Obs: O capítulo abaixo não foi betado. Por isso não se surpreendam com eventuais pequenos erros 

Capítulo Quatorze: A Donzela Destroçada

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Desorientada. Sentia-me estranhamente desorientada. Como uma formiga quando cortam as suas antenas ou um cego. E, no meio daquele breu, a dor me queimava, como ondas do mar me lambendo, indo e vindo conforme a maré. Incontroláveis e intermináveis. Mais perturbadoras, destruidoras do que eu poderia imaginar se estivesse sã.

Soltei um gemido, percebendo todas as partes de mim latejarem, pinicarem de uma maneira desagradável. Forcei os meus olhos a se abrirem no meio da torturante sensação. Parte dos meus pensamentos era obstruída por aquela invasão, que me percorria as veias como fogo em brasa.

Ainda assim, meus sentidos estavam alerta. Sensíveis ao menor acontecimento. Suscetíveis à queimação interminável em meu pescoço, braço e pulmões.

A opressão foi aumentando gradativamente, até que eu me contorci na cama.

Estava frio. Sentia-me gelada. Como se estivesse no meio da neve, sem roupas, sem proteção. Os flocos brancos me castigavam. Meus dedos não se mexiam com precisão.

Apertei o lençol ao tempo em que a tempestade interna aumentava. Não pude conter o grito. A dor me corroeu inteira e subia em ondas cada vez mais fortes dos pés à cabeça. Ouvi o barulho da porta se abrindo, mas ao mesmo tempo foi como estar numa outra estranha e diferente dimensão. Era como se meus ouvidos houvessem ficado imediatamente surdos aos movimentos alheios.

Alguém falava comigo. Todo o meu corpo suava. Minha garganta gritava por água.

Ouvindo as vozes indistinguíveis, a inconsciência me atingiu como um soco. Pude ouvir meu coração lutar para continuar batendo.

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Meu corpo todo pesava. Era algo perturbador e dilacerante, como se tudo fosse fogo em brasa.

Havia uma nuvem negra à minha frente, à minha volta, ao redor, dominante. Não podia nem mesmo me aperceber com precisão dos meus próprios pensamentos. Tudo estava estupidamente nublado, ou escuro, não sabia dizer com precisão. Parecia entorpecida, devastada. Patética, idêntica a um vegetal, imóvel.

Estava frio. Sentia os pés gelados. As mãos estavam dormentes. Meu peito não se mexia. Havia algo entre meus lábios. Era um tubo respiratório, constatei. O ar me invadia o tórax, fazendo-o inflar. Minhas pálpebras estavam tão pesadas. Não consegui abrir os olhos. Onde eu estava?... Era como se houvesse um buraco na minha memória. Onde...? As recordações recentes iam voltando aos poucos, com flashes. Tentei me mover, mas não pude.

A dor me devastava. Quis gritar, porém nada deixou a minha garganta. Minha boca sequer entreabriu.

Tudo latejava. Tão enregelado. A brisa me tocava a cara. Quis olhar à minha volta, porém de novo aquela sensação de impotência imperou. Resfoleguei. Pude ouvir pequenos bipes. Devia ser o meu medidor de batimentos cardíacos. Estava devagar então foi subindo, subindo, até apitar loucamente. Abram, olhos, abram! Em vão. Alguém me agarrou a mão, eram dedos quentes.

"Sakura." Uma voz baixa e agradável aos ouvidos me chamou. Concentrei-me para reconhecê-la. Onde eu estava? Meus pensamentos estavam em polvorosa. Precisei um instante, então percebi Sasuke. Relaxei. "Sakura, abra os olhos." Eu não posso, Sasuke-kun, eu não posso!, quis dizer, assustada com aquela insuficiência. A languidez foi me nublando a cabeça. Aquela dor tão terrível... Estava tão cansada. Precisava... Eu não sei... Sasuke-kun...

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"Sakura-chan."

Alguém estava me chamando. Alguém tocou meus cabelos. Era gostoso. Sentia-me entorpecida. Permaneci imóvel. Meu corpo não respondia às minhas ordens. Era como estar sonhando e ao mesmo tempo estar ciente do mundo ao meu redor. A dor se esvaía. Queimou e queimou até cansar. O meu braço incendiava. O time 7, a vila da Chuva. Onde eu estava?

Um sonho. Como um sonho, era aquilo, a carícia, as palavras. Um vazio no peito. Continuar dormindo, olhos preguiçosos, membros preguiçosos. Não havia silêncio. Bipe. Bipe. Bipe. Devagar, quase parando. Senti o braço e a extensão, os dedos. Queria mexê-los, mas cansada... Eu... Oh, bipe, era uma melodia de ninar. Sasuke-kun. Sasuke, onde estava? Vila da Chuva. Respirar sem precisar fazer esforço pra isso. Inválida. Ausente. A carne sentia. Ferida como... Tão confusa.

Afago. "Sakura-chan, vamos, você precisa acordar logo. Nós sentimos a sua falta." Aquela voz soava perto do meu ouvido, como se quisesse entrar lá, invadir o íntimo, ecoar na cabeça. "Já faz duas semanas. Você precisa voltar. Quero você, Sakura-chan. Dói vê-la aí, tão... fraca. Você está tão fraca."

Forcei. Meu dedo mexeu. Naruto. Mais um pouco, Naruto. Eu vou acordar. Mas só mais um pouco... alguns minutos...

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Alguma coisa estava me sufocando. Algo estava apertando o meu pescoço. Queria sair dali. Não podia respirar. Estava gelado. Onde estavam todos? Bipe, bipe, bipe, bipe, bipe. Touga. Era como se pudesse ouvir aquela risada na cabeça. '...uma boa garota, uma boa garota...' Não, não. O ar não era o bastante. Mais ar. Mais ar! Sem... sem Touga. Sorriso cínico. Afogando. Nas profundezas. Era escuro. Cítrico. Não! Meus olhos se abriram, assustados.

A luz me cegou. O cômodo estava claro. O sangue era bombeado tão forte que podia sentir o meu coração batendo furiosamente nos ouvidos. A sensação de opressão esmagadora se foi. Apenas ficou aquele desesperador, perturbador silêncio irrompido pela máquina. Um vazio que engole órgãos.

Pisquei. O teto era branco. Cheiro de hospital.

Voltei o rosto para o lado, à procura de alguém. A poltrona ao lado da cama estava desocupada. Um caderno estava sobre a almofada. Sai. Era o caderno de desenhos de Sai, que ele usava para se divertir quando estava entediado. Mas... se Sai estava ali, então onde estava?

Apurei os ouvidos. Pude ouvir vozes no corredor. Mexi a mão. Meu corpo inteiro estava dormente. Os dedos formigaram. Eram Kakashi-sensei e o resto do time lá fora. Havia mais alguém. Não conseguia. Franzi o cenho. Não conseguia identificar quem era. Talvez uma enfermeira ou médica ou, bem, não fazia diferença. Soltei um gemido. Minha boca estava seca. O tubo respiratório incomodava. Queria chamar por alguém. Não gostava de ficar sozinha.

Demorou quase cinco minutos. Então a porta abriu. Por ela passou uma moça com uma prancheta, metida num jaleco. Sorriu ao me ver. "Sakura-san, é um prazer vê-la acordada!"

Encarei-a, séria. Chequei seus traços para ter certeza de que não havia visto noutro lugar antes. Talvez aquela fosse uma imbecil ilusão. Talvez eu estivesse novamente caído nas mãos dos capangas de Hakudoushi. Um arrepio me correu a espinha. Não. Procurei afastar aqueles pensamentos. Sai estava ali. Eu lembrava ter ouvido a voz de Naruto. Não podia ser um sonho.

A mulher se aproximou, me analisando. Puxou a pálpebra e conferiu o pulso. "Você teve uma séria hemorragia no pulmão, senhorita. Nós usamos o tubo para evitar que o movimento respiratório interferisse na cicatrização. Mas agora parece tudo bem." Ia dizendo conforme anotava os dados na minha ficha. Mostrava-se satisfeita. "Provavelmente está dormente, não é? Vamos marcar um encontro com o fisioterapeuta para hoje à tarde. Que tal tirarmos o aparelho agora? Seus irmãos estão lá fora, impacientes."

Ela ainda falava sobre o meu estado hospitalar quando removeu o tubo respiratório. Inspirei profundamente, sugando bastante ar, após me livrar dele. Minhas costelas doeram.

Era como se houvesse levado uma surra. Havia aquela impotência, uma letargia nos músculos. Não era como se eu não tivesse levado uma surra, afinal. Não fosse Katsuyu, possivelmente nem mesmo estaria aqui, tal foi a forma como me destruiram. Voltei devagar a atenção para aquela que deduzi ser a minha doutora, embora os pensamentos me acometessem em fluxos intensos, distorcendo as suas palavras. "É uma sorte que não tenha ficado com sérias cicatrizes na área queimada, Sakura. Foi trazida a tempo. Conseguimos restituir o tecido com perfeição."

Queimaduras. Quis rir. A respeitável Aka era mesmo uma vaca mesmo depois de morta, não era? Se estava a caminho do inferno, por que não levar alguém junto, se garantir de que não estará só diante do Juízo Final, não é mesmo? Semi-cerrei os orbes um instante, reavivando na memória a expressão apavorada do seu rosto enquanto o sangue corria por entre seus lábios cerrados.

Não era para ser ela. Mas também sabia que se não fosse ela, então seria eu. Nunca derrubaria Touga. E ele não iria me matar. Não, o filho-da-puta não iria mesmo.

A intrusa saiu do quarto após alguns minutos. Suspirei. Queria estar em casa. Ou... apenas não queria ter saído de lá. As imagens daquele homem em minha cabeça eram tão vívidas, como se ainda estivesse ao meu lado, murmurando sacanagens. Todos os meus poros gemiam ante a conclusão de que eu havia entregado a minha parte física a um... a um, que seja. Palavras não são o bastante para definir a raiva que me abatia. Não podem defini-lo.

Voltei o rosto para os recém-chegados. Pude identificar seus passos antes mesmo de se aproximarem. Uma parte de mim, percebi, dali em diante estaria sempre em alerta, temerosa e vergonhosamente rancorosa. Ainda tinha receio de que fosse acometida por alguém que não queria tornar a ver. Mas não era uma mentira, enfim. Era Naruto com seu cabelo espetado e despenteado e aqueles olhos claros deliciosos. Era o Naruto que sorria e vinha na minha direção, sacudindo os braços. "Sakura-chan!" Havia alívio em sua voz. Abraçou-me. Era quente e agradável. Tinha um perfume gostoso. "Você não sabe como foi ficar sem você." Mas eu não queria saber.

De repente, e foi como um estrondo em minha cabeça, o seu aperto se tornou opressor. Circundava-me com força. Me feria. Soltei um gemido engasgado, lutando para afastá-lo. "Não." Minha voz saiu rouca - há tanto tempo que eu não a usava! - quando ergui os braços para tentar empurrá-lo, porém ainda estava demasiadamente fraca. Tudo doeu dentro de mim. Lacrimejei.

"Naruto, solte a Sakura agora." A voz de Sasuke era selvagem e sua ordem foi imediatamente obedecida.

Naruto ergueu a cabeça para me encarar, afrouxando os braços ao meu redor. Porém não foi o suficiente. De novo aquela agonia me subiu pela garganta. Era como se todo o tempo de repouso não houvesse servido para nada. Uma queimação intensa nos pulmões. As costelas pareciam ter se partido. "Eu feri você?" Ele perguntou, assustado. Abri a boca para responder, mas nenhum som a deixou. As lágrimas despencaram dos meus olhos sem que eu pudesse controlá-las.

Então ele começou a se desculpar, rápido e repetitivamente e mal pude distinguir os lábios que se mexiam à minha frente. O choro me nublara a visão. Meus lábios estavam secos, minha garganta estava seca. Levei uma das mãos ao tórax, ao lado esquerdo, para amainar aquela sensação. Sentia-me pesada, cansada, ferida.

"Não." Disse de novo, a voz fraca, quando Naruto tornou a fazer questão de se aproximar.

"Seu idiota!" Sai xingou em alto e bom som. Puxou-o da cama, afastando-o de mim, fazendo-o ficar de pé. "Ela ainda está se recuperando e você quer quebrá-la de novo?" Grunhiu, ignorando as desculpas do outro. "Você é mesmo um irresponsável, alarme-falso." O loiro urrou àquele novo apelido, como se houvesse sido espancado. Ambos começaram a discutir, suas palavras pareciam distantes, embora estivessem ao meu lado.

Sasuke se aproximou, sentando na beira da cama. Estendi os braços para que ele me puxasse contra si, o que aconteceu quase que imediatamente. Repousei a cabeça no peito masculino. As mãos ao meu redor eram apenas um ínfimo toque. Dedos se embrenharam em meus cabelos, acariciando-os. Aspirei o seu perfume.

Aos poucos a dor passou. As lágrimas se foram. Mal percebi quando tornei a pegar no sono.

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Meus olhos se abriram durante a madrugada. Sentia-me alerta, embora não houvesse motivos para isso. Devia ter sido fruto de um pesadelo, pensei, encarando o teto branco e límpido. Respirei fundo um instante, apreciando a sensação do ar invadindo meus pulmões. Estava segura, era a frase que me acometia a cabeça. Eles não permitiriam que eu fosse levada novamente. Por favor, que não permitam, implorei.

Movi a cabeça, voltando os orbes para o meu braço. Nele estava cravado a agulha. Mexi os dedos. Agora eles respondiam rapidamente às minhas ordens. Não foi preciso o mínimo esforço. Aquela constatação me aliviou de certo modo.

Suspirei. Foi quando olhei para o lado também. Sasuke estava acomodado perto da cama, sentado na poltrona, a cabeça para trás, apoiada no encosto. Tinha uma expressão relaxada. As pálpebras estavam fechadas. Ele raramente dormia bem, por isso dormia pouco. Devia estar cansado, considerei. Donde estava, podia estender a mão e tocá-lo. Os cotovelos estavam apoiados sobre as guardas. Rocei meu indicador sobre a sua pele morna. O contato o despertou imediatamente.

"Está tudo bem." Assegurei, dando um pequeno sorriso, ao vê-lo instantaneamente alarmado. "Está tudo bem agora, Sasuke-kun." Minha voz saía baixa. Fanha, como se não fosse minha.

Ele tirou-se do meu alcance quando se pôs de pé. Passou a mão pelos cabelos. Seus olhos negros estavam brilhantes e espertos. Deu alguns passos pelo quarto, esfregando o rosto para afastar a sonolência. "Há quanto tempo está acordada?" Questionou sem me lançar um segundo olhar. Estava voltado para a janela, mirando a escuridão da noite.

"Não muito." Encolhi os ombros. "Você pode me dar um copo d'água?" Fixei-me na tentadora jarra posicionada sobre o armário, do outro lado do cômodo. "Estou sedenta." Expliquei, ansiosa.

Soltei um gemido de satisfação quando senti o líquido me correr a garganta, aliviando aquela recém descoberta sede. Sorri ao meu bem-feitor. Toda a dor havia desaparecido. Sentia-me bem, ao que pareceu muito tempo depois da tortura. E analisei com minúcia a face perfeitamente delineada do homem à minha frente. Sasuke parecia um Adônis. Embora eu pudesse notar uma escassa penugem da barba por fazer. Ele tinha poucos pêlos.

Meu peito amoleceu com a compreensão de como eu havia sentido a sua falta. Também a de como fora estúpida e infantil depois de todos aqueles anos em busca de um ideal inalcançável. Pela primeira vez ao observá-lo, apenas deixei o moroso sentimento me invadir, sem alardear a ele o amor. Amava-o, de uma maneira completa e absoluta, mas, se ele tinha de ir, eu iria deixar que ele fosse.

Conquanto o tivesse junto a mim, para que eu pudesse mimá-lo e agradá-lo, como agradava a todos os meus rapazes (afinal, o time 7 era meu), estaria satisfeita. A idéia de tê-lo como um irmão surgiu devagar, cresceu e agora já não me assustava.

"Obrigada por estar aqui." disse por fim, quebrando o silêncio enquanto lhe estendia o copo. "Tenho medo de ficar sozinha." Continuei, embora soubesse que não era necessário. Sasuke nunca me fazia nenhuma cobrança. Por isso eu gostava de permanecer ao seu lado. "Acho que tive um pesadelo." Suspirei, tornando a deitar-me. "Amanhã eu vou estar bem." Garanti, fechando os olhos mais uma vez. "Boa noite, Sasuke-kun."

Houve um segundo de silêncio antes que ele me respondesse. "Durma bem, Sakura."

Ainda pude ouvi-lo se mexer pelo quarto antes de ser embalada num sono sem sonhos.

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Já não havia ninguém lá quando acordei. Pisquei, sentando-me. Sobre mim havia um pequeno controle, guiado por um frio até a parte trazeira da cama. Apertei o único botão existente nele, chamando as enfermeiras. Logo um médico apareceu. Vestia um jaleco e trazia óculos frouxos sobre o nariz. Encarou-me sem sorrir. Parecia ter virado a noite no plantão. Geralmente me sentia assim quando isso acontecia, terrivelmente mau-humorada.

Aproximou-se, fechando a porta atrás de si. "Bom dia." Disse-me, agarrando a prancheta pendurada ao pé da minha cama. "Você parece bem. Teve uma recaída ontem à tarde. Tivemos de ministrar alguns analgésicos para a dor." Isso explicava a minha desagradável noite de sono. "É uma sorte que tenha sobrevivido. Com ferimentos como os seus, não tínhamos muitas esperanças de sucesso. Mas aparentemente tudo agora corre bem." Explicava. "O estrago maior foi contido pelo chakra. Ainda assim os seus nervos ficaram um pouco frenéticos, o que provavelmente provocou tanto desconforto."

Nada disse. Gostaria que ele continuasse a falar, me inteirando sobre o que acontecera. "Você entrou em choque há duas semanas, pouco depois de ter sido trazida para cá. Quebrou também três costelas que perfuraram o seu pulmão esquerdo, o que provocou uma forte hemorragia. E tinha queimaduras de terceiro e segundo grau espalhadas pelo corpo." Tirou o estetoscópio da volta do pescoço, aproximando-se de mim. "Deveria agradecer a quem quer que seja o seu santo protetor, minha jovem. Agora respire fundo."

Encostou a ponta metálica e circular sobre as minhas costas, por debaixo da roupa do hospital. Me arrepiei com o gelado desconfortável.

Após ter sido feito o processo de rotina, o doutor se afastou. "Nova em folha." Garantiu. "Vou mandar trazerem o seu desjejum. E logo depois a fisioterapeuta virá ajudá-la a fazer um alongamento nos músculos das pernas."

Concordei com um pequeno maneio de cabeça. "Onde estão os meus irmãos?" perguntei, franzindo o cenho.

"Não sei dizer." Ele se dirigiu para a porta. "Mas não se preocupe. Você está segura aqui." Sorriu fraco numa despedida e desapareceu.

Menos de dez minutos depois uma das enfermeiras trouxe a bandeja. Cantarolava quando adentrou o cômodo. "Eu trouxe hoje algo leve, para não irritar o seu estômago." E pôs a bandeja sobre as minhas pernas. "Comecemos com uma maçã, depois algum cereal com fibras e mel e uma gelatina de sobremesa." Apontava para cada item conforme falava. "Divirta-se, querida. Chame-me quando acabar!"

Eram quase onze quando a fisioterapeuta se foi. Sentia os músculos das minhas pernas tesos e doloridos do esforço. Fizemos vários exercícios, que me ajudaram a recuperar o movimento perfeito, antes de encerrarmos. Ela julgou não serem necessárias mais sessões, apenas me aconselhou a evitar um desgaste excessivo - algo que não aconteceria, tendo em vista que eu não poderia sair daquele quarto. Assim, despediu-se com um aceno e prometeu voltar caso eu necessitasse de qualquer ajuda, de qualquer tipo (ela era extremamente faladeira também) ou sentisse câimbras.

Caminhei por alguns minutos, sentindo o frio do azulejo sobre os meus pés.

Quando fui até o banheiro, me assustei com a palidez mórbida da minha face. Podia enxergar com perfeição as veias verdes sobre a pele. Tinha também os lábios brancos e o cabelo bagunçado e com alguns nós. Ele já chegava perto da cintura. Segurei um pequeno chumaço, alisando-o. Gostava dele naquele tamanho. Estava formando uns pequenos cachos nas pontas.

Tomei um banho, lavando o couro cabeludo - embora o houvesse feito apenas com uma mão, por causa do soro, o qual carregava comigo. Quando saí e me sequei, vestindo novamente o traje do hospital, sentei sobre o vaso para pentear os fios, os quais dividi e fiz uma trança. Não pude prendê-la, pois não dispunha de nenhum elástico, mas a umidade a manteria bem posicionada por algumas horas. Sentia-me já bastante melhor. E um tanto quanto faminta. Mal podia esperar a hora de engolir o almoço. Cereais e gelatina não era alimentos que habitualmente me saciavam.

A janela do quarto estava aberta, deixando entrar uma brisa agradável. Fazia um dia de sol, sol tímido que despontava por detrás das nuvens.

Sentei-me sobre o peitoral para apreciar a vista. Estava no quinto andar. Lá embaixo havia a movimentação habitual de uma bela manhã - para os padrões do país, é claro. Encolhi as pernas, pousando o queixo sobre os joelhos. Era bom usufruir daquela liberdade. Acreditava que saberia fazer um melhor uso dela dali adiante.

Ouvi ruídos conhecidos se aproximando pelo corredor. Tinha os olhos já fixos na porta antes mesmo que ela se abrisse. Sabia ser Naruto. Ele tinha passadas rápidas e pesadas, muito espalhafatosas. E falava. Muito.

Quase sorri ao ver sua expressão surpresa quando me fitou. Sai, Sasuke e Kakashi-sensei o seguiam e foi este último que tomou a frente. "Como está, Sakura?" Perguntou, fechando o livro que sempre trazia consigo, enfiando-o no bolso. Apenas encolhi os ombros. Não sabia até que ponto estava bem. "É bom vê-la consciente, após todos estes dias." Soltou um suspiro, encostando-se na parede.

"É bom ver você também." Respondi, soltando um pequeno e curto riso.

"Como está se sentindo, Sakura-chan?" Naruto correu e agarrou a minha mão. Havia preocupação e carinho em sua voz. Era tão acolhedor. Ele era sempre indiscutivelmente acolhedor. De uma maneira estranha, sempre me sentia em casa junto de Naruto. Ainda que nós constantemente discutíssemos.

Uma onda de ternura me invadiu. Embora amasse todos os demais membros do meu time, fora ele quem me apoiara quando precisei. Fora ele quem me mantivera em pé quando já não tinha mais forças. Não era apenas aquele riso fácil e bobo que me encantava e também muito irritava. Era a sua exasperadora, mas indiscutível habilidade de perdoar os erros alheios. E, mais do que ninguém, eu muito freqüentemente precisava de perdão. E sempre o obtinha.

Apertei seus dedos contra os meus, sentindo os calos sobre as palmas. Meus lábios se contorceram num pequeno sorriso. Todo o meu coração estava aquecido. "Melhor agora." Disse. "Por favor, não solte a minha mão." Pedi, o que o deixou surpreso.

"Sakura-chan..." ele principiou a dizer, mas Sai o interrompeu.

"Bem, nota-se que está viva e sã, portanto já pode nos dar todas as informações a respeito de Hakudoushi." Havia muito ácido em suas palavras.

Tremi quando o ouvi. Meus olhos se arregalaram. Estava tão pálida que o verde ficava mais destacado no meu rosto. Minha expressão imediatamente colocou Naruto na defensiva. Ele se posicionou na minha frente, soltando-me. "Cala a boca, idiota." Grunhiu, fechando os punhos. "Ela acabou de acordar, seu imbecil!" Berrou.

"Está tudo bem." Disse antes que algum deles tivesse a oportunidade de responder. Forcei minha mente a afastar as lembranças ruins. O apetite imediatamente desapareceu. Voltei o rosto para a janela. "Tudo bem, Naruto. É bom que eu fale tudo e vocês tenham logo a oportunidade de encontrá-los." Não acrescentei 'destruí-los', porque tinha dúvidas de que o mesmo aconteceria. Touga transpassava os níveis de um simples ninja. Era perigoso e mortal.

"Naruto está certo." Falou Kakashi-sensei. "Nós podemos aguardar mais alguns dias. Esperamos por duas semanas."

"Não." Minha voz estava baixa. "Eu quero falar agora." Afirmei. "Senta, Naruto." Ordenei, mas na realidade era um pedido. Demorou apenas um segundo para que eu obtivesse toda a atenção. Eram raras as vezes em que eles me contestavam. E eu sabia mais do que ninguém o quanto aquilo, aquelas informações eram importantes. "Eles estão apenas em quatro agora, contando com a empregada. Sasuke-kun matou um dos membros, eu matei outro enquanto fugia." Mordi o lábio ao lembrar-me de Aka.

A imagem de Touga em minha cabeça me fez franzir o cenho com raiva. Não encarava ninguém em especial. "Um deles é forte. É muito forte. Chama Touga. Pode transformar seu corpo em uma parede sólida e intransponível. É invulnerável a ataques corporais. E também é capaz de usar o jutsu no ambiente ao redor. É rápido. Usa espadas. Tem olhos azuis e cabelos escuros."

Voltei o rosto para a janela, observando uma moça que empurrava um carrinho de bebê. "O outro é Mitche. Um loiro alto. Usa técnicas de água. E é o responsável pelo genjutsu do esconderijo. Foram eles que me levaram. Mitche é o braço direito. É controlado e impassível. Touga é temperamental. E sádico." Ela parara em frente a uma floricultura, observando e cheirando algumas das flores expostas.

"O esconderijo fica fora da Nuvem. Fica no meio da floresta. É uma construção subterrânea. É grande, mas frágil. E Hakudoushi não é Hakudoushi. Hakudoushi na realidade é Matsumoto Arashi. É o original Kage da Vila Oculta, que por algum motivo fugiu. O atual é apenas um Henge." Kakashi tinha as sobrancelhas franzidas quando me voltei para encará-lo.

"Mas por quê?" ele perguntou-se, surpreso.

"Eu era o alvo desde o princípio." Continuei, após encolher os ombros em resposta ao seu questionamento. "Ele está morrendo. Está com câncer terminal. Quer que eu o cure. Eles não vão desistir de mim enquanto Hakudoushi ainda estiver vivo, Kakashi-sensei. Ele vai voltar para me pegar." Eu falava de Touga, mas eles obviamente entenderam como se estivesse me referindo a Hakudoushi. E de alguma maneira preferia deixar aquela certeza no ar.

Naruto me abraçou antes que eu pudesse perceber. "Vai ficar tudo certo." Prometeu. "Nós a protegeremos."

Foi naquele instante que a enfermeira apareceu, trazendo o almoço. Sua boca se torceu quando viu a quantidade de visitantes que eu tinha. "Muito bem, garotões, a hora das visitas acabou. A Sakura precisa se alimentar e descansar. Ela pode ficar apenas com um acompanhante." Mirou todos, numa indagação silenciosa de quem seria o escolhido.

"Quero o Naruto." Disse, antes que pudesse me conter.

Ele me sorriu e eu sorri de volta. Kakashi-sensei anuiu. "Voltamos para vê-la antes do jantar, Sakura." Postou a mão na minha cabeça, numa carícia paternal. "Estou feliz que esteja bem."

Quando todos se foram, eu e Naruto ficamos conversando. Perto das duas da tarde, deitei, pois estava cansada. Minha garganta doía, minha cabeça também. Pedi-lhe que me contasse uma história divertida do tempo em que ficara ausente junto de Jiraya, os dedos entrelaçados nos meus, e foi assim que peguei no sono. Sentindo-me protegida. Satisfeita. Principalmente satisfeita.

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Já estava escuro quando acordei. Naruto estava dormindo também, esparramado na poltrona e com a boca aberta. Roncava alto. Ri ao vê-lo. Estava tão acostumada àquele som que já não mais me incomodava. Provavelmente havia me ajudado a dormir melhor, pois me sentia muito bem.

A janela estava fechada e também com as cortinas cerradas, sinal de alguém viera checar se estávamos nos virando.

Toda a minha sonolência havia se esvaído. Mirei o teto, impaciente. Não queria despertar o loiro ao meu lado, mas me sentia inquieta. Não havia nada que eu pudesse fazer para passar o tempo. Não tinha noção das horas. Não podia ver a lua dali. Se desse sorte, e eu esperava que desse após todos aqueles dias num azar infindável, logo o resto do time chegaria e eu teria algum tipo de distração pelas próximas horas, ou até quando durasse o horário das visitas.

Passei a mão pelo cabelo, sentindo-o ainda úmido. Desfiz a trança, desembaraçando-o com os dedos. Os fios permaneceram ondulados, diferente do liso habitual, e os joguei sobre os ombros, tornando a me jogar sobre o travesseiro.

Percebi-me esfomeada. As parcas refeições não estavam sendo o bastante.

Queria também, além de um suculento bife mal-passado, tirar o soro. Não compreendia porque não o haviam feito ainda. Já estava bem e aparentemente estável, o que não era nenhuma surpresa após todo aquele tempo. Não fazia idéia de por quanto tempo mais me segurariam naquele quarto.

Passou-se quase meia hora - ou pelo menos eu tive essa impressão - antes de a porta do quarto abrir-se. Por ela passaram apenas Kakashi-sensei e Sasuke. Quis perguntar onde estava Sai, mas a pergunta simplesmente morreu na minha garganta. Sorri ao vê-los. Havia sentido saudades. E já não agüentava mais aquele silêncio sorumbático da minha parte. O cômodo estava muito bem sonorizado em se tratando dos ruídos naturais de Naruto, obrigada.

"Boa noite." Cumprimentou o sensei, animadamente. "Sasuke lhe trouxe algumas roupas e seus acessórios pessoais."

"Aqui." Ele se aproximou, com seus olhos negros imperturbáveis, largando a mochila ao lado da minha cama. Era uma sorte que eu fosse organizada, ou ninguém jamais acharia as minhas coisas espalhadas pela casa. "É bom que você a veja. Se faltar algo, diga-me que trago amanhã pela manhã." Falou, passando-me então uma sacola que trazia na outra mão. "Isso foi idéia do Kakashi." Explicou mediante meu semblante de dúvida.

No geral, aquele Uchiha só se explicava quando era benéfico e fazia algo de bom sem que lhe houvessem pedido. Aí, precisava dar os louros a algum outro alguém, para que pudesse manter a sua pose impassível de habitualmente, sem precisar se preocupar em receber desconfortáveis agradecimentos. Ele nunca soube lidar com gratidão.

Por isso, nada disse a respeito da sua última frase. Apenas fixei minha atenção no recém entregue presente e o abri. Ali havia revistas de moda, de futilidades, de culinária e de alguns jogos, como cruzadas nível difícil, as quais eu adorava desde criança.

"Quem as escolheu foi Sasuke." Dedurou Kakashi-sensei enquanto eu as observava. Sorri-lhe, virando-me para Sasuke também.

"Obrigada." Agradeci, balançando a cabeça. "Estava tão entediada!" Fiz uma pequena careta à lembrança dos meus momentos de ócio, pegando então o almanaque de cruzadas. "São as minhas preferidas." Garanti não apenas para tentar ser agradável, mas porque era realmente verdade. Pelo fato de ser apaixonada por Sasuke, as pessoas tinham o hábito de achar que eu sempre concordava com as suas escolhas apenas para agradá-lo. O que não era verdade. Mesmo. "Como você sabia?" Perguntei, passando as páginas com rapidez. "Achei que elas nem existissem mais."

"Eu não sabia." Respondeu ele simplesmente.

"É Sasuke quem vai ficar com você esta noite." Anunciou o sensei. "Ele está precisando de um pouco de descanso." E pousou a mão sobre o ombro do dito cujo, apertando-a um pouco, como se minando-lhe qualquer chance de expor alguma negativa.

Analisei então, finalmente com minúcia, a expressão de Sasuke. De fato, não me parecia bem. Tinha olheiras e havia um cansaço escondido por detrás da fleuma da sua expressão. Após todo aquele tempo, me apercebia com facilidade dos pequenos segredos que os integrantes do time 7 escondiam consigo. Era um dom feminino, esse de ser observadora e capaz de memorizar pequenas nuances. De modo que, mesmo que se esforçasse demasiado, nenhum deles conseguia esconder quando se sentia desagradado.

Confirmei num movimento pequeno. E não fiz nenhuma pergunta. Para obter respostas, não questionar era um requisito básico. Não havia muitos métodos eficientes para lidar com a personalidade Uchiha. A melhor e mais eficaz escolha era a de deixá-lo permanecer na sua redoma e não perturbá-lo.

Eu e Kakashi-sensei conversamos banalidades por alguns momentos. A respeito de como eu estava e sobre o clima e da alimentação do hospital.

Naruto ainda roncava, desapercebido do nosso diálogo. Havia empurrado as revistas de volta para a sacola e após certo tempo puxei a mochila para o colo para checar os itens trazidos. Era meus objetos de higiene pessoal, escovas e brincos e maquilagem, uma muda de roupas para quando recebesse alta e roupas íntimas. Forcei minhas bochechas a não corarem quando as vi. Não me agradava de todo que alguém que não fosse eu ou minha mãe ou amigas houvesse posto as mãos nas minhas roupas íntimas.

Apenas agradeci novamente, contudo. Sentiria-me melhor usando as minhas próprias calcinhas. Quero dizer, eu nem sabia de onde havia vindo aquela a qual usava agora. E a tira de náilon machucava. Sou muito eletiva com vestes de baixo, afinal são com elas que vou passar todo o dia. Precisam ser confortáveis. É uma condição concisa.

Tinha os olhos fitos no zíper quando me recordei de algo que decidira fazer durante a tarde. "Kakashi-sensei, eu posso fazer um mapa do local e da localização do esconderijo de Hakudoushi."

"Isso é bom." Ele disse imediatamente, sorrindo. "Estava pensando em pedir para que o fizesse, mas decidimos deixar tudo a seu tempo. Você passou por uma situação traumática e não é saudável antecipar os acontecimentos." Continuou, aproximando-se da minha cama. "Gostaria também de mais detalhes. Detalhes específicos. Você sempre foi boa observadora e esperta o bastante para se aperceber de tudo e nos informar quando pudesse fazê-lo."

Concordei devagar. Bloqueei os pensamentos referentes a Touga da minha mente. Maquinalmente, falei o que me veio à memória. A respeito da construção subterrânea, como adentrá-la, como abandoná-la, sobre a área de genjutsu em torno do perímetro habitado e a respeito do vilarejo, onde encontrei a minha benfeitora.

Omiti a minha luta com Aka. Ainda podia lembrar com perfeição a sua expressão em choque, atemorizada diante da morte.

Sabia que alguns pormenores me escapavam. Sentia-me um pouco desorientada ao que dizia respeito ao dia em que fugi. Os ferimentos e a convulsão deixavam as minúcias nubladas.

Embora não fosse uma boa desenhista, fiz um esboço técnico dos cômodos do refúgio de Hakudoushi. Sasuke e Kakashi-sensei eram exigentes no que dizia respeito a pequenas coisas, como janelas, fechaduras, passagens secretas, o tipo de armas que usavam e demais detalhes técnicos. Necessitei forçar minha cabeça ao máximo, extraindo dela tudo o que foi possível.

"Oh." Fiz de repente, quando me recordei de uma informação importante. Voltei-me para eles. "Havia alguém. Ou alguma coisa. Foi por isso que pude escapar. Touga deixou a guarda aberta."

"Mais alguém sabe a respeito de Hakudoushi?" perguntou Sasuke a Kakashi-sensei.

"Não deveria." Ele respondeu, uma sobrancelha arqueada. "Matsumoto nos garantiu que o assunto era sigilo absoluto. E isso não me surpreende, uma vez que os anciões e o falso Kage guardam um segredo tão funesto. Isso não está sob a nossa jurisdição. São problemas internos do país."

"Então por que ainda estamos aqui?" indaguei, mordiscando o lábio.

Queria ir para casa. Achava que aquele era um desejo natural de alguém que passara por tantas situações desagradáveis também. Não é como se houvessem muitas boas recordações daquele país gelado e chuvoso, além da única amizade que fiz e do episódio vergonhoso do meu semi-beijo com Raito, que mesmo nas minhas memórias continuava perturbador, delicioso e com um maravilhoso sorriso.

Mas o meu desespero se dava principalmente ao medo de que Touga reaparecesse. Dali adiante, aquele homem seria um fantasma na minha vida. Tinha medo do poder que possuía sobre mim. A maneira como me despira, beijara e como eu arquejara, ansiosa por mais, brilhavam em minha mente como um alarme que insinuava perigo.

Ao mesmo tempo em que a sua presença me enojava e assustava, algo, uma pequena parte de mim, estremecia diante do magnetismo da sua personalidade. O cheiro, aquele aroma almíscar, misto de cigarro e colônia, parecia impregnado sob as minhas narinas. Se fungasse, estava certa de que poderia senti-lo na cabeça. E meu corpo todo reagia ao perfume, à barba rala, às palavras chulas. Não era algo do qual eu me orgulhasse. Eu por inteiro vibrei e ansiei pelo seu toque.

Aquela exasperação às vezes me atingia como um soco.

Era como ser constantemente humilhada pelas minhas próprias lembranças.

"Não vamos embora até que o peguemos." A voz de Sasuke estava baixa e rouca e me despertou daqueles terríveis devaneios. Seus orbes escuros se encontravam nuviosos, como se os buracos negros que naturalmente eram estivessem prontos para engolir uma galáxia inteira, sem dó.

Kakashi-sensei o observava com atenção antes de se voltar para mim, mirando a minha surpresa com credulidade. "O que ele quer dizer" iniciou a explicar, bastante tranqüilo apesar da óbvia fúria na expressão de Sasuke. "é que, ainda assim, fomos pagos para isso. Não iremos eliminar Hakudoushi, mas apenas capturá-lo." Embora nós soubéssemos que aquilo não faria diferença, no final. Só nos absteria da culpa de tê-lo matado.

"Quanto aos seus seguidores," e continuou após algum tempo, como se houvesse dado um segundo de silêncio à morbidade dos meus pensamentos. "os deixarei a encargo do resto do time 7." Fixou-se nos dois únicos integrantes ali presentes, um de cada vez. "Não sei se os garotos poderão perdoá-los, depois do que fizeram a você. E pessoalmente eu também não os perdoarei."

De algum modo, aquelas palavras deveriam ter me confortado. Mas obtiveram o efeito contrário.

Prendi o ar ao pensar em algum deles sendo ferido. Não era o caso de aumentar as habilidades de Touga, mas a sua impenetrabilidade física poderia derrubá-los. Não queria nenhuma perseguição ou problema além do óbvio e necessário. Já tinha tido ali momentos ruins o bastante para permitir que todo o resto do time se preocupasse com uma desforra.

O trabalho era apenas capturar Hakudoushi. Ponto. Todo o resto devia ser ignorado. Precisava ser ignorado. Só assim, partindo, abandonando aquele pedaço de recordações para trás, poderia encontrar um pouco de serenidade, uma paz ou acordo com a parte suja de mim que desejava e ansiava por lábios quentes e experientes.

"Não." Enrijeci o queixo, dura. "Sem vinganças." Encarei-os demoradamente para que se assegurassem das minhas palavras, para que as absorvessem em seu devido tempo. Pela primeira vez desde que acordei, me sentia segura de algo. Não os queria perseguindo os meus fantasmas. "No que depender de mim, não haverá mais nenhuma vingança na sua vida, Uchiha Sasuke." As palavras escorregaram ainda que eu não tivesse consciência de que as havia pensado.

Então percebi que parte delas eram uma desculpa. Uma desculpa para não necessitar dar explicações a respeito da minha escolha aparentemente descabida. E a outra parte delas eram verdadeiras. Não poderia permitir que ele se fosse novamente.

"E é bom que se acostume com isso." Mantive os lábios apertados numa linha reta.

Ele me franziu o cenho, parecendo contrariado. Toda a irritação impossível de ser contida explodiu no seu rosto naturalmente impassível.

"Você é absurda!" Rugiu.

"Absurdo é você." Afrontei-o com raiva.

Surpreendi-me pela minha própria rudeza.

Nós nunca, jamais havíamos discutido. Quando ele contestava, eu abaixava a cabeça e evitava as discussões. Mesmo que não concordasse. Nossa relação - se aquilo poderia ser considerado uma relação - se resumia a monossilábicas conversas em que um de nós nunca precisava ceder. E esse alguém jamais era eu.

Sasuke virou o rosto para não me fitar. Era um gesto maquinal para quando achava que estava escutando algo que não valesse realmente a pena ser escutado. Aquele movimento me enfureceu, pois eu não era apenas uma boba apaixonada. Preocupava-me com ele. "E infantil!" Gritei, o que acordou Naruto e o fez pular da poltrona. "É bom que eu esteja mesmo sendo clara," Ao instante em que me vi rejeitada, me pus na defensiva. "pois se tiver que perseguir você de novo, garoto, eu simplesmente não vou fazê-lo." Sibilei, ácida.

Houve um segundo de silêncio entre nós, um silêncio incrédulo possivelmente de todas as partes - rompido apenas pela pergunta do recém-desperto e perdido Uzumaki, pergunta essa que foi ignorada.

"Eu nunca pedi que o fizesse." Sasuke disse então. Quando postou os seus olhos sobre mim, havia frieza dentro deles.

Frieza essa capaz de congelar mesmo o sol. Doeu. Muito.

Minhas faces coraram de fúria, embora a sua dura frase houvesse me dado vontade de cair às lágrimas. Nos últimos anos, a ira era uma companheira natural. Minhas glândulas lacrimais tinham suas atividades cortadas pela adrenalina que corria em excesso pelas minhas veias, me mantendo sempre alerta.

"Devia agradecer, seu imbecil!" Foi um reflexo. Os dedos se fecharam em torno do papel sobre o meu colo e, quase sem perceber, lancei-o na sua direção. Joguei-lhe uma revista. Sasuke desviou com facilidade, embora estivéssemos perto um do outro, e ela se espatifou contra a parede. Meu queixo tremeu. "Por ter alguém que se preocupe com você!" Atirei também as outras que estavam a mão conforme falava. "Por ter alguém que passe a sua roupa, prepare a sua comida e ainda lave as suas meias!" O almanaque de cruzadas o acertou em cheio. "Mal-agradecido, idiota, estúpido monossilábico!"

Meus gritos roucos devem ter atraído a enfermeira, pois ela abriu a porta, uma expressão nada boa na face.

"Vocês estão perturbando a minha paciente!" disse, em tom raivoso. "Irei proibir as visitas! Sakura não pode se exaltar!"

"Pois proíba a entrada do Senhor Eu Obtenho Felicidade Sozinho!" Apontei, meus lábios apertados para evitar que trepidassem com o nervoso, a dor e aquela mescla de fúria interminável e incandescente. "Pois ele pode muito bem fazer isso no inferno!" Senti-me tão infantil que não disse mais nada e a quietude reinou até que ambos os visitantes foram expulsos.

Quando Kakashi-sensei e Sasuke enfim se foram e Naruto ficou, eu simplesmente comecei a chorar.

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N/A: FINALMENTE, SALVE, SALVE, ALELUIA. I'm back. E com muito drama, amadurecimento e novas evoluções nos relacionamentos da e para com a Sakura. Sim, me odeiem, desejem a minha morte, façam bonecos de vodu, eu mereço. Mas estou terrivelmente ocupada com a faculdade. É só o que posso dizer como justificativa. E ainda tenho uma prova terrível na terça. Mas voltei no pique pra A Cor. É sério. Escrevi todo o capítulo em dois dias. Adorei.

PRETENDO continuar essa semana com a fic, mas não garanto. Tenho um trabalho final de uma cadeira chata e mais a - maldita seja! - prova de língua e por aí vai a lista.

Mas ainda assim quero reviews. Muitas reviews pra me incentivar. Ah, eu sou tão má! .-.

Adorei os comentários. Obrigada por continuarem aqui. Espero que tenham curtido o capítulo. No próximo vai rolar um SasuSaku. E (ainda não tenho certeza) vai ser pra começar algo de uma vez ou pra terminar definitivamente o que nunca começou. Mas vai ter Sai ainda, babys. Relax.

GOGOGOGOGO. Revisem!