Nota: Esse fanfic foi revisado e substituído em fevereiro de 2016. Não houve nenhuma mudança significativa no enredo, com exceção do final do capítulo 10, em que um par de olhos azuis, misterioso, foi substituído por alguém usando óculos, nada misterioso. Isso aconteceu por causa da minha mania absurda de criar mistérios desnecessários sem planejamento prévio. Bom, não farei mais isso no futuro. (...) Espero.
A revisão eliminou alguns erros mais grosseiros, além de alguns caracteres alienígenas adicionados pelas muitas mudanças no site. Apenas isso. Mantive as notas originais.
Então... Eu sabia que esse capítulo sairia um dia – nível fatality de cara de pau. Honestamente, não sei o que pensar dele. Acabei não revisando muito para não ter o impulso de sair apagando tudo. Já faz tanto tempo que escrevi nessa fic que não sei se ainda consigo seguir o mesmo ritmo. Se fosse algo que tivesse começado hoje, com certeza mudaria muitos detalhes. Algumas coisas não fazem lá muito sentido – ia fazer uma piada sobre a Botan e seu boné, mas vou deixa-la para o Yusuke no próximo capítulo. Sim, haverá próximo capítulo. Não, não daqui a dez anos. Espero.
Essa atualização é uma declaração de que eu quero terminar essa fic. Estou convencida que se não sair esse ano, posso oficialmente me aposentar. Ah, droga, até parece. Vou ser viciada em fanfics até morrer. No mínimo.
Capítulo 14
- O mundo estava girando.
Botan tentou se mexer, mas uma pontada de dor no alto da testa a obrigou a ficar novamente imóvel. Podia ver o sol, ofuscantemente branco, brilhando do alto na direção de seu rosto. Estranho, estava deitada. Não lembrava exatamente onde deveria estar no momento, mas algo lhe dizia que a cama não era a resposta.
Fechou os olhos, sentindo a maciez do lençol contra a pele exposta dos braços. Aquilo também era estranho. O casaco do uniforme do colégio tinha mangas compridas, de um tecido espesso, desconfortável no clima quente das últimas semanas. Onde ele poderia ter ido parar?
O barulho de uma porta batendo soou de algum lugar da sala e alguém falou:
- Está acordada?
Botan piscou lentamente, repetindo o gesto até que o ambiente em volta entrasse em foco. O que pensara ser o sol era apenas uma lâmpada redonda florescente no teto, e a cama em que estava deitada mais parecia uma maca. Foi com a assustadora certeza de que alguma coisa tinha dado muito errado, que ela percebeu que só podia estar na enfermaria.
- Você deu um susto nos seus amigos – disse a voz, que ela agora percebia ser de uma mulher. – Nada comparado ao susto que deu em mim quando... Bom, acho que podemos falar sobre isso quando você se sentir melhor. Por enquanto estou mantendo todo mundo afastado – a mulher riu – mas se Genkai souber do acidente, não vou conseguir impedi-la de visita-la, então é melhor você trocar de roupa, por via das dúvidas.
As palavras caíram sobre Botan como um balde de água gelada. Lembrou-se de repente do que tinha acontecido: ela estivera tão distraída tentando encontrar as palavras exatas para sua grande confissão, que não se deu conta de nada até já estar sendo dolorosamente atirada na piscina. Apalpou a parte dolorida da testa e sentiu o galo que já começava a se formar. Tinha certeza que o culpado era certo resto de parição, que atendia pelo nome de Hiei, e que se não tivesse sido morto por Yusuke até agora ela ficaria encantada em se oferecer para o serviço.
Mas espere um minuto... Seu rosto voltou-se na direção da voz tão rápido que sentiu o pescoço estalar e novamente a pontada na testa. Ignorou a dor e carranqueou, forçando os olhos ainda irritados. Uma mulher ruiva estava sentada na escrivaninha que devia ser ocupada pela enfermeira, olhando para ela como se estivesse vendo algo muito engraçado. Só então percebeu o porquê de seus braços estarem expostos. Alguém tinha tirado seu uniforme encharcado e o substituído por uma enorme camiseta com o slogan do colégio Meiouh. Seus cabelos ainda estavam úmidos, grudados no pescoço e caindo sobre a testa desordenadamente. Não havia sinal do boné do Arquivo X de Yusuke. Ao perceber as implicações, o sangue da garota gelou.
- Relaxe – disse a mulher. Era alta e ruiva, com cabelos curtos que nem chegavam até os ombros. Tinha olhos azuis, escuros, e uma cicatriz que atravessava o rosto na altura do nariz e que lhe dava ares de gangster. – Sou Mukuro, treinadora de kendo do colégio. Acabei de voltar de uma licença prolongada, então você não deve ter ouvido falar de mim ainda – a mulher fez uma careta, como se lembrar do período de ausência lhe trouxesse alguma lembrança ruim. – Qual o seu nome?
Ela sorriu, mas alguma coisa em seus olhos fez com que Botan não se sentisse nem um pouco mais tranquila. Talvez fosse a cicatriz, que falava de batalhas passadas e uma reputação perigosa... Mas o que estava pensando? Não estavam na era dos samurais. Até onde sabia a mulher podia ter cortado o próprio rosto fazendo sushi.
- Meu nome...?
Por Kami, quais eram as chances daquilo tudo ser um pesadelo? De todas as pessoas para descobri-la, tinha que ser logo uma professora?
- Você acreditaria se eu dissesse que meu nome é Touya e, seja lá o que você possa ter achado estranho sobre o meu corpo, faz tudo parte de uma condição médica rara chamada... ah... Síndrome de Itsuke? – Botan riu, ficando nervosa ao pensar que talvez fazer piada com outro professor não fosse a melhor maneira de cair nas graças de Mukuro.
Para seu alívio, a professora pareceu achar engraçado.
- O nome da doença até que faz sentido – respondeu – mas a resposta é "não".
- É, eu achei que você fosse dizer isso...
A prima de Yusuke ficou olhando de um lado para o outro, como se ignorar a pergunta fosse fazer com que Mukuro esquecesse que a fizera.
- Garota – disse a professora de kendo. – Acho melhor você me dizer o seu nome e o que está fazendo aqui, porque...
- Foi culpa do Touya! – Botan a interrompeu quase aos gritos. – Ele os Shinobi... E todo aquele drama por causa do festival em Kyoto... Ele praticamente me coagiu! Usou da minha fraqueza, porque eu disse ao Yusuke que era melhor estudante que ele... Mas qualquer estudante é melhor que o Yusuke, até o Kuwabara. E então eu conheci o Shuuichi. E eu queria contar toda a verdade, mas aquele meia porção do Hiei nos empurrou na piscina. Ai, Shuuichi! O que aconteceu com ele? Ele não morreu, não é? Porque nós estamos sozinhas na enfermaria e... Nós estamos sozinhas na enfermaria, não estamos?
A essa altura a garota falava tão rápido que respirava com dificuldade. Ao mesmo tempo, olhava para as outras camas como se esperasse ver alguém deitado em uma delas, escutando tudo o que acabara de dizer. Mukuro a observava como se ela tivesse ficado louca, mas o tipo de louca que a divertia.
- Nós estamos sozinhas – respondeu. – E o seu amigo Shuuichi não está morto. Ele voltou para o próprio dormitório, já que não perdeu os sentidos como você. Pode se considerar uma garota de muita sorte – ela sorriu de lado. – Quanto ao resto, não entendi uma palavra. Aparentemente o desespero deixa você incoerente.
- Ah...
Shuuichi estava no dormitório, que alívio; Botan conseguiu esboçar um sorriso fraco. Pelo menos ele não tinha descoberto seu segredo antes que ela contasse pessoalmente. A não ser...
- Ele não sabe de nada – disse Mukuro, lendo sua expressão. – Fui eu quem teve que fazer massagem cardíaca em você. Seu primo estava muito ocupado tentando matar Hiei, e Kuwabara estava fazendo um escândalo para não deixar o garoto ruivo chegar muito perto, o que foi bem complicado; ele parecia realmente preocupado.
- Ele é muito atencioso – disse a prima de Yusuke, aliviada.
As duas ficaram em silêncio um minuto. Botan sonhando acordada com um Shuuichi desesperado, tentando afastar Kuwabara a força para chegar até ela. Voltou à realidade – uma realidade nada agradável – quando a professora pigarreou.
- Voltando ao interrogatório... Nome e atividades recentes, por favor.
- Bo... – a garota estremeceu. Pela sua expressão, alguém imaginaria que Mukuro tinha acabado de lhe mostrar um catálogo com as últimas novidades em aparelhos de tortura. – Botan...
A professora fez um gesto com a mão para que ela continuasse.
- Tanaka...?
- Botan Tanaka – a mulher repetiu, parecendo satisfeita por conseguir pelo menos esse pedaço de informação. – Já disse para relaxar. Não precisa agir como se eu fosse quebrar os seus dedos. Só quero saber no que estou me metendo aqui. O que diabos a possuiu para se meter em um colégio masculino desse jeito? Você nem parece tanto assim um garoto. Bom, tirando alguns membros de boy bands depois de uma série de cirurgias reconstrutivas... Enfim, qual é a história?
Ela fez a pergunta com tanta autoridade que Botan não conseguiu segurar a língua. Uma vez que começou a falar, só terminou depois de contar todos os detalhes de sua estadia no colégio, incluindo a ajuda de Yusuke e Kuwabara, o aperto com Genkai e a mãe de Touya, e sua amizade com Shuuichi. Não mencionou seus sentimentos sobre o garoto, mas achou que não precisava. Mukuro parecia saber exatamente o que ela estava pensando. Quando terminou, abaixou a cabeça, esperando o mundo começar a desabar com as palavras "vou chamar a diretora imediatamente". Para sua surpresa, porém, a treinadora de kendo começou a rir.
- Sua irmã deve ser uma pessoa bem assustadora para que você preferisse vir para cá ao invés de interromper a viagem dela.
- Assustadora... – Botan não tinha se permitido pensar até agora na reação da irmã quando recebesse um telefonema bastante interessante de Genkai. – O eufemismo do ano em se tratando de Ayame.
- Eu fiz muitas loucuras nos meus dias de juventude – disse Mukuro – mas nada tão idiota quanto isso. Você sabia que seria descoberta cedo ou tarde, certo? Nem que fosse pelo tal de Shuuichi. Nem consigo entender como ele pode ser o seu melhor amigo aqui dentro e sequer ter desconfiado quando todos os outros... – ela riu novamente. – Isso quase faz a minha volta à escola valer a pena.
- Sua volta...?
- Longa história – a professora a interrompeu. – Só o que resta é decidir o que eu devo fazer com você.
Botan abaixou a cabeça novamente.
- Eu entendo. Vou me trocar e nós faremos a caminhada da vergonha até a diretoria. Todos me verão sendo expulsa, que horror. Pelo menos vão pensar que foi o Touya. Não que eu vá viver muito depois que sair daqui – tia Kokou ia mata-la. E depois correria até Kyoto para matar o verdadeiro Touya.
- Ah, não vai ter caminhada da vergonha, não precisa fazer esse drama todo.
- E se elas me deixarem viver – a garota continuou, se referindo à tia e à irmã, mal escutando as palavras da outra – vou ser exilada em um desses internatos de freiras onde fazem a gente confessar os pecados todos os domingos. Eu nunca vou conseguir completar essa penitênc... o que? – olhou para Mukuro com o rosto cheio de esperança. Será que ouvira bem ou tinha delirado por causa do pânico?
- Eu disse que não vou reporta-la – a professora fez um gesto com a mão, como se estivesse falando de algo sem importância.
- Mas por quê? Você é uma professora, tem que me denunciar para Genkai!
Rapidamente cobriu a boca com as mãos, sem saber o que podia tê-la possuído para se complicar daquele jeito. Para sua surpresa, a treinadora de kendo, mais uma vez, apenas riu.
- Eu não tenho que dizer nada a Genkai. Aquela velha está se divertindo enquanto assiste seus subordinados se matando pela vaga que ficará aberta quando ela se aposentar – explicou, tranquilamente. – Você sabia que sou a única professora do sexo feminino nesse colégio? E apenas porque eles não encontraram um homem que pudesse me derrotar – ela disse isso com orgulho. – Acho uma grande idiotice essa escola não aceitar garotas. Como se nós não pudéssemos nos meter em problemas tanto quanto os estúpidos homens.
Botan não tinha certeza se aquilo era algo positivo, mas balançou a cabeça energicamente. Concordaria com qualquer coisa que Mukuro dissesse, desde que não a denunciasse.
- Seu primo trouxe algumas roupas secas – disse Mukuro, apontando para uma cadeira parcialmente escondida pela cama ao lado. Pela primeira vez a prima de Yusuke percebeu as peças dobradas com esmero. Era o uniforme sobressalente de Touya. Sobre o mesmo, ainda úmido, estava o precioso boné do Arquivo X.
- Tem... tem certeza de que vai me deixar ficar? – a garota perguntou timidamente, sem querer abusar da sorte.
Mukuro deu de ombros.
- Não é como se você fosse durar muito tempo mesmo.
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No quarto que dividia com Hiei e Kaitou, Shuuichi estava espalhado na cama, contemplando um problema diferente.
- Acho que bati a cabeça realmente forte – ele disse, encarando o teto, concentrado nas manchas de umidade, cuja existência nunca tinha percebido até agora. Uma delas se espalhava até a parede e parecia a imagem de uma garota com cabelos esvoaçantes. E por falar em garota...
- Tem certeza de que não precisa de um médico? – perguntou Kuwabara, preocupado.
- Ele está bem – disse Hiei, de mal humor. – Você quem devia ver um. Talvez ainda haja jeito para essa sua cara.
- Ora, seu...
Kuwabara o agarrou pela camisa e cerrou o punho, tentado a finalmente dar a boa surra que o baixinho há anos estava merecendo, mas acabou desistindo ao imaginar o que Yukina diria a respeito. Ela era doce e bondosa demais para ficar furiosa, mas lidar com sua expressão decepcionada seria ainda pior.
Hiei, por sua vez, mal pareceu notar que quase fora espancado. Continuou encarando Kurama na cama, nem um pouco feliz com a forma como as coisas tinham se desenrolado. Agora mesmo aquela garota escorregadia estava na enfermaria com Mukuro; o fato da professora de kendo não ter dado o alarme assim que notou algo estranho no peito do garoto enquanto lhe aplicava uma massagem cardíaca indicava que ela talvez não o fizesse nunca. Mas não era isso que gostava tanto em Mukuro? Seu espírito rebelde que muitas vezes se manifestava em um completo desrespeito pelas regras?
Sentado na cama de Kaitou, Yusuke apertava os lençóis até que os dedos ficassem brancos. Parecia apavorado. Hiei pensou se não seria melhor evita-lo por um tempo. Quando o garoto descobrisse que nem ele nem a prima seriam expulsos, sairia do estado de choque e provavelmente concentraria toda a energia dele em transformar sua vida em um inferno. Não que pudesse culpa-lo. Ele mesmo era o responsável por não ter calculado melhor as coisas. Por outro lado, queria mesmo que Botan fosse descoberta? Não seria mais divertido tortura-la e ao primo enquanto pudesse, com a possibilidade de denuncia-los?
- Ei, Shuuichi... – Kuwabara tentou outra vez.
- Hiei tem razão, eu estou bem – disse o ruivo. – Só acho que bati a cabeça tão forte que acabei delirando.
Os três garotos o fitaram, em especial Yusuke, que tinha ido até ali para descobrir se o ruivo tinha percebido alguma coisa durante a queda. Tudo tinha acontecido tão rápido. Um segundo ele estava observando a prima flertar descaradamente com o ruivo – aquela garota impossível. Ainda bem que Kurama estava se mostrando o maior tapado do planeta, nunca parecendo perceber nada de estranho no "amigo" – no próximo, os dois eram atingidos por uma coisa supersônica minúscula e suas cabeças estavam se chocando, fazendo-os perder o equilíbrio e cair direto na piscina.
Kuwabara tinha sido rápido em resgatar Shuuichi e ele teria feito o mesmo por Botan se a inoportuna professora de kendo não tivesse sido mais rápida. Ele fizera menção de se aproximar e impedi-la de fazer os primeiros socorros na prima, mas a quem estava tentando enganar? Botan morreria afogada se dependesse de suas habilidades nesse departamento. Sabendo o que aconteceria no momento em que Mukuro apalpasse o coração da garota, e sem ter nada que pudesse fazer para impedir, concentrara seus esforços em tentar estrangular o baixinho.
Agora mesmo não tinha certeza do que tinha acontecido depois. Só sabia que a professora tinha levado Botan para a enfermaria e coisas terríveis podiam estar acontecendo lá dentro enquanto ele ficava ali, impotente, tentando salvar uma situação já completamente perdida. Meio que esperava que Genkai aparecesse na porta a qualquer momento, intimando-o a ir à sala dela ajudar com as explicações. Cada segundo de incerteza era uma tortura.
- Ele não tem febre – disse Kuwabara, ainda rodeando Shuuichi, checando seu estado de saúde como se temesse que ele fosse ter um ataque a qualquer momento. – Será que a pancada foi assim tão forte? A Bo... Touya quem desmaiou. Não era ele quem deveria estar vendo coisas?
Isso fez com que o ruivo se levantasse, sentando na cama com o cenho franzido.
- Eu devia ir ver o Touya na enfermaria.
Yusuke apressou-se em correr e empurra-lo de volta na cama.
- De jeito nenhum! Touya nunca vai se perdoar se você não descansar o suficiente. Ele é todo sensível, você sabe. E Mukuro vai tomar conta dele. A essa hora, aposto que ele até já voltou para o dormitório. – Olhou para Kuwabara: – Por que você não vai lá ver?
O garoto olhou em volta confuso, depois apontou para si mesmo.
- Sim, você – insistiu Yusuke, impacientemente. – Cheque o quarto todo, inclusive embaixo das camas e dentro dos armários – sorriu do seu jeito mais cara de pau para Shuuichi. – Touya adora lugares escuros quando está com dor de cabeça, e ele deve estar com a mãe de todas elas depois daquele encontrão que vocês deram.
Lançou a Kuwabara um olhar urgente que finalmente fez o outro se mexer e assentir, correndo para fora do quarto. Esperava que ele tivesse entendido que devia enrolar bastante antes de voltar. Assim poderia continuar mantendo o ruivo deitado, com a promessa de que teria notícias de Touya logo.
- Eu tive um sonho estranho – disse Shuuichi, sem tentar levantar-se novamente.
- Qu-Que tipo de sonho? – perguntou Yusuke.
Shuuichi balançou a cabeça e cobriu os olhos com o braço. Não queria falar sobre aquilo em voz alta. Tinha a impressão de que soaria ainda mais estúpido do que parecia dentro de sua cabeça. O que se lembrava do incidente na piscina era de Hiei vindo na direção de Touya, rápido demais para que pudesse impedi-lo. Depois disso houve apenas dor quando as cabeças dos dois se chocaram, e ele achava ter tentado segurar o amigo enquanto ambos afundavam. No seu sonho, porém, não era seu amigo Touya quem ele abraçava, tentando impedir que se afogasse, mas a garota misteriosa do corredor. Por alguma razão que não compreendia – ou que sua mente recusava-se a decifrar – isso lhe trazia lembranças da noite em que visitara o amigo doente, e vira seu rosto na semiescuridão do quarto. Ele parecia diferente. Como a silhueta de outra pessoa.
- Esqueça isso – disse em voz alta. – Já disse que foi só um sonho – murmurou qualquer coisa sobre ter dito a mãe que ficar trancado em um internato não lhe faria bem.
O outro garoto não tentou responder. Apenas ficou parado, esperando que alguma coisa do que o ruivo dissesse começasse a fazer sentido. Para seu alívio, não demorou muito para que a respiração de Shuuichi se tornasse regular e ele mergulhasse em um sono profundo.
- Yusuke... – Kuwabara estava na porta do quarto, acenando para que o primo de Botan o acompanhasse. – Touya já voltou da enfermaria. Acho melhor você falar com ele... de preferência agora mesmo.
Engolindo em seco, Yusuke assentiu e o acompanhou, ignorando completamente a presença de Hiei ao passar por ele. A hora do baixinho chegaria, ele só teria que ser paciente.
Hiei os assistiu desaparecer pela porta e suspirou. Estava curioso para saber o que acontecera a Botan, mas não ousaria segui-los naquele momento. Sorriu de lado ao pensar que talvez pudesse usar a situação como desculpa para fazer uma visita a Mukuro fora do horário de aulas mais tarde. O sorriso desapareceu em seguida, quando a possibilidade de que a professora não estivesse feliz com o que ele fizera se intrometeu em seus planos.
Sentou-se na cama e pegou uma revista na gaveta da mesinha de cabeceira. Teria que se conformar em não chamar atenção para si mesmo por algum tempo, pelo menos até ter certeza que a prima de Yusuke continuava viva e cheia de saúde. Olhou para Shuuichi, dormindo na própria cama, e balançou a cabeça.
- Quando se trata daquela garota, você vira mesmo um completo idiota.
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Yusuke abriu a porta do quarto com tanta força que a maçaneta bateu na parede, tirando uma lasca da pintura. Kuwabara estremeceu, imaginando a bronca que levariam de Tiyu quando ele visse o estrago, mas achou melhor não dizer nada. O outro garoto parecia pronto para matar alguém e, embora tivesse certeza de que podia enfrenta-lo por igual em uma luta, agora mesmo preferia evitar um confronto. Tinha sido um dia longo.
Sentada na cama, Botan nem mesmo piscou com o barulho. Acenou distraidamente na direção deles e voltou a encarar o nada com a testa franzida.
- Vai ficar enrugada se continuar fazendo essa cara – disse Yusuke, cruzando os braços. Parecia aliviado agora que vira a prima pessoalmente. – Pode ir desembuchando.
A garota não se mexeu. O primo começou a andar na direção dela nem um pouco satisfeito com a falta de reação, mas Kuwabara o puxou pelo braço.
- O que você vai fazer?
- Interroga-la, o que você acha? – respondeu Yusuke, tentando se soltar.
- Acho que ela não é um terrorista procurado internacionalmente e que você não faz a menor ideia de como conversar com uma dama!
O primo de Botan revirou os olhos.
- Eu preciso saber o quão ferrado estou, e se preciso arrumar uma muda de roupa e sair correndo para o aeroporto mais próximo!
- Não diga besteira, Yusuke – interrompeu Botan, ainda com aquela olhar distante. Virou a cabeça na direção deles. – O que aconteceu com o Shuuichi?
- Claro – o primo dela grunhiu. – Eu aqui correndo o risco de ser condenado por um crime que é unicamente culpa sua e daquele seu primo demente, e você pergunta pelo ruivo. Que tal começar...
- Ele é seu primo também! – a garota balançou a cabeça, saindo do torpor em que se encontrava. – E eu quero saber do Shuuichi primeiro, ou você vai ter que ir até a sala dos professores e perguntar o que aconteceu a professora Mukuro pessoalmente!
O garoto apertou os lábios, cerrou os punhos, e começou a dar pulos e socos no ar, descontando a irritação em um oponente imaginário. Foi Kuwabara quem respondeu:
- Shuuichi está ótimo, só estava meio esquisito.
- Esquisito? Esquisito como?
- Falando que estava tendo delírios. Mas é compreensível. Vocês quase se afogaram. Naquele momento devem ter visto a vida inteira passar diante dos seus olhos.
- Claro... – disse Botan. Mas não ficou convencida. – Ele não se machucou mesmo?
- Acho que ele vai ficar com um galo na cabeça no mesmo lugar que o seu – Kuwabara apontou para o inchaço na testa dela.
- Satisfeita? – perguntou Yusuke, ainda irritado. – Vocês têm galos combinando. Galos de casal, se você quiser ver assim. Eu não estou nem ai; quero saber é o que foi que aquela professora maluca de kendo te disse. Sim, porque ela deve ser completamente louca se você está aqui ao invés de na sala de Genkai, implorando por misericórdia. – Ele pensou em outra possibilidade e olhou, preocupado, para o guarda-roupa. – A não ser que você tenha voltado aqui para fazer as malas. Não foi...
- Ela não vai dizer nada – Botan o interrompeu, acenando com a mão. – Pelo menos ela disse que não ia. Algo sobre estar irritada com Genkai porque a diretora está dificultando para escolher um sucessor. Acho que ela também ficou impressionada com a minha falta de noção. Sim, porque estou começando a perceber que só isso explica eu ter topado vir para cá ao invés de deixar Touya inconsciente e ligar para Ayame implorando por ajuda.
- Não seja ridícula – disse Yusuke, finalmente mais calmo. Deitou na cama dele, sobre roupas sujas e papeis amassados, ignorando a bagunça completamente. – Eu consigo me ver entrando escondido em um colégio feminino se fosse para fugir da louca da sua irmã.
- Ei...
Kuwabara riu.
- Yusuke ia ficar lindo de uniforme de marinheiro em um colégio para garotas.
O primo de Botan atirou uma revista na direção do colega de quarto, mas a mesma passou longe do alvo.
Os três ficaram em silêncio por algum tempo, cada um contemplando os próprios problemas. Livre da preocupação principal, ao menos por hora, Yusuke planejava uma vingança longa e dolorosa contra Hiei; Kuwabara imaginava se ele também seria responsabilizado caso o falso Touya fosse descoberto, e o que Yukina diria se descobrisse que ele dividira o quarto com uma garota; Botan pensava que estava muito cansada, apesar de não estar ali há tanto tempo assim. Amaldiçoou Hiei mentalmente por interrompê-la justo quando estava confessando seu segredo a Shuuichi. Se ele soubesse, e a aceitasse como Botan ao invés de Touya, sua estadia no colégio ficaria tão mais suportável. Mas aquela era uma grande interrogação: ele a aceitaria? Talvez ficasse louco da vida quando compreendesse quem era a garota misteriosa do corredor. Não conseguia imaginar o ruivo gritando com ela ou fazendo uma cena, mas se ele passasse a ignora-la ou trata-la com frieza, não seria ainda pior?
- O que acontece agora? – perguntou Botan, sem se dirigir especialmente a nenhum dos dois garotos.
- Nós matamos Hiei? – sugeriu Yusuke.
- Você aprende a tocar guitarra? – perguntou, esperançoso, Kuwabara.
- Acho que vou ficar com a sugestão do Yusuke – disse a garota.
Fechou os olhos, fantasiando formas de se vingar do baixinho, deixando que isso a distraísse dos pensamentos perturbadores de qual seria a reação de Shuuichi quando descobrisse seu segredo.
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Enquanto os cinco garotos jaziam em seus quartos, recuperando as forças depois de mais um incidente envolvendo Touya, e planejando o que fazer em seguida, uma sexta personagem, até então praticamente ignorada por todos eles, caminhava pelo corredor tentando parecer impassível, enquanto por dentro todos os seus órgãos palpitavam de fúria.
Yuu Kaitou não fazia o tipo sociável. Não tinha amigos no colégio, apenas um bando de bajuladores que o procuravam exaustivamente, em especial na época dos exames, desesperados por ajuda com assuntos acadêmicos. Apesar da fachada de que não se importava com o que acontecia a sua volta, Kaitou valorizava até demais a posição que conquistara de melhor aluno do colégio. Ao contrário da maioria dos outros estudantes que estavam ali, não tinha sido enviado ao colégio Meiouh porque causara algum tipo de problema. Seus pais eram empresários ricos, ocupados demais com trabalho, viagens e festas para ter tempo de lidar com um filho adolescente. Era um dos alunos mais antigos e o fato da instituição ser tão fechada, a ponto de muitos reclamarem que mais parecia uma prisão, não o incomodava nem um pouco.
Não sentia falta da família, nem mesmo da liberdade no mundo lá fora. Tudo o que importava em sua vida era que o programa acadêmico do colégio era excelente e que tivera, desde o começo, a satisfação de ver seu nome sempre no topo do quadro de notas. Saber que era o aluno mais inteligente e ser tratado com respeito por causa disso lhe oferecia um prazer que não encontrava em nenhuma outra atividade. Era também a única coisa pela qual os pais ausentes costumavam lhe dirigir uma palavra de elogio – não que ele fizesse alguma questão de agrada-los. Agora, porém, graças aquele maldito garoto ruivo que sequer se dava ao trabalho de prestar atenção nas aulas, sua posição estava ameaçada.
Como todas as semanas, se voluntariara a para ajudar Yomi a organizar o material para a próxima aula no laboratório de química. Não era algo que normalmente fazia com prazer, mas, naquele dia em especial, contava com a oportunidade de dar uma espiada na pasta em que o professor guardava suas anotações e resultados de avaliações. Era cedo demais para as notas propriamente ditas, mas o professor de química gostava de avaliar os alunos continuamente, e provavelmente já começara a distribuir pontos.
Sua chance apareceu quando Yomi saiu para buscar um café. Não teve nenhum escrúpulo de correr até a mesa do professor e espalhar os documentos, com o cuidado de deixa-los na ordem correta, até encontrar a pasta em questão. Qual foi sua surpresa ao constatar que sim, pontos tinham sido realmente distribuídos, mas que, pela primeira vez em sua história, seu nome não estava no topo da lista? Shuuichi Minamino tinha ficado dois décimos a sua frente. Dois míseros décimos, mas uma miséria que lhe garantia o primeiro lugar.
Conseguira disfarçar sua agitação diante do professor, mas, agora que estava livre da tarefa, não conseguia parar de andar de um lado para o outro, pensando no impacto que o teste de Yomi, ainda não corrigido, teria em sua posição no colégio se Shuuichi Minamino conseguisse uma nota maior que a dele. Levando em conta o alto desempenho do ruivo durante as aulas de laboratório, e com um mínimo de esforço, não era loucura esperar que se saísse muito bem nos outros testes. Aquilo podia significar que ele era bom em química especificamente, mas Kaitou tinha a sensação desagradável de que não era o caso. O novo aluno era uma ameaça que ele precisava levar a sério.
O que poderia fazer sobre o problema? Nunca passara por nada parecido antes. Tinha convicção de que não tinha a menor condição de se dedicar aos estudos mais do que já fazia, a não ser que os dias começassem a ter vinte e cinco horas. Se pudesse distrair Shuuichi, fazer com que não se saísse tão bem nos testes. Mas o maldito ruivo nem parecia precisar estudar.
Irritado como estava, ficaria feliz em simplesmente se vingar do garoto. Devolver um pouco do desconforto ao qual ele tinha, ainda que sem saber, lhe submetido. Mas como poderia fazer isso? Com exceção da detenção no primeiro dia, que nem tinha sido culpa dele, Minamino nunca fazia nada de errado.
A não ser...
Lembrou-se daquela noite em que Shuuichi entrara no quarto com o rosto vermelho e uma expressão de quem tinha acabado de cometer um delito. Hiei tinha sorrido ao vê-lo, do jeito que fazia quando queria que todos soubessem que não podiam esconder nada dele, mas fora ignorado. O baixote, então, ligou o rádio em uma estação de rock insuportável, só para ser irritante. O ruivo não pareceu se incomodar, mas ele sim. Não conseguia ouvir os próprios pensamentos com aquele som infernal tocando. Sabendo que discutir só piorava as coisas, resolvera dar um tempo fora do quarto. Se não houvesse ninguém para perturbar, Hiei desistiria e acabaria dormindo. Parou naquela janela, no final do corredor dos dormitórios, que tinha uma vista perfeita da lua cheia essa época do ano. Era lá que estava, aproveitando o ar noturno, quando aquela pessoa saiu do quartinho onde ficavam as amostras e demais materiais descartados das aulas de biologia. Os alunos costumavam usa-lo como uma espécie de laboratório particular quando precisavam de um lugar privado para estudar ou conduzir experiências. Tinha assistido a figura desconhecida com bastante interesse durante todo o caminho até o quarto que Kuwabara e Yusuke, dois dos estudantes mais estúpidos que já tinha conhecido, dividiam com o nervoso e pouco memorável Touya. Estava escuro, então não tinha como ter absoluta certeza, mas ele estava perto o bastante, e aquela pessoa, achando estar sozinha, não tinha feito nenhum esforço para se esconder. Tinha confiança o suficiente na própria percepção para achar que o que tinha visto era, na verdade... uma garota.
Sua conclusão inicial foi que Shuuichi Minamino tinha saído do quarto no meio da noite para um encontro secreto com uma garota misteriosa no laboratório improvisado. Parente de algum dos professores residentes? Não seria impossível. Eles tinham permissão para receber familiares que frequentemente pernoitavam nas dependências do colégio. Os visitantes não tinham permissão para circular pelos principais prédios, em especial à noite, mas isso não queria dizer que seria difícil, caso alguém decidisse fazê-lo. A parte estranha, porém, era por que ela teria entrado no quarto de Kuwabara, Touya e Yusuke, quando achara que era seguro sair do esconderijo? Ele tinha esperado algum tempo e não a vira sair. Ele podia ter ido bater no quarto dos colegas e perguntado, mas seu interesse no assunto não era tão grande assim. Se Shuuichi não tivesse atravessado seu caminho, provavelmente nem se lembraria do ocorrido dali a algumas semanas.
Pensou na garota. Ela era magra, mais alta do que baixa, e tinha cabelos claros, não muito longos. Não tinha conseguido ver seu rosto, então não sabia se a reconheceria caso se encontrassem a luz do dia. Minamino estaria com um problema enorme se Genkai ficasse sabendo que ele tinha encontros românticos dentro do colégio no meio da noite. Não faria mais que sua obrigação como estudante modelo informando-a, caso tivesse alguma prova.
Com uma expressão de desagrado, Kaitou se decidiu: dali em diante ficaria de olho em Shuuichi Minamino. Mais cedo ou mais tarde, o ruivo o levaria às provas de que precisava. Se tivesse sorte, bem antes dos exames finais.
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A manhã seguinte encontrou Botan de volta à piscina do colégio. Era o último lugar em que alguém procuraria por ela, por isso, bem cedo, antes que Yusuke e Kuwabara tivessem a chance de acordar e impedi-la de sair do quarto desacompanhada, ela tinha vestido o uniforme rapidamente, colocado seu inseparável boné e saído direto para aquele lugar.
A piscina ficava em um ambiente fechado, com teto transparente, mas ainda estava escuro lá fora e as luzes estavam apagadas, deixando o lugar mergulhado na penumbra. Uma claridade fraca vinha da direção dos vestiários e Botan procurou uma cadeira de praia na área mais iluminada e se sentou, imediatamente fechando os olhos, tentando relaxar. A noite tinha sido longa, seu sono interrompido várias vezes pela sensação desagradável de estar encurralada. O número de pessoas que sabiam de seu segredo continuava crescendo e ela não estava gostando nada disso. Não sabia se podia realmente confiar em Mukuro. Convencera a si mesma de que Hiei não era um grande problema, que Yusuke lidaria facilmente com ele, apenas para que o baixinho a expusesse na primeira oportunidade. Por pior que fosse pensar desse jeito, tivera sorte de bater a cabeça tão forte contra a de Shuuichi. Graças a isso o garoto ficara atordoado demais para estar presente quando a professora de kendo descobria o que havia por baixo da camiseta do seu uniforme ao lhe aplicar a massagem cardíaca. Ao mero pensamento de que o amigo podia ter descoberto tudo daquele jeito tão... indigno, ela lamentava por não ter se afogado de verdade.
Mas o que fazer agora? Yusuke e Kuwabara não estavam levando suas preocupações muito a sério, sugerindo que ela apenas continuasse sendo Touya, frequentando as aulas e comparecendo aos ensaios da banda, cuja existência os dois concordavam que era inviável – quantas vezes teria que repetir que não sabia nem segurar uma guitarra? – mas continuavam agindo como se isso fosse apenas um detalhe. Garotos... Depois as mulheres eram malucas.
Talvez devesse entrar em contato com Touya em Kyoto. Era tarde para os dois trocarem de lugar, mas... Não, o que estava pensando? O primo obcecado por fama só ia manda-la segurar as pontas e dizer que estava ocupado demais com a banda para lidar com assuntos pouco importantes, como a cabeça dela quando Kokou e Ayame descobrissem sua pequena travessura. Porque era a cabeça dela que ia rolar. Yusuke, por mais que a tivesse ajudado, não participara do plano até ser tarde demais para recuar; quanto a Touya, quando a bomba explodisse era provável que ele apenas continuasse longe da cidade, pegando a estrada para qualquer lugar que concordasse em deixa-lo fazer barulho.
- Touya?
Botan deu um salto, por muito pouco não rolando da cadeira onde estava. Endireitou-se, com olhos apavorados, encarando a água que parecia próxima demais. Ao seu lado, como se materializado por seus pensamentos, Shuuichi estava de pé, olhando para ela.
- Que estranho nós nos encontrarmos aqui – ele disse. – Vim tentar entender algumas coisas que aconteceram ontem. Talvez você tenha vindo pelo mesmo motivo?
- Eu...
A garota se levantou, mas continuou olhando para o outro lado. Encontrar Shuuichi em ambientes escuros a deixava nervosa. Temia que ele reconhecesse sua silhueta daquele dia no corredor. Felizmente tinha tido a presença de espírito – ou a distração – de continuar com o boné.
- Tudo bem com você? – ela conseguiu perguntar. Fez um esforço enorme para soar como seu eu despreocupado de sempre, mas achou que sua voz saiu trêmula, dando a impressão de que escondia alguma coisa.
Será que vai ser sempre assim de agora em diante? Vou estar sempre preocupada com o meu segredo na frente de Shuuichi?
- Eu estou bem. Um pouco de dor de cabeça, mas só quando eu respiro – o ruivo sorriu, tentando quebrar a tensão que ele não tinha certeza como se formara. Ficou pensativo por um instante, então perguntou: – Você se lembra do que aconteceu ontem?
Botan balançou a cabeça afirmativamente.
- Sim – disse em voz alta, lembrando que não havia luz suficiente. – Pelo menos até cairmos na piscina. Depois disso acordei na enfermaria... A professora Mukuro tomou conta de mim.
- Ela parecia assustada... – comentou Shuuichi, soando distante. – Eu me lembro do Hiei se chocando contra mim, então eu caindo em cima de você. Seu boné... ele deve ter escorregado por um momento porque...
A garota engoliu em seco. Não se lembrava de ter perdido o boné, mas fazia sentido. Aquilo queria dizer que o amigo ruivo tinha tido oportunidade de dar uma boa olhada em sua aparência antes que ela caísse na água? O quanto ele sabia, ou achava que sabia? Memórias registradas depois de uma pancada na cabeça não contavam como confiáveis, disso ele devia saber.
- O-O que você está querendo dizer?
No dia anterior, quando o incidente aconteceu, ela estava tentando contar tudo a Shuuichi. Por que estava tão nervosa com a possibilidade dele descobrir se aquela era a ideia em primeiro lugar? Talvez devesse contar tudo a ele agora que estavam sozinhos. Se ao menos conseguisse encontrar as palavras certas para que ele não achasse que ela havia traído sua confiança desde o começo.
- É loucura – disse o garoto, ciente do seu tumulto– mas tem uma coisa que eu gostaria de fazer, só para ter certeza.
Ele ergueu a mão na direção dela, tocando a aba do boné do Arquivo X. Botan fechou os olhos, resignada. Talvez fosse para o melhor. Se ele a visse como uma garota com seus próprios olhos, ela poderia se concentrar em como se desculparia.
A mão de Shuuichi apertou o boné com mais resolução, e ela começou a sentir seus cabelos deslizando para fora da peça.
Se você leu até aqui, pode se considerar um sobrevivente, haha. Obrigada e até a próxima.
