Perfeita
O rádio estava ligado bem alto, Gina mexia em panelas com Bernard na cozinha, dentro de um cercadinho cheio de brinquedinhos enfeitiçados para não se quebrarem e para voltarem para dentro caso o bebê os atirasse longe. Ela cantava alegremente, brincando com o menininho, que ria gostosamente das caras e bocas que a mãe fazia ao dar as costas para as panelas. Catherine e Emily logo chegariam da escola, Molly as levaria para casa. Gina pediu que a mãe buscasse as garotas porque queria dar uma arrumada decente em sua casa, e embora usasse magia, se sentia bem exausta após limpar tudo, cada cantinhozinho esquecido pelo dia-a-dia.
De repente voltou a pensar em Draco e na proposta que ele lhe fizera. Gina fora convidada a fugir com seu amante. Por mais que soubesse ser errado, sentia que seria bem mais feliz ao lado dele que ao lado de Harry. Escorou na pia da cozinha e olhou à sua volta; bem, a casa estava uma beleza. Cozinhava para as filhas, que chegariam logo da escola. Bernard brincava, feliz, dentro do cercadinho. Olhou para as próprias mãos; ora, se fosse trouxa, provavelmente elas estariam destruídas, mas sendo bruxa, podia dar faxinas diárias em sua casa que continuaria com as mãos impecáveis. Harry estava trabalhando. Trabalhava com afinco, era o que se podia chamar de 'empregado ideal'. Ganhava bem, enchia Gina de mimos. Vestidos, jóias. Ao menos uma vez por semana levava flores para ela. E ela era uma esposa dedicada. Cuidava bem do seu amado maridinho, gostava de cozinhar para ele. Pedira a mãe o livro de receitas emprestado e fez questão de copiá-lo todo à mão, porque a caligrafia de Molly era muito rebuscada e Gina temia errar alguma coisa por não entender a letra da mãe. Sabia que Harry achava-a a melhor esposa do mundo, ele vivia dizendo isso! Mas estava faltando alguma coisa.
O que seria? Não era para ela ser feliz? Tinha tudo o que uma mulher podia querer, estava casada com o homem que sempre amou. Sentiu os olhos se enchendo de lágrimas. Por que não podia ser feliz levando essa vida?
Gina achava que sabia o porquê. Sentia falta de uma pessoa. Draco. Merlin, quando foi que sonhou em se tornar a versão melhor sucedida financeiramente de sua mãe? Cuidar da casa, do marido, dos filhos. Ora, ela estudara e muito, mas não foi para aprender a copiar um livro de receitas! Ansiava por mais. Ansiava por sentir seu sangue correr em suas veias. Queria trabalhar, sair, viver. Draco a instigava. Quando estava com ele, sentia como se entrasse em sintonia com o mundo inteiro. Ele era perfeito. Era lindo, carinhoso, implicante, ciumento e mimado. Era perfeito.
Quer dizer, não era perfeito. Esse era o ponto. Harry sim era perfeito. E coisas perfeitas não têm graça. Quantas vezes não chorara de raiva por causa de Draco? Quantas vezes não se roera de ciúmes? Sabia que ele era capaz de traí-la, e a idéia de que uma outra mulher pudesse ser mais interessante que ela e o atraísse mais a desesperava. Então dava o melhor de si, se empenhava em ser cada vez melhor, tudo para mantê-lo ao seu lado. E sentia que ele fazia o mesmo. Exatamente porque Gina era casada com Harry, e Harry era perfeito. Então ele tinha que sim mais perfeito que Harry —pelo menos de acordo com o conceito dela de perfeição. E se ela enjoasse de Harry, bem ela era bonita, jovem, viva, podia arranjar o homem que desejasse.
Quando Gina deu por si, chorava copiosamente. Bernard estava de pé no cercadinho, olhando para a mãe.
—Mama, mama! —ele gritou antes de começar a chorar também.
Gina sentiu um terrível cheiro de queimado, mas ignorou. Largou a colher em cima da pia e pegou seu filho nos braços, chorando junto com ele.
Nesse momento, Molly, Emily e Cathy entraram pela lareira. Trataram logo de acalmar os ânimos da casa, cuidando da comida queimada, abaixando o volume do rádio, pegando o agitado bebê e oferecendo água para Gina.
A atenção delas só despedaçou seu coração ainda mais. Como continuar ali, vivendo nessa perfeição de vida, quando na verdade não se sentia perfeita? Mas como sair dali e abandonar sua família, que tanto a amava e amparava? Continuou chorando. Embora não entendesse os motivos da filha, Molly guiou-a até o quarto e deu para ela uma poção tranqüilizante. Só assim Gina conseguiu se acalmar. Adormeceu, um sono pesado e sem sonhos.
