OS MAROTOS
Capítulo XIV
Aviso: Esta história é baseada em personagens e situações criadas por JK Rowling. Os direitos autorais pertencem a editoras como Bloomsbury Books, Scholastic Books e Raincoast Books, e Warner Bros., Inc. Não há intenção nenhuma de arrecadar dinheiro com essa prática ou violar leis. O principal objetivo deste fic é somente a divulgação de idéias e liberdade de imaginação. Respeito e admiro totalmente as obras de JK Rowling, não pretendendo de forma alguma roubar ou marginalizar seus personagens.
Sumário: O retorno ao passado dos "Marotos" e aos sentimentos confusos daqueles dias.
A adolescência é mesmo uma coisa XD
Casais: Remus Lupin/ Sirius Black; James Potter/Sirius Black; Remus Lupin/ James Potter; Remus Lupin/ Snape
Categoria: Angst/Romance/Slash
Notas1:Por favor, não encarem esta história com uma visão ofensiva ou julguem seu conteúdo apenas erótico. Há aqui a presença de sentimentos e emoções que obviamente não cabem num cenário pornô, onde a única preocupação é a prática desenfreada de sexo. Se por um acaso você é menor de idade ou possui algum trauma ou preconceito contra homossexualismo (relacionamento entre homens) não a leia. Não há necessidade de entupirem minha caixa de e- mail com comentários baixos sobre yaoi ou críticas ofensivas. Somos adultos e vivemos num país livre, por isso, vamos nos comportar e nos respeitar.
Notas2:
Bom, como graças ao servidor, a página de reviews aqui não está abrindo (típico!) para eu ler, não posso responder dessa vezaos comentários.
Sorry. Fica para a próxima... /
Terminei de escrever o capítulo XIV há dez minutos atrás. Estou satisfeitíssima em post�-lo FINALMENTE!
Esse capítulo foi particularmente difícil porque esses marotos estão se tornando muito temperamentais. XD
Bem, só uma curiosidade. Qual signos vcs acham que Sirius, Remus e James têm?
Eu acredito que Sirius seja de Escorpião. Remus de Câncer. James de Aquário.
Ao menos a idéia que faço deles, é muito parecida com as personalidades desses signos.
Bem, espero que curtam o capítulo e não deixem de comentar.
Beijos.
Brilliant Green
Come Undone
(Duran Duran)
Mine, immaculate dream, made breath and skin, I've been waiting for you,
Signed, with a home tattoo, happy birthday to you was created for you.
(can't ever keep from falling apart.. at the seams)
(can't I believe you're taking my heart.. to pieces)
Ahh, it'll take a little time, might take a little crime to come undone
Now we'll try to stay blind, to the hope and fear outside,
Hey child, stay wilder than the wind
And blow me in to cry.
Who do you need?
Who do you love?
When you come undone.
Words, playing me deja vu, like a radio tune I swear I've heard before,
Chill, is it something real, or the magic I'm feeding off your fingers
(can't ever keep from falling apart.. at the seams)
(can I believe you're taking my heart.. to pieces)
Lost, in a snow filled sky, we'll make it alright, to come undone,
Now we'll try to stay blind, to the hope and fear outside,
Hey child, stay wilder than the wind -
And blow me in to cry.
Remus abriu os olhos, ainda envolto pelo misticismo avassalador daquela sala de pouca luz. Permanecia ainda no sofá próximo à lareira. Sobre seu corpo, com um peso morno, Sirius também repousava. Sua respiração era lânguida. Serena.
O brilho sonso das estrelas penetrava através das venezianas da janela, iluminando timidamente alguns cantos daquele escritório. E os lençóis negros da noite acobertavam crimes hediondos. Insensatos. Soberbos.
O garoto de cabelos castanhos percorreu seus olhos pela sala antes de voltarem-nos novamente para o amante adormecido em seus braços. Remus arriscou-se a acariciar-lhe os cabelos com ternura, antes que fosse obrigado a estilhaçar os frágeis vidros daquele devaneio.
A música da festa atravessava as frestas daquela sala e chegavam até os seus ouvidos como um chamado melancólico da realidade que os esperava.
Por um breve momento, Remus admirou a harmonização do rosto diante de si que sempre julgara perfeito. Expressivo. Admirável.
O delírio palpável de várias garotinhas e garotinhos apaixonados dormia sobre seu corpo. Com um prazer intenso ainda percorrendo seu fluxo sangüíneo. Misturando-se com vinho. Umedecendo seus afetos insustentáveis.
Remus sentiu uma ligeira dor atravessar seu coração...
Era aquele o delírio também de James. O seu sonho e gêmeo que tomara emprestado em um momento de insanidade. De paixão exacerbada. De sentimentos extenuantes.
A culpa o abraçou como uma segunda amante. Atravessou a camada fina de sua epiderme e passeou por seus ossos até encontrar uma consciência sensível. Uma consciência que fez-se plana em sua mente. Impiedosa.
Contudo, o garoto de cabelos castanhos não conseguiu evitar experimentar o inconfundível sentimento do desejo quando seus olhos percorreram Sirius novamente. Uma alegria febril o preencheu com a memória de como aquele garoto arrogante o devorara. Manipulara seu corpo. Curara-no das feridas que ele próprio abrira.
Sirius abriu os olhos quando Remus mexeu-se. Com idéias intranqüilas, o garoto de cabelos castanhos começou a abotoar suas vestes com mãos apressadas. Sentia pupilas cinzentas de temporais sobre si. Temporais que estariam por vir. Ou seriam fenômenos que já haviam começado há horas atrás quando beijou apaixonadamente o garoto de cabelos compridos? Quando este retribuiu seu gesto com carícias extenuantes e o amarrou aos calcanhares de sua insanidade.
"Remus... Que horas são?"
"Não sei... Deve ser mais de meia-noite... Acho melhor você se vestir também, Sirius..." murmurou o garoto de cabelos castanhos, levantando-se com pressa e desamarrotando suas vestes.
Sirius permaneceu mirando por um longo tempo Remus antes de fazer o que o outro o dissera. Inevitavelmente, os olhares desconfiados de ambos se encontraram. Remus voltou a sentar-se com um desalento crescente.
"O que nós fizemos, Sirius...? Estou assustado..."
O garoto de cabelos compridos apressou-se em abraçar-lhe enquanto beijava-lhe o rosto.
"Está tudo bem, lobinho. Vai ficar tudo bem. Não quero que se culpe ou se arrependa... Acho que você estava meio embriagado pelo vinho talvez..."
"Não, Sirius... Eu havia bebido demais, mas não fiz tudo aquilo inconscientemente... Eu sabia o que estava fazendo... Eu queria..."
Sirius sentiu a fragilidade de Remus contra seu peito. Sentiu o perfume doce de seus cabelos e uma súbita ânsia de beij�-lo assolou-no. Uma vontade de ir de encontro a tudo que deveria realmente sentir.
O garoto de cabelos compridos puxou o outro para si e beijou-no nos lábios por minutos eternos. Remus sentiu-se engolfar novamente por aquela onda de devaneios lúgubres. Sensações espontâneas. Irreprimíveis.
A loucura de Sirius podia ser sentida até mesmo em seus beijos. Possessivos. Desejáveis. Sufocantes.
Era a sua impulsividade que tornava cada gesto seu tão unicamente verdadeiro. Em cada momento que seus lábios encontravam os de Lupin, o garoto de cabelos castanhos sentia uma força dantesca atingir seu âmago. Palavras concretizadas por gestos insanos. Adoráveis.
Remus foi tomado pela inconfundível e sublime sensação que sentia após cada beijo de Sirius. Ele sabia como beijar. Ele sabia atingir graus insuperáveis em tudo aquilo que inspirava desejo. O amante perfeito. A boca perfeita. O garoto precoce que ultrapassara estágios de inexperiência.
Aquele que não era totalmente seu.
"Remus, eu quero que você saiba... Quero que você saiba que eu também quis que acontecesse. Fui eu quem começou tudo... Eu fiquei tão impressionado com as suas palavras... Nunca alguém havia dito que ... Você sabe... que me amava..."
O garoto de cabelos castanhos capturou uma insegurança apreensiva nos olhos de Sirius. Como se este temesse que o poder daquelas palavras fosse diminuído se as dissesse.
"Nunca ninguém havia dito que te amava? E quanto a James...? Por Deus, Sirius, e todas aquelas meninas e meninos que correm atrás de você em Hogwarts? Acho que nunca lhe falta amor..."
Sirius baixou os olhos antes de falar.
"Não é comum James dizer isso porque sempre gostamos um do outro. Não há necessidade de ser dito. Não há um começo para nossos momentos. Sempre existiram... Entende?"
Remus sentiu-se enciumar com aquelas palavras. Uma bactéria inescrupulosa instalou-se em seu coração sorrateiramente. E antes que se envergonhasse de suas idéias, o garoto de cabelos castanhos flagraria-se pensando que mesmo que fosse por um breve momento, conseguira manipular de algum modo o "sempre" do qual Sirius falava.
"... Mas, eu não percebia que talvez eu precisasse ouvir isso às vezes..." concluiu o garoto de cabelos compridos visivelmente intimidado por sua própria fraqueza ao admitir tal verdade.
Lupin compreendeu o significado das palavras e sentimentos do garoto que estava diante de si. Compreendia que Sirius viera de uma família insensata que negara-lhe um mínimo de ternura necessária. Vital. Compreendia um tremeluzir de insegurança em seus olhos. A dependência daqueles poucos aos quais dedicava um amor maior do que a vida. Daqueles que não tinham obrigações de aceit�-lo.
Sirius prosseguiu.
"Quero que você saiba que eu nunca vou esquecer do que houve aqui, Remus, da mesma maneira que nunca esquecerei do que aconteceu na Floresta Proibida. Da mesma forma que nunca esqueci de todas as coisas por menores que fossem que houve entre nós..."
Remus baixou os olhos. As palavras duras sob a voz aveludada de Sirius foram as responsáveis pelo estilhaçar dos vidros. E o garoto de cabelos castanhos sentiu-nos um a um penetrarem seu coração. Estava na hora do encanto ser quebrado. Compreendia intimamente aquelas palavras. Estava na hora de Sirius retornar para as mãos de seu gêmeo adorável. O verdadeiro responsável pelo "sempre". O senhor do infinito. Aquele que não tivera um começo, mas possivelmente perpetuaria através do tempo.
Sirius compreendeu instintivamente uma lágrima rebelde que escapou ao controle de Remus. O garoto de cabelos compridos abraçou-no com desalento.
"Eu não posso deix�-lo, Remus! Não podemos fazer isso com ele! Eu sei que quando sair desta sala e encontr�-lo, vou desmoronar com culpa. Há algumas horas atrás quando eu te toquei, poderia ter deixado para trás uma das pessoas que mais amo no mundo, mas Remus, não me peça para fazer isso agora porque eu não consigo..."
Remus sentiu seu estômago revirar-se em uma dor abominável. A dor de perder aquilo que tivera tão próximo a si. Aquilo que fora tão seu. Sua voz ao falar era trêmula.
"Nunca pensei em pedir para deix�-lo, Sirius. Eu sei que vocês se amam... e acho que ele não deve saber o que houve. Tenho medo de James. Acha que ele nos odiaria?"
"James Potter nunca nos odiaria. Mas, acho que tem razão quando diz que é melhor não contarmos nada a ele. Não teria coragem. Eu não conseguiria... Apesar de não gostar de esconder as coisas dele. Eu estou um pouco confuso com tudo isso, Remus..."
O garoto de cabelos castanhos assentiu enquanto enxugava os olhos com as mãos.
"Também não tenho idéia de como contar tudo isso para o Michael... Tenho certeza de que ele ficará muito magoado! Estou inseguro se devo fazê-lo..."
Sirius virou-se rapidamente para fit�-lo com uma expressão incrédula.
"Ora, Remus, não me diga que está pensando em continuar saindo com aquele idiota do Carlson! Quando você romper com ele, a melhor coisa é cont�-lo o que houve. Tanto faz as causas, você não terá mais compromisso com ele!"
Remus permaneceu um breve momento em silêncio. As palavras de Sirius deixaram-no ligeiramente perplexo.
"Eu não pretendo deixar o Michael, Sirius..."
O garoto de cabelos escuros livrou o outro do abraço antes de prosseguir com uma ligeira irritação na voz.
"Droga, Remus, você não havia dito que me amava? Por que quer continuar com Carlson se não o ama? Vai continuar vivendo sua vida de mentirinha?"
"Sirius, eu não o culpo por não querer abandonar James. Por que diabos eu preciso então terminar com Michael quando você volta correndo para os braços de seu namorado depois do que fizemos aqui?"
"Porque você não gosta dele! Você ama a mim!"
"Eu te amo, Sirius, mas é impossível como você me fez perceber daquela vez na Floresta Proibida! Como me fez perceber agora. T�, tudo bem, eu posso não amar o Michael, mas eu gosto dele. Eu me sinto bem com ele. Existe alguma ternura entre nós, mesmo que não seja igual ao que sinto por você. Estou errado em tentar conseguir alguma felicidade com quem me ama quando a pessoa de quem eu gosto não pode me corresponder?"
"Você está fazendo chantagem não é, Remus? Ou eu deixo James ou você fica com aquele imbecil do Carlson..."
Remus pareceu profundamente indignado com as palavras de Sirius.
"Eu nunca faria isso! Não vou competir com James! Eu amo o James, caso você não saiba, Sirius! Nunca faria algo assim para prejudic�-lo. Mas, entenda que está fora de seu alcance. Se você não pode me corresponder em meus sentimentos, não espere que eu te siga como um cachorrinho, como aquelas suas fãs. Eu não sou assim! Meus sentimentos posso muito bem guard�-los para mim! Eu os guardei por três anos!"
"Sim, e você corre para os braços daquele idiota do Carlson para manter esse seu ar superior! Para manter suas mentiras!"
"Para viver minha vida, Sirius. Para tentar te esquecer. Se não fosse ele, poderia ser outro. Antes ele que é alguém por quem sinto um profundo carinho..."
Sirius mirou Remus com visível decepção.
"Esperava que depois do que houve aqui você entendesse..."
"Entendesse o quê? Que eu posso dispensar o Michael com facilidade quando você não pode fazer o mesmo com seu amado James? Que eu posso correr atrás de você a vida inteira e viver um amor platônico, sem precisar de carinho? Que devo me lamentar quando se tranca com James no quarto de hóspedes da minha casa e permanecer solitário em respeito a você? Que eu posso me regozijar com a relação sua e de James enquanto você não pode nem tolerar a minha com Michael? Entenda uma coisa, Sirius, há mentiras sim que estou vivendo! Inúmeras! Mas, não tenha dúvidas de que nunca me forçaria a ficar com alguém se não nutrisse algum afeto. E eu sinto esse afeto por Michael! E ele sempre me tratou melhor do que eu desejei. E isso não é mentira! Não se superestime achando que saio com ele para te agredir! Talvez, você não acredite, mas tenho uma vida própria que não depende de você."
Por um momento, um sufocante silêncio instalou-se entre os dois. Os olhos de Sirius pareciam ter sido açoitados por algo terrível. As palavras de Remus arrancaram-lhe a habitual raiva doentia.
"Então, vá para o inferno Remus! V�! Corra para seu monitorzinho infeliz! Faça como achar melhor! Eu vou voltar para o James! Para o meu James!"
Remus acompanhou com os olhos, Sirius sair furioso e bater a porta atrás de si com força.
Então, rapidamente cada vidro ainda restante da atmosfera que os envolvera partiu-se completamente. Estilhaçaram-se, desmoronando o frágil mundo que encontrava-se distante do "sempre".
(CUT)
James permanecia recostado a um canto da sala. Seus olhos discerniam um vulto em cores febris entre inúmeros outros vultos. Uma imagem outonal que mantinha-se a uma segura distância de perigos corriqueiros. De superfícies escaldantes.
Várias pessoas que estavam na festa já se encontravam no estado de embriaguez mínimo que faria os diretores das Casas de Hogwarts expulsarem toda uma legião de olhares perdidos e gestos efusivos.
Alguns casais enlaçavam os dedos em uma cumplicidade infantil enquanto vasculhavam lugares desertos na casa onde pudessem permanecer convenientemente a sós. James lembrou-se de impedir que dois ou três deles avançassem pelas escadas e chegassem aos quartos daquele recinto.
O garoto de cabelos rebeldes ocasionalmente voltava também seu olhar para a porta fechada do escritório. E foi com um discreto nervosismo que ele viu Sirius abandonar aquela sala e procur�-lo entre a multidão. Procur�-lo com um olhar alucinado. Uma presença feroz de batalhas travadas pairava como uma nuvem de insetos sobre sua magnífica cabeça.
Por um longo momento, James havia desejado que Sirius não o encontrasse tão cedo. Não desejava ser visto. Dentro dele, uma culpa abominável instalava-se ruidosamente.
Agora, passado um longo momento de surpresa e reflexão, não havia mais a culpa de ter beijado lábios desejáveis. De após meses sem estar com uma menina ter sentido um desejo insustentável de aproximar-se de apenas uma em especial. Porém, sim a culpa de não condenar-se pelo que fizera. Pela ocasional incapacidade de harmonizar-se com a obrigação de sentimentos. Pela natureza vil de por vezes, não censurar a estranha liberdade que apresentava-se invariavelmente mais extensa do que seu próprio ser.
Então, o amigo de cabelos compridos sentiria-se traído realmente? De fato...
Mesmo quando James acostumara-se a surpreender sem mágoas o namorado em intimidades emocionais quotidianas com Remus, sabia que seria demasiadamente impossível exigir algo semelhante de Sirius. Ficaria ele histérico por James ter beijado uma garota.
Antes de ambos terem se deitado juntos pela primeira vez, o garoto de cabelos rebeldes escolhera a dedo meninas com rostos que adorara para servir ao seu próprio namorado. E Sirius enfurecera-se pelo comportamento superior de James em não demonstrar excessos de ciúmes. Exigira-no um comportamento mais passional.
James sentia sua cabeça doer somente em pensar na posição que Sirius assumiria se soubesse que há poucas horas algo que feriria sua concepção de amor decorrera no andar de cima daquela casa.
"Se essa é sua vontade, Potter, eu vou cumpri-la. Eu vou te provar. Vou dormir com garotas só para te provar. Provar que esse desejo louco é por você. Mas, não vou te colocar a prova. Prefiro arriscar. Dane-se se me trocar por uma pirralha qualquer no futuro. Não vou te dividir com ninguém agora."
Fora isso que o garoto de cabelos compridos berrara ao amigo em uma explosão de raiva com a simples menção deste também permanecer com garotas antes de tomarem a decisão de seguirem adiante com seus impulsos.
Contudo, diante disso, o que eram aquelas tragédias emocionais entre Lupin e Black que arrancavam lágrimas e gritos de seus corações partidos? Aquelas cenas magníficas onde podiam se matar simplesmente porque se amavam.
Deveria James sentir-se mortalmente enciumado por certas coisas, códigos, que pairavam entre seus dois melhores amigos? Códigos infinitamente mais fortes do que beijos e carícias.
Se sim, por quê? Por que deveria se indispor com sentimentos naturais? Desejo, ternura, amor. Como poderia ser mais forte do que isso? Poderia ser talvez extremamente frio, por não conseguir nutrir uma dose suficientemente sólida de ciúmes por toda a realidade soberba que cercava Sirius, ressaltando assim sua natureza sangüínea. Sua essência magnífica. Mas, isso não diluía o seu amor em nenhum aspecto...
Somente, eram essas coisas que moldavam a personalidade de Sirius, fazendo-na feroz o suficiente. Adorável o suficiente. James conseguiria sustent�-la sozinha com sua cumplicidade de identificações? E quanto às guerras com Lupin que remexiam seu espírito em uma estranha potência...? Seria capaz o garoto de cabelos rebeldes provocar isso? E não se exasperaria ele ao ver que seu Sirius era menos vivo por causa dele? Menos existente...
Entretanto, o garoto de cabelos compridos enlouqueceria se soubesse dos lábios de cereja porque seu amor não era complexo. Era infantil. E egoísta como a maioria dos amores.
Sirius aproximou-se de James sem realmente enxerg�-lo enquanto o garoto de cabelos rebeldes enxergava claramente Remus deixar o escritório também e ser surpreendido por um abraço de Carlson.
"Por que demorou tanto? Fez as pazes com Remus?" murmurou James com uma voz forçada.
O garoto de cabelos compridos mirou o outro em silêncio por um longo momento antes que uma estranha compreensão fosse transmitida de si para o outro.
James conhecia aqueles olhos cinzentos de chuvas mal passadas. Havia algo que exasperava Sirius. Alguém o havia feito sofrer. Alguém ainda o estava fazendo sofrer.
Potter identificou o garoto de cabelos castanhos que os olhava de modo taciturno como o causador daquele mal.
Ou seria a vítima? Quais eram as regras do jogo de Remus e Sirius quando enfrentavam-se em espetáculos épicos? Batalhas exaustivas. Carnificinas de verdades.
Quais papéis seus egos tão opostos assumiam?
Em um segundo momento, o garoto de cabelos rebeldes pareceu ligeiramente assustado quando o outro o abraçou repentinamente e seu rosto assumiu uma falsa calma. Quando seus gestos tornaram-se efusivos e dignos de desconfiança.
Sirius fingia felicidade quando queria chorar, sem saber que o fazia. Contudo, James reconhecia ocasionalmente tal comportamento...
Inevitavelmente, algum resquício oculto habitava ainda a sensibilidade mística do garoto de cabelos compridos. E a arte de dissimular, herança dos Black, por vezes compunha uma parte sua por mais verdadeiro que viesse a tentar ser.
Mais tarde em sua vida, quando fosse arrastado até Azkaban como culpado pela tragédia que levara um daqueles que mais amara, Sirius riria incessantemente. Riria até que o zumbido de varejeiras em sua mente tornasse-se inaudível. Até que as veias de suas têmporas arrebentassem uma a uma antes que um mundo sepulcral o preenchesse. Antes que descobrisse que o vazio pesava mais do que qualquer sentimento. Pedras ásperas derrapando por suas entranhas.
Até que permitisse-se derramar as raras lágrimas propriamente ditas de sua existência, o garoto de cabelos compridos lutaria inconscientemente, incessantemente, insensatamente contra elas... Tentaria sob o olhar de demônios encapuzados, estrangular a dor com aquela estranha insanidade abissal. .
James indagou aquela natureza de desespero intimamente. Explorava sorrateiramente a alma de Sirius vasculhando respostas trancadas por ele. O som e balbúrdia da festa ao seu redor tornaram-se distantes. E uma fagulha de um orgulho drasticamente ferido o percorreu.
"Esqueça o Remus! Vem comigo? Vamos subir..." murmurou o garoto de cabelos compridos estendendo a sua mão para o outro repentinamente.
James tentou compreender a atitude inusitada de Sirius que estava diante de si com uma certa necessidade de que o outro o aceitasse.
Por um momento, o garoto de cabelos rebeldes flagrou-se em uma tentativa de protesto semelhante a um gesto remoto em que evitara Sirius de tentar beij�-lo na festa. Então, ele pela primeira vez naquela avalanche de conturbados sentimentos julgou-se deplorável ao identificar as causas de seu pouco habitual recato.
A garota de cabelos trançados e ruivos permanecia recostada na escada ao lado de Remus. Curiosamente, Sirius também lançava furtivos olhares naquela direção, extravasando em suas pupilas um ressentimento profundo quando Carlson curvou-se para depositar um beijo no rosto de Remus.
James compreendeu que preocupava-se com o que Lílian pensaria dele. Anteriormente, tentara convencê-la de que seu amor por Sirius não aniquilava seu gosto por meninas. Beijara-na por que desejara fazê-lo e agora receava um contato mais íntimo com seu namorado e amigo por temer que parecesse cretino.
O garoto de cabelos rebeldes detestou seus pensamentos naquele segundo antes de detestar a si mesmo. Que tipo desprezível era para jurar amor a Sirius e tentar escondê-lo ardilosamente no momento em que uma garota o atraia?
Potter sorriu com agressividade quando remexeu seu interior com a velha rebeldia que lhe era cordial. Pouco importava o que Evans pensasse dele, da mesma forma que nunca se importava com os outros. Em uma tarde remota, beijara Sirius no lago sob todos os olhares de uma Hogwarts leviana sem importar-se com o que diriam. Fizera pelo seu simples desejo de acariciar aqueles lábios os quais tanto amava tocar. Estava sendo louco de querer esconder aquele ao qual acompanhava por caminhos insanos?
James censurou-se por ser canalha com Sirius. Por ter em algum momento feito o pensamento de uma desconhecida a qual beijara controlar toda a atmosfera que existia entre ele e Black. E as coisas naturalmente adquiriram seu ânimo assustador de cumplicidades intocáveis.
Então, finalmente, por aquele rosto pálido de olhos cinzentos, James sentiu algo que beirava o abismo profundo da adoração.
"Claro, Sirius..." murmurou o garoto de cabelos rebeldes deixando levar-se pelo outro até o centro da sala onde móveis haviam sido arredados e casais dançavam abraçados. Depois, com os dedos entrelaçados, ambos dirigiram-se até os degraus da escada, subindo-na ruidosamente.
O garoto de cabelos rebeldes capturou um olhar meio desalentado de Remus em sua direção. Carlson tentava atrair sua atenção com palavras que ele não podia ouvir. Evans acompanhou discretamente com o olhar o casal que subia as escadas em uma compreensão muda.
Remus pensou com amargura que Sirius julgava-no idiota, vulgar por tê-lo permitido que se servisse de seu corpo antes de voltar para o seu mudo perfeito de infinitos interruptos. Era aquele seu presente de aniversário? A boca de Sirius estimulando-no?
Era aquela sua recompensa por ser sincero? Algumas horas de glória antes de seu mérito ser guiado até o verdadeiro campeão?
E seria James capaz de perceber a sutil febre no corpo que o abraçaria naquela noite? Capturaria as verdades inusitadas? Consentiria a idéia de que Remus cuidara de excitar o corpo antes de devolvê-lo a seu verdadeiro dono para que este então proporcionasse-lhe as sensações complementares que ele mesmo não cumprira?
Ao seu lado, Remus não percebeu que Lílian subitamente permaneceu muito quieta antes de despedir-se de seus amigos, alegando que estava já demasiadamente tarde. Carlson precisou ir embora uma hora depois, afirmando que deveria levar a prima Rebeca até em casa.
Antes de partir, ele perguntou uma terceira vez, desde que Remus abandonara o escritório, se estava bem. O garoto de cabelos castanhos assentiu, sentindo-se culpado por acrescentar mais uma mentira a sua soma de fingimentos que atirava ao monitor corvinense.
O garoto de olhos azuis porcelana puxou-no em um canto e beijou-lhe o rosto.
"Pode vir me visitar durante a semana, Remus? Não tivemos muito tempo a sós hoje..."
Remus sentiu-se imprensar pela ternura daquele olhar. A culpa revirava suas entranhas. Dividia-se entre a decisão de contar a Michael Carlson ou não o que fizera com Sirius. Gostaria de revelar-lhe que era uma pessoa ruim. Que quando o namorado não estava olhando-no, trancava-se em escritórios e agarrava-se com um de seus amigos. Gostaria de dizer que Carlson nunca mereceria aquilo. No entanto, tudo que o garoto de cabelos castanhos pode fazer foi assentir com olhos ligeiramente vermelhos.
"Eu te amo, Remus..." murmurou o garoto quase duas cabeças mais alto abraçando o outro menor. Remus sentiu-se encolher naquele abraço. Sentiu que poderia morrer por culpa. Nunca conseguia responder àquelas declarações profundas de Carlson. Estranhamente, acreditava que corresponder com palavras tais como 'eu também gosto muito de você' poderia parecer mais cruel do que o silêncio que assumia naqueles momentos.
"Existe um 'nós', não é mesmo, Remus?" perguntou o monitor corvinense hesitante antes de ir embora definitivamente.
Remus mirou Carlson por um breve momento antes de pedir-lhe explicações sobre aquela pergunta. O monitor pareceu ligeiramente arrependido de tê-la feito e esquivou-se das exigências do namorado, alegando que estava realmente muito tarde e precisava ir.
O garoto de cabelos castanhos mirou o outro ir embora com seus ombros ligeiramente abaixados. O andar confiante fortemente abalado. Contudo, Michael nunca falaria da parte sua não correspondida por Lupin. Falaria apenas de seu amor. De sua inocência. De suas insensatas esperanças.
(CUT)
Sirius imprensou o amigo menor em uma das paredes do corredor e o beijou com profundidade. Os lábios dos dois garotos encontravam-se em uma desordem desejável. E suas línguas que percorriam como ofídios as extensões conhecidas da boca que não lhe correspondia, arrancaram uma febre delicada de seus corpos.
Ambos com uma compreensão muda acharam talvez demasiadamente longe se arrastarem por mais um lance de escada até os quartos de hóspedes do terceiro andar. O de baixo estava com um bicho-papão preso em um dos armários recentemente e a senhora Lupin, através de uma coruja, alertara-nos a evitarem por uma simples questão se segurança a entrar lá até que retornasse e o exterminasse. Obviamente, ela não sabia que os garotos amigos de seu filho permaneciam lá muito tempo e apenas os avisara por precauções quase maternas.
Sirius incomodara-se muito em uma única vez em que permanecera beijando o outro garoto nesse quarto. Encontrava dificuldade em conseguir concentração ou inspiração com o som de ranger das portas do armário.
James foi o primeiro a entrar no quarto de Remus. A porta se fechou e o garoto sentiu-se ligeiramente invadido por lembranças lívidas. Vivas. Apenas um toque de sangue ressaltou-se no abstrato alvo das memórias. Fios outonais.
Novamente, a raiva de si mesmo. O momento lamentável em que negara o beijo de Sirius. O momento em que temeu aceitar suas súplicas diante do olhar perene de Evans. O olhar esverdeado sob cílios compridos.
Sirius sentou-se diante do amigo e o mirou em silêncio. Entrementes, o garoto de cabelos compridos sentia seu coração esmigalhado entre as cordas finas de suas artérias. Fora ele quem avançara para Remus. Fora ele quem o fizera deitar-se sob si e tocara-lhe daquele modo. Os beijos ainda queimavam seus lábios. E as palavras finais do garoto de cabelos castanhos eram escorpiões que lhe picavam sucessivamente.
Os olhos de Sirius estavam fixos em James enquanto este último mordia o lábio inferior inconscientemente, esperando que o outro falasse.
Ambos corroíam-se com demônios angelicais ou anjos pérfidos. Todas os crimes que haviam cometido entre paredes alvas de sonhos incompreensíveis pairavam sobre suas cabeças.
"Eu te amo, Sirius" murmurara Remus.
"Me solte, Potter!" relutara Evans.
Havia a necessidade de combater-se fantasias infindáveis com doses de realismo vertiginoso. E a realidade estava diante de cada um. Havia a urgência de redenção. De desculpas que não possuíam linguagem.
Subitamente, o mundo escapava ao controle daquele seres magníficos. E conseqüentemente, percebiam que o universo era mais extenso do que campos de Quadribol, lagos ou vidinhas cercadas por muros do castelo de uma Escola.
Os acontecimentos derrapavam um por cima do outro e empilhavam-se doentiamente. Tudo esmigalhava-se com uma velocidade incoerente e apesar da insanidade, da desmedida, por um momento, Sirius e James sentiram necessidade de repouso. Necessitavam agarrar-se a um ponto seguro que arrancasse-lhes de pensamentos dolorosos.
E o ponto seguro podia ser o corpo frágil de um rapazinho de cabelos rebeldes e olhar vítreo. Ou, o corpo alongado e forte de outro que era talhado por mãos soberbas. Os cabelos compridos que acariciavam a extensão de seu rosto, percorrendo a palidez de seu pescoço e ultrapassando as costas firmes.
Sob a luz bruxuleante dos inúmeros lampiões daquele quarto, Sirius enxergava James ao seu lado. O seu gêmeo bivitelino de mãe e pai diferentes.
Então, rompendo as coisas naturais, procurando enterrar, sufocar, afogar todas as conturbadas insensatezes daquela noite, James puxou Sirius para si. Não houve palavras. Apenas murmúrios incompreensíveis. Espontâneos.
E os segredos que não sofreram a cirurgia de análises momentaneamente foram abandonados. Sirius não parara para refletir até que longínquo ponto possuíra a necessidade de ouvir as declarações de Remus e nem o porquê do que se dera a seguir. O que separara exaltação física de afeto. Ou, desejo incontido de Amor contido.
Paralelamente, James não se censurava pelo ato de haver beijado uma menina qualquer. Mas, sim pelo temor da idéia que ela podia ter dele e que por um breve momento o comandara. Isso o assustava demasiadamente. No fim das contas, ela era só uma menina qualquer, esforçou-se ele para pensar. Estava disponível e acessível. Mais do que isso seriam devaneios do vinho misturado com licor.
Os dois garotos prosseguiram com carícias e Sirius mergulhou naquele corpo com um desespero irreprimível. Acariciou James, forçando-se a não lembrar que há poucas horas apenas acariciara Remus. Procurou não comparar-lhes os corpos ou as respostas que adquiria destes.
James permaneceu com seu olhar vítreo durante um longo momento a observar Sirius despir-se diante de si. As formas retas, alongadas que diferenciavam-se das de meninas cujo ápice era mais suscetível ao tempo apresentavam-se dignas de desejo.
Quando Sirius deitou-se ao lado de James, seu corpo já emanava um ligeiro calor. A febre que começara em um tempo remoto no andar inferior daquela casa propagou-se até o outro garoto.
E ambos abraçaram-se sob o silêncio intercalado por lembranças estranguladas. Memórias que não gritavam antes de serem arrancadas da mente, mas que provocavam insustentáveis dores.
(CUT)
Remus permanecia sentado em um degrau da escada a observar as vozes estranhas que o cercavam. Havia rostos que formavam pontos curiosos em sua sala. Existia vida ao seu redor e ela respirava suavemente sobre seus ombros. Ocasionalmente, lhe murmuravam um "feliz aniversário" polido no momento em que davam-se conta de que havia alguém ali parado que estava pagando as bebidas ou cedendo a casa para aquela efusiva festa.
O garoto de cabelos castanhos apoiava sua cabeça pesadamente na parede oposta ao corrimão. Havia alguns garotos que beijavam suas namoradas com mais entusiasmo em cantos pouco iluminados da sala de jantar. Uma ou duas vezes, Remus também conferiu alguns garotos sumirem desconfiados das vistas alheias acompanhados de perto dos amigos.
Na verdade, havia já alguns minutos que esse grupo de rapazes que Remus lembrava-se vagamente de pertencer ao quinto ano de alguma Casa que não era a sua, gesticulava entre si e apontavam-lhe com sorrisos expressivos.
Remus desejou que um deles não caminhasse até si quando o fez. Desviando de algumas pessoas, um garoto de cabelos loiros opacos e olhos escuros sentou-se desajeitadamente ao seu lado. Antes que Remus se levantasse suficientemente cansado de ouvir congratulações por seu aniversário que aliás, não estava nada bom, o estranho dirigiu-se à ele.
"Remus John Lupin... Ótima festa, não?"
Remus virou-se para olh�-lo sem algum interesse verdadeiro e murmurou algo que lembrava uma concordância.
"Não quer se juntar a meus amigos...?
O garoto de cabelos castanhos fitou o grupo adiante que vigiava-os atentamente.
"Por quê?"
O rapaz pareceu um pouco confuso antes de prosseguir.
"Você parece estar muito sozinho... Se não quiser ficar com eles, tudo bem... Sua casa é realmente bonita..."
Remus não demonstrou agrado. Não sabia ao certo que rumo aquela conversa tomaria, mas não julgou-na boa.
"Deve haver muitos quartos aqui... Você não quer me mostr�-los...?"
O garoto de cabelos castanhos piscou com incredulidade. Ou sua mente estava trabalhando de forma muito maliciosa, ou aquele garoto o estava fazendo um convite duvidoso. Como Remus não conseguiu responder, o rapaz de cabelos loiros acrescentou.
"Seu namoradinho, o Carlson, já foi embora... Os amigos dele também. Não há maneira dele saber, não é mesmo?"
Remus soltou uma exclamação que denunciava ligeiro assombro. Tomado por uma indignação profunda, o garoto de cabelos castanhos ergueu-se sobre seus calcanhares e, pisando duro, subiu as escadas que levavam-no ao andar superior deixando atrás de si o rapaz loiro com um olhar irritado.
Aquilo já era o suficiente por uma noite! Agora deveria receber os flertes mal formulados de pessoas que mal conhecia e bebiam da adega de sua própria casa. Estava cansado de todos os caminhos irritantes que os acontecimentos estavam tomando ultimamente. O que faria aquele idiota quintanista achar que no momento em que Michael fora embora, teria alguma chance consigo? Será que até a sua moral agora estava afetada quando se dirigiam a ele com convites obscenos?
E achava que os "felizes aniversários" pouco sinceros de pessoas que mal conhecia eram a pior coisa que podia lhe acontecer...
Entrementes, Sirius e James não haviam reaparecido na festa. E ao pensar nisso, o coração de Remus deu um solavanco. Não precisava nem de longe ser inteligente para compreender o porquê de terem subido. E aquilo o enlouquecia.
O caráter de Sirius o impressionava! Obviamente, sabia que o garoto de cabelos compridos voltaria correndo para os braços de Potter. Contudo, não esperava aquela urgência e rapidez impressionável.
Fizera justiça às palavras que proferira antes de sair do escritório. Voltara para o SEU James!
O garoto de cabelos castanhos sentiu suas entranhas afundarem até encontrarem o chão de pedra sob suas solas. Sua cabeça doía. Estava cansado...
Demasiadamente cansado de arrepender-se, culpar-se, questionar-se ou até mesmo, sentir.
Deveria haver uma solução razoável ou alguma resposta racional para tudo aquilo. Algum modo de poder voltar a encarar Sirius e James, sem recordar-se de que no momento em que fechara a porta do escritório atrás de si, os fatos não haviam tornado-se menos existentes.
E Sirius que tocara-lhe de uma maneira que não havia permitido ninguém antes tocar, emergia de seus conflitos, se é que angustiavam-lhe, provavelmente em um dos quartos de hóspedes sobre o corpo de James.
Remus sentiu seus olhos queimarem.
Talvez, nunca devesse ter dito a verdade a Sirius. O que conquistara com isso? Como pudera ser tão idiota para cuspir todos seus segredos para alguém que não retribuía-lhe?
Sua cabeça doeu com mais força.
Não se importava mais nem um pouco com o que desconhecidos pervertidos ou amigos pudessem vir a fazer em sua casa. Não dava mais a mínima para aquela festa idiota. Seus pensamentos não poderiam mais se espremer para ceder lugar a algo.
O que mais Remus desejava agora era o conforto de sua cama de colunas. Desejava dormir profundamente sob cobertas pesadas.
O garoto de cabelos castanhos deteve-se na porta de seu quarto em meio ao corredor escuro. Sem erguer os olhos, tocou suavemente a maçaneta e a girou.
Um momento sólido instalou-se diante de Remus. Seus olhos fixaram incrédulos aquilo que chegou à sua compreensão como um som agudo. Seu rosto queimou ligeiramente.
Entre lençóis alvos, Remus viu Sirius beijar James com um desespero doloroso.
Por um momento, o garoto puxou a porta mais para perto de si, procurando com pavor fech�-la. Mas, após um minuto, onde conferiu que nenhum dos outros amigos havia percebido a porta que se entreabrira atrás deles, Remus deteve-se sem saber o porquê de fazê-lo.
Então, com o coração saltando em seu peito e acreditando que este denunciaria sua presença naquele recinto, Remus sentiu-se impelido a reerguer os olhos. E seu corpo abrasou-se em uma sensação estranha.
Despidos, eles devoravam-se em um desejo mútuo. Enquanto James puxava Sirius mais para si, este acariciava-no com visível excitação.
O garoto de cabelos castanhos sentiu uma nova onda de febre avançar por seu corpo. Black e Potter em seu quarto... fazendo... aquilo... sobre sua cama.
Remus permaneceu estático. Seus lábios ligeiramente entreabertos enquanto uma de suas mãos ainda mantinha-se firme sobre a maçaneta prateada da porta.
Ambos não o enxergavam. Concentravam-se com olhos velados em sua atmosfera de desmedidas sublimes.
O garoto de cabelos castanhos, com o mesmo olhar vidrado, contemplou o amante menor avançar sobre o outro. Contemplou ele entrelaçar as pernas muito pálidas, ao redor de um corpo alongado semi-escondido por uma cortina de fios negros e brilhantes. James também entrelaçou com os braços o pescoço de Sirius e voltou a beij�-lo. Ele tinha no rosto um tom vermelho, e este ocasionalmente contorcia-se suavemente em uma expressão que Remus não soube identificar bem ao certo se era prazer ou dor.
Lupin engoliu em seco. James sentava-se sobre a virilha de Sirius e começava a mover-se em uma velocidade que iniciara-se lânguida, acelerando-se a seguir, sendo acompanhada de murmúrios e gemidos confusos em outro momento.
O garoto de cabelos castanhos sentiu suas entranhas moverem novamente. Contudo, desta vez, ela foi acompanhada por uma significante pontada em seu baixo ventre.
Nunca vira Sirius e James... fazendo. Então, era...assim?
Os dois garotos sobre a cama de colunas pareciam abraçar uma morte demasiadamente satisfatória.
Era assim que James cedia o corpo a seu belo gêmeo? Era assim que Sirius penetrava?
Todos incestuosos entregavam-se com aquela ânsia democrática?
Remus viu James ser estraçalhado por aquela força que o possuía com um entusiasmo irrefreável. E entrementes, James provocava-lhe com beijos que beiravam uma obscenidade torturante.
Novamente, ondas de calor abraçaram o corpo de Remus. Este sentiu-se delirante. Febril.
Foi com um desconforto que Lupin deparou-se com seu próprio corpo reagindo àquela cena. Sentiu o tecido grosseiro da sua calça apertar-se.
Sirius Black e James Potter fazendo... diante de seus olhos. Sem saber que eram observados...
Remus poderia ter atirado-se a um ciúme louco. Contudo, a fascinação que sentia por aquela cena preenchia-no completamente naquele momento. E todos seus pensamentos estavam tomados por um único sentimento. Poderia dizer, que aquilo tudo o invadia tão profundamente, que novos sentidos que desconhecia ter, viam-se despertados agora.
Uma nova pontada em seu baixo ventre o assolou.
E então, no momento em que a sentiu mais terrível, e reergueu seus olhos novamente, Remus deparou-se com um olhar que fez seu coração desatinar em um ritmo.
Sirius permanecia de costas e aparentemente, continuava alheio à presença intrusa naquele quarto. Entretanto, James agora dera-se conta de Remus parado à porta e por um momento, seus movimentos esmoreceram, de maneira que era apenas guiado por Sirius.
Os dois garotos encararam-se em silêncio e indescritível surpresa. Os olhos ligeiramente arregalados e as bocas entreabertas.
Remus desejou ardentemente que naquele momento pudesse morrer. Sua mão sobre a maçaneta tremia ferozmente.
James gritaria-lhe insultos terríveis por estar espionando ele e seu namorado. E seu coração encheu-se de uma vergonha metálica. Nem mesmo o fato de ambos estarem em seu quarto dava-lhe o direito de fazer aquilo. Mas, por que diabos, eles não haviam ao mínimo trancado a porta?
Remus sentiu o peso daquelas pupilas que pareciam atravess�-lo. E esperou pelo pior...
Mas, então, algo inesperado deu-se. James voltou a mover-se sobre o corpo de Sirius abraçando-lhe com renovado desejo, apesar de seus olhos continuarem detidos no garoto de cabelos castanhos.
Remus sentiu-se engolido por um abismo. Seu coração agora certamente ultrapassaria seu peito.
Potter sorriu-lhe não um sorriso encabulado ou nada do gênero. Mas sim um meio-sorriso carregado por uma malícia que fez a pulsação no baixo ventre de Remus atorment�-lo com uma inquietante força.
E ambos garotos mantiveram-se encarando fixamente. O tom vermelho no rosto de Remus fazia parecer que levantara até seus cabelos a gola de seu suéter.
Por um momento, o garoto de cabelos castanhos achou que James moveu ligeiramente os olhos indicando-lhe que fizesse algo que não estava bem certo. E aquele sorriso que ocultava uma verdade assustadora perpetuou.
Então, subitamente, Remus sentiu-se muito próximo de um perigo eminente. Sentiu-se como uma mariposa que chamuscara as asas no fogo e em uma decisão firme, fechou a porta do seu próprio quarto. Suas mãos agora suavam e a maçaneta escorregava sob seus dedos.
Fechou-na preocupado em não provocar nenhum ruído...
O garoto de cabelos castanhos caminhou, quase correndo, visivelmente aturdido, até um dos três quartos de hóspedes daquela casa que encontrava-se naquele andar. Havia um ligeiro cheiro de mofo no ambiente que denunciava sua negligência com alguns cômodos daquela casa. O bicho-papão que encontrava-se preso no armário debatia-se ocasionalmente em seu interior, produzindo um som irritante.
Remus por uma meia hora permaneceu andando de um lado para outro sobre o soalho do quarto, esbarrando vez ou outra em alguns móveis. Sua mente enchia-se de medos verdadeiros.
Teria Sirius contado a James o que fizeram no escritório? De outro modo, por que ele lançaria-lhe um olhar como aquele?
Contudo, se tivesse sabido do que houvera entre ele e Sirius no escritório, teriam ambos feito as pazes tão rapidamente? E daquela maneira?
Um tremor instalou-se em seu corpo com uma compreensão que não quis acreditar.
Por um momento pareceu-lhe que James permanecera satisfeito em ver que o amigo observa a ele e Sirius, escondido. E mais do que isso... Parecia que com aquele suave movimento de olhos e cabeça, convidara-no para entrar.
"Eu estou ficando maluco... Eu estou de.ci.di.da.men.te ficando maluco" murmurou o garoto com um nervosismo crescente.
E como que o bicho-papão deu um novo solavanco no interior do armário, Remus adiantou-se e chutou-no com toda a força que possuía.
"Ora, fique quieto aí, seu bicho idiota!"
Remus jogou-se sobre a cama estreita do cômodo, convencido de que a criatura trancada dentro do móvel, não pararia de debater-se. E com um último pensamento antes de seus olhos fecharem-se pesadamente, perguntou-se se o bicho-papão assumiria a forma de James com seus sorrisos indecifráveis, caso a porta do armário fosse aberta.
(CUT)
Quando os tímidos raios de laranja destilada daquela tarde atravessaram as venezianas da janela de casa, Remus após permanecer um longo tempo na cama, arrastou-se até o banheiro e abandonou-se durante incontáveis minutos sob a água morna do chuveiro.
Indóceis pensamentos ainda povoavam sua mente, apesar de que com menor intensidade. Um mal-estar causado pelo vinho revirava ligeiramente seu estômago.
O garoto de cabelos castanhos não encontrou mais nenhum dos convidados de sua festa de aniversário na sala. Aparentemente, nenhum retardatário sequer permanecera. E todos haviam feito o favor de deixar a casa um verdadeiro caos.
Garrafas vazias encontravam-se empilhadas no chão. Embalagens rasgadas de doces de Dedosmedel farfalhavam ocasionalmente sob os pés de Remus enquanto ele mirava aquele recinto com verdadeiro assombro. Snaps explosivos haviam sido largados sobre a mesa de mogno da sala de jantar. Móveis haviam sido arredados de seu lugar e até mesmo algumas coisas como o abajur de fadas norueguesas favorito de sua mãe, apresentavam-se quebradas sobre um tapete visivelmente imundo.
A porta estava aberta. Havia restos de comida até mesmo em sua entrada.
"Deus..." murmurou Remus com profundo desagrado ao descer as escadas ruidosamente. Intimamente, perguntou-se quanto tempo levaria para arrumar toda aquela sujeira sem a ajuda de magia.
O garoto caminhou até a cozinha sentindo-se ligeiramente abatido e nauseado. Aproximando-se do fogão à lenha, achou melhor preparar para si mesmo chocolate fumegante com gengibre indiano e canela. Uma receita que sua mãe mesmo inventara para momentos de aborrecimento como aquele.
Enquanto pilava o gengibre sobre a mesa, Remus ouviu passos na escada. E por um triz, não amassara seu próprio dedo com o pilão quando virou-se para encarar Sirius que entrava na cozinha agora. Os cabelos estavam molhados também. Usava vestes de bruxo azul escuro. Uma expressão de surpresa apossou-se de seu rosto no momento em que deparara-se com Remus diante de si.
Aparentemente, não esperava encontr�-lo acordado também.
"Boa tarde, Sirius..." murmurou o garoto de cabelos castanhos hesitante após um incômodo silêncio.
"Tarde" retorquiu o garoto de cabelos compridos parecendo indeciso se saía ou não da cozinha.
"Então, você quer algo?" perguntou Remus fingindo concentrar-se no gengibre sob seus dedos.
"Café..."
"Quer que eu te sirva...?"
"Não. Está tudo bem... Eu pego."
Um novo silêncio fez-se no ambiente enquanto Sirius virava-se para procurar algo na cozinha e Remus forçava-se a concentrar em sua tarefa.
Passados alguns minutos, Sirius finalmente puxou uma cadeira ao lado do amigo e sentou-se, trazendo o assunto derradeiro à tona.
"Precisamos conversar sobre o que houve no escritório..."
"Não há nada para conversarmos. Esquece, t�?" respondeu Remus fingindo naturalidade.
"Remus, nós fizemos sexo na maldita noite de ontem! Depois, brigamos novamente e você me manda esquecer?"
"SIRIUS, AGORA NÃO, CERTO?" retorquiu com rispidez o garoto de cabelos castanhos
Remus deixou cair ao esbarrar no pilão, as pequenas migalhas de gengibre picado.
"Droga!" esbravejou o garoto com visível irritação, abaixando-se para mirar o estrago "Agora vou ter que fazer tudo de novo!"
O garoto de cabelos compridos abaixou-se rapidamente junto ao amigo para ajud�-lo a limpar o estrago com uma toalha que encontrava-se no espaldar de uma cadeira.
"Remus, você... está bem?"
"Não, Sirius! Eu não estou bem! Nada está bem! E eu não agüento mais nenhuma briga com você! Por favor, ao menos hoje, me poupe de suas acusações! Eu estou exausto disso tudo!"
Antes que Sirius pudesse redargüir da mesma maneira grosseira as palavras do amigo, James entrou na cozinha também. O garoto de cabelos rebeldes exibia uma displicência profunda com suas mãos nos bolsos. Deteve-se na entrada, mirando os dois amigos ajoelhados no chão.
Remus sentiu suas entranhas afundarem. Ainda não preparara-se para encarar James. Não tinha idéia de como fazê-lo. Não tinha consciência se podia fazê-lo.
Os três se entreolharam por um breve minuto.
"Problemas domésticos?" murmurou o garoto de cabelos rebeldes sorrindo.
"É..." retorquiu Remus sentindo sua língua travar-se.
James sentou-se na mesa enquanto Sirius ainda mordido pelas palavras de Remus atirava a toalha sob a torneira e servia-se de café.
"Fizeram as pazes?" perguntou James servindo-se de suco de laranja.
"Não" responderam os dois garotos em uníssono.
"Farão ainda hoje?"
Dessa vez, nenhum dos dois respondeu. Remus não conseguia ainda olhar para James.
Julgando melhor, voltar para o andar de cima, o garoto de cabelos castanhos encaminhava-se até a entrada da cozinha quando James o deteve.
"Espere, Remus. Quero conversar um assunto com você."
O garoto de cabelos castanhos sentiu seu sangue gelar.
"Preciso começar a arrumar a casa. Está tudo uma bagunça..." mentiu Remus começando a pré-sentir o pior.
"Depois, eu te ajudo se quiser. Sente-se." sentenciou James puxando uma cadeira com o pé.
Sirius virara-se para olh�-lo por sobre o ombro.
O garoto sentiu-se trêmulo quando puxou a cadeira com um ruído mais para longe e se sentou. Remus encarou James. Aquele olhar vítreo o subjugava com uma força abominável.
"Desculpe a Sirius e a mim. Acabamos usando seu quarto para..."
"Está tudo bem!" cortou-lhe Remus apreensivo. Seu coração começara a acelerar "Desculpe-me também, James..."
Sirius agora prestava deliberadamente atenção à conversa dos dois outros garotos. Remus desejou profundamente que ele não estivesse presente.
"Desculpa por quê...?" perguntou James com um olhar significativo.
Remus achou que o amigo só pudesse estar brincando ou fingindo inocência.
"Você sabe... Eu não queria..."
"Não queria?" redargüiu James sorrindo "Bom, eu não quero desculpas..."
Remus arregalou seus olhos e tremeu levemente. Sirius agora virava-se para os dois.
"O que é que vocês estão tramando? Por que Remus está te pedindo desculpas?" perguntou finalmente o garoto de cabelos compridos a James, não contendo-se.
"Porque ele é um garoto muito observador, não é mesmo, Remus?"
As entranhas de Remus moveram-se com mais força.
"Como assim, James?"
O garoto de cabelos rebeldes voltou a dirigir-se para o garoto sentado.
"Então, você gosta de olhar, Remus? Parece que você gostou bastante de ver Sirius e eu. Caso contrário, por que permaneceria tanto tempo parado à porta? É típico seu ser tão observador..."
Remus sentiu-se incapacitado de produzir palavras.
"COMO ASSIM, JAMES?" explodiu Sirius Black visivelmente confuso e nervoso.
James sorriu antes de falar.
"Parece que nosso lobinho gostou de descobrir nossos segredos. Hoje de madrugada, enquanto estávamos fazendo, ele entrou no quarto..."
A xícara que Sirius segurava escapuliu de seus dedos.
"... E ficou olhando-nos fazer... Acho que o idiota do Carlson não está cuidando muito bem dele. Caso contrário, não seria necessário ele procurar diversão conosco, não é mesmo...?"
Sirius tinha sua boca ligeiramente aberta. Remus parecia congelado em sua cadeira. James exibia uma calma que era capaz de provocar raiva.
"Eu não tive a intenção... Eu..."
"Sei, sei" cortou-lhe James "Mas, diga-me por que nunca pediu-nos para ver antes se tinha vontade. Se soubesse disso antes, seu presente de aniversário teria sido esse."
"EU NÃO QUIS VER! ACONTECEU POR ACASO!" explodiu Remus trêmulo.
"Não seja mentiroso, Remus! Pare de fingir celibato ou perfeição com esse seu ar de menino inocente. Eu sei o que vi. Vi você parado à porta nos olhando como se estivesse excitado. Qual é o problema com você? Tem medo de mim? Tem medo de Sirius? Tem medo de admitir que estava gostando...?"
Neste momento, as palavras de James atingiram o âmago do amigo com uma ferocidade violenta. Um zumbido estranho fez-se em seu ouvido e antes que pudesse perceber, Remus levantara-se e começara a vociferar.
"NÃO ENTREI LÁ DE PROPÓSITO! ERA O MEU QUARTO, NÃO ERA? COMO PODERIA SABER... EU..."
"Mas, você permaneceu olhando porque queria, não é Remus?" murmurou James erguendo seus olhos com um ar maliciosamente desafiador.
Aquilo serviu para atiçar ainda mais uma fúria contida que Remus não sabia ter acumulada.
"OK! QUER OUVIR A VERDADE? ESTAVA GOSTANDO SIM! ESTAVA EXCITADO SIM! E QUE CULPA TENHO POR TER FLAGRADO VOCÊS DOIS EM MEU QUARTO? QUAL É SEU INTERESSE NISSO? QUER RIR TAMBÉM ÀS MINHAS CUSTAS! QUER RIR COMO TODOS FAZEM? RIR DO PERVERTIDO IDIOTA QUE ESPIONA OS DOIS AMIGOS SE AGARRANDO? ESTOU CANSADO! CANSADO DISSO TUDO! CANSADO DE VOCÊS DOIS!"
Remus socara com força a porta do armário que abrira-se com um estampido. Então, virando-se de costas o garoto permaneceu calado, sentindo seus olhos arderem de raiva. Não queria olhar para nenhum dos dois outros.
Remus desvencilhou-se com rispidez das mãos de Sirius quando este tocou em seu ombro. Contudo, quando dirigiu-se até a entrada da cozinha para subir para seu quarto, James o segurou pelo pulso.
"Me solta, Potter!"
"Sirius tem razão! Você não tolera verdades!"
"ME LARGA!"
"Isso causa tanta vergonha a você?" retorquiu James soltando-o com uma irritante expressão de censura.
Lupin permaneceu encarando os dois garotos antes de Sirius finalmente falar.
"Você nos viu juntos e gostou? Remus... mas..."
Aparentemente, Sirius esperava como reação óbvia do amigo para tal fato, uma explosão de ciúmes. Seus pensamentos foram interrompidos abruptamente. Remus lançava aos dois garotos um olhar gélido.
"James, Sirius, por que vocês sempre têm que vir para cima de mim? Por quê? Vocês são tão cruéis! Gostam de se divertir às custas dos outros! Às minhas custas!..."
O garoto de cabelos castanhos dirigiu-se à entrada da cozinha pisando duro e de dois em dois, subiu os degraus da escada que levavam-no ao seu quarto. Tinha o rosto vermelho de raiva e tremia furiosamente.
Sirius e James permaneceram parados e calados até ouvirem o barulho da porta de madeira de um dos quartos do andar de cima fechar-se com violência.
O garoto de cabelos compridos mirou o outro como se tivessem acabado de presenciar um tornado.
"Será que você pode me explicar exatamente o que está havendo, James?" murmurou Sirius sentando-se à mesa e levando a mão à testa.
(CUT)
Remus permaneceu recostado à sua escrivaninha. Sua raiva explodia em cores amarelas e púrpuras. Depois, cinzas até que começassem a aplainar de uma forma não tão suave.
Era naqueles momentos que o garoto de cabelos castanhos irritava-se com seu próprio comportamento. Condenava-se ferozmente pelo poder que aqueles dois amigos possuíam sobre ele. Anteriormente, conseguia exibir calma mesmo quando seu mundo interno esfarelava-se. Contudo, agora liberava sua raiva e se sentia ainda mais vulnerável.
Quem eram eles para afetarem-no daquele modo? O que eram eles...?
O garoto de cabelos castanhos abaixou ruidosamente a cabeça sobre a madeira polida da mesa diante de si. Olhando para frente, ele contemplou as fotos presas com alfinetes coloridos sobre o mural de cortiça na parede.
Rostos sorridentes. Rostos belos. Faces odiosas.
Presos em fotografias, os rostos de Sirius e James sorriam-lhe e acenavam-lhe. Em uma das fotos estavam nos gramados de Hogwarts. Em outras, encontravam-se em pequenas ruelas do Caldeirão Furado.
Remus sentiu vontade de espancar aquelas superfícies planas antes de desviar o olhar para a sua própria cama de colunas.
Há horas atrás vira-nos ali abraçados em um desespero extravagante.
E James atirara-lhe isso de forma impudica. Não parecera aborrecido. Não parecera triste. Ao contrário disso, exibia aquela sua aura de códigos indecifráveis que exalava malícia e autodomínio. Remus nunca julgara-se capaz de compreendê-lo totalmente.
Permaneceria ele com seu ar inabalável se soubesse o que houvera entre ele e Sirius?
Durante um longo tempo que pareceu intermináveis horas, Remus ficou em seu quarto. Não achava-se capaz de abandonar aquele recinto. No entanto, a prisão o atormentava.
Seu estômago também começava a doer numa fome latente. Remexera alguns chocolates que guardara em suas gavetas, mas não eram muitos. Apenas o suficiente, para uma hora depois, seu estômago exigir novamente comida.
O céu começava a empalidecer quando batidas firmes na porta foram escutadas.
"Remus, abra! Você não pode permanecer aí o dia inteiro!" disse uma voz com aparente inquietação.
"Vai embora, James! Quero ficar sozinho!"
"Abra, Remus!" gritou Sirius.
Como Remus não respondeu, o garoto de cabelos compridos estendeu-se.
"Sua mãe mandou uma coruja. A pobre ave está esperando há horas..."
"Tirem a carta dela e coloquem por baixo da porta, caso não se incomodem muito em ajudar..."
"Ela mandou um pacote. Não podemos colocar embaixo da porta. Além disso, a coruja de sua mãe está dando bicadas a esmo. Não vou lutar com o pobre bicho por causa de correspondência. Melhor você tentar tir�-la, não?"
O garoto de cabelos castanhos ergueu-se sobre os calcanhares e dirigiu-se até a porta com falta de entusiasmo. Sua mãe ficara de lhe escrever nos próximos dias. Estava surpreso dela ser tão rápida.
Abrindo com um ruído metálico o ferrolho, Remus permaneceu olhando para os dois rapazes mais altos que estavam parados a sua porta.
"Cadê a Fiona?"
Um silêncio se deu antes que Remus repetisse.
"Cadê a coruja da mamãe?"
Então, quando Sirius empurrou-no para o lado e entrou no quarto, seguido de James, o garoto de cabelos castanhos envergonhou-se de sua própria tolice. Isso foi reforçado pelo ligeiro tom de divertimento no rosto dos dois garotos. Ocasionalmente, eles o enganavam com facilidade.
"Ora, vocês dois..."
"Tivemos que mentir para você abrir a maldita porta." defendeu-se Sirius sentando-se na cama ao lado de James.
Remus olhou-nos com censura em suas pupilas antes de voltar a sentar-se na cadeira diante da escrivaninha.
James começou.
"Vamos parar com as brigas. Será que podíamos parar com os gritos? Isso é muito desagradável! Não sei porque você se irritou daquele jeito... Eu só queria conversar..."
"James, eu não fiz de propósito..."
"Eu sei, Remus. Não pense que eu acho que você estava bisbilhotando. Quer dizer... afinal, não é grande coisa. Sei que você não teria planejado olhar. Você gosta de garotos e... nada mais normal... você ter se... empolgado por ter visto Sirius e eu... não é?"
Remus sentiu-se ligeiramente impelido a começar a gritar novamente, mas manteve-se calado. Não possuía mais a irritação torrencial para isso...
"É..." retorquiu o garoto de cabelos castanhos secamente.
Um silêncio pesado se fez antes que Sirius falasse com a voz um pouco arrastada.
"... E você gostou realmente?"
Remus olhou para o outro lado, evitando os rostos dos amigos.
"Já falei isso lá embaixo..."
James acrescentou.
"Você e o gnomo do Carlson nunca...?"
Remus pareceu por um momento atordoado. Aquela situação pareceu-lhe patética. Em um momento, brigavam e em outro, aqueles responsáveis por perder a cabeça tiravam-lhe satisfações como se fossem seus pais.
"Não" respondeu o garoto enrubescendo, mas mantendo-se firme.
Sirius sorriu discretamente neste momento. No escritório, esquecera de perguntar isso a Lupin. Estava feliz pelo monitor corvinense não ter ousado encostar um dedo em Remus.
"Então, você não teve um presente de aniversário decente..." murmurou James com ar de divertimento.
"Você acha legal quando o James e eu...?"
"Acho" falou o garoto de cabelos castanhos quase desafiadoramente.
"Gosta também quando nos beijamos, acredito." falou James sério.
"É. É legal também..." retorquiu o garoto de cabelos castanhos sustentando a chama viva de dois pares de olhos.
"Vem até aqui, Remus..." sentenciou, James fazendo sinal para que o amigo sentasse-se entre ele e Sirius.
Durante um momento, Remus estudou a proposta com um temor que misturava-se à vergonha. Contudo, após um breve período de indecisão, ele sentou-se sobre a cama entre os dois garotos.
Remus os tinha agora muito perto de si.
"Sirius e eu não o culparíamos por essas coisas, entende?"
"James" começou Remus "Não acha vergonhoso um amigo seu te ver com Sirius tendo relações? Você não se sente incomodado?"
Remus observava de perto a pele pálida de James diante de si. Via os grossos contornos da armação de seus óculos. O garoto de cabelos castanhos o estudava em silêncio e só foi arrancado de seus devaneios quando James curvou-se sobre Sirius e o beijou não um beijo tímido. Mas, um verdadeiro beijo adulto.
O garoto de cabelos castanhos contemplou a pressão entre os lábios muito próximos de si. Contemplou o movimento das línguas.
Sirius parecera surpreso por um momento diante da atitude de James, mas o respondera à altura.
"Isso não é vergonhoso, lobinho" murmurou James após partir o beijo. Tinha os olhos fixos em Remus "Você sempre nos vê beijando. Você nos viu beijando no lago. Aliás, nós três nos beijamos no lago de Hogwarts no ano passado."
O garoto de cabelos castanhos boquiabriu-se.
"Mas, aquilo foi outra história..." defendeu-se Remus.
"É. Estávamos diante de estranhos" murmurou Sirius com uma risadinha sarcástica.
"Como foi mesmo?" perguntou James com divertimento.
"Eu beijei você e depois beijei o Remus. Depois, você o beijou, mas não fez direito e ele saiu chorando..." disse Sirius fitando os dois amigos.
Remus achou hediondo ambos trazerem esse assunto à tona com tamanha naturalidade.
"Claro que o beijei direito, Sirius. Não é mesmo, Remus?"
Remus sentiu os dois pares de olhos sobre si.
"É..." retorquiu o garoto de cabelos castanhos não conseguindo reprimir um vago sorriso.
"Você ficou bastante surpreso, não é mesmo, Remus?"
"Obviamente..."
"Deveríamos ter feito aquilo longe de todas aquelas pessoas. Quero dizer, talvez você não saísse correndo com vergonha..." murmurou James.
"Podíamos ter ido até uma sala vazia e experimentado. Ou então, até o dormitório. Realmente, deveríamos ter feito aquilo a sós..." comentou Sirius com uma expressão significativa.
Um silêncio maciço fez-se quando os três se entreolharam. Então, uma estranha atmosfera instalou-se entre os amigos.
Houve o sentimento evasivo e a compreensão inquietante que fez Remus sentir seu coração acelerar-se novamente. Estavam sozinhos.
Uma luz tênue e avermelhada trazida pelo inconfundível crepúsculo reluziu em seus olhos profundos. Em um emaranhado de acontecimentos, havia coisas que aquelas jovens idades, apesar de prematuras ainda não conseguiriam identificar com precisão:
a)Passados inacabados voltavam para cobrar débitos ao presente.
b)Presentes concluídos só existiam porque um passado os dera início.
c)Futuros só existiam quando seus irmãos passado e presente faziam as pazes.
Esses três mandamentos menos odiosos, não haviam ainda sido formulados por Sirius. Formularia-nos quando antes de tudo, compreendesse o significado de cada palavra.
Os três permaneceram em silêncio e o único ruído vinha de um dos insetos da estação que zumbia tristemente entre as cortinas da janela, trazido das roseiras do jardim.
Remus sentia os dedos de James percorrerem a extensão macia de seu pulso enquanto Sirius encostava-se a seu joelho.
Não havia mais a curiosidade de garotos inconseqüentes. Não havia mais lago ou alunos. Nem mesmo, o perdão aos inocentes que cometem algo impensado pela primeira vez. Então, o que os impelia?
Sirius procurou os dedos de James e os beijou. Remus surpreendeu-se pela primeira vez por não sentir-se enciumado.
Os rostos dos dois amigos voltaram a aproximar-se. Sirius beijou James ainda com maior intensidade. Parecia possessivo e inquieto. Tocava o rosto do outro, puxando-no mais para si.
Remus deparou-se com os dois a olh�-lo pelo canto dos olhos enquanto beijavam-se. Não haviam fechado-nos. Remus ainda sentia dedos percorrendo seu pulso e joelho.
Então, quando partiram o beijo, Remus compreendeu uma intenção que arrancou uma nova pontada de seu baixo-ventre. Algo em sua mente sinalizava-lhe, dizendo que contornava abismos profundos. Porém, ainda assim, encantadores.
Sirius e James não agiram com precisão. Apenas continuaram a acarici�-lo até que Remus pode sentir sobre si a respiração de ambos. Sentiu James beijar-lhe o rosto enquanto Sirius se via refletido em suas pupilas.
Aproximando os rostos. Cada vez mais perto... Com uma estranha certeza de que não haveria explosões de ciúmes entre si, o que quer que fizessem...
Assim como na noite anterior, Remus pressionou por mais uma vez seus lábios na boca de Sirius. Sufocantes.
Sentiu Sirius avançar um pouco sobre si enquanto mergulhava incerto, os dedos naquelas madeixas escuras.
Remus enfraqueceu rapidamente sob a força daqueles lábios. E a língua do rapaz de cabelos compridos provocou-no de um modo que ele não pode mais ignorar o formigamento febril que subia-lhe impiedoso.
Então, ambos separaram-se após significantes minutos. As respirações ligeiramente alteradas.
O garoto de cabelos castanhos evitou por um momento reerguer os olhos.
Quando o fez, houve a pulsação de uma segunda compreensão.
Novamente, os três se entreolharam e antes que o tom vermelho fizesse-nos cair em um estado de inexplicável adoração. James aproximou seu rosto do garoto de cabelos castanhos.
Este último, impelido por um devaneio lúgubre, não derramaria lágrimas ou começaria a gritar.
Quando Remus e James se beijaram, o ruído do inseto preso às cortinas cessou. Morreu.
Simplesmente, o fez. Deixou de existir assim como todas as coisas presentes o deixariam em algum momento.
Mas, antes disso, haveria vida.
Duraria uma eternidade, para os padrões de tempo da felicidade. Alguns minutos. Ou, alguns anos...
Ela apresentaria-se obstinada. Sob o pôr do sol, todas as coisas pareceriam absolutamente suspirantes e sangüíneas.
E aqueles três garotos pareceriam por um segundo, o fluxo incessante de rios que inevitavelmente, se separariam em algum momento. Desesperados...
A imagem ocultava um esplendor incomparável. Nada mais justo. Rios sem forma. Profundos. Derradeiros. Absolutamente, brutais...
E os lábios que se abraçavam no desdobramento das coisas não terminadas, encontravam em si, o barulho de águas de lagos, o cheiro de gramados e o hálito quente do vento.
Enquanto os olhava, Sirius sentiu o indescritível prazer chegar até si. Atravessara os dois corpos e inflamara conseqüentemente o seu.
Simplesmente, incomparável. Sangüíneo. Ofegante.
O garoto de cabelos compridos nunca sentira Remus e James antes tão seus.
