homens-lobo, vampiros, faunos, leprechauns e outros seres que Heitor não sabia identificar. No meio havia também mulheres guerreiras. Mulheres belíssimas cuja presença fez o guardião corar.

A batalha foi breve, os seguranças clone foram logo subjugados. O rei Wayne, que permanecia no trono, agora estava totalmente despido de autoridade. Sem mais aquela pose arrogante de quem se acha acima do bem e do mal.

Heitor foi até o trono onde o rei estava sentado e colocou um pé por entre suas pernas, quase acertando suas partes mais sensíveis. Wayne estava suando frio e tremendo.

- Estou com outro acordo em mente. - Disse o guardião, agora em posição de vantagem. - Você deixa os assuntos da Gotham real comigo e se limita a "reinar" nessa Gotham fajuta.

- Mas eu tenho um direito divino! Sou rei.

Heitor deu dois tapas na cara do suposto rei. Um sangue azul começou a correr no canto de sua boca. Fazendo com que o rei se lembrasse que não era divino. Apesar de se sentir como tal por quase toda a sua vida.

- Suponho que você não seja o único sangue-azul do mundo. Diga aos outros que se procurarem encrenca com o guardião de Gotham vão ter!

Novamente Heitor deu as costas ao trono e foi caminhando até a porta de entrada. Dessa vez, porém, nenhum segurança se atreveu a interferir.

Enquanto isso na Gotham real.

Era dia de trabalho para Adamastor Pitágoras. Como o fauno estava vivendo como um humano mundano precisava de um trabalho que lhe oferecesse dinheiro mundano. Estava na bilheteria do circo Cirque du Macabre. Como de costume vendia vários ingressos de maneira bem mecânica, sem prestar muita atenção para o que os clientes perguntavam. No meio do trabalho um garoto, um que também trabalhava no circo, foi dar um recado a ele. - O diretor quer falar com você. - Disse o menino.

- E a bilheteria?

- Deixa que eu tomo conta disso. O assunto é urgente.

Adamastor deixou a bilheteria e foi até os bastidores, caminhou pelo corredor até chegar a sala do diretor. Apesar de tê-la visto várias vezes Adamastor não deixava de se sentir bem dentro dela. As paredes feitas de madeira faziam com que ele sentisse como se estivesse mais próximo de seu lar, a floresta.

Gallifrey estava, como habitualmente, sentado atrás de sua mesa se ocupando de assuntos que ninguém tinha conhecimento. - Por favor, sente-se. - Disse o primordial. Gallifrey usava sempre a mesma roupa antiquada. Com suspensório e gravata borboleta. Adamastor chegou a se perguntar se ele não a trocava nunca. Então chegou a conclusão que talvez aquela roupa que usava não existisse de fato. Fosse apenas uma ilusão assim como o seu corpo. Tal como um holograma.

Gallifrey fez sinal para que o fauno se sentasse na cadeira a frente de sua mesa e assim Adamastor fez. Só após se acomodar é que Gallifrey começou.

- Temos um novo problema.

- Alguma coisa com o circo?

- Esqueça o circo, é algo infinitamente mais importante.

- Agora você está me assustando.

- Eu visitei o futuro. Mais uma vez o destino glorioso da humanidade está ameaçado.

Adamastor se lembrou da outra razão que levou a humanidade a ter seu futuro alterado, que no caso foi o fato de Heitor dar o nome do seu filho a um bruxo. O fauno se perguntou se o guardião havia feito outra besteira similar. A resposta, porém, era mais complexa.

- Há uma nova ameaça ao futuro da humanidade. A ameaça é Heitor.

- Que bobagem ele fez agora?

- Não, você não está entendendo. A ameaça não é nenhum erro, é o guardião em si. Ele irá se tornar um tirano.

- Não entendo.

- Seu protegido, Heitor, irá começar a conquistar tudo. Ele já começou. Tem vários guerreiros que morreriam em seu nome e esse número tende a aumentar. Se não o detivermos está tudo acabado.

- Diga logo. O que está me pedindo?

- Você terá que deter o guardião. Nem que isso signifique... - Adamastor já tinha deduzido o que o primordial iria dizer, mesmo assim teimava em não querer aceitar.

- Nem que isso signifique ter que matá-lo.