*** Domingo 1:30 p.m. ***

Dentro dos vestiários da arena de treinamento o movimento era intenso. Há poucos dias o Santuário havia recebido uma nova leva de aprendizes, por isso durante toda a semana diversas atividades e eventos temáticos estavam ocorrendo a fim de familiarizar os jovens e lhes explicar um pouco da história da deusa Athena e seus guerreiros. O ápice aconteceria dentro de poucos instantes com a última demonstração de habilidade e força, quando cavaleiros de todas as patentes se enfrentariam em um torneio de Luta Greco-Romana.

Apesar de nenhum cavaleiro ser obrigado a se inscrever, afinal era apenas uma demonstração, a Patente Dourada sempre fazia questão de participar integralmente em nome da honra de sua posição. Isso instigava os guerreiros de patentes inferiores que ficavam em polvorosa com a oportunidade de fama ao vencer um cavaleiro da elite de ouro. Era justamente por conta do grande número de participantes do torneio que os bastidores da arena estavam uma verdadeira balburdia.

Os vestiários eram separados hierarquicamente, e apesar de ser o menor, o dourado não estava menos agitado que os demais. Dentro dele, na área entre os armários e chuveiros, havia um espaço vago e amplo onde estavam dispostos dois pares de bancos longos. Próximo ao último deles Mu e Afrodite conversavam.

O ariano já estava pronto. Tinha os cabelos presos em um coque, o corpo todo besuntado em azeite e trajava o uniforme de luta. Na Grécia Antiga, os lutadores competiam nus, com o corpo untado por óleo de oliva e uma fina camada de areia para se protegerem do frio e de escoriações na pele ao se esfregarem contra o solo. A tradição do azeite fora mantida até os dias atuais no Santuário, com a diferença que em respeito à deusa virgem a qual serviam os cavaleiros não mais competiam nus. Por isso lutavam usando macacões de malha fina semelhantes a um collant extremamente cavados e curtos que mais pareciam uma sunga com suspensórios, tradicionalmente também não utilizavam roupa de baixo, mantendo o contato corpo a corpo ao máximo a fim de se preservar a tradição.

Peixes, ainda nu, tinha um dos pés apoiado em cima do banco e espalhava o óleo de oliva na perna e na coxa, enquanto tranquilizava um o ariano nervoso.

— Relaxa Mu! Quem fez os sorteios das chaves do torneio fui eu. — falou dando uma piscadinha para o lemuriano e em tom baixo para que os companheiros que também se arrumavam ali não escutassem — Apesar de lutarmos sem Cosmos e todos na mesma categoria, afinal a força de um cavaleiro não pode ser medida pelo peso, sempre damos um jeitinho para deixar as coisas "mais interessantes".

— É justamente esse o meu medo, esses "jeitinhos" que você e os outros dão no sorteio. — Mu resmungou ao pegar a pequena ânfora que estava sobre o banco, derramar mais um tanto do óleo na mão e espalhar sobre as costas do amigo — Aposto que tem muita gente que adoraria ver eu e ele engalfinhados na arena. Acontece que eu prefiro dançar um tango com os cadáveres podres do vale de ossos de Jamiel do que pega-lo como oponente nas eliminatórias e ter que lutar. Não estou fugindo de briga não, mas isso é Luta Greco-Romana. — os gestos gentis que fazia pelas costas do amigo já se tornavam um tanto bruscos diante de sua chateação — Sério! Eu juro pela nossa deusa, Afrodite, se ele for meu oponente e vier com gracinha pro meu lado tentando se esfregar em mim, eu juro que parto para a ignorância! Esqueço as regras e acerto ele bem no meio das pernas com tanta força que Touro vai mugir fino para o resto da vida!

O sueco bem que tentou conter a gargalhada para não chamar a atenção, mas foi impossível. Assim que se recompôs trocou a perna sobre o banco e voltou a cochichar para o lemuriano.

— Mas que coisa, eu já disse pra relaxar. Não confia em mim?

— Não!

— Pois deveria. — Afrodite terminou de untar pernas e coxas, endireitou a postura e encarou o amigo que já havia terminado de espalhar o azeite por suas costas — Eu quebrei teu galho e coloquei o Aldebaran bem longe de você.

Mu suspirou aliviado e o sueco prosseguiu.

— Ele bem que tentou sim dar um jeitinho no sorteio e sair contigo, mas eu não deixei porque achei uma sacanagem da parte dele. Agora para vocês se encontrarem só se os dois forem para as finais, além disso, só pela audácia do canalha eu coloquei ele já na primeira luta com o Adônis.

Ao ouvir o nome do combatente Mu arregalou os olhos e mordeu a boca para não rir. Adônis era um cavaleiro novo que havia conseguido a pouco mais de três anos uma das armaduras de bronze disponíveis. O detalhe especial é que ele era primo dos falecidos Cassius e Docrates, herdando a genética da família, o que fazia dele um dos poucos homens que eram maiores que Aldebaran, pois se o taurino exibia robustos dois metros e dez de altura, Adônis passava de três!

— Oh! Pelos deuses Afrodite, você não presta. — riu verdadeiramente divertido.

— Presto sim! Além disso, ninguém queria enfrentar Adônis "montanha" logo de cara, mesmo estando todos contra todos seria meio injusto; como o Aldebaran é o único que tem alguma chance, já matamos dois coelhos com uma cajadada só.

Mu ia responder algo, mas o toque súbito de dedos macios e suaves deslizando por suas costas fez com que desse um pequeno salto surpreso. Ao se voltar para traz assustado, seus olhos se arregalaram mais ainda ao dar de cara com o Cavaleiro de Virgem, ainda molhado do banho, com apenas uma toalha presa na cintura e segurando uma ânfora.

— Me perdoe Mu, não quis assusta-lo, mas é que quando me aproximei eu vi que o azeite não estava vem espalhado no meio das suas costas. — o loiro justificou-se pelo toque atrevido com ar de naturalidade.

— Tudo bem, é só que eu... — Mu tentou responder, mas começou a ficar nervoso ao perceber que o indiano colocou o recipiente com óleo no banco e iria retirar a toalha ficando nu — Eu não senti você se aproximando...

— Normal Mu, afinal você estava distraído e todos nós estamos suprimindo nossos Cosmos para o torneio. — Shaka retirou a toalha e a jogou sobre o banco.

A resposta do indiano soou natural e espontânea, mas Áries não havia escutado nenhuma de suas palavras, toda sua atenção estava focada nas curvas do corpo despido do amigo. Já o havia visto nu diversas vezes antes, homens nus não eram novidade nos vestiários do Santuário, porém aos olhos apaixonados de Mu, Virgem agora exalava uma sensualidade em seus movimentos que nunca se dera conta, pelo menos não com aquela intensidade que presenciava.

A forma como ele escovava os longos cabelos loiros com os dedos e os prendia em um coque, esticando e exibindo o corpo magro, mas muito bem trabalhado por intensos exercícios, enquanto expunha sem pudor algum o sexo, estava mexendo com o juízo do lemuriano. De maneira discreta utilizando a visão periférica e o canto dos olhos, as jades sedentas de Mu estavam pregadas no pênis em repouso rodeado por escassos pelos pubianos louríssimos do Cavaleiro de Virgem, o colocando em uma situação deveras complicada.

Situação essa que não passou despercebida nem por Afrodite, que observava o desenrolar da cena a sua frente como se fosse parte da mobília com medo até de respirar e atrapalhar algo, nem por Shaka.

O indiano passara as últimas noites insone, rolando entre os lençóis da cama atormentado por uma dúvida que lhe roubava não só o sono, mas também toda sua paz de espírito. Podia não ter experiência alguma em relacionamentos amorosos e conquistas, mas conhecia muito bem a amizade profunda que cultivava com o ariano; estava acontecendo alguma coisa entre eles, algo mudara, porém o comportamento cada vez mais atípico de Mu o deixava confuso a respeito do que se tratava. Consternado o loiro decidiu que não podia mais lidar com aquele enigma, precisava de respostas, descobrir de uma vez por todas se suas investidas estavam rendendo frutos e se fora capaz de despertar ao menos atração e desejo físico no ariano.

E era exatamente isso que estava fazendo naquele momento no vestiário. Obtendo suas respostas.

Com extrema discrição, mas munido de uma malícia impar, Virgem instigava Áries com cada gesto e movimento que executava, desde a carícia sem aviso que fizera pela coluna do lemuriano até a exibição proposital da pelve nua. Se Mu se sentia atraído por ele, a visão de sua intimidade de forma mais explicita e sensual deveria lhe causar alguma reação.

A resposta veio rápida e muito mais intensa do que esperava. Se existia alguma dúvida de que seu corpo despertava desejo e tesão no ariano, não havia mais. Por baixo das pálpebras cerradas, o virginiano via e principalmente sentia os olhos de Mu cravados em seu baixo ventre. O lemuriano ficara anormalmente pálido de repente e mesmo que tentasse disfarçar seus olhares, Shaka se sentia devorado por ele.

A tensão sexual que se instaurou entre os dois espalhou um calor intenso por todo o corpo do loiro e lhe acelerou o coração, obrigando-o a respirar fundo e invocar um mantra que o ajudasse a acalmar o corpo e a mente para que pudesse seguir com o plano.

Ok, então Mu se sentia atraído e saber disso lhe dava uma vontade enorme de gritar de alegria enquanto o enchia de beijos. Mas querer não era poder. Não ainda, não podia ataca-lo ali na frente de todos, isso só o assustaria. Por Buda! Tinha que manter a calma e seguir o bendito plano. Agora era hora de seduzi-lo.

— Me ajuda a espalhar o azeite, Mu? — pediu com aparente despretensão ao apontar para o frasco sobre o banco e virar de costas para o lemuriano exibindo as nádegas empinadas e bem torneadas — Não alcanço direito.

—... Tá bem! — foi tudo o que o pobre ariano conseguiu dizer após muito esforço mental para elaborar palavras coesas.

A ideia de untar com azeite o corpo nu de Shaka fez o lemuriano fantasiar com tantas coisas inapropriadas que começou a suar frio, sendo castigado com intensos calafrios. Suas mãos tremiam de leve ao pegar a ânfora e mal podia respirar. Estava apavorado com a possibilidade de Virgem perceber as reações que havia causado em si e ser descoberto. Com o olhar vidrado no corpo tentador a sua frente e lentidão receosa despejou um pouco do azeite na mão e tocou delicadamente as costas dele, como se o indiano fosse uma frágil escultura, sentindo a palma queimar diante do calor da pele bronzeada.

Imediatamente Shaka se contraiu de leve com o toque frio, uma correte elétrica percorrendo todo seu corpo a partir do ponto de contato.

— Nossa, que mão gelada! — o loiro gracejou com um sorriso ao olhar para traz.

Diante do comentário de Virgem, Áries ficou ainda mais constrangido e retraiu a mão imediatamente, interrompendo o toque. Seu nervosismo o estava traindo. Para piorar ainda mais sua situação, foi com o rosto lívido de pavor que sentiu pulsações sanguíneas em um local nada apropriado de seu corpo. Era só o que lhe faltava, ter uma ereção usando aquele uniforme que mais mostrava do que escondia enquanto passava óleo de oliva nas costas do Cavaleiro de Virgem.

Era uma tragédia anunciada e estava completamente perdido.

Ofegante e com tremores ainda piores Mu buscava desesperadamente uma maneira de impedir que passasse uma das maiores vergonhas de sua vida.

Sua salvação foi justamente a chegada da pessoa que menos queria ver: Aldebaran. Sua enorme figura cruzou o corredor vindo dos chuveiros e caminhava em sua direção. Com mais três bancos no recinto, o brasileiro iria se trocar justo no "seu".

Deveria ficar puto e maldizer até a oitava geração do ex-marido, mas naquele momento a visão dele se aproximando foi como um balsamo para seus olhos. Ele seria rota de fuga.

Sem pensar duas vezes, chamou Virgem e lhe devolveu apressado a ânfora de azeite.

— Shaka, você me desculpa, mas vou ficar te devendo essa. — se justificou atrapalhado — O ambiente aqui ficou ruim de repente, eu prefiro esperar lá fora. — finalizou sinalizando com os olhos na direção de Touro.

— Tudo bem eu... — antes que Virgem terminasse de responder Áries já havia lhe dado as costas e se afastado a passos ligeiros.

Em silêncio o loiro o observou sair praticamente correndo do vestiário com as mãos discretamente na frente do corpo. Apesar de ter seus planos de sedução atrapalhados pelo ex-marido inconveniente e de apresentar uma expressão indiferente no rosto, por dentro Shaka era euforia pura. Mu ficara excitado consigo, finalmente havia obtido algum retorno de suas investidas amorosas e isso fazia seu coração bater forte cheio de esperança.

— Ai, o Aldebaran não se toca mesmo não é?— a voz baixa de Afrodite chamou a atenção do loiro que desceu das nuvens onde sua mente pairava alegre direto para a terra, cego pela euforia até esqueceu-se que ele estava ali do lado — Com o vestiário inteiro disponível o grandão tinha que vir logo para o nosso lado.

Shaka olhou para o brasileiro na outra extremidade do banco longo que usavam e se irritou. Não fosse por ele ter brotado do quinto dos infernos para lhe atormentar a vida, Mu estaria ali agora lhe acariciando as costas. Foi difícil, mas com uma ou duas respirações longas que mais pareciam bufadas, conseguiu sucesso suprimir suas emoções, voltando a exibir no rosto a feição rotineira de indiferença.

— Ele não aceitou sua nova realidade ainda e age com desespero e inconveniência. — respondeu ao sueco quase em um sussurro, evitando que o alvo da conversa os escutasse.

Como desejava sair de perto do brasileiro o mais rápido possível, Shaka começou a espalhar azeite nas próprias pernas de modo mecânico. Não era super fã daquela modalidade de luta.

— Mas não tem o que aceitar. Ele fez merda, Mu deu um pé na bunda dele e ponto final.

— Todos nós sabemos disso, mas tente explicar isso a um taurino.

— O rei da teimosia. — o sueco concordou dando de ombros e logo deu um sorriso encantador ao mudar de assunto e apontar para a ânfora na mão do colega — Já que ele espantou o Mu, quer que eu te ajude com o azeite?

— Obrigado, mas não é necessário. — Shaka negou educadamente um tanto sério e sem graça, desconfortável com a ideia de ter o sueco tocando-lhe o corpo.

A negativa fez com que Peixes deixasse escapar um pequeno sorriso malicioso. Havia acompanhado toda a cena entre Virgem e Áries de camarote, analisando cada suspiro e olhar em nome da sua curiosidade e também para responder as próprias conjecturas a respeito do que rolava entre aqueles dois. Ao ofertar ajuda quis apenas confirmar que não havia delirado momentos antes, e que de fato presenciara Shaka realizar uma tentativa frustrada de flerte que resultou em uma fuga na velocidade da luz de um lemuriano esbaforido.

— Tuuuudo bem! Passa aí sozinho então.

O sueco respondeu divertido aumentando ainda mais o desconforto do loiro.

Enquanto trançava os cabelos, Afrodite pensava nos dois e em como chegava a ser tragicômico a situação deles: Melhores amigos apaixonados que não ficam juntos justamente porque são melhores amigos.

Acompanhava aquela novela "indiana" e seus desdobramentos há muito tempo. Era um clássico romântico com tudo o que havia direito: triangulo amoroso, exílio, morte, reencontro, disputa e até traição. Mas diferente das tramas da televisão onde só lhe restava o papel de telespectador, aquela era a vida real e já estava mais do que na hora do "destino" dar uma mãozinha para os protagonistas.

Pensando nisso o sueco tomou uma decisão naquele instante. Uma ideia astuciosa lhe veio a mente e aquele era o momento perfeito para coloca-la em prática, não podia perder nem mais um segundo. Vestiu-se as pressas e praticamente saiu correndo do vestiário.

Do lado de fora encontrou Mu, agora mais calmo, parado próximo a porta esperando os outros dourados para irem juntos a arena.

— Mu!

— Mas já está pronto?

Áries, que ainda se recuperava das fortes emoções vividas há instantes, se surpreendeu com a rapidez com que Peixes se arrumou, afinal ele não tinha fama de cavaleiro mais vaidoso do santuário atoa.

— Não por escolha própria. — Afrodite suspirou com falsa indignação — Tive que me arrumar correndo porque me esqueci de colocar o Cavaleiro de Baleia nas chaves das lutas. Puta merda! Vou lá arrumar isso rapidinho antes que o torneio comesse e eu leve uma bronca. Encontro você na arena. — O pisciano escorregou liso feito um peixe ensaboado com uma mentira e deu as costas ao lemuriano caminhando apressado para longe.

— Ok, eu aviso os outros. — devido a rapidez do colega ao se afastar, Mu praticamente gritou a resposta.

Divertido, o lemuriano o observou com um riso preso nos lábios, se o sueco iria corrigir o sorteio das lutas por que diabos ele estava indo na direção do vestiário dos Cavaleiros de Bronze?

— Tsc! Alá, o tonto indo para o lugar errado. — estalou a língua — Depois ele fica bravo quando a gente diz que pisciano é atrapalhado!

Se o vestiário dos dourados era pequeno, o dos Cavaleiros de Bronze era enorme e muito movimentado. Lá dentro rolava uma verdadeira balburdia devido ao grande número de guerreiros que se preparavam para o torneio.

Em meio ao desfile de corpos nus e seminus, um "intruso" invadiu o local apressado causando estranheza e espanto por onde passava. Afinal não era comum ter um Cavaleiro de Ouro ali dentro.

— Com licença ralé, patente superior passando. — Afrodite se anunciava sem muita paciência e provocativo.

Ignorava sumariamente os resmungos dos que se sentiam ofendidos, tinha pressa, por isso vasculhava as várias áreas do vestiário a procura de um guerreiro em específico, atropelando quem quer encontrasse em seu caminho.

Foi com um suspiro de irritação que o achou só de toalhas saindo de um dos chuveiros.

—Fênix! — abordou seu alvo no meio do corredor o agarrando pelo braço — Era você mesmo que eu estava procurando. Vem comigo agora.

Ikki de princípio se assustou ao ser abordado daquela maneira, mas logo fechou a cara irritado.

— Que porra é essa? Me larga. — Ikki puxou o braço, bravo por ter sido agarrado — Com quem você pensa que tá falando, jardineiro do capeta?

— Com um moleque mal educado que eu preciso ter uma conversa.

— Precisa é?

Ikki cruzou os braços, ergueu o queixo e deu um resmungo debochado.

— Pois vai ficar querendo, não sou cachorro para você assoviar e eu correr para o teu lado abanando o rabo, muito menos tenho medo da sua patente igual esses idiotas. — apontou para os cavaleiros que espiavam a conversa — Agora vaza que eu ainda tenho que me trocar para o torneio.

Afrodite bufou fazendo um bico e massageou, com a ponta dos dedos, a ponte do nariz entre os olhos, buscando calma.

Como o sueco não se retirou um sorriso sacana surgiu nos lábios do jovem moreno.

— Tá fazendo o que aqui ainda? Já disse que não quero papo contigo, a não ser que veio aqui dar esse show só para me ver pelado. Puts, bem a sua cara mesmo!

— Pelo báculo de Athena! Poupe-me, Fênix! — Afrodite revirou os olhos, respirou fundo e sorriu debochado — Meu paladar é refinado querido, é preciso muito mais do que um pintainho chamuscado para despertar o meu apetite e matar a minha fome. — disse apontando para a cintura do jovem.

A resposta gerou risadas nos colegas enxeridos, o que fez morrer o sorriso dos lábios de Ikki.

— Olha, é sério, eu adoraria ficar aqui no meio de um monte de homem pelado trocando insultos com você, digníssimo Cavaleiro de Fênix, mas meu tempo é valioso demais para perdê-lo entretendo a patente inferior. — o sueco olhou ao redor, vendo vários curiosos prestando mais atenção do que deveriam na sua conversa — Vamos, deixa de marra e vem comigo, se o assunto não fosse do seu interesse eu nem teria me prestado a esse papel e vindo até aqui, não acha?

Ikki não respondeu, mas Afrodite sabia que havia desperto a curiosidade do Cavaleiro de Bronze, por isso virou-se de costas e se retirou do vestiário, sendo seguido por um Fênix carrancudo, que só de toalha e chinelos fuzilava com o olhar os outros cavaleiros que agora olhavam ainda mais curiosos para eles dois.

Lá fora Peixes o conduziu até a parte de traz da construção, próximo à sala do almoxarifado, onde podiam conversar sem ouvidos enxeridos atrapalhando.

Não perdeu tempo, em poucos minutos explicou o que tinha em mente e o que queria de Ikki.

Mas mal acabou de falar e o jovem japonês o interrompia exaltado.

— Porra, é serio? Você me tirou lá de dentro quase pelado pra isso?

— Sim! É importante!

— Eu deveria é te mandar para o quinto dos infernos, Afrodite. — Ikki ralhou.

— Deveria, mas não vai! Ao contrário, você vai colaborar de boa vontade e fazer exatamente o que eu estou te pedindo.

Ikki ajustou a toalha na cintura, pensando em tudo o que havia ouvido da boca do sueco.

— E por que você acha que eu vou te ajudar com essa ideia de cu? Sa porra vai da merda e vai sobrar pra mim depois.

— Porque no final não é a mim que você vai ajudar e sabe disso. — se aproximou mais do rosto do jovem e falou um pouco mais baixo em tom cumplice — A batalha de anos atrás mexeu com todos nós, inclusive com você, mesmo que se finja de durão. Ele é o seu único amigo, o único que te aguenta e não faça essa carranca para mim, pois sua cara feia não me engana. A prova de que digo a verdade é exatamente sua presença aqui no santuário quando já foi dispensado pela deusa para voltar para o Japão à cinco dias atrás.

Ikki arregalou os olhos e encarou o sueco sério.

— Que merda é essa que você está falando? Como você sabe?

— Meu querido, eu sou a última defesa contra os inimigos de Athena. Moro literalmente a um lance de escadas do Décimo Terceiro Templo e tenho uma vista privilegiada de todas as casas zodiacais abaixo da minha. Eu vejo e escuto muito mais do que todos imaginam, inclusive eu sei que a sexta casa é a única que você visita religiosamente todas as vezes que vem ao Santuário. — Afrodite segurou o queixo do jovem moreno e o fez encarar seus olhos — Eu sei que preza por ele, que se preocupa. Ele se tornou importante para você. É por isso que ainda está aqui! Você notou o mesmo que eu e decidiu observar o desenrolar dos fatos pronto para socorrê-lo caso algo dê errado. É o seu forte instinto protetor que te faz cuidar daqueles que lhe são valiosos. Está fazendo com ele igualzinho faz com seu amado irmãozinho Shun.

— Vai se foder Afrodite! — Fênix afastou o rosto injuriado, mas incapaz de negar as palavras do pisciano.

— Só que ele não é o seu irmão! Não espere vê-lo correr chorando para os seus braços pedindo ajuda ou conselhos. Se toca! Tenho certeza que nunca falou com ninguém, nem com você sobre o que está rolando. Ele é orgulhoso, firme e difícil. — Afrodite fez um pausa e percebeu que tinha a total atenção de Ikki — É por isso que eu te procurei as pressas e te arrastei até aqui. Eu sei que se importa e essa é a sua chance de realmente fazer algo além de vigiar.

Afrodite se afastou, dando um passo para traz. Ikki não dizia nada nem se movia, apenas o observava extremamente sério, longe de ter o ar debochado de sempre.

— Você faz a sua parte, que eu faço a minha. Até porque eu sei que você está tão doido quanto eu para ver esse circo pegar fogo, não é?

O sueco piscou com um dos belos olhos aquamarines, deu meia volta e saiu deixando o Cavaleiro de Bronze sozinho com seus pensamentos que o observou se afastar até perdê-lo de vista, só então Ikki deixou escapar um resmungo acompanhado de um sorrido inconformado.

— Filho de uma puta, abusado! Tomara que você esteja certo, Peixes... Tomara... ou a gente vai cagar a porra toda de vez!