Catorze

Quente, hein?

Está certo. Tente você encontrar roupas para uma mulher de oiten­ta anos, com l,30m de altura, 59 kg, corcunda, e cujos seios são ami­gos íntimos do umbigo. Já se passaram três horas desde que iniciamos esta jornada de compras, e, toda vez que tento orientá-la para alguma roupa que, mesmo remotamente, tenha chance de caber, sem contar que não me provoque ânsias de vômito, ela berra alguma coisa em italia­no e me dá um safanão com a bolsa.

Lembre-me depois de perguntar a Abbe o que foi que eu fiz quando era criança para merecer este tipo de punição.

- Meu armário está cheio de roupas de velha - diz a Nonna, abor­recida. - Agora quero parecer com a Brittney Spears!

Não estou inventando isso, eu juro.

Com a maior diplomacia possível e considerando a minha dor de cabeça, os pés inchados e os nervos em frangalhos, explico que a maio­ria das mulheres da idade de Brittney Spears não conseguem parecer com ela. E que poucas mulheres acima da idade dela desejariam isso.

Ela me bate de novo e me carrega para a próxima seção jovem, apalpando alguma peça feita em tecido barato com lantejoulas e correntes. Olho ao redor e percebo a gatinha que está a cerca de um metro de distância, segurando sobre os seios inexistentes um vestido do tamanho de um lenço de papel. Duas outras garotinhas usando minissaias justas, tops de barriga de fora e muitíssima maquiagem - cujas idades somadas ainda dão menos que a minha - riem e estalam chicletes ao lado dela. Minha avó observa os horríveis sapatos com plataforma das meninas.

- Posso comprar uma coisa assim?

- Você já tem uma coisa assim - respondo, apontando para o sa­pato ortopédico.

Ela olha para baixo. Concorda. E continua segurando a peça de lantejoulas nas mãos. E não sei por que demorei tanto tempo, mas de re­pente compreendo o que está acontecendo. A Nonna sabe que não pode usar nada disso. E aposto que, quando sairmos daqui, vai me deixar levá-la para a seção certa e comprar-lhe alguma coisa que não provoque riso nas pessoas. Ou que não a confundam com uma prostituta que não soube identificar o momento certo de largar a profissão. Mas a Nonna nunca teve chance de viver esse tipo de coisa. Criada em uma cidadezinha na Itália por pais severos e tementes a Deus, mesmo que esse tipo de roupa existisse naquela época, ela não teria permissão nem de olhar, que dirá de usar.

Ela só está brincando. E brigando comigo da maneira como nunca pôde brigar com a própria mãe. Não éa minha idéia de diversão, ei, ela está com oitenta anos. Quem sou eu para dizer alguma coisa?

A Nonna pega um top com muito brilho como aqueles que as gatinhas estão usando.

- O que acha?

- Não dá para usar sutiã com isso, Nonna.

- E daí?

- Daí que os seus mamilos apareceriam embaixo. Ela fita com raiva a sua imagem no espelho por alguns segundos.

Depois, com um suspiro, pendura o top e olha para mim.

- Estou sendo um pé no saco, sì!

- Pode apostar. Venha. Vamos para o terceiro andar. Como eu suspeitava, ela me segue obediente (já estava na hora da velhinha ficar sem gás, ufa), e, em 15 minutos, escolhemos um lindo conjunto em duas peças, de lã fininha de seda, com uma estampa em flores tropicais de cores vivas. Com o qual poderá usar aquela maravi­lha da engenharia que ela chama de sutiã.

Olhando-se no espelho do provador, ela sorri para mim.

- Estou sensual, não estou?

- Nonna, você vai matá-los do coração.

- PerDio!— Ela faz o sinal-da-cruz, os olhos arregalados. - Cuidado com o que fala. A maioria das pessoas nessa festa já tem um pé na cova.

Quando estamos saindo da seção, a Nonna cutuca o meu braço e aponta na direção do salão de beleza da loja.

- Acho que eu devia aparar um pouco o cabelo.

Quase não consigo respirar de tão surpresa. O cabelo da Nonna cai até a cintura, e sempre foi assim. Até onde sei, ninguém jamais chegou perto dele com uma tesoura.

- Sabe que posso fazer isso para você. Mas ela recusa.

- Eu nunca estive em salão de beleza - diz ela com melancolia, e, de novo, eu entendo. Só que, desta vez, percebo sua ansiedade com uma luz diferente. Ela tem oitenta anos. O que não fez até hoje e desejar fazer, é melhor que seja agora.

- Vamos ver se eles têm algum horário disponível - digo. - E, sabe do que mais, talvez eu também corte um pouco este ninho de rato, já que estou aqui.

Algum tempo depois, estamos esperando uma mesa na única cafeteria em que a Nonna concordou em entrar em um raio de dez quartei­rões da loja em que estávamos.

- Deixa ver seu espelho de novo - diz ela com os olhos brilhando.

Sorrindo, procuro na bolsa meu espelho de mão. Em vez de apenas aparar alguns dedos, ela acabou ficando com apenas alguns dedos. E está absolutamente linda. Parece uma duende italiana. Inclusive as orelhas. Quem imaginaria que ela escondia essas orelhas enormes debaixo daquele cabelo todo? Mas, realmente, a Nonna não parece ter mais que 75 anos. E a moça do salão insistiu em acertar um pouco suas sobran­celhas e passar um blush claro bem de leve nas maçãs do rosto. A trans­formação é impressionante.

- Estou quase tão sexy quanto você - observa ela.

Ah, sim. Eu também fiz um corte radical no cabelo. Ainda pareço uma poodle, mas tosada. Com este pescoço enorme.

- Por aqui - chama uma recepcionista com uma quantidade exage­rada de rímel nos cílios, e somos levadas para uma mesa pouco ilumina­da no fundo do restaurante. E eu não agüentaria mais um segundo em pé. Escorrego no banco com um imenso suspiro e fecho os olhos, en­quanto minhas pernas registram que não estão mais me carregando por aí. Deus. Já tive orgasmos que não me fizeram sentir tão bem.

Minha mão esbarra em alguma coisa. Abro um olho e vejo um Post dobrado que alguém deixou no banco. Sem muito interesse, pego o jor­nal e passo os olhos no artigo que está diante de mim.

- E você - diz a Nonna, devolvendo-me o espelho -, o que vai usar nessa festa?

- Não tenho a menor idéia - respondo, distraída, e logo solto um grito sufocado. - Olha só! - Olho para ela. - A polícia pegou o assassi­no de Jaken.

Leio em voz alta o artigo do jornal para a Nonna, enquanto ela masti­ga sem pressa um sanduíche de peru, sem reparar o queixo lambuzado de maionese. Preciso gritar mais alto que a barulhada do restauraria para que a Nonna meouça, mas, mesmo assim, não estou certa do quar­to ela de fato entendeu.

- O seu chefe, ele traficava drogas?

- Aparentemente, sim.

No final das contas, não foi um antigo amante, nem Kaede, a designer sênior descontente (cá entre nós, eu suspeitava um pouco dela), e nem um arquiteto. Apenas um assassino de aluguel com um karma muito ruim.

Não sei se compreendi todos os detalhes, nem quero. O que bate, ao ler isto, é a satisfação que sinto por Sesshomaru. E orgulho. Ele ate citado, em algum lugar aqui, com alguma coisa sobre agradecer à comunidade pela cooperação. Você acha que talvez isso me inclua?

Depois que aquilo passa, contudo, sinto que consigo livrar-me culpa. Isto é, por não ter me sentido pior sobre o que aconteceu com Jaken. Não que ele merecesse morrer. Mas não estou certa se merecia viver. Desculpe, mas drogas me apavoram. E as pessoas que usam - ou vendem - me apavoram mais ainda. O que provavelmente explica o fato de eu não ser convidada para muitas festas.

Exceto para aquelas em que a média de idade dos convidados é 85.

- Devia telefonar para ele - diz a Nonna, enquanto tenta tirar com a língua um pedaço de alguma coisa da ponte que tem nos dentes.

- Quem?

- Sesshomaru. Para cumprimentar. Per Dio!... — Ela põe a mão dentro da boca, cutuca aqui e ali por um minuto, até que desaloja um pedaço de peru grande o suficiente para fazer outro sanduíche. Balança o pedaço de peru mutilado para mim por um segundo e continua: - Seria sim­pático, sì?

Não vou fazer isso nem morta.

Quando chego em casa, flores estão à minha espera. Rosas verme­lhas. Três dúzias. O que eu deveria achar meio antiquado, se não muito lugar-comum. Em vez disso, minha respiração sai dos meus pulmões em um longo:

- Aaaah...

Minha mãe arranca o cartão da caixa e joga para mim.

-Talvez você devesse ver quem mandou antes de ficar tão contente... Ah, meu Deus! Cadê o seu cabelo?

- Em algum lugar próximo da 34 com a Broadway.

- E onde está a sua avó? Espero que não me dê a mesma resposta. Ainda estou admirando as rosas muito bem acomodadas na caixa forrada com papel de seda.

- Falando com o porteiro. Vai subir depois.

- Você a deixou sozinha? - Abbe voa para a porta, abre e esquadrinha o hall.

- Tenha paciência, ela pode achar o caminho do elevador sozinha - digo, abrindo o cartão.

Minha mãe volta para perto de mim pisando forte e me dirige um olhar de repulsa, presumo que porque a minha reação não lhe agradou.

- Pela sua expressão, deduzo que já sabe quem mandou - digo.

- E daí? Coloquei o cartão de volta no lugar, não foi?

É claro que foi Kohaku que mandou - você não achou mesmo que isso fazia o estilo de Sesshomaru, não é? - mas não há nenhuma frase, nada. O que é estranho, bizarro, mas também intrigante.

- Quer dizer que o homem pode pegar um cartão de crédito e enco­mendar um punhado de rosas - diz Abbe. - Grande coisa.

Não digo nada, pego as rosas e saio para procurar um vaso. Ao perce­ber que estou indo para a cozinha, Geoff me acompanha, sempre espe­rançoso.

- Espero que não esteja pensando em retomar aquele relacionamento.

Finjo que não ouvi por causa do barulho da água correndo. Não estou pensando em nada, de verdade, a não ser na beleza dessas rosas e no fato de não saber que gostava tanto de gestos românticos tão lugares-comuns. No final do corredor, ouço minha avó voltar, e mi­nha mãe exclamar:

- Ah, meu Deus! O que aconteceu com o seu cabelo?

Minha bolsa, inocentemente jogada na mesa da cozinha, de repente toca. Geoff, que parece ter me confundido com a Nonna, late para mim até eu atender o telefone.

- Srta. Petrocelli? Aqui é Dana Alsworth da Alsworth Interiors. Teve uma entrevista conosco há algumas semanas, lembra-se?

Você precisa ouvir esse sotaque sulista para acreditar. Nascida e cria­da em Dallas, Dana Alsworth casou-se com um homem do norte há uns trinta anos e levou o sotaque para o norte, juntamente com o conjunto de malas Gucci. Reprimi o impulso de responder com um "Sim senhora?" bem arrastado, mas acabei optando por um simples "Sim?"

- Bem... - Uma risada superficial, levemente nervosa, vibra pela telefone. - Parece que você trabalhava com Annabelle Souter... quando estava na Fannings?

- Sim, eu trabalhava. Ela era uma das minhas melhores... (leia-se: gastava o dinheiro do marido como se não houvesse amanhã) clientes.

- Bem, querida, ela nos trouxe um projeto algumas semanas atrás, e, desde então, fez gato e sapato dos meus melhores designers. E agora está dizendo que só quer trabalhar com você.

Um pequeno zumbido de excitação começa a produzir um ruído surdo nas minhas veias.

-Ah, puxa. Fico muito lisonjeada, mas... estou trabalhando em ou­tro lugar.

- Onde? - vem a reação imediata. Informo, ela dá um risinho para disfarçar e diz: - Diga o seu preço.

Gosto da maneira como essa mulher pensa.

- Annabelle pode ser um pouco... diferente — digo.

Isso provoca uma estridente risada nervosa do outro lado.

-Ah, meu Deus, querida, se você é tão talentosa quanto é diplomáti­ca, vale o seu peso em ouro 24 quilates. Por isso, repito - diga-me quan­to quer, e terá. Aliás, Srta. Petrocelli, se você consegue lidar com essa mulher, vou ter uma reforma de um hotel no centro da ilha que pode ser perfeita para você.

- Qual?

Ela diz. Já estou babando. Também sei o tamanho do projeto da Souter. Mil e duzentos metros quadrados na ilha. Annabelle gosta de "renovar" a casa a cada três anos, mais ou menos. E não estamos falando de jogar algumas almofadas novas no sofá.

- Vou precisar do meu próprio escritório. E de uma assistente. -Terá.

- E com um ano de casa quero ter participação na sociedade.

- Bem, meu, meu... você é bem atrevida, hein?

- Tanto melhor para lidar com as Annabelle Souters da vida, Sra. Alsworth.

Ela solta uma profunda gargalhada.

- Querida, você tira essa mulher infernal do meu pé, e terá parti­cipação na sociedade em seis meses.

- Então você tem uma nova designer.

O alívio de Dana foi palpável, mesmo pelo telefone.

- Telefonarei para ela imediatamente. Se já trabalhou com a Sra. Souter...

- Três vezes, incluindo as salas da firma de advocacia do marido e a cooperativa da filha, em Riverside Drive.

- E ainda parece ser uma pessoa sã.

Nesse exato momento, minha mãe e a Nonna entram na cozinha.

- Acredite, tenho muita experiência em lidar com mulheres loucas. Ambas me fitam furiosas.

- Então... posso marcar para segunda-feira?

Nossa... hoje é quinta-feira. Será que três dias são suficientes para avisar a loja sobre a minha saída? A loja onde a cliente (se ela conseguir achar o caminho para o sombrio pequeno estúdio de design) écercada por meia dúzia de designers como baratas atrás de um pedaço de pão. Medito sobre isso durante, ah, uns três segundos, e digo:

- Está bem.

- Que Deus a abençoe, querida. Só não deixe de chegar um pouco mais cedo para podermos preencher aquela papelada maçante.

Meu telefone emite sons estranhos, um aviso para desligar porque precisa ser recarregado. Assim, ligo o meu preciosinho na tomada, pego minha mãe e danço com ela pela cozinha, com Geoff latindo aos nos­sos pés. Finalmente estou conseguindo ter a minha vida de volta! Terei dinheiro de novo! Meu próprio apartamento de novo! Meu próprio banheiro! Um ambiente livre de aves!

Só que, depois de falar isso tudo durante vários minutos, vejo a ex­pressão nos rostos da minha mãe e da minha avó. Aquele olhar que diz"Estou tentando ficar feliz por você porque é isso que você quer mas..." Sabe, aquele olhar que a faz sentir-se com cinco centímetros de altura?

Mas sabe o que é mais estranho?

Acho que eu também não estou tão feliz com isso quanto deveria estar.

Tive que telefonar para Kohaku e agradecer pelas rosas. Sim, fiz isso não me olhe desse jeito. Não é que tenha sido fácil. Quando finalmente reuni coragem para ligar, meu estômago tinha dado um nó. Um momento difícil que só piorou quando ele atendeu de imediato:

-Alô?

- Ah! Ahn... Kohaku? Hum, oi, sou eu.

Um exemplo impressionante de educação sob pressão, não acha?

- Rin? - Uma pausa. - Sinto muito, querida, não reconheci o número no meu identificador de chamadas, e tenho recebido tantos clientes ultimamente...

- O quê? Ah, sim. É o telefone de casa. O telefone da casa da mi­nha mãe, já que eu não tenho um. Precisei recarregar a bateria do celular e tive que usar este, por isso o número não é o certo...

Nossa. Pareço uma idiota, você não acha?

- Bem, não importa. Telefonei para agradecer pelas flores. São lindas.

Juro que não sei como isso aconteceu, mas... bem, em meio mi­nuto, entramos naquela camaradagem que tínhamos, colocamos um ao outro a par das nossas vidas - bem, eu o coloco a par da minha pelo menos - o que, por sua vez, me leva a contar sobre o meu novo emprego, que de algum modo o leva a me convidar para jantar e comemorar.

Sentada aqui na minha cama, com a cabeça do cachorro no colo, e o galo fazendo barulhos muito estranhos no final do corredor, penso, hmmm, não, eu realmente não devia. Uma boa conversa ao telefone é uma coisa. Mas um programa de verdade?

- Ah, não sei, Kohaku...

- É só um jantar, querida.

- Eu sei, eu sei, mas... - Suspiro. - Não quero que você pense que isso significa... alguma coisa, certo? Quer dizer, eu ia telefonar para você antes de chegarem as flores, porque... eu preciso devolver o anel.

Calo-me e aguardo.

- Não precisa fazer isso - diz ele, com a voz um pouco tensa.

- Sim, eu preciso.

- Não, eu não quis dar a entender aquilo. É só que, hum... - Ele pigarreia. - Olha... mesmo que... aconteça de nós voltarmos a ficar jun­tos - não estou pressionando, veja bem, é só se, está bem? - sob essas circunstâncias, não acho que fôssemos querer o mesmo anel, concor­da? De qualquer modo, acho que...

Reparou como ele saiu falando sem que eu tivesse chance de dizer alguma coisa?

- ...não espero que você volte a usar aquele anel, de qualquer for­ma. Mas com certeza não o quero de volta. Faça o que quiser com ele. Venda, enterre, doe para a caridade, não me interessa.

Acho que perdi a voz.

- Olha, Rin, sei que você também gastou muito dinheiro com o casamento. Quem sabe isso pode compensar?

Droga, ele dificultando a minha objetividade.

- Nossa. Não sei o que dizer.

- Diga que vai sair para jantar comigo.

- Você joga sujo, Munson.

Ele ri.

- Já me disseram. - Depois, mais sério: - Sei que tenho que reparar muita coisa. E que, no fim, você ainda pode me mandar para o infer­no. Eu certamente mereceria. Por outro lado, como posso provar a você que pode confiar em mim, se não passarmos algum tempo juntos?

Está bem, hora do conflito. Por um lado, penso, ah, por que não? Principalmente se ele é a única pessoa que parece entender por que estou tão entusiasmada com esse emprego. E é só um jantar, convenhamos.

Mas estou pronta para isso? Para passar por uma segunda chance com alguém que despedaçou meu coração? Quero acreditar nele. De verdade. Mas agora estou traumatizada e não tenho certeza se conseguirei.

Mas, ah, como eu gostaria.

Nossa. Agora sei como Kagome se sente.

No caso meu e de Kohaku, contudo, há todo esse passado que não pos­so apagar sumariamente. Quero dizer, a nossa relação era fácil, não davamuito trabalho à cabeça. Pelo menos, foi assim antes. Veja o que acontece com a maioria dos homens com quem você sai: você sempre acaba a noite exausta só por tentar descobrir qual é o seu papel, o que elesquerem e o que eles estão pensando. Se encosta neles, acidentalmente quando estão andando, eles entendem isso como um convite. Ou, se você sugere fazer alguma coisa que poderia, até remotamente, ser interpretada como um compromisso futuro, eles adotam aquela expressão de alguém que acabou de saber que seus órgãos genitais se autodestruiriam nos próximos vinte segundos. Pois bem, de algum modo, nina foi assim com Kohaku.

Estar com Kohaku era fácil. Agradável. Eu sabia, praticamente desde a primeira vez, que podia confiar que ele seria simplesmente o Kohaku. Nunca passei pela sensação de ele experimentar ser um personagem diferente, como acontece com a maioria dos homens, tentar ser o que ele achasse que deveria ser, ou o que pensasse que eu queria que ele fosse... E aquilo era bom. Talvez não pareça muita coisa, mas, para mim, era o céu. Kohaku me compreendia, entendia o que eu precisava. Quem eu precisava ser.

Diferente de estar com alguém como, digamos, Sesshomaru, que me man­tém no limite o tempo todo; exigindo coisas de mim que nem sequer consigo identificar, que dirá fazer.

Exigia, devo dizer. Passado.

- Está pensando demais - diz Kohaku, com um sorriso na voz.

E ele está certo. Estou.

É só um jantar.

- Segunda depois do trabalho? - sugiro.

Ao dizer isso, posso ouvi-lo suspirar aliviado no outro lado da linha.

Você sabe quanto tempo leva para ir de metrô da Rua 116 com a Broadway até o Brooklyn?

- E então - pergunta a Nonna aos berros -, vai mesmo sair com aquele Kohaku de novo?

Isso responde a pergunta?

Estamos na plataforma na Rua 14 esperando o trem L. A última perna da jornada. Estou muito consciente de que o ar, no momento, está repleto de bilhões e bilhões de vestígios de células mortas descar­tadas pela pele.

- Sabe, você está linda - comento, puxando a manga de seu vesti­do novo.

- Não mude de assunto. Por que faz isso? Por que se deixa envolver numa situação que fará você sofrer de novo, hein?

Abaixo-me para sussurrar bem dentro do ouvido dela, cuidando para não enganchar meus lábios no brinco de pedra que imita diamante do tamanho de uma calota de carro.

- Não estou me deixando envolver em nada. E só um jantar.

Ela torce a boca, desgostosa. Uma mensagem em voz distorcida explode aos berros por toda a estação. Os anos de prática me permitem decifrá-la.

- Droga. Faltam dez minutos para chegar o próximo trem. Venha, vamos sentar.

Conduzo a Nonna até um banco próximo; conseguimos espremer nossos bumbuns nos dois últimos lugares vazios e abraçamos as bolsas sobre o colo.

- Sei pazza! - resmunga ela.

Eu suspiro. Sim, devo estar louca. Também sei que isto não vai desa­parecer só por evitar falar a respeito. Portanto, apesar da audiência de cerca de mil pessoas, decido explicar o que Kohaku e eu tínhamos - talvez ainda tenhamos - e concluo dizendo:

- Ele me fazia sentir segura, Nonna. Que mal há nisso?

- Segura? Pah. Se quer segurança, compre um são-bernardo. - Ela me olha de soslaio. - Você quer um uomo que vai excitar você, despertai seus humores.

Estou ruborizada.

- Não se preocupe. Kohaku faz meus humores funcionarem muito bem. A Nonna como que bate no ar entre nós duas.

- Não é sobre isso que estou falando. - Ela se vira para mim e tenta sussurrar, sem conseguir: - Qualquer coisa com mão e boca pode desper­tar esses humores. Algum dia. talvez eu conte a você sobre sua nonna e Graziella Zambini, pouco antes da guerra.

Ao lado de pelo menos outras doze pessoas, fito minha avó por al­guns instantes, depois sacudo a cabeça e digo:

- Não estou procurando nada excitante, está bem? Excitante me es­gota. Ei, o que está fazendo?

Ela pegou a minha bolsa e procura o romance que sabe que está dentro. Retira-o, olha para a capa e balança-o na minha frente.

- Você não quer excitante? Então por que lê essa coisa?

- É a minha válvula de escape, Nonna. - Tiro o livro bem manusea­do das mãos dela e guardo de volta na bolsa. - Além do mais, isso é fantasia. Não é realidade.

A Nonna dá de ombros.

- Você me mostra uma mulher que não quer viver uma fantasia, e mostro a você uma mulher morta.

Vejo a senhora afro-americana ao meu lado sacudir com uma ria da silenciosa.

Felizmente, ouço o chiado do trem que chega na estação.

Juro, Kikyou parece duas vezes mais grávida que na última vez que a vi, há... o quê, duas semanas?

A casa cheira a molho de tomate e alho, bebida e charutos, e ao per­fume da Kikyou.

- São gêmeos - diz ela sorrindo, acompanhando o meu olhar que se volta para a sua barriga. - Meninos. Ai, ai! será que vou ficar com as mãos sempre ocupadas ou o quê? E, ah, Nonna, você está tão boni­ta que parece uma pintura! Venha cá e deixe eu lhe dar um abraço!

Está bem, se alguém me disser que a felicidade desta mulher é só fachada, que ela está só fingindo, darei um tiro na cabeça.

- Sua mãe não veio? - pergunta, lastimosa, a minha prima.

- Não estava se sentindo bem. Uma indisposição estomacal, parece.

- Ah, meu Deus... Espero que não seja nada sério!

Sacudo a cabeça, se bem que é a segunda vez em menos de um mês que minha mãe, que nunca fica doente, não se sente bem. Se não estiver melhor quando voltarmos, juro que vou levá-la para um check-up, nem que precise enfiá-la no carrinho de compras e empurrá-la até o hospital. A casa está cheia e animada, com vozes e risadas, e Frank Sinatra. Uma horda de crianças de cabelo escuro passa por mim, gritando e rindo. Quando Kikyou nos conduz à sala onde o principal da festa acontece, dou uma espiada na cozinha e vejo uma meia dúzia de mulheres peitudas que vagamente reconheço fazerem o que quer que mulheres acostumadas ao trabalho doméstico fazem nas cozinhas. Picar, misturar, e sabe-se lá o que mais.

- Muito bem, fiquem à vontade - diz Kikyou, ainda sorrindo. - A comida está na sala de jantar, vocês podem se servir.

A sala de Kikyou, no estilo reviveu, colonial, foi invadida por uma tri­bo de gnomos italianos, muitos dos quais parecem estar de porre, se bem que é provável que a aflição se deva à surdez desmedida. Meu tio-avô Mioga, contudo, aparentemente comeu o cereal esta manhã junto com uma dose dupla de alguma bebida energética.

- Nonna! - Seu sorriso é uma reminiscência misteriosa do sapo Caco, dos Muppets. Mas com dentes. Muitos e muitos dentes. Que compensam, de certo modo, os cinco fios de cabelo grisalho esticados na cabeça calva. Seus braços parecem compridos demais para o corpo disforme e frágil; não fosse pelos suspensórios, ele não conseguiria manter na cintu­ra as calças de poliéster xadrez verde-mofo-vômito. - Venha cá e dê um grande abraço no seu cunhado.

Eles mais ou menos cambaleiam em direção um ao outro e atraves­sam a sala forrada de bege de ponta a ponta, os braços precariamente estendidos, os mocassins de couro branco de Sal brilhando na luz dosol que entra pelas portas do quintal. Meio metro antes de se encon­trarem de fato, a Nonna avisa:

- Você encosta na minha bunda, você perde seus dentes.

Mioga produz um zurro asmático que passa por risada:

- Heh... heh... heh. Eu já perdi eles, há 33 anos. Então tarde demais.

Os dois se abraçam com cuidado para os ossos não quebrarem. Se bem que, mesmo assim, ainda conseguem fazer voarem longe os óculosde ambos. Separam-se em seguida com a mesma animação, um implicando com o outro.

Nossa. Já faz dez anos, pelo menos, desde que esses dois se viram No casamento de Kikyou. É estranho que, em todo o tempo que a conheci, a Nonna não tenha demonstrado que sente falta do seu antigo bairro. Vejo os seus olhos varrendo a multidão, a maneira como eles brilham quando esta ou aquela pessoa segura sua mão ou a abraça, e percebi ah, meu Deus, ela sente falta deles.

Mas então por que nunca disse nada? Abbe ou eu teríamos ficado felizes em trazê-la para visitá-los de vez em quando...

- Kikyou preparou uma festa muito louca, não foi?

Viro-me tão rápido que quase caio. Sesshomaru estende a mão e me prende pelo cotovelo. Meus mamilos imediatamente formigam.

Droga.

Ele observa meu cabelo.

- Gostei.

- Obrigada. - Franzo a testa. - Pensei que você estava trabalhando.

Ele dá de ombros e se encosta no alizar da porta, os braços cruzados sobre a camisa de malha. Desta vez preta, enfiada nos jeans pretos e macios.

- Resolvi tirar uns dias de férias. Depois que o caso foi resolvido, sabe?

- Aliás, parabéns. Li no jornal.

Seus olhos estão presos aos meus.

- Obrigado.

- Eu, hum, deduzi que não havia nenhum problema com, hum, a ração do cachorro?

Sua expressão não muda.

- Não apareceu nenhuma indicação.

Aceno ligeiramente a cabeça.

- E como vão as coisas? - pergunta ele.

- Ah... bem, na verdade. Consegui um novo emprego que parece que vou gostar.

- Ah, isso é ótimo. E o... como é o nome dele?

- Kohaku?

- É. Kohaku. Você deu um chute nele?

Eu poderia mentir. Deveria, talvez.

- Não exatamente.

Sesshomaru não parece surpreso. Na verdade, ele não parece nada.

- Quer dizer que vai voltar para ele.

- Como você passa de "não exatamente dar um chute nele" para Voltar para ele"?

Ele afasta o olhar, sacode a cabeça, dá um meio sorriso. Uma daque­las expressões masculinas, sabe? Depois, aproxima-se de mim e sussur­ra no meu ouvido:

- Você pula fora da minha cama como se ela estivesse cheia de pul­gas, depois eu vejo esse camarada no seu apartamento com cara de que seu cachorro acabou de morrer. E, depois, vejo como você está. Acredite, não é preciso ser um gênio para juntar as peças.

Passo a língua nos lábios, tentando ignorar as batidas do meu coração. Veja, era sobre isso mesmo que eu estava falando, a maneira como homens comoSesshomaru sempre colocam você na defensiva, de algum modo. Você não pode simplesmente estar com eles, está sempre precisando se justificar.

- Nós namoramos durante quase um ano, Sesshomaru. - Desvio o olhar reservo minha avó cambalear pela sala, divertindo-se como nunca.

Olho de volta para Sesshomaru. - Preciso dar uma chance a isso. Dar uma chance a ele. Sou assim.

- Você ama esse cara?

- Amei.

Ele me olha assustado.

- Amou?

- Ei, ele me fez sofrer. Não estou negando isso. E, francamente, não sei bem o que sinto por ele. Sobre ele. Mas não posso simplesmente... afastar-me dele, está bem?

Aqueles olhos muito âmbar mantêm os meus presos aos dele por lon­gos instantes mais, depois ele faz exatamente aquilo.

Droga.

Esses velhinhos sabem mesmo se divertir. Duas horas mais tarde, ainda estão animados, mexendo seus traseiros magros ao ritmo do suingue e empanturrando-se de comidas que não deveriam comer, provavelmente, e rindo. Ah, a risada. Ah, sim, ocorrem umas discussões ocasionais para atrapalhar - alguém que lembra de alguma ofensa ou outra acontecida há quarenta anos, coisas desse tipo - mas, na maiorparte, divertem-se a valer.

E, curiosamente, eu também. Dancei bastante (e se você ainda passou pela experiência de aprender a dançar o suingue com um homem de oitenta anos que bate na altura dos seus seios, então você não viveu) e, em geral, tentei esquecer todas as formas de vida com pênis eu com menos de quarenta anos de idade.

Mas, finalmente, os velhinhos me levam à exaustão, obrigando-me a procurar refúgio na sala de visitas da Kikyou, onde ela está recostada no sofá, com os pés em sandálias sobre a mesa de centro. O mau dos filhos dorme ao seu lado, com a cabeça no que sobrou do seu colo. As bochechas dele estão cor-de-rosa de tão coradas, e a boca, entreaberta o suficiente para ele emitir os sons do ronco suave. Kikyou, com um sorriso sereno nos lábios, brinca com seus cachos.

Sento-me na cadeira reclinável em frente a ela. Ela olha para e seu sorriso se amplia.

- Só posso esperar ter a mesma energia quando tiver a idade deles.

- Eu acho que terá - digo, e ela ri. Tomo um gole da Coca Diet que tenho nas mãos há uma hora e fito a sua barriga com admiração. - Então. Acha que você e Bankotsu ficarão nesses?

- Ê - diz ela num suspiro. - Está na hora de fazermos o que metade dos casais católicos férteis faz, e ignorar o Papa. Já está mais do que bom, com seis filhos. Ela recosta a cabeça no sofá. - Mas as crianças estão muito entusiasmadas com os novos bebês. Ontem, os dois mais velhos me ajudaram a pegar as roupas de bebê que estavam guardadas. - Outra risada. - Não que tenham ficado guardadas por muito tempo!

- Você não se importa de ter tantos filhos?

Ela olha para mim, como que surpresa.

- Me importar? Por que me importaria?

- Não sobra muito tempo para fazer qualquer outra coisa.

- Outra coisa...? Aaah, entendi. Olha, Rin, eu não sou como você, sabe? Nunca fui muito boa na escola, na verdade nunca quis ter uma car­reira. Isto é tudo o que eu sempre quis, ser mãe, ser esposa. O que mais eu poderia querer, hein? - Ela olha de novo para o bebê e acaricia seu rosto.- Talvez a minha escolha não seja politicamente correta ou o que quer que você queira chamar, mas é a minha escolha. Sou feliz com ela, e, francamente, não me importo nada com o que os outros possam pensar.

Após um momento, digo:

- E então, como se sente sendo a única mulher do planeta livre de conflitos?

Kikyou assobia.

- Muitíssimo bem, se quer saber a verdade. - Depois, ela franze a testa. - Sesshomaru me contou que você está voltando com o seu namorado?

Eu suspiro.

- Eu não disse isso, e Sesshomaru sabe. O que eu disse foi que preciso dar uma chance.

Ela aperta os olhos.

- Querendo dizer o quê, exatamente?

- Querendo dizer que vamos sair para jantar na segunda-feira. Ela retorce a boca, como se quisesse dizer alguma coisa mas está achando que é melhor não fazê-lo. E não existe a menor chance de eu encorajá-la. Depois, ela fala:

- Desde que você faça o que for vontade sua, Rin. Sabe o que es­tou dizendo?

Um telefone toca de dentro da pilha de bolsas ao lado do sofá.

- Deve ser o seu - diz Kikyou quando o menininho se mexe ao seu lado. - Ninguém mais tem celular.

Penso em não atender - quem pode ser? -, mas a curiosidade não me permite ignorá-lo. Assim, levanto, apalpo uma montanha de bol­sas de couro sintético com fechos chamativos até que encontro a minha; fiel bolsa Coach e o atrevido e exigente telefone que ali reside.

- E Rin Petrocelli? - pergunta uma voz masculina, com um leve ar paquistanês ou indiano.

-Sim?

- Sou o Dr. Pahlavi. Estou ligando do hospital St. Luke's. Sua mãe está aqui na sala de emergência.

Meu coração sobe para a garganta.

- Ah, meu Deus! Qual é o problema? Ela está bem? O que...

- Por favor não se preocupe, Srta. Petrocelli. Sua mãe agora está estável. Descansando. Estamos fazendo alguns exames...

- Exames? Para quê?

Sinto a mão de Kikyou segurar a minha.

- Para descobrirmos qual é o problema, eliminarmos o óbvio. Prefiro não conversar sobre isso por telefone, mas a Sra. Petrocelli pediu você viesse...

- Sim, sim, claro... - Merda! - Mas eu estou no Brooklyn, devo morar um pouco. Ela está bem? Quero dizer...

O médico ri.

- Eu duvido que a condição dela possa representar algum perigo vida. Só estamos tomando medidas de precaução, você entende, por favor não se preocupe. Estamos cuidando muito bem dela. Chegue a hora que puder.

Viro-me e me percebo rodeada pela tribo de gnomos, e os preocupados da minha avó são os primeiros que vejo.

- Abbe está no St. Luke's, eles não querem me dizer qual é o problema... temos que ir embora, vamos para lá...

Uma mão forte e firme segura meu cotovelo. Olho dentro dos ambar determinados.

- Levarei vocês de carro - diz Sesshomaru.

Não estou em condições de discutir. Merda, não estou em condições de fazer nada. Se tivesse que voltar para Manhattan de metrô com a Nonna, não sei aonde iríamos parar. No banco traseiro, a Nonna reza o rosário com um fervor tamanho que levantaria um defunto.

- Não entendo. Abbe nunca fica doente. Nunca.

- Está tudo bem, querida - diz Sesshomaru numa voz baixa, calma. A voz que um policial usa para evitar que as pessoas se joguem de janelas. E eu sei que ele sabe que provavelmente não deveria estar me chamando de "querida", mas, neste exato momento, eu realmente não me impor­to. - O médico disse que não era uma emergência, certo?

- Então p-por que ela foi para a s-sala de emergência?

- Rin. Respire. Não, não engolir em seco... respire.

- Droga! O que todos esses carros estão fazendo na rua? - pergun­to histérica. - Por que você não coloca a luz vermelha no teto do car­ro, liga a sirene, corre e passa na frente de todo mundo?

- Per Dio! - exclama a Nonna, que está arfando atrás de mim, e em seguida aumenta visivelmente a velocidade da recitação do rosário.

- Porque - diz Sesshomaru calmamente, parando em um sinal vermelho - isso seria abusar da minha posição.

Cruzo os braços e o encaro com raiva.

Cerca de meia hora depois, adentro a emergência do St. Luke's como uma louca, a Nonna cambaleando atrás de mim, e Sesshomaru na retaguarda.

- Procuro por Abbe Petrocelli! - praticamente grito para a pobre enfermeira, ajudante ou o que quer que ela seja na recepção.

Ela nem sequer levanta os olhos.

- Descendo o corredor, a segunda sala de exames à sua direita. Atravesso voando o corredor e entro na dita sala para encontrar minhamãe de pé, vestida, e parecendo ligeiramente... atordoada.

- Abbe! O que aconteceu? Você está bem? Eles telefonaram e disseram que estavam fazendo uns exames...

Ela leva a mão ao coração.

- Cristo, Rin, como chegou aqui tão rápido?

- Sesshomaru estava lá na festa. Ele nos trouxe.

Estamos as duas abraçadas, ela acaricia meu cabelo e tenta me tirar do meu ataque de ansiedade.

- Está tudo bem, bubelah, está tudo bem...

Epa. Acho que nunca a ouvi me chamar assim.

Recuo, olho nos olhos dela.

- O que há... de errado?

Um sorriso estranho aparece nos seus lábios.

- Eu disse que o meu estômago estava me perturbando, certo? Pois bem, fiquei tonta, e pensei, está bem, isso é bobagem, mas não vai doer ir ao hospital, ver o que está acontecendo. Quero dizer, só para garan­tir, certo?

Ela pausa. Enlouqueço de medo e nervoso.

- Ah, meu Deus, é o seu coração, não é? Precisa operar? O que...?

- Não, querida, não éo meu coração. Sinto um alívio correr o meu corpo, imediatamente seguido de um temor ainda pior.

- Ah, merda! É... é...?

- Rin, pare. Estou perfeitamente saudável. Na verdade, m mais saudável do que pensava.

O que é essa expressão estranha no rosto dela?

- Está bem. Estou perdida.

Minha mãe me entrega uma coisa. Uma foto... de...

De...?

Meus olhos lançam-se para ela. Ela sorri para mim hesitante.

- Parabéns, bubelah. Você vai ser a irmã mais velha.