ele me prostou por terra;
relegou-me para as terras dos mortos.
Desfalece-me o espirito dentro de mim,
Gela-me no peito o coração."
(Salmo 142)
XIV CapítuloAs ruas de Pequim estavam cobertas por uma extensa camada de neblina. Poucas pessoas tinham coragem de sair de suas casas. Até mesmo as prostitutas já não admitiam ficar na rua. Muito pouco se sabia sobre o plano do grupo, mas já se tinha a idéia de que algo extremamente grave estava para acontecer.
Nas ruas havia um misto de medo e revolta, alguns queriam a morte dos estrangeiros, outros, o que representava a parcela cristã da população, temiam a violência e já fugiam da grande capital. Naquele dia mesmo um dos jornais mais famosos de toda a China, o qual era extremamente censurado pelos Yijetuan, que o julgavam como uma fraude, um meio de comunicação que só visava espalhar o terror e sujeira inglesa por toda China meridional e central. Em uma das manchetes, o governo inglês condenava os ataques dos Boxers, os quais eles chamavam de bárbaros orientais e prometiam ressarcir as famílias dos soldados e missionários mortos.
- Desgraçados...- Shoran praguejou jogando o jornal em cima da mesa do avô. – Desgraçados! Como quero pegar esse jornal e esfregar a prepotência deles no rosto de cada general inglês!
- Calma, meu neto. - Tshao falou com o rosto fechado, como se estivesse perdido num imenso mar de contemplação. - Tu não vês que isso só demonstra que eles estão morrendo de medo de nossa revolta?
- Mesmo assim, senhor. - ele disse acendendo um cigarro. - O que o mundo está pensando de nós... Um bando de "Bárbaros" sem sentido que mata por prazer de matar? Isso não é certo!
- Shoran, há muitas injustiças no mundo... Não seremos os primeiros e nem os últimos a ter os objetivos distorcidos por um grupo de corruptos. - Chao falou andando de um lado para outro. - Mas isso não irá tirar o apoio que temos de nossa nação e nem da nossa imperatriz.
Shoran não tinha a mesma certeza. Alguma coisa lhe dizia que o sitiar de Pequim não seria nada mais e nada menos do que um mar de sangue. E no final, quem sairia por baixo seriam eles... O grupo de "Bárbaros" como o jornal britânico dizia.
- Então o que temos que fazer? Reagir a esse ataque à nossa moral matando a nossa prisioneira ou abaixar a cabeça e esperar o cerco das embaixadas? -Chao falou maldoso. - Não hesitarei em estourar os miolos daquela beldade japonesa.
Shoran sentiu o peito se apertar. Sakura seria morta por causa de uma reportagem sensacionalista inglesa. Não... Ele não iria deixar isso acontecer. Morreria, mas não a deixaria sofrer por um crime que não havia cometido.
- Eu te mato se você fizer isso Chao. - Shoran falou nervoso.
A declaração desesperada de Shoran chamou a atenção das pessoas que estavam na sala. Ali as palavras de Shoran soaram como uma bomba...
- Como...?- Chao falou virando-se para Shoran. - Repete novamente, Shoran... Você está me ameaçando por causa daquela vadia!
Não iria abaixar a cabeça. Naquela hora a vida de Sakura era mais importante do que tudo... Chao, ali, era a voz maior. Acima dele somente Tshao, mas naquele momento não temia a fúria de Chao... O que temia era pela a vida de Sakura.
- Sim, é isso mesmo que você ouviu, Chao. - ele falou encarando o primo com ódio. – Eu te matarei se você relar as suas mãos num fio de cabelo da senhorita Kinomoto.
Tshao escutava tudo em silêncio. Shoran mais uma vez estava mostrando seu lado impulsivo... Como ousava defender a moça na frente do conselho? Aquilo era burrice, ele já devia saber que nada iria acontecer com a jovem enquanto ele ainda estivesse vivo.
- Essa é boa! - Chao falou gargalhando. - Certo, então vamos resolver nosso problema agora querido primo...
Aquilo já era demais, estava cansado do comportamento daqueles homens, que naquela hora não deixava de ser um bando de crianças brigando por causa de um doce.
- Cale a boca, Chao! -Tshao interrompeu falando forte. - Ninguém vai matar ninguém aqui. Já temos baixas demais para perder dois guerreiros como vocês. - disse olhando para Shoran. - E você meu jovem segure sua língua se não, não durará por muito tempo.
Shoran engoliu seco. Tinha que admitir que agira por impulso. Justo ele que sempre fora lembrado por ter nervos de aço, de nunca ter perdido o controle. Agora havia perdido a cabeça por causa de uma garota... Estava mal, assim não poderia ficar.
- A senhorita Kinomoto viajará amanhã como já estava programado. - Tshao voltou a falar alto. - Como já estava programado. - concluiu não admitindo réplicas de Chao. - Espero que essa discussão esteja encerrada, pois ainda temos muitas coisas para resolver...
Mesmo pondo panos quentes na discussão de Chao e Shoran, uma coisa entre os dois haviam se partido. A amizade deles já não era mais tão forte como era antes. Isso não era culpa de Sakura e sim do tempo e no que o seu primo havia se transformado: em um mercenário sem escrúpulos.
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Sakura estava sentada na mesma cadeira durante horas. A noite estava fria e gelada, como na noite passada...Parecia uma eternidade até então. Aos poucos ia se conformando com a situação, percebera que não ganharia nada desobedecendo Shoran, pois se o quisesse a seu lado para sempre, teria que estar pronta para obedecer a ele. Na verdade Shoran era o único que podia confiar ali...
O silêncio a estava deixando louca. O seu sofrimento era muito grande, mas já não tinha vontade de chorar, nunca iria demonstrar a dor que sentia. Desde muito pequena aprendera sofrer em silêncio... Naquela época, apenas a Bíblia era seu consolo e uma de suas passagens favorita era.
Os teus olhos verão coisas estranhas,
Teu coração pronunciará coisas incoerentes.
Era isso que estava acontecendo com ela. Estava vendo um amor que nem podia imaginar nascer, mas o seu coração já estava tomado por esse amor... Um amor que iria ter o mesmo destino que ela.
"Por que o senhor me deste um futuro tão cruel... Justo eu que de tão prudente e obediente a meu pai renunciei aos sentimentos do amor. Vim para essa terra que de tão rica causa cobiça, apenas para obedecer as ordens de meu pai. Agora me vejo perdida amando um homem que para mim é proibido", pensou ela fechando o livro sagrado. Ouvindo o barulho da porta sendo aberta, seu corpo tencionou ao imaginar que poderia ser Shoran, mas logo viu que era apenas a senhorita Mizuki entrando com uma bandeja na mão.
- Olá, Sakura...- ela cumprimentou sorrindo. - Pelo visto já tomou seu banho. Espero que esteja melhor agora!
- Sim, me sinto mais confortada fisicamente, mas... Ainda me sinto...
- Eu sei, como se algo oprimisse seu peito. -ela cortou triste. - Isso é normal, você passou por momentos muito difíceis. Bem, eu lhe trouxe o jantar... Sei que isso é obrigação de Shoran, mas ele está numa reunião importante com meu amo... E não pode vir. - informou sorrindo.
Sakura sentiu o estômago reclamar, o que era estranho, pois havia comido muito mal a refeição que Shoran havia lhe trazido há horas atrás. Como sua vida estava mudada... Muitas coisas inacabadas, várias coisas surgindo do nada. E ela, para piorar, apaixonada... Era difícil esquecer o sabor dos lábios dele, mas era impossível beijá-lo novamente.
Agora restava apenas a esperança de que alguém viesse salvá-la. Queria sair logo daquele inferno. Queria ir para bem longe onde nunca mais ouvisse falar o nome de Shoran Li.
Touya se esgueirava sobre a tubulação mal cuidada de Pequim. Ali os únicos seres com vida eram os ratos e os parasitas, mas esses estavam mais preocupados em arranjar comida do que com ele. Com a respiração ofegante por causa do ar rarefeito do local, tinha a tarefa de atravessar toda a cidade até chegar no bairro onde ficavam as embaixadas, e ali se encontrar com o general Yukito Tsukishiro. Que era o comandante japonês na região.
- Droga...- praguejou, sentido-se desconfortável naquele esgoto. A última vez que andara por ali quase havia pegado uma doença infecciosa, se não fosse Kaho talvez nem com vida estaria.
Kaho... Ainda se sentia incomodado com a discussão que haviam tido. Era óbvio que o seu ciúme havia falado mais alto naquela hora. Fora tão forte que o cegara por um bom tempo. Tinha que admitir que a amava com todas as forças, e que não se importava com a diferença de idade que havia entre ambos.
Observou que pelo o ruído, já estava embaixo da rua da embaixada japonesa. Subindo a pequena escada que dava para saída do esgoto, Touya observou o comandante Tsukishiro a sua espera. Não pôde deixar de perceber que o seu grande amigo havia crescido... Agora estava mais alto e forte, nem se parecia mais com o garoto frágil de tempos atrás.
- Touya Kinomoto, há quanto tempo...? - Yukito falou, assim que percebeu a presença do amigo. - Parece uma eternidade desde a última vez que nos vimos.
- Realmente, senhor Tsukishiro. - disse com formalidade militar, não era de costume um mero espião como ele tratar um comandante com familiaridade. - Faz muito tempo, mas o assunto que me fez atravessar a cidade inteira não é muito agradável.
Yukito percebeu a expressão dura do amigo. Touya havia mudado muito, os tempos como agente secreto havia o ensinado como a vida era cruel. Sabia, porém, que Touya tinha algo que o atormentava... E não era burro nem nada para perceber que se tratava de lady Sakura que havia sido seqüestrada no dia passado.
- Compreendo. - ele falou pensativo. – Então vamos até minha casa onde terá banho e comida, pois não acho que o senhor esteja em condições de me falar nada nesse estado.
Touya não discutiu. Apenas acatou as ordens de seu superior... Aquele homem não era mais seu amigo... Agora era seu comandante a quem devia explicações sobre os seus atos, e sobre cada passo do Yijetuan.
- Shoran, por favor, fique na sala... Tenho uma coisa muito séria para tratar contigo. - Tshao falou dando as costas para ele.
Sentou-se na poltrona. Não tinha a mínima idéia do que Tshao queria com ele, mas fosse o que fosse tinha certeza de que era sobre aquela mulher, pois se tinha uma coisa que Tshao prezava era a lealdade. Na certa pensava que ele estava querendo pular fora do grupo, o que era um pensamento errado, pois nascera no grupo e iria morrer no grupo.
- Bem, Shoran há tempos venho notando sua mudança constante de comportamento...-Tshao falou acendendo um cigarro. - E não posso deixar de me preocupar com isso, pois tu és meu neto, filho do meu único filho homem. - concluiu com certo orgulho. - Admiro sua lealdade à memória de seu pai e garanto que Chang ficaria imensamente feliz em ver o guerreiro habilidoso em que seu filho se transformou. Mas há algo que o incomoda... E acho que está na hora de me falar, o que esta acontecendo contigo?
Sim, mudara quando conhecera Sakura. Sua mente, aliás, seu coração vinha passando por uma constante mudança de um ano para cá. Sua razão condenava seus atos... Seu coração carregava a dura cruz daqueles que matara. A cada vítima via o rosto de seu pai... Droga, era como uma maldição, mas tinha que admitir que já não tinha prazer em matar e se ainda cometia aquele delito, era pela sua sobrevivência.
- Para mim, nada mudou...- falou abaixando a cabeça. - Continuo sendo o mesmo Shoran Li de anos atrás...
- Não creio... Algo aconteceu, algo está o transformando... Fazendo você ser diferente de nós. - Tshao falou sorrindo. - Isso não é motivo para vergonha.
Sim, era motivo para ter vergonha. Jurara no túmulo do pai e no corpo do amigo morto que os desaforos que havia agüentado daquele estrangeiro imundo não iria ficar no esquecimento. E jamais se perdoaria se deixasse o grupo agora... preferia morrer do que faltar com sua palavra.
- Eu temo não ser capaz de cumprir o que prometi. - confessou levando as mãos à cabeça. - Ao mesmo tempo que não me sinto capaz de matar ninguém... Mas prefiro morrer a trair a confiança de meus amigos.
- Sabe, Shoran... há muito tempo, quando eu era de sua idade, passei por uma crise profunda. - o velho confessou. - Admito que pensei em tirar minha própria vida, como um guerreiro deve fazer quando se sente sujo, mas uma mulher me ensinou uma lição. – pausou, limpado a garganta. - Ela me apontou um abismo e me disse: "Este abismo existe, pois algo aconteceu com a natureza. Mas o abismo que existe em sua alma foi criado por você. Quando algo está errado se transforma em certo... ou quando sua mente te obriga a matar, algo acontece com você, abrindo mais esse abismo que há em sua alma. Então se não dá para fechar as fendas que há no seu coração... lute para que ela não abra mais do que já está aberta..."
Tshao parou de falar como se fosse a primeira vez que compartilhava seus sentimentos com alguém. Aquela, de uma certa forma, era a primeira vez que falava alguma coisa que Nadeshiko havia lhe ensinado.
- Eles estão ali fora, senhor. - Shoran falou ainda com a cabeça baixa. - Prontos para transformar a China em uma colônia, prontos para difamarem nossos templos... prontos para corromper nosso povo com palavras de ordens. Se não tomarmos providências... Logo, bem mais logo do que prevemos, toda Pequim, ou melhor, toda a China estará tomada por parasitas.
Shoran estava cansado de tudo. A luta estava sendo estressante demais para ele conviver com aquilo. Ainda mais agora que tinha Sakura sobre sua responsabilidade... Porém, uma coisa tinha que admitir, já não odiava tanto Eriol, pois fora ele que trouxera Sakura para ele, mas podia dizer que seu ódio por alguns estrangeiros havia se intensificado.
- Coloque algo na cabeça, Shoran. - Tshao falou encarando o neto com carinho. - Tudo que acontece nessa terra é uma luta constante pela vida. Isso vem desde de nossos antepassados e por assim se dependurará, até o último Li que existirá na China. - Concluiu triste. - Agora se me der licença, preciso descansar.
Shoran se levantou e antes de sair olhou pela a última vez para a figura patética do que um dia foi o grande líder do clã Li, e que agora só restava a carcaça de um velho triste e solitário... Um verdadeiro Lobo, como todo Li devia ser...
- Não se esqueça de que temos um jantar com a imperatriz. - Tshao falou olhando para a janela.- Seja o que for fazer agora não perca a hora... o jantar marcará a oficialização do apoio da grande deusa para com o nosso grupo.
Era engraçado a forma em que as coisas estavam caminhando. Era hilário saber que daqui a pouco estaria jantando com a rainha, fazendo papel de idiota... Mas devia honrar o nome de seu clã... Ele era um Li, e um Li nunca foge de seu destino.
Touya se sentiu desconfortável na casa de Yukito. Ali mais parecia a embaixada britânica do que na verdade a embaixada japonesa. E isso o deixava profundamente decepcionado ao ver como a cultura de seu país estava sendo esquecida, ou melhor, mutilada pela cultura ocidental... Nisso não tirava a razão dos boxers, de se unirem para acabar com aquela infestação ocidental em seu país... Mas isso não justificava o caminho que eles estavam tomando. Um caminho igual a vários grupos ideológicos, os quais agora só existiam nos livros de história.
- Espero que esteja sendo bem tratado na minha humilde casa. -Yukito falou sentando-se na cadeira típica inglesa.
- Sim, à medida que vejo que aqui não é a embaixada japonesa e sim uma casa tipicamente inglesa. - Touya falou irônico. - O que não tira o seu mérito, senhor.
- Desculpe, mas eu já peguei a embaixada assim. -Yukito falou sem graça. - A mulher do antigo embaixador havia feito a decoração...
- Imagino...- ele falou sentando-se. - Mas o que me traz aqui é um assunto mais grave do que a decoração de sua casa.
Quanto mais o tempo passava, mais ficava claro que Touya havia mudado. No seu rosto não tinha mais a expressão afável, e sim a expressão dura... de um assassino.
- Sim, imagino. - ele falou acendendo um charuto. - Bem, primeiramente o que te traz aqui... pelo o relatório que recebi, sua missão já era para ter se encerrado. O que aconteceu para você ter ficado mais do que já era esperado?
- Eu descobri um arsenal de armas e canhões de última geração no porão da Taverna. - falou tudo de uma vez. - O que é mais intrigante... é que essas armas eram todas de marca russa e britânica... Isso quer dizer que há um de nós ajudando os boxers com armas de última geração. - concluiu pensativo. - Armas essas, que nem nós temos acesso.
Yukito ficou estarrecido com aquela revelação. Sabia que havia muitos corruptos ali, mas não a ponto de fornecer armas para um grupo que, nada mais nada menos, usava contra eles mesmos. Aquilo era repugnante.
- E o mais estarrecedor vem do fato de que a imperatriz Ci Xi está apoiando o levante Boxer. - Touya falou tomando uma dose de vodka de uma vez só.
O que significaria aquilo? O fim de todos os estrangeiros na China?... Não seria melhor colocar que a partir daquele dia começaria um genocídio nas ruas sujas de Pequim? Com o apoio da imperatriz, com certeza os Yijetuan não temeriam a ninguém... Nem mesmo ao seu Deus.
- O-o que isso significa? - ele gaguejou ao falar.
- Que é para todos os estrangeiros evacuarem o mais rapidamente da China, pois a batalha será dura demais para simples normais. - Touya falou pensativo.
- Mas isso é impossível...
- Para você talvez, mas para mim não...- ele cortou o amigo rapidamente. - Isso não é um pedido e sim uma ordem... O que está para acontecer é tão sanguinário, que ficará marcado nos livros de história.
Não era alarde, e sim a certeza de que a partir daquele dia ninguém seria poupado. Não tinha o que temer, pois ele já vivera situações piores do que aquela, e sabia que sairia ileso de tudo... mas não tinha a mesma certeza com relação a outras pessoas.
Shoran andava pelos corredores que nem um fantasma, procurando aliviar as tensões que o martirizava. Precisava recobrar o auto controle para a reunião de logo mais. Não poderia estar todo tenso na frente da imperatriz, pois sabia que ela perceberia seu desconforto. Parando na frente do aposento de Sakura percebeu que não havia sinal de vida. Na certa ela já devia estar dormindo, o que era um bom sinal.
Seu desejo era invadir aquele quarto e mostrar para ela o tamanho de seus sentimentos. Quando falara que a sua vida virara um inferno desde que havia conhecido-a, não estava mentindo. Era a mais pura verdade... Já não conseguia mais conter o desejo que sentia por ela. Era uma força maior do que tudo, maior do que seu senso do certo e o errado... Era a vontade que comandava sua mão e o fazia abrir a porta do quarto dela.
O silêncio era mesclado com a respiração calma de Sakura. O quarto estava escuro, apenas era iluminado pela claridade da lua que entrava pela fresta da janela. O corpo dela jazia tranqüilamente sobre a cama dorsel. Na verdade ela mais lhe parecia um anjo, um anjo cansado de sofrer, pedindo por misericórdia,para que a deixassem voltar para o céu...Esse pedido era impossível.
- Como você é linda...- sussurrou sentando ao lado dela sem fazer barulho. - Nunca vi uma mulher tão linda, que fizesse me perder a cabeça...Você deveria ficar lisonjeada. – concluiu passando a mão no rosto dela sem acordá-la.
Ela tinha um rosto tão meigo, que nem parecia real...Queria tocar os cabelos dourados, sentir mais uma vez aqueles lábios lindos e macios. Embora tivesse tido várias mulheres, algumas até mais bonitas do que Sakura, nenhuma fora capaz de despertar o mesmo sentimento que Sakura despertava em seu peito. Fazendo-o querer experimentar um fruto que era proibido para ele.
"Vamos, não é hora de sentimentalismo barato... Admita ela é muito boa para você", pensou se distanciando dela indo em direção da mesinha onde estava a Bíblia. Curioso abriu na parte em que Sakura havia marcado. Uma coisa intrigante chamou sua atenção, Sakura havia marcado um trecho. Que dizia algo intrigante:
Não te indignes à vista dos maus,
Não invejes os ímpios,
Porque para o mal não há futuro
E o luzeiro dos ímpios extinguir-se-á.
Aquele trecho fora designado a ele. Ela o julgava como o mal... e ela não estava errada de pensar assim, pois ele era o mal... Aquele que havia tirado-a da vida de luxo e riqueza que tinha, para enviá-la no meio de um bando de loucos revolucionários.
- O que você está fazendo aqui...? - ela falou desprotegida em suas costas. - Quem te deu a permissão de vir a essa hora no meu quarto? - concluiu apavorada, puxando a coberta para cobrir a seminudez.
"Só me faltava isso", pensou fechando livro.
-Vim ver como a senhorita está. - ele falou virando-se para ela.
Ela estava tão desprotegida. Certamente pensava que ele iria fazer alguma coisa contra ela... Nunca se aproveitaria dela, e se um dia viesse a dormir com ela seria por vontade dela e de mais ninguém. Tinha que admitir que estava perdido... Alguma coisa havia mudado, e ele tinha uma séria impressão de que estava se apaixonando por aquela garota.
