Capítulo 14
Ela já estava segurando a maçaneta, voltou-se para encarar o médico. A boca respondeu de um jeito; sua expressão dizia outra coisa. O médico percebeu aí, outro ponto nevrálgico. Fez mais anotações.
- Grissom é incapaz de machucar alguém.
- Eu não quis dizer no sentido físico. Há muitas maneiras de causar dor, você sabe! – Disse o médico, encarando-a.
- Sim, eu sei! – Respondeu, baixando os olhos.
Naquela noite, tanto no carro, quanto no jantar, ao contrário de outras vezes, Sara não estava muito falante. Respondia a tudo, com monossílabos. Grissom achou melhor não insistir, "talvez ela tenha tido uma sessão difícil, quem sabe?", pensou. Quando estavam terminando a sobremesa, ela que mais mexeu a comida, do que realmente comeu, tomou fôlego e perguntou baixinho:
- Você me rejeitou?
Ele gelou imediatamente. Para ganhar tempo, ele falou que não havia entendido a pergunta. Ela repetiu, num tom de voz, normal.
- Você me rejeitou? Sabe... Antes...
Grissom respirou fundo, e estranhou que ela não estivesse olhando diretamente nos seus olhos. Era a primeira vez, desde que ela tinha perdido a memória, que ele não trombava com aqueles queridos olhos castanhos, após uma pergunta.
"Que diabo, o quê aconteceu naquele consultório, hoje?", pensou aflito. Desejou, nesta hora, que Sara não fosse tão fechada. Segurou na sua mão, do outro lado da mesa. Estava gelada. "Não pode significar coisa boa...", pensou apreensivo. Respirou fundo de novo, parecia que o ar lhe faltava.
- Sara... Isto é difícil pra eu admitir, mas durante anos, eu fui um completo idiota. Você ficava atrás de mim... E eu fugia. Você era direta... E eu desconversava... Me perdoe, mas sim, eu a rejeitei de várias maneiras, ao longo dos anos.
Ela escutava a tudo atônita. Aquele homem gentil sabia infligir dor, sim. Ela não sabia bem porque, mas sentia tal angústia, que tinha vontade de gritar. Sua cabeça doía tanto, que parecia que mãos impiedosas revolviam seu cérebro. Não entendia o porquê daquela reação: nem gostava dele!Não conscientemente, pelo menos.
- Por quê? – Ela perguntou depois de algum tempo, tirando sua mão, da dele.
- O que posso responder: eu me comportei como um total imbecil! Eu te amava muito, Sara, mas também tinha medo.
- Medo... De mim? – Perguntou incrédula.
Pela primeira vez, naquela noite, olharam um para o outro e ficaram alguns minutos imantados, sem dizer nada, apenas sentindo arrepios pelo corpo, ouvindo o coração acelerado, um do outro e sentindo a respiração ofegante, um do outro.
Grissom queria responder. Mais que tudo, precisava dar uma resposta honesta, a ela e a si mesmo. Algo que os convencessem, após tantos anos.
- Não, não de você, meu amor! – E depois de uma breve hesitação. – Acho que no fim de tudo, eu sentia medo de mim!
-De você? – Perguntou, sem entender direito.
- Assumindo você; o que eu sentia; mais cedo, ou mais tarde, eu teria de optar: ou meu trabalho, ou você. E, durante o tempo, que mantivemos tudo em segredo, mantive egoisticamente, os dois. Foi cômodo pra mim, admito.
Ele tomou fôlego e continuou sua viagem interior:
- Eu dava a mim mesmo, muitos motivos, mas hoje, quando olho para trás, vejo que na verdade, tudo se resumia a uma coisa só: meu trabalho!Eu o punha acima de tudo, até de você, Sara! Como fui estúpido, me perdoa, meu amor? Podia ter a imensa alegria, há muito tempo, pois só fui realmente feliz, quando desfrutei de seu amor.
Ela ouvia a tudo calada. Ela não podia admitir que aquele homem, que como chefe, ela se lembrava, muito bem, tivesse uma parte mesquinha, como qualquer um.
Estava zangada, por ele se mostrar vulnerável; e ao mesmo tempo, ficava feliz por ele estar se abrindo, com ela. Essa forma dupla de ver as coisas lhe perturbava o coração e lhe atordoava o cérebro. Grissom continuava, como alguém que abrisse as comportas de uma represa e não pudesse mais fechá-las.
- Eu tinha medo que a reputação e o nome, que levei anos construindo, fossem pelo ralo, quando descobrissem, que eu mantinha um romance com uma subordinada. E eu sabia que nunca mais, seria o mesmo, no trabalho. E eu passei muitos anos empenhado em meu trabalho. Meu trabalho era a rocha firme e você... Você era a brisa que podia ser passageira, hoje aqui, amanhã, quem sabe...
- Você fazia idéia de mim, como uma pessoa volúvel?
- Volúvel, não, Sara, equivocada. Não acreditava que você me amasse como supunha. Fui um tolo! Me perdoa, meu amor, por afastá-la por tantos anos! Poderíamos ser felizes há mais tempo, se eu não fosse tão medroso e tão teimoso!
Estalando de dor de cabeça, Sara levantou-se para pegar uma aspirina, encontrou em seu caminho, dois olhos azuis, tristes, súplices... As mãos dele buscaram as dela e as seguraram como quem implora.
- O que você quer de mim, Grissom?
- Que você diga que me perdoa.
Sara olhou no fundo daqueles olhos azuis e viu algo que a assustou, terrivelmente: nunca negaria nada a esse homem. Desligou-se desse olhar, baixando os seus olhos. Disse baixinho, num tom de voz que era quase uma carícia:
- Claro que sim, agora me deixe passar que preciso pegar uma aspirina. Minha cabeça está me matando!
Catherine levou a novidade que o DNA, encontrado na bituca, pertencia a Ben Soffer. Nick não parecia surpreso. Disse bem devagar, parecia até saborear cada sílaba:
- Eu não disse?
- Ei, calma aí, cowboy: o cigarro só o coloca no beco. Não se esqueça de que o tal Digger foi encontrado limpo. Precisamos de alguma evidência que o ligue ao crime, e que não temos...
-... Ainda!
Catherine olhou intrigada, para o companheiro: será que ele tinha alguma coisa, que ela não sabia? Nick logo abriu o jogo com ela:
- Vou agora mesmo verificar, aquela digital desconhecida, nos caixotes. Se ela pertencer a quem acho que pertence, não teremos dificuldade em arrumar um mandado, para a casa de Ben Soffer. Acharemos o sapato, que fez a pegada no galpão. Com um pouco de sorte, algo mais...
- A arma dos crimes, talvez? – Os olhos de Catherine brilharam.
- Por que não?
- Tem algum juiz de plantão?
- Sim, o juiz Anderson.
- Grande! – Catherine pressentia que o abacaxi ia sobrar para ela, outra vez.
Brass passou por lá para saber notícias do caso. Ao saber das novidades, por Catherine, disse que precisava mesmo, ir até a Narcóticos, aproveitaria para fazer umas perguntas a Soffer. Combinara se encontrar à tarde com O'Malley, na casa dele e não o encontrou. Brincou com Catherine:
- É essa minha personalidade marcante; eu tinha encontro com dois, hoje. Um, morreu. O outro não achei em casa. Sou tão irresistível, que causo esta reação, nas pessoas!
- Eu gosto de você, Jim! Apesar desse seu jeito irônico! – Riu a loira.
"Conversavam na sala dele, no laboratório sobre o desfecho de um caso.
-Isso é tudo? – Grissom perguntou.
Ela tirou coragem, sabe lá de onde e resolveu perguntar:
- Gostaria de ir jantar comigo?
- Não.
Era uma resposta seca... Direta... Definitiva. Com gosto de humilhação Mas Sara não desistiu. Fora muito longe pra desistir agora.
-Por que não? Vamos... jantar e ver o que acontece.
- Sara... - Ele fez uma pausa e suspirou, como fazia sempre que não achava as palavras certas que dizer - não sei o que fazer sobre isto.
- Eu sei. Quando você se der conta, pode ser tarde demais.
Ela se virou e saiu, antes de fazer a bobagem de chorar. Sim, Grissom sabia causar dor, muita dor...".
Passava de meia-noite quando Sara acordou. Apesar de ser pesadelo, não era como os demais. Parecia mais uma lembrança. Sentou-se na cama. Segurou a cabeça com as duas mãos; depois virou o pescoço, para um lado e para outro, viu que a dor de cabeça tinha melhorado.
O lugar de Grissom estava vazio, intocado. Sinal que ele ainda, não viera dormir. Ela começava a se lembrar. Não tudo, ainda estava parada em 2004. Ignorava os acontecimentos mais recentes, mas se lembrava de sua paixão não correspondida, por Grissom.
A primeira coisa, em que pensou, foi em contar para Grissom. Era seu intento gritar e soltar rojão, quando enfim, se lembrasse. No entanto, não sentia vontade de comemorar. Começou a chorar, sentindo-se triste e sozinha.
Amanhã veria Grissom, hoje não. Segundo o que ele lhe dissera, tudo melhorou depois. Ainda bem, porque era muito duro aceitar essa realidade. "Melhor viver sem memória, que isso!", pensou enquanto se deitava, novamente.
Brass voltou ao laboratório, com uma notícia preocupante: Soffer e O'Malley tinham sumido.
- Como sumido? – Perguntou Greg.
- Depois do enterro, ninguém os viu, não foram trabalhar e, não atendem ao telefone. O pessoal, lá na delegacia, achou isso muito estranho.
- Você falou alguma coisa sobre O'Malley e Digger com Soffer? – Questionou Nick, preocupado.
- Sim, – respondeu o capitão – eu conversei sobre isso no carro, com Soffer. Mencionei sobre o diário de Roy...
- Então, caro Brass, acho que você deu corda ao enforcado! – Disse Nick, agora realmente preocupado.
- Temo que a vida de O'Malley esteja em perigo! – Acrescentou Catherine.
Brass sentia-se arrasado. Nem desconfiara de Soffer. Ou seu faro estava falhando, ou estava ficando velho. Nick tocou seu ombro por trás e apoiou o policial:
- Vamos Brass, não se sinta culpado! Afinal, como você saberia?
- Eu deveria saber! Acho que estou ficando velho pra essas coisas, Nick.
- Ninguém é perfeito, Jim, nem mesmo você!- Acrescentou Catherine, solidária.
Nesse instante tocou o telefone e Catharine ficou agradavelmente surpreendida, com a voz, do outro lado do fio.
- Willows...
- Oi, como vai? É Gil falando.
- Oi, como está, Gil? E a Sara?
- Eu vou indo. E Sara, não sei! Ela é tão fechada. Não sei o que se passa naquele consultório!
Catherine sorriu intimamente, satisfeita. Pela 1ª vez, ele experimentava seu próprio veneno e não gostava. Ele falou que Sara fora dormir mais cedo, porque estava morrendo de dor de cabeça. Aí, Catherine se preocupou: dor de cabeça, em quem machucou a cabeça, é sempre preocupante.
- Ela está medicada?
- O Dr. McKay deu aspirina, para quando ela tivesse dor de cabeça.
Catherine achava muito pouco, mas achou melhor não dizer nada, para não preocupá-lo, ainda mais. Mudou de assunto. Falou que a folga dele estava acabando. Ele falou que sabia e era um dos motivos dele estar ligando.
Queria saber do caso do tigre. Já haviam solucionado? Em que pé estava? A CSI inteirou-o de tudo, inclusive da novidade que Brass trouxe.
- É, tudo indica que ele matou Digger, o prognóstico para O'Malley, não é dos melhores, também!
- É o que penso, mas infelizmente, não temos nada que nos dê uma pista, do paradeiro dele.
- Acho que vocês trabalharam muito bem sozinhos. Acho que não tenho mais nada para lhes ensinar, Cath.
Ela não teve uma sensação muito boa ao ouvir isso e teve um pressentimento ruim, quanto ao amigo. Foi com voz nada firme, que ela disse:
- Bobagens! Sempre precisaremos de você, Gil!
Grissom percebeu que a conversa estava tomando um rumo emotivo e mudou o foco.
- Quero sair, ter uma noite diferente com Sara amanhã, afinal, é minha última noite de folga! O que você sugere?
- Acho uma boa idéia, Gil. Leve-a ao Tropicana. – Entusiasmou-se a loira.
-Mas lá tem jantar-dançante! – Reclamou.
- E daí?
- E daí, que eu detesto dançar!
- Bem, Sara adora! E a quem estamos tentando agradar: Sara ou você? – finalizou Catherine.
