POV Doremi Harukase
Esta gente não tinha vida própria? Parecem incapazes de se meterem na própria vida e tirarem o nariz da minha!
O som de risos tirou-me da minha divagação. Olhei para cima vendo o Tetsuya a rir-se da minha cara.
- Hey! – murmurei – Não é giro!
- Isso é porque não tenho um espelho aqui! Acho que assustas-te a Miho até ao resto da sua vida.
Pensei na pequena rapariga morena que era a maior abelhuda que já conheci.
- Se ela não se comportar, certificarei-me que ela será curta. – murmurei entre dentes.
- Dó!
Olhei para ele deixando escapar um sorriso sarcástico. Era incrível como em apenas um dia, já não conseguia controlar os meus sorrisos perto dele. Respirei fundo, deixando o meu olhar dançar com a vista.
Estávamos em cima de uma árvore a aproveitar a pausa a meio da manhã. Ali ninguém nos encontrava e a vista era simplesmente bela.
- Que estás a pensar?
- Só a ver a vista. – "talvez não tanto assim…" pensei ao lembrar-me dos olhos azuis furiosos que não pararam-me de encarar esta manhã.
- Pois… Ela é que perde.
Olhei para ele espantada.
- Sou assim tão transparente?
Ele teve o desplante de rir-se na minha cara!
- Não! Eu é que já me estou a habituar a ler-te.
Sorri, dando-lhe uma pequena palmadinha no ombro fazendo-o desequilibrar. Ele olhou para mim assustado enquanto se agarrava melhor ao tronco onde estávamos sentados. Ri-me:
- Não sei se gosto muito que me leias assim tão facilmente…
POV Tetsuya Kotake
Facilmente? Claro que não. A cara dela é um mistério! Mas… os olhos…
Deixei a mente vagar.
Ontem o dia foi…Intenso. O que ela me contou foi… confuso, divertido, doloroso, e houve partes onde só me queria levantar e matar os filhos-da-mãe que a magoaram. Mas, ao longo da tarde, aprendi a ler os seus olhos. Como eles escureciam quando contava algo doloroso; como brilhavam quando me contava as peripécias em que se meteram; como endureciam quando me contava sobre as lutas; como ficavam abertos perdidos sem fixar nada quando falava das saudades, de casa, delas, da Hanna (um pouco assustado com isso na verdade…); como ficavam semicerrados e a íris crescia quando me contava acerca da "Rainha".
Com ela era assim. Não era na boca, ou nas sobrancelhas e, nem mesmo no elevar das maçãs-do-rosto. Era nos olhos. Eles eram verdadeiramente a janela da alma dela.
- Acredita, Doremi. Ler-te não é assim tão fácil.
Ela sorriu levemente. Mas os olhos endureceram brevemente, escurecendo levemente.
- Não tens medo?
Ergui os olhos ao céu. Sabia o que ela queria dizer com isso. Não. Eu nunca poderia ter medo dela.
- Não.
A ruiva deixou cair os ombros. Parecia que lutava com qualquer coisa.
- Não. – repeti – Não me importa aquilo que fizes-te, irás fazer, ou és. – agarrei-lhe nos ombros fazendo-a olhar para mim. – Não importa, porque eu conheço-te. E sei que isso não importa realmente.
Ela suspirou brevemente, olhando para cima.
- É só que… acho que estou à espera que a história assente na tua cabeça e comeces a perceber como isto é tudo tão lixado. Como a minha vida é lixada.
- Eu já percebi tudo o que precisava de perceber. – respondi brevemente irritado. Ela estava tão magoada que não conseguia acreditar quando lhe estendiam uma mão. – E, a tua vida não é lixada. Tu não estás lixada.
- Às vezes gostava de acreditar nisso com tanto fervor. – murmurou ela deixando-se cair para o chão com um gracioso salto quando a campainha soou na pátio.
"Às vezes gostava que acreditasses também"
- Então meu?
Levantei os olhos do meu almoço.
- Yada.
- Nada disso! Conta pormenores de como exactamente tu e a pequena "Miss Gelo" começaram a conversar!
Revirei os olhos. Claro…
- Sabes como é… Eu faço perguntas, ela responde, depois faz ela perguntas e eu respondo. – Sorri – Apesar de não conversares muito pensei que sabias como funcionava a mecânica da coisa.
- Vá lá! Tu sabes o que quero dizer.
Revirei os olhos internamente:
- Sabes, para um gajo com fama de calado e "bad-boy", tu és um dos maiores fofoqueiros que já conheci.
Ele sorriu prepotente.
- Hey! Quem pode, pode! – "Típico" – Mas conta lá! Qual é o problema dela?
Ergui a cabeça bruscamente. Ele não faz ideia do que acabou de dizer.
- Yada! – rosnei.
Ele olhou para mim espantado, antes de deixar cair os ombros arregalando os olhos.
- Meu… Ela têm mesmo um problema? – acenei brevemente sem adiantar muito mais – Bolas… Desculpa meu, não sabia. É muito sério?
- Qual é exactamente a tua definição de "sério"?
Ele sentou-se ao meu lado deixando-se escorregar na cadeira.
- Bolas…
A quem o dizes.
Só um capitulo de passagem.
