Capítulo Catorze- A Proposta de Isabelli

A última noite em La Couleur parecia ter sido mais comprida do que todas as outras. James havia passado a noite em claro, apenas pensando em tudo que Emmeline havia lhe dito. Cada frase que ela havia falado fazia todo o sentido do mundo. Ele precisava ser corajoso, precisava arriscar. Precisava amar.

- James?

Rafaella Dahlem estava recostada à porta de seu quarto. Vestia um longo robe e segurava com força uma xícara de café. As visíveis olheiras em seu rosto pareciam pedir para os olhos serem fechados e seu cabelo nunca esteve tão desarrumado.

- Aconteceu alguma coisa?- James perguntou sem emoção.

- Você tem uma visita.

- Quem?

- A tal da Isabelli Boumier.- Falou, levantando a sobrancelha esquerda.

- Ah... peça para ela entrar.

A loira saiu por alguns instantes e logo voltou acompanhada por Isabelli. Como sempre, ela mantinha um falso sorriso no rosto.

- Meu querido James!- Ela abriu os braços, pronta pare receber um abraço. Mas James apenas estendeu a mão para ela.- Como você está?

- Ótimo. E você, Isabelli?- Perguntou, fingindo interesse.

- Maravilhosa!- Ela virou-se e olhou Dahlem, que continuava recostada à porta.- Você que não parece estar muito bem, não é, Rafaella?

- Foi uma noite longa.- Respondeu, sem olhar para Isabelli.

- Eu acredito.- A outra respondeu, voltando a olhar para James.- Você deve estar se perguntando o porquê da minha agradável visita, não é?

James sentiu vontade de dizer que não estava se perguntando nada e muito menos achava a visita agradável. Mas apenas afirmou com a cabeça.

- Bem, eu vou lhe explicar. Mas eu gostaria muito que falássemos a sós.- Olhou para Dahlem.

- Tudo bem, estou indo.

Dahlem saiu do quarto e fechou a porta com força. Tomou mais um gole de seu café. Andou calmamente pelo corredor, observando os nomes que estavam pendurados nas portas. Thelma Abott, Alice Bowman, Marla Denson. Parou em frente à porta do quarto que supostamente deveria ser de Emmeline. Mas a placa com nome dela não estava mais lá; o que restava era, apenas, as marcas dos pregos.

- Ela mesma tirou a placa.

Lily estava alguns passos atrás de Dahlem. Também vestia um robe; havia acabado de acordar.

- Por que ela fez isso?- Dahlem perguntou indignada.- Se James descobrir...

- Ele que mandou ela tirar.- Interrompeu.

- QUÊ?- A xícara estava começando a escorregar de sua mão.- Mas... por quê?

- Ela foi embora... embora.- Repetiu.

A triste expressão no rosto de Lily era muito visível. O olhar melancólico, a voz arrastada. Dahlem sentiu pena dela; teve vontade de passar a mão no ombro dela e conversar. Dizer-lhe que Emmeline não era a sua única amiga, que ela também era sua amiga. Mas não o fez. Afinal, ela sabia que Lily nunca gostara muito dela.

- Ela foi sozinha?- Rafaella perguntou.

- Não. Foi com Remus Lupin.

Rafaella não se surpreendeu. Sempre que via os dois juntos, notava um brilho diferente no olhar de Emme. Já havia percebido que eles estavam apaixonados e que, alguma hora, isso iria acontecer.

- Você sabe para onde ela foi?- Dahlem perguntou, curiosa.

- Não tenho idéia.- Respondeu, mantendo a mesma expressão triste.

- Bem, você pode pensar pelo lado bom...- Sorriu.- Pelo menos ela está feliz agora. Está com o homem que a ama de verdade... e que não precisa pagá-la para provar isso.

- É, você tem razão. Agora ela não tem que se rebaixar dormindo com qualquer um por dinheiro.

Lily disse tais palavras com tanta indelicadeza e grosseria que pensou que Dahlem iria, no mínimo, começar a chorar. Ficou surpresa ao ver que a loira sorria carinhosamente.

- Você está certa, Lily.- Suspirou e tomou mais um gole do café.- Você está certa.


- Sua proposta é impossível de ser aceita, Srta. Boumier. Eu lamento.

- Já disse para me chamar de Isabelli.- Sorriu.- Mas é uma pena que você não queira...

- La Couleur pertenceu ao meu pai.- Ele a interrompeu.- Seria um ato terrível de minha parte vendê-lo.

James segurava alguns papéis cobertos por palavras que ele não tinha a mínima vontade de ler. Estendeu a mão, entregando os papéis a Isabelli. Ela pegou-os papéis impacientemente.

- Você não pode negar que a proposta é ótima.- Disse, folheando os papéis.

- É uma proposta realmente tentadora.- James tirou os óculos e esfregou os olhos.- Mas não. Não quero.

Isabelli revirou os olhos pelo quarto, gravando cada imagem que via. Inclinou a cabeça e observou o tapete em que pisava. Começou a mexer seus pés em movimentos circulares, observando a pelugem vermelha do tapete agitar-se no mesmo ritmo que seus pés.

- Italiano, não?

- Desculpe?

- O tapete.- Isabelli apontou para o chão.- É italiano, não?

- É.- Repôs os óculos.- Importado da Itália.

- Você deve ter muito lucro em seu trabalho para comprar objetos importados, eu suponho.

- Um pouco.- Respondeu impacientemente, já não agüentando a presença de Isabelli em seu quarto.

- Bem, todo o seu lucro vem daquelas... moças, não é?- O tom da voz dela alcançou um agudo quase insuportável, que fez James cobrir as orelhas discretamente.

- É, vem.

- Mas...- Ela coçou o queixo sutilmente.- Se essas moças saem do La Couleur a hora que quiserem, como você ainda consegue obter lucros?- Ela riu.- Ou La Couleur está com problemas financeiros...?

- Do que você está falando?- James a interrompeu.

- Bem...- Ela tossiu.- Fiquei sabendo que Emmeline Vance foi embora.

- Emmeline Vance foi demitida.- Falou com rispidez.- E mesmo que tivesse ido, isso não seria de sua conta, Srta. Boumier.

- Desculpe.- Pigarreou.- Só fiquei curiosa. Você vai ser grosso comigo outra vez se eu lhe perguntar a razão pela qual Emmeline foi demitida?

- Incompetência no trabalho.


Rafaella e Lilian, que ainda estavam no corredor, ouviram a porta do quarto de James bater com tanta força que parecia que iria derrubar as todas as paredes. Viram Isabelli Boumier retirar-se do quarto com uma expressão antipática no rosto, com a mão esquerda carregando firmemente sua bolsa e a mão direita cuidando dos papéis. Quando Isabelli passou por elas, Dahlem abriu um sorriso de satisfação em seu rosto.

- Até logo, Belli.

Isabelli não respondeu; mas a expressão que tinha mostrava que havia detestado ser chamada de Belli. Lily abafou o riso, enquanto ouvia os passos pesados de Isabelli descendo as escadas.

- Qual o problema dela?- Dahlem perguntou.

- Ela queria comprar o La Couleur.- Disse James, enquanto saía de seu quarto e fechava a porta.- Obviamente, ela não conseguiu.

- Eu sabia que ela queria algo do tipo.- Lily bufou.- Não é à toa que uma mulher começa a vir a um bordel com tanta freqüência e ainda tenta seduzir o dono.

- Como assim seduzir o dono?- Dahlem se engasgou com o café.- James, ela se ofereceu para você?

- Bem... muito indiretamente.- Ele estava desconcertado e levemente corado.

- Não seja modesto, Potter.- Lily disse.- Isabelli beijou você no meio da pub lotada.

- Que mulherzinha qualquer...- Dahlem sussurrou.

Lily queria dizer a Dahlem que ela não tinha nenhum direito de chamar Isabelli de "mulherzinha qualquer" e gostaria muito de lembrar-lhe de que ela era uma prostituta. Mas, sem saber porquê, ficou calada.

- E ela ainda quis saber sobre Emmeline.- James quebrou o silêncio.- Perguntou o por quê de ela ter ido embora.

- O que você disse pra ela?- Lily murmurou.

- Apenas disse que foi por incompetência no trabalho...

- O que não deixa de ser verdade. Quero dizer, se apaixonar por um cliente...

Dahlem pigarreou. Tomou mais um gole do café, para disfarçar. Não queria mostrar que falar sobre paixões por próprios clientes a incomodava. Pensou em Sirius e na última vez que estiveram juntos. Pela primeira vez na vida, ela se sentiu dominada, presa. Nunca havia se sentindo assim com nenhum homem. Apenas com Sirius.

- Você não acha, Rafaella?- James a olhava, esperando uma resposta.

- Acho o quê?

- Que as pessoas não escolhem quando se apaixonar. Que, quando isso acontece, estamos perdidos. E não há nada que possamos fazer, além de nos entregarmos.

O corredor ficou em silêncio. Lilian fingiu não ter ouvido o que James falara, olhando para os lados, como se procurasse por alguma coisa. James olhava para Dahlem, esperando uma resposta. E a voz dela quebrou o silêncio.

- É, eu acho.


Era final de tarde. Dahlem observava pela janela de seu quarto o pôr-do-sol. Os cabelos loiros estavam soltos e caiam-lhe até a metade de suas costas. O olhar era triste e profundo. Piscava os olhos com uma certa freqüência, tentando impedir que as lágrimas descessem de seus olhos.

Fechou a cortina da janela e foi deitar em sua cama.

Será que James sabe?

Tudo o que ele falara sobre se apaixonar e se entregar havia deixado Dahlem incomodada. Tantas vezes negara, dizendo para si mesma que não estava amando, que não era amor. Que era apenas uma confusão na sua cabeça- e não no seu coração.

Mas só de Sirius Black chegar perto dela, suas pernas ficavam trêmulas. Lá do palco, sempre evitava olhar para ele. Porque, se olhasse, seria capaz de perder o equilíbrio e cair no chão.

Enquanto Sirius Black tomava conta de seus pensamentos, alguém bateu na porta de seu quarto. Antes que respondesse "entre", ou abrisse a porta, James já havia entrado no quarto. Segurava um pedaço de papel com tanta força que chegava a amassá-lo. Seu rosto mostrava que ele estava com raiva.

- James, o que aconteceu?- Ela perguntou preocupada.

- Você não vai acreditar.- Respondeu, mostrando o papel a Dahlem.- Você não vai acreditar no que aquela vadia fez!

Dahlem pegou o papel e leu. Era uma carta de Isabelli Boumier.

Querido James,

É uma pena que você não tenha aceitado a minha oferta. Mas eu quero que você saiba que aquela era a menor que eu poderia ter feito. Tenho certeza que pelo dobro do preço você aceitaria, não é?

É bastante dinheiro, tenho certeza de que você vai querer. Já até falei com meu amigo, Jean Grenouille, ele é do jornal de Paris. Pedi a ele que colocasse na primeira página do jornal: "La Couleur vendido a Isabelli Boumier".

Não é esplêndido?

Aguardo respostas, querido.

Isabelli B.

Após ler a carta, Dahlem riu. James olhou pra ela surpresa, perguntando o porquê da risada.

- Ela é louca.- Respondeu.- Louca, louca, louca. Como ela vai colocar uma notícia falsa no jornal?

- Creio que não colocará. Acho que só disse isso para fazer uma pressão em

mim.

- Ela dobrou mesmo o preço da oferta?

- Bem, é o que está escrito na carta.- Deu os ombros

- E qual seria o valor?- Dahlem sentiu uma ponta de curiosidade surgir.

- Alto.- James respondeu, sem olhá-la.- E isso seria, exatamente?

- Um milhão de francos, Dahlem.


N/A: Oi, oi. SIM, eu sei que eu demorei(aliás, eu sempre demoro) séculos pra postar. Mas dessa vez eu tive um motivo mais forte, ok? Meu computador estragou(só alegria, minha gente). Tive medo de perder todas as minhas fics e talz, mas no fim deu tudo certo :)

Obrigada a Gween Black que betou e obrigada a todos aqueles que lêem, comentam e aguardam pacientemente os capítulos:D

Beijos,

Donna Black.