O Rei não queria falar com ninguém, muito menos com toda a multidão que o cercava enquanto adentrava Porto Real rapidamente, cavalgando na frente dos seus cavaleiros e amigos. Muitas pessoas festejavam a volta de um Targaryen ao Trono de Ferro e outras estavam curiosas, a maioria delas queria ver o Rei, como sempre. Porto Real era assim, gente de todos os lugares, curiosos de todos os cantos e fofoqueiros de todos os becos. Mas Rhaegar, com Jon no colo protegido do sol por um lenço de seda vermelha, cavalgava como se estivesse sozinho, em um campo aberto e um horizonte cinzento. Era assim que ele se sentia.

Todos os seus amigos, Arthur, Oswell, Gerald, Oberyn, Barristan... todos eles estavam em silêncio pela tristeza do Rei.

Rhaegar nunca se sentiu tão deprimido em toda a sua vida, não tinha com quem lutar ou queimar, muito menos torturar, então o que fazer quando os deuses resolvem tirar a vida de uma menina que cruzou toda Westeros para fazer um tratado de paz?

Ele não estava pra ninguém.

Oberyn matou muita gente ali, mas não importava. Eles sabiam o que tinham que fazer, já começando a limpar a bagunça que Porto Real estava. Não estava muito bonito, o cheiro de queimado tomava conta da cidade e as pessoas passavam fome, mas era o seu lar.

Mas porque ele não sentia que aquilo era um lar?

Ajeitou Jon, o seu lobo-dragão, no colo enquanto descia do cavalo já nos estábulos da Fortaleza Vermelha. Analisou a face branca e em paz do seu filho, que tanto lembrava a sua Rainha Loba. Dormia exatamente do jeito que ela, pensou sorrindo internamente. Sorrir estava sendo quase impossível, apenas o fazia quando brincava com Jon. Rhaegar sabia que os olhos estavam fundos, mas procurava manter sua vida pessoal longe da política, era o melhor a se fazer... estava construindo o reino para o seu filho.

O Rei prometera para si mesmo, para os deuses e à Lyanna que faria com que Jon governasse Westeros como nenhum Rei governou, nem mesmo ele, Rhaegar Targaryen.

Mas primeiramente tinha que revezar as amas de leite, Jon tinha um apetite de dragão e apenas uma ama de leite não dava conta. Entrando na Fortaleza Vermelha, ele avisou aos seus cavaleiros brancos para verificar todo o castelo em busca de armadilhas esquisitas deixadas de vingança. Logo após, reforçariam a segurança de onde ficaria o quarto dele.

Jon dormiria em seu quarto. Rhaegar não perderia mais ninguém da sua família.

Ele recebera, há dois dias, uma mensagem de que sua mãe estava morta em uma cama de sangue.

Uma morte cruel para as mulheres que querem ver os filhos, mais cruel ainda para quem as ama de todo o coração.

Seus irmãos viriam assim que Daenerys terminasse de mamar, pelo menos no primeiro ano. Não arriscaria uma viagem turbulenta com uma recém-nascida que precisa de uma ama de leite. Não.

Rhaegar descartava tudo que fosse arriscado.

Seguiria a filosofia de Lyanna: nada de incestos.

Era assim que ela governaria ao meu lado.

Se dirigiu rapidamente aos aposentos do Rei, precisava acomodar o seu filho o mais rápido possível, deixaria-o confortável antes que sentisse a falta da mãe, o que vinha ocorrendo nos últimos dois dias. Rhaegar sabia que o seu lobo-dragão sentia a falta da mãe, ele reconhecia aquele olhar cinzento de carência que Lyanna o lançava de vez em quando na hora que ele tinha que sair da Torre da Alegria para o conselho de guerra.

A ama de leite já estava lá, para o alívio do Rei.

- Amamente o Príncipe, eu ficarei aqui – ordenou friamente, assustando a menina que tinha os seios inchados de tanto leite contido. Era uma menina mesmo, deveria ter uns catorze anos no máximo e ali estava, dando leite para o Príncipe Lobo-Dragão. Era assim que Jon estava sendo conhecido em Westeros, assim como a sua Rainha Loba. No fundo, Rhaegar adorava ver o respeito que todos tinham por sua família, eles sabiam que o amor deles era verdadeiro e que o fruto, Jon, era confiável. Com uma mistura de Norte e Sul, quem poderia reclamar? Deu o seu filho à ela, meio que relutante, e sentou-se na cadeira em frente. Ficarei aqui, mesmo se outra guerra começar hoje, aqui ficarei – Quando terminar, me entregue meu filho e vá embora.

A menina assentiu imediatamente, tentando esconder o nervosismo.

Ele também não estava com paciência em ser muito delicado, como a cortesia exige.

Pelos deuses, eu estou passando pela pior fase da minha vida!

E ali ele ficou, observando o seu filho mamar com voracidade e arrancando um olhar carinhoso do pai.

Se fosse mulher, seria a minha lobinha em miniatura.

(...)

Ele sabia que Tywin Lannister estava preso na pior masmorra da Fortaleza Vermelha, sendo vigiado em turnos meus seus cavaleiros de manto branco. Rhaegar confiava inteiramente neles, pelo menos nos amigos ele conseguia manter este tipo de sentimento mas... em relação ao outros...

O Rei Dragão fez que, para a admiração das mães de toda Porto Real, sua rotina fosse praticamente igual ao do filho. Jon dormia no mesmo quarto que ele, acordava com ele, comia com ele... Rhaegar era tão zeloso que muitos vassalos reclamavam da falta de tempo do Rei, após alguns meses do término de guerra. Quando tinha que estar fora e não poderia levar o filho, o seu leal cavaleiro que protegeu a Rainha Loba durante a gravidez cuidaria dele.

Arthur Dayne. Ainda bem que sua família aceitou os presentes que mandei.

De vez em quando Rhaegar tinha que comparecer na cidade para garantir certos cuidados que deveriam ter, principalmente ao reconstruir o porto. Enquanto observava o que restou de um movimentado cais, a multidão o encarava mas não se aproximava mesmo se não estivessem sendo contidos pela patrulha da cidade. Eram olhares curiosos, ele sabia que muitos ali queriam saber sobre o herdeiro do Trono de Ferro para dar uma esquentada nas últimas notícias. Sorrindo internamente, Rhaegar percebeu o quanto o seu povo rejeitaria o viado. O povo não quer saber de guerras gloriosas, mortes honradas e conspirações.

Eles rezam por uma boa colheita e pela sorte de nenhum mal atingi-los.

O que é bem impossível.

Era estranho perceber quanto tempo havia se passado, e rápido, desde quando ele se fantasiava para xeretar o que tinha de novo no porto e nas feiras de estrangeiros e piratas. Era um menino aventureiro, que gostava de coisas novas e tinha um plano de continuar o reinado com uma família formada, estruturada e potencialmente frutífera para a sua dinastia.

Ele suspirou, exausto.

A vida dá um banho de água fria nos imaginários dos jovens.

Hoje ele está com toda a família morta, exceto por seu filho e irmãos mais novos, todos pequenos demais para saber o que significava o sobrenome deles. Uma tragédia sem fim, desde a morte de seus primeiros filhos, algo que ele evitava pensar, até a morte de sua Rainha Loba. Na realidade, o Rei se sentia desiludido com a vida que levava, apenas Jon, Viserys e Daenerys que conseguiam levantá-lo todos os dias para reconstruir Westeros.

Magíster Illyrio que estava cuidando deles enquanto Daenerys estivesse ainda em risco. Era um homem rico e poderoso das Cidades Livres que sempre foi muito ligado aos Targaryen, deixando o Rei aliviado pela contínua lealdade. A lealdade se tornou raríssima ultimanete e os Martell e Tyrell tinham várias questões a disputar, entre elas o Rochedo Casterly.

Dei à eles Ponta Tempestade, o que os Martell querem em Rochedo Casterly?

Coisa boa que não é.

Rhaegar conhecia muito bem a família da sua primeira esposa, tempestades de areia assim como o temperamento deles: quente, confuso e potencialmente perigoso. Oberyn continuava em Porto Real, mas ele logo sabia que tinha que mandá-lo de volta para Dorne. Pelo menos alguém tem que dar ordens firmes por lar.

De preferência um dos meus melhores amigos.

Jon reinaria.

Viserys seria mandado para Oberyn como protegido, já foi combinado.

Já Daenerys... se for um dragão como a mãe deles sentiu, dará um grande trabalho. As Targaryen sempre foram muito vingativas, lembrando bastante as mulheres de Dorne. O sangue das Cidades Livres e de Valíria era quente demais. A política matrimonial foi extinta por ele mesmo, assim permitirá com que ela se case com quem quiser. O único problema é por quem ela pode se apaixonar. Ele tinha receio que ela cresça com um complexo comum dos Targaryen: incesto. Rhaegar sabia que não poderia condená-la por isso, mas ele sinceramente rezava para os deuses que Jon e Daenerys não resolvessem se casar por política apenas para manter os Targaryen no poder.

Aquilo o mataria de desgosto.

Mas se apaixonassem propriamente, não haveria problema. Poderiam se casar.

Somos Targaryen, podemos cometer as loucuras que quisermos e tudo continuará normal.

- Pensei que ficaria com o Príncipe Jon durante a inspeção, Vossa Alteza – um cavaleiro desconhecido surgiu do nada, começando uma conversa gentilmente. Seus cavaleiros o observavam de longe, ficando lá até segunda ordem. Vários trabalhadores estavam espalhados pelo cais enquanto Oberyn dava ordens não tão gentis. Rhaegar não sabia se eram trabalhadores com quem Oberyn estava xingando, mas o tal cavaleiro, não tão pomposo quanto esperam ser, tinha uma postura nortenha. Na verdade, uma postura que o lembrava alguns vassalos dos Stark. Aí Rhaegar notou o óbvio: era um corvo – Sou o Senhor Comandante da Patrulha Negra, Vossa Graça. Perdoe-me por minha aparição brusca mas fui até a Fortaleza Vermelha e Vossa Graça não estava.

Ele fez a reverência habitual enquanto Rhaegar apenas o analisava. Era fácil ser frio e cauteloso com um coração de pedra como o dele.

- 'Urso Negro', é como é chamado, não? – perguntou Rhaegar, dando permissão para que ele chegasse mais perto. Era um achado. O Rei não teria que correr atrás da Patrulha da Noite para saber o que o Norte poderia estar fazendo. A Patrulha não toma partido... mas também não podem me ocultar informações – Creio que a viagem foi longa.

Ele assentiu imediatamente, recompondo-se da típica reverência. Parecia ser um homem duro, claro que o é, de uma ilha praticamente congelada chamada de Ilha dos Ursos. Daí vem o apelido de 'Urso Negro'... que daqui alguns anos viraria um 'Velho Urso'. Entretanto, Rhaegar sentiu uma peculiar afinidade com o Senhor Comandante, o jeito dele lembrava os Stark.

O mais curioso é que o Rei gostou de ver um remanescente Stark em Porto Real.

Jon precisa conhecer os Stark, talvez sentirá falta da família materna também.

O Rei queria a felicidade do filho em primeiro lugar.

- Sempre é, Vossa Graça.

Analisando mais aquele cavaleiro aparentemente sensato, o Rei permitiu-se uma nova atitude.

- Caminhe até a Fortaleza comigo – ordenou, como sempre. Um Rei dá ordens, como o seu pai sempre o ensisara. Se não ordena, não é um Rei de verdade. Quase que Rhaegar sentiu a voz do seu pai entrar em seus ouvidos. O nortenho assentiu imediatamente, mantendo uma postura defensiva que vários nortenhos tinham – Como que a Patrulha está?

- Precisamos de garotos, o Inverno foi muito cruel – respondeu em um suspiro, era óbvio que o Inverno acabara com eles. É a função do Inverno no Norte – Mas penso que um longo Verão chegará.

Esperança é o que move todo mundo. Principalmente lá naquele fim do mundo.

- Posso mandar homens, velhos, crianças... ? – Rhaegar já sabia o que faria, sorrindo internamente. Era tudo que Tywin Lannister não desejaria: o negro. Ele deseja a morte, não teme a tortura... mas teme a humilhação vivenciada dia após dia.

- Claro, sendo uma alma eu já fico incrivelmente satisfeito, Vossa Alteza – respondeu imediatamente, já um pouco surpreso com a rapidez da resposta, afinal, todos os Reis sempre dão um jeito de enrolar a Patrulha da Noite... mas como o meu tio está por lá... – Qualquer um. Podemos colocá-los como faxineiros, cozinheiros, patrulheiros e toda a sorte de tarefas, colocando uma alma lá, farei com que ela trabalhe muito.

Rhaegar assentiu levemente, pensando em sua pequena vingança.

O Norte terá que se preparar para receber Tywin Lannister.

- Devo escolher a função de alguns dos meus prisioneiros na Muralha, Senhor Comandante? – perguntou gentilmente, não é uma boa perspectiva pensar que um dos mais assassinos vivos em Westeros poderia acabar vestindo negro. Era uma humilhação que Jaime Lannister tinha horror de mencionar ao pai enquanto conversava com os corvos quando vinham em Porto Real.

- A fala de um Rei é a ordem, Vossa Graça.

Exatamente. Ordens são ordens.

- Tywin Lannister está aleijado... – ele ficará aleijado daqui a pouco - ...mas deve servir como aqueles corvos que vão de aldeia a aldeia procurando possíveis pretendentes da Patrulha lá no Norte, não é?

O Urso hesitou imediatamente, mas como um típico nortenho que é, soube disfarçar o choque muitíssimo bem. Aqueles olhos azul-claro passavam receio para o Rei, não sendo para menos. Coisas que nenhum corvo gostaria de receber mesmo em seu habitat natural.

- Tywin Lannister, Vossa Graça? – repetiu atônito.

Rhaegar assentiu levemente, caminhando lentamente com o Senhor Comandante ao seu lado.

Ordens são ordens.

- Ele está sem um braço... – ficará sem um braço - ...e não tenho vontade de torturá-lo já que toda a sua prole está morta e sei que ele implorará a morte antes mesmo de me ver. Por isso que posso dá-lo uma tarefa útil para todos: a Patrulha da Noite.

O Urso parou, pensou e concluiu.

Assim que se monta um reino: humilhação em cima de humilhação, caríssimo nortenho.

- Como um aleijado não é ninguém no Norte, não tenho dúvidas que Tywin Lannister odiará a Muralha... – começou pensativo, caminhando um pouco mais devagar e deixando o Rei sem paciência. Jon está me esperando... - ...mas posso pedir que ele tenha uma canela a menos, Rei Dragão?

Não conseguiu conter um sorriso ao notar que o Norte não seria tão ruim assim de se contatar futuramente. Foi um sorriso discreto, quase imperceptível, mas uma grande evolução depois de oito meses de luto de sua Rainha Loba. Mas estou perdendo muito tempo com assuntos mínimos, preciso ficar perto do meu filho e essas questões, que foram feitas para uma Mão, insistem em me perseguir. Oberyn não era nenhuma Mão e teria que voltar para Dorne, sem contar que Viserys iria crescer com ele.

Os seus cavaleiros de manto branco, bem, são cavaleiros de manto branco.

Não colocaria nenhum outro.

Agora vejo como é difícil não ter uma Mão.

Principalmente uma que eu possa confiar.

- Concedo-lhe este pedido, Senhor Comandante – respondeu um pouco aliviado, a presença de vassalos Lannister na Fortaleza Vermelha sempre o deixava receoso quanto à perigos que Jon poderia correr perto deles. Já Rhaegar não preocupava consigo, apenas queria ver o filho bem. E para isso eu preciso de uma Mão confiável – Mas agora eu devo fazer um pedido à você.

Iria demorar até chegar à Fortaleza Vermelha e Rhaegar não queria demorar muito neste assunto que o assombra, mas que pode ser a melhor escolha a se fazer.

Sangue é sangue.

- O pedido de um Rei, é uma ordem, Vossa Graça.

Analisou bem aquele figura ao seu lado.

Não era tão novo assim, era bem mais velho que Rhaegar e parecia estar na Patrulha por algum incidente, sempre são incidentes. Exceto o irmão mais novo de Lyanna, ele foi porque quis. O Rei não entendia essas vontades esquisitas de congelar e nunca assumir um filho. Eles não tem liberdade para amar.

Não estava tão receoso quanto ao último 'pedido'.

O coração do Rei batia um pouco mais rápido, era drástico e sabia que surpreenderia toda Westeros.

- Diga ao Lorde Stark que quero-o em Porto Real.

N/A: Pois bem, foi um capítulo mais light, mostrando o sofrimento e falta de capacidade do nosso querido Rhaegar em superar a morte da sua Rainha Loba, e digo mais! Ele não superará porque eu sou má! :D obrigada pelos comentários, como estou com pressa, nem posso olhar seus nomes, mas geralmente são as mesmas e as VIP's ;) beijos!