Magia e desordem

Como esta é a ultima semana de férias deles todos, Sirius me trouxe para um último passeio, mas o primeiro a sós. Já que nessa semana também se encerra o campeonato de futebol e quarta é a final, então teremos de ajudar no pub, teremos, pois ele se ofereceu, já que parte na quinta, ou seja, quer ficar comigo.

Devo dizer que está bem frio, estou usando meu moletom de flanela, embora esteja de shorts e havaianas, mas Sirius parece estar muito confortável com sua regata preta, bermuda vermelha e chinelo. Nossos planos incluem um mergulho numa cachoeira, que de acordo com Lily é onde os adolescentes costumam vir quando querem privacidade com seus romances, para pegar mesmo, e um piquenique, onde toda comida foi fornecida pela senhora Evans. A cachoeira fica fora da estrada de terra terrivelmente esburacada pela qual viemos, depois de parar o carro debaixo de uma árvore tivemos que andar numa trilha rodeada por árvores e bastante íngreme, poucas flores selvagens colorem a paisagem. O céu está cinza, o que é o mais normal por aqui, e daqui a pouco vai começar a chover. Tenho certeza.

-Estamos chegando.- Diz Sirius gentilmente enquanto aperta minha mão, me encorajando a continuar. Resmungo em concordância, a natureza é linda, mas cheia de buracos, insetos e frio!

Ele estaca de repente e diz:

-Chegamos.

Empurra uma moita para o lado e me ajuda a entrar, um raio fugidio de Sol consegue escapar da muralha de nuvens, refletindo na queda d'água formando um pequeno arco-íris. Ele já tirou a regata e esta entrando na lagoa, não consigo desviar o olhar e devo estar ruborizando, sorrio sem conseguir me conter enquanto seu corpo desaparece por um segundo quando ele mergulha. Magia e desordem, é como o mundo se apresenta pra mim quando estou com ele, é tudo diferente e interessante. Inesperado. Bonito.

Sento-me em uma pedra, depois que constato que a água esta terrivelmente fria e desisto de entrar. Sirius emerge seus cabelos gotejando e meu coração dispara de novo, ele me deixa sem ar.

Sirius vem até mim e colocando suas mãos frias em volta dos meus tornozelos me puxa levemente em sua direção perguntando:

-Você não vai entrar?

-Está muito fria!

Minhas pernas já estão submersas e ele se posiciona entre elas, com um sorriso sedutor retruca:

-Eu esquentarei você.

Sinto-me mais quente só por ele sugerir isso, levanto e tiro a roupa lentamente, sentindo o vento frio me arrepiar. É bom que ele me esquente mesmo, não estou a fim de morrer de hipotermia.

Vou entrando lentamente, a água me rodeando, respiro fundo antes de mergulhar completamente. Volto à superfície tiritando.

-Sirius Black! Eu vou congelar! Você tem problemas?!

Ele nada até mim, me envolve num abraço e começa a me levar mais pra dentro da piscina natural.

-Nós vamos ficar aqui no fundo até você acostumar.

-Não quero!-Resmungo tremendo de frio.

Saio de seu abraço e tento ficar em pé, não consigo. É muito fundo. Agarro o pescoço dele instintivamente. Sinto pequenos beijinhos no meu pescoço e estremeço. Afasto-me um pouco para olhá-lo e ele sorri.

-Eu disse que ia te esquentar.

Ficamos nadando um tempão, até que fico realmente roxa de frio e temos que sair da água.

Deitados na relva, já secos e bem alimentados, porque, devo dizer, a senhora Evans fez uma cesta de piquenique que vou te contar. É tanta comida que dava para alimentar um batalhão. Fez delicioso biscoitos amanteigados, torta de frango e pão. Mandou geléia, mel e uma garrafa térmica de chocolate quente, na qual Sirius acrescentou uma dose generosa de conhaque, tanto que começo a me sentir levemente entorpecida.

O Sol resolveu fazer uma última aparição, o que me ajudou a voltar a ter sensibilidade nos dedos dos pés. Embora Sirius tê-los massageados também ajudou bastante e depois termos ficado nos beijando daquela maneira tenha sido bastante eficaz para me esquentar, muito mais do que qualquer outra coisa.

Numa cama feita de toalhas amontoadas, estou deitada, praticamente, em cima dele, estamos, por mais bobo que isso pareça, brincando de descobrir desenhos em nuvens, mas me sinto sonolenta por causa do conhaque e de estar me sentindo absolutamente segura nos braços dele.

-Len...

-Oi?-Respondo molemente, me aconchegando a ele com um sorriso de felicidade plena estampado no rosto.

-Len, eu preciso te contar uma coisa.- Sirius me abraça e estava quase mordendo seu pescoço de tão bem que ele cheira, mas percebo que ele está um tanto quanto tenso e ouço um alarme soar na minha cabeça.

-Espere. - O interrompo antes que ele possa dizer qualquer coisa. - Vai me deixar mais ou menos feliz do que me sinto agora?

-Menos.- Sua voz soa triste e meu coração pára. Não quero ouvir, não quero que ele diga que não virá me ver ou que não gosta de mim tanto assim. Prefiro que ele não apareça mais ou termine comigo depois do que acabar com esse sentimento bom que sinto agora. Então, apenas digo:

-Então não me conte. - Ele suspira e beija minha testa em concordância.


Depois dessa pequeno dialogo bastante estranho Sirius ficou taciturno. Quando pergunto se algo aconteceu ele diz que não e mudando de assunto, de forma bastante suspeita, começa a perguntar sobre minha família e minha vida em Londres, quantos namorados eu tive, um, e me conta de sua família. Desde os 16 anos ele só volta pra casa porque é obrigado, já que são seus pais quem pagam à faculdade. Me conta que passa mais tempo na casa de James do que o próprio James e considera a família de seus amigos muito mais do que a sua própria, diz que sua mãe é uma louca histérica com mania de grandeza e que seu pai tenta dominar tudo que ele faz, queria que ele fizesse administração de empresas, para assumir os negócios da família. Mas Sirius detesta e se negou, ele quer ser advogado em prol dos direitos humanos, muitos problemas vieram a partir disso. Conta também que seus pais idolatram seu irmão mais novo, Régulo, por ele sempre fazer o que os pais mandam e nunca se rebelar.

Quando estou para indagar sobre suas namoradas temos de sair correndo. O toró que ameaçava cair desde que chegamos subitamente despenca e nos pega em cheio, não preciso dizer que chegamos ensopados no carro.

Eu capotei e dormi o caminho de volta todo. Não tenho culpa de ele ter colocado Gregory Alan Isakov para tocar, é muito calmo e viagens de carro sempre me deixam sonolenta.

Ao chegarmos ele me acorda e estaciona no passeio de sua mansão, me ajuda a pegar as toalhas e a cesta de piquenique e me acompanha até a porta de casa. A senhora Evans acaba obrigando-o a ficar pra jantar e enche-o de perguntas, até que por fim diz:

-Bem, Siriuzinho, diga adeus pra sua namorada que já é tarde, amanhã acordamos cedo e eu tenho que olhar pela virtude dessas meninas. - Acrescenta com uma piscadela marota.

Não tem nenhum buraco pra eu me esconder por aqui? Não? Que vergonha viver!

Jogo o garfo no chão e me escondo em baixo da mesa por uns momentos, até sentir que meu rosto não está em chamas. Quando retorno a superfície a senhora Evans já está na cozinha guardando as sobras na geladeira cantarolando uma música do ABBA.

Sirius me ajuda a levantar pega minha mão e me leva com ele até a porta, ainda estou tentando me recompor do comentário altamente impertinente da senhora Evans quando o batente da porta se encontra com as minhas costas e os lábios do Sirius devoram os meus. Seu beijo tem gosto do musse de chocolate que comemos de sobremesa e do vinho tinto que a senhora Evans abriu.

-Eu te ligo amanhã. Ou melhor, venho aqui.- E com um último selinho ele vai embora me deixando completamente idiota.