A HERANÇA DO CÁRCERE - OS FILHOS DO INQUISIDOR
XIV
- Bateu ele em sua mulher?
- Sim. De chicote.
- Quebrou ele algum osso dela?
- Que eu saiba, não.
- A aleijou ou a mutilou de forma permanente?
- Também não.
- Por um acaso tornou-a estéril por causa das chicotadas?
- Penso que não; não a surrou no ventre.
O rei fez um gesto de desdém com a mão.
- Então não fez nada demais.
Pedro ficou boquiaberto.
- Mas...! A deixou toda lanhada nas costas!
- É o pai dela. Ele a está disciplinando.
- Mas ela é uma moça casada! O pai não deveria mais surrar a filha casada!
- Não deve surrar a filha casada. Sim, era o senhor quem deveria cuidar da sua esposa. E no entanto ouvi falar que esses dias andaram, o senhor e ela, a se beijar em pleno parque! Que é isso, senhor Pedro! Até mesmo entende-se que estejam em começo de casamento; ela é bonita, o senhor é jovem... tudo bem. Mas não em público! No mínimo tal informação chegou aos ouvidos dele e ele puniu a filha por tal ousadia. E fez bem!
- Então terei eu de vê-la apanhar, mesmo que seja seu esposo?
- Discipline-a e não precisará que vosso sogro o faça por si.
- Mas, meu senhor!
- Que quer que eu faça, senhor dom Pedro?
- Não há nada que possa ser feito?
O rei sorriu. Em seu sorriso havia a acidez de quem desdenha da juventude de outrem.
- Senhor dom Pedro, a Igreja manda no Estado. Em Espanha não é assim: lá a inquisição é controlada pela monarquia. Mas em Portugal, a Igreja ainda está acima de nós. Na prática, eles poderiam até mesmo prender a mim e meus familiares caso quisessem. Não o fazem porque... bem... porque devem conviver de maneria harmoniosa com o Estado. Porém... se nós fôssemos incômodos, com certeza seríamos eliminados.
- Se não posso recorrer ao próprio rei, a quem poderia recorrer?
- Aos superiores dele. Mas não num caso desses. Na teoria, os únicos que poderiam vir a discipliná-lo seriam os bispos e os cardeais superiores a ele. Na prática, apenas o disciplinariam de fato caso ele fizesse algo contra a própria Igreja. Enquanto Expedito continuar a trazer cada vez mais fiéis à Igreja, eles o protegerão de qualquer coisa. E ele é discreto: tudo que tiver de fazer, fará à face da lei e dos preceitos da Igreja. Caso cometa algum deslize, como o fato de ter mulher e filhos, o fará da maneira mais discreta possível. Por exemplo, a mulher dele. Ele a assume até hoje, a trata não como uma amante, mas como uma esposa. O filho ele colocou como padre; já ouvi até que ofereceu-lhe o cargo de inquisidor! E a filha ele já pôs num casamento fidalgo - com o senhor mesmo. Muitos não encaminham os filhos bastardos a cousa alguma; Expedito fê-lo com os seus como se fossem legítimos. A disciplina que ele deu na moça, nada mais será do que encarada como um pai que cuida da honra da filha.
- Então...
- Senhor dom Pedro, falarei algo ao senhor como um amigo, não como monarca. Caso o senhor cisme em denunciar o senhor inquisidor, além de ele não ser punido, a cousa poderá se voltar contra o senhor.
- C-como assim?
- Ora, meu senhor. As cousas chegarão aos ouvidos dele. E ele dará um jeito de matá-lo. Se a filha for abandonada ou separada, perde ela a honra; se for viúva, a honra permanece intacta; e por isso a moça poderá ser casada novamente sem nenhum demérito à sua pessoa ou à pessoa do inquisidor.
- Pensa que seria ele capaz disso?!
O rei riu novamente.
- Pois é claro! Já vi pessoas que não são poderosas como ele fazerem-no. O marido dá trabalho? Manda-se matar. Pronto, logo está a filha pronta para casar outra vez. E se for necessário matar dois, três, quatro maridos até achar o ideal, faz-se. Mulher viúva não perde a honra, senhor dom Pedro. E agora encerremos esta conversa, pois na corte as paredes tem ouvidos. Vá para casa e somente reclame do seu sogro caso ele atente de forma séria contra a vida de sua esposa - mas isso ele não fará; é esperto demais para fazer dessas sem um motivo mais sério.
- Portanto nada poderei fazer.
- É altamente recomendável que não faça, caso não queira morrer tão cedo.
- A mulher dele também já chegou a apanhar.
- A senhora dona Violante? Aquela mulher é louca por ele! Também, não é para menos: passou um ano trancada numa torre após casada, sem ter o casamento consumado. Trocando em miúdos: ficou ela virgem dentro do casamento por um ano. Expedito a libertou, anulando seu casamento. Deu-lhe casa, criadas, roupas bonitas, filhos - cousa que o marido anterior jamais dera, largando-a como a largou. Não é de se espantar que seja doida por ele; até hoje as pessoas quando os vêem juntos, vêem-na a sorrir com cara de embevecida a ele. Até hoje, mais de vinte anos depois! Se ele disciplina a mulher, é porque não a quer ver ser chamada de libertina ou qualquer outra cousa semelhante por viver com um clérigo. E bem faz ele. Ninguém critica a postura dele quanto a isto.
Pedro refletia: o rei tinha razão. Era exatamente daquela forma que Violante agia. Desanimado, portanto, simplesmente fez uma reverência e já ia a se retirar. No entanto, assim que saíra da presença do rei, um velho nobre o chamou de lado:
- Psiu! Senhor dom Pedro de Castro?
- Sim?
- Venha cá, por favor.
Receoso, pensando que aquele era algum emissário de Expedito que ouvira tudo, Pedro foi até o velho; o mesmo falou bem baixo a si:
- Senhor dom Pedro, as paredes de fato tem ouvidos. Se fosse outra pessoa a ter escutado a conversa que se passou entre vossa mercê e o rei! Estaria provavelmente condenado já!
- Que quer de mim?
- Sou o Marquês de Pombal. Já deve ter ouvido falar de mim. A rainha não me tolera; tenho de me retirar até mesmo da presença dela quando passa ela pelas ruas! Mas o rei ainda me escuta vez por outra. Veja. Estava eu prestes a pedir audiência para o rei, a fim de conseguir entrar à presença dos nobres sem precisar me retirar da presença da senhora sua esposa, quando escutei o que ocorreu consigo. É verdade que casou com a filha de Expedito?
- Sim.
- Homem, o que o fez casar-se com a filha de semelhante estafermo?!
- Disse ele que se eu não casasse, iriam eu e minha mãe ao degredo.
- Ah sim, o mesmo homenzinho sujo de sempre! Sei! Pois então, casou forçado?
- De certa maneira, sim. Mas meu problema não é com minha esposa; estamos até mesmo a nos entender bem. O problema-
- O problema é aquele monstro. Sei. O problema de Portugal inteiro é aquele monstro e os que o patrocinam! Sim! Pois num século desses, onde em outros países a ciência avança a passos largos... aqui e em Espanha ainda é esse atraso de queimar gente em praça pública! Não há espaço numa época como esta para seres como Expedito, os quais surram a filha somente porque ela beijou o marido em público!
Pedro sabia que o inquisidor não surrara a filha por se beijar em público, mas sim por ter feito o ato sexual por cima de si. Mas resolveu calar, não querendo expor mais ainda a sua vida íntima com ela.
O Marquês continuou:
- Meu senhor, já chegaram a meus ouvidos que nem sequer o filho dele, o tal de Timóteo, o suporta mais! Parece que o mundo está a cercar Expedito em sua ignorância, em sua caturrice, e somente sobram ele e a senhora dona Violante com aquele pensamento nefasto! Sim, aquela mulher que mora com ele, a senhora sua sogra, também não é lá boa bisca! Pois então... mas ele é forte como a morte. É inexorável como o tempo! Parece ser daqueles que nunca ficam doentes. Portanto... lhe falarei algo em caráter sigiloso. Mas não diga a ninguém! Não diga! Se disser, saberei que foi o senhor!
- Pois diga.
A voz do Marquês se transformou em um fiozinho de voz quase inaudível:
- Planejo matá-lo!
Pedro se assustou. Sabia daquelas intrigas palacianas - mas matar o inquisidor-mor? Era muito pior que matar a um nobre; a Igreja jamais o perdoaria e o excomungaria com certeza, pro resto da vida.
Como adivinhando os pensamentos do jovem, o velho continuou:
- Não há outro jeito. Se o inquisidor for ao degredo, capaz de manipular os guardas e conseguir o poder de outra maneira! Aquilo é uma peste, só se vence quando completamente eliminada! Pois então, senhor dom Pedro... observe. Não será para agora, entende? Mas observe as pessoas ao seu redor. O senhor na casa daquele crápula poderá observar muito mais atentamente os possíveis pontos fracos dele. Observe e veja como age. Não vos pedirei que seja meu informante; é cedo ainda. Apenas observe! Como estamos sempre cá na corte, vez por outra falaremos sobre isto. Agora deixe-me ir ter com o rei - se me demoro muito ele desconfia de algo. Até mais ver!
E rápido como um raio, o Marquês sumiu da mesma forma que havia aparecido. Pedro continuou a matutar nas palavras dele. E repentinamente se surpreendeu ao não sentir-se mal de forma alguma caso Expedito viesse a ser morto.
OoOoOoOoOoOoO
No fim da tarde, ao chegar em casa, Pedro constatou que Teodora já estava no quarto e Violante já havia saído da penitência. Acostumada com todos aqueles anos de jejum e de surras, Violante àquela altura da vida simplesmente se vestia, fazia a toilette e ia à mesa de refeições, como se nada houvesse ocorrido ou pudesse feri-la. Expedito gostava daquilo; pensava que ela suportava bem às penitências porque ele lhe ensinara a viver de maneira digna.
Pedro tomou a ceia e rapidamente foi ao quarto. Lá, viu Teodora aplicar a salmoura nas costas com a ajuda de Mariana, uma das criadas. As serviçais, com os anos, simplesmente não se intrometiam no que se passava na casa; apenas serviam da melhor forma que podiam. Mas jamais se metiam nos assuntos da casa; todas sabiam, como se fosse uma lenda local, do destino que Ana tivera. Anos antes, Ana fora uma cozinheira que se intrometera nas penitências que Expedito dava em Violante à época; pois fora para a fogueira sem mais nem menos. Desde então, nenhuma das criadas ousava sequer falar algo sobre as penitências do inquisidor. Faziam como se não acontecessem.
Ao ver Pedro chegar no quarto, Mariana fez uma reverência e saiu; já estava mesmo na hora de ir embora. As criadas, desde os tempos antigos, nunca dormiam naquela casa.
Pedro então se achegou à esposa. Ela ainda chorava, desolada.
- Está melhor?
Teodora chorou mais um pouco, mas já conseguia falar.
- Sim. Já consegui comer, já bebi água... mas me sinto tão mal! Pedro, queria eu que meu pai morresse!
E então o abraçou, pensando que era a única pessoa com a qual podia contar.
- Acalme-se. Escute, vou lhe contar. Hoje, falei com o rei.
- E ele?
- Ele simplesmente me disse que a Igreja pode mais que o Estado, por isso não se mete nas decisões da mesma.
- Mas...! Pode então meu pai fazer o que quer?!
- Não é o que tem feito nestes anos todos? Bater em ti foi uma cousa; no geral, ele mata.
- É verdade! Mas que fazer, Pedro? Que fazer?
- Tentarei falar com teu pai sobre irmos morar com minha mãe. Ela é viúva e sozinha naquela casa. Logo, pode ser que ele nos autorize a morarmos com ela.
- Ah, Pedro...! Se conseguir, fico tão feliz!
- Vamos ver. Amanhã, não seria bom irmos à igreja? Depois poderemos andar mais um pouco novamente. Para que te distraias.
- É verdade. Mas essa dor...! É mais do coração que das feridas que me fez ele!
- Vai passar. Vamos, estou aqui contigo. Vou te ajudar com a salmoura.
O fidalgo então a ajudou a aplicar a salmoura nas costas - pensando no que o Marquês de Pombal lhe disse. Nada disse a Teodora - se ela deixara escapar que tivera relação com ele de uma forma "heterodoxa", que se diria de falar sobre aqueles assuntos mais sérios. Guardou para si, mas as palavras daquele homem não saíram de sua mente.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
Tá chegando a hora do Pedito pagar os pecado aaaaaaaaaaaaaa!
No próximo capítulo, Pedro e Teodora vão ver o Timóteo na igreja. E o julgamento de Blimunda se aproxima. A história vai começar a ficar tensa a partir daqui!
Abraços a todos e todas que estão lendo!
