CAPÍTULO XIV

Yame e Jack seguiam pelo corredor estreito, quase colados um ao outro. Como todos os outros esse corredor não era menos escuro e a chama da tocha emprestava ao lugar toda uma aparência lúgubre. O ar a volta deles parecia se tornar um pouco mais rarefeito, talvez pelo corredor descer cada vez mais. Jack se apressou em procurar uma saída dali, mas parecia ser em vão. Yame, por sua vez, tateava as paredes atrás de alguma pista de seus antepassados, mas não encontrava nada.

A sensação de cansaço, a cada passo dado adiante no corredor, aumentava vertiginosamente, e Jack interrompeu a caminhada, fitando a moça.

- Você está bem?

- Sim – ela balbuciou. – Devemos estar perto do fim...

- Espero que esteja certa – sorriu-lhe, vendo o suor escorrer pelo rosto moreno dela. – Se não alcançarmos logo o fim dessa jornada, vamos chegar ao centro da terra – gracejou, mas Yame pareceu não compartilhar de sua ironia, limitando-se a olhá-lo seriamente.

Definitivamente, era uma moça estranha aquela - pensava Jack ao virar-se para retomar a caminhada. – Deve ser o fato de amar o irmão do Imperador que a deixa assim. Moças não deviam casar virgens, ficam tão estressadas... – ponderou, soltando um longo suspiro. Andaram por mais alguns minutos, a camisa de Jack estava encharcada de suor e os cabelos grudados ao rosto. Yame surgiu ao seu lado com o rosto molhado e os cabelos igualmente escorridos, e num esforço supremo disse:

- Não agüento mais prosseguir - e escorou o corpo na parede ao seu lado.

- Fique aqui, eu vou ver o que encontro mais a frente, savvy? - ele a viu assentir com um leve menear de cabeça, e girando nos calcanhares, a deixou.

Jack só precisou dobrar mais uma curva do corredor para seus olhos capturarem a imagem de uma câmara incandescente. O calor ali era intenso, o fogo ardia sem cessar para todas as direções que se olhava, e Jack não conseguia distinguir de onde ele vinha, mas era impossível continuar sem transpô-lo. Um leve som do marulhar de água chegou ao seu ouvido, e ele tateou a parede de pedra ao seu lado. Havia uma concavidade escondida na saliência da pedra, de onde vertia um filete de água espesso. Com um sorriso nos lábios, molhou as mãos nela, provando-a, e certificou-se de que era potável. Bebeu mais um pouco da água e retornou pelo corredor até Yame, que deslizara o corpo até o chão, quase desmaiada.

Num gesto rápido, ele depositou a tocha em suas mãos na parede atrás de Yame, onde havia uma fenda, e tomou-as nos braços. A cabeça dela tombou de encontro ao seu tórax e Jack sumiu na escuridão, carregando-a no colo. Pouco tempo depois, chegou à câmara onde o fogo continuava a crepitar ferozmente. A respiração dela se tornara fraca, e Jack procurou alguma forma de levar água aos seus lábios, já que seu corpo estava inerte, e ele próprio, extenuado pelo esforço de trazê-la até ali sob aquelas condições. O que se mostrou uma tentativa infrutífera ao final de alguns minutos, pois não havia nada ali que pudesse ser usado como caneca para levar-lhe água. A moça desmaiara de vez, e ele começara a impacientar-se com o fato do calor se tornar sufocante. Seria esse o fim do famoso Capitão Jack Sparrow?

Ele se colocou de pé, bufando, e voltou até a fonte. Tinha que haver um modo de dar água para a moça, não podia ser esse o fim que Éris planejara para eles. Jack voltou a tatear toda a extensão da pequena cavidade, e num recanto da pedra, achou uma peça roliça, que rodou entre seus dedos, escapulindo para o lado. Ele esticou mais ainda o braço, tocando com as pontas dos dedos o objeto, e num esforço supremo, prendeu-o entre o indicador e o opositor, trazendo-o até seus olhos. Sorriu. O que parecia uma resposta as suas preces surgiu em forma de uma cuia, e Jack não pensou duas vezes em enchê-la e levá-la até Yame.

Apoiou a cabeça da moça em seu braço e inclinou a cuia de encontro aos lábios dela. O líquido fresco escorreu-lhe pela boca, e após alguns segundos, ela abriu os olhos. Seu sorriso, mesmo que ainda debilitado, trouxe certo conforto a Jack, que dava-se quase por vencido naquele jogo absurdo. Entretanto, algo chamou sua atenção naquele exato momento, as chamas que antes crepitavam intensas por todo o salão, agora cobriam apenas metade dele. Jack avançou alguns passos, certificando-se de que não havia nenhuma armadilha ali, e seus olhos se tornaram escuros, intrigados com o que acontecera.

Yame se erguera com certa dificuldade e se colocara ao seu lado, entregando-lhe a pequena cuia. Jack olhou o pequeno objeto entre seus dedos, depois desviou o olhar para o fogo que ardia adiante, e num gesto rápido, foi até a fonte, enchendo novamente a cuia. Com as mãos trêmulas e os olhos fixados no fogo, ele bebeu a cuia inteira. Os olhos de Yame se arregalaram surpresos, enquanto Jack sorria satisfeito com sua descoberta: o fogo diminuía à medida que ele bebia a água da cuia. Em pouco mais de três cuias, o fogo se fora por completo. Jack encarou Yame e murmurou-lhe:

- Pena não ser rum. - Desta vez ela sorriu-lhe, e ele completou: - Vocês mulheres são incompreensíveis. Quando devem sorrir, nos encaram com o olhar mais furioso do mundo, e quando devem se exaltar, sorriem complacentes. Eu desisto de entendê-las, mas eu ainda preciso da esmeralda para resgatar a mais intrigante da espécie. E voilá! Vamos?

Yame assentiu e tomou a frente de Jack, desaparecendo pelo corredor do outro lado, onde a escuridão reinava absoluta.

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Craven ia à frente carregando a tocha enquanto Lynch e Filch o seguiam, apavorados. Cada sombra desenhada na parede pela chama tremulante era uma disparada de coração dos marujos, que quase derrubavam Craven ao chão com seus sobressaltos. O corredor se estreitou mais, de modo que só conseguiriam passar um de cada vez, e Craven sugeriu que o primeiro fosse Filch.

- Ande, homem! - reclamou o imediato do Raio. – Ou vai apodrecer aqui dentro! Porque se eu encontrar a saída deste lugar, não volto para pegar nenhum dos dois.

- Mas e se o que houver do outro lado for assustador e perigoso? - retrucou o marujo de cabelos vermelhos e cacheados.

- Bom, se for algo tão dantesco quanto espera, é melhor que morra primeiro antes de sofrer qualquer maltrato – gracejou Craven. – Agora, ande, senão eu mesmo faço esse trabalho sujo, sr. Filch.

Lynch deu um risinho esganiçado ao canto e Craven alertou-o:

- Está rindo de que, sr. Lynch?

- Nada, senhor – respondeu o mulato.

- Não me pareceu isso – retrucou Craven com o olhar cintilante. – Pareceu que estava com vontade de trocar de lugar com o sr. Filch aqui...

- De modo algum – disse firme o marujo, mostrando os dentes muito brancos -, acho que Filch se sairá muito bem caso encontre o próprio demônio.

Filch lançou um olhar de fúria para o mulato e num gesto sacou a pistola, mas Craven interveio firmemente com suas duas pistolas em punho, apontando uma para cada um:

- Parem já com isso! - e virando-se para Filch, ordenou: - Vá agora, ou jazirá nesse chão pagão, entendeu? E nem mesmo Deus terá piedade de sua alma.

Os olhos verdes de Filch encaram o do imediato, temerosos, e num gesto rápido sumiu pelo corredor. Foi a vez de Craven encarar o mulato ao seu lado, avisando-o num rosnado:

- Mais uma insubordinação desta e terá o mesmo destino.

O mulato assentiu, e Craven passou pelo corredor, chegando à câmara onde Filch o esperava. A chama da tocha lançou uma luz amarelada a sua volta, revelando-lhes as paredes de pedra, e bem a sua frente um enorme portão trabalhado em arenito. Lynch acabara de se juntar aos dois e olhava àquela peça imponente com um ar curioso. Os três marujos se aproximaram com cuidado do portão, temendo o que pudesse lhes acontecer, e após constatarem que nada lhes oferecia perigo, analisaram-no detidamente. Cada um se deteve em um canto da peça, mas foi Lynch que rompeu o silêncio:

- Vejam - passou a mão pela borda da peça, retirando uns grãos de areia -, isso aqui parece uma tranca – disse, apontando para o pequeno vão entre o arenito e a parede de pedra.

Os outros dois olharam atentamente pela fresta, vendo o que pareciam ser pequenas travas, e se afastaram com Craven dizendo:

- Lynch, veja se há algo do outro lado.

Obedientemente, o mulato foi até a borda oposta da peça e constatou que nada havia. Craven e Filch pegaram os seus punhais, e tentaram, com as pontas das lâminas, abrirem-na. Não moveu sequer um milímetro. Lynch notou que havia um furo ao lado de cada tranca, e nova tentativa foi feita neles, mas sem sucesso. Cansado, Filch bufou, escorado ao arenito, perto do primeiro furo. Houve um barulho seco, e um estalido logo em seguida.

Os três homens se afastaram da porta e olharam-na desconfiados. Craven se aproximou da fenda e percebeu que a primeira tranca fora desarmada. Com um sorriso, perguntou para Filch:

- O que fez exatamente?

- Nada – rebateu o ruivo. – Só estava cansado...

- Não – retrucou Craven. – Você fez alguma coisa, tente lembrar.

Filch se aproximou da porta, se colocando na mesma posição que estivera antes, e repetiu seu gesto.

- Você só bufou? - perguntou Lynch.

- Sim...

- Pois bem – disse Craven. – Lynch, você fica com o terceiro furo por ser o mais alto, e eu com o segundo. Sopramos ao mesmo tempo e vemos o que acontece, está bem?

- Tudo bem para mim – disse o mulato, se colocando em posição.

- Pronto? - perguntou Craven, vendo o outro assentir. – No três, ok?

Filch se afastou deles um pouco e viu o mulato assentir novamente em resposta, e Craven contar:

- Um... Dois... Três.

Os dois sopraram os respectivos furos com todo o ar que tinham guardado nos pulmões, e um estrondo muito maior que o primeiro foi sentido e ouvido pelos três. Os marujos deram passos para trás e viram a porta se abrir e um corredor semelhante ao que estavam surgir diante de seus olhos. Com um sorriso satisfeito, Craven entrou na escuridão, iluminando-a com a tocha, e ouviu Filch falar a suas costas:

- Isso não termina nunca?

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A sala da esmeralda surgiu diante dos olhos de Ragetti e Pintello primeiro, depois de Johnny e Barbossa, Jack e Yame, e por último, Craven, Lynch e Filch. Cada grupo vindo de uma direção diferente, e olhavam deslumbrados para a magnífica câmara repleta de ouro e pedras preciosas que os rodeava. Parecia-lhes a concretização de um sonho: o encontro do El Dorado. Entretanto, os olhos de Hector, Jack, Yame e Johnny haviam sido capturados, naquele mesmo instante, pela esmeralda que brilhava intensamente sob a luz das tochas. Nenhuma pedra ali dentro se comparava em beleza e tamanho à que repousava no centro da câmara sobre uma pedra bem lisa e comprida, bem similar aos totens, só que sem carrancas esculpidas.

O brilho verde resplandecia sobre o imenso tesouro aos seus pés e os piratas pareciam estar enfeitiçados pelo luzir das peças de ouro que se amontoavam umas sobre as outras parecendo eclodir de cada pedaço de rocha por todos os lados da câmara.

- Paratoari – revirou os olhos. – Agora faz sentido...

Jack se aproximou com calma do centro do salão, sabia que seus homens não lhe prestavam a menor atenção, apenas queriam se afundar naquele ouro, mas ao contrário deles, tudo no que conseguia pensar era em Amira e que aquela maldita pedra verde podia trazê-la de volta. Rodeou o objeto de pedra, analisando-o detidamente, e Barbossa fez o mesmo, mas na direção oposta. Yame se colocara ao lado de Johnny, e fitava atentamente os marujos, que se entretinham em examinar minuciosamente cada peça do tesouro.

- Acalme-se! – disse o menino. – Eles não levarão seu tesouro - ela pareceu entendê-lo, e ele completou com um sorriso. – Papai não deixaria que fizessem isso, não viemos aqui para saquear seu povo.

Yame desviou seu olhar para Jack, entendera um pouco do que o menino dissera, mas isso não a confortara muito. Barbossa, que voltara até eles junto com Jack, concluiu:

- Liso que nem pau de sebo – gracejou, encarando Jack em azuis. – Sem nenhuma armadilha pelo que notei, mas para obtê-la, só escalando mesmo.

Jack lançou-lhe um olhar cínico, retirando seu cinturão, passou-o envolta da peça de pedra, apoiando as botas contra ela e içou seu corpo com cuidado. Pé após pé, ele escalou a pedra sem muitas dificuldades. Johnny seguia o pai com os olhos atentamente, até que ele tomou a pedra nas mãos e retornou, escorregando ao chão, rapidamente, são e salvo. O menino correu em sua direção, abraçando-o pela cintura, e Jack afagou-lhe os cabelos escuros, murmurando-lhe:

- Vamos buscar sua mãe.

Os olhos de pai e filho se encontraram, e Jack sorriu.

- Para isso, temos que sair daqui – ponderou Barbossa, e pegando uma peça de ouro entre os dedos, perguntou cínico aos homens: – Quem teve a tarefa mais fácil para chegar até esta câmara?

Todos se entreolharam e soltaram uma gostosa gargalhada, enquanto guardavam mais partes daquele tesouro nos bolsos. Jack, entretanto, aproveitou esse momento de descontração dos marujos para se aproximar de Yame e perguntar-lhe:

- Já ouviu falar do Livro da Paz? - ele viu a surpresa estampada nos olhos dela e continuou firme. – Sabe onde ele está?

- Não se contentou com a pedra? - rebateu seca e fazendo um gesto com a mão para o tesouro, completou: - E com a recompensa que seus homens obtiveram por segui-lo?

- Eu lhe sou grato por tudo – assentiu calmo, fitando-a com carinho -, mas a recompensa de que fala não estava em meus planos.

- No entanto, não os impediu de pegá-la - ponderou Yame.

Jack deu-lhe um sorriso cínico e incitou-a:

- Tente fazer isso... Querida – recomeçou, lançando um olhar preocupado para os homens, e depois desviou-o para ela sussurrando-lhe quase numa confidência: – Se soubesse o peso que tem o nome que deste a essa pirâmide, aí sim, nem você conseguiria impedi-los. – Ele quase sorriu abertamente ao constatar o que Yame quisera dizer ao mencionar Paratoari e Paititi, mas naquele momento isso não lhe interessava nenhum pouco, e Jack decidiu prosseguir com calma: - Entenda, eles não me seguem pelo doce senso de decência... Salvar mulheres em perigo não é tarefa comum para um pirata, a não ser, claro, que a dita dama ofereça uma recompensa no final, savvy?

- Sei que não – bufou contrariada e encarando Jack, intrigada, perguntou: - Por que quer o livro? Todas as histórias ligadas a ele terminam muito mal...

- Se eu lhe contasse me acharia um louco...

- Eu já o acho um louco – e sorriu –, mas sua mulher tem sorte de ter alguém que se importe tanto com ela a ponto de arriscar a própria vida. Admiro isso em você.

Jack fitou o infinito durante algum tempo, e Yame percebendo que ele pensava na esposa, aproveitou para soprar-lhe ao ouvido:

- Acredito que ela o ame da mesma forma, mas iria aceitar que se arriscasse tanto para conseguir um livro amaldiçoado?

- Se eu não encontrar esse livro – disse-lhe adotando um semblante sério -, a esmeralda em meu poder não terá valor algum.

Yame o fitou com preocupação. Aquele homem tão exoticamente vestido, com seus trejeitos e sua fala maliciosa, trazia-lhe uma estranha inquietação. Era como se ele fosse o presságio de coisas muito ruins que ainda estariam por vir... Talvez ele estivesse certo, se lhe desse o livro, afastaria todo o mal que pudesse se abater sobre seu povo.

- Eu vou lhe ajudar a conseguir o livro, Jack, mas deve me prometer que partirá logo em seguida, pois não tardarão a perceber sua ausência, e nunca mais porá os pés aqui, está bem?

- Tem minha palavra, amor - e dirigindo-se a seus homens, ordenou: - Vamos senhores! E por favor, não levem tudo que sua cobiça almejar, ou não agüentarão atravessar a floresta com esse peso todo. E não devem esquecer que em poucas horas irá amanhecer e um aldeia inteira estará ao nosso encalço. Temos que ser ágeis se não quisermos ser pegos, savvy?

- Ele tem razão – disse Ragetti para os outros. – Melhor pouco, mas com qualidade. - Devolveu metade do ouro para o lugar e pegou apenas algumas pedras preciosas, enfiando-as nos bolsos.

Barbossa pegara apenas uns poucos itens, e seguira Jack pelo corredor que este viera, interpelando-o no meio do caminho:

- Vejo que conseguiu persuadir a moça de levá-lo até o livro...

- O que Jack Sparrow não consegue, meu amigo? – rebateu Jack sorridente, retomando a caminhada para fora da pirâmide. Ainda pensando que Paititi e as Minas do Rei Salomão eram, ao menos para ele, uma só lenda...

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N/A:

Flores que saudades de vcs! Ufa! Eu já não me aguentava mais longe desse meu cantinho!

Não há muito que explicar nesse caps, como eu havia dito antes, meu interesse não era falar sobre El Dorado nenhum, apenas esbarrei nas teses por acaso e me aproveitei dos nomes dos lugares. Somente isso.

Gostaria muito de agradecer o carinho que vcs tiveram por mim, mesmo ausente essa semana,fiquei muito gratificada! Sei que ainda tenho que colocar a leitura em dia da Ieda, Mah e Jéssica, mas calma que até domingo vai, ok?

Beijos imensos e cheios de rum para: Taty, Aline, Ieda, Mana, Lara, Mah ( de volta!!!), Aninha, Carlinha, Bia, Dora e Jéssica. Amo vcs demais!!!!

Até quarta-feira.