Depois de muito, muito tempo, eis que estou de volta. Podem apedrejar, eu mereço, mas levem em conta que minha inspiração me abandonou, só dando os ares da graça agora, e isso devido também à mensagem inspiradora de uma pessoa: Lere, só posso agradecer por ter me trazido de volta à realidade, e me feito renovar as forças para continuar com a fic. Aos outros agradeço também de coração a paciência e espero que ainda continuem a me prestigiar lendo a fic. No mais, deixa eu ficar quieta e botar a fic nos trilhos novamente. Boa leitura!
Traição.
Quisera Yuki que o caminho de volta fosse mais comprido, e que assim tivesse mais tempo para assimilar aquela despedida de Sesshoumaru. Agora que ele ia partir, sabia que ele levaria embora também suas esperanças de ser livre de Hiko.
"Talvez seja mesmo meu destino viver ao lado de quem mais odeio..." pensou parando frente à casa onde deveria se sentir segura.
Observou a construção de cima a baixo, como se nunca tivesse reparado o quanto era grande e sem uso para apenas duas pessoas. Ela e Heitaro poderiam deixar aquilo para trás e procurar um pequeno lugar para viver. Isso se Hiko não tivesse feito a cabeça do irmão com a idéia de se tornar o próximo youkai senhor daquelas terras, coisa que Heitaro nunca pensara antes e que agora se tornava uma obsessão.
"Espero que não sofra quando descobrir as verdadeiras intenções de Hiko, meu irmão" pensou ela por fim cruzando aquele último pedaço de chão que a separava da porta "Se pelo menos imaginasse que Hiko não o acha bom o suficiente para ser senhor dessas terras, talvez deixasse essas bobagens de lutas e mortes de lado".
Abriu a porta com cuidado para não fazer barulho, encontrando silêncio e vazio na sala de entrada. Caminhou devagar até a porta do quarto de Heitaro, abrindo-a um pouco, apenas para assegurar-se que ele estava em casa. Sorriu ao vê-lo dormindo como uma criança e fechou a porta. Olhou para a esquerda, no fim do corredor, onde ficava a escada que levava ao andar superior. Lá era o lugar escolhido por Hiko quando precisava descansar, o que acontecia raramente. Pelo silêncio, ou ele não estava, ou estava dormindo. Qualquer que fosse o motivo, Yuki esperava que pudesse dormir sossegada naquela noite. Deu as costas e caminhou para o seu quarto, fechando a porta e jogando-se no futon de bruços. Foi quando o coração partido por fim venceu, fazendo-a se entregar às lágrimas. Chorou muito, enquanto ainda sentia no corpo o cheiro de Sesshoumaru.
- Não quero perdê-lo... – a voz soluçada e baixa implorava por uma outra chance de sentir-se tão bem nos braços do youkai – Não posso agüentar essa dor, Sesshoumaru... Por que eu tive de entregar meu coração a você...?".
O sono demorou a chegar, e quando finalmente Yuki se desligou da realidade, mergulhou em sonhos tão dolorosos quanto a vida real. Pois até mesmo dormindo desejava estar nos braços de Sesshoumaru e não podia. Até mesmo nos sonhos ele a deixava, inundando com dor aquele único momento onde poderia livrar-se de seus sofrimentos.
O ruído da porta do quarto sendo aberta devagar não a acordou. Mal sabia que ficou sob a observação de alguém durante quase toda a noite, enquanto deixava escapar dos lábios algumas revelações sobre os sonhos que a atormentavam.
- Não quero que me deixe... – murmurava Yuki em seu sono agitado – Amo você... não vá embora...
Sua companhia incógnita franziu a testa, surpreso com o que ouvira. Depois, sem fazer barulho, se levantou e deixou o quarto, levando consigo uma estranha inquietação pelo que descobrira.
O olhar de Sesshoumaru procurou o céu. As estrelas começavam a se esconder atrás de espessas nuvens, mostrando que logo uma chuva cairia. Resolveu esperar por ela. Parado no alto de uma colina, esperava serenamente que a chuva caísse e o atingisse por completo, levando do corpo o cheiro de Yuki. Não voltaria para a caverna até que amanhecesse. Tinha feito o caminho até lá só para se assegurar que Asako não o ficara esperando pelo caminho, depois deu meia volta e afastou-se o bastante do lugar. Não precisava das perguntas que certamente Asako lhe faria. No momento precisava apenas de silêncio e de seus próprios pensamentos como companhia. Respirou profundamente. Se tudo ocorresse como planejava, era mesmo a última vez que sentiria aquele doce aroma de Yuki, que impregnava suas roupas todas as vezes em que a possuía. Logo as gotas começaram a cair, primeiro timidamente, dando tempo a ele de desistir de ficar ali. Depois a chuva aumentou sua força, cedendo ao desejo do youkai de lavá-lo por inteiro. O aroma adocicado de mulher deu lugar ao cheiro de terra molhada, fazendo Sesshoumaru suspirar.
- Estou pronto... – sussurrou a si mesmo – Assim que eu acabar com Hiko, poderei partir, sem levar nenhuma lembrança sua, Yuki...
Jaken foi o primeiro a despertar com a fraca luz do sol que invadia a caverna. Coçou os olhos e revistou o lugar a sua volta.
- A amo ainda não voltou? – perguntou sem se importar por estar falando para pessoas que ainda dormiam.
Levantou-se, indo até Rin, que dormia bem próximo de Asako.
- Rin? – chamou pela menina – Você está acordada?
Um ronco leve da criança foi a resposta.
- Acorde, sua menina dorminhoca! – disse ele, evitando elevar a voz para não acordar Asako.
Rin abriu um olho e encarou o pequeno youkai com um sorriso.
- Sr Jaken... Bom dia...
- Bom dia nada! – disse ele – O amo Sesshoumaru ainda não retornou.
- E daí? – perguntou a criança se sentando e se espreguiçando.
- E daí que eu não vou ficar o dia inteiro preso nessa caverna – respondeu Jaken – Acho que o amo Sesshoumaru não se importará se sairmos um pouco.
Assim que terminou sua frase, Jaken escutou a parede da caverna fazer barulho. Ele e Rin viraram-se para o local, enquanto Sesshoumaru entrava.
- Amo Sesshoumaru! – disse o servo parecendo aliviado – Que bom que o senhor retornou!
- Por que tamanha alegria, Jaken? – perguntou o youkai sério – Por um acaso pensou que eu tivesse partido?
- Jamais, meu amo – disse o servo – Sei que o senhor não faria isso, ainda mais comigo, que sempre servi fielmente ao senhor e...
- Cale-se – ordenou sem paciência com a bajulação do servo – Assim que Asako acordar, darei uma notícia a vocês.
Rin e Jaken ficaram curiosos, mas não ousaram perguntar nada ao protetor. O olhar dele não indicava nenhuma vontade de satisfazer a curiosidade dos companheiros no momento, então era bem melhor esperarem até que Asako acordasse.
Yuki abriu os olhos devagar, acostumando-os a claridade que já tomava todo o quarto. Dormira muito, e logo percebeu que o sol já estava alto no céu. Sentou-se, passando a mão pela testa, sentindo a cabeça latejar. O dia seria bastante duro, certamente. A cabeça já cheia de pensamentos sobre Sesshoumaru, ainda por cima doía. O coração, cheio de sentimentos pelo youkai, também doía demais.
Assustou-se com o barulho da porta do quarto se abrindo, revelando o sorriso cruel de Hiko.
- Dormiu bastante? – perguntou ele – Espero que sim, pois a quero bastante descansada.
- O que quer, Hiko? Não tem mais nada a fazer além de me importunar?
- No momento? Não... – respondeu ele entrando no quarto e fechando a porta atrás de si – Seu irmão saiu bem cedo, e disse que não voltaria tão cedo... Ele pediu que eu cuidasse de você.
Yuki sentiu o coração acelerar. Sabia o que o youkai queria, mas não se moveu. Não tentou fugir, nem gritar para que ele se afastasse. Seria inútil mesmo. Era aquele seu destino, não era? Talvez fosse o tempo de começar a aceitar esse destino. Talvez fosse mesmo melhor acostumar-se de vez com as maldades de seu algoz, já que não encontraria uma forma de escapar das garras dele.
Mas foi quando a mão de Hiko tocou em seu ombro, descendo até o seio esquerdo, que Yuki viu que não era isso o que queria. Jamais se deixaria aceitar tal destino sem lutar. Afastou a mão do youkai com força, e o encarou, furiosa.
- Saia do meu quarto! – disse firme.
Teve tempo apenas de ver Hiko franzir a testa, irritado. Depois sentiu o rosto arder com a violência do tapa que ele deu, caindo sobre o futon.
- Pensei que seria mais fácil dessa vez – disse ele jogando-se por cima do corpo dela – Mas se gosta tanto assim que eu a machuque...
Assim que Asako acordou, foi surpreendida pelo comunicado de Sesshoumaru.
- Quero que fiquem prontos – disse ele – Vocês partirão antes do fim do dia.
- O quê? – os companheiros perguntaram em uníssono.
- Eu preciso que se afastem dessa área – explicou Sesshoumaru encarando Asako – Quero deixá-los em segurança.
- Em segurança? – perguntou Asako desconcertada – Como assim? O que pretende?
- Vou atrás do meu inimigo. E sei que ele é covarde o bastante para tentar machucar meus protegidos. Não quero correr esse risco. Quero que a luta seja entre ele e eu, mais ninguém.
- Eu não posso partir – disse Asako preocupada com a possibilidade de não poder avisar Hiko sobre os planos de Sesshoumaru.
- E por que não? – estranhou Sesshoumaru – Pensei que fosse a mais interessada em deixar essas terras?
Asako empalideceu. Que desculpa arranjaria para permanecer ali, no Leste, pelo menos por tempo suficiente para avisar seu mestre?
- E quero mesmo deixar essas terras – disse ela – Só não quero que seja sem você. Prometi ficar ao seu lado para sempre. Não posso abandoná-lo...
- Não está me abandonando, Asako – Sesshoumaru tentou persuadi-la – Só não quero que fiquem em meio a uma luta violenta. Pois é exatamente isso o que pretendo. Ter uma luta bem violenta e sem chances de meu inimigo continuar vivo. Ficarei mais concentrado na luta se tiver certeza de que meus companheiros não são alvo fácil.
- Ainda assim, me sentirei melhor se permanecer com você – disse ela.
Sesshoumaru a encarou sério. Ela entendeu que tinha de arranjar uma explicação melhor para seu interesse em ficar.
- Não me sentirei segura estando longe de você, Sesshoumaru. E você sabe muito bem por quê.
"Yuki..." ele pensou "Asako teme que eu me encontre com Yuki. Que bobagem. Já tomei minha decisão final de nunca mais voltar a vê-la".
Jaken logo se animou com a decisão. Seria melhor ainda se o amo deixasse a tal Asako para trás, mas estranhamente ela parecia mesmo ter seu valor para o youkai, embora Sesshoumaru já quase não a olhasse ou falasse com ela.
Rin mostrou-se chateada com a repentina partida, o que foi logo notado por Sesshoumaru.
- Ela entenderá, Rin – disse para a garotinha.
Rin deu um meio sorriso, mas ainda estava triste por partir sem poder se despedir de Yuki.
- E quanto a mim? – perguntou Asako – Vejo que tenho mesmo meus motivos para não querer deixá-lo sozinho. É visível que aquela tal Yuki não sai de sua cabeça.
- Fique – disse Sesshoumaru dando as costas – Se seu temor é de que eu encontre Yuki, fique e veja que não há esse perigo. Mas aconselho que permaneça aqui, na caverna, enquanto eu estiver lutando.
Asako sorriu. Agora só precisava esperar que Jaken e Rin partissem, para poder ir atrás de Hiko e contar as novidades.
- E quando o sr pretende ir atrás daquele youkai, amo Sesshoumaru? – perguntou Jaken.
- Provavelmente esta noite – respondeu ele – Por isso quero que vocês deixem essa área o mais rápido possível. Quanto antes eu terminar com Hiko, mais rápido poderei voltar para o Oeste, onde é o meu lugar.
O sol brilhava alto no céu, apagando qualquer marca da chuva forte que caíra na noite anterior. Hiko deixou o quarto de Yuki, deixando-a mais uma vez desacordada no futon.
Procurou por Heitaro, e ficou ainda mais feliz quando descobriu que ele ainda não havia retornado. O hanyou mais uma vez nem notaria o sofrimento pelo qual a irmã passou nas mãos de seu próprio mestre.
Estava pensando em sair e levar o terror a algum vilarejo, apenas por diversão, quando sentiu uma presença conhecida por perto.
- Asako... – disse franzindo a testa em sinal de irritação – Quando ela aprenderá que não deve se aproximar daqui?
Deixou o castelo, pronto para encontrá-la, e esperando que ela tivesse alguma boa noticia para dar.
A sacerdotisa tentava em vão se concentrar na tarefa de colher algumas ervas. O simples fato do hanyou a estar olhando com aquele ar pidão já a fazia perder as contas de quantas folhas havia pegado.
- Ficará aqui o resto do dia – disse ela – Já disse que não contarei o que quer saber.
Heitaro bufou. Chegara cedo para encontrar a velha sacerdotisa e perguntar a ela sobre o que ouvira no quarto de Yuki durante a noite. Mas Hana estava mesmo decidida a manter-se calada.
- Por que a sra não pode me dizer quem é a pessoa por quem Yuki está apaixonada? – perguntou ele – Você é a única que sabe isso.
- Pergunte a ela – aconselhou a sacerdotisa.
- Ela não dirá quem é. Aliás, ela brigará comigo pelo simples fato de que entrei em seu quarto durante a noite e a ouvi declarando seu amor durante seu sono.
- Então contente-se em fingir que não ouviu nada – disse Hana guardando as ervas numa sacolinha amarrada na cintura – Se sua irmã ainda não disse nada a você sobre isso...
- Mas por que ela está escondendo uma coisa tão normal? Quem é esse homem por quem minha irmã se apaixonou? Aposto que a sra o conhece! Talvez ele seja até mesmo do vilarejo onde a sra vive.
- Não direi nada – disse ela sorrindo amavelmente – Algumas coisas tem um momento certo para serem reveladas, criança. Sua irmã certamente está apenas esperando esse momento.
- Nunca imaginei que Yuki estivesse passando por isso – disse o hanyou pensativo – Agora entendo o porquê dela estar tão triste ultimamente.
- Não é apenas esse amor que a deixa triste... – comentou Hana.
Heitaro a encarou sem entender. A sacerdotisa suspirou, olhando para o céu límpido.
- Mas isso logo passa, Heitaro... Você vai ver que sua irmã é forte, capaz de passar por muitas provações.
- Ela sempre foi assim... Sempre agüentou tudo. É por isso que uma vez na vida eu queria ajudá-la. Quem sabe se eu descobrisse quem é a pessoa que ganhou o coração dela...
Hana sorriu. Conseguia imaginar a surpresa do jovem hanyou ao descobrir que o amor da vida de sua irmã era justamente seu maior inimigo.
- Como eu já disse, Heitaro... Há o momento certo para tudo. Espere, e Yuki com certeza revelará quem é essa pessoa.
- E enquanto isso? – perguntou ele emburrado – Morro de curiosidade?
- Nunca vi youkais morrerem facilmente – disse ela rindo – Não vai ser a curiosidade que vai te matar, criança...
- Oras...
Já tinham caminhado por mais de uma hora quando Sesshoumaru finalmente decidiu parar. Olhou para os lados, observando atentamente o local onde Jaken, Rin e Aruru ficariam até que ele terminasse sua luta com Hiko.
- Aqui está bom – disse ele – Há vilarejos próximos e bastante lugar para vocês se esconderem durante a noite.
- Por que não podemos ficar com a srta Asako? – perguntou Rin – Ficaríamos escondidos na caverna enquanto o sr lutasse.
- Não – respondeu Sesshoumaru – Só permiti que Asako continuasse comigo porque ela acha que eu irei atrás de Yuki.
- E o sr irá? – perguntou Rin – Ainda pretende ajudar Yuki?
Sesshoumaru demorou um pouco para responder.
- Yuki já não é importante para mim – disse ele - Minha preocupação maior é acabar com a vida daquele youkai miserável.
Rin e Jaken se entreolharam. Se alguma vez as palavras do youkai pareceram não muito firmes foi naquele momento.
- Cuide de tudo, Jaken – disse ele dando as costas e caminhando - E mesmo que eu demore, não voltem para me procurar.
- Sim, amo Sesshoumaru – disse o servo.
- O que faz aqui? – perguntou Hiko ao encontrar com Asako – Não cansa de correr o risco de que Sesshoumaru nos veja juntos?
- Minhas notícias não podem esperar, mestre – disse ela – Tive que vir correndo, e tenho de voltar o mais rápido possível para a caverna.
- O que houve?
- Sesshoumaru pretende partir do Leste o mais rápido possível – disse ela sorrindo.
- Ele vai fugir? – disse o youkai com expressão irritada – Aquele maldito...
- Não é isso – corrigiu Asako – Ele não pretende fugir. E é por isso que ele pretende procurá-lo para terminar a luta ainda esta noite.
- O quê? – surpreendeu-se Hiko – Não imaginei que ele estivesse tão desesperado para morrer.
- Para assegurar-se de que nada vai atrapalhar a luta, ele ordenou aos companheiros que partissem e ficassem num lugar seguro...
- É uma pena... Heitaro queria muito matar aquela garotinha que segue Sesshoumaru – comentou Hiko – E quanto a você?
- Ele permitiu que eu ficasse. Tive que fingir estar com ciúmes para que ele não me mandasse junto com os outros.
- Se for do seu interesse, e se você tiver sangue-frio para tal, acabe com a raça da mulher por quem aquele maldito youkai está interessado.
- Eu? – espantou-se Asako.
- Sim, você... E não finja que isso é muito brutal, afinal de contas, você nem mesmo possuí uma alma para poder sentir pena.
Asako sorriu.
- E ainda posso vingar a alma da verdadeira Satsumi – disse ela – Pois a pobrezinha foi passada para trás por uma reles camponesa.
- Isso mesmo, minha fantoche – disse o youkai – Mate-a e faça um bem para a mulher que te emprestou este lindo rosto. Pelo menos ninguém pode dizer que aquele infeliz não tinha bom gosto para mulher... Essa tal Satsumi era tão linda quanto alguém que me é importante...
Hiko interrompeu sua frase quando escutou um som na mata por perto. Asako logo se escondeu atrás de uma árvore, imaginando ser Sesshoumaru, e sem se dar conta de que se fosse mesmo ele já teria sido descoberta por sua presença. Acalmaram-se quando viram Heitaro surgir entre a mata, exibindo uma expressão nada satisfeita no rosto.
- Você quer nos assustar, Heitaro? – perguntou Hiko – Talvez devesse fazer menos barulho.
- Não tinha a intenção disso – respondeu o hanyou – Senti a presença de Asako e vim ver o que era. Pelo visto você a encontrou primeiro. Alguma novidade?
- Sim – respondeu Hiko – Nossa luta foi adiantada um pouco... Sesshoumaru pretende deixar o Leste amanhã.
- Ele vai fugir? – Heitaro se espantou tanto quanto o mestre.
- Não – continuou Hiko – Ele pretende terminar a luta. Ele acha que vai nos pegar de surpresa esta noite, mas, graças a nossa querida Asako, os planos dele não darão muito certo.
- O que vamos fazer? – perguntou o hanyou interessando-se e esquecendo um pouco da curiosidade em relação à Yuki.
- Atacaremos primeiro – disse Hiko exibindo um sorriso de vitória – Assim que ele pensar em deixar a caverna para nos procurar, nós já estaremos à sua espera. Quero ver a cara dele ao dar de cara com os inimigos bem na porta de seu esconderijo.
- E quanto à Asako? – perguntou Heitaro – Ela ajudará também?
- Certamente – disse ele passando a mão pelo rosto da mulher – Ela é nossa peça principal nesse jogo. E ela é quem dirá ao youkai toda a verdade sobre o nosso plano. Aposto que ele não se sentirá muito bem quando descobrir que a cópia de sua amada é quem o traiu. Há há há!
Yuki mal conseguia vestir a roupa após o banho rápido que tomara no lago ao lado do castelo. Sentia as costas arderem quando encostava o tecido rústico do kimono nos arranhões que Hiko fizera. Ele sempre fazia questão de cravar suas unhas nas costas dela, machucando-a já com a certeza de que Yuki esconderia muito bem aquelas marcas. Voltou para o quarto em silêncio. Sentia-se pequena, presa num mundo do tamanho de seu quarto, sem portas nem janelas que pudessem servir para fugir. E agora estava ainda mais sozinha. Não tinha mais o youkai de olhos dourados para amenizar um pouco daquela dor, para dar a ela a esperança de que aquele sofrimento todo um dia acabaria.
Deitou-se no futon, abraçando as pernas e ficando numa posição de proteção. Sentiu o coração disparar com a conclusão de que viveria naquele inferno por muito tempo ainda. Estava tudo escuro a sua volta, mesmo com o sol alto no céu e refletindo seu brilho dentro do pequeno cômodo.
"Não há mais nada..." pensou quase enlouquecendo com o medo que tomava conta de vez de seu corpo e alma "Não há como fugir... não há mesmo mais nada a se fazer".
"- Coragem... Tenha força e coragem...".
Aquela voz que a perseguia há alguns dias voltou a ecoar em sua mente, pedindo algo que ela não conseguia mais encontrar. Sentou-se, buscando à sua volta a origem daquela voz, deixando escapar um sorriso ao imaginar que estava realmente enlouquecendo.
"Tenha um pouco mais de coragem, Yuki...".
Irritou-se. Jogou o lençol ainda sujo com o sangue de seus ferimentos para o canto e deixou escapar um grito que há muito estava preso na garganta.
- Coragem?- gritou com o olhar vago – Quem ousa me pedir para ter coragem? Se tudo o que passei até hoje não exigiu de mim coragem, o que era então?
Odiou-se. Odiou-se por tudo o que agüentara. Não, não havia agido com coragem. Era uma covarde, isso sim. Se tivesse um pouco de coragem, teria fugido dali, levando seu irmão mesmo contra a vontade dele. Diria a ele toda a verdade, e mataria Hiko com suas próprias mãos.
Curvou-se no futon, afundando o rosto no tecido pouco confortável, chorando como uma criança.
- Sou uma covarde... isso mesmo – disse em meio ao choro – Sou mesmo uma presa fácil para qualquer um... foi assim com Hiko... e deixei que fosse assim com Sesshoumaru.
Pela primeira vez em muito tempo desejou ter uma mãe que lhe passasse a mão pela cabeça e dissesse que não se preocupasse. Pela milésima vez naquele dia desejou que ainda pudesse sentir a mão de Sesshoumaru em seu rosto, dando a ela uma sensação de que nada no mundo a machucaria. Mas estava só. Sem mãe e sem o youkai a quem entregara o coração. Escrava de um youkai cruel e das mentiras que tinha de dizer para que o irmão pensasse que ela estava sempre bem.
- Finjo que não dói, mas... se Heitaro soubesse como me sinto por dentro... Se ele imaginasse que estou morta no meu interior... tudo por causa daquele maldito youkai que significa tanto para ele...
Controlou um pouco das lágrimas, pois não tinha mesmo nenhuma utilidade derramá-las. Deitou-se, cedendo de vez ao desejo de não se levantar mais. Queria que os dias se passassem de forma rápida enquanto ela dormisse, e que só acordasse quando fosse uma senhora de idade avançada e à beira da morte. O sono de derrota não tardou a aparecer, e pelo menos dessa vez não sonhou com nada. A escuridão em que caiu relaxou mais do que sonhar com lugares lindos e uma paz que ela jamais conheceria. Era mesmo melhor assim.
Asako assustou-se quando viu a parede da caverna se abrir e por ela surgir Sesshoumaru. Não tinha muito tempo que ela voltara de seu encontro com Hiko, e por pouco não foi surpreendida chegando no local após evadir-se contra a vontade de Sesshoumaru.
- Você demorou – ela disse, fingindo que o esperara ali.
- Tive que ter a certeza de que o lugar era seguro – disse ele – Deixei-os bem distante daqui.
- Eles ficarão bem...
Sesshoumaru tinha certeza disso. A única coisa que o incomodava era o pensamento fixo em Yuki. Essa ele não tinha como garantir que estava ou não bem. Sua intuição dizia que ela estava triste, sofrendo. Sabia também que essa tristeza não terminaria após a morte de Hiko. Ela estaria livre de seu algoz, mas ainda presa a um amor sem futuro. Respirou fundo. Não podia perder seu tempo pensando nela. Agora precisava se concentrar em caçar Hiko. Asako parece ter percebido aquela necessidade de concentração e silêncio do youkai. Um ótimo momento para pôr em prática o plano final de seu mestre, Hiko.
- Creio que seria melhor se você dormisse um pouco, meu senhor – disse ela – Já que disse que pretende ir atrás de seu inimigo ao anoitecer.
- Não preciso dormir... apenas de um pouco de descanso. A luta é fácil...
- Ainda assim, acredito que um pequeno cochilo o ajudará – ela insistiu – Melhor ainda se ficar em completo silêncio. Então, se me permite, irei até as fontes termais para me banhar. Assim, deixo você totalmente sossegado.
- Não a quero longe daqui - disse ele – Não pode banhar-se aqui?
- Posso, meu senhor. Mas gostaria de ver aquelas lindas fontes pela ultima vez. Amanhã partiremos, não é?
- Certamente.
- Então? Que perigo há em deixar-me ir lá? Seus inimigos não saberão onde estou. Eu não demorarei.
Sesshoumaru a encarou por alguns segundos. Por que não conseguia sentir por Asako o mesmo que sentira por Satsumi? As duas eram iguais, reencarnação uma da outra, ainda assim, seu coração não batia mais acelerado por ela. Seu coração parecia querer bater mais rápido apenas quando se lembrava de Yuki.
- Pode ir – concordou um pouco contrariado – Mas volte bem antes do anoitecer.
Asako sorriu e aproximou-se dele. Tentou dar um último beijo no youkai, como despedida, já que imaginava que Hiko sairia vencedor da luta contra ele. Mas Sesshoumaru virou um pouco o rosto, evitando que ela encostasse seus lábios no dele.
"É uma pena..." pensou ela antes de deixá-lo "Se você demonstrasse um pouco de amor por mim, eu ficaria ao seu lado, e não ao lado de Hiko. Mas parece que seu coração é mesmo daquela outra mulher... Yuki".
Deixou a caverna, enquanto Sesshoumaru se sentava ao lado das águas que formavam uma piscina natural no centro da área. Logo a mente o traía e o fazia se lembrar de Yuki mais uma vez. Viu a imagem dela refletida na superfície, linda, feliz, sua. Passou a mão na água, apagando aquela imagem.
"Esqueça-a!" ordenou-se "Esqueça-a de vez!".
Yuki acordou com o som da risada de Hiko invadindo o quarto. Assustou-se, imaginando que ele estivesse ao seu lado para machucá-la de novo. Mas a risada dele vinha de outro cômodo. Sentou-se, observando com desolação que não dormira muito. O sol ainda estava alto no céu. Concluiu que dali em diante todos os dias seriam compridos e tristes, aumentando consideravelmente o fardo que deveria suportar.
Quis voltar a dormir, mas o corpo pedia água. Não tinha fome, mas a sede não a abandonara. Teria que se levantar e sair do quarto, encontrando com Hiko pelo caminho para poder pegar água.
Tentou deixar o quarto sem fazer barulho. Notou que Hiko estava no quarto de Heitaro, e os dois conversavam animadamente. Passaria em frente ao aposento sem se preocupar em prestar atenção na conversa. Já não interessava a possibilidade do irmão e do youkai estarem planejando algo de ruim. Mas parou ao escutar o nome de Sesshoumaru na conversa. A porta, entreaberta, deixava escapar a maior parte do que eles estavam falando. Ficou ouvindo, escondida, e descobriu que os dois planejavam acabar de vez com a vida de seu amado.
- Já temos tudo pronto, Heitaro – escutou Hiko dizer – Assim que o sol se pôr, estaremos na frente daquela caverna, para a surpresa de Sesshoumaru.
- A vitória é nossa, com certeza – Heitaro comentou – Ainda mais com o "trunfo" que nós temos...
- Sim, nosso "trunfo" é mesmo especial. Tenho certeza de que aquele youkai ficará bastante atordoado. Ele nem imagina o que está prestes a acontecer. Atacaremos quando ele estiver se sentindo mais protegido, dentro daquela caverna... háháhá! Lá será o túmulo dele.
Yuki levou a mão à boca, perplexa. Então Sesshoumaru corria um grande perigo? Justo agora que ele havia decidido deixar aquelas terras sem intenção de acabar sua luta com Hiko?
"Sesshoumaru não sabe que Hiko planeja atacá-lo ainda esta noite" pensou preocupada "Se ele não partir ainda hoje, será pego de surpresa por Hiko e meu irmão".
Pensou também em qual poderia ser o "trunfo" ao que os dois se referiram com tamanha convicção. Mas não conseguiu. Afastou-se da porta quando escutou a porta ser aberta, e fingiu que estava passando ao acaso por ali.
- Yuki? – perguntou Heitaro surpreso – Pensei que estivesse dormindo ainda.
- Acordei agora... – disse ela.
- Hiko me disse que você ficou a manhã inteira no quarto. Pensei em perguntar se você está bem, mas é visível pelo seu olhar que está muito triste.
- Não estou... – ela mentiu para evitar que aquele assunto se estendesse.
- Está sim... – insistiu Heitaro – Mas não questionarei os motivos... Sei que no momento certo você me contará...
Yuki ficou surpresa com a atitude do irmão. Ele parecia desconfiar de algo, e isso a deixou um pouco preocupada.
- O que há com Yuki? – Hiko perguntou ao sair do quarto, estampando no rosto um sorriso pela própria cara-de-pau – Está doente?
- Deixe-a, Hiko - Heitaro o interrompeu – Minha irmã tem um problema muito grande... Coisa de humanos, como você mesmo diz.
Hiko não entendeu o que o hanyou queria dizer. Mas não teve tempo de perguntar, já que tinham de sair dali e encontrar novamente com Asako próximo as fontes termais.
- Vocês já vão sair? – perguntou Yuki ao ver Hiko puxando o irmão pelo braço.
- Precisamos fazer uma coisa importante hoje, Yuki – respondeu Heitaro – Não precisa se preocupar, só voltaremos pela manhã.
- Certo... – disse ela – Tudo bem...
Esperou que os dois saíssem, e também deixou a casa. Precisava correr e encontrar Sesshoumaru. Contaria a ele o plano de Hiko, para que ele estivesse preparado. Sesshoumaru teria também de proteger seus companheiros, e isso incluía Asako.
"Sou mesmo uma tola..." pensou enquanto percorria rapidamente o caminho até a caverna "Com isso estarei protegendo também a vida da mulher que tem o coração de Sesshoumaru...".
Asako não tinha pressa. O sol ainda estava longe de se esconder atrás das lindas montanhas do Leste, e podia aproveitar para andar enquanto não chegasse a hora de se encontrar com Hiko. Sua participação no plano do youkai não era grande, mas tinha uma importância das maiores. Repassou cada detalhe do que precisava fazer na cabeça, até que escutou um barulho na mata, vindo na sua direção.
Qual não foi sua surpresa ao deparar-se com Yuki, que sem prestar atenção por onde corria, quase a derrubou. As duas se chocaram de frente, só então Yuki pareceu vê-la. Asako logo imaginou que fosse apenas uma infeliz coincidência, mas para Yuki, encontrar a rival poderia resumir-se a uma mãozinha do destino, ajudando-a a chegar mais rápido a Sesshoumaru.
- Olha por onde anda! – disse Asako recuperando o equilíbrio.
- Não acredito que a encontrei – disse Yuki, esbaforida pela corrida – Onde está Sesshoumaru?
- Oras, como se eu fosse dizer a você... – a outra respondeu sorrindo maldosamente – Não entrego o que me pertence tão fácil, sabia?
- Sei que não gosta de mim. Mas preciso encontrar Sesshoumaru...
- Vá embora! – disse Asako passando por ela sem dar importância – Deixe-o em paz!
- Você não entende – disse Yuki segurando o braço de Asako – Eu preciso dar um aviso a ele. Preciso apenas que me diga se ele está na caverna.
- Solte-me! – gritou Asako – Ele está mesmo na caverna, mas está descansando. Eu e ele estamos aproveitando nosso último dia nas terras do Leste. Afinal, amanhã iremos embora.
- Será muito tarde... – comentou Yuki ao se lembrar que Hiko pretendia atacar Sesshoumaru naquela noite.
- Como eu gostaria que Sesshoumaru a ouvisse agora – disse Asako rindo – A queridinha dele revelando que gostaria que ele já estivesse longe...
- Pelo bem dele... eu preferia mesmo. Você precisa alertá-lo sobre algo muito grave...
- Suma! – gritou Asako – E eu não darei aviso nenhum para ele! Você deve aceitar que ele não te pertence, querida. Sesshoumaru tem uma dona... e não é você.
Yuki irritou-se com a atitude de Asako. Não era o momento para crises de ciúmes. Não precisava encontrar-se com Sesshoumaru, mas era imprescindível que seu aviso chegasse a ele.
- Eu sei que ele não me pertence, Asako – admitiu com o coração partido – Eu sei que foi a você que ele jurou amar eternamente... mas o que quero agora é apenas ajudá-lo. Se não quer que eu me aproxime dele, eu entendo. Mas não pode se negar a dar o aviso que eu trago, pois estará indo contra o amor que sentem um pelo outro. É a vida dele que corre perigo... aliás, a sua vida também correrá perigo se você não me levar a ele, ou pelo menos levar o meu aviso para Sesshoumaru.
Asako deixou de lado o deboche por alguns segundos. Podia não se importar com a vida de Sesshoumaru, mas a sua própria vida era diferente. Talvez aquela mulher tivesse algo de importante a dizer. Cruzou os braços e esperou pelas palavras de Yuki.
- Você tem minha atenção – disse ela.
- Vocês devem deixar a caverna ainda esta tarde – começou Yuki – Um youkai pretende ir ao encontro de Sesshoumaru essa noite. Sei que Sesshoumaru não arredará o pé daquele local, mas sei que ele não deixará você e os outros no meio de uma luta.
Asako empalideceu. Seria muita coincidência que outro youkai quisesse atacar Sesshoumaru naquela mesma noite.
- De que youkai está falando? – perguntou ela.
- Hiko... – revelou Yuki – Diga a Sesshoumaru que Hiko pretende lutar com ele essa noite, e que acredita que o surpreenderá. Diga também que Hiko esconde um "trunfo", mas que eu não sei qual é...
Asako ficou boquiaberta. Yuki estava lhe contando exatamente o plano de seu mestre, mas estranhamente a rival não sabia que ela própria fazia parte desse plano.
- Como sabe disso? – perguntou baixando o tom de voz – Quem contou a você este plano?
Yuki imaginou que Asako estivesse começando a aceitar a ajuda dela, e resolveu dizer tudo o que ela queria.
- Eu ouvi a conversa deles...
- Deles?
- Hiko e Heitaro... Heitaro é meu irmão, Asako. Mas mesmo assim, não posso aceitar o que ele e aquele maldito youkai estão tramando contra Sesshoumaru.
- Você... – só então Asako se deu conta do que acontecia – "Você é a mulher de quem Hiko tanto fala..." pensou espantada "Isso é mesmo loucura...".
- Você também corre um risco grande... por mais que eu goste de Sesshoumaru, não ficaria feliz de saber que você se machucou...
Asako ainda estava surpresa com sua descoberta, e pouco se importou com as palavras de Yuki. Só pensava na possibilidade da rival estragar os planos de seu mestre, contando a Sesshoumaru tudo o que sabia.
- Posso contar com sua ajuda, Asako? – Yuki perguntou, tirando-a dos pensamentos – Você dará esse aviso a Sesshoumaru?
Asako sorriu.
- Claro que darei... – disse ela – Eu darei esse aviso a Sesshoumaru, não se preocupe.
- Que bom... Não quero que ele seja pego de surpresa. Hiko o enfrentará com o poder máximo. É bom que Sesshoumaru esteja prevenido.
- Verdade... Agora, acho que você já pode ir embora. Já deu seu recado, não é?
- Sim... – admitiu Yuki sem saber o que fazer – Vocês vão mesmo embora amanhã?
Asako confirmou balançando a cabeça. Yuki não conseguiu esconder sua expressão de tristeza. Sesshoumaru realmente partiria, para sempre. Ficou triste também por Rin. A garotinha era mesmo especial, e sentiria falta dela.
- Diga a Rin que eu jamais me esquecerei dela – disse Yuki – E diga a Sesshoumaru... Bom, diga que eu desejo que ele seja muito feliz...
- Ele será – disse Asako dando as costas e começando a caminhar na direção das fontes termais, deixando Yuki confusa.
- Você não irá avisar Sesshoumaru? – perguntou ela estranhando que Asako não estivesse dando a devida importância ao perigo – Você disse que ele estava na caverna...
- Preocupe-se com sua vida, menina – disse Asako grosseiramente - Eu avisarei meu amado assim que eu terminar de me banhar nas fontes.
- Mas você precisa avisá-lo agora – Yuki colocou-se à frente de Asako, impedindo sua passagem – Não pode ir simplesmente tomar um banho...
- Saia da minha frente!
- Não! – disse Yuki pegando-a pelo braço – Você deve achar que eu estou brincando, mas a questão é séria! Eu vou com você, e se Sesshoumaru achar que eu estou mentindo, ele mesmo poderá acabar com minha vida!
- Solte-me! – gritou Asako – Quem você pensa que é para atrapalhar meus planos?
- Você pode tomar banho em outra oportunidade. Ou quer que Sesshoumaru se machuque?
Asako respirou profundamente. Não podia dar na cara que não estava nem um pouco interessado no bem-estar do youkai. Precisava fingir até o último momento que era mesmo a reencarnação de Satsumi. Mas também precisava evitar que Yuki revelasse os planos de Hiko, acabando com a chance de seu mestre matar Sesshoumaru mais rápido.
- Está bem! – disse ela – Eu vou avisar Sesshoumaru. Você pode ir comigo.
Yuki ficou aliviada de ter convencido Asako. Começaram a caminhar rapidamente, mas Asako logo encontrou um meio de ficar um pouco mais para trás.
- Acho que pisei em uma pedra mais pontuda – disse ela parando para arrumar um dos sapatos – Vá na frente enquanto eu vejo se machuquei meu pé.
Yuki concordou e continuou caminhando. Asako olhou tudo a sua volta, procurando por algo que pudesse tirar Yuki do caminho. Sorriu quando encontrou uma pedra do tamanho de sua mão. Pegou-a e correu para alcançar a rival.
- Yuki! – ela a chamou – Espere um pouco!
Yuki parou e virou-se para olhar Asako. Um sorriso de satisfação contornava os lábios dela. Assim que Yuki estava cara a cara com ela, o sorriso de Asako aumentou ainda mais.
- Infelizmente você não poderá dar esse aviso ao Sesshoumaru – disse fazendo Yuki ficar surpresa.
Mas antes que Yuki pudesse contestar, Asako ergueu a mão com a pedra e acertou em o lado esquerde de sua cabeça. Yuki foi jogada no chão com a força, mas não desmaiou. Foi preciso um segundo golpe de Asako, desta vez na parte posterior da cabeça de Yuki, para que ela perdesse a consciência, caindo de bruços no chão.
- Era só o que faltava – disse Asako jogando a pedra fora – Você arruinar os planos do meu senhor. E quero ver se ele ficará feliz quando descobrir que a mulher que ele tanto venera é a amante secreta de seu inimigo.
Deixou Yuki e correu para encontrar-se com Hiko o mais rápido possível. O youkai precisaria adiantar seus planos um pouco, já que tinha certeza que a rival procuraria por Sesshoumaru assim que acordasse.
A luz que entrava pela abertura no alto da caverna começava a perder intensidade, deixando Sesshoumaru numa discreta ansiedade. Assim que o sol se escondesse de vez chegaria o momento de caçar. Mesmo não contando com a facilidade de sentir a presença nem o cheiro de seu inimigo, o encontraria o mais rápido possível. O ódio que sentia por Hiko era capaz de guiá-lo na direção certa. Estava ansioso também com a volta de Asako. Um banho não demoraria tanto, mas imaginava que ela estivesse apenas passeando. Isso o irritou um pouco. Parecia que ela ainda não havia se dado conta da importância daquela luta para Sesshoumaru.
"Não devia ter permitido que você ficasse comigo, Asako..." pensou contrariado "Não posso desviar minha atenção da luta...".
Olhou para a cintura, observando com cuidado as espadas ali presas. Tocou levemente as duas armas; sabendo que naquela noite precisaria usá-las muito.
- Principalmente você, Tenseiga... – comentou em voz baixa – Só você pode vencer uma espada da morte como a daquele youkai.
Hiko notou a expressão preocupada de Asako ao encontrá-lo perto das fontes. Terminou de "alimentar" sua espada com as almas de três camponeses que foram mortos enquanto voltavam para suas casas após um dia de trabalho.
- Ainda é cedo – disse Hiko, guardando a espada na cintura – Pensei que tivesse entendido que deveríamos nos encontrar assim que o sol se pusesse.
- Eu não pretendia vir tão cedo para cá – disse ela – Mas aconteceu uma coisa que mudou um pouco os planos.
- O que aconteceu? – perguntou ele.
- Lembra-se da mulher que tanto tem valor para Sesshoumaru?
- Sim. O que tem ela?
- Ela sabe dos planos – respondeu Asako – Você ficará surpresa de saber quem é ela.
- Como assim sabe dos planos? – irritou-se Hiko – Ela sabe que pretendemos atacar Sesshoumaru esta noite?
- Sabe tudo e muito mais. Só não sabe ainda o que é o "trunfo" que você tem. Ou seja, ela nem imagina que eu sou esse trunfo. Ela tentou me advertir sobre você e Heitaro. Pediu desesperadamente que eu desse a Sesshoumaru o aviso de que vocês dois pretendiam atacá-lo lá caverna...
- E onde está essa miserável? – perguntou Hiko – Vai ser muito bom matá-la e deixar que minha espada roube a alma dela.
- Venha comigo e eu mostrarei a você onde a deixei – disse Asako, ansiosa para mostrar Yuki para o youkai – Você vai ficar surpreso...
Ela pegou a mão de Hiko e já ia levando-o quando sentiu o corpo arrepiar com um mau pressentimento.
"Não ouse!" uma voz feminina alertou, firme e assustadora.
Parou, olhando para os lados, procurando a dona daquela voz, sem encontrar ninguém além deles mesmos.
- O que foi? – perguntou Hiko – Por que parou?
- Essa voz? Você a ouviu?
- Voz?
- Sim... quero dizer, talvez eu esteja imaginando coisas...
- Esqueça a mulher por enquanto – disse Hiko soltando sua mão – Não podemos perder tempo agora. Vamos apenas aguardar o retorno de Heitaro e seguiremos para a caverna.
- Onde ele foi?
- Alimentar-se – respondeu Hiko – Aquele tolo acredita mesmo que matar crianças e beber seu sangue o torna mais forte.
Asako sentiu novamente o corpo arrepiar-se. Era como se estivesse sendo tocada por algum espírito. Concluiu que devia revelar logo para seu mestre a identidade da amante de Sesshoumaru.
- Hiko, você precisa saber quem é a mulher que estava com Sesshoumaru antes de minha aparição.
- Diga logo quem é.
- Você a conhece... – disse, atraindo o olhar curioso do youkai – Acho que jamais imaginou que...
"Cale-se!" a voz que parecia ecoar em sua mente mais uma vez a alertou. "Não ouse falar que é Yuki!".
Asako assustou-se e mais uma vez olhou a sua volta. Nada. Quando abriu a boca para revelar aquele segredo, sentiu a garganta seca. A voz não saiu. Parecia não saber mais falar. Estava muda.
- Quem é essa mulher? – Hiko aguardava impaciente a revelação.
- Eu-eu...
Asako logo notou que não estava muda. Estava era impossibilitada de falar o nome de sua rival, isso sim. As outras palavras fluíam normalmente de sua boca, mas o nome Yuki parecia travar cada vez que ela tentava pronunciá-lo.
- Voltei! – gritou Heitaro saltando do meio da mata.
Hiko encarou seu aprendiz e sorriu. Os olhos antes azuis do hanyou agora estavam vermelhos como sangue. O rapaz estava deixando seu lado youkai aparecer bem mais naquele momento, pronto para lutar até a morte se necessário.
Os olhos vermelhos indicavam o prazer e expectativa por uma luta violenta. Hiko já os tinha vermelhos naturalmente, demonstrando que nascera para lutar e matar. Heitaro, meio-humano, não tinha seu corpo totalmente tomado pelo ódio e desejo de sangue. Por isso só revelava o olhar assassino quando estava no auge de sua coragem.
Sesshoumaru, youkai poderoso como o pai, podia esconder seu poder atrás dos frios e inexpressivos olhos dourados; como era natural aos maiores youkais.
- Parece que temos tudo pronto – disse Hiko – Não temos mesmo a necessidade de esperar até que a noite chegue de vez. Vamos!
Saíram os três pela mata, com o sol começando a baixar no horizonte às suas costas. Hiko caminhava lado a lado com Asako, repassando cada detalhe do que fariam.
- Assim que chegarmos na entrada da caverna, Asako, você gritará por socorro. Tenho certeza que Sesshoumaru não se negará a abrir aquela parede de pedras ao escutar sua amada implorando por sua vida. Eu a segurarei até que ele abra, e então...
Um sorriso de vitória formou-se no rosto do youkai.
- Ele não ousará não fazer o que eu pedir – continuou – Ele não duvidará de minha coragem para cumprir com minhas ameaças.
- E o que eu faço? – perguntou Heitaro – Devo unir minhas forças com a sua, Hiko, e lutarmos os dois contra Sesshoumaru?
- Não – respondeu ele – A princípio quero lutar sozinho com ele. Vai ser fácil depois que eu o desarmar. Você só entra na luta se eu estiver em desvantagem... mas acho que isso é improvável.
- Então eu só vou assistir? – emburrou-se o hanyou.
- Não, meu aprendiz – disse Hiko – Depois de acabarmos com Sesshoumaru, seguiremos atrás dos companheiros dele. Nós os encontraremos, mais cedo ou mais tarde. E eles serão seu prêmio nessa história toda.
Hiko voltou sua atenção para Asako.
- E quanto àquela mulher? – perguntou ele – Não vai dizer qual o nome dela?
Asako balançou a cabeça negativamente. Por mais estranho que parecesse, tinha levado à sério o aviso daquela voz em sua mente, de não revelar o nome de Yuki. E mesmo que quisesse fazer isso, sentia que não conseguiria falar aquele nome. Era como se estivesse sendo controlada por uma estranha magia.
- Enfim... ela não tem mesmo interesse para mim neste instante – disse Hiko – Já que você disse que ela está fora do caminho no momento, acho que não precisamos nos preocupar com ela agora.
- Você não acha que a matou? – perguntou Heitaro, que tinha sido colocado à par do assunto há pouco – Você disse tê-la acertado com uma pedra...
- Acho que ela ainda está viva – respondeu Asako – Apesar de que não parei para ver se ela estava respirando...
- Vamos logo! – ordenou Hiko apressando os passos – Não me agüento de tanta ansiedade.
O crepúsculo tornava a caverna deslumbrante. A céu meio azulado, meio alaranjado refletia nas águas da lagoa, fazendo o olhar de Sesshoumaru se perder por alguns segundos nela, esquecendo um pouco da árdua tarefa que tinha a cumprir. Só desviou o olhar quando sentiu uma presença conhecida. Franziu a testa, irritado com Asako, que estava voltando somente naquele momento. Mas a raiva foi substituída pela surpresa. A presença da mulher sumiu de repente, indicando algo de errado.
Ouviu então a voz da reencarnação de Satsumi chegar aos ouvidos em tom baixo, devido à parede de pedras que os separava. Ela pedia por socorro.
- Asako... – murmurou ainda confuso.
Correu até a parede que selava o paraíso do exterior. Mais uma vez escutou a voz dela, pedindo desesperada por ajuda. Escutou também uma outra voz, também conhecida, que pedia a ele que aparecesse e salvasse sua dama.
- Hiko... – deixou o nome escapar entre os lábios cerrados – Maldito...
Hiko tinha conseguido pegar Asako, e agora a usava como isca para atraí-lo. Sesshoumaru deu um meio sorriso. O inimigo mal imaginava que era mesmo seu desejo lutar com ele, independente de Asako ou não.
Levou a mão até a parede de rochas, esperando impaciente que ela se abrisse por completo.
- Oras... Pensei que não abriria seu esconderijo para salvar sua amada – zombou Hiko, que segurava Asako com uma gravata, fingindo apertar seu braço contra o pescoço dela – Por pouco não mato sua querida humana.
- Solte-a! – ordenou Sesshoumaru encarando-o sem demonstrar nenhuma emoção – Se quer lutar, faça-o logo.
- Claro que quero lutar – disse Hiko – Mas não acho que esteja em posição de exigir nada, youkai. Eu soltarei a mulher quando achar melhor... ou...
- Ou? – perguntou Sesshoumaru.
- Ou se você abrir mão de suas espadas... – continuou Hiko – Aí, eu soltarei a sua amada.
- Deseja lutar comigo de mãos limpas, youkai? – perguntou Sesshoumaru – Ou agirá como o covarde que é, usando sua espada enquanto eu não uso nada além de minhas garras?
- Seria mesmo muita covardia, não? – riu Hiko – Você já está em desvantagem usando apenas uma mão. Não usarei minha espada – disse retirando a arma da cintura e estendendo a mão para o hanyou ao seu lado - Heitaro a guardará para mim...
Sesshoumaru encarou Asako. O olhar dela não demonstrava tanto medo, mas ela continuava a pedir que ele a salvasse, agora quase num sussurro. Levou a mão até a cintura, pegando a Tenseiga e a Toukijin de uma vez, jogando-as no chão.
- Solte-a – disse para Hiko – Solte Asako.
- Com prazer – disse Hiko – Mas antes... – caminhou até as espadas de Sesshoumaru e afrouxou um pouco o pescoço de Asako – Sua amada vai pegar as espadas e segurá-las. Apenas para que eu tenha certeza de que você não se sentirá tentado a usá-las.
Asako fez o que Hiko pediu. Pegou as duas espadas, tendo mais dificuldade com a Toukijin, bem mais pesada que a Tenseiga, e as segurou junto ao peito.
- Ótimo – disse Hiko – Agora, Sesshoumaru, quero que abra a parede da caverna, pois meu maior desejo é matá-lo em seu próprio esconderijo. Assim que entrarmos, eu libero sua querida humana.
Sesshoumaru não discutiu o pedido. Mais uma vez tocou a rocha, abrindo a parede rochosa e permanecendo na entrada até que Hiko passasse por ele, segurando Asako, e sendo seguido de perto por Heitaro, que agora segurava a espada de seu mestre.
- Tem tudo o que quer – disse Sesshoumaru – Agora, solte Asako.
- Nem tudo – disse Hiko sorrindo diabolicamente - Ainda falta sua cabeça separada do corpo para me que eu tenha tudo... – soltou Asako devagar, sem tirar os olhos de Sesshoumaru – Vá, humana! Fuja enquanto ainda tem tempo!
Asako correu, saindo da caverna carregando as espadas de Sesshoumaru. A parede de pedras se fechou rapidamente, deixando presos nela os inimigos.
- Sesshoumaru, seu tolo... – sussurrou ela sorrindo e olhando para as espadas – Será tão fácil para Hiko...
A Tenseiga vibrou violentamente, obrigando-a a jogá-la no chão, assustada.
- O que foi isso? – perguntou séria, depois abrindo um sorriso maldoso – Já sabe que o fim de seu dono está próximo? Conforme-se, você terá um novo senhor em breve.
Sentou-se sobre uma rocha, esperando pelo fim da luta. Deixou a Tenseiga no chão, segurando sobre o colo apenas a Toukijin. Entregaria as duas espadas a Hiko quando ele deixasse a caverna vitorioso.
Yuki ergueu-se com dificuldade. Passou a mão pela testa, onde o sangue escorria do ferimento causado pela pedrada que Asako lhe dera.
- O que... – estava confusa com o que acontecera - ...aconteceu?
Não entendia o porquê de Asako ter agido daquela maneira. Por mais que a rival ficasse preocupada com sua presença, não era justificável que a atacasse daquela maneira apenas para evitar que Yuki se encontrasse com Sesshoumaru.
Temeu que Asako não tivesse acreditado em suas palavras e não tivesse dado o aviso a Sesshoumaru. O céu já escuro indicava que se isso tivesse acontecido, o youkai já estaria à mercê do plano de Hiko.
Levantou-se devagar, sentindo a cabeça girar e apoiando-se numa árvore perto para poder permanecer em pé.
- Preciso ir até Sesshoumaru – exclamou com a voz embargada em dor – Talvez ainda consiga alertá-lo...
Respirou fundo, e sem saber de onde tirou tanta energia, saiu correndo pela mata escura, tropeçando em pedras soltas pelo caminho e tendo o rosto castigado pelos galhos mais baixos. Apesar da dor, sentia que era mais importante avisar ao youkai que tanto amava.
Hiko sorria de forma incessante. Era como se já tivesse a vitória garantida antes mesmo da luta começar. Sesshoumaru mantinha-se sério, olhar fixo no oponente, esperando pelo primeiro movimento dele. Observava Heitaro de vez em quando. O hanyou estava quieto em um canto, segurando a espada de seu mestre. Mas Sesshoumaru tinha certeza de que ele logo entregaria a Hiko a arma, numa clara demonstração de que não eram guerreiros de caráter.
- Vamos começar! – disse Hiko saltando na direção de Sesshoumaru e tentando acertá-lo com suas garras.
Sesshoumaru somente desviava com sua velocidade youkai. E assim que o oponente deu uma brecha, lançou sua mão contra o peito dele, atingindo-o com um soco e fazendo-o recuar alguns metros.
- Parece que mesmo com apenas um braço eu sou mais forte que você, Hiko – Sesshoumaru não perdeu a chance de zombar.
Hiko sorriu, e lançou-se mais uma vez contra Sesshoumaru. Dessa vez usou um de seus poderes especiais, deixando escapar dos dedos algumas serpentes de fogo. Sesshoumaru desviou da maioria, mas duas conseguiram atingir seu ombro direito, causando uma queimadura profunda na pele.
Como resposta, Sesshoumaru lançou seu chicote, enrolando-o contra a perna esquerda de Hiko, e puxando-o com força. O youkai caiu de costas no chão, mas se levantou agilmente, evitando ser atingido pelas garras afiadas de Sesshoumaru quando este saltou sobre o oponente.
- Dê-me a espada! – Hiko gritou para Heitaro – Eu vou acabar de vez com esse maldito!
Heitaro jogou a espada na direção do mestre, que a pegou e a apontou para Sesshoumaru.
- Já imaginava que não demoraria a mostrar o quanto é covarde – disse Sesshoumaru dando um sorriso de lado – Mas mesmo com sua espada não conseguirá me matar.
- Vamos ver – disse Hiko correndo na direção dele – Minha espada está com sua força máxima hoje.
Hiko ergueu a espada e ao chegar perto de Sesshoumaru, baixou-a com força, criando o som de ar sendo cortado. Sesshoumaru desviou num salto, e mais uma vez usou seu chicote, esperando conseguir laçar a espada e jogá-la longe. Hiko protegeu a espada, mas foi atingido no rosto, de onde surgiu um filete de sangue que escorreu até o pescoço.
Por algum tempo a luta se resumiu as investidas sem sucesso de ambos. Ora era Hiko quem atacava com a espada, ora era Sesshoumaru que lançava seu chicote.
Heitaro aguardava ansioso no canto. Não podia se intrometer na luta, a menos que seu mestre pedisse. E pelo andar do entrave, sua ajuda não seria pedida nunca. Resolveu intervir de uma maneira pequena, jogando umas pedras contra Sesshoumaru.
Um pequeno desvio de olhar de Sesshoumaru, feito somente para ver o que Heitaro pretendia, foi o suficiente para que Hiko o atingisse com a espada. Não foi um ferimento grande, apenas um corte no lado direito do abdômen. Mas Hiko parecia ter ficado muito satisfeito com aquele pequeno progresso.
Logo Sesshoumaru entendeu o porquê de tanta alegria. A espada de Hiko passava a reluzir de forma impressionante.
- Veja, youkai – disse Hiko para Sesshoumaru – Uma simples gota de seu sangue foi o suficiente para elevar o poder de minha espada ao máximo. Até imagino o que acontecerá quando ela possuir toda a sua alma!
Hiko intensificou seus ataques, levando Sesshoumaru a perder a maior parte de seu tempo se defendendo.
"Seria bom ter minha espada" pensou Sesshoumaru "Não que eu não seja capaz de lutar usando apenas minhas garras, mas... era o momento certo para usar a Tenseiga".
Yuki parou aos pés do monte onde ficava a caverna. Sentiu um arrepio percorrer seu corpo, mas não cogitou desistir. Mesmo que tivesse que enfrentar Hiko e Heitaro pelo caminho que conduzia até a entrada da caverna, não desistiria. Entrou correndo, sentindo o coração bater acelerado, tanto pela corrida, quanto pela ansiedade.
"Espero não ser tarde..." pensou preocupada "Espero que Hiko ainda não tenha vindo...".
Asako escutou o som de passos vindo na sua direção. Levantou-se e encarou o corredor escuro a frente.
- Quem quer que seja, pode parar por aí! – Asako disse em voz baixa, mas tendo o volume amplificado pelo ambiente.
- Asako? – a voz suave de Yuki ecoou em resposta.
Asako petrificou. Sabia que era Yuki, e que ela poderia tentar interromper a luta.
- O que quer, Yuki? – perguntou com a voz firme.
- Por que me atacou? – perguntou Yuki, esquecendo-se por um momento de que era mais importante avisar Sesshoumaru – O que pensava estar fazendo?
- Oras, sua maldita! – resmungou Asako – Vá embora daqui!
- Não! Não enquanto eu não der meu aviso a Sesshoumaru.
- Eu já o avisei – mentiu Asako – E ele riu de tal aviso. Certamente ele a considera mais louca do que eu imagino.
- Impossível – desconfiou Yuki – Sesshoumaru não daria as costas a um aviso tão sério. Ele sabe que eu não mentiria.
- Você se acha mesmo muito importante, não é? – riu Asako segurando a Toukijin nas mãos em posição de defesa – Acha que suas palavras são leis para Sesshoumaru?
- Não é isso – disse Yuki seguindo a voz de Asako enquanto se aproximava devagar – Ele sabe que eu não tenho motivos para mentir.
- Vá embora, Yuki – aconselhou a outra – Antes que eu perca o que me resta de paciência.
- Não pretendo ficar, Asako. Não se preocupe com isso. Preciso apenas ter certeza de que deu mesmo o recado a Sesshoumaru.
Asako segurou a Toukijin com força. Se Yuki soubesse o quanto estava perto da morte ao aproximar-se cada vez mais de onde a rival estava... Mas ela continuava a caminhar na direção de Asako.
Só que ao chegar bem perto de Asako, Yuki sentiu o pé bater em algo e parou. Primeiro imaginou ser uma pedra, mas logo notou que não era isso.
- O que é isso? – perguntou enquanto se abaixava e tateava pelo chão, até encontrar a lâmina gelada da Tenseiga – Uma espada?
De repente sentiu outro arrepio tomar seu corpo. Asako não possuía espadas...
- Essa espada... – comentou pegando-a com as duas mãos – De quem é esta espada, Asako?
Uma risada de Asako ecoou pela corredor escuro de rochas, deixando Yuki ainda mais confusa.
- Essa espada é de Sesshoumaru – respondeu ela – Não a reconhece? E a outra espada dele está em minhas mãos.
- Como?
- Ele não precisa dela no momento – continuou Asako – E acho que não precisará tão cedo...
- Do que está falando? – Yuki se irritava com a forma de Asako falar – Ele está desarmado lá dentro? Ele espera por Hiko sem suas espadas?
- Espera por Hiko? – Asako riu novamente – Ele já está com Hiko lá dentro.
Yuki petrificou. Tinha mesmo chegado muito tarde e não conseguira avisar ao amado youkai. E nem acreditava que Asako, que parecia estranhamente despreocupada, o tivesse mesmo avisado antes.
- Hiko... – sussurrou Yuki – Hiko está lá dentro?
- Sim... e também o seu amado irmão – continuou Asako – Você tinha razão, Yuki. Eles pretendiam mesmo atacar Sesshoumaru.
- E você não o avisou... Por isso Hiko conseguiu atacá-lo dentro da caverna.
- Desculpe, mas pensei que você estivesse mentindo apenas para poder ver Sesshoumaru de novo. Mas, não se preocupe, as coisas estão saindo como o planejado. Agora, vá embora.
- Saindo como o planejado? – Yuki estava cada vez mais confusa – Planejado por quem, Asako? Por Sesshoumaru? Ele está desarmado e lutando contra dois inimigos ao mesmo tempo. Como ele pode vencer?
- Cale a boca – disse Asako ficando irritada – Não se meta no que não é da sua conta.
- Você não sabe o quanto Hiko é cruel! – gritou Yuki – Você não conhece aquele maldito!
Uma sonora risada de Asako fez Yuki temer que o que acabara de dizer não fosse verdade. Mas antes que pudesse pensar em mais alguma coisa, sentiu o ar a sua frente deslocar-se, mostrando que Asako levantava a espada com a rapidez típica de quem vai atacar. Sem saber como, ergueu também sua mão, impedindo com a Tenseiga que a Toukijin a atingisse em cheio no rosto.
- O que está fazendo? – indignou-se Yuki.
- Vou matá-la! – respondeu Asako – Antes que bote tudo a perder!
- O quê? – indagou protegendo-se mais uma vez do golpe de Asako.
A luta das duas era às cegas. Tanto Yuki quanto Asako não entendiam nada do manejo da espada. Asako tentava acertar qualquer coisa a sua frente, enquanto Yuki defendia-se impulsionada por um instinto ou por uma proteção divina.
- Sua maldita! – gritou Asako – Por que não consigo acertá-la?
Yuki não conseguia entender nada. Mesmo defendendo-se de todos os golpes, tinha medo de ser acertada, e correu na direção do exterior da caverna.
- Está fugindo? – gritou Asako escutando o som dos passos rápidos e também o barulho da lâmina da Tenseiga batendo contra o chão enquanto a outra corria.
Sem esperar, Asako correu em seu encalço. Queria matar Yuki e garantir que os planos de Hiko saíssem exatamente como o planejado.
Yuki parou ao chegar na saída do túnel. A lua crescente iluminava a área ao seu redor o suficiente para que ela seguisse até sua casa sem se perder. Mas não faria isso. Queria impedir que Hiko machucasse Sesshoumaru, e se fosse preciso tirar Asako de seu caminho e entrar na caverna, jogando-se na frente de Hiko para impedi-lo de lutar, o faria. Olhou para trás, já esperando que Asako aparecesse. Segurou a Tenseiga com as duas mãos, sem perceber que fazia isso como se entendesse mesmo da arte da espada. Como um guerreiro faria se precisasse lutar.
Quando Asako saiu da caverna, deparou-se com o vulto negro de Yuki parado há alguns passos de distância.
- Decidiu não fugir mais, Yuki? – ela perguntou – Aceitou morrer como a fraca que você é?
- Não sei os seus motivos para me atacar dessa maneira, Asako – respondeu Yuki, com a voz firme – Mas não vou correr, e nem esperar que você tire minha vida tão fácil. Se quer mesmo tirar nossas diferenças com a espada, você terá isso.
Asako sentiu algo estranho. Yuki parecia ter se tornado outra pessoa, não mais a garota fraca e chorona que mostrara ser nos outros dias. Deu uma risada, mas já sem a sonoridade e firmeza de antes.
- Vou matá-la! – gritou apertando a Toukijin entre as duas mãos.
- Tente! – respondeu Yuki fixando o olhar no vulto à sua frente.
Asako gritou e partiu para cima de Yuki. O golpe teria sido fatal, acaso Yuki não o tivesse repelido com facilidade, parecendo ter a habilidade e experiência de alguém que há muito já treinava com a espada.
- Maldição! – resmungou Asako.
Yuki sorriu.
Ops, vou dividir em duas partes para não ficar comprido demais. Já foram 20 páginas só até aqui. Ainda tem muito a acontecer neste capítulo, vocês vão ver. E acho que dessa vez não demorarei, pois já tenho todo o desenrolar da luta em minha mente. Abraços e até a próxima!
