Gabs odiava aquela sandália, odiava aqueles saltos malditos, que agora pareciam rasgar seus pés ao meio, enquanto ela corria pelos corredores do hotel. Ela ainda conseguia ouvir a música ao fundo, em um som meio abafado, que ia diminuindo cada vez mais. Algumas pessoas passavam por ela, fazendo o caminho contrário, talvez retornando à festa. Então ela estava indo na direção certa.

E logo Gabs confirmou suas suspeitas. Jensen estava no final do corredor, rodeado por algumas pessoas. Um segurança meio mal-humorado e aquela mulher de cabelos escuros que barrara ela no corredor essa tarde, e ao lado dele, Misha e Jared. Jensen estava segurando um pequeno pano embolado, provavelmente com gelo, junto ao rosto.

Gabs parou no corredor e encostou-se na parede, onde ficou apenas observando o pequeno grupo que conversava. Ela queria que ele estivesse sozinho, queria poder ir até lá e abraçar ele. Mas isso não seria uma idéia muito inteligente no momento. Então ela apenas ficou ali, parada, tentando parecer invisível. Só o fato de poder ver se ele estava bem, de ver aquele leve sorriso no rosto dele, já era o suficiente.

E para sua surpresa, Jensen olhara para o exato canto do corredor onde ela estava. Ele agora não conseguia desviar os olhos dela, enquanto tentava controlar um sorriso. Os outros a sua volta falavam algumas coisas, mas ele não parecia estar ouvindo. Então Jensen murmurou alguma coisa que fez o segurança e a mulher se afastarem e saírem dali. Depois ele trocou algumas palavras com Jared e Misha, antes que os dois fossem embora também.

Ela olhou em volta e certificou-se de que eles estavam sozinhos antes de ir a passos rápidos até Jensen e abraçá-lo com força.

— Você enlouqueceu? — perguntou ela, sem conseguir soltá-lo. — O que foi aquilo tudo?

— Eu não sei direito… — murmurou Jensen, devolvendo o abraço e segurando-a com força também. — O Riley falou algumas coisas que… que me deixaram irritado e… — Jensen parou de abraçá-la e afastou-se. Ele segurou o pano entre as mãos e ficou observando os gelos ali como se fossem algo muito interessante. A verdade é que Jensen não conseguia parar de pensar nas coisas que Riley dissera.

— E…? — Gabs observou os olhos claros dele meio distantes, porém claramente evitando os dela. — Jensen, o que aconteceu? — ela perguntou, preocupada.

— Você se divertiu na festa? — perguntou ele, de repente, voltando-se para ela, com um leve sorriso.

— O quê? — murmurou ela, confusa.

— É… Você parecia estar se divertindo. — disse Jensen, o tom de voz normal, como se aquele breve silêncio incômodo não tivesse acontecido. — Acho melhor você voltar, e ficar lá mais um pouco. — Jensen foi até a porta do quarto e abriu-a. — Eu… eu vou tomar um banho, e tentar dormir um pouco. Amanhã será um dia bem corrido, com sessões de fotos e autógrafos, e depois temos que ir para o aeroporto e… — ele não conseguiu mais falar, pois sentiu algo estranho na garganta, e foi obrigado a olhar para a garota a sua frente. Ela estava com os braços cruzados em frente ao corpo, como se estivesse se abraçando por frio, mas parecia mais como se estivesse encurralada, como se as coisas que ele estava dizendo estavam machucando-a de algum jeito. E Jensen tinha total consciência disso. Mas ele… precisava fazer isso. — A gente se vê amanhã,… — ele disse, forçando-se a entrar no quarto. Cada fibra do seu corpo gritava para ele calar a boca e apenas beijá-la, mas uma parte racional que ainda existia nele obrigou-o a terminar o que planejara. —… talvez.

Jensen fechou a porta do quarto, deixando Gabs do lado de fora do corredor, a boca entreaberta, com as palavras presas ali. Ela queria chamar o nome dele, ou entrar no quarto dele e saber o que estava acontecendo, mas ela não conseguia.

Então ela começou a mover-se lentamente, virando-se e caminhando para longe dali, os passos arrastados, olhando algumas vezes para trás, esperando que ele fosse aparecer a qualquer momento. Mas ele não apareceu.

— Gabriela?

A voz era distante, vinda do outro lado da sala central dos elevadores, onde todos os corredores se conectavam. Mas Gabs estava mergulhada demais em seus pensamentos para ouvir alguma coisa. Ela estava confusa, e parecia que tinham embaralhado toda a sua mente. Ela chegou a imaginar que talvez tivesse sonhado todas aquelas coisas. Com se tivesse visto muito mais do que realmente acontecera…

— Você está bem? — ele se aproximou dela, segurando-a pelos ombros, como se ela fosse cair a qualquer momento.

Gabs observou os olhos claros e preocupados voltados para ela. E pensou que, se não estivesse sentindo-se tão mal, provavelmente teria surtado por Jared Padalecki estar tocando nela.

Jared viu que ela estava prestes a chorar, mas talvez estivesse se controlando. Ela ficou ali, apenas parada, tremendo um pouco, talvez esperando que Jared a soltasse para que ela continuasse seu caminho.

— Aconteceu alguma coisa? Você está bem? — ele insistiu, ainda preocupado com o estado dela. Gabs assentiu, não muito confiante. Jared olhou para a porta fechada do quarto de Jensen no final do corredor e logo entendeu o que estava acontecendo ali. — Eu vou falar com ele. Vai ficar tudo bem. — disse Jared, com um leve sorriso, antes de se afastar e ir a passos rápidos até o quarto de Jensen.

Mas Gabs não queria ficar ali e saber o que ia acontecer. Ela preferiu continuar andando, e a cada passo que dava, a música ficava mais alta, até que finalmente voltara para a festa.

Ela estava sentindo-se desanimada, cansada, e tudo o que ela queria agora era enrolar-se em seu cobertor e ficar encolhida na cama, como em uma concha, onde nada poderia machucá-la.

Então um homem passou por ela, com um sorriso muito simpático, estendendo uma bandeja com bebidas variadas.

Ou ela poderia anestesiar tudo aquilo que estava sentindo.


— O que há de errado com você?

— Jared, por favor, não torne isso pior do que já é… — pediu Jensen, cansado, largando o pano com gelo na pia da cozinha e voltando para a sala, tentando se livrar do outro, mas Jared apenas continuou seguindo ele.

— Não sou eu quem está tornando isso pior, Jensen. É você mesmo! — falou Jared, irritado, puxando o amigo pelo braço, fazendo-o virar-se para encará-lo. — Depois de tudo o que você fez, de tudo que você passou para poder estar aqui, e finalmente ter algo verdadeiro, algo que você não queria deixar de ter nunca mais – porque foi isso o que você me disse sobre ela – você vai simplesmente desistir?

— Não é desistir! É deixar de ser egoísta, Jared. Eu não posso só pensar no que eu quero, e passar por cima da vida dela para ter isso.

— Bom, eu tenho uma novidade pra você, Jensen: o que você está fazendo agora é egoísta. Porque você só está pensando em você mesmo. Você não pensou em como ela ficaria, em como ela está se sentindo, no que ela quer.

— Porque talvez ela não saiba! Mas eu sei! E sei que isso é um grande erro! E eu sei também, que no final, é ela quem vai acabar se lamentando pelo que aconteceu, é ela que vai ter perdido uma vida toda com algo que nunca daria certo. Então não venha me dizer que eu não estou preocupado com o que é melhor pra ela.

— Eu digo sim, Jensen! Porque eu sou seu amigo, e eu estou te dizendo que você tem que parar e pensar melhor. Porque tudo o que você fez não pode ter sido em vão, só pra chegar até aqui e acabar assim. E eu que sou seu amigo estou afirmando pra você com toda certeza de que isso não é um erro total. Então eu acho que você deveria escutar o que eu estou dizendo em vez de fazer aquela garota se sentir um lixo por causa do que um idiota qualquer disse pra você!


Jensen atravessou o salão escuro rapidamente, desviando das mesas e evitando parar para falar com alguém. Ele apenas fazia algum sinal, indicando que estava ocupado ou com pressa. Então Jensen finalmente a avistou, sentada em frente ao balcão de bebidas, conversando animadamente com o cara que estava ali servindo ela e algumas outras pessoas. Ele hesitou por alguns instantes ao ver a quantidade de pessoas que poderiam vê-lo indo até lá para falar com ela. Talvez isso causasse mais problemas do que a quantidade dos quais ele já estava tentando se livrar. Mas ele não pensou por muito tempo. Jensen precisava falar com ela. Precisava ter certeza. E precisava se desculpar.

— Gabs! — ele chamou, indo até o balcão.

— Jensen? — a garota olhou para ele como se fosse a primeira vez que estivesse o vendo.

— Nós temos que conversar. — disse ele.

— Não, não! — Gabs se levantou do banco com um pouco de dificuldade, antes de se aproximar dele. — Alguém pode estar nos vigiando. — sussurrou ela. — E você esqueceu? Nós já conversamos! — falou ela, voltando para o banco e pegando sua bebida. — Bom, não foi exatamente uma conversa… Você falou. Eu ouvi. Como uma boa menina. E boas meninas entendem. Eu entendi, Jensen. — dizia ela, enrolando-se nas próprias palavras, sem nem se dar conta do que estava dizendo. — Porque eu sou uma boa menina. Por isso que eu entendi e…

— Você está bêbada? — perguntou Jensen, olhando com mais atenção para ela agora. Gabs deixou escapar uma leve risada, antes de se desequilibrar e escorregar para fora do banco. Jensen conseguiu pegá-la a tempo, não a deixando cair no chão.

— O quê? — riu ela, suspirando em sinal de deboche. — Eu não estou bêbada. Eu só estou me divertindo! Não era o que você queria, que eu voltasse pra festa e continuasse me divertindo? Então eu estou me divertindo… — murmurou ela, a voz arrastada, porém acusadora, como se o estado dela agora fosse culpa de Jensen. Não que ela precisasse explicar, ele sabia disso.

— Vem, vamos sair daqui. — Jensen colocou um braço em torno da cintura dela e afastou-a do balcão, puxando-a para a saída mais próxima.

— Por quê? — perguntou ela, indignada. — Eu estou muito bem aqui. Sozinha. Sério! — falou ela, diante da expressão de incredulidade dele. — Eu sei que você não se importa. Você não precisa fingir que se preocupa comigo.

— Não, Gabs, você não sabe. — interrompeu Jensen. — Porque a verdade é que eu me preocupo com você. Mais do que deveria… — murmurou ele, quando Gabs tropeçou nos próprios pés, obrigando-o a pegá-la no colo e levá-la para fora do salão.