N/A: No meio do texto há uma parte em itálico, referente a uma cena do passado. Aviso apenas para orientação. RSS. Boa leitura!

13- Le Sentiment

França – 1 ano depois.

Paris.

O sol acabara de se por e a noite fria do inverno se anunciava. O vento forte transpassava a janela aberta, agitando os longos fios de um loiro claro do homem debruçado sobre esta, que observava a vista.

As ruas estavam movimentadas como era de se esperar de uma noite de sábado. Pessoas em programas familiares, jovens em busca de diversão... Absolutamente nada fora do normal. Nada de diferente era anunciado nos jornais ou programas televisivos, nenhuma morte misteriosa ou desaparecimentos em série.

- O que foi, Afrodite?

O loiro voltou o olhar para o moreno que lhe observava da sala. Pele levemente bronzeada e cabelos escuros arrepiados e olhos de um azul profundo. Um vampiro secular que conhecera há quatro meses, dono de uma beleza selvagem do clã Ventrue, também conhecido como Máscara da Morte, por ser impiedoso com seus inimigos, fossem eles vampiros, humanos ou lobisomens.

- Não é nada, Angelo. Apenas... Tenho achado tudo muito calmo. – Voltou sua atenção para as ruas.

- Deveria ser diferente? – estreitou os olhos, observando-o e jogando o jornal sobre a mesa de centro.

- Claro que não! É bom que esteja tudo em ordem, mas não adianta fingir que uma guerra não está prestes a explodir. Desde que o humano nos descobriu, creio que seja questão de tempo. – justificou, disfarçando bem o nervosismo.

Angelo por vezes parecia apenas estar por perto para vigiá-lo, em outros momentos, parecia realmente interessado em Afrodite, o que deixava o loiro sempre em alerta.

- Sim, isso não é bom. Ainda mais que não sabemos onde Camus foi. Só não entendo porque deixou Minos no comando em sua ausência. – aproximou-se do outro, igualmente observando a rua.

- O que tem esse Minos? – questionou, observando-o. Embora não fosse jovem, também não era dos vampiros mais antigos. Ainda que conhecesse bem os vampiros mais perigosos do Brujah, clã o qual pertencera, não conhecia muito dos vampiros dos demais clãs, apenas seus líderes.

Sabia que a maioria dos membros do clã Ventrue respeitava e admirava o governo de Camus, bem como o aceitaram relativamente bem como líder por ter sido braço direito de Shion e ter adquirido grande poder em pouco tempo. Porém, conhecia poucos integrantes do clã, praticamente os que preferiam residir em Paris, e em sua maioria os mais jovens.

- Um dos vampiros mais antigos. Com a morte de Shion ele seria naturalmente o líder dos Ventrue se não fosse Camus derrotá-lo. – Angelo explicou, lembrando a confusão que gerou a morte do rei.

Os Ventrue perderam seu líder e Minos, sendo o mais antigo, reclamou o posto, e Camus, por tornar-se poderoso e próximo de Shion, achou-se igualmente no direito. Segundo as antigas leis: "Com a perda do líder de um clã, outro deve ser nomeado, sendo o mais poderoso e apto a defender os membros de seu clã." Algo muito vago e que deu margem aos dois almejarem o posto. Minos propôs um duelo onde o vencedor levaria o título e Camus o derrotou. Diferentemente do que se esperava, com a derrota Minos passou a respeitá-lo, bem como os vampiros que ainda não o aceitavam. E, embora as leis antigas igualmente exigissem um rei para estabelecer a ordem entre os clãs e manter o equilíbrio, logo observaram que não seria possível esta escolha sem que muitos fossem destruídos. Assim foi feito a divisão dos territórios pela Europa, onde estavam habituados a habitar, e determinado que as fronteiras seriam respeitadas, até que pudessem determinar o rei.

- Creio que Shion desejava que o ruivo assumisse de qualquer forma. – Afrodite refletiu em voz alta.

- Dizem que até deu seu sangue para ele. Bem, isso seria um boato na época, mas justificaria o poder de Camus. – relembrava os velhos tempos.

- Talvez Camus realmente não tenha sido sensato em sua escolha. Minos pode ser o mais antigo, mas seria tão fiel a ele? Ou teria guardado rancor? – observava o moreno. – Por algumas histórias que me contou, você é muito fiel. Poderia ter sido você o escolhido.

- Nosso clã apresenta muitos dos vampiros mais antigos e Minos sabe ser muito influente. E eu não seria uma boa escolha. – sorriu sarcástico – Gosto desta liberdade e Camus permite que eu me divirta eliminando invasores ou os mais novos problemáticos. – Afrodite pôde ver um brilho maligno em seus olhos, como se ele recordasse de algo sádico e prazeroso. – Bem, eu estou sedento. Você não vem? – afastou-se, vestindo seu casaco e luvas. Não que o frio lhe incomodasse, mas precisava parecer normal aos olhos dos humanos. E como ordenado por Minos que deveriam evitar mortes desnecessárias para não atrair atenção, teria de buscar um pouco de sangue de várias presas e isso levaria algum tempo.

Afrodite sorriu e fez o mesmo, acompanhando-o. Gostava da companhia de Angelo e suspeitava que estivesse se interessando muito mais do que deveria. Há quatro meses aconteceu de escolherem a mesma presa, uma mulher bonita. O que começou com um conflito perigoso terminou nesta amizade onde passavam quase todas as noites juntos. Porem, o loiro tinha receito, sabia estar envolto por seres perigosos.

oOoOoOoOoOoOo

Milo suspirou. Permanecia deitado e mirando o teto, com um cobertor sobre o corpo e tendo calafrios pela febre alta que apresentava.

Desde a conversa que teve há um ano com o ruivo, em algumas noites, misturada a sonhos comuns e sem sentido, via imagens de Camus conversando com outro homem. Era uma imagem embaçada, que conseguia definir claramente apenas o ruivo. Também não ouvia o que falavam. Bem, não vinha dando tanta importância, provavelmente ficara impressionado após aquela conversa que teve com o vampiro... Mas essa última noite, em meio a febre alta, teve a mesma visão que fora interrompida pela imagem de um par de olhos verdes. Malignos olhos verdes de um ruivo... Não vira o rosto ou cabelo, mas no sono apenas sabia ser um homem ruivo dono daqueles olhos. Ou talvez um vampiro. Acordou com aquela imagem que lhe deu calafrios e enjoo.

Era noite de lua cheia e Fenrir passou, literalmente, a noite sentado ao seu lado com a imensa cabeça apoiada na beirada da cama, preocupado. Na sua forma de lobo, não podia fazer muito e Camus precisou sair para caçar. Quando Milo acordou com o pesadelo Fenrir já não estava ao seu lado e deduziu que o sol deveria nascer a qualquer momento, uma vez que o lobisomem nunca permitiu que o loiro presenciasse a transformação.

Suspirou novamente, se encolhendo mais na cama e abraçando o corpo. Febre maldita...

- Finalmente acordou. – Camus entrou no pequeno quarto e aproximou-se, tocando sua fronte. Ele apenas lhe observava calado. – A febre ainda não cedeu.

- Só me dar outro remédio. – não esperava que sua voz estivesse rouca, além de sua garganta ainda inflamada.

- Já tomou e a febre retornou. Farei outra coisa. Fique descansando, voltarei logo. – caminhou para a porta, parando com a pergunta de Milo.

- E Fenrir?

- Saiu bem cedo, disse iria visitar um amigo. – e deixou o quarto.

Sentindo-se um inválido abandonado, o loiro voltou para seus pensamentos. Fenrir vinha saindo muito neste ultimo ano.

Camus deixou a casa e seguiu para a floresta, observando o ambiente a sua volta. Buscava por algumas ervas e não queria se afastar muito da casa, mesmo sendo dia. Aos poucos encontrou todas as que procurava e retornou. Fez um sanduíche como já observara Fenrir aprontar, um pouco de suco de frutas frescas e preparou uma infusão com as ervas. Quando voltou para o quarto, foi recebido com um olhar surpreso do loiro ao vê-lo levar uma bandeja.

- Você... Preparou isso para mim? – tudo bem que não havia mistérios em montar um sanduíche, mas Camus sendo um vampiro antigo que, obviamente, não precisava desses alimentos, saberia como montar algum palatável?

- Você precisa se alimentar. – deixou a bandeja no colo dele e recostou na parede, observando o loiro analisar o que levara. – Sugiro que tome infusão primeiro ou poderá causar vômito. É um pouco amargo.

- E o que tem no chá? – olhou pouco à vontade para Camus e pegou a caneca, inalando... E imediatamente afastando o nariz. Pelo cheiro e aparência, seria bem desagradável. – Não gosto de chá!

- Não seja infantil e beba. É uma infusão de nêveda, verbena e canela com tintura de echinácea. Fará com que se sinta melhor em algumas horas reduzindo a febre e tratando sua inflamação na garganta.

Milo prendeu a respiração e bebeu todo o conteúdo de uma vez. Sentiu uma forte ânsia de vômito. Nunca provara nada tão desagradável, mas conseguiu se controlar. Bebeu uma grande golada do suco, o que fez com que melhorasse um pouco.

- De onde tirou essa coisa? – indicou a caneca. A medida que seu estômago acalmava, começou a comer e, para sua surpresa, além de descobrir-se faminto, o vampiro sabia preparar um lanche saboroso.

- No meu tempo não havia esses medicamentos modernos. Tudo era tratado com infusões, unguentos e soluções naturais. Eu ainda lembro algumas coisas.

- Tenta não esquecer que já foi humano, não é? – sorriu.

O comentário pegou o vampiro desprevenido. Não imaginava que Milo entendesse como se sentia.

- Eu não queria tornar-me isso. Eu estava doente e deveria ter morrido com a peste. – o loiro pôde notar a discreta entonação frustrada do vampiro.

- Poderia ter se destruído com o sol no início, não é? Mas não o fez.

- Por meu irmão. Eu decidi protegê-lo, mas... – não concluiu. Tinha certeza que seu irmão sabia de Daros e que articulou com a traição contra Shion, a quem teve como um segundo pai e lhe ajudou a aceitar sua nova vida. E agora seu irmão colocava a vida de Milo em risco.

– Descanse. Logo a febre irá ceder. – disse apenas. Não iria tratar esse assunto com ele. Simplesmente não havia mais o que ser discutido.

- Prometo te dar ouvidos na próxima... E não treinar mais na chuva, nem chegar ao esgotamento. – o loiro sorriu, querendo quebrar o clima tenso que se instaurou.

Algo observado pelo vampiro. Milo poderia ter suas crises de adolescente, mas no final sempre sorria. Um sorriso agradável que fazia com que se sentisse bem. Um sorriso que fazia com que questionasse a posição do grego na batalha.

- Assim espero. – pegou a bandeja e deixou o quarto.

Milo sentia-se fraco e cansado, não demorando a cair no sono novamente. Ao despertar sentia-se melhor, mas sujo. Providenciou um banho rápido com a água que já estava no banheiro. Vestiu roupas confortáveis e seguiu silencioso para a sala, parando ao presenciar o vampiro.

Camus estava debruçado na janela mirando a paisagem. Pelo olhar, seus pensamentos estavam muito distantes daquela cabana, talvez revivendo algum momento de seu passado. Imediatamente veio a mente de Milo o nome Daros. Há um ano o vampiro, após seu questionamento, assumiu que não o matou quando se conheceram naquela noite fria de Londres, por lembrar-lhe de Daros.

Foi uma informação que o ruivo deu com tamanha simplicidade, mas que atingiu o loiro em cheio. Milo não demonstrou, claro. Tinha orgulho e sequer entendia direito que sentimento seria aquele, mas seu coração ficara pequenino. Precisava reconhecer, afinal, como estranho, que motivo teria para que lhe acolhessem? Agora tinha a resposta: Seria comida de vampiro. Como lembrou ao ruivo um suposto amigo - pois sabia que aquela relação era muito mais que amizade – então foi adotado como um empregado e agora era um pet sendo treinado.

Inicialmente não queria aceitar sua angústia, mas agora sabia que sempre gostou do vampiro, desde que o vira pela primeira vez. O admirava. E que seus sentimentos só fizeram evoluir até o amor. Um amor que não seria correspondido.

A mente do vampiro vagava para a época em que estava com Daros, alguns encontros que considerava especiais e não pôde evitar de lembrar-se de quando se despediu dele. A última vez que o viu.

- Demorou, ruivo. – sorriu. – Pensei que não o veria esta noite.

- Vim me despedir. – Camus olhava diretamente em seus olhos e embora fosse quieto, com um jeito ligeiramente tímido, o brilho nos olhos avermelhados aqueciam seu peito.

Permaneceu deitado na grama em um campo aberto e observava as estrelas. Ao seu lado, sua adaga repousava em fácil acesso caso fosse necessário sacá-la. O vampiro aproximou-se e sentou ao seu lado.

- Alguma missão? – o humano ficou sério, observando-o.

- Conversar com lobisomens e tentar uma aliança, agora que têm um novo líder¹.

- Arriscado. Tenha cuidado.

- Ficarei bem. Mas isso levará algum tempo. – igualmente observava as estrelas.

- A desvantagem de caminhar apenas pelas noites. – deu um meio sorriso, mas o ruivo permanecia com os olhos nas estrelas. – Algo errado? Está sério demais.

- Sinto uma agitação entre os vampiros. Não sei se descobriram a tentativa de aliança que farei, Shion preferiu o sigilo até que tudo esteja certo. Você deve tomar cuidado.

O vampiro preocupado com o Hunter. Isso soava no mínimo irônico, mas aqueceu o coração do caçador, que ergueu o corpo, sentando ao lado do ruivo.

- Camus, apenas concentre-se em seu dever e faça-o bem feito. A aliança pode, inclusive, ajudar-me. Mas não baixe sua guarda, lobisomens podem ser traiçoeiros. – sorriu, porém o outro permanecia sério e lhe dirigiu o olhar.

- Não estou preocupado com minhas obrigações, mas com você.

- Porque não estaria por perto? Sou um homem experiente, vou ficar bem. – sorriu confiante e tocou a adaga. – E você nem deveria pensar em me ajudar. Podem descobrir e seria tido por traidor.

- Não me importaria. Mas fique próximo ao Dohko enquanto estiver fora. – viu aquele sorriso. Ele sempre sorria, independente do perigo ou dificuldade.

Camus mostrava-se inquieto demais e seus olhos tinham um brilho semelhante ao medo, embora suas feições pouco se alterassem. O caçador jamais imaginou vê-lo daquela forma, sempre se mostrou um vampiro forte, confiante e por vezes arrogante. Então era isso. Estava indo negociar com inimigos mortais e estava preocupado não com sua segurança, mas com a do caçador.

- Certo, ficarei com meu mestre até que retorne, se isso fizer com que não perca o foco.

Trocaram olhares por breve momento, até que Camus aproximou-se mais do moreno e roçou os lábios nos dele. Logo o ato se tornou um beijo calmo, terno e cheio de sentimentos. Embora nunca tivessem proferido nenhuma palavra amorosa ou tivessem tido qualquer toque mais íntimo, sentiam o carinho e a paixão que os envolvia. O moreno sentia seu corpo aquecer e o coração acelerar com aquele gesto. Levou uma mão ao rosto do ruivo em uma carícia suave, sentindo a pele ligeiramente aquecida², e com a outra o abraçou. Sentia uma leve carícia em sua nuca. Ao apartarem, manteve os rostos próximos, envolvendo o vampiro pela cintura. Camus lhe observava atentamente e sorriu ao ver um sentimento humano nos olhos daquele vampiro. Amor.

- Cuide-se, Daros. – Sussurrou apenas alto o suficiente para o que o outro escutasse, rente aos seus lábios e se desvencilhou, seguindo para a floresta de onde viera.

- Vou esperar por você. – respondeu em voz baixa, mas foi ouvido pela audição aguçada do vampiro.

Mas ao retornar, Daros não estava mais lá. Não estava vivo. Seu pressentimento estava correto afinal. Parte sua sempre manteve o sentimento de culpa, que poderia ter estado ao lado dele e ajudá-lo, mantê-lo vivo... Mas sua mente racional sabia que não faria diferença, que se estivesse lá não poderia proteger o hunter de tantos vampiros e que poderia até ser morto. Na época estaria só, não teria aliados, mas agora era líder de um clã poderoso. As coisas poderiam ser diferentes.

Passou séculos determinado a se fechar e apenas buscar mais força e o momento apropriado para sua vingança. Foi um choque constatar que aquela pequena criança loira, abandonada nas ruas de Londres, lembrava-lhe tanto o caçador. Tentou matá-lo mais de uma vez e falhou miseravelmente, como nunca acontecera. E quanto mais observa o loiro, especialmente durante os treinos, mais voltava as lembranças de Daros. Não que o comportamento dos dois fossem idênticos, isso seria impossível. Mas... Milo tinha um jeito único de enfrentar seus desafios, ele aprendia o que lhe era transmitido com facilidade e conseguia adaptar para seu melhor desempenho. Essa característica adaptativa, única, além de um forte instinto de sobrevivência, era que lembrava seu antigo amor. E claro... O sorriso. Porém, Milo certamente era mais teimoso, temperamental e hiperativo. Nunca acreditou em reencarnação e perdera até sua fé por Deus. Mas e agora? Milo seria a reencarnação de Daros? Acreditava que sim, sentia que era, mas não tinha como ter certeza. Poderia ser apenas coincidência, como Fenrir lhe disse.

Ouviu um suspiro e virou-se para o loiro.

Milo estava perdido em pensamentos mirando o vampiro. Sabia que para Camus significava a lembrança de um morto e uma peça de xadrez sento talhada para ser posta em jogo e nada mais. Mas, ainda que jovem e reconhecendo toda sua imaturidade para diversos assuntos, chegou a conclusão de tudo isso não importava. Apenas sentia uma vontade quase desesperadora de fazer o melancólico vampiro ao menos um pouco mais feliz.

- Oi, Camus. Já me sinto melhor. – sorriu – O remédio tinha um gosto terrível, mas é poderoso.

- Isso não quer dizer que pode sair e se exceder. Deve manter o repouso.

- Eu já dormi o dia todo. Deixe-me esticar as pernas. – queixou-se e foi até ele na janela. O sol já seguia para o horizonte, após uma tarde chuvosa. O céu, ainda apresentando algumas nuvens, assumia tons coloridos de azul, amarelo e alaranjado – O por do sol daqui é lindo...

O ruivo voltou a mirar a paisagem sem se importar com o loiro ao seu lado.

- Obrigado por cuidar de mim. Sei que esse resfriado e a febre estão sendo um transtorno e estão atrasando o que planejou. – disse baixo.

- Você é humano, está susceptível a doenças. Deve tratá-las antes que piore.

- Camus, por que você não me transforma em um vampiro? Eu poderia fazer tudo o que planeja com mais facilidade e... – foi interrompido.

- Não ouse repetir isso! – olhou para ele, severo.

- Mas... – tentou argumentar.

– Tornar-se isso não é uma bênção, Milo. Para viver, precisa de sangue. Você não sabe o que é perder o controle de si, de matar e destruir tudo a sua volta. Não sabe o que é estar parado no tempo, imutável, enquanto o mundo que conhecia é deixado para trás!

- Desculpe. Eu... Não havia pensado por este lado. – disse um pouco assustado com a postura ofensiva do outro.

- Haja o que houver, não se permita transformar nesse mostro. – tocou o rosto do loiro.

Milo sentia os olhos penetrantes de Camus nos seus, assim como o singelo toque em seu rosto e perguntava-se quem o ruivo via naquele momento? Milo ou Daros? Um garoto idiota ou o poderoso caçador? Era uma dúvida cruel, lhe machucava pensar isso. Chegou a pensar em questionar Camus, quem ele via. Mas não faria isso. Não por medo da reação do vampiro, mas pela resposta. Não queria ouvir a resposta. Após refletir por dias, decidiu que tentaria se aproximar do vampiro, mesmo que fosse visto como Daros.

Com a proximidade dos dois, Milo, em um pequeno ano de coragem, tomou a iniciativa e venceu a distancia que os separavam, juntando seus lábios aos dele. Um aleta na mente do vampiro gritava que deveria se afastar, aquele envolvimento era proibido e perigoso, mas não conseguia. Seu corpo não respondia ao comando. E ao invés de recuar, acabou por puxar Milo mais para si, aprofundando o beijo.

O loiro sentiu o corpo arrepiar ao ter a boca explorada pelo ruivo em um beijo experiente, doce e voluptuoso. As mãos do ruivo puxavam-no pela nuca e cintura, juntando os corpos e o loiro envolveu seu pescoço, completamente entregue, tentando corresponder à altura. As sensações era inéditas para Milo e mesmo que seu resquício de bom senso soubesse ser inapropriado, seu corpo reagia àquele simples contato. O cheiro, o sabor de Camus, tudo lhe era inebriante. Alguma vozinha dizia dentro de si que era uma ilusão, que qualquer vampiro teria capacidade de seduzi-lo daquela forma, mas, simultaneamente, sentia que o único que não conseguiria resistir era a Camus.

Para o ruivo não era muito diferente. Mesmo que o verdadeiro prazer, para os vampiros, viesse do sangue, Camus sentia urgência daquele contato e o sabor de Milo era único, delicioso e levava-o a querer mais. A desejar seu corpo, sua alma e seu sangue. Passou uma de suas mãos por dentro da blusa que o grego usava, sentindo os músculos trabalhados, a pele quente e macia... Ouvia o coração dele acelerar, batendo forte, e sentia o corpo estremecer diante de seus toques. Usou de seu admirável autocontrole para apartar e afastar-se um passo dele. É perigoso! Dizia para si mesmo.

O loiro, ofegante, lançou-lhe um olhar confuso e logo assumiu uma postura defensiva. Seu momento de coragem transformou-se em algo constrangedor.

Camus entendeu o desconforto dele, devia estar se sentindo rejeitado e seria bom que continuasse pensando assim. Como ensinara ao loiro, vampiros podem exercer sobre os humanos, mesmo inconscientemente, certo magnetismo, seduzindo e provocando paixões repentinas e inexplicáveis. Não deixava de ser uma estratégia de caça. E o loiro teria de aprender a se manter afastado.

Quebrou o contato visual e voltou a mirar a paisagem como se nada tivesse acontecido.

Milo fez o mesmo, em sua mente não havia opções. A rejeição machucava. E começava a se sentir quente, talvez a febre retornando após a tarde inteira de paz. E Pensar que teria que tomar aquela coisa horrível novamente... Mas não queria incomodar Camus com isso novamente. Não agora.

As nuvens acinzentadas estavam mais dispersas e podia-se ver parte do céu estrelado. A lua cheia apresentava um brilho opaco, parcialmente encoberta. Por todo o terreno e se estendendo até a floresta havia um nevoeiro denso. Tudo calmo e silencioso.

O ruivo, novamente debruçado na janela, estranhou a situação. Pelo local em que estavam, naturalmente haveria ruídos de animais noturnos como corujas ou morcegos, mas estava tudo quieto demais. Uma situação inusitada e desagradável. Concentrou-se um pouco mais e pôde sentir algumas presenças, ainda distantes, mas seguindo rapidamente em direção à cabana onde estavam. Sabia que não seria Fenrir, eram vampiros e isso lhe preocupou. Ainda não tinha como estimar quantos seriam pela distância, mas sabia que era um grupo considerável. Não ventava e não podia sentir o cheiro. Planejam nos cercar, pensou.

O grego percebeu a tenção quase palpável do outro e o olhar fixo na floresta. Seguiu os olhos dele na mesma direção e nada. Mas então percebeu o silêncio atípico.

- Algo está errado... – murmurou.

- Vampiros. Coloque um casaco, pegue a adaga e apenas o que lhe for fundamental. – o tom sério e olhar preocupado de Camus logo fizeram-no ficar em alerta.

Milo correu até o quarto, vestiu o casaco, uma calça e calçou os tênis. Seriam mais confortáveis e imaginou que sairiam da casa. Pegou a adaga, prendendo junto ao corpo e amarrou o cabelo em um rabo baixo, deixando o aposento. O odor de gasolina inundou suas narinas, causando desconforto. Camus passou por ele, jogando o restante com o galão vazio no quarto.

- Pra que isso?

- Eles não podem te encontrar nem adquirir algo com seu cheiro. Se conseguirem algo seu, você seria facilmente identificado e perseguido. Vamos. – deixaram a casa e o vampiro acendeu um isqueiro, ateando fogo que rapidamente se alastrou.

- Isso vai atrair a atenção deles... – sentiu um arrepio percorrer sua espinha e voltou a acompanhar Camus que seguiu em direção à floresta, provavelmente na direção onde não sentia a presença dos invasores.

- E dar a certeza que não estamos mais ali. Fique perto e preparado. Precisamos chegar à campina. – o ruivo estava em alerta, seus olhos prateados varrendo todas as direções. Na campina estariam expostos, assim como seus adversários, mas sem o risco de perder o loiro de vista.

O nevoeiro seria um empecilho para Milo, estaria mais vulnerável e teria de protegê-lo.

Uma leve brisa passava sobre eles e Camus teve a certeza que seriam localizados pelo cheiro. Estavam contra o vento.

O que mais lhe aterrorizava não era sua segurança, era confiante e saberia enfrentar os adversários, mas estava em desvantagem e não sabia se conseguiria manter a segurança Milo. Ele ainda não estava pronto!

Como imaginou, o vento entregou sua posição e eram perseguidos. Não podia ir tão rápido quando desejava ou poderia ferir o grego com os galhos de árvore e definitivamente não precisavam do cheiro de sangue como um chamariz maior, tornaria tudo um caos. Entretanto, percebia que os outros se aproximavam rapidamente e tentavam cercá-los.

Milo mostrava sinais de cansaço e teve a mão segurava firme pelo ruivo para não ficar para trás. A respiração estava pesada e podia ouvir claramente seu coração rugindo no peito. Ainda não havia se recuperado e a febre retornara.

Camus parou bruscamente entes de ser atingido pelo vulto que cruzou seu caminho. Estavam ali dez adversários cercando-os, ainda escondidos entre a mata, mas acreditava que poderia ter outros com habilidade de ocultar sua presença. Não eram vampiro muito antigos, mas igualmente não eram fracos recém-criados.

Os olhos prateados de Camus assumiram brilho gélido. A campina ainda estaria há no mínimo cinquenta metros, não conseguira chegar. Estava pronto para lutar e esperava conseguir proteger o loiro, teria de se concentrar e confiar no pouco treinamento de Milo. Apertou levemente a mão quente do grego, num pedido mudo para que ficasse perto e atento, e a soltou assumindo uma postura altiva. Fixou os olhos frios no vampiro que surgia a sua frente a passos lentos das sombras da floresta, aproximando-se e ficando visível até para Milo. Camus mantinha os olhos nele, era o mais antigo dos presentes, mas mantinha a atenção nos demais, caso tentassem algo.

- Lord Rivail, líder dos Ventrue. – o outro vampiro se fez ouvir e fez uma singela reverência, embora tivesse em seus olhos um brilho de escárnio. – Os outros líderes se reuniram e decidiram anular o prazo dado. Não confiam no humano. Como o senhor deixou claro que não mata crianças... Fomos enviados com este propósito.

Continua...

oOoOoOoOo

1-Quando Fenrir assumiu o posto de líder dos lobisomens.

2- Ligeiramente aquecida, indicando que provavelmente havia se alimentado. O ato faz com que o vampiro pareça mais humano, ficando menos pálido e com a pele ligeiramente aquecida.

Gostaria de mandar um beijo especial para: Kaito Hatake Uchiha, Theka Tsukishiro, Suellen-san, TwiinNii, Ivy Visinho 2, Y Taishou, Shakinha e Kamy Jaganshi. Obrigada pelo carinho, paciência e atenção!

Beijos!