Capítulo 14

Apesar de ainda estarem em pleno verão, os jardins que rodeavam a vila continuavam verdes e viçosos. O ar úmido e parado era sufocante, e nem uma folha se movia, nem uma onda perturbava a água do laguinho onde, se virasse a cabeça de lado, Kagome poderia ver sua imagem refletida.

Ela deixou que a manta que estava tricotando deslizasse para o seu colo e recostou-se na cadeira, dedicando-se à atividade que já a ajudara a passar muitas das horas solitárias que vivia, desde que Sesshoumaru tinha ido embora: sonhar acordada.

Parecia mentira que, durante aqueles três meses em que estava sozinha, nunca houvesse recebido uma carta, ou mesmo um cartão postal, escrito às pressas! Tentando não se deixar dominar pela depressão, por causa do bebê, Kagome tinha preenchido a maior parte de seus dias tricotando casaquinhos, fazendo camisinhas de cambraia e costurando alguns vestidos soltos, de tecido leve, para si mesma, numa máquina de costura antiga que Kaede havia retirado de um quartinho usado para coisas velhas.

Kagome espreguiçou-se e fechou os olhos voltando um rosto sereno, se bem que triste, para o sol. Sua barriga ainda não estava muito grande e não se dava para notar seu estado quando ela usava um de seus vestidos soltos e permanecia sentada. Só quando se levantava é que sua gravidez se tornava evidente. Mas Kagome já havia descoberto que sentia cada vez mais sono, e adquirira o hábito de cochilar no jardim, para que seu bebê pudesse se beneficiar o máximo possível do ar fresco e do sol quente da Grécia, antes que fossem obrigados a partir para a Inglaterra.

Sorriu com indulgência quando ouviu o barulho de passos que se aproximavam pelo caminho calçado de pedras. Desde o momento em que sua gravidez se tornara pública, Jaken tinha assumido o papel de seu protetor, o que ele considerava ser um dever, já que o "Sesshy" estava ausente: um papel que transformara o emotivo grego numa mistura de galo orgulhoso e galinha preocupada com os filhotes. Sonolenta, Kagome entreabriu os olhos, imaginando que tipo de coisa ele estaria trazendo daquela vez, e viu-o chegar com uma bandeja contendo um copo de leite e algumas "baclavas", uns bolinhos feitos com nozes e mel.

- "Sigha"! – ele disse, pedindo-lhe para se mover com calma, ao mesmo tempo em que colocava a bandeja numa mesinha ao lado de sua cadeira. Forçando um sorriso alegre, o criado esperou pela pergunta que ouvia todos os dias, e que era feita de um modo cada vez menos casual.

- Chegou alguma carta para mim, hoje, Jaken?

- Ainda não – ele admitiu, com uma certa tristeza. Depois, tentando alegrá-la um pouco, continuou: - Mas apareceu uma lancha no horizonte, que parece estar vindo para cá. Pode ser que... – Encolheu os ombros, indicando que ela podia ter esperanças... Mas não muita.

Quando Kagome fechou os olhos, para esconder o brilho das lágrimas que não conseguira evitar, Jaken deu um passo para ela, condenando intimamente o "Sesshy" ao fogo do inferno, ao mesmo tempo em que se esforçava para justificar sua ausência.

- O trabalho deve ter se acumulado demais, enquanto o "Sesshy" estava no hospital, e ele na certa tem negócios urgentes a resolver, antes de vir para cá. Mas tenho certeza de que ele não demora a voltar. Ele nunca ficou tanto tempo longe da ilha!

- Quantos dias ele passou no hospital, Jaken? – Com as mãos trêmulas, Kagome segurou o copo e começou a beber o leite vagarosamente.

- Várias semanas, durante as quais os médicos lhe deram esperanças, mas não lhe prometeram nada. Durante todo o tempo em que os médicos trataram de seus olhos, ele não se queixou de nada! Nem de dor, nem de mal estar, pois estava à espera de um milagre. Mas depois, sem o menor resultado, parece que o "Sesshy" perdeu completamente a esperança, resignando-se a passar o resto da vida como um homem cego.

- Sesshoumaru perdeu a esperança? – Kagome levantou a cabeça, num gesto brusco. – Mas e os especialistas, o que foi que eles disseram?

- Eles queriam fazer uma última tentativa para lhe devolver a visão, usando um método que nunca fora tentado antes, mas ele se recusou – Jaken explicou, com um suspiro. – Desde o início, o "Sesshy" manifestou aversão pelas cirurgias de enxerto; era como se ele rejeitasse, não só física, mas também espiritualmente, o tratamento feito com os restos de uma pessoa morta!

- Segunda escolha – Kagome murmurou mais para si mesma. – É bem próprio dele...

- E, no fim, ele acabou ficando sem nada. Por causa de sua independência e teimosia, o "Sesshy" continua cego e não pode ver a infelicidade que causou, e nem que sua esposa vai lhe dar um filho!

Ela sabia que devia prepará-lo para o fato de que não continuaria como esposa de Sesshoumaru por muito tempo, mas não teve coragem e resolveu pôr fim à conversa, reclinando-se na cadeira e fechando os olhos, como se estivesse cansada. Jaken entendeu na mesma hora.

- Tente dormir um pouco – encorajou. – A lancha que vi está se aproximando do ancoradouro... Se chegar alguma carta, eu a trarei imediatamente.

Sozinha, Kagome acabou por dormir mesmo, mas acordou depois de uma meia hora, quando ouviu o som de passos que se aproximavam. Abriu os olhos rapidamente, esperando ver chegar Jaken com uma carta, mas a figura que caminhava na sua direção, com o sol pelas costas, era alta demais, e tinha um jeito de andar muito parecido com o de um felino, para ser confundida com o atarracado criado.

A confiança e a segurança dos passos de Sesshoumaru não a intrigaram, e com a alegria que invadia seu coração estampado no rosto, Kagome encarou as lentes escuras que cobriam os olhos do marido, examinando-lhe a fisionomia abatida, bem mais pálida e tensa do que estava quando o vira pela última vez.

- Sesshoumaru! – ela sussurrou, sem tentar esconder a felicidade que sentia, pois não havia perigo de ele perceber seus sentimentos.

Um século pareceu se passar antes de ele responder, um século de tensão e incerteza, durante o qual as lentes escuras fixaram-se no rosto dela com firmeza e atenção.

- Kagome – Sesshoumaru murmurou finalmente – agora que voltei você parece não ter pressa em saber o resultado de minha viagem. Não se importa – perguntou com voz tensa -, não tem o menor interesse pelo que aconteceu?

Essa pergunta teve o poder de fazê-la voltar à dolorosa realidade. Imóvel e sentindo-se fria como uma estátua, a cabeça coberta pelos cabelos escuros inclinada para frente, Kagome respondeu com esforço:

- Acho que não há necessidade de perguntar, já que você sempre dá um jeito de conseguir o que quer Sesshoumaru. Não tenho a menor dúvida de que o nosso divórcio já foi concedido.

- Divórcio? – De repente ele deixou-se cair de joelhos ao lado dela, arrancando os óculos escuros e revelando os olhos cor de âmbar, flamejantes. – Do que é que você está falando, Kagome?

- Kikyou me contou que você estava deixando a ilha para se divorciar de mim... Para que vocês pudessem se casar – Kagome explicou, aterrorizada pelo ar zangado dele.

- Que ela vá dez vezes para o inferno! – ele rugiu, apertando os punhos, numa demonstração de fúria impotente. – Eu a paguei bem para sair de Kairos porque estava desconfiado de que ela estivesse planejando alguma coisa de ruim, mas nunca me passou pela cabeça que já fosse tarde demais!

Atordoada, Kagome continuava sentada, imaginando se não estaria dormindo e sonhando, mas, quando Sesshoumaru agarrou seus ombros, a dor que sentiu foi real, e os tremores que sacudiram seu corpo, familiares demais!

- Então, por que você foi embora? – perguntou com voz abafada. – Que razão você tinha para ir embora?

A chama que brilhava nos olhos dele desapareceu lentamente. Ele hesitou, tentando firmar a voz, antes de dizer, roucamente:

- O cirurgião, não se lembra Kagome? – Então, quando ela não respondeu, nem mostrou sinais de estar compreendendo o que ele queria dizer, Sesshoumaru explicou: - Kikyou sabia que eu tinha a intenção de voltar para o hospital, para fazer um novo tratamento nos meus olhos. Uma última tentativa, como os cirurgiões disseram, de restaurar a minha visão... Apesar de já ter decidido que não me submeteria a outras cirurgias, pois já havia me submetido a tantas, todas sem resultado, resolvi enfrentar mais uma, pois tinha a esperança de que você deixasse de sentir nojo de mim, se eu pudesse ver. Podia até ser que você se apaixonasse por mim, se eu não fosse mais cego... Durante quatro dias, após a retirada dos curativos e das bandagens, pensei que a operação não fosse dar certo, apesar de os médicos me assegurarem que, nessas operações de olhos, não se podia esperar resultados imediatos. Então, gradualmente, eu comecei a ter uma visão embaçada do mundo... O primeiro objeto que vi com clareza foi à borboleta de ônix, que conservei sempre perto de mim, e que me deu coragem para enfrentar a cirurgia.

Abismada, Kagome não conseguia desviar o olhar dos os olhos que imaginara que ainda fossem cegos. Então, quando a compreensão total do que ele havia dito tomou conta de si, um rubor lento começou a colorir seu rosto.

- Você está dizendo que pode me ver? – perguntou trêmula, levando as mãos ao rosto, como se quisesse se esconder por trás delas.

- Posso ver perfeitamente. – Ele examinou com atenção a expressão de desespero dela, antes de continuar com suavidade: - Quer que eu lhe diga o que estou vendo? Um rosto que combina às mil maravilhas com uma voz meiga e adorável; dois olhos ternos e cinzentos, como as asas de um pombo selvagem; um rubor que me traz à lembrança uma noiva terrivelmente tímida, e uma boca... – De repente, Sesshoumaru perdeu o controle de suas emoções e gemeu, puxando-a de encontro ao peito: - Oh, a sua boca, Kagome! Sua doçura tem me perseguido em sonhos, e durante estes três meses o que mais desejei foi senti-la de encontro aos meus lábios...

Perguntas, respostas, explicações, tudo foi esquecido por aquele grego impaciente, que não podia tolerar mais um momento de espera. Kagome foi abraçada com força, esmagada de encontro ao corpo rijo e musculoso, que tremia de ansiedade e desejo, e beijada até que a sede que ele sentia de sua doçura fosse saciada. Então, antes que as respostas apaixonadas dela despertassem mais ainda o seu desejo, Sesshoumaru dominou com esforço sua paixão, segurando Kagome bem junto a si, mas completamente imóvel.

- Eu amo você, "elika" – jurou, com voz rouca de emoção. – Tudo o que eu tenho é seu, para você fazer o que quiser. Então, por que você ainda mantém uma certa reserva, por que não se entrega totalmente a mim? Onde posso encontrar a chave capaz de abrir esse cantinho secreto de sua alma?

Kagome não fingiu que não entendia o que ele queria dizer.

- Eu amo você demais, Sesshoumaru – disse com voz trêmula – mas a confiança não chega de uma hora para outra... Há pouco tempo, você estava apaixonado por Kikyou... Eu mesma vi o modo como vocês se beijaram, na noite anterior à sua partida da ilha!

Ele soltou-a, envolvendo seu rosto ansioso com mãos carinhosas.

- Eu pensei que estivesse beijando você – contou com simplicidade. – Naquela mesma tarde, eu havia censurado você por sua frieza, por isso, quando senti seu perfume e percebi que dois lábios tinham se encostado em meu rosto, imaginei que aquele era o seu modo de me pedir desculpas. Além disso – continuou com voz dura – quero esclarecer uma coisa, definitivamente: eu nunca amei a sua irmã. Achei divertido alimentar a vaidade dela durante algum tempo, pois Kikyou e aquele bando de gente estúpida, que são amigos dela, pareciam ter a certeza de que ela era uma espécie de sereia, que seria capaz de enfeitiçar qualquer homem que quisesse.

- Mas, e as cartas que você escreveu – Kagome protestou – as ameaças que você fez, quando Kikyou se recusou a casar com você?

- Fiz aquilo para punir a sua irmã – Sesshoumaru esclareceu calmamente, mostrando a parte vingativa de sua natureza grega. – Eu estava abismado com a completa falta de sensibilidade que ela mostrou ao romper o nosso noivado, e nem conseguia imaginar o efeito que uma atitude daquelas poderia ter sobre um homem na minha situação, que estivesse realmente apaixonado por ela. E resolvi castigá-la um pouquinho. Não posso lhe dizer quanto fiquei surpreso, quando recebi o recado de que uma certa srta. Higurashi estava esperando para ser apanhada, no aeroporto.

Quando, com os olhos brilhando, cheios de ternura, Kagome colocou-se nas pontas dos pés, para lhe dar um beijo de perdão, Sesshoumaru rodeou a sua cintura com as mãos para puxá-la mais para perto. Mas logo parou, imobilizado pela surpresa.

- Há alguma coisa diferente em você!

Então, fechando os olhos, usou as mãos para explorar o corpo da esposa, em braile. O impacto causado pela sua descoberta foi tão grande, que durante alguns momentos ele permaneceu num verdadeiro estado de choque, sem conseguir pronunciar uma única palavra. Mas o rubor e o ar confuso de Kagome deram-lhe a resposta que ele queria.

- "Minha esposa será tão fértil quanto à videira. E meus filhos serão como as oliveiras em volta de minha mesa?".

Sesshoumaru citou os versos como se fossem uma pergunta, com voz trêmula de emoção. E quando ela abaixou a cabeça, num gesto afirmativo, ele envolveu-a nos braços, aninhando-a de encontro ao peito com tanta ternura que Kagome se sentiu a mais amada das mulheres.

- Meu doce anjo! – Ele enterrou os lábios na curva delicada do pescoço da esposa, de modo que suas apaixonadas palavras saíram abafadas, misturando-se com as lágrimas que nenhum homem grego tem vergonha de derramar. – Perdoe-me pelo tormento que lhe causei. Se você deixar, eu juro que vou passar o resto dos meus dias tentando reparar o meu erro.

- Não, meu querido, não faça isso. – A tentativa de Kagome de brincar com o marido, provocando-o, foi frustrada pela tremenda emoção que ela sentia. – Por que perder tempo aprendendo a fazer penitência, quando você é capaz de fazer amor de um modo tão maravilhoso?

Na mesma hora, o corpo de Sesshoumaru ficou rígido.

- Quer dizer que você não se importa mais de receber os meus carinhos grosseiros? Não sente mais nojo de mim, agora que posso ver?

Apesar de as palavras terem sido pronunciada num tom de voz baixa e abafada, era impossível deixar de ver a dor que havia nelas; com uma exclamação de tristeza, Kagome rodeou o pescoço do marido com os braços.

- Eu menti para você, Sesshoumaru! – assegurou com veemência, lágrimas de arrependimento escorrendo-lhe pelo rosto.

- Então, você mentiu para mim duas vezes – ele lembrou com severidade, levantando a cabeça e deixando que ela visse a expressão amorosa que havia em seus olhos e que demonstrava que ele já a perdoara. – Você me garantiu que seu rostinho era feioso. – Examinou-a durante alguns segundos, antes de continuar: - Sabe, uma vez Jaken comparou-a a um botão de rosa entreaberto, cheiroso e de pétalas aveludadas. A minha cegueira impediu que eu conhecesse mais do que o perfume interior, mas agora, "elika", mal posso esperar para me perder no perfume, na visão e no toque de uma flor encantadora, a minha deliciosa Kagome Higurashi, o meu anjo!

FIM


Acabou, muitas revelações nesse capitulo.

Obrigada sayurichaan, kagome unmei e dayahellmanns que me acompanhou a historia inteira, espero que vocês gostem, todas as suas respostas serao respondidas nesse capitulo.

Amanha eu vou tentar vir com uma outra adaptaçao, beijos.