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14. Explicação lógica
Este havia sido sem sombra de dúvidas, o momento mais vergonhoso, absurdo e patético de toda sua vida. Porra, porra e porra. Em que diabos estava pensando esse Uchiha? Realmente havia perdido a cabeça, sim, devia ser isso. "Reconheça que foi amável." E isso era o mais estranho de todo o caso. Amável por quê? Por que tanta preocupação-obsessiva por ela? Não conseguia entender, por mais que Sakura espremesse seus neurônios em busca de uma resposta lógica esta nunca chegou.
A cabeça da pelorrosa era um autêntico mar de dúvidas embaralhadas. Depois desse momento terrivelmente embaraçoso, para ambos, Sasuke saiu de seu quarto deixando ela sozinha para mudar de roupa e dar-se uma revitalizam-te ducha de água quente. Com esta ela pretendia reviver seu corpo convalescente e aliviar as malditas pontadas em seu baixo ventre que não eram precisamente de excitação. Estúpida cor vermelha. Voltou a amaldiçoar todos os homens do planeta. Por que só as mulheres tinham que sofrer cada mês? Era injusto! Os homens à fogueira!
E enquanto Sakura soltava uma peroração mental sobre como era sordidamente cruel para as mulheres sofrer a menstruação e como sordidamente os homens eram afortunados sem merecê-lo, obviamente, Sasuke encontrava-se com a testa apoiada contra a parede golpeando-se mentalmente e fisicamente. De vez em quando se podia escutar um ruído surdo provocado por ele e sua testa ao chocar-se contra a fria divisória de cimento. "Todo um espetáculo." Espetáculo? Não foi só um espetáculo, no pior dos casos, foi um grande espetáculo.
Maldição! Havia se deixado levar por sua estúpida paranoia e havia feito o mais absurdo dos ridículos. Há! Sakura grávida. Como podia sequer pensá-lo? Era uma ninja médica, não? Não era estúpida. "Como você." Gruiu desde o mais profundo de sua garganta furioso. Furioso com ele mesmo e com Sai. Matá-lo-ia. "Por quê? Ele não te fez nada, só fez um comentário extremamente inocente e foi você que caiu como um idiota." Merda. Porque verdadeiramente caiu como um idiota na provocação de Sai. Esse suplente bastardo estava disposto a foder-lhe a existência e não pararia até vê-lo louco. "Ou afastá-lo de Sakura." Nunca. Isso jamais, j-a-m-a-i-s. "E já se perguntou, Uchiha, por que não a quer longe de você?" E voltou a gruir.
Tudo isso era muito conflitante, muito absurdo e muito patético. Uma droga de uma merda para ser mais claro. O pior de tudo? Por mais que se recriminava, se insultava e se autoconvencia que assim estava melhor não sentia alivio. Alivio por não ser pai. Alivio por não unir-se em um sentido tão íntimo a Sakura. Não, não sentia alivio. "Então o que sente? Decepção?" Decepção por quê? Por não ter um pequeno mini-ele de sorriso petulante, cabelo azeviche e olhos verdes? Por não ter a outra irritante pelorrosa com a diferença de que esta lhe chamaria de "papi" em um tom cantado e inocente? Por isso? Por isso deveria sentir decepção? "Decepção por não formar uma família, idiota." Não, não sentia decepção por não formar uma família com Sakura. "Tem certeza? Você imaginou tudo muito nitidamente." Isso foi por culpa de sua experiência em pleno ataque de pânico e paranoia. "Desculpas, desculpas. Kakashi te influenciou muito mal.".
Pluff
Outro golpe.
Porra. De acordo. Certo. Certamente que a cena criada por sua mente traidora lhe agradou um pouco, mas só um pouco e acontece que sentira uma parte, mas uma parte muito, muito insignificante, quase inexistente, de decepção.
Pluff.
Outro golpe.
Era patético. Maldição! Mataria a esse bastardo babaca, jurou em silêncio. Matá-lo-ia por atormentá-lo. Por seus malditos comentários. Por aproximar-se de Sakura. Por beijá-la. Por querer afastá-la dele. "E volto a te perguntar. Por que não a quer longe de você?"
– Uchiha, pode deixar de romper a minha parede?
Sasuke se deteve em pleno ato. Sua testa estava a ponto de chocar-se novamente contra a parede, entretanto, nunca chegou a acontecer. Ficou petrificado ao escutar o doce tom de Sakura que mal conseguia esconder a irritação da jovem. Merda. Por que não foi embora quando teve a oportunidade? "Tem medo?" Claro que não! Mas tudo isso já era o suficientemente vergonhoso para tentar explicá-lo e esse pontinho rosa era o suficientemente irritante para pedir-exigir isso.
Deu-se a volta com assombrosa lentidão construindo em seu rosto de marfim uma perfeita mascara de inexpressividade e indiferença. E ali no marco da porta abraçada a si mesma estava ela. Sakura havia trocado a roupa e vestido esse pijama rosa estupidamente infantil e uma bata da mesma cor. Seu cabelo caía úmido por seus ombros demonstrando a recente ducha que havia tomado já que as pontas dos fios molhavam o tecido onde tocavam. Seus olhos semicerrados e acusadores o esquadrinharam por sua recente atividade, entretendo, Sasuke pôde notar como estes mudaram para olhos de preocupação ao fixar-se em certo ponto de sua cara. Ele franziu o cenho e então notou certa irritação.
– Você está sangrando.
E essas palavras causaram certa ironia em ambos. Sakura quase riu. Ele girou a cabeça para o outro lado orgulhoso. "Orgulhoso de que Uchiha? Aceita de uma vez, você fez papel de ridículo."
– Fez uma pequena ferida em você mesmo pelos golpes. - informou ela com tom médico enquanto se aproximava dele com passos certos.
Durante um momento ficaram em silêncio. Ela tomou o rosto dele entre suas mãos quentes obrigando-o a olhá-la, limpou o fio de sangue com um pano de cozinha apertando um pouco a ferida para evitar que continuasse brotando, Sasuke pôde distinguir nos olhos dela esse brilho divertido que antes surgiu em seus lábios e ficou idiotizado contemplando-a. Porra.
– Sobreviverá. - comentou ela com tom distraído.
– Hmpf.
"Eloquência a toda força."
– Obrigado.
"Milagre!"
– De nada. – Sakura sorriu com ternura. – E agora vai me explicar porque está quebrando minha parede e todo esse teatro dramático que você montou agora há pouco. - e esse foi o tom mais maternal que Sasuke ouviu da pelorrosa... ou talvez já o tivesse escutado antes, mas nunca lhe pareceu tão maternal como agora. "E vai logo dizendo que não está decepcionado." E agora o que deveria dizer? Sabia que Sakura era o suficientemente irritante para fazer essas fodidas perguntas. "Diga-lhe a verdade." A verdade é tão relativa e absurda que não vale a pena nem comentá-la. E mais... Vamos enterrá-la. "Impossível." Toca pe…
– Sasuke, estou esperando. - o tirou de seus questionamentos.
E a este o que passava? Hoje estava se comportando de uma forma muito estranha. Pensava que seus momentos patéticos já haviam acabado ou haviam chegado ao ponto máximo com seus vômitos. Parece que não. O momento mais brilhante e vergonhoso foi admitir diante de um homem que estava menstruada, e não qualquer homem se não diante do homem com quem tem sexo desenfreado e que ainda por cima está apaixonada por ele desde os doze anos. Ver Sasuke dar-se golpes contra a parede era o cúmulo. A ela foi o que aconteceu o pior. Não? Ela quem deveria dar-se golpes contra a parede, não ele. "Sakura, recordo-te que você não sabe que diabos passava pela mente do Uchiha, não sabe o que o incitou a comportar-se assim, por tanto, ainda não pode afirmar nada." Isso era certo, mas iria averiguá-lo.
– Não seja exagerada, não quebrei a parede. A única que tem capacidade para fazer isso nessa habitação é você. - respondeu por fim em tom de desentendido.
– Tenho que entender isso como um cumprimento? - ergueu uma sobrancelha com ceticismo.
– Hmpf, talvez.
– Certo, tomarei como um cumprimento. - e emendou. - E o teatrinho de agora há pouco?
– Não seja irritante, Sa-ku-ra. - arrastou seu nome quase soletrando-o e um arrepio recorreu todo o corpo dela e desta vez não foi por mal estar ou frio.
– Não faça isso. - fez uma estranha careta infantil.
– Fazer o que? - o sorriso petulante surgiu nos lábios dele e Sakura não soube se o beijava ou batia. Preferiu não fazer nada no momento.
– Dizer meu nome dessa forma.
– Desse jeito, Sa-ku-ra? - perguntou-lhe em um sussurro muito próximo, perigosamente próximo do rosto dela fazendo-a sentir seu hálito quente bem na ponta do nariz.
Maldito Uchiha do demônio! Por que tinha que fazer tudo tão endemoniadamente complicado e sexy? Não, sexy não era a palavra que deveria utilizar. Não. "Mas é a palavra que você pensou Sakura, além do mais, olhe-o, ele é sexy." Sim, certo, porra. Ele era um pacote fodidamente sexy. "Muito melhor." Mas não tinha que fazer hora com ela dessa forma e além do mais, fazia-o com a intenção de escapar de seu interrogatório. Como se não o conhecesse.
– Nem tente Uchiha. - cruzou os braços e franziu o cenho para dar mais ênfase ao seu tom duro. - Já conheço seus truquesinhos de conquistador. Responde à minha pergunta.
Por um momento funcionou. Ele viu os olhos jades brilhosos e perdidos, perdidos nele, obviamente. "E aqui está de novo o ego transbordante do Uchiha crescendo ainda mais. Logo explodirá." De qualquer maneira, sorriu. Esse sorriso simples apareceu em seu rosto como uma exalação. Porque achou graça da atitude de Sakura, porque ela era condenadamente previsível e porque, maldita seja, era uma tremenda teimosa.
– Humpf, irritante.
– Humpf, irritante. - Sakura o imitou mudando a sua voz para uma que ela acreditava ser de homem e ajeitando os ombros.
– Me imita muito mal, Sakura.
– E você evita responder minha maldita pergunta. - enfureceu-se a médica ninja farta da situação.
Isto era como ter Naruto colado nele com perguntas, uma e outra vez a mesma estupidez com a diferença de que ela não era precisamente loira, a pergunta não era tão estúpida e ele não podia bater nela como fazia com o idiota que tinha por melhor amigo. "Está se convertendo em um cavalheiro. Influenciou-te esse momento em que acreditava que ela era a mãe do seu filho ou simplesmente está se reformando?" Oh, por favor, cale-se.
– Vamos, não deve ser tão difícil. Com certeza tudo tem uma explicação lógica. - Sakura o animou.
Tsc. A explicação lógica era: Sai é um bastardo. Certo? "Continua com isso? Sai é adorável." Sim, claro. E ele é uma pessoa romântica e chorava vendo Titanic. "De verdade? Não sabia. Além do mais, esse filme é muito bonito."
– Simplesmente me preocupei, isso é tudo. – soltou de supetão e deu-se a volta para ir.
Sakura franziu as sobrancelhas e o segurou pela camisa.
– Por quê?
Ele disse que Sakura não fazia perguntas estúpidas? "Sim." Retirava-o.
– Porra, Sakura. – bufou exasperado. – Porque estava doente.
A pelorrosa não soltou seu agarre, pelo contrário, aferrou-se mais a ele fazendo um punho com a camisa dele. Levou a outra mão ao peito e observou Sasuke bufar irritado tirando uma mecha de cabelo do olho sem êxito. Ela não pôde evitar apartar o cabelo dele com um gesto suave e terno. Os olhos ônix a transpassaram.
– Não pensei que se preocupasse comigo. – murmurou baixinho quase como se temesse que a escutasse, como se fosse uma menininha confessando uma travessura a seu pai.
Não era tão insensível. "Não, só é um cubo de gelo que nunca expressa nada. E te surpreende que Sakura duvide de sua preocupação?" Merda, não podia culpá-la por não crer que ele se preocupasse com a saúde dela inclusive para ele era inverossímil toda aquela situação que viveu há poucas horas.
– Humpf. – gruiu. – Posso ir agora?
– Só uma coisa mais.
Ele girou os olhos impaciente, mas não se moveu.
– Por que você se alterou tanto ao ver o sangue? – duvidou e a língua travou ao pronunciar as últimas palavras, estava fodidamente certa de que um rubor apoderou-se de suas bochechas, mas era algo que devia esclarecer. Isso foi o que mais lhe confundiu. Podia aceitar que ele não fosse indiferente como se mostrava para os demais. Sempre fez isso inclusive antes de ir embora quando ainda eram meninos de doze anos que formam a equipe sete. Até mesmo nesses dias quando ele a julgava como irritante ele nunca deixou de protegê-la. Por isso, acreditou que uma parte de Sasuke se inquietou ao vê-la tão pateticamente fodida. Mesmo assim, não encontrava lógica na cena final.
Permaneceu em branco. Na verdade lhe passaram tantas imagens pela cabeça, de forma tão veloz, que nem sequer viu alguma coisa. O que soube com certeza era que estava fodido, muito fodido. Como sairia disso sem perder seu orgulho no processo? "E volta com seu precioso orgulho. Por que ele é tão importante?" Porque era a única coisa que sobrava para manter-se de pé e continuar lutando.
Demônios! Os olhos dela o observavam atentos a qualquer reação mesmo ele não transmitindo nada, nenhum ápice de emoção. Bem, podia mentir e que mentira podia cobrir seu... Engano? Sim, maldito engano. Nem sequer teve a decência para criar uma desculpa aceitável, estruturada e razoável. "Está perdendo as faculdades mentais."
E o seguinte que disse foi dito em um murmúrio inaudível e indecifrável para Sakura e isso era demasiado já que estavam em uma distância muito curta. Instintivamente ela deu um passo adiante e colocou-se de lado incitando-o a repetir o que disse. Sasuke engoliu saliva abruptamente. Já foi o suficientemente duro "dizê-lo", pior ainda repeti-lo. "Ela não conseguiu te ouvir, imbecil."
– Pensei que estava grávida. – respondeu rapidamente surpreendendo a pelorrosa não pelo conjunto da frase em si e pelo significado, mas pela velocidade ao pronunciá-la. E mais, nem captou o que ele queria dizer.
– Sasuke, por favor, fale mais devagar. Não estou te entendendo.
Era uma piada? Disse-lhe o mais claramente que pôde, não pensava repeti-lo.
– Humpf.
Como toda resposta, a jovem fez um breve, mas encantador bico, tão infantil e doce como só ela podia fazer. Sasuke bufou exasperado e novamente conseguiu que sua franja se movesse.
– Pensei que estava grávida. – repetiu com desagrado.
E os neurônios de Haruno Sakura bloquearam-se.
O Uchiha queria fugir, sair da incômoda cena e logo estatelar sua cara contra a parede, mas para sua desgraça o aperto férreo da médica ninja seguia ali e não parecia ceder nem um centímetro, e mais, toda ela havia se transformado em pedra. O rosto dele parecia um poema indecifrável e sabendo que ele não era um poeta cheio de emoções não soube exatamente o que passou pela mente da garota ao soltar essas palavras e sem anestesia.
Grávida?
Ela?
Ela grávida?
Pouco a pouco a informação foi chegando ao cérebro da Haruno e por sua vez foi processada passo a passo sem riscos de sobrecarga. "Está bem? Dou-te oxigênio? Reanimo-te?"
Ela grávida? Ela grávida?! "Você grávida."
Porra. Agora tudo faz sentido. "Custou-te, em?" Sim ele pensou que ela estava grávida e ao ver o sangue creu que poderia estar sofrendo um aborto ao algo ruim acontecia com o bebê. "E descobriu tudo sozinha sem a ajuda de ninguém?"
– Você pensou que eu estava grávida. - Sasuke não soube distinguir se isso foi uma pergunta ou uma afirmação, para falar a verdade, ela tão pouco o tinha claro. Seu tom de incredulidade era óbvio.
O que sucedeu na sequência humilhou e acabou com o pouco orgulho que Uchiha Sasuke havia conservado durante esse período de tempo. Uma forte gargalhada destroçou os tímpanos dele e esbofeteou-lhe o ego. Sakura havia começado a rir.
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