República
Por: Pepperish
Capítulo treze: Sobre lençóis, laços e lenços de papel
"Ninguém se apaixona por outra pessoa nos grandes gestos.
Claro, você pode se apaixonar pelos gestos, mas não é a mesma coisa.
Pelas pessoas a gente se apaixona nos momentos pequenos,
Nas brigas que dizem mais do que doem, na saudade que não
Te deixa em paz e nos momentos entre lençóis.
Espera! Não foi isso que eu quis dizer seus pervertidos –"
Por Kagome Higurashi.
Minha vida não tem sido normal no stricto sensu da palavra há um tempo.
Quer dizer, desde o início dessa minha irrelevante existência eu sempre tive uma certa quota de karma extra, mas desde que eu me mudei para o flat as coisas explodiram qualquer marcador de normalidade. Não é todo dia que uma garota ordinária sai de um apartamento comum em NY para aterrissar em um flat ocupado por aspirantes a modelo, ganha uma extreme make over de graça (e sem programa de televisão) e conhece Inuyasha Taisho – o que deveria bastar por si só.
Mas naquele preciso momento, minha vida estava atingindo todo um novo nível de absurdidade.
Tudo que eu conseguia fazer era encarar, boca aberta e olhos arregalados.
Enquanto Sesshoumaru e Inuyasha jogavam Street Fighter na sala.
Sério.
Nem em um milhão de anos eu seria capaz de imaginar Sesshoumaru fazendo algo tão mundano quanto jogar videogame. Era uma experiência que beirava o aterrador.
Tudo bem que ele jogava do jeito mais Sesshoumaru possível: Sem nunca mudar de expressão facial, os olhos fixos na tela com uma expressão tão plácida que às vezes por pouco não parecia entediada. Inuyasha, por outro lado, não poderia se expressar mais nem se tentasse. Ele apertava o controle (ao ponto em que eu realmente podia jurar que, até o final da noite, estaríamos adicionando um videogame novo à nossa lista de compras), xingava e amaldiçoava quando algo não acontecia como ele planejava - alto o suficiente para o porteiro ouvir - e quicava o pé impacientemente no chão enquanto praticamente rosnava para a tela. Espera, esquece isso, enquanto literalmente rosnava para a tela.
Acredito que ter Sesshoumaru volta e meia perguntando 'Algum problema, irmãozinho?' não devia estar ajudando, mas ainda assim.
Depois do choque inicial, meus movimentos voltaram a responder aos meus comandos cerebrais o suficiente para que fosse me juntar aos outros ao redor da mesa. Estava tentando não explodir em gargalhadas a cada cinco minutos, uma tarefa enorme para qualquer pessoa normal. Sango e Miroku não ofereciam a mesma cortesia, rindo impiedosamente das reações de um certo hanyou irritadiço.
"Deveríamos estar torcendo para nossos respectivos cães – digo, namorados?" Rin me perguntou, um brilho travesso iluminando os olhos castanhos, denunciando que seu sorriso angelical não tinha nada de inocente. É óbvio que eu corei assim que a palavra 'namorados' deixou seus lábios, implicando que a relação entre Inuyasha e eu seria algo do gênero. O que não era. Definitivamente não. Ainda não?
"Nah. Acho que deveríamos formar um time feminino e chutar a bunda dos dois ao mesmo tempo." Respondi, minha voz rouca graças a uma dor de garganta inconveniente que vinha me perturbando desde o dia anterior. Se o protesto ofendido de Inuyasha e a sobrancelha arqueada de Sesshoumaru eram evidência, eles não concordavam tanto com a minha ideia quanto Rin, que soltou uma risada deliciada e comentou que isso sim tornaria as coisas interessantes.
"Oi, bruxa! Você devia estar do meu lado." Inuyasha disse do sofá.
"Com medo de um pouquinho de competição, Inuyasha?" Infelizmente, minha resposta teria surtido muito mais efeito caso minha garganta não estivesse arranhando tanto que eu comecei a tossir pelo esforço. Inuyasha desgrudou os olhos da televisão pela primeira vez desde que eu entrei no cômodo para encontrá-lo batalhando visceralmente contra seu irmão. E ele fez isso especialmente para me lançar um olhar algo entre reprovador e preocupado. Que adorável da parte dele.
"Pare de falar bobagens e vá tomar um remédio."
"Mama, é você? De onde surgiram essas orelhas?" Mandei a língua em sua direção e ele sorriu aquele sorriso antes de voltar sua atenção para o jogo, mas era tarde demais: Sesshoumaru havia aproveitado os momentos de distração do irmão para desmembrar seu personagem de forma pouco caridosa.
"Melhor sorte na próxima, irmãozinho." Tenho certeza que não era mais para a televisão que Inuyasha estava rosnando. No entanto, contrariando todas as expectativas, ele não começou uma discussão, apenas deu de ombros e saiu da sala, deixando todos nós – tudo bem, todos nós menos Sesshoumaru, era óbvio que ele escondia a própria surpresa com muito mais maestria – com expressões igualmente atônitas.
"Isso foi inesperado." Miroku comentou, parecendo quase desapontado. Sango concordou com um aceno de cabeça vigoroso.
Inuyasha voltou para a sala logo depois, carregando aspirinas, um xarope e um enorme copo d'água.
"Bebe." Simples assim.
"Nós já não conversamos sobre essa sua mania irritante de achar que pode me dar ordens?"
"Você está doente, deve ter delirado isso. Anda, bebe." Ele dispensou meu argumento e praticamente enfiou o copo de água no meu nariz até que eu o peguei de suas mãos com um olhar feio. Se minha voz estivesse um pouquinho melhor, eu teria discutido mais, porém, naquele momento, era possível que Inuyasha tivesse alguma razão. Chocante, eu sei. Bebi as aspirinas e tomei o xarope logo depois. "Boa menina." Inuyasha sorriu.
"Acho que você está esquecendo quem é parte cachorro aqui."
Ele se sentou na cadeira ao meu lado e repousou o copo sobre a mesa.
"Oh, isso é quase melhor que uma briga entre irmãos! Isso, Kagome-chan, aperta a coleira! Siga o exemplo de Rin!" Sango sugeriu animadamente e todos rimos quando dois pares de olhos dourados nada felizes se viraram ameaçadoramente em sua direção. Ela deu de ombros. "Sem rosnar, rapazes, ou dormirão no canil hoje."
Rin estendeu uma de suas pequenas mãozinhas, entrelaçando os dedos entre os de Sesshoumaru, e a expressão dele se suavizou mínima, mas perceptivelmente. Eles não eram um casal dado a demonstrações públicas de afeto, mas era incrível observar o poder tranquilizador que ela detinha sobre ele. Não contive um sorrisinho.
"Acho que a inabilidade de aceitar piadas é um mal de família nesse caso." Miroku comentou, o canto de seus lábios se retorcendo para cima. "Ou será um traço comum a todos os demônios?"
"Se você deseja viver para descobrir, Houshi, cale a boca." Sesshoumaru então se voltou para a namorada. "Está na hora, vamos embora."
"Sim, só preciso pegar minha bolsa. Nós vamos assistir o filme que eu escolhi, certo?"
"Rin..." Sesshoumaru praticamente suspirou.
"Por favor?"
Aparentemente os enormes olhos castanhos de filhote dela eram demais até mesmo para Sesshoumaru. "O filme que você escolheu é às nove. Vai ter que se apressar se quiser chegar a tempo." Apenas ele poderia fazer uma rendição soar como uma ordem. Rin abriu um sorriso luminoso e plantou um beijo em sua bochecha (tendo que ficar na ponta dos pés para tal graças à diferença de altura) e desapareceu graciosamente na direção dos quartos. Sesshoumaru lançou um olhar congelante sobre nós, desafiando alguém a fazer algum comentário.
Ninguém se pronunciou.
Rin voltou do quarto com a bolsa pendurada no ombro e, por um segundo, eu quase acreditei que eles conseguiriam sair sem começar outra discussão.
"Bom menino, Sesshy. Rin realmente te tem em uma coleira."
Sesshoumaru se virou, seus olhos prometendo uma morte lenta e dolorosa para Inuyasha, que, é claro, estava arrogantemente espalhado na cadeira, com um sorrisinho provocante dançando nos lábios.
Quase.
Antes que ele pudesse começar a estripar o membro de sua própria família, Rin interveio, passando os braços por um dos seus.
"Nove horas! Mate Inuyasha na volta."
E eu puxei uma mecha do cabelo de Inuyasha.
"Pare de provocar seu irmão."
Sango e Miroku voltaram a rir histericamente no minuto que Rin e Sesshoumaru saíram pela porta (aparentemente preservando mais amor à própria vida que o idiota ao meu lado).
"Sem graça." Inuyasha resmungou, mas não falou mais nada quando coloquei uma mão sobre sua perna sob a mesa e apoiei minha cabeça em seu ombro.
"Duas humanas fracas. Quem diria que isso é tudo que é preciso para aplacar a fúria de dois inuyokais." Miroku provocou.
Inuyasha, por sua vez, estava muito ocupado colocando a mão sobre a minha testa a fim de medir minha temperatura para perceber. A julgar pela série de xingamentos murmurados ele não ficou muito satisfeito com o que encontrou. Retirei sua mão da minha pele e comecei a me levantar antes que o garoto resolvesse me dar mais ordens sobre como cuidar de minha saúde.
"Bem, foi muito divertido, mas preciso me retirar." Disse.
"Você vai deitar, certo?" Inuyasha conseguiu fazer a pergunta soar como uma ordem: vá deitar agora, humana fraca e doente.
"Não ainda, preciso estudar." Respondi, sem esconder minha impaciência.
"O que você precisa é dormir para melhorar, bruxa, cálculo pode esperar."
"Infelizmente, cálculo nunca espera, Inuyasha. Prometo descansar depois, ok?" Lancei um último olhar para Miroku e Sango que ainda pareciam encontrar grande entretenimento em nós e revirei os olhos antes de sair.
É claro que Inuyasha se levantou e me seguiu.
"Inuyasha..." Suspirei em aviso.
Não que tenha adiantado.
Honestamente, por que eu ainda tento?
Ele ficou no quarto comigo (sob a desculpa de estar garantindo que eu não me esforçasse demais, mas na verdade o que ele queria era me distrair dos livros e roubar beijos – como se eu não pudesse ver o que ele estava fazendo) por umas boas duas horas, até que finalmente consegui expulsá-lo dizendo que estava cansada, queria dormir e não, não ia dormir em sua cama.
Não gosto de mentir... Tá, não muito. Mas ele não me deixou outra opção!
Eu realmente coloquei o pijama, mas ao invés de dormir, pude finalmente me concentrar e estudar alguma coisa.
Quando Sango entrou no quarto, algum tempo depois – em um péssimo humor fumegante que em nada lembrava o riso despreocupado que eu havia visto poucas horas antes -, percebi que meu corpo estava rígido e dolorido. Eu estava ficando com sono também. Um olhar em sua direção me disse tudo que precisava saber – nenhum tipo de problema deixava Sango com a mesma expressão que desentendimentos com Miroku.
Por todos os Deuses, eles iam continuar nesse jogo de gato e rato pra sempre?
"Sango –"
"Agora não, Kagome."
"Tem certeza?"
"Absoluta."
"Sabe que vai ter que falar sobre isso mais cedo ou mais tarde, certo?"
Sango murmurou boa noite sem me dar uma resposta apropriada e deitou com as costas viradas para mim. Suspirei, tentando dissipar uma pontada de irritação, repetindo para mim mesma que eu não tinha direito de me sentir incomodada com isso. Tudo que me restou foi me ajustar sobre a cama – minhas pernas batalhando por espaço contra uma certa cadela espaçosa – e dormir.
oOo
Eu odeio quando Inuyasha tem razão.
Tenho certeza que já disse algo semelhante no passado, mas eu absolutamente não digo isso o suficiente. Então aqui está: Eu odeio com a intensidade de mil prédios em chamas quando Inuyasha está certo e eu errada. Quer dizer, não é como se o ego do garoto já não fosse monumental o bastante sem que eu precise dele repetindo 'eu te avisei' (não que ele estivesse repetindo qualquer coisa para mim no momento).
Na manhã seguinte, esse era um dos poucos pensamentos coerentes na minha mente embaralhada, enquanto meu corpo positivamente ardia em febre e eu não conseguia mover um dedo que fosse sem me sentir péssima. O que explica porque, quando Inuyasha irrompeu quarto adentro praticamente rosnando ordens a torto e a direito (algo sobre Sango e Rin se arrumarem para as aulas, que eu era responsabilidade dele ou outra coisa estúpida do gênero), eu simplesmente ignorei, escondendo minha cabeça sob as cobertas.
Naquele instante eu não estava consciente o bastante para pensar em argumentos razoáveis que fossem convencê-lo de que ele não podia perder aula ou ficar desprotegido do lado de uma pessoa contaminada por um vírus qualquer (não que Inuyasha seja o tipo que é convencido por argumentos razoáveis, na verdade), então eu simplesmente continuei enrolada no meu cobertor, sendo assaltada por tremores e calafrios.
Inuyasha e Rin conversavam sobre o meu estado de saúde e depois as duas meninas desapareceram do quarto, provavelmente prosseguindo com suas rotinas matinais como ele disse.
Então Inuyasha simplesmente me tirou de minha amada e quentinha cama, me erguendo em seus braços enrolada em meu edredom como uma lagarta no casulo, e me levou para o quarto do outro lado do corredor. Ele me deitou em sua cama e se juntou a mim alguns minutos depois, tudo que consegui fazer foi me enroscar um pouco mais em seu abraço e voltar a dormir, me sentindo – com o perdão da expressão – absolutamente na merda.
O resto do dia se passou basicamente do mesmo jeito, com Inuyasha me acordando periodicamente para tomar remédios e tentar comer um caldo que mal podia ser chamado de sopa. Esses poucos minutos eram o máximo que eu conseguia ficar semiconsciente, me sentindo exausta e doente.
Nem percebi que, além do dia inteiro, passei a noite com ele no quarto sem nem sombra de Miroku por perto.
No segundo dia, no entanto, meu complexo de bela adormecido tinha diminuído consideravelmente. E isso, é claro, significava que estava na hora de puxar a orelha canina de certo hanyou – ainda que metaforicamente.
"Inuyasha, o que você está fazendo?" O problema era que, metaforicamente ou não, até isso parecia fora do meu alcance, uma vez que falar era um tremendo esforço graças à minha garganta inflamada.
"O que parece que eu estou fazendo?" Apesar das palavras indelicadas, a voz de Inuyasha era extremamente suave – com certeza mais suave do que eu jamais havia ouvido. "Cuidando da minha bruxa teimosa que nunca me escuta."
Não sei se eu teria rido ou me irritado com essa resposta sob circunstâncias normais, mas como era, apenas suspirei exasperada, e me satisfiz em me reacomodar sobre seu peito quando ele voltou a deitar ao meu lado após medir minha temperatura. Ah, e xingar como um marujo naufragando, é claro. Isto é, até um pensamento me ocorrer, me fazendo levantar tão rápido que vi meu mundo girar.
"Agora o que você está fazendo, sua garota louca?" As mãos de Inuyasha voaram para minhas costas, me estabilizando – e provavelmente me impedindo de cair em um ângulo pouco natural de volta sobre o colchão –, em um piscar de olhos.
"Você precisa sair de perto de mim!" Ele apenas arqueou uma sobrancelha, sua expressão sugerindo que os pensamentos de Inuyasha eram algo em torno de 'agora ela enlouqueceu de vez'. Talvez em termos menos amáveis, afinal, é de Inuyasha que estamos falando aqui. Mas eu sabia que, dessa vez, eu estava com a razão. "É sério, Inuyasha! Eu estou doente, vou passar pra você!"
Então Inuyasha riu como se eu tivesse acabado de contar a melhor piada do último milênio. Teria lançado um olhar propriamente irritado em sua direção se, naquele momento, ele não estivesse me recostando suavemente sobre a cama outra vez.
"Hanyous não são fracos como humanos, Kagome, sua doença não vai me infectar."
"Mas—"
"Sem mas." Ele me interrompeu. "Volte a dormir que daqui a pouco vou trazer algo para você comer."
Meus protestos morreram na praia quando Inuyasha depositou um beijo leve sobre meus lábios.
"Durma."
E por mais que eu odiasse obedecer às ordens daquele garoto com complexo de majestade, foi exatamente o que minhas pálpebras pesadas me obrigaram a fazer.
Assim que anoiteceu o médico apareceu, me cutucando em vários lugares, medindo meus sinais vitais e decretando o que eu estava esperneando o tempo inteiro – eu tinha apenas uma gripe forte. Mandei a língua na direção de Inuyasha e ele simplesmente me ignorou como se na verdade ele fosse uma pessoa madura e eu a criancinha mimada. Oh, o desplante!
Inuyasha voltou para o quarto com uma xícara fumegante entre os dedos. Torci o nariz quando uma lufada de ar trouxe o que era possivelmente o pior cheiro do mundo até mim. E estava vindo de dentro daquele negócio. O que ele estava fazendo com aquilo nas mãos? Achei que um cheiro tão potente fosse capaz de fazê-lo desmaiar!
Para melhorar, ele simplesmente estendeu a caneca na minha direção.
"Beba."
Acho que a pior parte dessa história de ficar doente foi o fato de que Inuyasha concluiu que agora ele poderia sair me dando ordens a torto e a direito.
"O que?!"
"Eu disse para beber, bruxa!"
"Não vou beber isso! Se o cheiro é ruim assim, imagina o gosto. De jeito nenhum!" Ele riu, mas o humor não fez nada para a aplacar sua determinação férrea.
"É um remédio, sua bruxa ingrata, sabe o trabalho que me deu para preparar isso?" Inuyasha reclamou enquanto me ajudava a levantar, colocando os vários travesseiros de sua cama atrás de mim para me ajudar a permanecer sentada.
"Você fez isso?" Minha surpresa não fui muito bem-recebida.
"Humph." Ele apenas insistiu, empurrando a caneca para minhas mãos. Olhei para a mistura e, fazendo uma careta inevitável, peguei-a hesitantemente. "Agora pare de forçar sua garganta e beba."
"Você percebe que vou ter que forçar minha garganta a beber isso, certo?"
Inuyasha me lançou um olhar duro e eu joguei o líquido tenebroso garganta abaixo, enquanto ele murmurava alguma coisa sobre garotas teimosas. Ugh, a poção era pior do que eu imaginava. Se estivesse bebendo sangue de cobra direto da fonte talvez eu não estivesse tão enjoada.
Quando finalmente terminei, quase atirei o utensilio em Inuyasha, ansiosa que estava por me livrar daquilo.
"Tem certeza que não é um plano de vingança e na verdade isso era veneno?" Ele me ignorou. "Como você conhece esse remédio, de qualquer forma?"
"Como se eu fosse te dizer." Inuyasha resmungou e eu quase ri. Ele estava claramente fazendo birra, parecendo extremamente contrariado pela minha reação. Era adorável. O garoto depositou a caneca sobre o criado mudo e se sentou encarando a direção oposta. Ele até poderia ter me enganado – ter conseguido me convencer de que estava realmente estava me ignorando – não fossem as orelhinhas viradas para mim, em pé e atentas a qualquer ruído.
Puxei uma das mexas de seu cabelo, trazendo-o para perto de mim. Inuyasha se virou:
"O que diabos—" Colei meus lábios aos dele, apenas por alguns segundos, já que eu tinha certeza que aquele gosto terrível ainda estava em minha boca. Sorri.
"Obrigada." Inuyasha me avaliou, seu olhar ainda vagamente irritado.
"Bruxa." Soube que estava perdoada então por ter menosprezado seus esforços. Me manuseando quase como uma boneca de pano, ele se posicionou atrás de mim, substituindo os travesseiros e apoiando minhas costas contra seu torso. Uma das mãos de Inuyasha procurou minha testa para sentir minha temperatura e ele xingou, se esticando para pegar o termômetro. "Maldita temperatura que nunca volta ao normal. Isso não vai baixar nunca?"
"Não sei, você também está sentindo que está quente aqui?" Disse em um tom supostamente sensual, minha voz rouca tornando o efeito curiosamente eficiente. Inuyasha soltou um suspiro frustrado.
"Repita isso exatamente aqui quando estiver saudável de novo."
"Se eu tivesse força, bateria em você agora."
"Eu sei, mas você gosta." Ele disse. "Acha que consegue ficar acordada para ver um filme, Bela Adormecida?"
"Não se for com um dos filmes que você escolhe." Inuyasha rosnou suavemente sob mim e eu ri, até ser interrompida por um ataque de tosse.
"Isso é punição por falar mal do meu gosto cinematográfico impecável." Ele diz, com as mãos subindo e descendo pelos meus braços até a tosse ceder.
"É alergia a esses filmes ruins."
Inuyasha bufou, mas não respondeu, apenas colocou o controle entre meus dedos e se recostou melhor. Sorri de novo.
Mesmo sendo um filme de minha escolha, antes da metade do filme acabei dormindo outra vez, sendo ninada pela respiração cadenciada de Inuyasha.
No terceiro dia, aquilo precisava acabar. Eu não podia permitir que ele continuasse faltando aulas por minha causa. E foi exatamente o que eu disse.
"Claro que pode, me observe." Inuyasha respondeu e cruzou os braços. E ele diz que eu sou teimosa.
"Inuyasha!" Repreendi.
"O que?"
"Isso não é certo!"
"E o que é certo? Te deixar aqui sozinha para ir para a escola?" Ele perguntou sarcasticamente.
"Eu estou bem, posso me cuidar sozinha!"
Antes que ele pudesse responder (e gostaria muito que fosse algo no sentido de 'você tem razão, como sempre, vou começar a me arrumar e estudarei muito para te ensinar depois', mas parecia pouco provável), Sango entrou no quarto carregando uma bandeja digna de uma família de oito, cheia de frutas, pães, iogurtes e mel.
"Seu café-da-manhã, Kagome-chan. Como está se sentindo?" Ela perguntou gentilmente.
"Muito melhor." Respondi com meu melhor sorriso, fazendo questão de lançar um olhar significativo para o garoto.
"Mais insana que o normal, talvez eu devesse chamar outro médico."
Meu sorriso rapidamente se transformou em uma carranca, mas não discuti. Me voltei para Sango: "Isso tudo é só para mim?" Inquiri quando percebi que só havia um prato e set de talheres.
"Não olha pra mim, eu disse que era demais." Ela indicou Inuyasha com a cabeça. Ele estava de braços cruzados, me encarando como se me desafiasse a contradizê-lo.
"Está tentando me alimentar pela semana inteira de uma vez?" Arqueei uma sobrancelha.
"Seu corpo precisa de energia." Querido, essa bandeja tem energia o suficiente para correr por três dias sem parar! "E você quer ficar sozinha quando nem vai se alimentar direito."
"Ah pelo amor de—"
"Você não acha que é meio cedo para ficar sozinha, Kagome-chan?" Sango, querida, eu entendo que você está tentando ajudar, mas você não está ajudando! Inuyasha sorriu convencido e eu tive que me controlar para não responder infantilmente. "Estou falando sério, pensa no que pode acontecer. E se você tiver uma recaída e precisar de ajuda? Além disso, nenhum de nós vai conseguir se concentrar se estivermos preocupados com você."
"Talvez." Suspirei, derrotada.
"A gente só quer que você se recupere, amiga. Até porque Inuyasha não vai deixar ninguém em paz até lá." Isso conseguiu me arrancar um sorriso.
Droga, odeio Sango.
Ela se despediu e saiu do quarto, trocando um olhar que dizia claramente a Inuyasha 'você me deve uma'. Ugh, eu não posso contra esses dois juntos. Mastiguei um bagel distraidamente.
"Não esquece de tomar o remédio."
"Vai me lembrar de escovar os dentes também?" Praticamente rosnei.
"Se precisar." Ele continuou sorrindo daquele jeito insuportável. "Vamos lá, bruxa, não seja uma perdedora ruim."
"Você joga sujo." Meu comentário não pareceu surtir efeito. "Usar Sango contra uma pessoa doente, Inuyasha? E você se diz preocupado comigo."
"Os fins justificam os meios."
"Você sabe que maquiavélico não é um elogio, certo?"
"Coma." Franzi minhas sobrancelhas.
"Pare de tentar me dar ordens."
"Podemos discutir isso quando você estiver saudável. Agora coma antes que esse dia nunca chegue." Sem esconder minha absoluta indignação, continuei a comer partes do café da manhã apenas para ter uma desculpa para ignorá-lo.
Inuyasha apenas riu.
Eu odeio esse homem.
oOo
"Inuyasha?" Chamei com o tom mais meigo que consegui conjurar. Apesar da melhora significativa na minha garganta, minha voz ainda não tinha voltado totalmente ao normal.
"Não." Simples assim. Sem nem ao menos me escutar! A petulância desse garoto!
"Por favor?" Tentei outra vez, puxando uma mexa de seu cabelo para obrigá-lo a me encarar, então tentei a melhor imitação de um olhar de filhote possível. Se funcionava para Rin, por que não, certo?
"Qual o seu problema com o meu cabelo, bruxa?" Seus dedos vieram se entrelaçar com os meus, tirando seus fios prateados do meu alcance e segurando minha mão no lugar. "Não." Aparentemente, Inuyasha não era tão suscetível a olhares pedintes.
"Mas eu ainda vou estar aqui, enroladinha no cobertor, e você ainda vai estar ao meu lado brincando de cão de guarda!"
"Você vai se cansar e vai demorar mais para se recuperar se não ficar quieta." Novamente seu tom era praticamente cortante enquanto ele me dava bronca, sua mão apenas largando a minha para ter certeza que o cobertor estava enrolado ao redor de todas as partes do meu corpo. Talvez eu achasse seu cuidado adorável, em algum outro universo, caso Inuyasha não estivesse sendo tão ridiculamente controlador e mandão. Superprotetor mal começa a descrever o que ele vinha sendo nos últimos três dias.
Eu não ia desistir, sabia disso, mas nada estava funcionando! Era como tentar argumentar com uma parede. Gritar – ou tentar gritar – foi inútil, meus pedidos meigos entravam por uma orelhinha canina e saíam por sua gêmea imediatamente e quando eu tentei correr ele me pegou antes que eu pudesse dar três passos. Ugh. Só me restava uma última arma.
E odiava ter que abrir mão de minha integridade física daquela maneira.
"Inuyasha?" Ele suspirou impacientemente, mas se virou para mim de qualquer maneira.
"Podemos fazer isso o dia todo, você sabe."
"Se me deixar estudar em paz eu aceito tomar seu remédio nojento de novo." Isso fez com que ele parasse e me observasse criticamente, como se medindo minhas palavras e o mérito nelas. Já podia sentir os arrepios de desespero se esgueirando por meus braços, o gosto tenebroso praticamente tangível em minha língua.
Nem eu acredito que estava tão determinada assim a estudar Matemática, mas não tinha escolha. Toda essa montanha-russa de emoções dos últimos meses já vinha sendo distração suficiente e não podia me dar ao luxo de deixar meu rendimento cair.
As graciosas orelhas no topo de sua cabeça se moveram, quase o bastante para me fazer esquecer que estava irritada com ele e fazer carinho nelas devia ser a última coisa em minha lista de prioridades.
"Pode ser que você tenha tido sua primeira ideia razoável do dia, bruxa." Ele não parecia exatamente satisfeito com a ideia, se seu tom mau humorado era qualquer indicação, mas pelo menos ele havia aceitado! "Vá pegar seus preciosos livros enquanto vou preparar o remédio pra você."
"Ainda tem fígado fresco aí?" Perguntei, tentando evitar estremecer, quase podia sentir minha pele adquirindo um adorável tom de verde atrás do meu sorriso vitorioso.
"Pedi para Rin comprar mais ontem, sua recuperação está lenta até para os padrões humanos. A maioria das pessoas não precisa beber aquilo mais de uma vez." Quis suspirar ao ouvir isso, mas minha insatisfação rapidamente cedeu lugar quando ele simplesmente me lançou um daqueles seus sorrisinhos de canto e saiu do quarto – presumivelmente em direção à cozinha. Disparei para o quarto da frente, recolhendo meu material o mais rápido possível antes que Inuyasha resolvesse inventar mais algum protesto.
Mal tinha começado a realmente me envolver com as tarefas quando Inuyasha voltou, caneca em mãos, odor terrível permeando o ar. Encarei o líquido dubiamente, lentamente reconsiderando se notas altas eram realmente tão importantes assim.
Reconhecendo meu olhar pelo que era, Inuyasha me encarou com uma expressão dura.
"Sem tentar voltar atrás na sua palavra agora." Ele me estendeu a caneca e só não suspirei porque não queria sentir mais daquele cheiro do que o estritamente necessário.
Inuyasha parecia um tanto mais divertido do que eu consideraria recomendável para sua integridade física enquanto eu tentava mandar goela abaixo sua poção malcheirosa.
"Pronto, não te matou, certo?" Ele me perguntou com um paternalismo insofrível.
"Oh, dê mais alguns minutos para surtir efeitos, Inuyasha, não tenha tanta pressa assim."
"Pare de falar e volte logo pros seus estudos enquanto ainda estou de bom humor, bruxa."
"Isso é seu bom humor?" Perguntei e uma risada escapou de mim. "Engraçado, achei que já tivesse visto você contente antes e não era assim."
"Oh, e como era?" O tom divertido em sua voz e o brilho em seus olhos âmbares me convidaram a me inclinar mais para perto e não perdi tempo.
"Eu te daria um beijo agora para te lembrar." Nossos narizes estavam tão próximos que eu podia sentir sua respiração ventilando sobre meus lábios. "Mas não tenho muito tempo antes de você recomeçar a reclamar."
Comecei a me afastar, mas seu sorriso predatório em comunhão com um movimento rápido de seus dedos chamaram minha atenção. O papel brilhante cor de rosa entre suas garras fazendo meu coração bater mais rápido.
"Suponho que você não queira isso então?" Ele girou o doce entre os dedos. "Sei que o gosto não é dos melhores, então pensei... Mas não quero atrapalhar."
"Eufemismo do século." Inuyasha apenas riu. "Me dá isso."
"Eu ouvi alguma coisa sobre um beijo?"
"Um beijo e você me dá o bombom?" Perguntei. Ele assentiu com um movimento rápido. Meus lábios se estenderam em um sorriso lupino que não perdia em nada para o que dançava em seu rosto. "Ok."
Aproximei meu rosto do seu, minha mão cobrindo seus dedos que seguravam meu prêmio. Suspirei assim que o celofane entrou em contato com minha pele. Isso iria ensiná-lo. Rapidamente depositei um beijo leve sobre sua bochecha – a parte sensível da pele bem ao lado de sua boca – e me afastei outra vez, rindo.
"Oi, bruxa!"
"Fique quieto, não tenho tempo para continuar discutindo com você." Fiz um trabalho eficiente arrancando a embalagem e jogando minha recompensa boca adentro. "Quem sabe mais tarde."
Inuyasha fez um som de desdém e eu ri outra vez enquanto me debruçava sobre livro e caderno.
De volta a Cálculo!
oOo
Suponho que o dia tenha começado mal o suficiente quando, ao ressoar do despertador, eu ainda podia sentir uma certa fadiga se agarrando a meus músculos. Bom, isso e o abraço de Inuyasha.
Tudo bem que essa talvez não fosse a parte ruim.
Durante os cinco dias que ele praticamente me fez de refém em sua cama, acordar com seus braços envolvendo minha cintura era provavelmente a única razão de eu continuar aceitando que ele me mantivesse ali. Mesmo que Miroku tivesse dormido no sofá da sala nos primeiros três (aparentemente Sango havia se recusado a deixar que ele dormisse em nosso quarto, mesmo que minha cama estivesse vazia e Inuyasha o tivesse expulsado de seu próprio quarto alegando risco de contágio. Eu realmente preciso arrumar um jeito de fazer essa menina falar), até que eu descobrisse a respeito e o fizesse voltar para sua própria cama. Como se isso não fosse embaraçoso o suficiente, Inuyasha me manteve lá assim mesmo durante o fim de semana. Com um sorriso minúsculo, lembrei que eu talvez pudesse ter resistido um pouco mais. No entanto, encolhida contra o corpo muito maior que o meu era fácil ver porque não encontrei motivação suficiente para tanto.
Tentei me soltar, mas o garoto não se mexeu. Pude ouvir uma risadinha muito mal escondida de Miroku, que já estava de pé e arrumando a própria cama ao nosso lado.
"Não vai me obrigar a fazer um plano complexo de fuga a essa hora da manhã de uma segunda-feira, vai?" Os cantos de seus lábios se curvaram para cima, ainda que seus olhos permanecessem fechados.
"Como se eu fosse te deixar escapar." Inuyasha bocejou. "Tem certeza que está bem o suficiente?"
"Absoluta." Ele ainda parecia duvidoso. Não consegui evitar de me sentir irritada, não é como se já não tivesse respondido essa mesma pergunta no mínimo umas oitenta vezes na noite anterior. É claro que meu tom me denunciou, a única resposta que o garoto me deu foi arquear uma sobrancelha. "Tenho mais certeza ainda que nenhum de nós dois tem condições de perder mais aulas, então trate de levantar."
"E se eu não deixar?"
Quase rosnei.
Tenho certeza que não costumava rosnar antes de vir morar nessa república.
"Como se você pudesse deixar alguma coisa." Inuyasha bufou em desdém e eu continuei: "Mas se continuar insistindo posso garantir que você nunca mais possa ter filhos, acho que isso seria o bastante para convencê-lo."
Inuyasha efetivamente rosnou, mas me soltou assim mesmo.
"Seu humor pela manhã continua adorável."
Olhei para Miroku – que simplesmente assistia a cena como se fosse um sitcom – com exasperação:
"Ele acha que o humor dele é melhor que o meu, coitado."
Assim que retornei a meu próprio quarto para me arrumar, minha segunda-feira finalmente assumiu um relativo ar de normalidade. Mas este não iria durar muito, de qualquer maneira.
Em retrospecto, talvez eu devesse mesmo ter ficado na cama.
Quando a cafeteira quebrou antes mesmo de produzir a primeira leva de café, eu devia ter entendido que eu estava prestes a enfrentar um daqueles dias. Com o olhar atento como o de um falcão de Inuyasha sobre mim e a falta de cafeína, meu humor definitivamente não estava dos melhores, mesmo para os padrões de uma segunda pela manhã.
Os primeiros dois tempos de aula poderiam ter sido interessantes se eu soubesse sobre o que os professores estavam falando. Ou quem sabe se eu não tivesse descoberto que o professor de Sociologia havia passado um relatório facultativo que adicionaria pontos extras às nossas provas e eu não sabia, pois nenhum dos meus amigos faz essa aula comigo.
Cálculo não foi melhor.
Cálculo nunca é melhor.
Por um lado, estudar tinha ajudado alguma coisa, de modo que eu não estava completamente perdida quando encarei as monstruosas equações.
Por outro lado, as monstruosas equações na verdade eram um teste surpresa e, ainda que elas não parecessem necessariamente alienígenas, isso de jeito nenhum queria dizer que eu sabia como resolvê-las corretamente.
Eu devia saber que quando uma segunda-feira começa assim, é porque o resto do dia não será nada menos que um pesadelo.
Saindo para o almoço, minha cabeça estava latejando das questões matemáticas e meu corpo parecia suspeitamente mais pesado do que algumas horas antes. Inuyasha com certeza iria ralhar comigo por ter voltado às aulas antes de estar completamente saudável e naquele momento estava quase propensa a concordar com ele, se isso queria dizer 1) que eu não teria que ter feito o teste de cálculo e 2) que ele não iria começar um discurso interminável sobre a minha teimosia.
No entanto, quando chamaram meu nome em um tom animado de cumprimento, não era Inuyasha quem estava atrás de mim.
"Olá, Kouga-kun." Dei meu melhor sorriso, tentando ignorar a dor em minhas têmporas. Ele franziu o nariz.
"Você não está com seu cheiro normal, está se sentindo mal?"
"Não muito." Dei meu melhor sorriso inocente. "Estou me recuperando de uma gripe. Tive que faltar três dias semana passada e hoje não está sendo nada fácil."
"Não deveria ter vindo para cá se não estava bem o suficiente." Sua reprovação suave quase me fez revirar os olhos, mas ao invés disso fiz um esforço para sorrir.
"Acho que você tem razão, mas -"
"Eu te disse isso antes de você sair de casa, bruxa, se tivesse me escutado não teria que se explicar para um lobo esquálido agora." Obviamente foi esse o momento que meu adorado hanyou resolveu aparecer do meu lado. Minha sorte não falha nunca.
"O que você pensa que está fazendo deixando Kagome se expor quando ela não está saudável, vira-lata?" Praticamente me encolhi quando vi os olhos dourados de Inuyasha faiscarem. Eu definitivamente não tinha tempo ou disposição para isso.
"Eu sei, Inuyasha, mas eu estou melhor." Me virei na direção de Kouga com um sorriso amarelo. "Nos vemos depois." Passei o braço em torno do de Inuyasha e voltei a andar em direção ao refeitório, deixando que ele ditasse o passo.
Ele manteve os braços cruzados sobre o peito, mantendo cuidadosamente seu olhar sobre qualquer coisa que não eu. Inuyasha não poderia estar sendo mais óbvio se estivesse gritando 'ESTOU IRRITADO COM VOCÊ' na minha cara.
"Inuyasha..."
"Porque quando eu falo você quase arranca minha cabeça, mas quando aquele maldito lobo repete exatamente a mesma coisa você diz que ele tem razão?" Ele parou, me encarando a poucos centímetros de distância com olhos estreitados.
"Arrancar a cabeça dele parecia esforço demais para pouca recompensa no momento." Minha tentativa de humor não fez nada para apaziguar o temperamento do garoto ao meu lado e – com um olhar que deixava bem claro o que ele pensava de minha resposta – Inuyasha simplesmente voltou a andar. E a me ignorar. "Eu só queria que nós dois parássemos de perder aulas, Inuyasha, você sabe que isso é importante."
"Excelente ideia, claramente."
"Pode tentar esquecer que vimos Kouga hoje e fingir que isso nunca aconteceu?"
"Não sei se estou mais irritado com você por isso ou por obviamente estar se sentindo pior do que de manhã."
"Não estou me sentindo mal!"
Talvez aquilo não fosse exatamente a verdade. E é claro que Inuyasha sabia. Mesmo que seu nariz não tivesse lhe dito, era bem óbvio que suas orelhas continuavam tão aguçadas quanto sempre.
"Eu realmente não quero discutir com você, Inuyasha."
Ele arriscou um olhar em minha direção de novo e suspirou, descruzando os braços.
"Vem, vamos comer antes que você tenha outra ideia brilhante e acabe indo parar num hospital antes do fim do dia."
oOo
"Eu não sei como você aguenta." Inuyasha deu de ombros e o resto de nós riu. Eu o acertei com uma cotovelada leve entre as costelas e ele se virou para mim. "O que, você entende, por acaso?"
Considerei por alguns minutos.
"Não deve ser tão ruim assim." Amenizei e os olhos de Inuyasha adquiriram um brilho sardônico. "Ele é muito bonito, afinal de contas."
"Oi, do que diabos –"
"É genética, Inuyasha." Rin aplacou em um tom gentil. "E você não pode negar que Sesshoumaru é atraente."
"É claro que posso!"
"Maior prova possível de que você é hétero, então." Eu disse. Ele estreitou os olhos na minha direção. Sei que não deveria estar antagonizando Inuyasha – mesmo que brincando – depois de nossa quase-discussão sobre Kouga, mas também não estava no humor de ficar pisando em ovos ao seu redor. "Sesshoumaru é muito bonito, se não de uma forma que me lembra a junção de uma escultura de gelo e uma estátua grega."
Isso fez com que ele jogasse a cabeça rindo.
"Mas ele não é assim com você, certo, Rin?" Sango perguntou.
"Não, nem um pouco." Ela manteve o sorriso adorável mesmo quando suas bochechas assumiram um tom suave de rosa. "Não tenho nada a reclamar dele enquanto namorado, juro. Se ele apenas pudesse parar de tentar matar pessoas antes dos filmes que eu quero assistir no cinema, ele seria perfeito."
Inuyasha revirou os olhos.
"O amor realmente faz coisas estranhas com o julgamento das pessoas."
"Oh, e você sabe disso como ninguém, certo Inuyasha?" Sango provocou e Inuyasha rosnou para ela com muito mais intensidade do que o necessário para uma brincadeira tão boba. Seus olhos se tornaram inflexíveis como rochas, mas ela não pareceu se arrepender. Não pude evitar uma pequena pontada de ofensa própria, mas deixei pra lá. Sei que Sango não estava tentando me ofender, mesmo que tenha feito isso por tabela. "Estamos sensíveis hoje."
"Estamos sendo es—"
"Rin, do que você estava falando mesmo?" Cortei e Inuyasha e tentei redirecionar a conversa de volta para os trilhos antes que eles começassem a discutir a toa.
"Sobre Sesshoumaru." Ela respondeu, rapidamente, parecendo entender minha intenção. "Você sabia que ele na verdade gosta dos filmes de romance?"
"O que?" Eu e Inuyasha perguntamos ao mesmo tempo com a mesma dose de perplexidade e ele voltou a rir, sua irritação com Sango aparentemente desaparecendo tão abruptamente quanto surgiu.
"É verdade!" A menina sorriu. "Toda vez que nós assistimos a um ele assume um sorrisinho satisfeito consigo mesmo. É como se ele estivesse orgulhoso por não ser estúpido como os personagens."
"Nem todo homem pode se orgulhar disso." Sango retorquiu.
"Oi!" Inuyasha protestou. "Quem você está chamando de estúpido?"
"Nessa mesa?" Ela perguntou, seu tom tão forçadamente doce que ouvir era praticamente doloroso. "Absolutamente ninguém."
Então Miroku se levantou tão rápido ao meu lado que quase me fez cair da cadeira. Sua expressão chamou minha atenção quando me virei para ele, mais fechada do que me lembrava de já ter visto, seus lábios estavam pressionados em uma fina linha descontente. Ele se virou e começou a se afastar de nós com nada mais do que um 'vejo vocês mais tarde' atirado por cima dos ombros. Tinha saído do meu campo de visão antes de eu ter me recuperado o suficiente para tentar chamá-lo.
Um silêncio pesado caiu sobre a mesa, se arrastando por vários momentos. Ninguém estava disposto a ser a pessoa a quebrá-lo. Entre eu, Rin e Inuyasha, só o último parecia ter coragem o suficiente para olhar Sango diretamente. Ele arqueou uma sobrancelha, sua pergunta muda clara como o dia. Quase podia ouvir Inuyasha dizendo 'O que diabos foi isso agora?' ao meu lado ou algo semelhante.
"Eu preciso marcar os próximos treinos com as animadoras." Sango disse, tensão irradiando dela em ondas, antes de se levantar, recolher seu material e sair da mesa quase tão rapidamente quanto Miroku, só que na direção oposta.
"Isso está ficando tão..."
"Ridículo?" Inuyasha ofereceu.
"Eu ia dizer complicado, mas talvez sua sugestão sirva melhor." Rin suspirou.
"Eles estão fazendo tudo de novo, é claro que é ridículo." Ele disse, parecendo irritado com a situação.
"Você sabe como eles são." Rin suspirou. "Estúpidos." Meus olhos se arregalaram em choque que Rin disse algo explicitamente ofensivo sobre alguém.
"É, mas isso já está cansativo, não acha? Há quanto tempo eles estão fazendo a mesma coisa?"
"Dois anos, eu sei."
"Espera! Espera um minuto. Vocês estão me dizendo que eles estão nessa há dois anos?" Pelo amor de Merlin e Morgana e as pessoas dizem que eu sou lenta!
"Exatamente." Inuyasha respondeu.
"Mas não é possível que depois de dois anos Sango não consiga acreditar nele ainda! Quem fica dois anos correndo atrás de uma pessoa com quem não se importa de verdade?"
"É mais complicado que isso, Kagome-chan. Quando tudo começou, a situação era diferente –"
"Vai contar a ela? Sango não vai gostar nada disso."
"Você acha? Quero dizer, ela não está exatamente sutil sobre isso, está? Além do mais, acredito que Sango esteja mais preocupada com outras coisas no momento. Já se passaram dois anos, Inuyasha."
"Se você diz, mas você vai lidar com ela quando Sango descobrir."
"Muito corajoso da sua parte." Rin riu.
"Quando se trata de Sango? Pode apostar."
"Tudo bem, eu assumo toda a responsabilidade, está bem assim?"
"Só porque você sabe que ela não mataria você."
"Agora que já sabemos que ninguém será assassinado, vocês podem me dizer o que está acontecendo?" Perguntei, tentando evitar que eles continuassem infinitamente.
"Claro, Kagome-chan, o que aconteceu foi o seguinte: você sabe que nós somos amigos há muito tempo, certo? Alguns anos atrás, a puberdade atingiu, hormônios furiosos atacando incontrolavelmente, você sabe como é. E a puberdade fez bem a Miroku, entende? Ele ficou alto, sempre foi bonito, era popular... Ele ficou muito bom com as garotas."
"Está dizendo que ele virou um galinha?"
"Precisamente, Kagome-chan. E, de repente, eles não se encaravam mais platonicamente – o que não foi nenhuma surpresa para ninguém. Sango gostava dele, mais até do que ela admite, mas ainda assim não queria se envolver com Miroku. Sango não queria ser só mais uma na lista, entende? Eles entraram em uma dinâmica enlouquecedora de gato e rato." Ok, isso não parecia muito diferente do que a situação atual. Tirando que eles tinham quatorze anos e tudo é muito mais difícil aos quatorze – qualquer coisa parece o fim do mundo. "De qualquer maneira, um dia eles acabaram ficando em uma festa. Nenhum dos dois estava muito sóbrio, o inevitável aconteceu. E eles gostaram. Foi mais ou menos parecido com vocês dois, finalmente liberando parte da tensão sexual enorme que havia entre eles."
"Ei, a gente não –"
"Shh, está interrompendo a história, bruxa." Lancei um olhar feio na direção de Inuyasha, mas não tentei protestar de novo.
"Eles ficaram juntos um tempo, sem compromisso. Mas mesmo que ele não estivesse procurando mais ninguém e continuasse insistindo que queria ficar apenas com ela, Sango não..." Rin se cortou e suspirou. Ela me encarou fundo dentro dos olhos. "Não é culpa dela, ok? A família de Sango teve problemas com isso e traição... Digamos apenas que não é um assunto fácil pra ela. Era mais fácil continuar a se negar a ter qualquer coisa com Miroku. E foi exatamente o que ela fez. Por meses."
"Autch."
"Pois é. Eventualmente ele explodiu e eles tiveram uma briga horrorosa. A gente chama de A Grande Guerra de 2013. A briga foi tão grande – com direito a coisas quebrando contra a parede e tudo – que a gatinha de Sango entrou em pânico e se recusou a sair debaixo de uma das camas até que a mãe dela viesse levá-la pra morar com ela."
Oh.
"E naquela noite Miroku ficou com três meninas em uma festa. Ele estava completamente bêbado e fora de si, mas fez de qualquer maneira. E não foi exatamente discreto sobre isso. Quando ele percebeu o que tinha feito – e que tinha jogado pela janela qualquer chance que tivesse com Sango no caminho – já era tarde demais. Eles estão na mesma desde então: Não conseguem resistir a ficar separados de verdade, mas Sango não consegue perdoar e se obrigar a confiar nele. Então eles repetem a mesma situação e as mesmas brigas de novo e de novo. Parece um pesadelo."
"Isso parece tão..."
"Ridículo?" Inuyasha ofereceu outra vez.
"Ia dizer cansativo, na verdade."
"Suponho que isso também."
Interferir na relação de Miroku e Sango ganhou novas considerações. Nenhuma, no entanto, que tornasse a intervenção menos desesperadoramente urgente.
A atmosfera desconfortável entre nós não durou muito, no entanto. Inuyasha abriu um sorriso zombeteiro para Rin e disse:
"Mas não mais cansativo que conviver com um bastardo como Sesshoumaru, certo?"
oOo
Ok, o que foi isso?
Depois do almoço, Inuyasha seguiu – reclamando como uma velha idosa com artrite – para sua próxima aula, me deixando em paz para me encaminhar para Literatura Medieval sozinha (eu ainda não havia sido capaz de encontrar Miroku. Quem diria que esse garoto se esconderia tão bem assim? É um colégio, pelo amor de Deus, onde ele pode estar?!).
Isto é, até literalmente esbarrar em Kikyou no meio do corredor.
Acho que essa menina simplesmente não tem sorte comigo. Parece que eu estou sempre tentando passar por cima dela como um trator desgovernado.
"Me desculpe!" Pedi antes mesmo de ver contra quem tinha colidido. Admitidamente com a cabeça nas nuvens após a conversa com Rin, não estava sequer olhando para o caminho a minha frente. Além do mais esse tipo de colisão usualmente é culpa minha, pra que negar, certo? Dessa vez Inuyasha não estava me arrastando para lugar nenhum, quero dizer.
"Kagome!" Ela exclamou. "Tudo bem, não me machucou."
"Tem certeza?" Mas Kikyou não havia perdido o equilíbrio como eu – na verdade, ela havia inclusive posto uma mão em meu antebraço, me ajudando a não beijar o chão -, sua pose permanecia tão impecável quanto sempre.
"Tenho." Ela sorriu gentilmente. "Mas se não parar de esbarrar em mim desse modo vou começar a achar que é de propósito."
"Não é pessoal, faço isso com todo mundo de quem gosto." Nós rimos.
"Onde esteve nesses últimos dias? Não tenho te visto, não voltou mais às práticas do Time."
"Não foi de propósito dessa vez, juro que não estava fugindo!" Ela riu e arqueou uma sobrancelha zombeteiramente. "Estava doente, na verdade."
"Oh, tadinha! O que você teve? Está melhor agora, certo?"
"Só uma gripe, nada demais. Estou melhorando sim, obrigada."
"Ficou sozinha enquanto estava doente?" Sua voz era genuinamente preocupada. Eu teria ficado mais tocada, no entanto, se já não estivesse um pouco cansada da preocupação das pessoas com a minha saúde. Qualquer um pensaria que a este ponto eu estou a prestes a ser internada! "Sei que não mora com sua família..."
"Sozinha?" Tive que rir. A última coisa que eu havia conseguido ficar nos últimos dias era sozinha. Cansada? Sim. Irritada? Sim. Indignada com o gosto de poções-possivelmente-venenosas que certo garoto-cachorro me obrigou a beber? Com certeza. Mas sozinha nunca. "De jeito nenhum. Inuyasha praticamente não me deixava ir ao banheiro sozinha. Um maníaco, é isso que ele é. Passou os últimos dias me tratando como se eu tivesse uma doença terminal e não uma simples gripe. Ele me deixou presa na cama por cinco dias direto e Deus que me perdoasse se eu sequer sugerisse que estava bem para ir pegar meu próprio suco!"
"Oh." Ela ainda sorria, mas sua expressão retornara ao normal – agradável, mas sem trair nenhuma de suas emoções. Kikyou é bem o tipo de garota para ter todas suas emoções sob controle, nunca perdendo a classe, enquanto eu, é claro, sou uma bagunça de momentos embaraçosos e temperamento incontrolável. "Ele sempre foi superprotetor."
Há! Inuyasha merecia um prêmio, Superprotetor Do Ano ou algo do gênero. Ele iria gostar se viesse com um troféu, certo? Para ele alojar junto dos vários troféus de campeonatos de luta?
"E não há nada que a gente possa fazer a respeito." Respondi, sorrindo.
"Fico feliz que você esteja melhor, Kagome. Agora preciso ir, tenho que passar na copiadora antes que a aula comece. Te vejo depois, está bem?"
"Ok."
Kikyou desapareceu tão rápido que me deixou piscando, sozinha e confusa no corredor. Alguma coisa nela parecia estranha – o modo como ela praticamente saiu correndo de perto de mim como se eu tivesse a peste não deixava dúvidas.
Entretanto, enquanto repensava sobre nossa conversa, não havia nada que pudesse tê-la deixado desconfortável, certo?
Quero dizer, não é como se eu tivesse dito que Inuyasha foi ao banheiro comigo ou algo igualmente desconfortável.
Minhas ponderações foram interrompidas pelo sinal, avisando-nos que era hora de voltar às salas de aula.
De minha carteira olhei o resto da sala, a aula já havia começado há vinte minutos e todos os alunos estavam devidamente assentados em seus lugares. Kikyou tinha entrado na sala alguns minutos depois do professor, mas Miroku ainda não estava em lugar nenhum.
Não prenderia minha respiração esperando.
oOo
"O que aconteceu entre você e Miroku dessa vez?"
Eu devia ter adivinhado que aquilo era a coisa errada a se perguntar. Sabe como é, por tudo que ela se mete na vida dos outros, Sango não é exatamente uma pessoa receptiva a esse tipo de coisa e a última vez que tentei sua única resposta foi me dar às costas. Não muito encorajador.
Mas ainda assim, eu tinha que tentar. Talvez fosse a doença falando ou o fato de que minha paciência naquele minuto estava a dois passos de se esgotar graças aos eventos do dia, mas Miroku e ela não estavam se falando há dias e a tensão entre eles era palpável. O suficiente para levar qualquer um à loucura. Além do que, por tudo que os dois se meteram na minha vida nos últimos meses, eles mereciam receber o troco.
A garota ao meu lado estava quicando um dos pés incontrolavelmente – um sinal extremamente pouco característico de inquietação e raiva, especialmente para alguém tão elegante quanto ela, enquanto praticamente fulminava o garoto que fingia não perceber com os olhos.
Seja lá o que tivesse acontecido, isso tinha que parar.
"Nada." A resposta cortante veio mais rápida do que um tapa.
"Você não estaria assim por nada."
"Isso apenas quer dizer que não é da sua conta, Kagome." Meus olhos se arregalaram. "Desculpe, não foi isso que eu quis dizer, mas eu realmente não quero falar sobre isso." Ela suspirou pesadamente. "Não é sua culpa que Miroku é um imbecil."
"Tem certeza que está sendo justa, Sango? O que ele pode ter feito de tão grave assim dessa vez? Em todos esses meses tudo que tenho visto é Miroku tentando acertar as coisas com você." O que eu queria dizer era: nesses últimos anos Miroku só tem tentado acertar as coisas com você!, mas não queria dizer para ela que Rin tinha me contado tudo dessa maneira. Só me dei conta que minhas palavras pareciam muito mais uma acusação do que eu pretendia em primeiro lugar quando já era tarde demais. Os olhos de Sango se estreitaram e meu estomago pareceu se contrair até ficar do tamanho de um punho. Não é que eu não acreditasse no que estava dizendo – pelo contrário, havia meses que estava tentando me decidir sobre como abordar esse assunto -, só tinha certeza que essa não era a melhor maneira de trazer a tona.
"De novo: Não é da sua conta." Dessa vez ela não tentou se desculpar e eu estreitei os olhos de volta.
"Sango, olha—"
"Kagome, sei que vocês são amigos e que você acha que sabe alguma coisa sobre o que acontece entre nós dois, mas você não sabe."
Tive que usar todo meu autocontrole para não responder que sabia sim.
"Tudo que eu sei é que você se recusa a dar uma chance a ele e está tentando desesperadamente fingir que não tem nada acontecendo! Não vê que não vai poder continuar com isso para sempre? Prefere mesmo arriscar o que tem com ele por orgulho?"
"Quem é você para me julgar – e, com licença, mas você não está fazendo exatamente a mesma coisa?" A pergunta de Sango desceu vibrando por todo meu corpo, ateando fogo em cada terminação nervosa existente. "É muito fácil sentar no alto do seu cavalo branco e julgar o que eu deveria ou não fazer, Kagome, mas ao contrário de mim, você nunca teve nem uma razão para não confiar em Inuyasha, então por que você não segue seus próprios conselhos ao invés de jogá-los onde não são bem-vindos?" E com isso, ela levantou e saiu batendo pé na direção das escadas, me deixando para trás com ouvidos zumbindo como se tivesse acabado de levar uma porrada certeira.
"Para quem não queria discutir, você parece estar fazendo muito disso hoje." É claro que Inuyasha tinha que estar por perto. E não é como se ele tivesse a capacidade de deixar algo assim passar, especialmente se alguma parte dele ainda estava irritada comigo pelo que aconteceu mais cedo.
Virei para o outro lado, tentando esconder o óbvio rubor – se de raiva ou vergonha não sei – em minhas bochechas.
"Esse dia só continua ficando melhor." Murmurei pra mim mesma e segui na mesma direção que a outra garota tinha ido antes de mim.
oOo
O último tempo era História. E isso significava trabalhar ao lado de Ayame.
Com maxilar trincado e dentes rangendo uns contra os outros, passei a maior parte da hora seguinte tentando ignorar absolutamente tudo relacionado à presença ruiva ao meu lado, ainda que, em meu estado atual de cansaço e exasperação, cada comentário dela me desse vontade de jogar um balde em sua cabeça.
Quando o dia finalmente terminou, não havia uma parte de mim que não estivesse desejando desesperadamente voltar para debaixo das cobertas. De preferência com Inuyasha enrolado ao meu redor. Não estava interessada na verdade ou mentira das palavras que Sango tão perspicazmente lançara contra minha cara mais cedo ou se Inuyasha as havia ouvido ou não. Também pouco estava ligando se ele ainda estava ruminando o encontro com Kouga. Não queria nem ao menos saber se outras pessoas estavam presentes e definitivamente não me importava a mínima com o que elas pensavam a nosso respeito. Tudo que eu queria era ele.
Irritante como fosse, mas ele.
Meu corpo estava formigando, me ordenando não fazer nada que não me afundar no abraço familiar e esquecer que esse dia horroroso tinha acontecido.
E foi exatamente o que eu fiz. Assim que alcancei sua figura recostada sobre o batente da porta, me esperando como sempre.
Inuyasha pareceu entender exatamente o que eu precisava, porque sua carranca se desfez imediatamente e ele me abrigou entre seus braços como se nunca tivesse ficado irritado comigo em primeiro lugar. Respirando fundo seu perfume, era como se parte do peso que eu estava carregando por aí tivesse simplesmente desaparecido. Levantei os olhos, procurando pelo que sabia que encontraria quando encarasse seu rosto e não me decepcionei.
Sem que pudesse me dar espaço para qualquer dúvida, puxei seu rosto para baixo com minhas mãos em seu pescoço, cobrindo seus lábios com os meus.
"Você deve estar realmente exausta." Ele me provocou de leve, seu tom mais pacífico do que havia estado o dia inteiro quando nos separamos.
"Cale a boca." Murmurei, escondendo meu rosto em seu ombro.
"Está se sentindo mal de novo, não está?"
"Não vou dizer que você tem razão, Inuyasha, desista." Ele riu suavemente contra mim, seu peito vibrando com uma espécie de ronronado reconfortante. "Vai me levar para casa?"
"Humph, que pergunta estúpida." Suas mãos me afastaram lentamente de seu corpo, um de seus braços me envolvendo pela cintura. "É claro que sim, bruxa."
"Que bom."
oOo
Sei que vocês sentiram minha falta, mas segurem suas emoções, não quero ninguém chorando!
Brincadeiras a parte, olá! É bom estar de volta – numa sexta-feira friazinha que nem essa – com um capítulo de verdade e não com um bilhete fajuto explicando a falta do capítulo.
Primeiramente, vamos às explicações. Enquanto por um lado sim eu consegui arrumar minha vida até certo ponto – com isso quero dizer que eu tenho onde morar e que em três semanas eu vou começar meu emprego novo -, as coisas continuam caóticas. Eu, especificamente, continuo caótica. Então peço a paciência de vocês para lidar com a autora que ainda está catando pedaços de si própria, ok?
Sim, eu consegui um emprego. Hurray, um viva pra mim – sério, é uma empresa bastante concorrida e um processo seletivo que eu estava participando desde novembro, vocês não tem ideia de como eu estou aliviada de ter sido escolhida. No entanto, é uma empresa bastante conhecida por arrancar o couro. Especialmente do treinees. Adivinha quem eu sou? Treinee, é claro. Então meu tempo pra escrever (infelizmente e com isso eu quero muito sentar num canto e chorar) vai diminuir consideravelmente. Não se preocupem, a história de RPC já está toda planejada, encaminhada e praticamente pronta dentro da minha cabecinha, eu só talvez precise de um tempinho extra. Nada demais. Definitivamente não anos entre os capítulos – como vocês já vivenciaram antes. A gente ainda tá em sólido firme, relaxem.
Segundo, eu recebi uma PM. Achei até muito interessante ter sido uma PM e não uma review em anônimo (obrigada por ter se identificado, de verdade, bem poucas pessoas fazem isso na hora de tecer uma crítica). Basicamente – resumindo porque eu não vou postar a mensagem aqui pra vocês lerem – dizia que RPC seria interessante, caso não fosse tão OOC.
Veja bem, eu não estou negando. Eu entendo que, até certo ponto, os personagens são diferentes. Mas eu não concordo cem por cento e gostaria de dizer porque – em público pelo simples fato de que achei que podia interessar a mais alguém.
República não é uma canon!fic. República não se passa na era feudal.
Meus personagens não são o que eles eram na era feudal japonesa. Eles são o que eu acho que eles seriam se tivessem vivido a vida inteira em NY atualmente.
Eu mantive características básicas, o Inuyasha (que era o ponto principal da sua crítica, certo?) é arrogante e cheio de si tanto em RPC quanto no canon. Aqui, entretanto, ele é muito menos traumatizado – ele não viveu a vida inteira sozinho, ele não foi humilhado da mesma maneira que no canon, ele é rico, o que obviamente significa que ele nunca teve que se esconder de predadores na floresta e arrumar comida sozinho. Eu tenho plena consciência de que o Inuyasha do canon é mais grosso, mau humorado e muito, muito menos 'forward' com os próprios sentimentos. Mas meu Inuyasha não tem os mesmos traumas. Ele ainda é orgulhoso. Ele ainda fala uma coisa quando na verdade toda sua linguagem corporal quer dizer outra (esse capítulo, em especial, mostra isso claramente). Mas aqui ele tem esse ar de garoto bem cuidado, de quem tem o mundo na palma das mãos.
Quanto aos outros personagens. Eu honestamente tentei não me afastar muito do canon no que diz respeito à Sango e o Miroku. Não sei até onde fui bem sucedida, mas é o que é.
A única grande – imensa, na verdade – alteração que eu fiz na personalidade da Kagome foi o fato dela ser absurdamente insegura socialmente. É o oposto do que a Kagome do anime/mangá é, eu sei. Mas veja bem, isso tinha um propósito que não era somente preencher as necessidades da trama. Talvez em breve isso vá ficando mais claro, não sei. Até lá ela continua sendo estabanada (alguém já contou quantas vezes ela cai no canon? Pois é), pavio curto, alegre, de bom coração, levemente obcecada pela escola e apaixonada pelo Inuyasha.
Obrigada de novo por ter me mandado sua opinião sincera.
De resto... Quero agradecer – como todo santo capítulo – à minha beta pelo trabalho excepcional. E por ter revisado o capítulo em dois momentos diferentes porque eu não tinha conseguido pensar nas cenas que faltavam ainda e queria inspiração.
Vou responder às reviews. Todas as reviews. Eu não tinha respondido as reviews do capítulo 11 quando postei o 12, então estou levemente acumulada.
Pra quem deixou review no capítulo 11:
MandaTaishoCullen: Fico muito, muito, muito feliz que você esteja gostando de acompanhar a fic e tenha aproveitado o capítulo! Sim, o capítulo foi completamente açucarado – do jeito que todas nós gostamos e ficamos babando em cima haha. Dê um tempo para a Kags, coitada, a menina é lenta. Mas aos poucos ela está descobrindo, certo? Hahaha Obrigada pela review e pela leitura, beijos!
MariPessoa: Sim, finalmente! Hahaha Que bom que você gostou mais da versão atual, pra ser sincera, eu também. Muito obrigada! Beijos.
Nat Houshi: Calma, sem perder a fé! Hahaha sim, o beijo chegou e continua acreditando que isso um dia acontece com a gente. Agora se eu conseguisse achar um Inuyasha particular... Hahaha obrigada, beijos!
Lari-chan: ACREDITA SIM PORQUE ACONTECEU! Hahaha A espera pareceu mais longa porque os capítulos foram maiores, acredito eu. Acho que aconteceu mais coisa. Mas se você parar pra pensar, na timeline na fic se passaram poucos meses hahaha Sério, to muito ansiosa pra saber o que você está achando do desenvolvimento do relacionamento deles – especialmente em comparação com a fic anterior. Eu me divirto muito com isso. Adoro suas reviews! Brigada por tudo, beijos!
Isis StAine: 'Isso é uma review e por favor, devolva meu sistema imunológico agora :v' … Koneko, tua hora vai chegar. Especificamente quando você estiver hospedada na minha casa. Só te digo isso.
Kagome Juh: OLHA QUEM FINALMENTE APARECEU NAS MINHAS REVIEWS DE NOVO, AHHH *faz dancinhas mais mocorongas do que as da Kagome* Hahaha que bom que você gostou, amiga. Não me lembro do piano em ODP, mas pode bem ser. Deus sabe que a Meg influenciou minha mente e minha escrita de todos os modos possíveis hahaha. Sim, o drama virá. Eventualmente. Mas até lá, a gente aproveita os dois cabeças-duras juntos! Beijos, Juh!
... E pros lindos do capítulo 12:
MariPessoa: Como eu disse na outra resposta ali em cima, fico muito feliz que você esteja gostando! Muito obrigada por deixar reviews e continuar acompanhando, beijos!
MandaTaishoCullen: Pode continuar falando todo capítulo, eu sempre fico nas nuvens! Hahaha Obrigada pelos votos pra minha vida pessoal também, estou melhorando devagar e sempre hahaha. Beijos!
Nat Houshi: Se as reações da Kagome tão chegando nesse ponto de previsibilidade acho que preciso fazer alguma coisa diferente! Hahaha obrigada, beijos!
Lari-chan: ... E bem quando me elogiam que fui rápida *suspiros*. Me aprofundar nos problemas mais 'realistas' deles está sendo a coisa mais gratificante em passar horas na frente do notebook tentando entender como a cabecinha deles funciona! Hahaha sim, ela finalmente tá tomando algum juízo! Inuyasha e devagar, duas coisas não dão certo juntas, mas ele tava tentando coitado. Espero que goste desse aqui também. Beijos!
Kagome Juh: OI DE NOVO GATA! O drama desse capítulo, a única pergunta é: Quem nunca? (quero detalhes depois!) Hahaha mande sua pergunta quando estiver pronta. Até lá te espero até quando você resolver aparecer por aqui de novo hihi. Beijos, Juh!
Aricele: Faça isso! Releia e me diga o que achou hihi Beijos! (parte 1) Oi de novo! Hahaha Fico muito feliz que a nova versão de RPC tenha praticamente te prendido – yup, sou louca por elogios e adoro quando vocês falam essas coisas! Eu sei bem como é essa sensação, várias das fics que eu acompanhava foram deixadas pra trás, isso me desmotivou muito a continuar a escrever na época. Os amigos que eu tinha feito por aqui não estavam mais frequentando o fandom e a seção de Inuyasha estava tão parada... Mas eu voltei de qualquer maneira e não pretendo deixar RPC pra trás. Pelo menos não até ela ter um fim decente. Espero que continue por aqui acompanhando! Beijos e muito obrigada por se dar ao trabalho de ler as duas versões da minha pobre fic hihi
... E pra quem me deixou mensagens lindas por review ou por PM sobre o comunicado:
Não vou responder individualmente, espero que me perdoem. Não tenho muita vontade de estragar um humor razoavelmente decente pensando em coisas que sempre me deprimem. Porém queria agradecer imensamente a vocês, que são uns amores e muito generosos, por terem me mandado tanto carinho e apoio virtual. Quem me mandou PM já recebeu resposta, é claro, e pras perguntas de vocês, acho que o que resumi ali em cima responde, certo? Estou mais ou menos arrumando a casa, ainda tem um longo caminho pra percorrer, mas estou indo. Muitos beijos e tudo de bom pra vocês, de verdade.
Bunny (Pepperish. Fanii. Mas eu sei que o que vocês querem me chamar de verdade é Hot Mama ;p)
