Título Original: 'A Galleon For Your Thoughts'.
Um Galeão Por Seus Pensamentos
Por DiezeL
Tradução por Nanna
A atmosfera estava jovial e animada. Todos tinham um sorriso a compartilhar, um aperto de mão a estender, um abraço a distribuir, um beijo no rosto a dar. Em tempos de preocupação e ansiedade trazidos de volta pelo Lorde das Trevas, isso era uma fachada de paz em meio ao caos. Isso era a lufada de ar fresco que revigorava suas almas e lhes dava esperança e alegria, mesmo que por um curto período de tempo.
E, mais que todos os outros, ele era quem mais precisava disso.
Ele passeou seu olhar pela multidão, sorrindo timidamente. Ele raramente se sentia tão à vontade como agora, especialmente considerando quem ele era. Alguém como ele raramente conseguia ambientes e prazeres tão serenos. Ele os merecia altamente, mas era muito privado disto.
Ele levou a mão à gola e a puxou um pouco. Tinha recebido muitos elogios das damas sobre como estava deslumbrante em seus novos robes formais. Elas amavam o efeito que os robes azul meia noite tinham em seus olhos verdes. Era o suficiente para dar a seu ego uma levantada de seu estado rebaixado e deprimido.
Afinal, quem não gostaria de ser chamado o homem mais bonito e o solteiro mais disputado da noite? Mas, pensando bem, Ron provavelmente iria contestar isto.
Ele sentiu uma presença mover-se a seu lado, e olhou para sua direita. Seu sorriso tímido de antes cresceu quando percebeu que sua melhor amiga, a bruxa por quem estava apaixonado secretamente pelos dois últimos anos, tinha juntado-se a ele. Agora, se ele apenas pudesse achar o momento oportuno para passar essa pequena informação para ela...
"Divertindo-se?" perguntou ele.
"Um pouco", respondeu ela. "E você?"
"Hmmm, com a profecia sobre mim, Voldemort esperando nas sombras e aquele ponche horrível que tive que beber esta noite, eu teria que dizer que não podia estar melhor", zombou ele. "Não pode dizer?"
"Só esqueça dessas coisas por hoje, Harry", Hermione socou levemente o braço dele. "Seria difícil demais divertir-se apenas?"
Harry riu. "Eu estou, Hermione. Não se preocupe".
"Bom. Então me convide para uma contradança".
"Hã?" Harry olhou-a com uma expressão bestificada no rosto. "Contradança?"
"Obrigada por pedir, Harry. Vou dançar com você", ela deslizou um braço ao redor do dele sem esperar pela resposta. Então o puxou para a pista de dança, onde os outros alunos dançavam.
"Hermione, eu... Mas eu nem..." Começou Harry.
"Ah, cale-se, tá? É só uma dança, Harry".
Harry calou a boca e cautelosamente passou seus braços ao redor dela enquanto rapidamente roubava olhares ao redor de si para ver quem poderia estar olhando. Não era porque ele nunca tinha dançado com uma garota antes que ele estava sendo cauteloso. Era porque tudo que ele fazia ultimamente, e que estava envolvido de algum modo com alguém do sexo oposto, parecia cair sob os olhos afiados de todos os outros a seu redor. A aberta fascinação das pessoas com ele e com a vida dele causava-lhe pouca privacidade. Francamente, ele ficava tão aterrorizado e preocupado que considerava virar um ermitão profissional depois de Hogwarts, apenas para fugir do interesse irritante.
Pensando bem, considerou Harry enquanto abraçava Hermione, ele não se importaria se olhassem no momento. Achava que estava com a bruxa mais linda nos braços, dançando com ele agora mesmo. Se ela era a razão pela qual ele recebesse olhares de indisfarçável interesse, então que fosse. Pelo menos, era o que ele tentava dizer a si mesmo.
"Harry..." Disse ela levemente.
"Hã?"
"Eu sei que você está olhando ao redor", ela murmurou contra o queixo dele. "Se eu fosse sua namorada, eu suspeitaria que você está olhando as outras bruxas em vez de prestar atenção em mim".
"Ahn-- Eu não estou. Estou só me gabando por estar dançando com a bruxa mais bonita deste baile hoje" Ele conseguiu dizer enquanto sentia a respiração dela contra seu queixo. A namorada dele, hein? Grande conceito, Hermione. Agora, se ela apenas pudesse tirá-lo de sua depressão ao se tornar isto de verdade.
"Obrigada pelo elogio, eu acho. Contudo, ainda me recuso a terminar os dois centímetros de seu ensaio de Poções para você".
Harry riu. "Você me magoa ao pensar que eu esperaria isso de você".
Hermione se afastou de leve para olhá-lo enquanto eles se balançavam à música. "Ah? Então aquilo era um elogio sem segundas intenções, hein?"
Sorrindo maliciosamente, ele respondeu, "Na verdade, eu estava pensando nos quatro centímetros que faltam fazer para Trato das Criaturas Mágicas. Então, o que diz, Hermione? Vai ajudar se eu fizer cara de cachorro caído do caminhão de mudança?"
Ela virou os olhos para ele. "Você sabe como fazer uma menina babar, Harry".
"Tive prática o suficiente", respondeu ele.
"De Ron, sem dúvida".
"Ah, mas você está errada, Hermione. No caso de você não ter notado, Ron não tem muito tempo de sobra para me corromper ultimamente. Luna está bem ocupada transformando-o num anjo... ou coisa assim".
Hermione franziu as sobrancelhas. "Então, essa... esperteza... é toda sua, Harry? Estou apavorada e suspeitando. Onde está Harry e o que você fez com ele?"
"Engraçado, ha-ha", devolveu Harry. "Acho que o lado do meu pai deixou de ser inativo agora que eu tenho dezessete anos". E aquele ponche, ele juraria.
"Genes inativos? Ah, poupe-me, Harry. Eu duvido muito que você tem as qualidades de sua mãe definindo a sua personalidade pelos últimos sete anos que você sabe ser um bruxo". Hermione deu um olhar duvidoso a ele. "Acho que eu, junto a vários membros da Ordem, estou esperando que os genes de sua mãe tomem domínio e empurrem os genes de seu pai para um... estado menos ativo. Você causou confusões o suficiente para deixar os Marotos orgulhosos".
"Bom, eu herdei meus olhos maravilhosos de mamãe", disse Harry pensativamente. "Muito gentil da parte do meu pai, deixar que eu tivesse os olhos da minha mãe, não acha? Isso certamente tem ajudado com as damas".
"Seu cabelo compensa por isso", devolveu ela.
Harry fez 'tsk-tsk' para ela. "Veja bem. Meu cabelo, junto com meus olhos ardentes, é um acessório do qual aprendi a ter orgulho".
"Quando você ficou tão convencido, Harry?" Os lábios de Hermione se curvaram.
"Você tira o melhor de mim. Tenho que agradecer a você pela minha ausência de humildade na seção de aparência", ele disse sorrindo loucamente.
"Sabe... Estou começando a achar que devo me arrepender de aceitar seu convite para dançar. Eu não tinha idéia do quanto você pode ficar estranho", ela virou os olhos.
Harry fez uma pausa e a olhou direto nos olhos por vários momentos.
A sobrancelha direita de Hermione se alteou. "E o que você está fazendo agora? Já está cansado? Não estamos nem na metade da música".
Ele se inclinou perigosamente perto dela, seus lábios pairando a dois centímetros dos dela. "Você agora está caindo sob o feitiço dos meus belos olhos verdes, Hermione Granger. Meus olhos ardentes e personalidade charmosa são tão irresistíveis para você que você não pôde recusar meu convite para dançar. Você acha que eu sou maravilhoso e eu sou o bruxo mais bonito deste baile agora, até mais bonito que Ron..."
Isso foi o suficiente para ela.
No meio da pista de dança, Hermione foi incapaz de se conter e desatou a rir, o que serviu para atrair os olhares de vários casais que dançavam ao redor deles.
"Harry! Essa é a coisa mais ridícula que eu já ouvi!" Hermione dava risadinhas com vontade.
Os olhos de Harry ficaram levemente estreitos. "O quê? Que eu sou mais bonito que Ron? Ou que sou irresistivelmente charmoso?"
Hermione agarrou as costelas e sentiu as lágrimas ameaçando cair de seus olhos. Ela não podia parar de rir das frases de Harry. Isso tinha que ser a maior quantidade de risos que ela já tinha dado recentemente. E, surpreendentemente, Fred e George não tinham nada a ver com isso.
"E", Harry ergueu seu dedo indicador direito. "Correção, minha querida. Eu não lhe convidei para dançar. Você arrancou um de mim". Tome isso, Srta. Rata de Livros!
Hermione abriu a boca para contestar a frase dele, mas, abruptamente, fechou-a na mesma rapidez. Harry colocou o dedo nos lábios dela. "Agora... parece que mais uma vez você se rendeu ao meu charme. Podemos continuar essa dança ou você prefere importunar-se com os incontáveis olhares que estamos recebendo agora mesmo por causa desse fiasco divertidíssimo?"
Ela sorriu para ele e aproximou-se outra vez, de modo que ele pôde passar os braços ao redor dela outra vez.
Harry sentia o coração batendo erraticamente. Todos os nervos de seu corpo ficavam dez vezes mais sensíveis quando qualquer parte dele entrava em contato com ela. E ele nunca fora tão audaciosamente paquerador com uma menina antes. Ele surpreendera-se com a facilidade que ele dera em cima de Hermione, de todas as pessoas.
Isso devia ser coisa do ponche. Tinha algum ingrediente estranho que o fazia agir tão exuberantemente. Talvez fosse por isso que Hermione estava tão... aberta... e tolerante com seu comportamente aparentemente endiabrado. Ela talvez bebera uns copos, também.
Harry cerrou os olhos quando sentiu Hermione aproximar-se dele. Logo, a cabeça dela repousava de leve contra seu ombro direito, e o corpo estava muito colado ao dele. Sob os ruídos, Harry reconheceu a melodia que começava a tocar. Era uma música trouxa cantada por um cantor inglês bem conhecido.
"Eu conheço essa música..." Ele mal a ouviu falar.
"Surpresa de ouvi-la tocar aqui, não está?"
"Estou. Mas é uma boa música. Muito... romântica", sussurrou ela.
Harry inalou o perfume do cabelo dela. O aroma dela fazia-o lembrar, estranhamente, da primavera. "Tudo bem? Dançar essa música?"
Hermione afastou-se de leve. "Claro. Por que não estaria?" Um pequeno franzido fez a testa dela vincar. "Ela está deixando-o desconfortável?"
Ele sacudiu a cabeça e puxou-a de volta para seus braços. "De jeito nenhum". Ele deslizou os braços com mais segurança ao redor da cintura dela. Não tinha certeza se isso era apropriado ou se era íntimo demais, mas francamente no momento ele não ligava. Ela estava em seus braços, e isso era tudo o que importava.
Harry notou esta linha de pensamento e ousou olhá-la. Ela o surpreendeu quando ele se encontrou olhando diretamente nas piscinas dos olhos dela. Havia uma emoção crua mista com uma vulnerabilidade guardada naqueles olhos castanhos. Avermelhando, ele rapidamente ergueu os olhos para distrair-se enquanto eles dançavam.
Certo, Hermione importava para ele por um tempo. E com isto, o coração dele passou a acelerar de novo. Hermione, ele acabara de notar, estava perto demais para o conforto dele. Ainda assim... a proximidade dela o acalmava e o fazia sentir-se...
Completo.
As orelhas dele de repente detectaram que a música ia acabar logo, mas seu coração persistiu. Por que agora? Por que logo agora quando ele estava se acostumando com a sensação de tê-la nos braços?
"Harry? A música acabou".
Harry piscou várias vezes. "Oh. É, acabou".
Rapidamente, ele olhou para a esquerda e para a direita. Deixou pender os braços abruptamente quando viu os olhares que estavam atraindo. "Desculpe".
Hermione arqueou uma sobrancelha para ele, e parecia pronta para dizer algo quando se brecou. Enquanto ela se virava dele, Harry viu aquela expressão outra vez. A expressão de emoção sugerida e vulnerabilidade resguardada, outra vez.
"Hermione. Espere".
Hermione parou e olhou-o diretamente. "Sim?"
"Eu... Você... Você está com sede? Quer outro copo de ponche?" Idiota, idiota, Harry. Era por isso que ele não tinha uma namorada para chamar de sua. Era por isso que ele não podia dizer como se sentia por ela. Era por isso que ele arruinaria um momento perfeitamente bom para fazer um movimento.
Ele sempre achava uma desculpa.
Ponche idiota.
Hermione permitiu a Harry que a levasse à mesa de refrescos. Ela lamentava que a dança deles tivesse acabado, mas não podia achar uma desculpa cabível para mantê-la. Duas danças eram mais que suficientes. Além disso, julgando pelos olhares que eles receberam, ela tinha certeza que uma terceira dança iria trazer uma bacia inteiramente nova de fofocas sobre eles.
Suspirando, ela se perguntou como ele era capaz de manter essa coisa chamada amizade entre eles. Ela estava ficando cansada de usar a máscara de 'melhor amiga' o tempo todo. Mantê-la custava um monte da força de vontade dela. Hermione só desejava que o bruxo louco percebesse e correspondesse a seus sentimentos.
A fria Hermione Granger odiava que ele podia fazer isso a seus nervos sem tentar muito. Nem mesmo as implicâncias usuais poderiam comparar. Tensão com Ron uma ova. Ela só queria estrangular Ron às vezes por ser o filho da mãe rosado que ele podia ser.
"Hermione? Não gostou do ponche?" A voz de Harry cortou seus pensamentos.
"Ponche? Ah, não. Ele estava ótimo. Eu estava pensando em outra coisa".
"Um sicle por seus pensamentos, então?"
Ela sorriu. "Tentou um galeão e eu posso te dar uma pista?"
"Um galeão! Que pensamento insidioso você está tendo que é assim tão caro?"
Hermione bebeu de seu drinque. "Não é tão insidioso, como você colocou. Você sabe o que isso quer dizer? Bom, considere a inflação". Ela riu à expressão transida dele. "Bem, vai bancar, Harry?"
Harry piscou. "Não, obrigado. Estou meio duro. E um monte de doces da Dedosdemel provavelmente vale mais".
Hermione estapeou o braço dele. "Ah, você! Você sabe mesmo como fazer uma garota sentir-se especial. Talvez seja por isso que você ainda não tenha uma namorada. Tem medo de gastar dinheiro com ela".
"Ah, mas eu não tenho. Eu só... Ainda não chamei a garota certa para sair". Hermione viu-o olhar rapidamente para a pista de dança. Ela especulou se ele olhava para alguém em particular. Antes que ela pudesse pressionar o assunto, sentiu a mão esquerda dele agarrar a direita dela.
"Hermione? Dança comigo de novo?"
O convite surpresa fê-la especular se ele queria mesmo dançar com ela. "Então você... Você está me chamando de verdade para dançar agora?"
Harry virou-se para encará-la e lhe deu um sorriso brilhante. Então, ela o viu nos olhos dela. Aquela ponta de malícia misturada com sinceridade, quando os olhos dela encontraram os dele. Era fascinante, porque isto a fazia sentir-se desejada, desejada por ele.
Acenando de leve, ela logo achou-se nos braços dele de novo. A sensação estava ficando familiar demais para ela. Ele tornava tão fácil sentir-se confortável em seu abraço. Isto estava ficando um pouco viciante demais, para o bem dela.
Perdida em pensamentos, ela deixou de registrar que o salão tinha repentinamente escurecido substancialmente e uma nova música, uma balada que muitos namorados conheciam, tinha começado a tocar. A multidão dançante tinha diminuído e os únicos pares que haviam ficado na pista eram casais de verdade.
Harry olhou ao redor nervosamente, para o ambiente repentinamente escuro. Agora era uma hora tão boa quanto qualquer uma, o coração lhe dizia. Estava escuro, a música era perfeita, e todos os outros estavam ocupados com sua metade amada. Apesar de ser raro, ninguém estava prestando atenção nele.
Ei, moleque! O que em nome do maldito Merlin você está esperando? Ele jurou que ouviu a voz de seu padrinho morto lhe dizer.
Estou esperando o momento perfeito.
Dane-se isso. Se você continuar 'esperando', como diz, vamos ficar aqui por séculos, Harry.
Ah, cale-se, tá? Harry sacudiu a cabeça para clareá-la das dúvidas e das perturbações de Sirius. "Hermione...?" Chamou-a suavemente.
"Hummm?"
Assim que ela ergueu os olhos para ele, ele abaixou a cabeça e capturou os lábios dela no mais gentil dos beijos. Acariciou os lábios dela lentamente, em sincronia com o refrão da música que tocava. Isso era tão perfeito quanto um momento podia ser. Não havia sentido em desperdiçá-lo, só porque as borboletas estúpidas em seu estômago não paravam de bater as asas.
Finalmente, ele afastou-se dela, para ver que resposta receberia a esta ação inesperada. O que ele viu, contudo, foi algo que o surpreendeu também.
Harry esperava por choque, talvez até mesmo uma batelada de reprimendas, um fio de resmungos estranhos, ou até mesmo um feitiço para afastá-lo (o que mais o preocupava). Ele esperava que ela pelo menos questionasse, ponderasse, analisasse o que ele tinha feito. Ele esperava que ela se afastasse dele e fugisse da pista de dança.
Mas, por Merlin, ele não esperava ver os olhos dela refletir a mesma emoção que ele estava experimentando. Havia surpresa, sim, mas havia também uma ponta de aceitação. Havia confusão, mas também havia expectativa. Havia medo, mas também havia excitação iluminando os olhos dela.
"Eu... Herm-"
Hermione surpreendentemente ergueu-se nas pontas dos pés, puxou a cabeça dele para baixo e plantou um beijo ardoroso nos lábios dele, um roçar de tentativa no princípio, como se fosse para discernir esta realidade, e então uma carícia agressiva que ele não pôde deixar de retribuir.
Mas antes que eles pudessem aproveitar de verdade o momento, este acabou quando rapidamente ambos ficaram cientes de que as luzes tinham voltado à vida. A música que eles tinham dançado há muito acabara e apenas os ofegos suaves e os murmúrios das pessoas ao redor deles podiam ser ouvidos. Eles não tinham que olhar ao redor para saber que os olhos de todos estavam fixos neles.
"Temos que conversar".
Hermione estremeceu levemente quando o ouviu falar. As palavras carregavam um sentimento de destruição ou de calamidade, como um precursor indesejado, repressor para um fim ou uma finalidade. E Hermione não gostou disso. Ela não queria que aquilo acabasse. Pelo menos ainda não.
"Aqui não, Harry. Lá fora. Longe dos olhos e ouvidos xeretas de todos os outros", ela respondeu enquanto evitava o olhar dele.
"Tudo bem". Ele levou-a para fora do salão de baile, para uma varanda protegida que ela sabia que era situada de modo a dar alguma privacidade a namorados.
Namorados.
A palavra tinha implicações pesadas e trazia ponderações valiosas de outro estudo psicológico, decidiu Hermione. O que exatamente classificava um casal como namorados? Um beijo partilhado, ou dois? Uma declaração de amor que estava além daquela em parentesco? Um ato de paixão de natureza incontrolável e quase maníaca? Ou o simples bater unificado de dois corações na mesma sintonia de afeição, paixão e ardor?
Hermione dirigiu-se à sacada e olhou para baixo, para as terras sob eles. Abaixo deles, os terrenos geralmente luxuriantes e verdes do castelo estavam adormecidos. Olhando um pouco mais distante no horizonte diante dela, o lago estava num estado similar que sua moradora, a Lula Gigante. O Salgueiro Lutador não estava tão distante, parecendo estranhamente domado sob o céu de estrelas.
"Está procurando respostas, não está?"
Ela sorriu ainda de costas a ele. "Sou tão fácil assim de ler? Ou isso vem dos muitos anos que você me conhece?"
Ele dirigiu-se para a direita dela e olhou para o mesmo horizonte que ela observava. "O último, eu acho".
"Vai pedir desculpas agora, pelo que aconteceu lá dentro?" Perguntou ela, tentativamente.
"Por te beijar? Os riscos de ser enfeitiçado não me seduzem, então, naturalmente, vou dizer não, não sinto muito por ter te beijado".
Ela gostou da resposta dele, mas ainda sentia-se um pouco reservada.
"Contudo, ameaças de maldições de lado, eu ainda teria te beijado".
O ar de tensão e ansiedade entre eles ficou um pouco mais leve à explicação dele. Ele deu ao coração dela um pouco de alívio com tal confissão, mas o lado analítico dela queria que ele dissesse o porquê, que explicasse, para dizer mais a ela. Então ela fez o que era inexplicavelmente natural para ela. Ela questionou. "Por quê?"
Por um momento, ela achou que ele não a ouviu, porque nenhuma resposta veio dele. Então, de repente, Harry andou até a sacada e agarrou a mão direita dela, puxando-a de forma que ela virou-se um pouco para olhá-lo.
"Eu te amo", disse ele enquanto expirava. "E antes que você questione o que eu quero dizer com isso, eu te digo agora que a natureza dos meus sentimentos é similar a o que um homem sentiria por uma mulher com a qual ele quer passar o resto de seus dias. Estou profundamente apaixonado por você nesse sentido".
"Eu..." Ela o sentiu apertar de leve sua mãe. "Você não... Você nunca mostrou esses sentimentos antes de verdade, Harry".
"Então Snape devia ficar orgulhoso de mim. Oclumência fez milagres em mim", ele riu.
Ela não pôde achar nada para dizer a isso, então o silêncio se familiarizou de novo entre eles.
Harry observou-a cuidadosamente antes de falar de novo. "Isso foi um pouco avançado para o seu gosto ou sua sabedoria?"
Hermione sorriu e virou-se para encará-lo completamente. "Bastante. Você me deixou incapaz de pensamento coerente. Francamente, não tenho certeza do que dizer".
"Cinco pontos para mim por deixá-la sem palavras", brincou ele enquanto se aproximava dela. "Um galeão por aquele pensamento, então?"
Se ela não tivesse certeza da sinceridade dele antes, agora tinha. Mesmo se aquilo fosse uma tentativa leve de fazê-la rir, ela suspeitava que ele apenas a utilizara porque tinha uma pista de como ela se sentia por ele. Como ela estava tentada a contar ali mesmo para ele, apenas que para assegurá-lo. Mas no momento que olhou nos olhos dele, Hermione soube que a única que precisava de segurança era ela. Harry já sabia.
"Harry..."
"Shh... Eu não vou implorar para que você o diga, mas seria bom ouvi-lo". Harry inclinou a cabeça para perto da dela. "Tudo foi reprimido por tempo demais, não acha?"
Incerteza perturbou a mente dela outra vez. Ela queria dizer a ele, finalmente descarregar o coração, finalmente deixar de ser apenas uma melhor amiga, e aceitar o que ele estava oferecendo. Mas, pela vida dela, ela não podia.
Harry buscou nos olhos dela e reconheceu o tumulto que os nublava. Ele viu o medo do ontem, do hoje e do amanhã segurá-la. A conhecia bem demais para saber que ela estava considerando a valor da confissão dela, comparado à forte amizade deles.
Lentamente, ele deixou a mão dela pender, e então buscou o bolso de seu robe. Tirou algo dali, uma coisa brilhante e redonda. Então tomou de novo a mão dela, e colocou o objeto na palma. "Isso ajuda?"
Hermione sentiu as lágrimas formando-se em seus olhos enquanto reconhecia o objeto que ele entregara a ela. O objeto redondo e brilhante no meio de sua mão era provavelmente a coisa mais boba que ele podia dar a ela, mas ela não ligava. Era todo o convencimento que ela precisava.
Ela ergueu a cabeça para encontrar os olhos brilhantemente verdes dele e sorriu euforicamente, sua mão fechando-se possessivamente ao redor do presente dele. Ela se estendeu e o abraçou com força.
"Eu também te amo, Harry".
Cinco Dias Depois...
Ron observava o troço e ainda especulava por que Hermione tinha feito tal coisa. Ele tinha certeza que qualquer um que o visse também especulava. Ela não ofereceu uma explicação quando perguntava, e apenas sorria como se a coisa fosse o melhor presente que ela já recebera.
Se Ron não a conhecesse bem, suspeitaria que ela dormia, comia e talvez até tomasse banho com aquele troço. Finalmente, ele não pôde mais suportar e apenas decidiu perguntar diretamente a ela. E ele não aceitaria um sorriso por resposta.
"Certo, Hermione, eu desisto", disse ele enquanto repunha o garfo na mesa. "Por que você tem essa coisa pendurada ao redor do pescoço? Onde quer que você vá, ela está com você. Está embebida em mágica?"
Hermione corou enquanto virava-se constrangidamente para Harry, que parecia ter-se colorido do mesmo tom de vermelho.
"Não. É mais importante que isso. Foi o pagamento por um pensamento muito valioso".
Ron levantou uma sobrancelha e considerou a resposta dela. Percebendo que ela não daria uma resposta melhor que esta, ele finalmente desistiu e apanhou o garfo outra vez, para voltar a comer seu café da manhã. Contudo, manteve um olhar afiado em seus dois melhores amigos.
Hermione dedilhou levemente o brilhante galeão que pendia de uma fina correntilha de ouro ao redor de seu pescoço. Sob a mesa, ela apertou de leve a mão de Harry, e deu a ele um breve olhar de esguelha e um sorriso fraco.
Ron, que quase perdera a interação clandestina, sorriu maliciosamente e inclinou-se adiante na mesa. "Merlin! Já era a maldita hora!" Exclamou ele.
F I M
