Título: O caçador e seu amor
Autor: Fabianadat
Co-autoria: Topaz Autumn Sprout
Betagem: Uma doida corrigindo a outra
Pares: Harry & Draco
Classificação: NC-17
Gênero: Romance/Drama/M-preg
Disclaimer: Os personagens e situações pertencem à JK Rowling, esta fic não infringe direitos autorais nem gera lucro.
****** A fic é SLASH/Lemon, ou seja, trata do relacionamento entre dois homens, e vai rolar pegação explícita. Se não é tua praia, NÃO LEIA!
14. AGRIDOCE
Harry foi acordando lentamente, num estado de confusão mental. Sua última lembrança era o rosto de Hermione com uma expressão preocupada, depois de ajudá-lo no banheiro da sala particular dela no St. Mungus. Mesmo sem abrir os olhos, sabia que não estava no hospital. Não havia cheiro de poções e desinfetantes pelo ar nem o zum-zum constante de pessoas se movimentando em corredores próximos.
Remexendo-se na cama, sentiu um desconforto no braço direito e resolveu abrir os olhos, constatando que estava em seu quarto no largo Grimmauld e que havia uma agulha espetada em seu braço, da qual saía uma mangueirinha transparente que se ligava num frasco cheio de líquido preso a um tipo de cabide de metal. Então lembranças das poucas vezes que conseguira assistir TV na casa dos Dursleys vieram à sua mente, vira algo assim num seriado de médicos.
Enquanto conjeturava mentalmente sobre a influência de Hermione no progresso da Medicina bruxa e o uso de artefatos trouxas, o objeto de seus pensamentos abriu a porta do quarto e sorriu ao vê-lo acordado.
- Bom dia, belo adormecido! Como você está? - E sem esperar resposta, sacou a varinha fazendo uma varredura completa no amigo antes de falar novamente:
- Tudo certo por hora, mas vai precisar de uma dieta especial depois desta soneca tão comprida. O soro te manteve hidratado e as vitaminas impediram que você ficasse muito debilitado, mas comida é comida! Agora acabou a moleza, você vai ter que comer de verdade.
O moreno, ainda sonolento, ouvia atento a tagarelice da amiga, fez uma careta quando ela retirou a agulha de sua veia e aplicou um feitiço de cicatrização.
Pigarreando para clarear a garganta que parecia travada depois de ficar dias sem uso, perguntou numa voz ainda rouca:
- Por quanto tempo eu apaguei desta vez?
- Oito dias Harry! Mais um pouco e teria que te colocar na nutrição para pacientes em coma profundo. Mas eu estava morta de medo das reações que isto poderia causar... Ainda bem que você acordou!
- E então, você já descobriu qual a minha doença?
- Sim, mas conversaremos depois. Agora vou pegar um pouco de caldo de frango e um purê de frutas para você. - Falava Hermione enquanto auxiliava Harry a ficar sentado na cama, sempre atenta a sinais de tontura ou enjôo.
Depois de alimentado, a sonolência tomou conta do moreno novamente e a medibruxa depois de uma nova checagem no amigo, o cobriu e saiu do quarto, rezando para que ele acordasse dentro de algumas horas.
No fim da tarde, ele acordou novamente, mais disposto e com fome. Levantando-se da cama com cuidado e andando próximo da parede pelo medo de cair depois de tantos dias parado, conseguiu chegar até o banheiro e depois de se aliviar sentiu a necessidade de tomar um banho.
Limpo e confortavelmente vestido, desceu as escadas devagar se sentindo levemente zonzo, mas o aroma que vinha da cozinha era tentador demais e ele não se arrependeu de sua ousadia.
O refogado de carne com legumes tenros, num molho rico e saboroso acompanhado de purê de batatas desceu redondo, sem ameaça de crise de azia ou vômito.
Logo depois de se acomodar numa confortável poltrona da biblioteca, enquanto folheava uma revista a porta se abriu de supetão e Hermione entrou afogueada.
- Harry! Que susto! O feitiço de aviso soou e como estava meio ocupada demorei a chegar aqui. Não te achava em lugar algum desta casa! Mas Augustus deve ter se compadecido do meu desespero e me informou onde você estava! Preciso checar seus sinais vitais.
Ele sabia que não adiantava discutir, então guardou as perguntas para depois do exame.
- E daí Hermione, o que você descobriu?
A castanha respirou profundamente, o rosto dela trazia uma expressão triste e a voz um tom contido quando ela falou:
- Não existe um jeito mais suave de te contar isto Harry. Você está esperando um filho.
Harry pensou estar sonhando: - Eu vou ter um filho? Mas homens não engravidam! Que coisa mais doida!
Ele piscou os olhos várias vezes, sacudindo a cabeça para se certificar de que estava acordado e fitando a amiga que parecia muito séria perguntou:
- Mione, mas como? Você tem certeza?
O fitando na profundeza de seus olhos ela respondeu.
-Eu mesma verifiquei umas dez vezes até me convencer do fato, mas você está grávido sem dúvida nenhuma, de uns quatro meses e meio.
O moreno engoliu em seco, e fechando os olhos encostou a cabeça no espaldar da enorme poltrona procurando digerir o fato. Com a mente vagando no infinito, de repente lhe veio à mente o sonho de algum tempo atrás, onde ele entrava num quarto e havia uma garotinha loira de olhos verdes brincando dentro do berço. Então tudo parecia começar a se encaixar, acariciando de leve a barriga ele abriu um sorriso e encarou a amiga que ainda trazia aquele ar triste e preocupado no semblante.
- Muito bem Mione, esta parte eu já aceitei, mas tem mais não é? Eu sei que você estaria pulando de alegria comigo se estivesse tudo certinho, pode falar.
Os olhos da castanha que antes só expressavam tristeza agora estavam avermelhados, como se ela estivesse prestes a chorar, e sentando-se ao lado dele tomou a mão morena e tentou falar. A voz saiu engasgada, e perdendo a luta contra as lagrimas, ela chorou por vários minutos sendo abraçada e consolada pelo futuro papai.
Mais controlada, ela continuou:
- O caso é complicado, a gravidez é de alto risco e existem duas opções: uma é tirar a criança, - ela viu nos olhos verdes que essa possibilidade não seria aceita, mas completou a frase mesmo assim, - e viver e a outra. . . – as palavras não queriam sair, mas ela as forçou - e a outra é ter a criança, mas você perderia a vida no processo. . .
Hermione chorava copiosamente abraçada ao amigo, pois já sabia de antemão qual seria a resposta dele. Harry não derramou uma única lagrima, ele estava feliz, teria um filho de Draco, uma criança que teria alguma coisa dos dois e isto era motivo de comemoração. Mesmo morrendo ao dar à luz, uma parte dele permaneceria viva na criança que estava gerando.
Tendo contratado oficialmente a castanha como sua medibruxa, Harry foi posto a par de sua situação de saúde, o que poderia esperar para os próximos meses e uma lista sem fim de proibições e recomendações.
Dieta supervisionada, nada de excesso de guloseimas, exercício moderado, nada de caçadas (ou ela se encarregaria pessoalmente de trancá-lo no largo Grimmauld, contando com a ajuda de Monstro e Augustus para vigiá-lo) e revisões semanais de saúde.
Com a parte médica sob controle, era hora de cuidar dos assuntos pessoais.
Harry e Mione conversaram bastante sobre como Rony reagiria às inusitadas notícias. Seria um tremendo choque!
Ele não tinha idéia de que seu melhor amigo era bi, nem sonhava que ele pudesse se relacionar com outro homem, nunca em um milhão de anos, acreditaria que Harry se apaixonaria por Malfoy e a coisa mais absurda de todas era que o amigo tivesse engravidado.
Seria uma conversa deveras dura.
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Como os dois previram a conversa com Rony foi complicada, chegando às raias do tragicômico.
O ruivo ficou com uma expressão desconfiada quando Mione e Harry o chamaram para uma conversa séria.
Harry falou de seus namoros com garotas que não duravam e a descoberta de que gostava de homens também. Neste ponto as sobrancelhas do ruivo haviam sumido debaixo da franja, as bochechas ficaram rosadas, ele resmungou alguma coisa como "eu já desconfiava" e continuou escutando.
A segunda parte da conversa, quando Harry contou que havia se apaixonado por um homem e se envolvido seriamente, deixou o amigo de olhos arregalados, com o rosto da mesma cor do cabelo e de boca aberta.
A curiosidade do ruivo o fez perguntar se era algum conhecido e quando Harry pronunciou o nome, o mundo desabou.
Rony literalmente pulou da cadeira, seu rosto e orelhas chegaram num tom próximo do púrpura e ele gritava exasperado:
- Pelo amor de Merlin! Como você pôde? Aquele insuportável, egocêntrico e seboso filhote de cobra! - Ele andava pela sala bufando e batendo os pés, parecendo um touro furioso.
Hermione interveio antes que ele dissesse algo pior:
- Rony, ninguém manda no coração! Estas coisas acontecem! O Malfoy mudou, você mesmo viu.
- Ele até pode ter mudado Mione, mas a fruta nunca cai muito longe do pé! Eu não confio nele.
- Eu sei, foi um grande choque para mim também, mas o Harry gosta dele. E ainda tem mais...
- Mais? O que mais? Eles vão se casar nos jardins de Hogwarts na Primavera e vão me convidar para ser a dama de honra?
- Rony, chega! Você vai acabar dizendo coisas que não devia e se arrepender depois. - Avisou à castanha.
- Deixa Mione, ele precisa colocar para fora. E se a situação fosse inversa, acho que eu me sentiria do mesmo jeito. - Harry aparteou.
- Pombas Harry! Com tantos caras legais por aí... Logo ele? – reclamou resmungando o ruivo.
- Pois é Rony, simplesmente aconteceu. Mas nós não estamos juntos, ele não aceita que o nosso relacionamento se torne de conhecimento público e eu não admito me esconder.
- Bem típico daquele metido!
- Mas tem outra coisa que eu preciso te contar... E acho melhor você estar sentado.
O ruivo um pouco mais calmo sentou no sofá diante do moreno e esperou que ele falasse.
- Eu estou esperando um filho dele Rony. Eu sei que parece impossível, mas é verdade e infelizmente eu não vou estar vivo para ver esta criança crescer.
- O quê? Como? Eu nunca...Grávido? Não vai sobreviver?? Que história maluca é esta, Harry? Pela varinha de Godrico! Me diz que é uma brincadeira...
O ruivo estava absolutamente espantado e desnorteado com a notícia.
Harry recostou-se no sofá, sentindo-se subitamente cansado pela montanha russa emocional que emanava do amigo e se irradiava por toda a sala.
Hermione notando o estado do moreno,que ela seja isolada por boa parte da sociedade bruxa fez um gesto para que Rony ficasse quieto e explicou tudo o que descobrira sobre os poderes e a gravidez fatídica dos portadores de poderes Inomináveis.
Num silêncio chocado, Rony começou a processar as novidades: seu grande amigo gostava de homens, teve um caso com Malfoy e estava esperando um filho daquela infernal doninha saltitante albina e morreria no parto.
Harry iria morrer quando desse à luz... Ele não estaria vivo para ver o que ele sempre havia desejado: um filho...
Quando tudo se concatenou em sua mente, ele olhava seu amigo sentindo como se estivesse no meio de um sonho psicodélico e distorcido, toda cor sumiu de seu rosto e ele desmaiou.
Quando despertou, ficou alguns minutos respirando fundo, sem conseguir articular uma única palavra, sentindo um enorme aperto no peito e os olhos marejarem. Levantando-se do sofá, ele sentou ao lado de Harry e abraçando o amigo de tantos anos chorou como uma criança. Hermione abraçou os dois e todos aliviaram a tensão chorando junto e voltando às boas.
Harry resolveu contar o que se passava para os que considerava como família, incluindo os amigos mais chegados. Mione e Rony o ajudariam na espinhosa tarefa. Depois de um almoço na Toca, com todos presentes, ele contou sua história. Enquanto falava podia ver incredulidade, seguidos pela consternação e finalmente à dor se instalar em cada um daqueles rostos. Gina e a Srª. Weasley passaram mal, sendo acudidas por Mione, Hagrid soltou um uivo que estremeceu os alicerces da casa. Mas nenhum deles tentou mudar a sua decisão, felizmente todos sabiam de seu profundo apreço pela vida e o desejo de ser pai.
Foi abraçado, beijado e mimado como nunca naquele dia, todos queriam conversar com ele, mas depois de algumas horas o cansaço começou a deixá-lo mais lento, e Hermione percebendo o fato, falou:
- Harry, por hoje já chega de emoções, é melhor descansar. – Ele nem pensou em discutir, despediu-se de todos, e disse que esperaria a visita de cada um deles. Chegando a casa fez um lanche leve e foi direto para cama, estava morto de cansaço.
Era bom sentir-se amado, mesmo que o sabor fosse agridoce. Agora que seria pai, não poderia desfrutar do amor e camaradagem da vida que estava gerando. Ele deu um suspiro triste enquanto pensava sobre sua estranha sorte. Cada vez que parecia estar chegando próximo da felicidade, acontecia algo que fazia as boas novas escorrerem por entre seus dedos o deixando de mãos vazias e coração machucado.
Talvez este fosse mesmo seu destino, o de ajudar os outros a encontrarem a felicidade, enquanto ele seguia na infinita perseguição da sua.
Mas ele iria aproveitar cada minuto do tempo que lhe restava, iria extrair cada grão de alegria do tempo que lhe restava junto de seu bebê e da família.
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Os meses passaram numa velocidade espantosa, saúde estável, a barriga crescendo como devia e Hermione controlando tudo de perto. Inclusive Rony que contrabandeava guloseimas para o gestante, como batatinhas chips e biscoitos amanteigados que a medibruxa havia banido da dieta.
A única vez que ela conseguiu pegar os dois em flagrante, num banquete de salgadinhos, biscoitos e refrigerantes trouxas, o ruivo dormiu dois dias no sofá da sala; Harry recebeu um sermão de meia hora e teve a sobremesa cortada por quatro dias (segundo ela para compensar a "orgia calórica", mas os dois amigos sabiam que era pura retaliação).
A casa estava sempre movimentada com as visitas da família e amigos. O quarto do bebê estava repleto de presentes, que se multiplicaram ainda mais depois que Hermione confirmou as suspeitas de Harry de que seria uma menina.
O nome escolhido e plenamente aprovado para a pequena foi Bella Malfoy Potter. No final do sétimo mês, recebeu a visita do guarda-caça de Hogwarts e quando sentiu um leve cutucão na barriga, pelos movimentos da bebê, ele pôs a mão de um envergonhado Hagrid para sentir os chutes, o amigo chorou como nunca, as lágrimas sem fim vertiam dos olhinhos de besouro e ensoparam o lenço do tamanho de uma toalha de mesa. O meio gigante não conseguia aceitar que algo pudesse trazer tanta felicidade e dor ao mesmo tempo.
Quando completou o oitavo mês ele sabia que era chegada a hora de tomar providências, precisava deixar acertada sua herança e a situação legal de Bella. Apesar dos conselhos de Hermione para contatar Draco e contar o acontecido, ele tinha quase certeza de que a reação seria negativa. Se ele não conseguia aceitar que seu relacionamento ficasse público, o que dizer então do fato de ter engravidado um homem! Mas tentando ser o mais justo possível, ele daria ao loiro a chance de fazer uma escolha.
Chamando Rony e Hermione para conversar ele expôs suas idéias e desejos:
- Amigos, preciso fazer alguns pedidos a vocês, meu tempo está chegando ao fim e é hora de falar sério. Quando eu me for, quero que vocês levem Bella para conhecer Draco, contem o que aconteceu e perguntem se ele deseja ficar com ela.
O casal ouvia o amigo com o coração pesado, não era fácil aceitar a morte de alguém tão jovem e não poder fazer nada para impedir.
- Se ele decidir assumir a filha, deixo com vocês a minha parte da guarda, não quero minha menina sendo criada para ser uma princesa de gelo. Eu sei que ele mudou, mas as tradições são fortes e a má fama dos Malfoy vai fazer com que ela seja isolada por boa parte da sociedade bruxa. Quero que Bella cresça cercada de muitos tios e primos, o carinho dos avós Weasley e a amizade de Teddy.
Os dois assentiram.
- Se ele não aceitar a menina, desejo que vocês a criem como filha e quando tiver idade para entender os fatos, caberá a ela decidir se vai procurar ou não seu outro pai. E então, vocês aceitam?
Hermione respirou fundo e encarou o moreno com os olhos marejados.
- Claro que sim Harry! Não é mesmo Rony? - Disse ela olhando para o namorado que também estava com os olhos cheios de lágrimas.
- Harry, meu companheiro, nós somos amigos há muitos anos e eu te considero um irmão. Claro que nós vamos cuidar da nossa sobrinha! E mesmo que a doninha... Quer dizer, mesmo que o Malfoy queira ficar com ela, nós vamos ter parte da guarda e velaremos pelo bem estar e educação da Bella.
O casal abraçou Harry que estava muito emocionado e também aliviado pelo fato de seus amigos terem aceito o papel de guardiões da sua filha, que parecia sentir o quanto era amada e resolveu participar do abraço coletivo chutando a barriga do papai. Os três riram da agitação da pequena e de repente se deram conta que estavam levitando.
Os três conversaram e fizerem planos por um bom tempo, saborearam um delicioso chá da tarde e quando Hermione sentiu que Harry estava ficando cansado, despediu-se do amigo juntamente com Rony e partiram para casa via flú.
Ao recolher-se em seu quarto, Harry deu um suspiro feliz, tendo certeza de que sua filha seria bem cuidada.
Ele poderia partir em paz.
Nos dias seguintes, Harry contatou os advogados do mundo trouxa e os magistrados bruxos, colocando suas vontades em documentos legais, lavrando também um testamento onde deixava seus bens para a filha e tendo como executora sua amiga Hermione.
O tempo restante da gravidez pareceu voar; a casa sempre cheia garantia companhia ao moreno que estava sentindo-se constantemente cansado pelo peso da barriga.
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Durante uma soneca durante a tarde, Harry acordou sentindo-se incomodado, olhou em volta um tanto sonolento e não conseguiu definir o que o estava causando desconforto. Virando-se na cama e conseguindo uma posição mais confortável ele dormiu novamente, mas cerca de uma hora mais tarde foi acordado por uma dor aguda que trespassava seus quadris e fazia a barriga ficar endurecida. Sentando na cama e procurando recuperar o fôlego, ele se deu conta de que era chegado o momento.
Bella queria nascer.
Acionando o feitiço de alarme que Hermione havia deixado, ele chamou pela amiga que em poucos minutos estava ao seu lado.
- Mione está na hora. Disse ele numa voz meio trêmula.
A castanha começou a andar de um lado para o outro resmungando: -Oh, Merlin! É agora... O que vou fazer? Será que vou ter a coragem necessária? Quem eu preciso avisar?
- HERMIONE!!! - O grito de Harry a trouxe de volta à realidade. - Calma, tá bom?
- Hã, desculpa Harry, eu me apavorei...
- Certo, mas esta frase não devia ser minha?
- É verdade. Vamos? A sala cirúrgica já estava preparada desde a semana anterior, e pegando a mala com as roupas de pai e filha, ela segurou o braço do amigo que os aparatou diretamente dentro do hospital.
Assim que chegaram à sala, Hermione pegou uma poção para dor num gabinete próximo e deu a Harry para que ele bebesse, mas na metade do segundo gole uma forte contração o fez dobrar-se de dor e cuspir a poção. Foi uma dor prolongada que o deixou mole e trêmulo, respirando pesadamente.
A medibruxa chamou o restante da equipe que auxiliaria na cesárea e enviou um patrono para Rony, que se encarregaria de avisar o resto do pessoal.
Enquanto isto, ela fez o amigo trocar de roupa e realizou os feitiços de limpeza e esterilização necessários.
O intervalo entre as contrações havia diminuído de forma alarmante e Harry se contorcia de dor, pois ele não havia conseguido tomar a poção inteira, e não era seguro administrar uma segunda dose.
Com a equipe a postos, Harry já estava deitado na mesa cirúrgica, com o campo esterilizado e a pele preparada, Hermione fez o moreno beber uma poção que o anestesiaria da cintura para baixo e sentindo o amigo relaxar ela apontou a varinha para o local onde devia fazer o corte, mas hesitou. Depois disso não haveria volta, ele iria morrer...
Sentindo o olhar verde sobre si, ela fitou o rosto querido e ele falou:
- Sem medo nem arrependimentos Mione, nós sabíamos que esta hora chegaria. Simplesmente faça o que tem de ser feito.
Revestindo-se de calma e frieza profissional, ela apontou a varinha para o ventre intumescido do amigo e iniciou a cirurgia: - Diffindo!
Era o começo do fim. Harry acompanhava o procedimento e o tempo parecia escoar bem devagar, não sentia dor e com a mente vagando seu coração só queria ver a filha recém nascida antes de partir, a cabeça pendeu para trás e um tempo depois ele ouviu o choro: Bella!
Em seguida Mione colocou um embrulhinho rosa em seus braços, seus olhos focaram o rostinho miúdo de pele claríssima, quase translúcida, no topo da cabeça um topete de finíssimos cabelos louro platinados e olhos verdes surpreendentemente alertas o fitavam de volta.
Harry abriu um sorriso embevecido e murmurou o nome da pequena: - Bella! Eu te amo minha menina! - Subitamente muito fraco, sentiu o corpo ficar pesado e uma dormência espalhar-se, era hora de pagar o preço.
- Mione, pegue Bella.
A voz soava fraca, e com a menina no colo Hermione o olhou com os olhos brilhando de lágrimas que estavam prontas para descer.
Começando a desligar-se do mundo material Harry pensava: - Morrer não dói, Sirius estava certo. O torpor foi aumentado rapidamente. Mione ouviu a porta se abrir e Rony num segundo estava ao lado da castanha e a abraçava fitando a pequenina que repousava no colo dela. Os dois olharam o amigo, que estava ficando muito pálido, um sorriso se formou nos lábios dele e num último sussurro ele murmurou: - Cumpram a promessa. . .
E fechando os olhos ele exalou pela última vez. Tudo muito rápido, como se fosse um sonho.
Harry Potter estava morto.
Rony e Hermione olharam-se, a dor de um estava espelhada nos olhos do outro e as lágrimas foram inevitáveis. A pequena bocejava sonolenta no colo da medibruxa, alheia a toda comoção. Rony fitou a menina e numa voz surpreendentemente gentil falou:
- Oi Bella, eu sou seu tio Rony e prometo cuidar muito bem de você. Agora eu vou me despedir do seu papai está bem?
Soltando-se do abraço ele foi até a cama onde jazia o amigo e colocando a mão no ombro dele falou solene:
- Adeus companheiro, nós cumpriremos a promessa. - Ao dizer estas palavras ele sentiu seu coração partir-se de dor e mais lágrimas rolaram dos olhos azuis. Voltando para o lado de Hermione ele pegou a menina no colo para que ela também se despedisse do amigo.
- Adeus Harry. Disse ela com a voz embargada, enquanto fazia um último carinho na cabeleira negra, deixou a mão escorregar pela face lívida do amigo que de repente esfriou subitamente. Seu lado profissional agitou-se: - Isto não é normal!
E tocando novamente a pele do amigo constatou que ele estava tão gelado que sua pele estava ficando azulada. Afastando-se da cama ela chamou a atenção do ruivo:
- Rony, olhe!
Acompanhando o olhar espantado da namorada ele viu algo improvável:
Harry estava levitando da cama, ficando transparente e sumindo diante dos olhos deles! E não mais que de repente o lençol que o cobria deslizou para o chão enquanto uma suave luminosidade dourada parecia brotar de seu corpo envolvendo-o numa espécie de casulo. Lentamente Harry foi voltando à sua forma corpórea, com a cor normal e sem marcas da cirurgia recente. Foi descendo até estar novamente deitado na cama ainda envolto naquela névoa dourada que estava bastante escura, flutuando como se uma leve brisa a soprasse. A névoa mudou para um tom mais claro, era possível vislumbrar o moreno que parecia dormir, e Hermione quase desmaiou ao notar o levíssimo movimento no peito dele.
Enquanto os dois olhavam chocados a figura na cama, Arthur e uma chorosa Molly entraram na sala, que diante das expressões chocadas perguntaram:
-O que aconteceu Ron?
O ruivo olhava dele para a cama sem conseguir falar e Arthur tomou a dianteira, chegando mais perto de onde Harry estava, ficando estático com a cena diante de si.
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Mais tarde, com Bella já examinada pelos pediatras, alimentada e dormindo serenamente numa sala isolada no berçário da maternidade, o casal voltou para onde estava Harry, encontrando o lugar repleto de Weasleys que velavam pelo amigo. Todos se mantinham a uma respeitosa distância da cama, mas Rony, tomado por uma súbita intuição, chegou perto da cama e esticou o braço na tentativa de tocar o moreno.
Hermione falou num tom assustado: - Rony, não!
Mas o braço do ruivo passou pela névoa e ele tocou o amigo, sua temperatura estava quase normal e ao pousar a mão no peito dele, podia sentir os fracos e espaçados batimentos cardíacos bem como a respiração quase imperceptível. A névoa dourada envolveu o braço dele até o cotovelo e Rony pareceu entrar num estado de transe. Depois de uns dois minutos ele retirou o braço da névoa e se virou para os presentes com um pequeno sorriso.
Hermione sempre curiosa perguntou:
- O que houve? Você está bem? Por que está sorrindo num momento como este?
- Devagar Mione! Bem... Soa um tanto estranho, mas a névoa meio que falou comigo... Parecia até que estava cantando, não exatamente com palavras sabe? Mas a música me disse que Harry está bem, num sono encantado e que acordará quando as palavras certas forem ditas. Eu realmente não tenho a mínima idéia do que significa isto, mas minha única certeza é de que ele está vivo e que vai acordar.
Todos se abraçaram por conta da boa nova, mesmo que não entendessem como aquilo havia acontecido ou quando o moreno iria acordar. Mas por hora saber que ele estava vivo já estava de bom tamanho.
A ala do hospital onde Harry estava foi isolada e só o pessoal de estrita confiança podia entrar lá, uma lareira de flú foi conectada diretamente no apartamento de Ron e Hermione para facilitar o acesso. Ao pessoal de fora, a explicação para o isolamento da área era a pesquisa para a cura mágica de varíola de Dragão, extremamente contagiosa e altamente mortal. Assim nenhum curioso era idiota o bastante para se aventurar por lá.
Os dias transformaram-se em semanas que logo rumaram para o fechamento de um mês. Hermione perquisava sem cessar e pouquíssima coisa havia sido escrita sobre esta situação extraordinária.
Juntamente com os escritos somados às experiências de tentativa e erro, a medibruxa havia descoberto que o casulo mantinha Harry num estado de animação suspensa mágico, o que significava que ele não precisava ser alimentado, hidratado, medicado ou exercitado. O casulo não permitia nenhum tipo de deterioração física ou mental e ainda escolhia quem podia ou não tocar em seu ocupante. Mesmo para trocar roupas no rapaz adormecido, o escudo só permitia que alguns familiares o tocassem. Quando Bella era colocada ao lado do pai, o escudo se inclinava para ela e a envolvia na luz dourada.
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O fato de saber que Harry voltaria um dia, não os eximia de cumprir a promessa que haviam feito e depois de desembaraçar os trâmites legais, era chegada a hora de entrar em contato com Draco Malfoy.
Rony o havia visto algumas vezes pelos corredores do Ministério da Magia depois de saber da gravidez do amigo, e Malfoy realmente parecia mudado. Era sempre educado, agradável e infalivelmente perguntava por Harry.
Sua resposta era sempre a mesma: que o amigo estava caçando em algum lugar distante.
O loiro baixava o olhar e se despedia polidamente parecendo triste, mas não havia como saber o que se passava pela cabeça do sonserino.
Depois de conversar com Hermione, ele enviou uma coruja para Malfoy perguntando se eles poderiam conversar, sem adiantar o assunto que seria tratado. E a resposta veio rápida, sendo que o encontro foi marcado para o dia seguinte, perto da hora do chá da tarde.
O casal depois de ler a missiva educada, se olhou e Mione falou:
- Que Merlin nos guie e nos dê coragem, amanhã vai ser decidido o futuro da Bella.
