O alívio foi instantâneo quando Edward finalmente recebeu alta. Eu fui com ele para sua casa; éramos os únicos por lá. Esme pediu que eu o acomodasse em seu quarto – por achar que ele ficaria mais confortável numa cama de casal.
- Não vou sair do seu lado. Se quiser alguma coisa é só reclamar. – Sorri para ele.
Edward deu os ombros, arrumando as costas no travesseiro.
- Não preciso de repouso.
- Eu acho que precisa, sim.
Ergui os olhos para seu rosto enquanto prendia as pontas do edredom no colchão. Estava tão abatido... Suspirei, deixando o sorriso desaparecer enquanto abaixava os olhos novamente para o que eu fazia.
- Eu quero tocar.
- O quê? – Ergui a cabeça para ele novamente, parando as mãos próximas a seus pés.
- Meu piano... Na sala.
- Ah! – Exclamei, sentindo minhas bochechas quentes. Ele riu ao me ver corada. Contornei a cama para chegar até a pequena mala, e ele estava rindo mais ainda. Mexi no compartimento no canto, procurando o pequeno frasco de remédios.
- É sério. – Ele disse quando os risos cessaram.
- Eu sei que é. Mas não vai sair da cama.
Ouvi ele bufar enquanto eu pegava um comprimido e lhe entregava. Edward engoliu sem precisar tomar nenhum líquido por cima, e me olhou em seguida.
- Vai repousar. – Completei. – Está doente!
- Eu sou doente.
Parei, olhando em seus olhos sérios por longos segundos.
- Eu sempre... Vivi muito bem sem cuidados extras.
- Não quer que eu cuide de você? – Ergui uma sobrancelha.
- Não dessa maneira.
- Hm. – Resmunguei rapidamente, me afastando para colocar o remédio em cima da cômoda. – Vou preparar seu almoço. – Mudei de assunto, um pouco irritada, jogando o controle da TV (que ele pegou no ar). Ingrato.A cozinha dos Cullen era enorme. Esme sempre gostou de cozinhar. Era uma pena que nunca frequentou a faculdade. O lugar era todo branco e preto. Talvez alguns detalhes em vermelho, e alguns pratos e copos coloridos. Mas, fora isso, eu me sentia num filme antigo. Coloquei o casaco que usava no balcão, para que não me atrapalhasse enquanto cozinhava, e olhei pela janela. Várias árvores estavam perdendo suas folhas, fazia muito frio – como sempre. Eu sabia o que Edward gostaria de comer, e preparei com um cuidado exagerado.
- Espero que esteja com muita fome. – Disse, desligando o fogo enquanto ele sentava em frente a mesa de jantar, suspirando. Parecia cansado. Eu não o faria comer na cama; ele pelo visto gostava de se sentir ágil. E tinha razão.
Virei, colocando a panela no centro da mesa, em cima da esteira. Edward esticou o pescoço, franzindo a testa ao tentar descobrir o que era aquilo.
- Fondue de queijo. – Respondi antes que perguntasse. – Minha especialidade. Lembra?
Eu quase pude ver nosso jantar, meses atrás, quando ainda estávamos nos conhecendo.
- Hm. Parece bom.
- É incrível!
Sentei ao lado dele, pegando o pacote com pães de forma. Ele riu, fatigado. Seus olhos pareciam pesados. Peguei um pão e entreguei a ele, que não demorou para mergulhar no caldo. Observei enquanto mastigava e, após engolir, ergueu as sobrancelhas.
- Tem vários tipos de queijo... – Sorri, orgulhosa. – Sei que adora mussarela, então caprichei nela. E, se gostar muito, mais tarde faço um de chocolate com frutas.
Ele assentiu, mas acho que não estava realmente prestando atenção. Já pegara a segunda fatia de pão. Eu ri baixinho, colocando minha cadeira ao seu lado. Ergui um braço e o coloquei em volta de seus ombros, acariciando seu cabelo enquanto ele mastigava.
Fiquei em silêncio, observando seu rosto tranqüilo. Eu podia ver o quão aliviado ele estava por ter voltado para casa (comigo). Eu gostava de cuidar dele. Queria que aquela expressão abatida fosse embora logo, e ele pudesse voltar a brigar com todos no restaurante.
- Sempre achei estranha essa sua mania de não beber nada com a comida.
- Não é mania. É o que todos deveriam fazer.
- Tem certeza? Esme deixou uma jarra de...
- Estou bem, Bella.
Franzi a testa, e em seguida assenti, afastando as mãos dele com cuidado. Edward varreu o ambiente com os olhos por breves segundos, e pegou uma terceira fatia.
- Acho que não vai sobrar nada pra mim. – Disse com uma risada.
Ele parou.
- Ah, não! – Me apressei em dizer, antes que ele fizesse algo. – Não estou com fome. Comi na lanchonete do hospital, antes de virmos para cá.
Ele continuou imóvel.
- Coma. – Pedi, carinhosa.
Ele pareceu bufar, mas obedeceu.
- Tem certeza de que não quer mais nada? – Perguntei.
- Estou perfeitamente saciado. – Disse após engolir.
- E... Que tal algo de sobremesa?
- Bella, eu não...
- Você tem alguma restrição alimentar? – Mordi o lábio inferior, ficando em pé. – Carlisle não me disse nada sobre isso. Mas acho que não tem problema, não é?
- Bella.
Ele ficou em pé (com certa dificuldade, por conta de sua fraqueza) e me olhou, sério.
- Qual é o problema? – Franzi a testa, apoiando a cintura no balcão, quase sentando nele.
- Qual é? – Ele repetiu.
Fiquei inquieta por um momento, piscando várias vezes como fazia quando não sabia para onde olhar. Ele conhecia essa mania, e suspirou ao ver que seu tom de voz me incomodou.
- Eu... Odeio ser paparicado. Principalmente quando se trata da minha doença.
- Paparicado?
Ele fechou os olhos e, após respirar fundo, voltou a me olhar. Seus olhos estavam profundos nos meus. Profundos? Estavam quase em chamas.
- A ultima coisa de que preciso é que tenha pena de mim.
Eu gostaria de ter tido algo para falar naquele momento. Mas não houve nada. Nem mesmo nossa respiração. Talvez meu coração batendo rápido demais tivesse emitido algum som, mas foi só impressão.
- Eu não tenho... Pena... – Hesitei. – De você. Eu só...
- Ah, você não tem? – De repente, sua expressão era de pura mágoa. – Você é tão igual a todas as outras pessoas! Bella, somos nós. Nós. Brigamos o tempo todo, é isso que fazemos. E você não ergueu a voz comigo por nada desde que Alice te contou. Você me toca como se eu fosse de vidro. E não me beijou mais, o que, convenhamos, você adora fazer.
Ele praticamente cuspiu as palavras enquanto eu me transformava em uma estatua, deixando a blusa preta me camuflar perto dos armários de Esme. Um resquício de diversão passou por sua voz na ultima frase, mas logo sumiu. Eu nunca o vira tão chateado.
- Eu não... Edward! – Em alguns segundos eu estava próxima a ele, tocando seu rosto com carinho. – Eu quero cuidar de você, é só isso.
- É só isso? – Ele abaixou minhas mãos, e meu coração ameaçou parar. Mal conseguiu ter força para puxar meus pulsos. Eu pensei que poderia ir ao chão, a qualquer momento.
- É claro que é. Eu não tenho pena, nojo, ou qualquer coisa de você. Se você quer que voltemos a brigar, então tudo bem!
- Você é tão baixa. – Ele me fuzilou com os olhos de esmeralda. – Ótimo, então! Eu vou subir, me deitar, e deixar você brincar de enfermeira por algumas horas.
- Brincar? – Ergui as sobrancelhas. Ele se afastou de mim em direção as escadas, e eu o segui. Para cada passo que dava, eu precisava de dois. – Por que te incomoda tanto que as pessoas te amem e se importem com você?
- Me amem? – Ele parou no terceiro degrau, virando para mim. – O que você chama de amor, eu chamo de piedade. Você não sabe como é! Não sabe como é ter vivido dois anos tendo que agüentar as pessoas te olhando como... Alguma coisa feita de cristal. Todo mundo sempre querendo cuidar de mim! Eu já cheguei a passar dias naquele hospital, convivendo com várias pessoas. E aquelas que não tem a doença pensam que meu mundo gira em torno disso, que eu não tenho interesses ou planos pro meu futuro. E elas estão certas! Por que teria? Sou só mais um jovem descuidado, com um pé na cova. Eu não mereço viver. Não é assim que todos me vêem? Não é isso que pensou de mim? Que eu sou um idiota, que ignoro tudo o que falam sobre preservativos, que me acho mais esperto que todo mundo?
Quando parou ele estava, literalmente, gritando. Uma de suas mãos estava fechada em um punho, e eu podia ver as veias saltadas em seu braço. Ali no meio ainda era visível o lugar onde haviam lhe aplicado o soro. Eu esperei que seu corpo relaxasse para responder, cautelosamente, ficando em pé no mesmo degrau que ele. Ainda assim, estava muito mais baixa, e fiquei na ponta dos pés para acariciar seu rosto e encarar seus olhos.
- Você não é descuidado. Sei que não. – Disse, mais baixo do que pretendia. – As pessoas sempre pensam que essas coisas nunca irão acontecer com elas. E eu sei que, se aconteceu com você, não foi por irresponsabilidade. Você é a pessoa mais maníaca por higiene que eu conheço. – Eu ri, tentando fazer com que me acompanhasse, mas ele permaneceu sério. – E... Eu quero cuidar de você, para que possamos ter um futuro. Juntos. Você precisa de mim, precisa de todos nós. Se não lhe ajudarmos, está perdido. Não se sinta menosprezado. Deveria se sentir importante. Se não fosse, eu não estaria aqui, cuidando de você.
Seus ombros foram para baixo, lentamente, enquanto ele suspirava. Colei nossos lábios por longos segundos e, após um rápido beijo, joguei meus braços em torno de seu pescoço para um abraço (o mais forte que consegui).
- Você sempre foi você. Sempre forte, em todos os sentidos, e eu estou aqui para que volte a ser assim. Você não pode desistir. Não agora. Compreende isso?
De repente, a pouca força que ele reuniu para me abraçar foi desabando. Quando percebi, estávamos sentados – eu um degrau acima do dele. Edward abaixou a cabeça, apoiando o rosto em meu peito, e eu o abracei novamente, acariciando seu cabelo. Senti quando lágrimas desceram silenciosamente por seu rosto e molharam minha blusa.
"Eu quero que você morra!" As palavras, saídas de minha própria boca, voltaram a atormentar minha mente. Fechei os olhos com força, apertando o cabelo de Edward entre meus dedos enquanto deixava lágrimas escaparem, desta vez, de meus olhos. Ele finalmente me olhou. Ficou um pouco mais pra cima, passando um dedo suavemente por meu rosto.
- Amo você. – Consegui colocar para fora. Mais lágrimas brotaram de seus olhos hipnotizantes, e ele soluçou. Em seguida abaixou os olhos, um pouco envergonhado por estar chorando logo após eu chamá-lo de "forte". Ergui a cabeça, dando um beijo demorado em sua testa enquanto ele voltava a repousar o rosto em meus seios.
- Não me deixe. – Ouvi a voz grave pedir.
Mexi a cabeça, negando, enquanto arrumava nossos corpos unidos próximos ao corrimão da escada.
- Nunca.
N.A.: Olá mais uma vez a todos. Já vi que o capítulo passado fez sucesso, todos amam o Emmett não tem jeito né¿ Só ele pra aprontar essas coisas, ai ai. Obrigada a todos que comentaram e desculpas pelo atraso na postagem mas é que carnaval...ja viu né¿ Fui viajar e eu e a Carol nem conseguimos nos falar direito mas pelo menos ela não foi viajar e teve ideias pra esse capítulo e bom...espero que tenham gostado também, normal que o Ed fique um pouco paranoico né¿ Ele só quer ter certeza de que tudo o que a Bella está fazendo por ele é por amor e não por pena, ter uma pessoa do seu lado por pena deve ser a pior coisa do mundo não é¿ Mas que bom que a gente tem a certeza de que a Bella ama mesmo ele, e ela ainda vai ter a chance de provar isso muitas e muitas outras vezes.
E só pra não perder o costume hoje irei responder alguns comentários xD
Kahh-c2: Ah...sabe que eu também achei essa parte fofa¿ E acabei imaginando eles brincando quando crianças, se bem que o Emmett ainda é uma né¿ AHUHUAHUAHUA. Obrigada *-*, espero que tenha gostado desse capítulo também.
Ana Krol: Nossa, nem me fala em chiva, sofri isso nos últimos dias também, não tinha sinal pra nada aqui em casa. Que bom que gostou, sim...esse Emmett é mais criança que todas aquelas juntas xD. Beijos, espero que a espera tenha valido a pena ;)
Ginny M. W. Potter: Oba...leitora nova *-*, obrigada por comentar linda ^^. AHUHAUHUAHUAHUAHUAHU, EXATO, só ele mesmo pra aprontar uma dessas né¿ Espero que esteja realmente curtindo a fic e que continue acompanhando. Beijos e muito obrigada.
Bom gente, por hoje é só, espero que todos tenham tido um ótimo carnaval. Beijos e até o próximo capítulo ;)
