Os dias passam e cada vez mais eu conto as horas, os minutos e até mesmo os segundo para vê-lo. Espera.. espera... as vezes ficávamos feito dois fugitivos da policia olhando pra todos os lados, apagando mensagens, emails ou que seja.. qualquer coisa que pudesse deixar vestígio, era deletado na mesma hora.
"Anda nas nuvens Lea.." – Dylan diz entrando no quarto.
"Já chegou?" – eu nem tinha percebido.
"A um bom tempo já..." – ele levanta a sobrancelha de leve – "que você tanto pensa ai, hein?"
"Em nada.. de especial.." – pego o livro que estava em cima de mim e coloco em cima do criado-mudo.
Acompanho-o com o olhar já imaginando que desculpa eu iria inventar hoje... ai meu Deus.. Sabe meu maior medo? De na hora 'h' acabar falando mais do que devia.. ou sussurrar um outro nome.. se é que da pra compreender...
"Quer comer algo?" – ele começa a tirar a roupa e eu respiro fundo.
"Já comi.. quer que eu prepare algo?"
"Não.." – ele sorri e começa a tirar sua calça..
Ai meu Deus.. eu conhecia aquele sorriso.
~.~
"Papai.." – Emily estava sentada no meu colo – "cadê a tia?"
"Que tia?" – falo sem tirar meus olhos da televisão.
"Lea.. tia Lea.. cadê ela?" – ela se vira e eu olho pra baixo, encontrando-a com os olhos em cima de mim.
"Não sei.." – beijei sua testa – "deve estar na casa dela.."
"Tadinha.." – ela sorri colocando suas duas mãozinhas sobre o meu peito – "deve ta sozinha.."
"Não tanto.." – respirei fundo tentando nem imaginar.
"Quer que eu ligue pra ela?" – ela passa suas unhas em meu peito enquanto fala.
"Ai.." – tiro sua mão – "unha grande.. está na hora de cortar.." – olhei pra ela que logo recolheu sua mão. Lea sempre que podia cortava e pintava as suas unhas da cor que ela preferisse. Começaram a fazer algumas coisas de mulheres, somente elas e eu normalmente só ficava de longe olhando e percebendo o sorriso genuíno de felicidade que minha pequena dava quando estava desfrutando de sua companhia.
Não sabia nem mais como mentir ou falar 'não..'. Fechei meus olhos e tentei me concentrar naquilo ou no que fosse.
"Dias que não fazemos nada.." – respira Lea.. respira..
"Sim.." – falei o mínimo possível.
"Preciso de você.." – ele sussurrou perto de meu ouvido.
"Eu sei.." – tentei sorri e relaxar, mas estava difícil...
Que eu estava ainda fazendo aqui, pelo amor de Deus?
~.~
Coloquei Emily para dormir e voltei para o meu quarto. Incrível, sábado à noite e eu em casa. O fim de semana era ainda mais complicado. Mudei cem vezes os canais da televisão e encarei meu celular. Olhei para o visor e logo encarei seu numero... ligo.. ou não? Quase duas da manha... não sei se ela dormia cedo com ele.. ou se...
Coloco o celular de lado e tento me concentrar na televisão em vão.
"Melhor ligar.." – disse sabendo que não dormiria em paz enquanto não falasse com ela.
Disco seu numero, chama.. chama.. chama.. chama.. caixa postal...
"Ela deve estar dormindo.." – disse jogando o telefone de lado.
~.~
Tentei pensar em algo pra dizer, mas eu não sabia mais o que fazer. Um desespero bateu em mim, me surgiu uma vontade de chorar, mas não seria normal. Vamos Lea.. use seus dotes de atriz.. atue atue.. se controle.
Ele falava, ele agia e eu mal me movia. Somente contava na cabeça os segundos pra aquilo acabar. Eu mereço o inferno por isso.. meu Deus. Não sei como tudo começou nem terminou... só sei o que o vi dormindo ao meu lado... Levantei-me da cama e me cobri toda, indo direto ao banheiro. Tranquei a porta do banheiro e liguei o som baixinho.
Ligo o chuveiro, nem vejo a temperatura. Me jogo de vez embaixo daquela água gelada e pego uma esponja esfregando no meu corpo com força.
"Merda.." – digo comigo mesma esfregando cada vez com mais força.
Meu peito queria sair pela boca. Nunca senti algo parecido. Repulsa? Só sei que eu estava sentindo nojo de mim mesma. Escoro minha cabeça na parede e deixo cair a esponja no chão.
"Droga.." – respiro fundo sentindo que minhas lágrimas se confundiam com a água gelada que caia do chuveiro.
~.~
Não sei bem ao certo o 'porque', mas demorei a dormir. Por mais que eu tentasse, rolei rolei e rolei na cama. Tentei ate arriscar a sorte e ver se ela estava no skype e nada. Verifiquei se Emily ainda dormia, comi qualquer coisa e voltei a cama encontrando qualquer jogo para dormir antes de finalmente pegar no sono.
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Fiquei longo tempo debaixo daquela água. Tentei chorar em silencio, encolhida, escorada a parede... abraçando meus joelhos, me balançando com o queixo recostado aos meus joelhos. Por vezes o ar me faltava e eu tornava a tentar buscar ar, abafando o meu choro da maneira que podia. Esfreguei o meu corpo o máximo que pude.. até minha pele ficar vermelha.
Longo tempo depois saio do chuveiro e me enrolo no primeiro roupão que vejo pela frente. Passo a mão no espelho tentando ver minha imagem e logo abro a porta saindo pelo quarto.
Olho para a cama ele ainda dormia tão tranquilamente... me aproximo lentamente e encontro o meu celular em cima do criado-mudo. O agarro e saio do quarto molhando tudo por onde eu andava.
Entrei no quarto de hospedes e fechei a porta com chave, me sentando no cantinho da cama.
~.~
De repente escuto meu celular toca. Antes de atender, verifico a hora..
- 2:44 – da manha...
Estranho.. me estico e pego o celular, verificando o visor e não acreditando.. eu só podia estar delirando.
"Alo?" – atendo de imediato.
"Cory?" – escuto sua voz entrecortada, baixinha, do outro lado da linha.
"Lea?" – salto da cama preocupado – "que foi? Algo aconteceu?"
"Cory.." – ela repete meu nome e escuto seu choro junto.
"Lea.." – respiro fundo – "o que aconteceu, me diz pelo amor de Deus."
"Não posso.." – ela falava quase com um fio de voz.
"Que te fizeram Lea?" – já comecei a pensar no pior.
"Eu vou te machucar.." – ela chorava mais – "eu não posso.."
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"Onde você esta?" – ela me perguntava e eu mal consegui conter as lagrimas.
"Em casa.." – disse limpando meu rosto.
"Posso ir ai?"
"Não.." – respondi rapidamente – "não.." – repeti.
"Merda.." – ele quase gritou do outro lado da linha – "não posso pensar que você esta ai sozinha e eu aqui do outro lado da linha sem poder fazer nada.. o que aconteceu meu anjo?"
"Não Cory.." – eu não poderia dizer. – "desculpa te ligar.."
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"Não desliga.." – já disse sabendo o que ela poderia fazer.
Eu já imaginava o que poderia ter ocorrido.
"Ninguém bateu em você não, ne?" – eu precisava ter certeza que não mataria alguém hoje.
"Não.. jamais..." – ela ainda soluçava – "eu.. só precisava ouvir a tua voz.."
"Pequena.." – disse incomodo com a situação – "vamos resolver logo isso por favor.."
"Porque sempre tudo teve que ser assim pra nós dois?"
"Não sei.." – era algo que eu gostaria de saber.
"Preciso te ver..." – ela finalmente disse – "não vou poder dormir.. preciso te ver.."
"Você não vai sair daí assim Lea.." – tentei ser autoritário com ela.
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"Preciso que você me abrace e me diga que tudo vai ficar bem.." – limpei meu rosto mais uma vez – "assim como você sempre fazia.."
"Lea.."
"Porque eu quero me enganar assim Cory?" – me encolhi na cama – "merda... não adianta.. por mais que eu tente.. por mais que eu sei que o nosso pode falhar de novo.. eu já te disse que eu nunca consegui dizer eu te amo pra mais alguém depois de ti?"
E o silêncio de repente reinou do outro lado.
"Vou te pegar.." – ele de repente torna a falar. – "vamos desaparecer... conversar.. não sei..."
"Não.." – tentei fazê-lo mudar de idéia – "não podemos, você sabe.."
"Não podemos uma porra.." – ele solta um grito – "estou indo ai..."
E de repente escuto que ele desligou o celular..
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Enquanto meu celular insistia em chamar, porque eu sabia perfeitamente que ela bateria o pé com todas as forças, gritando não! Recordei-me que não tinha ninguém em casa para ficar com a Emily. Olhei para os lados em saber ao certo o que fazer e peguei uma de suas bolsas enfiando uns brinquedos, uma muda de roupa e uma garrafa com água. Eu acho que tinha enlouquecido de vez.
"Emily.." – me abaixei a sua altura e já fui colocando-a no colo – "papai tem que sair... você não pode ficar só.." – ela nem abriu os olhos e eu agradeci por isso.
Olhei para tudo na casa e tranquei a porta indo direto ao estacionamento.
Coloquei-a com todo cuidado do mundo no banco de trás e corri para me sentar, escutando que o celular ainda não havia parado de tocar.
"Em 10 minutos eu to ai.." – disse atendendo e desligando rapidamente.
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O que ele tinha bebido ou consumido eu não tinha ideia, mas eu tinha certeza de que ele não estava de brincadeira. Dylan não podia ver ele por aqui e eu não iria deixá-lo do lado de fora da casa uma hora dessas. Sai correndo pro meu quarto e em silencio vesti uma calça larga e uma camisa de malha.
Peguei o meu celular, calcei uma sandália e sai praguejando ate o estacionamento só esperando que ele chegasse para que eu pudesse mandar ele ir embora e esquecer aquela loucura.
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Avistando já a sua casa tratei de já telefonar, não queria perder meu tempo ali.
"Eu entro ou você sai?" – perguntei de vez.
"Cory, pelo amor de Deus.."
"Eu entro então.." – disse sem querer discutir.
"Ok.. eu já to saindo.." – assim que ela fala eu paro o carro frente a sua casa.
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Olho para trás uma vez antes de finalmente sair. Eram um pouco mais de 3 da manha, ou nem sei dizer.. talvez menos.. talvez mais... só sei que estava frio..
Me encolhi toda, abracei meu corpo e fui me aproximando de seu carro onde ele me aguardava já do lado de fora.
"Já to bem.." – me aproximei já falando.
"To vendo.." – ele diz abrindo a porta do carro.
"Não vou entrar ai Cory... volta pra casa..." – tentei parecer calma com aquilo.
"Não.." – ele seguia segurando a porta – "entre... precisamos conversar..."
"Cory.." – somente o encarei – "as coisas não são assim.."
"Podemos fazer as coisas da minha maneira pelo menos uma vez na vida?" – ele tornou a indicar pra dentro.
"Não to entendendo o que você quer fazer.." – olhei para dentro e olhei para ele – "Emily esta aqui?"
"Não podia deixá-la sozinha.." – ele fixou seu olhar no meu. – "se não por mim, por ela... entra logo.."
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Eu sabia que não ia ser difícil.. Sorri satisfeito vendo-a já sentada dentro do carro e dei meia volta entrando também.
"Pronto.. entrei.. e agora? O que você quer?"
"Cinto.." – sorri para ela, dei a partida e não disse mais nada.
"Você não esta pensando em me tirar uma hora dessas de casa, né?" – ela segurou meu braço com força.
"Pensando não.. já estou tirando.." – dou a partida sem ao menos pensar em escutar as suas reclamações.
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"Cory.." – disse quando vi que ele saia do meu bairro – "vamos pra onde?"
"Pensando ainda.." – ele parecia calmo no que fazia.
"Você tá tirando uma com minha cara?" – comecei a rir nervosa.
"Fala baixo.." – ele sorri para mim – "ela pode acordar.."
"Puta merda..." – me atrevo a bater no seu braço – "se eu não acordar em minha casa hoje você vai estar assinando meu atestado de morte.."
"Você já vai estar longe.. quando isso acontecer.." – ele sorri piscando para mim.
"Não estou gostando dessa brincadeira.. não to vestindo nada apropriado.. para nada... tá frio... e não trouxe nada comigo.. me leva de volta.. amanha prometo que te ligo..." – tentei fazer com que ele tomasse consciência do que estava fazendo.
"Cansei de ligações.. você não precisa de roupa pra onde estamos indo... e talvez esteja na hora de vida nova, tudo novo.." – ele seguia rindo com uma calma incrível.
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"Me diz pelo menos pra onde estamos indo?" – ela suspirou fundo vendo que não adiantaria continuar com aquilo.
"Pra um local que você ama.. e longe disso tudo.." – parei o carro no sinal e passei minha mão pelo seu braço – "confia em mim?"
"Tentarei..." – ela sorri sem jeito movendo os ombros – "seja o que for... vamos.." – ela olhou para trás vendo a Emily.
"Dorme... ou tenta..." – dei a partida de novo – "qualquer coisa te acordo..."
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Ficamos em silêncio ate que eu peguei no sono. Não sei bem por quanto tempo...
"Lea..." – sinto seus lábios tocando os meus – "chegamos.." – ele sussurra ao meu ouvido – "acorda..."
"Hum.." – me movo pensando de verdade que estava sonhando. Me enganei...
Abro meus olhos e já o vejo abrindo a porta de trás do carro pegando-a no colo.
"Quer ajuda?" – perguntei me espreguiçando.
"Não.." – ele fecha a porta. – "vamos..."
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Andamos até a porta da casa. Abri a porta e logo dei passagem para que ela entrasse.
"Eu estou louca ou.." – ela piscou me encarando.
"Comprei não tem muito tempo..." – disse fechando a porta.
"Na praia?" – ela sorri e eu logo me volto para ela.
"Sim.." – jogo as chaves de lado em cima de uma mesa – "bem de frente ao mar.."
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"Quer conhecer a casa?" – ele diz me estendendo a sua mão.
"Sim.." – entrelaço minha mão, meus dedos, com os seus.
"Primeiro vamos por ela no quarto..."
Andamos juntos ate o quarto dela que eu mal havia começado a decorar e a coloquei sobre a cama. Deixei a luz do abajur acesa e me voltei para ela.
"Vem.." – ele tornou a sorrir para mim.
Passamos pela cozinha, sala, banheiros, quartos.. fomos ao lado de fora onde vi que a praia estava praticamente 'aos pés' da casa.
"Sempre quis ter uma casa só minha aqui.." – disse olhando ao redor, passando pela piscina.
"Se quiser compartilhar..." – ele me abraçou por trás – "podemos dividir essa entre nós três..."
Não consegui responder. Fiquei em silencio, fechei meus olhos e respirei fundo.
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"E agora?" – ela se virou para me encarar – "estamos aqui.. beleza.. e agora?"
"Esquece os outros.." – passei meus dedos pelo seu rosto – "e desligue seu celular.. por favor.."
"Cedo ou tarde alguém nos achara..." – ela ri passando deus dedos pelo meu rosto.
"Provavelmente tarde.." – sorrio a abraçando forte – "vamos entrar... esta frio.. não quero que ela acorde e pense que foi sequestrada..."
"Poderão pensar que eu fui sequestrada.." – ela riu me seguindo.
"Pois que pensem então.." – começo a rir junto com ela – "talvez eu a tenha sequestrada mesmo.."
"E qual será o preço do resgate?"
"Resgate?" – rio olhando pra ela uma vez – "e quem disse que eu quero que te resgatem?"
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"E você pensa viver de que aqui?" – entramos na casa e fui acompanhando-o ate o quarto.
"Não sei... sempre gostei da ideia de lost..." – ele começa a tirar sua camisa e eu me escoro a parede encarando a cena. – "ou de bom.." – ele joga a camisa em cima de mim – "você sabe.."
"Ignorarei esse pensamento.." – joguei sua camisa de volta.
"Precisa de cobertor ou meu abraço já é suficiente?" – ele se deita na cama batendo no colchão para que eu me aproximasse.
"Hum.." – andei lentamente me aproximando da cama – "acho que assim já esta bom.."
Sorri para ele que me puxou pela mão e fez que eu caísse justamente entre seus braços. Ele beija meus ombros, minha cabeça e puxa o meu corpo para ainda mais junto ao seu.
"Vamos dormir.." – ele me da um ultimo beijo na nuca e eu fecho meus olhos respirando fundo.
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Hum.. acordo e acho tudo tão diferente... mas eu conhecia isso aqui. Olhos pro lados, pulo da cama e vou andando em silencio tentando encontrar meu pai.
"Papai?" – pergunto baixinho indo por todos os lados até ter a ideia de ir para o fim do corredor – "pai?" – paro na porta e fico olhando aquilo. Pisco uma vez, passo a mão nos meus olhos e dou mais um passo.
Mas... como?
Sem dizer mais nada.. sorrio e subo na cama me deitando no cantinho da cama frente a eles.
"Tadinha..." – passo minha mão sobre o seu braço. – "Acho que o papai do céu finalmente me ouviu..." – sorrio satisfeita e fecho meus olhos tentando dormir de novo.
