Os dias nos Hamptons passaram bem rápido, como sempre acontece quando estamos felizes, quando estamos nos divertindo.
O grupo tinha se distraído com esportes na praia, jogos de cartas, tabuleiro e até mímica à noite, brincadeira que, inclusive, tinha levado todos eles às gargalhadas, além de muita cantoria ao som dos violões levados por Noah e Joe, e de uma festa improvisada na beira da piscina, na qual Artie mostrou seus dotes de DJ profissional e durante a qual a maioria deles ficou irremediavelmente bêbada.
Rachel tinha se aproximado bastante de Kurt e ouvido até algumas confidências do garoto, que, afinal, mostrou não estar passando por uma fase de negação, como Finn imaginara, mas apenas não querer demonstrar seu sofrimento, para não ter de lidar com a visão da piedade nos olhos das pessoas. Também tinha conversado bastante com Santanna, que realmente tinha mudado muito desde os tempos da escola, e até revelara à latina que, se por um lado ela tinha sido realmente má com todo o lance do bullying, por outro lado Rachel devia a ela o que aprendera sobre sapatos de salto alto matadores.
O mesmo tipo de sapatos que ela usou no dia da tal festinha entre amigos e que deixaram Finn enlouquecido a noite toda, querendo a todo custo escapar para o quarto, algo que ele só conseguiu muito mais tarde, mas que valeu a pena esperar. Foi uma madrugada especialmente barulhenta naquela suíte e eles riram muito, depois, porque certamente alguns amigos teriam escutado os gritos, de seus quartos.
Finn estava mais do que feliz em ver a interação entre os amigos e Rachel. Tudo o que ele precisava era ter a certeza de que seria possível a convivência entre pessoas que ele tanto amava, que eram tão importantes em sua vida, e sua pequenininha. Só ficaria faltando a benção de sua mãe e de Burt para tudo ficar perfeito, mas ele tinha convicção de que isso não seria um problema. Depois daquele feriado, ele tinha percebido, enfim, que tudo que ele queria e de que precisava na vida eram da música e de sua pequena estrela.
Era domingo e, antes de ir embora, a turma jogava uma última partida de vôlei de praia. Rachel não tinha altura e nem desenvoltura, então optou por ficar na casa, à beira da piscina, tomando sol e lendo um livro. Foi nesse momento que Quinn se aproximou dela, pronta a executar o plano que vinha arquitetando desde a noite passada, depois de ter escutado uma conversa interessante entre Finn e Santanna.
O rapaz e a melhor amiga estavam na sala de TV, aguardando os demais que se arrumavam para as atividades daquela noite, e colocando o assunto em dia, quando a loira, que pretendia juntar-se a eles, escutou o nome de Rachel e resolveu ficar perto da porta e ouvir o que o ex-namorado estava dizendo.
"...perfeita, Sany! Eu to apaixonado pela primeira vez na minha vida! Eu finalmente achei alguém que vale a pena, alguém que eu sei que é pra mim, sabe?"
"Eu vejo o jeito como vocês se olham, como você ta feliz. E eu conversei muito com ela também... ela é uma pessoa maravilhosa mesmo, meu amigo. Eu fico muito feliz por você!" Santanna abraçou Finn, que retribuiu. "Você merece. Já estava na hora!" Eles riram, se separando.
"É... já tava na hora! Ela é... ele é tudo, Sany!" Ele respirou fundo, parecendo preocupado de repente. "Só é uma pena que ela não saiba disso." A amiga olhou-o de forma questionadora. "É... ela é um pouco insegura... insegura com a aparência dela..."
"Acho que eu tenho uma certa culpa nisso, eu falei algumas vezes que ela precisava de uma plástica no nariz... eu sinto muito, Finny!" San disse, verdadeiramente arrependida por ter feito aquilo no passado.
"Está tudo bem... eu só temo que essa insegurança dela com a aparência... que isso faça ela se sentir insegura quanto a nós dois... entende?"
"Você não falou pra ela como se sente ainda, não é?"
"Não, eu ainda não tinha certeza do que realmente era esse sentimento..."
"Fale, Finn. Uma mulher gosta de ouvir essas coisas, de saber que é amada."
Era suficiente para Quinn e ela decidiu deixar os dois conversando e ir para outro lugar da casa. Sabia que, afinal, nem seria realmente bem vinda ali. Não precisava da companhia deles. Tinha um sorriso triunfante no rosto agora, pois sabia qual era o calcanhar de Aquiles de Rachel Berry e era exatamente ali que ela iria chutar.
Rachel fechou o livro e abriu um sorriso ao ver Quinn se sentar ao seu lado e a loira sorriu também.
"Que bom que todos estamos tendo a oportunidade de te conhecer de novo, Rachel... de deixar o passado pra trás, começar de novo."
"Ah, sim... também fico feliz com isso."
"E que bom que você e Finn estão se divertindo. Parece que finalmente ele encontrou alguém na mesma vibe que ele, sem aquele lance de se apaixonar e tal..."
"O que?" disse a morena, um misto de preocupada e totalmente pega de surpresa.
"Oh, Deus! Desculpa, Rach... você ta apaixonada por ele?" a ex-líder de torcida falou, fingindo preocupação e não falhando.
"Hã... não, não... eu só queria saber por que isso é assim tão bom... e como você sabe e tal, que estamos na mesma... vibe... e tal." Rachel, por sua vez, falhava violentamente, mas Quinn sabia falsificar também a sensação de alívio.
"Ai, ainda bem. Por um momento, pensei ter dado uma mancada daquelas... mas, enfim, Rachel, respondendo à sua pergunta, eu percebi porque nenhuma menina que estivesse apaixonada iria ficar com um cara que não está, por tanto tempo. E nem topar na boa conhecer os amigos dele... e isso é bom porque... ora porque ninguém sai machucado, não é, Rach? Eu já vi algumas meninas saírem machucadas de histórias com o Finn."
Ela respirou e continuou o seu teatro, vendo que a outra não esboçava reação a suas palavras.
"Não que ele tenha feito nada disso por maldade. Pelo amor de Deus, o Finn é uma pessoa maravilhosa! Ele só não... ele não leva as coisas a sério, ele é leve, gosta que as coisas também sejam leves, gosta de curtir, se divertir. Não é nada demais, ele é carinhoso e tem respeito pelas meninas, mas simplesmente se alguém se apaixona numa circunstância dessas, por mais que essa não seja a intenção dele, vai ficar mal no final, né?"
Vendo sua companhia, na espreguiçadeira ao lado, apenas fazer um gesto positivo com a cabeça, confusa demais para dizer o que quer que fosse, ela se deitou na sua própria espreguiçadeira, colocou os óculos escuros e deu o golpe de misericórdia, completando, como se apenas pensasse alto, com indiferença.
"Eu me pergunto se um dia esse maluco vai saber o que é se apaixonar... ele saiu com algumas das meninas mais bonitas que eu conheço e elas não conseguiram isso... quem vai ser a sortuda que vai conseguir?"
Se Rachel fosse um pouquinho mais atenta e esperta, no que diz respeito às pessoas, ela saberia que não poderia haver boas intenções por trás de palavras tão rudes. Porém, ela acreditava no ser humano, apesar de tudo que já tinha passado, e jamais imaginaria que Quinn tivesse falado aquelas coisas de propósito. Além disso, ela estava cega por suas inseguranças.
Em primeiro lugar, Rachel era realmente uma pessoa insegura quanto a sua aparência. Gastava toda a autoconfiança com a certeza que tinha de possuir enorme talento artístico, e só. Em segundo lugar, estar apaixonado é algo que deixa o ser humano mais vulnerável, com medos e pensamentos irracionais (apesar de isso ser uma contradição entre termos).
Então Rachel passou o resto do dia pensando nas palavras de Quinn e em tudo que levava a crer que elas faziam sentido: Finn nunca a apresentara como namorada, nunca falara sobre relacionamento, não fazia planos para o futuro com ela, jamais se declarara apaixonado. Sempre falava do quanto a desejava, do quanto o sexo entre eles era maravilhoso e de como se divertia ao lado dela, em todos os encontros e no dia-a-dia. Pensando bem, ele devia achar que eles eram amigos com benefícios.
Algumas vezes, vinha um ou outro pensamento que a fazia pensar que não. Não era possível que ele não estivesse nem um pouquinho envolvido com ela! Não era! Ele a apresentara aos melhores amigos, ao irmão, a trouxera a uma viagem em que poderia conhecer um monte de garotas, vivia fazendo gestos de carinho, como comprar o seu café e as suas revistas preferidos e levar para o teatro, fazia-lhe milhões de elogios de todo tipo e a chamava de sua pequenininha...
... mas todo esse carinho poderia ser amizade e o apelido possessivo poderia ser um jeito que ele tinha encontrado para as coisas continuarem, e até ficarem cada vez mais, apimentadas na cama. Se todas as meninas lindas com quem ele tinha ficado não tinham feito com que ele se apaixonasse e quisesse um relacionamento, por que ele iria querer isso logo com ela? Logo com uma mulher com uma beleza tão pouco convencional?
Foi atormentada por esses pensamentos que ela trocou de roupa, fez as malas, se despediu dos novos amigos, que ela agora já não sabia mais se continuariam sendo seus amigos nem por quanto tempo, entrou no carro e voltou à NY com Finn e Kurt. Os pensamentos, obviamente, não permitiam que seu comportamento fosse o de alguém animado e tanto Finn quanto Kurt perceberam a mudança abrupta no comportamento dela.
No entanto, ela afirmou estar com dor de cabeça e, durante a viagem, fingiu dormir todo o tempo. Em nenhum momento a confusão dentro dela diminuiu e era como se houvesse em seu cérebro um diabinho e um anjinho brigando, para convencê-la de que as coisas eram de um certo jeito e de que ela deveria agir de uma determinada maneira.
Infelizmente, como acontece com todo mundo que está sob o domínio das emoções, o diabinho ganhou aquela luta.
